Havan chega em uma planície marcada pela fome, e tem quem celebre

Wladimir recebe diretor da Havan e anuncia que obras do mega empreendimento  iniciam em breve - Campos 24 Horas | Seu Jornal Online.

O prefeito Wladimir Garotinho dando boas vindas a Nilton Hang que promete para “breve” a instalação de uma estátua da liberdade na planície goitacá

Tive o desprazer de assistir um vídeo em que o prefeito de Campos dos Goytacazes “faz sala” para Nilton Hang, diretor de expansão da famigerada Havan. O prefeito apresenta a chegada da Havan como uma confirmação de que em se trabalhando, a coisa vai.

Mas o que é e o que vende a Havan? A Havan é uma rede de lojas de departamento brasileiras que vende uma vasta gama de produtos nacionais e importados no varejo e atacado, incluindo vestuário, eletrodomésticos, eletrônicos, utilidades domésticas, móveis, brinquedos e alimentos, muitas delas produzidas pelo setor de produtos menos qualificados das corporações chinesas. Além disso, a Havan se notabilizou por suas grandes lojas terem fachadas inspiradas na feiosa arquitetura americana e por colocar réplicas horrorosas da Estátua da Liberdade no interior dos seus estacionamentos.

Em outras palavras, a Havan é uma dessas combinações estereotipadas que, por um lado, vende os valores morais de um potência decadente (os EUA), enquanto entrega produtos de segunda linha produzidos pela potência emergente (a China).

Eu diria que até aí ainda vá lá, pois quem quiser comprar produtos ruins por preços caros que compre. O problema é que essa chegada e a promessa minguada de empregos como se fossem grande coisa se dá em uma cidade em que uma parcela significativa, cerca de 150 mil cidadãos segundo dados da própria prefeitura, vive abaixo da linha da pobreza, e precisa encarar a fome diariamente, não como exceção, mas como regra.

Em outras palavras, a chegada da Havan não resolverá problemas cruciais, e ainda pode piorar outros, pois toda vez que uma grande loja de departamentos chega em algum lugar, centenas de pequenos estabelecimentos são fechados por não terem como concorrer.

O Festival Doces Palavras, as viúvas do Livro Verde e o cinema do absurdo

Por Douglas Barreto da Mata

Tive notícias de que a audiência do referido festival gastro literário foi pífia…algo como o abraço no “corpo” da “terceira mais antiga livraria” que fechou… Sou campista do Parque Leopoldina, neto de ferroviários pelos dois lados, e confesso, tem coisa que só quem é daqui compreende. Nenhum outro lugar, senão Campos dos Goytacazes, tem um arremedo de “elite intelectual” com tamanha frustração existencial, talvez resultado direto de um processo histórico onde os ricos da terra massacraram com rara eficiência os pobres que os serviam. Este recalque talvez os livre do peso de consciência, caso possuam alguma.

Essa plêiade de janotas (desculpem os maneirismos paranasianos, mas são propositais) cultiva mitos de grandeza enquanto permanece de costas para seu povo. Assim, a livraria que dizem que era longeva, foi na maior parte de seu funcionamento uma tabacaria, e depois uma papelaria que vendia livros didáticos…uma fraude a estória. 

Com a distribuição gratuita de material escolar na rede pública, e com a digitalização das metodologias pedagógicas nas escolas da classe alta, o negócio faliu, mas antes tentou se vender como “patrimônio cultural”, um local de leitura que nunca foi, em, uma cidade onde os filhos dos pretos e pobres chegaram à escola após a década de 80 e 90 do século XX.

Alheio a tudo isso, esse “pessoal que sabia o javanês” (ver o conto de Lima Barreto, O Homem Que Sabia Javanês) seguiu firme na tarefa de “culturalizar” (ou colonizar ?) uma cidade “por cima”, pregando para convertidos (pouquíssimos), no meio do deserto social onde se auto exilaram. 

Lá, debaixo do sol escaldante da arrogância, gritam em uníssono, somos a primeira cidade a ter luz elétrica, somos a maior geografia do estado do Rio, aqui dormiu o Imperador, aqui tivemos o Cine Trianon, somos o espelho do Brasil…e claro, não poderia faltar a já citada livraria/tabacaria/papelaria. Com esse calor desesperador, surgem as alucinações e miragens, como um Festival de Cinema, que pode ser resumido a…a…a o quê mesmo?

