Enquanto o calor aperta, a poda drástica continua dilapidando a arborização em Campos

A poda drástica da arborização urbana caminha exatamente na direção contrária do que uma cidade deveria fazer para se adaptar às mudanças climáticas

A fotografia abaixo, feita na esquina entre Riachuelo e Sete de Setembro em Campos dos Goytacazes, mostra uma prática que continua sendo tratada como corriqueira: a poda extremamente severa de árvores urbanas, com a retirada de grande parte de suas copas. O problema é que, em tempos de agravamento da crise climática, aquilo que já poderia ser considerado um manejo inadequado da arborização passa a representar também um sério equívoco de política urbana.

Árvores não são meros elementos decorativos das cidades. Suas copas produzem sombra, reduzem o aquecimento de calçadas, ruas e edificações e, por meio da evapotranspiração, contribuem para diminuir a temperatura do ambiente urbano. Além disso, ajudam na retenção da água das chuvas, na captura de carbono e de material particulado e oferecem abrigo e alimento para a fauna. Retirar drasticamente uma copa significa eliminar, justamente nos meses mais quentes, boa parte desses serviços ambientais.

A situação se torna ainda mais contraditória diante da perspectiva de um El Niño muito forte, que poderá contribuir para condições de calor particularmente severas no Brasil no final de 2026 e início de 2027. Para uma cidade quente como Campos dos Goytacazes, preparar-se para temperaturas extremas deveria significar aumentar a cobertura arbórea e preservar árvores adultas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas, e não transformar árvores de grande porte em troncos praticamente desprovidos de copa.

Há ainda outro problema: podas excessivamente severas podem provocar estresse, favorecer doenças e produzir brotações estruturalmente frágeis, reduzindo a estabilidade e a longevidade das próprias árvores. Assim, uma intervenção muitas vezes justificada em nome da “segurança” pode, quando tecnicamente inadequada, produzir novos problemas no médio prazo.

A imagem que ilustra esta postagem é, portanto, mais do que o registro de algumas árvores podadas. Ela sintetiza uma contradição que precisa ser enfrentada em Campos: não existe política séria de adaptação ao calor extremo sem uma política igualmente séria de arborização urbana. Em plena emergência climática, retirar indiscriminadamente as copas das árvores significa desmontar uma das poucas infraestruturas naturais de resfriamento que a cidade já possui — e ainda por cima gratuitamente. Por isso, mais do que interromper a prática das podas drásticas, é necessário que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente comece a desenvolver um Plano Diretor Municipal de Arborização, capaz de estabelecer critérios técnicos para plantio, escolha de espécies, manejo, poda, substituição e ampliação da cobertura arbórea. Diante do agravamento da crise climática e da perspectiva de episódios cada vez mais intensos de calor, arborizar Campos deixou de ser uma questão meramente paisagística para se tornar uma política essencial de adaptação climática e de saúde pública.

Campos dos Goytacazes: a anti-cidade?

Por Luciane Soares da Silva*

Em 2026 a maior parte da população reside em cidades. A urbanização torna-se um desafio cotidiano. Não apenas a criminalidade urbana mas problemas de trânsito, coleta de lixo, mobilidade, poluição, acesso aos espaços comuns de parques e praças. Como coordenar a vida compartilhando a cidade com milhares de pessoas? Nossas utopias de um futuro mais rápido foram soterradas por problemas não resolvidos durante o século XX. A desigualdade, a segregação, o racismo ambiental, a contaminação de rios e afluentes são alguns dos problemas. E qual a agência da população diante destes desafios?

Saio de casa as 8:00 horas de uma manhã chuvosa de agosto. Uma caminhada curta até a avenida Gilberto Cardoso e a paisagem apresenta lixo. Na rua, embalagens de quentinhas que não foram  recolhidas na noite passada. Na esquina, restos de plástico, comida, fraldas e outros objetos depositados em lugar inadequado. Próximo ao valão, um lixão a céu aberto sempre frequentado por urubus que usam os postes para tomar sol ao longo da avenida Alberto Lamego. Após o valão, garrafas de cerveja, sacos plásticos e aviso de proibição em relação ao lixo e carros na calçada. Pensando a produção de um dossiê sobre espaço, questão urbana e periferia, questiono o que faz a cidade de Campos tão diferente de periferias globais, no Rio de Janeiro ou na Índia? Sim, a comparação é necessária para avaliarmos as cidades no século XXI e suas periferias.

