Incêndios como estratégia de apagamento da memória e do patrimônio arquitetônico em Campos dos Goytacazes

Apesar de não gostar de antecipar trabalhos acadêmicos que eu esteja desenvolvendo com meu grupo de pesquisa, o mais recente incêndio de um edifício tombado pelo seu valor histórico, o Hotel Flávio, me faz pensar que no centro histórico de Campos dos Goytacazes estamos diante de uma eficiente estratégia de apagamento da  nossa rica memória arquetônica via a ocorrência de sinistros. No caso do Hotel Flávio, o mesmo foi construído ainda no século XIX e pertenceu aos familiares do Visconde de Araruama, tendo sido tombado pelo Coppam em 12 de setembro de 2013.

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O fato é que um dos meus orientandos tem no forno um detalhado artigo científico apresentando um mapeamento cuidadoso dos casos de incêndio que consomem edifícios de valor histórico (tombados ou não), sua posterior demolição e trasnformação em estacionamentos. Aliás, vamos esperar para ver o que acontecerá no espaço que hoje abriga o prédio histórico do Hotel Flávio. O meu palpite com base em meu conhecimento científico sobre o centro histórico de Campos? Um estacionamento, é claro.

Temos associado a essa situação à criação de espaços de espera e de reserva de valor, na medida em que os estacionamentos seriam usados como mecanismos de geração de renda até que o centro histórico seja, digamos, abraçado pelo mercado imobiliário que se serviria de um dos metros quadrados mais caros da cidade para gerar o chamado processo de “gentrificação” que tornaria aquela área, mais uma vez, o lócus de produção e reprodução das classes mais abastadas da cidade.

Sabe o que é Gentrificação? - APEGAC

E tudo isso sem que haja a devida reação do poder público para proteger e conservar um patrimônio arquitetônico que contém o segundo maior acervo de edifícios ecléticos do Rio de Janeiro.

Finalmente, adianto que quando o artigo supracitado for finalmente publicado, o mesmo será obviamente postado aqui neste espaço.

 

O Garotismo como braço auxiliar do Bolsonarismo ou… o triste fim de uma carreira política promissora

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De político promissor a braço auxiliar de Jair Bolsonaro, a peculiar trajetória de Anthony Garotinho

Morando em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998, pude assistir ao auge e à decadência de uma importante liderança política que chegou a angariar impressionantes 17,86% dos votos para presidente em 2002 pelo PSB. Antes disso, essa personalidade havia sido eleito aos 39 anos para governar o estado do Rio de Janeiro, o que representou uma fenômeno eleitoral, na medida em que um político saído do interior bateu adversários fortes em uma eleição bastante concorrida.  Entretanto, após a perda das eleições de 2002, em vez de usar o capital político angariado para se firmar como importante liderança nacional, esse agora não tão jovem político abandonou suas raízes de esquerda e caminhou firme e resolutamente para a direita, até se tornar uma espécie de braço auxiliar da ideologia de extrema-direita que se convencionou chamar de “Bolsonarismo” (aliás, quem sabe qual é o partido atual desse personagem?). 

Obviamente falo acima de Anthony Garotinho, a fulgurante figura que saiu dos palcos do teatro campista para navegar por diversos partidos para aportar nos braços de Jair Bolsonaro. Como já tive a oportunidade de, ao longo dos anos, acompanhar o que considero o brilhantismo político de Anthony Garotinho, vê-lo como uma espécie de papagaio de pirata da extrema-direita chega a ser decepcionante, pois sempre respeitei a sua sagacidade e capacidade de sobrevivência política.

Mas há que se lembrar que esse percurso da esquerda para a direita não aconteceu sem que fosse possível notar a transmutação. É que para quem não se lembra, Anthony Garotinho foi um dos primeiros, senão o primeiro, político a falar da existência de um inexistente “Kit Gay” que seria distribuído pelo Ministério da Educação e Cultura. Aliás, foi ali que Garotinho ofereceu a primeira “dica” para Jair Bolsonaro para criar um fantasma para atacar o governo do PT que era comandado por Dilma Rousseff. Não é à toa que recentemente, a candidata derrotada e filha de Garotinho, Clarissa, reviveu mais uma vez a fábula do “Kit Gay” para reforçar seu discurso cada vez mais reacionário.

