Fisgado no Swissleaks, HSBC pode fechar portas no Brasil

Envolvido em escândalos, banco HSBC pode deixar o Brasil, diz jornal Financial Times

HSBC 

Envolvido em uma série de escândalos e diante de fracos resultados financeiros em vários países, o banco britânico HSBC considera vender a operação de varejo e uma parte do seu banco de investimento no Brasil como parte do seu novo plano estratégico, segundo a edição online do jornal Financial Times. O desinvestimento no Brasil, conforme a publicação, faz parte do plano do banco de sair de mercados emergentes em um esforço para ser “simples e menor”.

Essa estratégia está acelerada e inclui não só venda de ativos no Brasil, mas também na Turquia, conforme publicou o FT, citando fontes que pediram anonimato. A saída de mercado emergentes vai, de acordo com a publicação, de encontro com o direcionamento anterior, que durante anos foi seguido pelo HSBC, de ser um banco global com atuação local.

Considerado o maior banco europeu em valor de mercado e com presença em mais de 80 países, a instituição tem adotado uma postura mais defensiva após o envolvimento em uma série de escândalos e ter apresentado o lucro anual mais baixo dos últimos cinco anos.

A filial do HSBC na Suíça é personagem central de um escândalo tributário que está sendo investigado em vários países. A subsidiária teria colaborado com algumas dezenas de milhares de clientes para evitar o pagamento de impostos. No Brasil, o HSBC também está sendo investigado por suposta relação entre contas da filial suíça com o escândalo de corrupção na Petrobras.

O Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, entrou em contato com a área de comunicação do HSBC em Londres, mas nenhum porta-voz estava disponível para comentar o tema.

Em fevereiro, o HSBC anunciou que a filial brasileira registrou prejuízo de US$ 247 milhões em 2014. Esse foi o pior resultado entre todas as filiais latino-americanas. A direção do banco explicou que o prejuízo foi gerado pelo ambiente econômico desfavorável e a continuidade dos ajustes gerados pelo reposicionamento do banco no País.

Em meio ao fraco resultado no Brasil, a instituição financeira fez uma grande provisão de US$ 640 milhões durante o 4º trimestre na América Latina, sem detalhar em qual país. Vale lembrar, porém, que várias instituições financeiras fizeram provisão ante o risco de eventual problema em empréstimos corporativos, especialmente ligados ao setor de petróleo e gás e construção.

Sem a provisão, o conjunto das unidades da América Latina do HSBC teria tido lucro ao invés do prejuízo reportado. Na região, as filiais mais importantes são do Brasil, Argentina e México.

O HSBC detalha anualmente o resultado financeiro de 21 filiais. Entre todas as subsidiárias, Brasil e Turquia têm reportado prejuízos consecutivos no segmento de varejo. Na filial brasileira, as perdas acontecem desde 2013. Na Turquia, a o resultado não é positivo desde 2012. Junto, o varejo das duas unidades gerou perdas de US$ 549 milhões nos últimos anos à sede. Entre as demais filiais, não há persistência de prejuízos como nos dois países emergentes.

No ano passado, a unidade de varejo da França também teve perda de US$ 181 milhões. O resultado negativo, porém, parece um ponto fora da curva, já que a unidade francesa apresenta normalmente o segundo melhor resultado da Europa – atrás apenas da sede no Reino Unido.

No início do mês, a imprensa mexicana também publicou que o banco inglês estuda vender os ativos no país e no Brasil. Segundo o jornal El Financiero os bancos Scotiabank e Ve por Más estariam negociando a compra. Procurado, o HSBC disse que não comentaria especulações de mercado.

Dieese: banco tiveram ano de recordes em lucros no Brasil

Mesmo num ano de crise como foi 2014, os cinco maiores bancos brasileiros tiveram recordes de lucro, segundo estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). A informação é do portal UOL. As instituições ganharam com cobranças de taxas e serviços.

Segundo o levantamento, Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander tiveram lucro de R$ 60,3 bilhões, o que significa 18,5% a mais que em 2013. “A rentabilidade seguiu elevada nos grandes bancos, mantendo o setor financeiro entre os mais rentáveis da economia nacional e mundial”, aponta o estudo.