Promessas de legado, de revolução e inovação das artes cinematográficas, surgimento de uma cadeia produtiva, impulso aos tratos acadêmicos da sétima arte, enfim, o paraíso na terra e…? Exibições de filmes em um mesmo lugar, sem nenhuma replicação pelos rincões da cidade, nenhum “cinema na praça”, seja em Custodópolis, seja no Parque Rosário ou Jockey Club. Matadouro ou Aldeia? Deuzolivre.

Lá na ponta, o Poder Público Municipal, espremido pelas pressões de sempre, vindas de uma mídia anacrônica, com forte sotaque cacofônico, que se acostumou a dar voz aos “Cabeças de Papelão” (ver o conto de João do Rio), acaba por patrocinar ou ajudar nesses eventos esvaziados, carentes de forma e conteúdo. 

Ao menos, ninguém dirá que o Prefeito Wladimir Garotinho não foi generoso com esse pessoal.  Fica a sugestão, apenas uma sugestão, não me levem a mal: a produção de cultura com um bem imaterial e público tem que ser elaborada com um viés claro de classe, em outras palavras, das periferias para o centro, nunca o contrário.

Esses movimentos têm que manter um “afastamento de respeito”, mas “uma proximidade de comprometimento e generosidade”.  Falar com quem quiser e necessitar ouvir, e aprender com quem quiser ensinar.  Dialogar, ao invés desses “monólogos em grupo”. Já chegou a hora desse pessoal ouvir amargas palavras: parem de encher a (nada santa) paciência e gastar dinheiro público por nada!

Campos dos Goytacazes: um massacre da serra elétrica em uma cidade despreparada para o colapso climático. Isso não é nada bom!

Melting In The Heat – Free Clipart #2556379 | Clipart Library

Vivo em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e sofro, como a maioria das pessoas, com as temperaturas esturricantes de boa parte do ano. Por isso, desde minha chegada fico impressionado com a falta de arborização na maioria das ruas, onde existem pouquíssimas exceções de boa cobertura vegetal em áreas públicas.  Uma das poucas áreas que tinham árvores suficientes para criar uma espécie de microclima mais suave era até dois dias atrás, a esquina entre as avenidas Felipe Uébe e 28 de março (ver imagem abaixo).

No entanto, aquele verde todo agora é passado. É que, provavelmente para dar maior visibilidade à nova filial da rede local de supermercados Superbom, um verdadeiro massacre da serra elétrica foi promovido em via pública, causando um misto de poda drástica com a remoção total de alguns indivíduos (ver vídeo abaixo).

O mais incrível é que presenciei o uso extensivo de servidores da Guarda Civil Municipal para orientar o trânsito enquanto a Filipe Uébe permaneceu fechada para que a operação das motosserras fizesse o trabalho de remover árvores que proviam abrigo para pássaros e amenizavam as temperaturas naquela região da cidade.

Quem não estava aparente na cena era algum servidor da recém-criada Secretaria Municipal de Meio Ambiente, órgão da administração direta municipal que deveria zelar pela pouca arborização de rua existente nesta cidade calorenta.  Entretanto, talvez para alegar desconhecimento, ninguém da SEMMA parecia estar por lá. Digo isso porque passei várias vezes pela área durante o abate das árvores, seja como motorista, seja como usuário da ciclovia.  Aliás, espero sinceramente que as poucas árvores existentes na ciclovia não se tornem alvo da sanha de abate que vitimou as figueiras da calçada em frente.

Uma coisa não posso dizer que me surpreende: a falta de compromisso com a qualidade climática da nossa cidade, seja por empresários ou pelos governantes.  Como venho orientando estudos sobre a questão da adaptação climática em nível municipal, sei que aqui perdura uma visão negacionista da gravidade do problema.

Isso não quer dizer que não se pode notar o descalabro que é ter árvores removidas das vias públicas para que uma determinada empresa tenha sua marca mais visível, como se isso fosse garantia de bons negócios.

 

Dependência dos royalties: conversa fiada ou realidade?

Por Douglas Barreto da Mata

Eu passei uma parte de minha vida repetindo que Campos dos Goytacazes era petrodependente, e sempre me referi a tal condição como algo ruim e, ato contínuo, vinculado a classe política de então, personificada na família Garotinho, que em minha narrativa teria sido incapaz de diversificar a matriz econômica. Volta e meia, esse debate vem à tona e, recentemente, eu pude refazer minha opinião. Não é crime mudar de opinião, ainda. 

