Quem financia a ciência também pode moldar as soluções para a crise climática

Investigação da ProPublica revela como a BP influenciou um dos estudos climáticos mais importantes das últimas décadas e reacende o debate sobre conflitos de interesse, autonomia universitária e captura corporativa da produção científica

A recente investigação publicada pela ProPublica lança nova luz sobre uma questão que deveria preocupar toda a comunidade científica e qualquer cidadão interessado no enfrentamento da crise climática: até que ponto o financiamento privado é capaz de influenciar não apenas os resultados das pesquisas, mas também as próprias perguntas que os cientistas formulam? Ao analisar documentos internos da British Petroleum (BP) e registros da Universidade de Princeton, a reportagem mostra que um dos artigos científicos mais influentes da história da política climática contemporânea foi produzido em um ambiente de intensa interação entre pesquisadores e executivos da indústria petrolífera. Mais do que denunciar um caso específico, a investigação revela um mecanismo de captura da agenda científica que se repete em diferentes áreas do conhecimento e que merece ser discutido com muito mais profundidade.

O estudo em questão, conhecido como Stabilization Wedges (“Cunhas de Estabilização”), foi publicado em 2004 por pesquisadores de Princeton e rapidamente se tornou uma referência mundial ao defender que seria possível estabilizar as emissões globais de gases de efeito estufa por meio da combinação de diferentes tecnologias, entre elas a captura e armazenamento de carbono (Carbon Capture and Storage – CCS). A proposta exerceu enorme influência sobre formuladores de políticas públicas, organismos internacionais e empresas do setor energético, por transmitir a ideia de que seria possível enfrentar as mudanças climáticas sem alterar profundamente o modelo de produção e consumo baseado em combustíveis fósseis.

O problema apontado pela ProPublica não está na existência de erros metodológicos ou de fraude científica. Ao contrário, a investigação não questiona a competência técnica dos pesquisadores nem a validade dos cálculos apresentados no artigo. A questão central reside na influência exercida pela BP sobre o ambiente institucional em que a pesquisa foi desenvolvida. O estudo nasceu dentro da Carbon Mitigation Initiative (CMI), um programa criado em Princeton e financiado durante décadas pela petroleira com dezenas de milhões de dólares. Documentos obtidos pela reportagem mostram que executivos da empresa acompanharam versões preliminares do manuscrito, discutiram diretamente seu conteúdo com os autores e participaram das conversas sobre quais tecnologias deveriam receber maior destaque. 

Esse aspecto é particularmente relevante porque evidencia uma forma muito mais sofisticada de influência corporativa sobre a produção científica. Não é necessário manipular dados experimentais para direcionar o conhecimento produzido pelas universidades. Basta influenciar quais problemas serão investigados, quais soluções serão consideradas mais promissoras e quais alternativas permanecerão à margem do debate científico. Trata-se de um mecanismo silencioso de definição de agendas que dificilmente aparece nas discussões públicas sobre integridade acadêmica.

No caso específico da captura e armazenamento de carbono, o interesse empresarial era evidente. Se essa tecnologia fosse capaz de neutralizar as emissões provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, não haveria necessidade de reduzir drasticamente a extração desses combustíveis. A solução para a crise climática deixaria de passar por transformações estruturais no sistema energético mundial e passaria a depender do desenvolvimento futuro de tecnologias capazes de capturar o carbono depois que ele já tivesse sido emitido. Em outras palavras, criava-se uma narrativa na qual seria possível continuar explorando combustíveis fósseis enquanto a ciência encontraria, em algum momento, uma solução tecnológica para seus impactos.