FONTE: http://www.brasilpost.com.br/2015/04/18/hsbc-pode-deixar-o-brasil_n_7092064.html?utm_hp_ref=tw

Perto do fim da escravidão, 60% dos negros trazidos ao país eram crianças

Caetano Manenti, do UOL, no Rio

 

Reprodução/Johann Rugendas

Ilustração de 1835 mostra o porão de um navio negreiro. Estima-se que mais de 660 mil africanos escravizados morreram no caminho entre a África e o Brasil

Ilustração de 1835 mostra o porão de um navio negreiro. Estima-se que mais de 660 mil africanos escravizados morreram no caminho entre a África e o Brasil

Brasil e Portugal estão no topo de um ranking que não traz nenhum motivo de orgulho: os dois países são os maiores protagonistas do site Slave Voyages (em inglês, viagens escravas), onde estão catalogadas 29 mil travessias transatlânticas, que carregaram 9 milhões de escravos. No total, barcos com bandeira de Portugal/ Brasil chegaram a transportar 5,8 milhões de escravos. Em segundo lugar no número de escravos comercializados para a América, está o Reino Unido, com 3,3 milhões de escravos, especialmente com destino à Jamaica.

A Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil) abre os trabalhos nesta segunda-feira (13) e já pediu ao Consulado dos EUA auxílio para trazer ao Brasil nos próximos meses os pesquisadores responsáveis pelo site.

Os números mostram que houve um forte aumento na quantidade de escravos jovens negociados nos últimos anos da escravidão no Brasil, justamente quando as leis abolicionistas se recrudesceram. Nos 200 anos anteriores a 1841, por exemplo, a proporção de crianças nos navios negreiros foi de 7,6%. Só nos últimos 15 anos deste período, o índice saltou para 59,5%. 

“No período ilegal do tráfico (a partir de 1831), era mais fácil para o traficante deslocar uma grande quantidade de escravos de uma região para outra se fossem crianças, já que havia entre elas menor resistência à escravidão”, explica o historiador Daniel da Silva, integrante do grupo –ligado à Universidade de Emory, em Atlanta (EUA)– que conduz o estudo desde a década de 1960.

O banco de dados possibilita novos registros de pesquisadores parceiros. A plataforma está dividida em duas: uma parte expõe os números dos documentos já obtidos; a outra faz projeções por meio de cálculos demográficos. 

A estimativa atual aponta que 45% dos escravos em direção à América vinham ao Brasil. Isso significa 5,5 milhões de negros trazidos à força para o país. Segundo os cálculos, 12% deles não desembarcaram aqui –estima-se que mais de 660 mil morreram antes do fim da viagem.

As principais rotas negreiras também são detalhadas no site. Os escravos comprados no Benin tinham o porto de Salvador como destino mais comum. Da Senegâmbia, saíam os escravos que trabalhariam no ciclo do algodão, no Maranhão. Era alto o índice de rebelião destes africanos –muitos deles, muçulmanos.

Somente no século 19 o porto do Rio de Janeiro torna-se o líder absoluto do continente em escravos desembarcados. A maioria expressiva veio de Luanda. O ano de 1829 foi o de comércio mais intenso no Brasil, com estimativa de 79 mil novos escravos. A remo e a vela, o bergatim tornou-se o tipo de embarcação que mais trouxe africanos ao país. O estudo ainda mostra o sadismo nos nomes de muitos desses barcos, como Caridade, Feliz Destino, Feliz Sociedade e Esperança.

Alguns documentos ajudam os brasileiros a supor como poderiam ser seus próprios nomes não fosse o batismo obrigatório por aqui. Em 1826, Bozo, Tozu, Boya e Dee saíram do Benin em direção a Salvador. Em 1832, Muamba, Malungo, Goma e Bungu deixaram Luanda rumo ao Rio. “O batismo cristão e a escravidão andam sempre juntos nesta história. Tinha que se batizar o escravo”, conta a historiadora Ivana Stolze, da Fundação Casa de Rui Barbosa. 