Na verdade, a cidade de Campos dos Goytacazes desde seu nascimento, até os dias de hoje, nunca teve uma economia de múltiplas atividades.  Começou como um curral na localidade de Campo Limpo, prenúncio do que seria um curto período de pecuária, logo abandonado.  Depois, veio o extenso ciclo escravocrata do açúcar, que evolui para o período da indústria sucroalcooleira, que se exerce como monocultura, até hoje.  Ao lado desse setor cresceu um amplo leque de serviços agregados (máquinas e transporte), e comércio de toda sorte.

Durante quase 500 anos, essa modalidade econômica não deixou de legado nada mais que comércio e serviço.  Os valores acumulados (capital) e concentrados nas mãos da elite local não reverteram em inovação tecnológica, indústria, ciência, nada.  A herança é um povo pobre, que dependia e depende do poder público.

Com a chegada dos royalties, o roteiro se repetiu, e a elite decadente do açúcar se reposicionou para drenar e acumular as verbas de royalties e, novamente, o que se manteve foram o comércio, os serviços e a logística de transporte da mão-de-obra que transita entre as cidades “produtoras”.  Para sermos justos, nenhuma região brasileira que vive de monocultura agrícola ou extrativista consegue ultrapassar essa barreira, transformando o capital primário em capital de transformação.

Campos dos Goytacazes pode ter a oportunidade de manter ganhos com a atração de empresas interessadas na vocação campista de serviços, comércio e logística, como as que necessitam de locais de armazenagem e distribuição de mercadorias, parques de energia fotovoltaica, sem mencionar a possibilidade de se firmar como produtora de alimentos, desde que haja investimentos em tecnologia.

Enfim, o fato é que olhei com mais calma, e percebi que essa cidade sempre foi dependente de uma só fonte econômica, e qualquer economista mediano saberia dizer que não é o dinheiro público que tem que diversificar o capital local. Isso é tarefa do setor produtivo, detentor dessa renda, que deve dar o salto econômico. Infelizmente, esse grupo nestas terras sempre agiu como parasita.

Estudo realizado na Uenf documenta a paulatina, mas continuada, destruição do patrimônio arquitetônico de Campos dos Goytacazes

Portal Oficial da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes

Quem anda pelo centro histórico de Campos dos Goytacazes nos dias de hoje consegue notar que há ali um misto de paralisia e desconstrução da paisagem arquitetônica. Para mim o centro histórico tem sido uma espécie de sala ao ar livre desde que cheguei para atuar como professor na Uenf em 1998. Ali levo turmas de graduação e pós-graduação que usam aquela área para assimilar e criar conhecimento, em uma espécie de sala de aula concretada. 

Pois bem, por causa disso e também em função do olhar de geógrafo que guia minhas idas ao centro histórico, passei a notar há uns 15 anos o aumento do número de lotes esvaziados de seus prédios histróricos que passaram a ser usados como estacionamentos privados.  Como isso me pareceu um objeto de pesquisa interessante, convenci um dos meus orientandos a iniciar um meticuloso processo de mapeamento dos lotes esvaziados para serem transformados em estacionamentos.

O resultado desse estudo longitudinal que abrangeu coletas de dados nos anos de 2017, 2018 e 2022 acaba de ser publicado pela revista Geografia em Atos que é publicada pelo Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP de Presidente Prudente (SP), sob o título de “A destruição do patrimônio  arquitetônico no centro histórico de Campos dos Goytacazes (RJ) enquanto estratégia de reconfiguração do espaço urbano“. 

Apenas à guisa de ilustração, os dados coletados mostram que em 2017 existiam 50 lotes esvaziados sendo usados como estacionamentos, tendo esse número passado para 80 em 2018 e alcançado 93 em 2022 (ver imagens abaixo).

O estudo identificou a existência de um ciclo envolvendo a destruição do patrimônio arquitetônico para fins de reconfiguração espacial no centro histórico de Campos de Goytacazes que se inicia com o abandono do imóvel, quando ocorre a deterioração do edíficio,  a qual possibilita a sua demolição legal ou clandestina, e a imediata implantação de um estacionamento no terreno esvaziado.