Passadas mais de duas décadas, a realidade mostrou que essa aposta estava longe de representar uma resposta suficiente à emergência climática. Apesar dos bilhões de dólares investidos mundialmente, os projetos de captura e armazenamento de carbono continuam respondendo por uma parcela mínima das emissões globais e enfrentam enormes dificuldades técnicas, econômicas e logísticas. Embora a tecnologia possa desempenhar algum papel em setores industriais específicos, ela está muito distante de representar a solução abrangente que muitos imaginaram no início dos anos 2000. Ainda assim, sua promoção ajudou a retardar debates mais profundos sobre a necessidade de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

O caso investigado pela ProPublica tampouco constitui uma exceção. Ele se insere em um padrão histórico bastante conhecido. Durante décadas, a indústria do tabaco financiou pesquisas destinadas a gerar dúvidas sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas do setor açucareiro patrocinaram estudos que deslocavam a responsabilidade pelas doenças cardiovasculares para o consumo de gorduras. A indústria química investiu pesadamente em pesquisas que minimizavam os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Em todos esses casos, o objetivo não era necessariamente produzir ciência falsa, mas criar incertezas, deslocar prioridades e influenciar o ritmo das decisões regulatórias.

O Brasil conhece muito bem essa realidade. Basta observar o crescimento do financiamento privado de pesquisas nas áreas do agronegócio, da mineração, da indústria petrolífera e da expansão portuária. Evidentemente, a colaboração entre universidades e empresas pode gerar avanços científicos importantes e contribuir para o desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando a dependência financeira limita a autonomia acadêmica e reduz o espaço para investigações que possam contrariar os interesses econômicos dos patrocinadores. Não é coincidência que ainda sejam relativamente poucos os estudos independentes sobre os impactos cumulativos dos grandes empreendimentos portuários, da mineração em larga escala ou do uso intensivo de agrotóxicos sobre a saúde humana e os ecossistemas brasileiros.

Essa realidade nos obriga a formular algumas perguntas incômodas. Quem define as prioridades da pesquisa científica? Quem decide quais problemas merecem financiamento? Quem estabelece quais soluções tecnológicas são consideradas viáveis? Em um contexto de redução progressiva do investimento público em ciência, essas questões tornam-se ainda mais urgentes. Quanto maior a dependência das universidades em relação aos recursos privados, maior também será a necessidade de mecanismos robustos de transparência, gestão de conflitos de interesse e proteção da autonomia científica.

A reportagem da ProPublica presta um importante serviço público justamente por demonstrar que a independência da ciência não depende apenas da honestidade individual dos pesquisadores. Ela depende, sobretudo, das condições institucionais em que o conhecimento é produzido. Uma ciência verdadeiramente comprometida com o interesse público precisa preservar sua capacidade de formular perguntas incômodas, mesmo quando as respostas contrariem interesses econômicos poderosos. Em tempos de crise climática, essa talvez seja uma das maiores responsabilidades da universidade pública: produzir conhecimento que não esteja subordinado às necessidades estratégicas das corporações responsáveis por boa parte dos problemas que a própria ciência busca resolver.

Em última análise, o caso investigado pela ProPublica reforça uma lição que a economia política da ciência conhece há muito tempo: a captura do conhecimento raramente ocorre pela falsificação dos resultados, mas pela definição das agendas de pesquisa e das soluções consideradas aceitáveis. Em um cenário de crescente dependência do financiamento privado, preservar a autonomia científica torna-se uma condição indispensável para que a ciência continue servindo ao interesse público e não aos balanços financeiros das grandes corporações. Como diz o velho ditado, quem paga a banda, escolhe a música. A investigação da ProPublica mostra que esse provérbio popular continua tendo uma inquietante capacidade de explicar parte importante das relações entre ciência, poder econômico e crise climática.

Aposta arriscada: BP abandona discurso verde, justamente no momento em que preços do petróleo caem

Na sua assembleia geral anual desta semana, a empresa enfrentará não só o investidor ativista que a persegue, mas também uma economia global que está sendo transformada por Donald Trump

Jovens empilham-se em uma escultura colorida, com blocos com slogans como "fatos falsos" e "conflito armado".

Ativistas da Extinction Rebellion protestam em frente à sede da BP em Londres esta semana. Fotografia: Ben Whitley/PA 

Por Jillian Ambrose para o “The Guardian”

Após o “dia da libertação” de Donald Trump na quarta-feira da semana passada, a BP perdeu quase um quarto de seu valor de mercado em uma derrocada ainda mais profunda do que a sofrida pela gigante do petróleo após o desastre da Deepwater Horizon. O colapso dos preços globais do petróleo após a ofensiva tarifária do presidente dos EUA pode ter eliminado bilhões de dólares de seu valor de mercado – mas Trump não é o único problema da BP.