Agora em um segundo turno acirrado está anunciada a vinda do senador Flávio Bolsonaro para uma carreata na cidade de Campos dos Goytacazes, a qual deverá ter a participação da filha Clarissa e do filho-prefeito, Wladimir Garotinho. Esse evento marcará a consolidação do processo de subalternização da família Garotinho à Jair Bolsonaro.  Até aqui nenhuma surpresa, pois não me parece haver mais caminho de retorno para Anthony Garotinho e seus descendentes. Entretanto, ao se abraçar a Jair Bolsonaro, Anthony Garotinho não só se descola definitivamente de qualquer possibilidade de praticar uma política progressista, mas também se arrisca a afundar junto com Jair Bolsonaro.

A questão agora é saber como a herança de desmobilização e desorganização que acompanhou a trajetória do “Garotismo” será apagada da política campista. Pessoalmente vejo algumas possibilidades promissoras para que haja uma saída pela esquerda em um quadro que momentaneamente nos torna um dos municípios mais bolsonaristas do Brasil. De toda sorte, uma coisa me parece sorte: o Garotismo tenderá a uma maior fragmentação que desembocará num maior fracionalismo que poderá, entre outras coisas, gerar uma disputa pela marca Garotinho. Isso, aliás, já ficou claro por meio de um vídeo para lá de caótico no qual o patriarca cobrava e denunciava o que considerava ser um corpo mole do filho-prefeito em relação à campanha eleitoral da irmã-candidata a senadora. 

Os péssimos resultados de Campos dos Goytacazes no IDEB são apenas a ponta de um imenso iceberg de destruição da educação municipal

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Os péssimos resultados  obtidos, mais uma vez,  por Campos dos Goytacazes na edição de 2022 do chamado Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) são apenas a ponta de um gigante iceberg, e revela que há uma persistente crise estrutural na rede municipal de educação. 

Mas relatos que tenho recebido de pais e profissionais da educação municipal revelam fatos gravíssimos que estão ocorrendo em muitas escolas municipais, onde turmas inteiras estão sem professores e, pior, em edifícios escolares em que inexistem até portas nas salas de aula.

Uma colega que atua na rede estadual de ensino na Baixada Campista me relatou que a capacidade de aprendizagem dos alunos que chegam da rede municipal é tão precária que, em sua escola, um primeiro esforço é realizar um nivelamento para que os jovens estudantes possam ter um mínimo de chance para que possam evoluir dentro do sistema estadual.

A situação, segundo essa mesma colega, chega a ser bizarra, pois na escola municipal que fica ao lado da sua, na maioria do tempo as crianças ficam sem qualquer atividade escolar, na medida em que inexistem professores para dar aula. Com isso, o ambiente da escola serve apenas para que as crianças se alimentem, já que não efetivamente não existe um processo de aprendizagem ocorrendo.

O problema não é falta de dinheiro, mas de projeto de escola

Alguém mais desavisado que o fato de Campos dos Goytacazes estar na rabeira do IDEB no estado do Rio de Janeiro se deve à falta de recursos financeiros por parte da Prefeitura Municipal.  Acontece que Campos dos Goytacazes ainda possui um dos maiores orçamentos municipais do Brasil e, por extensão, de toda a América Latina. Aliás, se olharmos o montante gasto com a educação municipal, veremos que um dos maiores orçamentos de secretarias municipais é o da Educação.

Desta forma, a situação catastrófica em que a educação municipal me faz lembrar da frase lapidar que do  fundador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o professor Darcy Ribeiro, caracteriza a crise da educação brasileira. Darcy dizia que  “a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto“.  

Parece óbvio que o projeto identificado  por Darcy Ribeiro visa manter os filhos da classe trabalhadora em condição de completa desigualdade de oportunidades, não me que lhes é negada a possibilidade de uma educação que efetivamente os habilite a se inserir no mercado de trabalho com alguma chance de sucesso.

Ao se negar um ensino minimamente de qualidade às crianças campistas, o que se faz é mantê-las em um ciclo vicioso de pobreza e violência, esta é a mais pura verdade.

O curioso é que vimos em plena pandemia da COVID-19 o Ministério Público Estadual pressionando a Prefeitura de Campos dos Goytacazes a fazer o retorno das aulas, ainda que se colocasse em risco as crianças e suas famílias pela possibilidade de aumento de transmissão do coronavírus.  Mas não vejo movimento semelhante para cobrar que as crianças tenham professores e ambientes escolares que lhes ofereça mais do que o pouco sendo oferecido neste momento.