Uma das conclusões do estudo é que em Campos dos Goytacazes, a criação de aparentes vazios urbanos pelos proprietários de imóveis demolidos no centro histórico da cidade aponta para o uso de uma estratégia particularmente destrutiva no bojo de um processo de espera e expectativa desses proprietários em torno da valorização do preço de suas localizações. Entretanto,  é salientando que ainda que um estacionamento possa parecer um “vazio” ou espaço desocupado, trata-se, na verdade, de uma localização em estado de espera que —diferente de um terreno parado —recompensa os proprietários com a extração de sua renda, enquanto se valoriza progressivamente.   

Uma conclusão adicional é que tais práticas visam, em última instância, garantir que os proprietários em questão tenham uma posição mais favorável no mercado de localizações em um futuro breve. Trata-se, portanto, como mencionado anteriormente, de uma estratégia de especulação imobiliária adotada a partir de uma racionalidade por parte dos proprietários, que consideram que a destruição do patrimônio é menos custosa e mais lucrativa do que sua preservação. Com isso, o que poderia estar em gestação é a formação de um vazio urbano cujas consequências serão amplamente negativas para quaisquer esforços de dinamização econômica na cidade de Campos dos Goytacazes e que, paradoxalmente, poderão atingir até os proprietários envolvidos no processo de destruição do patrimônio arquitetônico existente no centro histórico.

Em tempo: pelas minhas caminhadas recentes pelo centro histórico, pude inferir que o processo de esvaziamento de lotes de seus edíficios de valor arquitetônico não parou em 2022. O mais provável é que a velocidade dessa “destruição nada criativa” tenha até aumentado.  A minha esperança é que este estudo motive outros pesquisadores a continuarem a pesquisa o patrimônio arquitetônico do centro histórico de Campos dos Goytacazes, e quem sabe, salvá-lo da destruição completa.

Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor

Blog do Roberto Moraes: Campos dos Goytacazes

Por José Luis Vianna da Cruz

Essa gente que sai de casa de madrugada rezando pra não cruzar com um cadáver ou um ato de violência, pra acertar o ponto de ônibus da facção do bairro pra não morrer, pro ônibus passar no horário certo, no itinerário certo, com um motorista que aceite parar no ponto. Essa gente que reza para colocarem linha de ônibus que atendam quem precisa trabalhar, socorrer alguém, passear, a um preço acessível.

Essa gente que deixa os filhos com o vizinho ou sozinhos pra ir trabalhar e trazer o dinheiro do pão magro, do café malhado, dos ultraprocessados, enlatados e ensacados e do remédio para curar o mal dos ultraprocessados, rezando pra encontrar seus filhos vivos e à salvo do crime organizado.

Essa gente que quando precisa de emergência morre, a não ser que um vizinho e que uma boa alma o socorra. E que, quando chega nos prédios de atendimento à saúde fica nos corredores, gemendo, sentindo, morrendo.

 Essa gente que foi jogada no campo de concentração do Tapera III prá morrer atropelado, pra perder o trabalho por falta de condução, pra não poder estudar, pra chegar tarde demais nos hospitais, pra ficar à mercê do crime organizado não-oficial (porque tem o crime organizado oficial, institucional, público).

Essa gente que peregrina pelos equipamentos e instituições “de atendimento” e não encontra solução nem encaminhamento para seus problemas. Essa gente humilhada e sacaneada diariamente. Que não tem alento em nada de que precisa, em nada do que tem direito, para quem existem dezenas de “instituições de atendimento”.

Essa gente humilhada diariamente pelos “representantes” dos que têm poder, que “fecham” e “cercam” os bairros e favelas, administrando a falta com a parca e humilhante doação, violenta, desumanizante, indigna. Ninguém pode entrar, são áreas fechadas por cabos eleitorais, políticos, capangas e membros do crime organizado. Os que ficam perto dos condomínios dos “privilegiados” têm que ser retirados, para evitar a desvalorização do patrimônio.

Essa gente refém, submetida aos códigos e regras “dos que mandam”, contra os quais quem se rebela se dana todo – “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Por fora, de fora e prá fora, o mando dos megaempreendimentos – porto, petróleo, gás – alheios às pessoas dessa terra. Por dentro, o mando do dinheiro, da força, da repressão, da ameaça velada das “autoridades” contra os que nada têm, contra aqueles de quem é tirada a liberdade de circular, de desejar, de ter meios para conquistar. Sem empatia, sem compaixão, tratados como inimigos da Ordem Desigual. O povo é inimigo dos que mandam, mas precisam ser mantidos precariamente vivos para elegê-los, para eleger os que lhes tiram tudo, lhes negam tudo, lhes sugam tudo, fazendo-os minguar diariamente, para que não reajam.