A fundação, em parceria com a PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica), está traduzindo o estudo para o português e deve colocá-lo no ar em outubro, quando lançar um site próprio sobre Memória da Escravidão e Abolição. “Além do público, a Casa também tem a missão de oferecer material para os professores e, assim, formar pesquisadores”, afirma Lúcia Maria Velloso, chefe do arquivo.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/13/perto-do-fim-da-escravidao-60-dos-negros-trazidos-ao-pais-eram-criancas.htm

Syriza e Podemos: mostra que ainda espaço para utopia no “realpolitik”

Tem algum tempo que cansei de ouvir as lamúrias pragmáticas e anti-utópicas que são disseminadas pelos militantes e simpatizantes do PT (ou neoPT como alguns gostam), É que se prestarmos um pouco de atenção nas lamúrias que são jogadas para explicar a guinada à direita do partido, o que veremos é a defesa dos limites de uma política real que deixaria Harry Fukuyama (aquele que previu o fim da história após o desmantelamento do Muro de Berlim) feliz demais. É que, por detrás as lamúrias pragmáticas, o que se tem é a decretação cínica do  fim das utopias e das possibilidades de algo mais do que gerir bem o Estado burguês no horizonte dos partidos que se proclamam de esquerda.

Como estava dentro do PT quando o Muro de Berlim virou poeira, lembro bem desse chorôrô. É que mal tinham acabado de voltar de um curso de formação política na Alemanha Oriental, Lula e Zé Dirceu tiveram que se defrontar com o fim do falso socialismo, e a abertura de chances reais de ser rediscutida a construção de uma nova sociedade. Ali enquanto os trotskistas como eu viam a abertura de uma chance real de construção do socialismo, os pais do neopetismo viram uma derrota histórica e desmoralizante.

De lá para cá, o que se viu foi a contínua concessão aos ditames do mercado por um lado e, de outro, a completa adesão aos piores elementos da política burguesa e nas suas formas mais abjetas dentro da forma atrasada de desenvolvimento do Estado burguês no Brasil. 

E em função disso, é que temos todo tipo de ataque aos que ousam dizer que o realismo do PT não serve ao interesse dos trabalhadores, camponeses e à juventude do Brasil.  Qualquer sinal de crítica é logo tachado de ultra-esquerdismo e por ai vai.

Agora, me parece que o PT está para se defrontar um novo Muro de Berlim, só que agora saído das eleições gerais na Espanha e na Grécia. É que nesses países devem emergir vitoriosos partidos políticos que lembram muito o PT no seu nascedouro, e com muitas das mesmas contradições que o partido então tinha. E o mais interessante é que o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha resultam de um cansaço extremo com a mesma lógica de “realpolitik” abraçada por forças tradicionais da esquerda espanhola e grega, e que foi a mesma à qual o PT abraçou no Brasil.

Alguns dos “teóricos” neopetistas vão querer dizer que Espanha e Grécia não possuem a mesma importância geopolítica do Brasil, e outros trololós, o que condena Syriza e Podemos à inexpressividade. Tudo besteira, já que posicionados na periferia imediata dos mercados centrais, Espanha e Grécia poderão causar sérios abalos na ordem geopolítica comandada pela aliança EUA-Alemanha, e que hoje mantem a Europa numa condição de quase Estado de sítio. 

O fato é que se as pesquisas eleitorais que hoje dão vitórias para Syriza e Podemos se confirmarem, e esses partidos não abandonarem suas bandeiras políticas como fez o PT, o que deveremos ter é um abalo sistêmico no sistema político europeu e, por extensão, mundial.

Dai será só esperar as explicações estapafúrdias que os neopetistas irão tentar dar. A ver!

Financial Times: corrupção no Brasil inclui PSDB

Liberdade de expressão só é boa em Cuba?

Depois do reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, há uma onda de artigos e outros tipos de materiais avaliando o efeito que esta medida trará na liberdade de expressão na ilha governada por um partido dito comunista. Como sou de uma linha ideológica que teve militantes mortos ou aprisionados pelo governo liderado por Fidel Castro, não compartilho da ilusão de que lá se vive uma democracia proletária. Aliás, desde que Fidel decidiu abraçar o modelo inventado por Josef Stálin não haveria porque esperar que a ação do Partido Comunista Cubano se assemelhasse aos primeiros anos de governo revolucionário do Partido Bolchevique na Rússia revolucionária.

Mas  por que tantos, inclusive alguns militantes supostamente de esquerda, se preocupam tanto com a liberdade de expressão em Cuba, se está mais do que demonstrado que esse fetiche da democracia burguesa tampouco existe nos chamados países do capitalismo central? Além disso, depois das revelações de Edward Snowden, e da ação do governo britânico contra o jornal The Guardian que as publicou, ficou mais do que claro o tamanho da liberdade que se tem para expressar desacordo contra os governos centrais dentro de seus próprios limites territoriais.

