Açu, um porto desconectado, e sua vitória pirrica

Bahia.ba | Rio terá novo terminal em Porto do Açu

Como muitos motoristas que precisaram trafegar pelas principais avenidas da nossa cidade, tive momentos de congestionamento por causa da presença de caminhoneiros que resolveram protestar contra a decisão (correta ao meu ver) da Prefeitura Municipal de vedar a circulação de veículos de 4 eixos no perímetro urbano campista. O imbróglio acaba de ter um novo desdobramento já que a pedido dos controladores do Porto do Açu,  a juíza Helenice Rangel Gonzaga, da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes atendeu, na noite desta quarta-feira (4),  suspendeu a portaria do IMTT e autorizou a volta da circulação de caminhões de 4 eixos no perímetro urbano campista.

Essa vitória do Porto do Açu, me perdoem seus dirigentes e áulicos, é uma que se iguala à chamada “vitória de Pirro” (também conhecida como vitória pírrica)  que tem origem na história do rei Pirro do Épiro, que, após uma vitória contra os romanos na batalha de Ásculo em 279 a.C, declarou que outra vitória semelhante seria tão destrutiva quanto uma derrota. Assim, a expressão descreve uma vitória que é tão custosa que o vencedor é deixado numa situação quase tão desfavorável como se tivesse perdido, ou seja, uma vitória que gera perdas maiores que os benefícios. 

E eu explico por que cheguei à ideia de que o Porto do Açu acaba de obter uma vitória pírrica. É que ao usar a justiça para derrubar uma medida correta, já que o trânsito de caminhões pesados traz sérios atropelos à segurança da população, o Porto do Açu deixou evidente a conexão precária que possui por via terrestre com o resto do mundo.  E, pior, uma conexão precária que não possui nenhuma opção viável nem no curto ou no médio espaço de tempo, quiçá no longo.

Abro um parêntese para tornar pública uma conversa muito pedagógica que mantive ainda na manhã de hoje com o professor José Luiz Vianna da Cruz, um pesquisador a quem respeito pela perspicácia e profundida com que analisa os fatos atinentes ao processo de desenvolvimento regional.  Conversamos, entre outras coisas, sobre a falta de horizontes futuros claros para o Porto do Açu. Esclareço: é que apesar de todas as maquetes e tentativas de instalar uma projeto de longo prazo, o empreendimento criado por Eike Batista vem se comportando como uma espécie de metamorfose ambulante. Segundo José Luiz Vianna da Cruz, mesmo a tentativa de buscar uma saída via as chamadas energias alternativas está esbarrando na falta de interessados em parcerias que combinam alta de demanda por capital e incertezas quanto ao retorno.

Ponderei ainda com José Luiz Vianna da Cruz acerca do que eu considero um erro estratégico que é a inexistência de um estrutura portuária para a circulação de contêineres, já que essa é a forma que hoje hegemoniza o mercado marítimo mundial.  Vianna da Cruz ponderou que esse a “conteineirização” do Porto do Açu exigiria um forte investimento em uma estrutura de capital fixo, e sem garantia de retorno imediato ou futuro. Um dos gargalos para a “conteinerização” do Porto do Açu sendo justamente a falta de vias de acesso rodoviário ou ferroviário. Em um porto de contêineres, a presença de rodovias e ferrovias é central e estratégica para o escoamento eficiente das mercadorias. A interligação de modais de transporte, que se chama de intermodalidade ou multimodalidade, traz uma série de benefícios cruciais para a logística e a economia. No caso do Porto do Açu, não há sequer um vislumbre de que esses modais serão instalados, nem agora nem tão cedo.

O pior é que a atual dependência do Porto do Açu na exportação de petróleo extraído na camada Pré-sal coloca um limiar de, no máximo 30 anos, para que essa unidade portuária se viabilize no pós-petróleo. Mas, voltando ao elemento inicial que se refere à desconexão crônica a que o Porto do Açu enquanto enclave isolado está posto, esse horizonte pós-petróleo parece cheio de nuvens carregadas. Explicar esse gargalo a potenciais investidores certamente não será tarefa fácil, especialmente se forem chineses. É que a China já demonstrou de forma cabal como se instala portos conectados ao seu “hinterland” e aos mercados globais. 

Caminhões do Porto do Açu voltaram, e com eles o caos na entrada da UENF. Cadê o IMTT?

O que deveria ser algo trivial se tornou um exercício de paciência e com alto nível de risco envolvido. Falo aqui da minha chegada diária para traballhar no campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).

Essa situação se deu com a volta do trânsito dos caminhões pesados vindos do Porto do Açu que haviam sido removidos da circulação das vias internas após a morte de um ciclista na movimentada Avenida Arthur Bernardes. Mas com o novo fechamento da Estrada dos Ceramistas, os caminhões vindos do Porto do Açu voltaram com força, e com eles o caos diário (ver imagens abaixo).

Que esses caminhões estejam circulando dentro do perímetro urbano já me causa alguma espécie, e apenas reforça a bola fora que foi construir um porto sem acesso rodoviário ou ferroviário. Mas deixar que esses caminhões voltem a colocar em risco a vida dos cidadãos campistas, sem que o  Instituto Municipal de Trânsito e Transporte de Campos (IMTT) estabeleça uma política de controle explícito com a presença de policiamento é algo que me parece injustificável. 

Afinal, do que adianta encher a cidade de câmeras e uma política de multar os transgressores (que eu considero justíssimo), mas que, por outro lado, se naturalize o caos causado pelos caminhões vindos e indo para o Porto do Açu?  O que estão esperando para tomar alguma medida mínima para dar uma racionalidade mínima a esse caos? Que morra alguém, novamente?

Com a palavra, o IMTT.