Atacam o trabalho de sobrevivência, no campo, de quem produz alimento saudável, e na cidade, de quem trabalha com o manejo ambiental do lixo. Em defesa do agronegócio que envenena, e do “negócio de ouro do lixo”, que não pode ser pra pobre.

Não pode, sequer, haver urbanização na favela, para não dificultar a remoção futura.

Barram, ainda, os que têm empatia, compaixão, os que são parceiros, os que lutam ao lado dos que sofrem debaixo das patas desses coronéis contemporâneos. E contam com os que impedem “o bom atendimento” nas instituições, treinados para criar dificuldades para que seus padrinhos vendam facilidades, insensíveis, gabando-se de “não precisarem trabalhar – ‘tenho padrinho’, dizem”.

 Até quando, Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor?

Campos dos Goytacazes, 12/10/2025

Campos dos Goytacazes é um lugar ainda longe da necessária adaptação climática, mostra estudo na Uenf

Chuva causou alagamento na Rua Antônio de Castro com a Zuza Mota, em  Campos, no RJ

Venho estudando e orientando estudos referentes ao processo de adaptação às consequências trazidas pelas mudanças climáticas que estão ocorrendo em função da emissão de gases poluentes que resultou no aquecimento da atmosfera da Terra.  Um dos focos desses estudos são os esforços realizados (ou melhor, não realizados) para dotar governos locais dos instrumentos necessários para preparar as cidades para as drásticas mudanças que estão ocorrendo por causa do aquecimento.

Pois bem, hoje venho divulgar a dissertação intitulada “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ” que foi defendida com êxito pela minha orientanda Débora Silva Rodrigues no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf.  O estudo empregou uma série de técnicas de coleta de dados com o objetivo de obter as perspectivas existentes na população, pesquisadores e agentes de governo sobre a existência (ou não) de uma crise climática, e dos passos necessários para fazer frente ao processo. Além disso, foi feita a análise de documentos legais que deveriam versar sobre os esforços para conduzir o processo de adaptação (um deles o Plano Diretor Municipal). Além disso, também foram analisados os programas dos 3 candidatos a prefeito nas eleições municipais de 2022 (i.e., Delegada Madeleine, Professor Jeferson e Wladimir Garotinho). Finalmente, uma busca foi feita para verificar a existência de ações judiciais voltadas para a questão ambiental em Campos dos Goytacazes.

Os resultados da pesquisa mostraram a existência de um ,descompasso entre a percepção da população, os discursos das autoridades governamentais, a atuação das instituições de controle e os dispositivos legais existentes. Além disso,  a pesquisa verificou uma atuação periférica e desatualizada dos órgãos de controle que, aliada à baixa apropriação dos dispositivos legais, evidencia um déficit institucional relevante, que compromete a governança climática local.  Um fato interessante que a pesquisa evidenciou é que a população demonstrou ser capaz de reconhecer os impactos recorrentes da crise climática e perceber que os efeitos são mais intensos entre os grupos socialmente fragilizados. No entanto, o conhecimento sobre as medidas adaptativas adotadas pelo poder público é limitado, assim como a percepção sobre a relevância dessas estratégias.

Um dos dados que evidenciam a discrepância dos impactos das mudanças climáticas , pode ser verificado a partir de um mapa que foi construído a partir das respostas dadas pela população sobre o período que duram os alagamentos que ocorrem em seus locais de moradia na cidade de Campos dos Goytacazes quando chuvas intensas ocorrem. O que foi evidenciado é que os períodos de alagamento variam em diferentes pontos da área urbana, mas também dna rural (ver imagem abaixo)

Mapa dos bairros na área urbana do Município de Campos dos Goytacazes indicados pelos respondentes com situação de alagamento.

A principal conclusão do estudo é que os obstáculos enfrentados pela cidade de Campos dos Goytacazes para a construção de uma agenda efetiva de adaptação climática não se limitam a aspectos técnicos ou financeiros, mas estão enraizados em condicionantes políticos, estruturais e institucionais.  Na prática, o que estudo mostrou é que não há efetivamente uma política municipal de adaptação climátic, em que pese, por exemplo, todo o alarde que foi feito em torno do veto presidencial à chamada PL do Semiárido. 