E no Brasil, esse fetiche só serve mesmo para alimentar as paranoias esquisitas das viúvas da ditadura militar de 1964 que creem fielmente que hoje vivemos uma ditadura bolivariana e demandam a volta dos militares ao poder. De resto, liberdade de expressão não é algo tangível ou sequer alcançável num país onde persistem diferenças abissais entre ricos e pobres até que se resolva esse fosso.

Enquanto essa situação perdurar liberdade de expressão continuará sendo algo que a mídia corporativa alardeia toda vez que quer constranger algum governante para depois exigir gordas verbas publicitárias em troca de um tratamento mais ameno. Basta ver o que vem acontecendo com os diferentes governos comandados pelo dupla PT-PMDB para ver como a mídia corporativa usa e abusa de sua liberdade de se expressar, sem que se preocupe em, por exemplo, pagar os tributos devidos ao fisco nacional.

Assim, quem quiser realmente se preocupar com a liberdade de expressão que gaste suas energias no Brasil, e deixemos os cubanos cuidarem da deles.

O genocídio da juventude negra é um exagero conceitual?

Por Da redação

O genocídio da juventude negra é um exagero conceitual?DJ Cortecertu*, na página Bocada Forte

Genocídio dos nossos. Exagero conceitual?

O genocídio da juventude negra é realizado de formas diferentes. A mais sangrenta e cruel está nas esquinas, becos, vielas, na geografia caótica das favelas, comunidades que têm seus barracos que desafiam a arquitetura dita formal. Foram 56 mil pessoas assassinadas em 2012, sendo 30 mil jovens entre 15 e 29 anos, destes 77% jovens negros.

Outra forma igualmente cruel, mas não tão sangrenta – pelo menos num primeiro momento – não tem pólvora, fardas, balas endereçadas, balas perdidas. Esta forma dilui os acontecimentos pela negação da realidade, pelo seu foco no fator econômico e de classe. Dizem que brancos e negros são iguais na pobreza, mesmo sabendo que os alvos pobres têm pele escura. Os jovens negros morrem, são assassinados.

Existe também a indústria tecnológica da distração, vídeos bizarros, gatinhos fofos, piadas, conversas e mais conversas instantâneas sobre as últimas febres, os últimos memes. Brancos compartilham diversão com negros, negros compartilham diversão com brancos, mantendo o discurso sobre a violência longe, mas a prática assassina não fica distante. Fica perto de quem? Os jovens negros morrem, são assassinados.

A violência é ruim para todos, por que só as mortes de jovens negros estão em evidência?

Esta pergunta é feita por brancos ditos conscientes, brancos assumidamente racistas, brancos indiferentes, entretanto, é reproduzida por uma grande parcela dos negros. A resposta pode confortar os brancos, mas, para os jovens negros, o que resta é “conforto” do “descanse em paz”.

O genocídio da juventude negra é um exagero conceitual? Não. Vamos viajar. Se liga no castelo que será montado nas linhas seguintes.

Digamos que o Estado, na impossibilidade de fazer recuar os índices de homicídios entre os de pele mais escura, resolvesse equalizar esse espectro de morte contratando milícias para executar jovens brancos. Nada pessoal, apenas uma questão de equilibrar as estatísticas e mostrar que essa ideia de genocídio da juventude negra é uma balela.

Dói, né? Que crueldade. Agora que fiz muitos sentirem o que sentimos na PELE (e me considerarem racista), espero que além de levar a sério nossa luta, entendam de verdade que toda vida tem valor.

Se sempre utilizam nossa cor, a cor negra, para impor a desigualdade e mostrar que somos inferiores, é por meio da afirmação de nossa cor e conhecimento da nossa história que reergueremos nosso orgulho, moldaremos nosso presente, mudaremos nosso futuro.

Racismo às avessas? Por favor, não sejam ignorantes.

*Editor do Bocada Forte. Também é DJ, bibliotecário, produtor musical e colunista do jornal Brasil de Fato.