Campos dos Goytacazes, a cidade onde o Bolsonarismo corre abraçado com a miséria e a fome

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Um observador astuto da política de Campos dos Goytacazes me enviou uma reportagem que mostrava que o nosso município foi um dos que deu mais votos proporcionalmente para Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 (impressionantes 58,01%).  Há ainda que se celebrar que no primeiro turno de 2018, Bolsonaro havia obtido 55,19% dos votos, o que mostra um notável padrão de consistência.

Para olhos menos atentos, esse resultado soa como surreal, já que temos aqui dados igualmente impressionantes no tocante à pobreza extrema e de famílias passando fome. Analisados pela ótica da necessidade em relação ao voto, os resultados deste ano aparecem como em contradição com a realidade objetiva, carecendo ainda algum tipo de explicação.

A primeira observação óbvia é que resultados eleitorais muitas vezes têm pouco a ver com a realidade das pessoas pobres. O que geralmente explica este tipo de resultado tem mais a ver com a capacidade de organização dos principais candidatos, o arco de alianças em plano local, e, não raramente, o uso de meios ilegais para captação de votos (um caso exemplar disso é a uma animada cerveja realizada em uma praça recém-reformada pela Prefeitura de Campos no Distrito de Travessão, em um ponto bem próximo das urnas eleitorais. Tudo isso enquanto os eleitores ainda estavam na fila  tentando votar).

Nesse aspecto, o fato de que as duas famílias que hoje dominam a cena política campista (i.e., os clãs Bacellar e Garotinho) apoiaram de forma vigorosa a candidatura de Jair Bolsonaro, deixando de lado as brigas locais para se concentrar no plano nacional, já serviria como parte da explicação. Por outro lado, há que se considerar o fato de que o Partido dos Trabalhadores (PT) vem no plano municipal se arrastando em estado de morbidez desde sempre. Para piorar a coisa, alguns dos quadros tradicionais do partido hoje não podem nem ocupar a mesma esquina da cidade sob pena de ocorrer algum estranhamento. Nesse sentido, os caciques municipais do petismo continuam fazendo exatamente o contrário do que os Bacellar e Garotinhos fizeram para juntos ajudar a Jair Bolsonaro a vencer de forma dominante.

Há ainda que se dizer que ao contrário dos Bacellar e Garotinhos que não são “bolsonaristas raiz”, a cidade de Campos dos Goytacazes tem uma história antiga de presença da extrema-direita, tendo sido um dos quartéis generais da famigerada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Essa extrema-direita agora tem Jair Bolsonaro como uma espécie de farol para implantar seu projeto conservador de sociedade. Tanto isso é verdade que já estão espalhadas faixas anônimas cobrando o prefeito Wladimir Garotinho que deixe de ser uma espécie de “bolsonarista Nutella” para assumir uma face mais “raiz” (ver imagem abaixo).

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Mas no meio desse caos político, centenas de pessoas continuam labutando em semáforos e esquinas para obter algum tipo de “ganha pão” que minimize o profundo sofrimento a que são submetidas pelas políticas ultraneoliberais de Jair Bolsonaro, aquele mesmo que obteve os acachapantes 58% mencionados no primeiro parágrafo deste texto.  Esta realidade tão irracional na aparência apenas serve para mostrar que se nada for feito para alterar o equilíbrio de forças, candidatos como Jair Bolsonaro continuarão tendo votações expressivas em Campos. É que já está mais do que demonstrado que a miséria e fome não geram consciência política, mas apenas desprezo pelo processo político e submissão aos políticos que manipulam melhor o desespero alheio.

Felizmente, as eleições de 2022 trouxeram um raio de luz nessa escuridão toda por meio das votações expressivas de Zé Maria (PT) e Professora Natália Soares (PSOL). Com jeito distintos de fazer campanha e com propostas distintas, os dois mostraram que há sim espaço para a esquerda em Campos dos Goytacazes. O problema é que para haver alguma viabilidade eleitoral, a esquerda local vai ter que arregaçar as mangas e começar a trabalhar de forma tão diligente quanto fazem os Garotinhos e os Bacellar.

Escândalo do CEPERJ: quem em Campos tem medo do fantasminha do Freixo?