Quem desejar ler a dissertação “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ”, basta clicar [Aqui!].

E Oscar vai para… Wladimir Garotinho

Por Douglas Barreto da Mata

A “atuação” recente do prefeito de Campos dos Goytacazes o coloca como futuro candidato ao prêmio da academia.  Podemos escolher, melhor roteiro, melhor direção e sim, melhor ator.  Poderíamos dizer que o roteiro escrito está (ou não) próximo a uma reviravolta, ou “plot twist”, como denominam os mais modernos. 

Um dos grandes problemas da crítica de cinema e da crônica política, mais ou menos especializadas, é tentar adivinhar ou descrever o que o roteirista ou o diretor pretendiam com sua obra.  Quase sempre as tentativas são em vão, e às vezes, os diretores e escritores zombam dessa pretensão dos críticos, assim como os líderes políticos ludibriam os cronistas. É o que faz Wladimir Garotinho.

O roteiro ele escreveu e ele mesmo dirige sua atuação.  Há muito ele sabia que o mero anúncio de seu desejo de concorrer a outro cargo em 2026 desencadearia “uma corrida do ouro” ou sendo mais dramático, uma excitação dos tubarões com os quais nada desde 2021. Os predadores sentem de longe o cheiro de sangue na água, isto é, um governo cujo líder diz que sairá, com data definida, tende ao enfraquecimento.

É a síndrome do cafezinho frio, quando a bebida servida no gabinete do chefe do executivo chega fria. O que ninguém conseguiu entender que toda essa narrativa pode ser uma distração ou pior, uma isca para testar lealdades. É um enredo conhecido, mas que sempre atrai os incautos e os ambiciosos em excesso. Não à toa, talvez observando o prefeito campista, o governador Cláudio Castro fez um movimento semelhante, e disse que vai não vai e pode acabar “fondo”.

Seja lá como for, aqui na planície goytacá, Wladimir Garotinho vai conduzindo seu “filme” como lhe convém, confundindo aliados, irritando adversários.  O prefeito diz com gestos exagerados, como um Almodóvar, e se comunica por metáforas, como um cinema novo de Glauber Rocha, e muita gente não entende que é ele quem define o final, feliz para uns, infeliz para outros.

Wladimir já deu título a saga: Eu ainda estou aqui.

E se Wladimir Garotinho, em vez de ir resolver ficar?

Por Douglas Barreto da Mata 

Desde que o nome do Prefeito Wladimir Garotinho começou a circular como hipótese para várias possibilidades nas eleições de 2026, que vão desde a vice-governadoria, parlamentar federal, e até a governadoria, não sendo indesejável para ele, eu penso, uma vaga ao Senado da República, o fato é que um caminho foi pouco lembrado, e até desprezado mesmo, pela maioria dos analistas sérios, e palpiteiros como eu.  Seria a permanência de Wladimir Garotinho como prefeito, até o fim do mandato.  De certo que isso mudaria todas as expectativas, e adiaria um pouco a assunção do vice Frederico Paes.

O fato é que, talvez, mais dois anos permitiriam a Wladimir organizar a passagem do bastão, ao mesmo tempo que ele poderia entregar o governo a um vice que se elegeu prefeito, e não apenas herdou o cargo por renúncia.

Uma nova base parlamentar seria eleita, já com essa configuração do novo prefeito, que exerceria com mais ênfase suas demandas na montagem dessa nominata, e faria seus próprios acordos, afastando o desgaste de ter que gerenciar acordos e as bases do Prefeito Wladimir Garotinho. Não que haja dissenso entre eles, o prefeito e o vice, ou entre o vice e a base atual, nada disso, apesar das insistentes fofocas, vai tudo bem no governo, é o que parece. Mas é diferente, quando você recebe o acervo político e quando você o monta.

Por outro lado, Wladimir Garotinho, exercendo o mandato até o fim, pode eleger sua esposa para a Câmara Federal em 2026, e rearrumar sua carreira para 2028, em um universo onde seu arqui rival estaria no TCE/RJ. O governador eleito, em dois anos, já diria a que veio, e a depender de quem Wladimir apoiar, ele poderia passar o período de 2026 até 2028 como secretário de Estado.