FONTE: http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/o-genocidio-da-juventude-negra-e-um-exagero-conceitual/

Desfazendo mitos

Por Paulo Passarinho*

 

 Recentemente, setores que apoiam o atual governo divulgaram um manifesto onde, com toda razão, se posicionam contrariados com algumas das iniciativas da presidente reeleita. Particularmente, registraram seu descontentamento com a já confirmada nomeação de Joaquim Levy, como futuro ministro da Fazenda, e a possível ida de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Para os signatários deste manifesto, durante a última campanha presidencial teria ficado claro que eram dois os projetos em disputa e essas escolhas de Dilma representariam uma vitória, na prática, do projeto que foi derrotado.

Esta ideia da existência de dois projetos em disputa é totalmente questionável e realimenta ilusões sobre o verdadeiro caráter do modelo econômico em curso no Brasil, desde os anos 1990. Mais grave: fortalece a mitificação, promovida pelo lulismo, de um suposto neodesenvolvimentismo, com base, ao menos, em dois graves equívocos.

O primeiro equívoco relaciona-se ao fato – muito palpável – de os resultados apresentados pelos governos pós-2002 terem sido muito diferentes do período em que FHC esteve na presidência da República. A ampliação dos programas de transferência de renda, a ampliação da oferta de empregos, a recuperação do poder de compra do salário mínimo e a expansão do crédito são exemplos de efeitos obtidos ao longo dos anos em que o PT se encontra à frente do governo federal, e que se distinguem como diferenças importantes em relação à era tucana. Contudo, o fato de os efeitos terem sido diferenciados entre esses dois períodos de governo não significa, necessariamente, que tenhamos modelos econômicos ou projetos diferenciados.

 O segundo equívoco, mais grave, é de natureza conceitual e procura amparar essa avaliação – sobre alguns efeitos diferenciados entre esses dois períodos de governo – como uma clara evidência da constituição de um novo modelo econômico em curso no país. Esse equívoco vincula-se às visões que defendem que, especialmente a partir do final do primeiro mandato de Lula, assumimos um projeto neodesenvolvimentista, com taxas médias de crescimento da economia superiores ao período de FHC, melhor distribuição de renda e uma política externa “independente”.

 O fato de o Brasil ter experimentado uma taxa média de crescimento anual durante os dois mandatos de Lula (4%) superior aos oito anos de governo FHC (2,3%) não é, evidentemente, condição suficiente para a constatação de um novo projeto econômico em curso, mesmo se levarmos em conta uma suposta melhor distribuição de renda no país. O próprio desempenho da economia nesses primeiros quatro anos do governo Dilma mostra, muito bem, que até mesmo sob a ótica do “crescimentismo” vamos muito mal.

 No livro Desenvolvimento às Avessas – Verdade, má fé e ilusão no atual modelo brasileiro de desenvolvimento, Reinaldo Gonçalves, professor titular de Economia Internacional da UFRJ, resgata a historiografia econômica e destaca que as raízes do pensamento nacional-desenvolvimentista estão nas ideologias e políticas de desenvolvimento econômico da Grã-Bretanha, nos séculos XVI e XVII; da França, no século XVII; dos Estados Unidos, no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX; da Alemanha, no século XIX; e do Japão, do final do século XIX e início do século XX.

 Este desenvolvimentismo – genuíno ou original – objetivava a formação de uma sólida base produtiva de capital nacional, baseada no trinômio industrialização substitutiva de importações/intervencionismo estatal/nacionalismo.

 Essas experiências desenvolvimentistas se diferem, por sua vez, do chamado nacional-desenvolvimentismo brasileiro, ou latino-americano, baseado nas formulações da escola cepalina. Reinaldo Gonçalves qualifica a nossa experiência desenvolvimentista, entre os anos de 1930 e 1979, como uma “cópia infiel” do nacional-desenvolvimentismo, ainda que ela tenha sido capaz de promover significativas mudanças estruturais, particularmente com a formação de uma economia industrial moderna. Contudo, tal processo de industrialização foi viabilizado com uma forte presença do capital estrangeiro, traço fundamental para o entendimento das limitações desse modelo e sua incapacidade de nos permitir um caminho sustentado para a superação do subdesenvolvimento e da dependência econômica que nos caracteriza.

 Lembro essas considerações, pois as mudanças constitucionais, as privatizações, os fundamentos macroeconômicos e as reformas institucionais e administrativas introduzidas no Brasil ao longo dos anos 1990 – nos governos de Collor, Itamar e FHC – foram mantidos e aprofundados nos últimos doze anos. Mudanças que ampliam a desnacionalização do parque produtivo brasileiro, aprofundam nossa regressão industrial, além de submeter e fragilizar o Estado brasileiro às pressões do chamado mercado. Características, portanto, absolutamente distintas de qualquer coisa próxima ao que podemos entender como desenvolvimentismo, original ou plagiado.

