Calor causado por desmatamento matou meio milhão de pessoas nos últimos 20 anos, revela estudo

Aumentos localizados de temperatura causados ​​pelo desmatamento causam 28.330 mortes relacionadas ao calor por ano, descobrem pesquisadores

Desmatamento na Amazônia

O desmatamento é responsável por mais de um terço do aquecimento global sentido pela população que vive nas regiões afetadas. Fotografia: luoman/Getty 

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

O desmatamento matou mais de meio milhão de pessoas nos trópicos nas últimas duas décadas como resultado de doenças relacionadas ao calor, segundo um estudo .

O desmatamento está aumentando a temperatura nas florestas tropicais da Amazônia, do Congo e do sudeste da Ásia porque reduz a sombra, diminui as chuvas e aumenta o risco de incêndio, descobriram os autores do artigo.

O desmatamento é responsável por mais de um terço do aquecimento experimentado pelas pessoas que vivem nas regiões afetadas, o que se soma aos efeitos da perturbação climática global.

Cerca de 345 milhões de pessoas nos trópicos sofreram com esse aquecimento localizado causado pelo desmatamento entre 2001 e 2020. Para 2,6 milhões delas, o aquecimento adicional acrescentou 3°C à sua exposição ao calor.

Em muitos casos, isso foi mortal. Os pesquisadores estimaram que o aquecimento global devido ao desmatamento foi responsável por 28.330 mortes anuais nesse período de 20 anos. Mais da metade ocorreu no sudeste da Ásia, devido às populações maiores em áreas vulneráveis ​​ao calor. Cerca de um terço ocorreu na África tropical e o restante na América Central e do Sul.

O estudo foi publicado na quarta-feira na revista Nature Climate Change . Pesquisadores no Brasil, Gana e Reino Unido compararam as taxas de mortalidade não acidentais e as temperaturas em áreas afetadas pelo desmatamento de terras tropicais.

Estudos anteriores mostraram como o corte e a queima de árvores causam aquecimento localizado a longo prazo, mas o novo artigo é o primeiro a calcular o número de mortes resultante.

O professor Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, disse que a mensagem era que “o desmatamento mata”. Ele esperava que muitas pessoas ficassem chocadas com as descobertas, pois os perigos locais do desmatamento muitas vezes se perdem no debate climático global e na expansão das fronteiras agrícolas focada no mercado.

Como exemplo, ele citou a região brasileira do Mato Grosso, onde houve desmatamento massivo para abrir espaço para vastas plantações de soja. Agricultores dessa região agora pressionam pelo fim da moratória da soja na Amazônia para que possam desmatar mais terras.

Spracklen disse que manter a cobertura vegetal intacta salvaria vidas e aumentaria a produção agrícola. “Se o Mato Grosso conseguir manter suas florestas em pé, a população local sofrerá menos estresse por calor”, disse ele. “Não se trata apenas do Ocidente defendendo a proteção das florestas em prol do clima global. As florestas beneficiam diretamente as comunidades locais. Elas regulam a temperatura, trazem chuvas e sustentam a agricultura da qual as pessoas dependem. Essas florestas não estão ociosas – elas estão trabalhando muito duro e fazendo algo realmente importante para nós.”


Fonte: The Guardian

Calor prolongado na Sibéria é quase impossível sem mudanças climáticas

Alteração no clima aumentou em 600 vezes chance de verão intenso na região, diz análise

fogo siberiaDistritos em seis regiões russas, incluindo a república de Sakha, introduziram estados de emergência em conexão com os incêndios.Yevgeny Sofroneyev / TASS

O recente calor prolongado na Sibéria, de janeiro a junho de 2020, seria quase impossível sem a influência das mudanças climáticas causadas pelo homem. É o que indica um estudo do tipo “análise rápida de atribuição” conduzido por alguns dos principais cientistas do clima. As mudanças climáticas aumentaram as chances de calor sustentado na região em pelo menos 600 vezes. Esse é um dos resultados mais contundentes de qualquer estudo de atribuição realizado até o momento.