Tudo isso atenderia a um cálculo mais sofisticado, que consiste em garantir a aprovação de suas contas ainda nesta legislatura, e ao mesmo tempo, estando na estrutura do Estado, poderia manter o olho no TCE/RJ, para evitar surpresas desagradáveis.

Quem sabe?  A chance é pequena? Eu acho que sim, mas vai que ele resolve dizer, ali na curva da Lapa:  “Se é para o bem da cabruncada, e felicidade geral dos lamparão, diga à planície goytacá que eu fico.

Florestan Fernandes, suas análises sobre a condição do negro na sociedade brasileira e a prisão por racismo de um dirigente do PT Campos

Florestan Fernandes: 100 anos de um pensador brasileiro – Associação dos  Amigos da ENFF

Não sei quantos leram algo sobre a vida do fundador da Sociologia brasileira, Florestan Fernandes, mas sua trajetória de vida parece ter saído de um daqueles livros do surrealismo, tamanha são suas façanhas ao longo de seus 75 anos de vida. No meu caso, li duas biografias excelentes e passei por uma parte pequena de sua obra para poder escrever um capítulo de livro sobre a relação de Florestan Fernandes com o MST.  Com base nas minhas leituras sobre Florestan, eu sempre digo para os meus alunos na Uenf que ele mereceria uma disciplina  só sobre ele para que os futuros cientistas sociais formados na instituição pudessem ter a devida apreciação não apenas pela grandeza da sua obra, mas pela sua incrível contribuição ao entendimento da persistência, resistência e generosidade que um cientista deve ter para ser realmente capaz de contribuir com a sociedade onde vive.

Uma das obras mais centrais para o entendimento da sociedade brasileira que foi escrita por Florestan Fernandes tem o título de “A integração do negro na sociedade de classes“,  e nela ele analisa a dificuldade histórica da integração do negro na sociedade capitalista brasileira após a abolição da escravatura. A tornar evidente, a persistência da desigualdade e a falta de preparação para uma nova realidade. Florestan demonstrou que, sem acesso a trabalho, prestígio e segurança em condições de igualdade, o negro foi relegado a posições inferiores, sem ter suas aptidões plenamente aproveitadas. Para ele, somente uma transformação social profunda e a luta pela superação das desigualdades de classe e raça poderiam garantir uma democracia real.  Como sabemos bem, a transformação social profunda mencionada por Florestan ainda está longe de acontecer neste país e, principalmente, nesta cidade.

Florestan Fernandes me veio à mente após pensar mais um pouco e conversar com quem entende do riscado sobre a prisão do dirigente do Partido dos Trabalhadores  de Campos,  Gilberto Gomes, pela acusação de racismo.  A primeira coisa que se pode dizer da acusação e prisão de Gilberto Gomes é que ele provavelmente passará à história como uma das primeiras pessoas a passarem por essa situação nesta pobre/rica cidade.  Eu diria que quem procurar os registros policiais e os processos em andamento no Fórum Juiza Maria Tereza Gusmão Andrade por motivo de racismo deverá sair com as mãos vazias. E sabemos que atos de racismo devem ocorrer todos os dias. 

Mas então por que essa situação envolvendo um dirigente do PT que estava participando do “Grito dos Excluídos” (e me digam qual é a cor da pele mais excluídos entre os excluídos desta cidade?). Me parece que ao colocar a pecha de racismo em quem objetivamente estava em uma manifestação que explicita a necessidade de transformação sugerida por Florestan Fernandes é uma das formas mais eficientes de se desviar a atenção da realidade que ele descreveu em 1964; justamente o ano em que sofremos um golpe civil-militar que foi desenhado para impedir qualquer avanço social em prol dos mais pobres no Brasil.  Aliás, há que se dizer que Florestan Fernandes foi um dos primeiros cassados pelo Ato Institucional nº 1 que foi implementado em 9 de abril de 1964, tendo sido expulso da sua cadeira de professor na Universidade de São Paulo (USP), lugar para o qual nunca mais voltou, mesmo depois do fim do regime militar.

Então, o que fica disso é que o enfrentamento do racismo e de suas repercussões no sistema político e social brasileiro passa por entender, ao meu ver, a que e a quem ele serve.. E no caso da prisão de Gilberto Gomes, me parece que serve mais a quem mandou reprimir, mais uma vez, o “Grito dos Excluídos”. 

Por mais Florestan Fernandes em nossas vidas, essa é a minha conclusão.