 Isso não significa que não tenhamos tido mudanças produzidas por necessidades conjunturais, como foi o caso da utilização dos bancos públicos, para a garantia da manutenção do mercado de crédito, na crise que se abriu a partir de 2008. Porém, esse tipo de heterodoxia – sob a ótica liberal – vem sendo aplicada até mesmo na Meca do pensamento ortodoxo, os Estados Unidos, com as suas fabulosas injeções monetárias anticíclicas, diretas aos bancos e instituições financeiras privadas.

 A apologia, portanto, da existência de um suposto neodesenvolvimentismo no Brasil atual é apenas mais uma construção ideológica que confunde, deseduca e desarma os setores progressistas da sociedade, contra a reforçada hegemonia dos bancos e multinacionais, os maiores defensores e beneficiários deste modelo.

* Paulo Passarinho é economista

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10327:submanchete121214&catid=58:paulo-passarinho&Itemid=124

Um terço dos suicídios no mundo é por ingestão de agrotóxicos, diz OMS

Fernando Frazão/Agência Brasil

Facilidade na compra e desrespeito dos tratados internacionais estão entre os principais responsáveis pelo alto número de suicídios no campo

Por Bruno Pavan, Da Redação

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório de prevenção ao suicídio que apontou que, em 2012, mais de 800 mil pessoas cometeram suicídio no mundo, o que significa que uma pessoa se mata a cada 40 segundos.

Publicado em setembro, o documento chamou a atenção para o fato de que um terço dos suicídios no mundo é cometido por conta da ingestão de agrotóxicos. Os casos são mais frequentes nas áreas rurais de países pobres na África, América Central e Ásia.  

O Brasil não fez parte do levantamento, mas, para o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Marcos Antonio Pedlowski, o problema também vem crescendo de forma vertiginosa no país. “O suicídio em áreas rurais vem aumentando muito, é quase uma epidemia”, afirma.

Facilidade no acesso

O relatório aponta que as medidas propostas para diminuir esse tipo de problema passam por fazer cumprir as convenções internacionais sobre a venda, o comércio e o armazenamento de agrotóxicos no mundo.

Pedlowski reforça que muitos agrotóxicos que são vendidos no Brasil e proibidos em grande parte do mundo, possuem ação depressora que diminui o nível de atividade do cérebro. O fácil acesso que os trabalhadores rurais têm desses venenos acabam colaborando para que se cometa o ato do suicídio.

“O relatório reforça que o suicídio nunca é uma decisão definitiva da pessoa, ela sempre passa por um momento de dualidade. Se você tem acesso fácil aos agrotóxicos a pessoa pode se inclinar mais facilmente pela opção de se matar. A partir do momento que o produto sai da loja, não se tem mais controle nenhum sobre ele”, criticou.  

Projetos

Em 2013, a BASF S.A e a Raízen Combustíveis (Shell) foram condenadas a pagarem indenização de R$ 200 milhões de indenização coletiva dos trabalhadores de uma fábrica em Paulínia, interior de São Paulo.

Investigações que duraram anos comprovaram a negligência das empresas com a proteção dos trabalhadores na fábrica que produzia agrotóxicos. A indústria, que pertencia a Shell e foi comprada pela BASF, contaminou o solo e as águas subterrâneas com produtos químicos entre 1974 e 2002.

Os R$ 200 milhões pagos pelas empresas serão utilizados pelo Ministério Público do Trabalho para patrocinar estudos voltados à pesquisa prevenção e ao tratamento de trabalhadores vítimas de intoxicação, de adoecimento decorrente de desastres ambientais, exposição a substâncias tóxicas ou acidentes de trabalho que envolva queimaduras.

FONTE:http://www.brasildefato.com.br/node/30818

Brasileiro consome 5,2 litros de agrotóxico por ano

Fernando Frazão/ABr

Ativistas participam de ato no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos

Ativistas participam de ato no Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos

Vladimir Platonow, da AGÊNCIA BRASIL

Rio de Janeiro – O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, cabendo a cada brasileiro o consumo médio de 5,2 litros de veneno agrícola por ano.