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Boneco inflável do “fantasma do Ceperj” foi colocado na frente da sede do órgão. Em Campos dos Goytacazes atentado político impediu que o “fantasminha” desse o ar da graça

Que as revelações trazidas inicialmente pelas reportagens escritas pela dupla de jornalistas do UOL, Ruben Berta e Igor Mello, deixaram muita gente tensa na cidade de Campos dos Goytacazes e municípios vizinhos eu não tenho a menor dúvida. Afinal de contas, quanto mais eu ouço falar do escândalo financiado em grande parte com recursos obtidos pela escandalosa privatização da CEDAE, mais eu fico sabendo que a teia de gente envolvida cruza partidos políticos da direita à esquerda.

Agora, a informação publicada pelo jornal O ESTADO DE SÃO PAULO que um grupo de militantes da campanha do candidato a governador, Marcelo Freixo, teve um membro espancado por “desconhecidos armados” ao tentar iniciar uma atividade ornamentada com um “fantasma” em alusão justamente ao esquema desvelado por Berta e Mello, e que vem tendo ampla cobertura em outros veículos da mídia corporativa.

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Eu não sei qual foi o “jênio” que deu a ordem para que essa ordem para que esse atentado político fosse realizado, mas o efeito prático é que o escândalo do CEPERJ, que estava em um período de calmaria, volte com força em novas reportagens. É que não vai faltar gente investigando quem foram os autores do atentado e, muito certamente, os mandantes do mesmo.

Conhecendo um pouco com pensa Marcelo Freixo, esse atentado vai ser usado de forma bastante direta em sua campanha de TV e rádio nos próximos dias. É que esse atentado abriu o caminho para que se pergunte quem é que tem medo do Fantasminha do Freixo. Como o governador acidental Cláudio Castro tem um imenso telhado de vidro no escandâlo do CEPERJ, quem pode culpar Marcelo Freixo se fizer a pergunta que não quer calar: quem tem medo das revelações que milhares de fantasmas recebiam na boca do caixa sem sequer saber onde trabalhavam ou que deviam fazer em troco de salários gordos custeados com as verbas da CEDAE?

Ah, sim, como ainda há muita apuração em curso por vários jornalistas investigativos, não seria de se estranhar que novas reportagens, inclusive uma sobre este atentado político, estejam já em curso.  O mais lamentável é ver Campos dos Goytacazes novamente nas manchetes nacionais, mas pelos motivos completamente errados.

 

Com contas reprovadas pela Câmara Municipal, Águas do Paraíba ganha “presente” retroativo que pesará no bolso dos campistas

Desembargador concede liminar a Águas do Paraíba e autoriza reajuste de 18% na conta de água e esgoto retroativo a janeiro de 2022

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Por Ralfe Reis  

O desembargador Adriano Celso Guimarães, da Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, concedeu nesta quinta-feira (14) antecipação de tutela a Águas do Paraíba, em agravo de instrumento interposto pela concessionária, para aumentar o valor da conta de água e esgoto em 18,10%.

A liminar precaríssima ainda determina o reajuste retroativo a primeiro de janeiro de 2022.

“Considerando os precedentes jurisdicionais colacionados, a previsão contratual autorizando a recomposição anual das tarifas de acordo com a variação dos custos dos insumos e a própria concordância do Prefeito municipal acerca da existência da cláusula de reajuste, sem trazer, em sua decisão, qualquer embargo ao montante da variação postulada, defiro. em antecipação de tutela, a pretensão recursal para que se proceda à aplicação do reajuste tarifário, retroativo a primeiro de janeiro de 2022, no percentual de 18,10% (dezoito vírgula dez por cento).”, decidiu o desembargador.

No último dia 28 de junho, o juiz Leonardo Cajueiro, da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes, indeferiu o pedido da poderosa Águas do Paraíba (aqui).

Em dezembro de 2021, o prefeito Wladimir Garotinho vetou o reajuste contratual de 18,10% e o alinhamento tarifário de 1,946% requerido pela concessionária.

À época, a Câmara Municipal também reprovou as contas da concessionária, e recomendou que não fosse concedido o reajuste.

Com lucros milionários, a Águas do Paraíba atua em Campos dos Goytacazes com contrato precário, atualmente através de aditivos, praticamente vitalícios.

A concessionária sempre utiliza de mecanismos judiciais para colocar seu contrato precário acima das leis e dos atos discricionários do poder executivo e legislativo.

A decisão de hoje vai levar vários campistas à falência.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Blog do Ralf Reis” [Aqui!].

