A vitória de Rodrigo Maia é o enterro definitivo do PT como partido de esquerda

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Faz tempo que eu enxergo o Partido dos Trabalhadores (PT) como uma organização de centro, com comportamento meramente reformista e prisioneiro da lógica da conciliação de classes. E isso é lamentável, pois no seu nascedouro o PT representava uma possibilidade concreta de oferecer à classe trabalhadora um instrumento poderoso para sua luta contra as elites oligárquicas que dominam há séculos o estado brasileiro.

Mas principalmente de 2002 para cá, após o lançamento da chamada “Carta aos Brasileiros”, a maioria da direção do PT optou por uma política que transcende o reformismo e optou pela colaboração aberta com a classe dominante. O famoso abraço entre o ex-presidente Lula e Paulo Maluf para celebrar a aliança que acabaria elegendo Fernando Haddad como prefeito de São Paulo foi só apenas um momento mais emblemático da capitulação do PT.

Entretanto, o PT ainda arrebata milhões de brasileiros que ainda não fizeram o processo de ruptura entre o passado e o presente do partido que diz representar os interesses dos mais pobres.  E muito desses que ainda acreditam no PT estão sempre esperando a famosa “guinada à esquerda” que possibilitaria uma espécie de processo de purificação para todos os erros e traições cometidos na última década. Mas a verdade é que a direção do PT e a imensa maioria dos seus parlamentares não estão nem aí para os compromissos históricos firmados no seu processo de fundação.  A política virou apenas uma oportunidade de negócios, também para os dirigentes e parlamentares petistas (que eu chamo de neoPetistas).

Até aqui eu não disse nenhuma novidade em relação ao que eu penso sobre o processo de direitização do PT. Mas  a estas alturas do campeonato, eu confesso que não esperava ver o PT votando em Rodrigo Maia (DEM) para presidir a Câmara dos Deputados. É que tendo sido Maia um dos líderes (se ele é mesmo capaz de liderar qualquer coisa ainda está ser para resolvido tal a mediocridade de seu histórico como parlamentar) do golpe de estado “soft” cometido contra Dilma Rousseff. Ai, convenhamos, já seria demais, mesmo para o neoPT. Mas só que não foi!

Eu sinceramente desconfio que muitos desses parlamentares petistas se regojizaram quando o processo de impeachment foi aceito pela Câmara de Deputados, tal é a indisposição da presidente eleita de participar das flexões patrimonialistas que eles agora explicitamente demonstraram poder fazer sem muito remorso.

Por último considero que beira o patético querer imputar aos parlamentares do PSOL algum tipo de culpa pela vitória de Rodrigo Maia, seja qual for a alegação. É que o PSOL com seus muitos erros e vacilações apenas cumpriu o papel que cumpriria à esquerda parlamentar, estivessem seus deputados mirando ou não as próximas eleições municipais. Até porque se não lançassem a candidatura de Luiza Erundina, o que restaria a eles em Outubro? Provavelmente nem lançar candidatos para chamar o voto no PMDB ou em outros partidos que organizaram o golpe de estado.  Felizmente, essa opção suicida não foi cometida, e o PSOL agora poderá se apresentar com alguma chance de sucesso em um bom número de cidades brasileiras. E provavelmente, dado o arco de alianças que está formando, o PSOL ainda conseguirá que partidos como o PCB e o PSTU elejam vereadores em bom número, coisa que nunca conseguiram.

E o PT depois desse episódio? Com quase certeza irá se aferrar -se aos grotões. A ver!

Por que tanta surpresa com a má qualidade do nosso parlamento?

Tenho notado nas mais variadas análises e repercussões da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff uma certa estupefação com o espetáculo tragicômico que foi oferecido ao Brasil pelos que votaram a favor do impedimento. 

Uma analista astuta, por outro lado, apontou que se Eduardo Cunha usou a votação num domingo para constranger o voto contrário ao impedimento, ele prestou o serviço involuntário de nos mostrar que o tal “baixo clero” de que tanta se fala e nunca se vê, é muito mais numeroso e torpe do que se atribui normalmente.

Eu diria que se alguém não tinha noção da fraqueza intelectual e moral da maioria da Câmara de Deputados até hoje era por simples falta de curiosidade sobre quem são seus membros. Aliás, não é só na Câmara que se pode verificar a baixíssima capacidade de oferecer falas minimamente lógicas e amplas. Basta ir em qualquer em qualquer assembleia legislativa ou câmara de vereadores que o espetáculo oferecido é igual ou pior.

A culpa disso é de um sistema partidário controlado pelas corporações que beneficia quem tem dinheiro (muitas vezes de Caixa 2) para impulsionar candidaturas que, em tempos normais, não teriam a menor chance. Além disso, a falsa certeza de que a tal “Ficha Limpa” garantiria parlamentares mais probos criou uma ilusão de limpeza que equivale a limpar o chão com um pano sujo de fezes. 

A verdade é que esses parlamentares representam o que pensam as elites e porções significativas da classe média brasileiras. O apoio à tortura, à violência contra os pobres, ao fanatismo religioso que adormece as consciências, e à moral seletiva e hipócrita é uma marca de quem manda nesse país desde que os portugueses por aqui aportaram entregando espelhinhos para os nativos.  Então, convenhamos, esses deputados caricatos são apenas a face explícita dos velhos escravocratas que ainda mandam nesse país. 

Mas para quem reclama apenas do parlamento, eu diria que o buraco é bem mais embaixo, ou, bem mais acima. Vejamos a situação do Supremo Tribunal Federal  (STF) que senta há quase 4 meses num pedido de prisão contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Qual é a razão de tamanha demora para uma decisão tão óbvia? Somado isso às prisões arbitrárias de pessoas que sequer tiveram crimes reconhecidos pelo juiz Sérgio Moro, encontramos uma simbiose entre o show de horrores da Câmara durante a votação do impeachment com o que efetivamente representa o STF na manutenção de uma situação de contínua desigualdade social no Brasil.

Querem uma expressão óbvia disso? A recente indicação e aprovação da jovem advogada Marianna Fux para o posto de desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Janeiro. Principal mérito dela? Ser filha do ministro do STF, Luiz Fux! Afora, umas poucas linhas em alguns veículos da mídia corporativa, esse jogo de compadres foi aceito de muito bom grado. Ninguém se mostrou enojado como fazem com o pagamento da Bolsa Família para um punhado de pobres. Tudo muito limpinho e cheiroso.

Felizmente, e sempre há um felizmente, toda essa situação está sendo mostrada na TV. E para quem pensa que o produto final disso são massas enebriadas, eu diria que é possível que surpresas ocorram. É que, enquanto aquelas pessoas de tez clara vestindo verde amarelo pulavam felizes toda vez que um voto hediondo (como o proferido por Jair Bolsonaro em memória de um dos maiores torturadores da história do Brasil), os pobres olhavam com outros olhos o prenúncio de tempos muitos duros pela frente. Daí que ninguém se surpreenda ao ver que quem hoje planta ventos para Dilma Roussef vá colher tempestades num futuro não distante. A ver!