A empresa petrolífera se reunirá com acionistas esta semana pela primeira vez desde que cedeu à pressão dos investidores para abandonar suas ambições de energia verde em favor de um retorno aos combustíveis fósseis, e seu presidente, Helge Lund, concordou em deixar o conselho .

Os dois recuos foram considerados a única defesa contra o avanço de um fundo de investidores ativistas agressivos que poderia significar a dissolução da empresa de 115 anos, que vem perdendo valor há anos.

A Elliott Asset Management, um temido fundo de hedge de Nova York, famoso por abalar empresas retardatárias, adquiriu uma participação substancial na BP no início deste ano. A empresa estaria em negociações com investidores importantes sobre o futuro da empresa após seu plano malfadado de se tornar uma empresa de energia verde.

A renúncia de Lund não poupará o conselho do constrangimento de uma discussão com os acionistas, muitos dos quais provavelmente protestarão votando contra a recondução do presidente, mesmo que ele já tenha decidido sair.

O conselho também pode ficar aliviado ao saber que seu maior inimigo ativista climático, o grupo de campanha de acionistas Follow This, decidiu não apresentar uma resolução pedindo maiores cortes de emissões na próxima reunião anual de acionistas em meio ao crescente antagonismo dos investidores em relação a questões ESG (ambientais, sociais e de governança).

A BP estabeleceu o plano para reduzir sua produção de combustíveis fósseis sob o comando do ex-presidente-executivo Bernard Looney no final de 2020, um ano antes de seus rivais do setor começarem a obter lucros extraordinários com a agitação dos mercados globais de petróleo e gás.

Ao mesmo tempo, o plano da BP de investir em projetos de energia de baixo carbono, incluindo dois gigantescos parques eólicos offshore em águas do Reino Unido, foi prejudicado pelo alto custo dos empréstimos e pelos gargalos na cadeia de suprimentos pós-pandemia, que elevaram os custos em todo o setor.

Após a saída humilhante de Looney da empresa no final de 2023, seu sucessor, o ex-diretor financeiro Murray Auchincloss, começou a diluir os planos verdes. Ele estabeleceu uma “redefinição fundamental” da estratégia da BP, culpando o otimismo “descabido” da empresa na transição verde.

Mas a reviravolta da BP para os combustíveis fósseis pode já estar fracassando. A petrolífera informou aos investidores na sexta-feira que seus resultados do primeiro trimestre do ano incluiriam números de produção de gás abaixo do esperado e um resultado comercial “fraco”.

De forma preocupante, a empresa revelou que a dívida líquida aumentou em US$ 4 bilhões (£ 3 bilhões) nos primeiros três meses do ano, à medida que os temores sobre a incerteza financeira global atingiram o auge.

A BP é considerada mais exposta às consequências das tarifas de Trump , que fizeram os preços de mercado do petróleo despencarem de quase US$ 75 o barril para menos de US$ 60 pela primeira vez em quase quatro anos, devido a temores de que uma guerra comercial levaria a economia global à recessão e reduziria o apetite mundial por petróleo bruto.

A empresa parece já ter sido mais afetada pela liquidação do que suas rivais nos EUA e na Europa. Desde o início do ano, suas ações despencaram quase 17%, enquanto a Shell perdeu pouco mais de 8% e as rivais americanas ExxonMobil e Chevron perderam cerca de 7% cada.

Analistas de ações do banco de investimentos UBS rebaixaram sua visão da empresa de “comprar” para “neutra” após alertarem que a queda nos preços do petróleo e do gás poderia reduzir os lucros da BP nos próximos anos em até um quinto.

A redefinição estratégica da BP “foi um primeiro passo importante para restaurar a confiança dos investidores, em nossa opinião”, disse Joshua Stone, analista de ações do UBS. “Os próximos passos, incluindo a redução da dívida líquida e a reposição da base de reservas, sempre levariam mais tempo para serem alcançados, mas o nível de incerteza financeira no mercado dificulta, em nossa opinião, a concretização, especialmente no que se refere à capacidade da BP de aumentar os lucros e vender ativos.”


Fonte: The Guardian