Campos dos Goytacazes, pobre cidade rica, onde R$ 260 mil vão virar fumaça em um foguetório enquanto a multidão passa fome

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Pode até parecer perseguição, mas é apenas constatação.  É que hoje notei aqui o gasto de R$ 136 mil com a contratação do ex-professor de História da UNICAMP, Leandro Karnal, que virá a Campos dos Goytacazes para provavelmente brindar a plateia com mais uma daquelas suas palestras motivacionais com tintas de humanismo neoliberal.

Mas não é que hoje o Diário Oficial de Campos dos Goytacazes traz outra contratação de custo salgado, pois se irá gastar R$ 260 mil para a realização de “serviços pirotécnicos”. Em outras palavras, para “pocar foguete” (ver imagem abaixo).

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Não querendo parecer chato, mas já sendo, me pergunto se eu tenho que lembrar aos nossos ilustres governantes das milhares de pessoas que hoje percorrem latas de lixo para tentar garimpar alguma coisa para gerar recursos para, por exemplo, comprar comida? Não que eu não aprecia espetáculos pirotécnicos, mas será que em uma cidade que existe muita gente passando fome, gastar quase R$ 300 mil com foguetório é a forma mais apropriada de se usar dinheiro público? 

 

 

Campos dos Goytacazes, com escolas com salas sem porta, vai gastar R$ 136 mil sem licitação por uma palestra com Leandro Karnal. Pode isso?

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Uma colega que milita no ensino básico municipal me narrou recentemente as dificuldades encontradas para ministrar aulas em uma tradicional escola localizada no centro da cidade. O motivo, entre muitos, é prosaico: a maioria das salas daquela escola sequer possuem portas, tornando o ambiente escolar, no mínimo, bastante difícil de ser gerido.  Mas salas sem porta não são o único problema em uma rede municipal que custa bastante dinheiro aos cofres públicos municipais. Há escolas em que nem merenda chega, deixando as crianças passando fome.

O problema é que nem todos os custos são, digamos, minimamente justificáveis, especialmente em uma cidade em que milhares de famílias vivem abaixo da linha da miséria segundo dados oficiais do governo federal. Um exemplo disso é a contratação, sem licitação, de uma empresa cujo objeto é realizar uma palestra com o ex-professor de História da Unicamp, Leandro Karnal, por salgados R$ 136 mil (ver imagem abaixo).

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Se nada de ilegal houver com essa contratação, há que se perguntar da oportunidade e da razão para que se faça um gasto desse montante neste exato momento. Há que se lembrar que os servidores públicos municipais acabam de encerrar uma greve por estarem com salários congelados, pelo menos desde o governo de Rosinha Garotinho.  

Ao que parece não são apenas os shows sertanejos que precisam ter o seu custo para cofres municipais examinado com mais carinho.  

As cenas do Parque Saraiva como oráculo do que virá até as eleições de outubro. E adianto que nada será “normal”

Imagino que a maioria dos habitantes de Campos dos Goytacazes não tem muito conhecimento da localização do Parque Saraiva, um bairro que está localizado no II Distrito do município, Goitacazes. Assim, se nem os campistas sabem da existência desse pequeno bairro, composto por nove ruas perpendiculares à RJ-216, quiçá o resto dos brasileiros que se distribuem em país de dimensões continentais (ver mapa abaixo mostrando a localização do bairro).

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Mas apesar da desproporção escalar, o Parque Saraiva se transformou ontem (15/06) em uma espécie de antessala do que deverá acontecer nas eleições gerais que ocorrerão no Brasil (ou pelo menos se espera que ocorra) no mês de Outubro.  É que num ponto empoeirado daquele pequeno bairro, se aglomeraram apoiadores dos grupos políticos familiares que hoje se degladiam para dominar a política municipal, sob as vistas preocupadas do governador acidental do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.  Diante de uma plateia numerosa, o que se testemunhou foram as mais puras formas de agressão verbal que se pode manusear para tornar direitos emmeros objetos de pura barganha política (ver vídeo abaixo).

A despeito do que possa parecer, o que ocorreu no Parque Saraiva é um retrato fiel de como a dominação ideológica de setores que se valem do estado para se manter em posições privilegiadas, enquanto a maioria da população pobre se vê cotidianamente privada de direitos constitucionais básicos, como, por exemplo, o direito à moradia digna.