O dado foi divulgado hoje (3) por ambientalistas, quando é celebrado o Dia Internacional da Luta contra os Agrotóxicos. A data lembra a tragédia ocorrida há 30 anos, na cidade de Bhopal, na Índia, quando uma fábrica da Union Carbide, atual Dow Chemical, explodiu, liberando toneladas de veneno no ar, matando nas primeiras horas 2 mil pessoas e vitimando de forma fatal outras milhares nos dias seguintes.

A data foi lembrada em diversas cidades brasileiras. No Rio de Janeiro foi organizado um protesto, na Cinelândia, em frente à Câmara de Vereadores.

O integrante da coordenação nacional da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida Alan Tygel criticou o modelo agrícola brasileiro, dirigido à exportação e altamente dependente de agrotóxicos.

“Nós, aqui no Brasil, estamos desde 2008 na liderança como os maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Isso por conta do modelo adotado pelo país, do agronegócio. O Brasil se coloca no cenário mundial como exportador de matérias primas básicas, sem nenhum valor agregado, como é o caso da soja, do milho e da cana. São produtos que ocupam a maior parte da área agricultável brasileira, à medida em que a superfície para alimentos básicos vem diminuindo”, destacou o ativista.

Segundo ele, o país é campeão no uso de agrotóxicos, com consumo per capita de 5,2 litros por habitante ao ano.

“Mas isso não é dividido de forma igual. Se pegarmos municípios do Mato Grosso, por exemplo, como Lucas do Rio Verde, lá se consome 120 litros de agrotóxicos por habitante”, alertou Tygel. Os ambientalistas querem o fim da pulverização aérea – medida já praticamente banida em toda Europa -, o fim da comercialização de princípios ativos proibidos em outros países e o fim da isenção fiscal para os agrotóxicos.

“Uma das nossas bandeiras é o fim da pulverização aérea, pois uma pequena parte do agrotóxico cai na planta, e a grande parte cai no solo, na água e nas comunidades que moram no entorno. Temos populações indígenas pulverizadas por agrotóxicos, que desenvolveram uma série de doenças, desde coceiras e tonteiras até câncer e depressão, levando ao suicídio e à má formação fetal”, enfatizou Tygel.

Além disso, ressaltou que o meio ambiente é fortemente impactado, com extinção em massa de diversas espécies de insetos, como abelhas, repercutindo na baixa polinização das plantas e na produção de mel.

Também as águas são contaminadas com moléculas absorvidas pelos animais e pelo ser humano, levando a uma série de doenças, que muitas vezes são passadas das mães para os filhos. Mais informações sobre o assunto podem ser obtidas na página www.contraosagrotoxicos.org.

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/brasileiro-consome-5-2-litros-de-agrotoxico-por-ano

Tese sobre impacto do Bolsa Família na alimentação ganha Prêmio CAPES

Estudo de Ana Paula Bortoletto Martins, da FSP/USP, utilizou dados da POF e confirmou o aumento do gasto com alimentação, principalmente de produtos in natura

O objetivo do estudo de Ana Paula foi avaliar o impacto do programa federal na realidade alimentar da população. Para isso, a doutoranda recorreu aos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no biênio 2008-09 em uma amostra probabilística de 55.970 domicílios brasileiros e distinguiu blocos de domicílios beneficiados e não beneficiados pelo método do ‘pareamento com escore de propensão’. Os indicadores da aquisição de alimentos utilizados incluíram o gasto empenhado, a quantidade adquirida ou sua disponibilidade. Os valores per capita do montante gasto em reais e da disponibilidade em energia foram comparados levando-se em conta o conjunto dos itens alimentares e três grupos criados com base na extensão e propósito do processamento industrial ao qual o item alimentar foi submetido: alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários processados e produtos prontos para consumo (processados ou ultraprocessados).

Como resultado, foi percebido o aumento do gasto total com alimentação, maior disponibilidade de energia proveniente do conjunto de itens alimentares e maior disponibilidade proveniente de alimentos e de ingredientes, principalmente os in natura, como carnes, tubérculos e hortaliças. Ana Paula destaca que o programa de transferência de renda possibilita ainda autonomia na montagem do cardápio das famílias e auxilia no desenvolvimento local e regional: “Acredito que são duas as principais vantagens do Bolsa Família em relação ao impacto na alimentação das famílias são a autonomia das famílias beneficiárias para comprar o que for mais necessário para elas e o estimulo ao comércio local, incluindo a produção de alimentos locais e regionais, diferente de outras políticas que apenas chegam com um “pacote fechado” de produtos que não suprirão as necessidades das famílias”.