Participaram da avaliação pesquisadores de universidades e de serviços meteorológicos de diferentes países, incluindo o Instituto P.P.Shirshov de Oceanologia e a Academia Russa de Ciências. Eles descobriram que as temperaturas estão 2°C mais quentes do que ocorreria sem a influência dos gases de efeito estufa provenientes de atividades humanas.

“Este estudo mostra que não só a magnitude da temperatura foi extremamente rara, mas também os padrões climáticos que a causaram”, afirma a professora Olga Zolina, do P.P.Shirshov Institute of Oceanology, em Moscou, e do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Grenoble, na França. “Continuamos a estudar como os incêndios florestais que queimaram milhares de hectares também podem afetar o clima, à medida que as chamas bombeiam fumaça e cinzas na atmosfera”, conclui a pesquisadora, que integra o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

As temperaturas na Sibéria estão bem acima da média desde o início do ano. Uma nova temperatura recorde para o Ártico — 38°C — foi registrada na cidade russa de Verkhoyansk em 20 de junho, enquanto as temperaturas gerais da Sibéria ficaram mais de 5°C acima da média de janeiro a junho.

Para medir o efeito das mudanças climáticas sobre as temperaturas observadas na Sibéria, os cientistas fizeram simulações computacionais e compararam o clima atual, com cerca de 1°C de aquecimento global, com o clima que existiria sem a influência humana. A análise mostrou que o calor prolongado que a região experimentou este ano aconteceria menos de uma vez a cada 80 mil anos se não houvesse interferência antrópica.

Os cientistas observaram que, mesmo no clima atual, o calor prolongado ainda era improvável: condições extremas podem ocorrer menos de uma vez a cada 130 anos. Mas sem cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, esses eventos correm o risco de se tornar frequentes até o final do século.

Consequências

O calor na Sibéria provocou incêndios generalizados, com 1,15 milhão de hectares queimados no final de junho e uma liberação de cerca de 56 milhões de toneladas de dióxido de carbono — mais do que as emissões anuais de alguns países industrializados, como Suíça e Noruega.

Esse cenário também acelerou o derretimento do pergelissolo (ou permafrost, como é chamado em inglês), que é o tipo de solo característico da região do Ártico. Um tanque de óleo construído sobre o pergelissolo entrou em colapso em maio, levando a um dos piores derramamentos de óleo da região.

Os gases liberados pelos incêndios, o derretimento desse solo congelado e a diminuição da refletividade do planeta devido à perda de neve e gelo vão aquecer ainda mais o planeta. O calor também foi associado a um surto de mariposas de seda, cujas larvas comem árvores coníferas.

Sonia Seneviratne, professora do Departamento de Ciência de Sistemas Ambientais da ETH (Swiss Federal Institute of Technology) de Zurich, na Suíça, destaca que esses resultados mostram que o planeta já está vivendo eventos extremos que quase não teriam chance de acontecer sem a pegada humana no sistema climático. “Temos pouco tempo para estabilizar o aquecimento global em níveis em que as mudanças climáticas permaneceriam dentro dos limites do Acordo de Paris. Para uma estabilização a 1,5°C do aquecimento global, o que ainda implicaria mais riscos de eventos extremos de calor, precisamos reduzir nossas emissões de CO2 em pelo menos metade até 2030”, afirma a pesquisadora, que também integra o IPCC.

Sobre análises rápidas de atribuição

Mais de 350 estudos desse tipo, rápidos e revisados ​​por pares, examinaram se as mudanças climáticas tornaram mais prováveis​​eventos climáticos extremos. Pesquisas anteriores do grupo World Weather Attribution descobriram que as mudanças climáticas tornaram mais prováveis os incêndios australianos deste ano e as ondas de calor recorde em junho na França. Outro levantamento desse tipo identificou que a tempestade tropical Imelda, que atingiu o Texas em setembro de 2019, se tornou mais provável ​​e intensa devido às mudanças climáticas.