O mais interessante é que no frigir dos ovos, o palanque que se tornou palco de trocas de farpas pontiagudas reunia apenas aliados do governador acidental Cláudio Castro, essa é a verdade inescapável.  Assim, se as agressões verbais, que ameaçaram deflagrar uma batalha campal de fins imprevisíveis, foram tão evidentes entre aliados (ainda que de ocasião), imaginemos o que poderá acontecer quando os encontros se derem entre adversários de direita e esquerda.

Como alguém já disse, esqueçam a ilusão de que haverá algum nível de normalidade cívica nos eleições de outubro. A poeira levantada nas proximidades do palanque montado para celebrar (no melhor estilo de campanha antecipada) um projeto de mirrados R$ 32 milhões é apenas o prenúncio do que virá até que cheguemos (se chegarmos) nas salas eleitorais.

Quem viveu a idade de ouro dos shows em Campos dos Goytacazes não se choca com a farra sertaneja revelada (sem querer) por Zé Neto

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Quem vive em Campos dos Goytacazes há mais de duas décadas como é o meu caso não pode estar  surpreso com o imbróglio envolvendo os shows de artistas sertanejos pagos regiamente com dinheiro público. É que aqui na capital mundial do chuvisco ocorreram nos primeiros anos da década de 2000 shows com os principais artistas brasileiros reunidos no tradicional Jardim São Benedito, sem que se soubesse muito bem quanto estava se gastando, sob o pomposo nome de “Viva Melhor, Viva Música” (ver imagem abaixo).

Políticas públicas de lazer em Campos dos Goytacazes: o que é ruim sempre  pode piorar | Uma edição dominical do “Viva Melhor, Viva Música” no Jardim São Benedito na região central da cidade de Campos dos Goytacazes

O mais interessante é que enquanto a classe média se divertia no Jardim São Benedito com nomes para lá de conhecidos, aos moradores dos bairros periféricos restava a locomoção até o Farol de São Thomé para presenciar shows de artistas locais, muitos dos quais depois passavam um verdadeiro perrengue para receber cachês mais modestos.

Esse acesso diferenciado aos shows foi meticulosamente documentado pela minha orientanda Denise Rosa Xavier que se tornou Mestre em Políticas Sociais após defender com sucesso a dissertação intitulada “Políticas de Lazer e Segregação Sócio-Espacial: o Caso de Campos dos Goytacazes (RJ).

A Telhado de Vidro acabou com a festa campista

O intenso uso de verbas públicas oriundas dos royalties do petróleo continuou firme até meados de 2008 quando ocorreu a famosa “Operação Telhado de Vidro” que resultou na prisão de quatorze pessoas, incluindo empresários, dois secretários municipais e o então procurador-geral do município. A Telhado de Vidro resultou ainda no afastamento temporário do cargo do então prefeito Alexandre Mocaiber. Naquela época a bagatela envolvida foi de alegados R$ 240 milhões de dinheiro público que teria sido desviado para, entre outras coisas, a realização de shows no Farol de São Thomé.

O que muita gente já não deve lembrar é que o nome “Telhado de Vidro” porque uma da empresas envolvidas nos casos de shows superfaturados se chamava “Telhado de Vidro Produções Artísticas” que faria parte de uma espécie de holding de empresas de shows pertencentes ao empresário Antônio Geraldo Seves.

Os shows sertanejos com dinheiro público podem ser o “Telhado de Vidro” da vez, só que em escala maior

Se os preços de shows praticados em Campos dos Goytacazes até a eclosão da “Telhado de Vidro” em 2008 fossem ajustados para os dias atuais não seria de se surpreender que estivessem no mesmo patamar.  Mas a semelhança não pararia por ai, pois se em Campos os shows eram pagos com recursos oriundos dos royalties do petróleo, ao menos no caso do show do cantor Gustavvo Lima que foi cancelado em Conceição do Mato Dentro (MG), os recursos para pagamento do artista viriam do Fundo de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem)  que é pago pelas mineradoras às cidades onde há mineração . Em outras palavras, de roaylties da mineração.

Desta forma, dadas as semelhanças iniciais, não me surpreenderia que no caso de uma apuração mais ampla se descobrisse o uso de todo tipo de recursos que deveriam estar servindo para melhorar a qualidade de serviços públicos essenciais como saúde, educação, transporte e habitação. Aliás, quem quiser vir a Campos dos Goytacazes e se informar sobre a herança trágica deixada pelos shows superfaturados ainda encontrará muitas testemunhas oculares da idade de ouro dos shows turbinados com royalties do petróleo.