Além da premiação principal, os estudos “A gênese do programa de incentivo fiscal à alimentação do trabalhador (PIFAT/PAT)”, de Jamacy Costa Souza, doutorando do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e “Efeitos adversos da Poluição Atmosférica em crianças e adolescentes devido a queimadas na Amazônia: uma abordagem de modelos mistos em estudos de Painel”, de Ludmilla da Silva Viana Jacobson, doutoranda do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ) ganharam menção honrosa na área da Saúde Coletiva. Os premiados irão receber os certificados em cerimônia prevista para 10 de dezembro, em Brasília. As teses ganhadoras que fazem parte da grande área das Ciências Biológicas; Ciências da Saúde e Ciências Agrárias estarão habilitadas a disputar o Grande Prêmio Capes de Tese Oswaldo Gonçalvez Cruz. Ana Paula Bortoletto Martins está no páreo. Confira a entrevista com a doutoranda.

Abrasco: Você é graduada em Nutrição e desde o mestrado optou pelo campo da Saúde Coletiva. Em um curso com forte aspecto clínico, o que motivou esta escolha?

Ana Paula: Acredito que as atividades extracurriculares que eu participei, como o movimento estudantil de Nutrição e o centro acadêmico, foram  muito importantes na minha escolha profissional. Apesar do curso ter uma formação forte em clínica, o profissional nutricionista na verdade tem um papel que vai muito além da prescrição dietética que, na minha opinião, inclui uma visão interdisciplinar e abrangente, que é o campo da Saúde Coletiva. Além disso, tive a oportunidade de trabalhar como consultora na área de avaliação e monitoramento de políticas públicas do Ministério do Desenvolvimento Social no final do mestrado, o que me motivou a escolher o tema do doutorado.

Abrasco: O Bolsa Família tem motivado diversos estudos no campo da Saúde Coletiva. Na sua pesquisa, quais traços destacam a efetividade do programa dentre os demais do gênero de transferência de renda?

Ana Paula: Acredito que são duas as principais vantagens do Bolsa Família em relação ao impacto na alimentação das famílias são a autonomia das famílias beneficiárias para comprar o que for mais necessário para elas e o estimulo ao comércio local, incluindo a produção de alimentos locais e regionais, diferente de outras políticas que apenas chegam com um “pacote fechado” de produtos que não suprirão as necessidades das famílias.

Abrasco: Logo no início do Plano Real, foi muito noticiado que essa política econômica permitiu o consumo de iogurte e frango pelas classes populares. Quais seriam os alimentos símbolo do Bolsa Família?

Ana Paula: Difícil responder se existem alimentos símbolo do Bolsa Família… eu diria que existe um favorecimento ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados. Os resultados da minha tese não permitem eleger apenas um ou outro alimento.

Abrasco: Como você entende a premiação dentro do contexto das pesquisas em Nutrição em Saúde Coletiva?

Ana Paula: Entendo que a escolha da minha tese na premiação da Capes representa a valorização de pesquisas epidemiológicas com enfoque na aplicação prática para a avaliação de políticas públicas em Nutrição, que é, na minha opinião, uma área em crescimento. Acredito que outro ponto que pode ter contribuído com a escolha da minha tese foi a aplicação de um método e abordagem pouco usuais nessa área, o que demonstra que as inovações na metodologia também são valorizadas.

Abrasco: Você também é pesquisadora associada do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP). Quais são suas atuais e próximas pesquisas?

Ana Paula: No momento, estou revisando o artigo com os resultados da minha tese para publicação. Agora com o prêmio, fiquei ainda mais motivada para publicá-lo em uma boa revista. Além disso, pretendo dar continuidade nas pesquisas de avaliação da disponibilidade e consumo alimentar na população brasileira com base nas pesquisas de orçamentos familiares (que são bancos de dados riquíssimos, porém ainda pouco explorados pelos pesquisadores) junto com meus colegas do Nupens.

FONTE: http://www.abrasco.org.br/site/2014/10/tese-sobre-impacto-do-bolsa-familia-na-alimentacao-ganha-premio-da-capes/