Após 20 anos pesquisando as favelas do Rio de Janeiro posso afirmar que caçambas de lixo são retiradas diariamente da Rocinha, da Maré, do Alemão. E ainda assim, sempre há uma luta inglória contra a capacidade de produção de lixo. A quantidade de latas, garrafas e materiais que permanecerão anos na natureza, iguala sociedades que ainda não resolveram esta questão central para qualidade de vida de seus habitantes. E aqui reside uma compreensão que pode ser estendida para questões como combate ao mosquito da dengue, o uso de máscaras e outras medidas que só funcionam coletivamente: como lidar com a atual situação ultra privatizada do espaço público? Condomínios de luxo não realizam um trabalho de manutenção das calçadas (porque esta é a sociedade do carro), não cortam a grama (o que impacta o controle de mosquitos se considerarmos pequenas formações de poças) e vivem em áreas de limpeza privada ignorando a restante da cidade. O mesmo ocorre em áreas nobres: a coleta nunca atinge o nível ótimo, o que em minha avaliação, revela que estamos produzindo mais lixo e descartando de forma absolutamente caótica. Como pensar o direito à cidade, a partir de Henri Lefebvre sem pensar o comum?

O parque abandonado na Artur Bernardes, apenas com um pórtico. A cidade não utiliza o espaço que literalmente torna-se um elefante na paisagem. A praça São Salvador, revitalizada a contragosto da população, já foi lugar prazeroso para sentar embaixo de árvores. Que modernidade é esta, na qual árvores têm de ceder espaço para carros, estacionamentos, igrejas e mármore? Que modernidade é esta, na qual a verticalização de prédios ao longo da avenida Pelinca, transforma dez minutos de chuva em horas de alagamento?

As relações na cidade se expressam no trânsito e neste caso, subimos pela Saldanha Marinho, descemos pela Formosa. Anda-se pela Beira Valão como em São Paulo. Mas a cidade, em sua zona central de circulação não deveria viver sob um caos completo, de costas para o Rio Paraíba.

Caos que se repete no rodoviária Roberto Silveira. Ali não apenas caos, mas sujeira, espera, perigo e desânimo. Descaso com os mais pobres que precisam chegar aos distritos da cidade. Na outra ponta, o Shopping Estrada apresenta uma infestação de pombos e andorinhas. O asco do cidadão comum só não é maior que a espera por transformações jamais vistas. Bancos não podem ser usados, e um teto metálico de 30 anos, mostra sinais do tempo, tomado por ferrugem. E esta é a rodoviária que liga a cidade a região nordeste, São Paulo, Vitória, Rio, Belo Horizonte. Difícil lembrar de algo parecido em outras cidades.

A cidade pós pandemia segue sua rotina sem coleta seletiva de lixo em todos os bairros, sem melhoria de transporte, sem acesso aos parques. O equipamento do CEPOP passa o ano fechado, usado raras vezes para alguma feira de carros, as bienais e o feriados oficais. É a expressão máxima da ausência de vida pulsante e eventos abertos.

A cidade cresce mas os hospitais não dão conta da complexidade representada pelo envelhecimento da população. Além disto, não há acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção que precisem atravessar uma das pontes em Campos. Pontes que separam dois mundos. O preconceito do campista em relação a Guarus é uma das formas de racismo ambiental mais explícito que já presenciei. Lá estão a cidade de Palha, Santa Rosa,  Novo Horizonte, Santa Helena. Mas hoje, Guarus apresenta aquecimento do setor imobiliário. Ainda assim, ao pesquisar imagens, encontramos carros da PM, corpos furados à bala e quando discutimos de Guarus é um gueto, não há como esquecer a recusa de carros de aplicativo em levar passageiros aos bairros após as oito da noite (problema igual vive a Penha).

É curioso perceber como a região que abriga o Porto do Açu, a Bacia de Campos, grandes Universidades, uma rede extensão de escolas e terras para plantio, ocupe posições tão lamentáveis em indicadores de educação como o IDEB. Tecnologia de ponta e escassez de associação. A recepção dos royalties não altera a vida das famílias na Portelinha e na Tira Gosto. Acreditar que a pobreza é resultado de escolhas individuais colabora para que nada mude, é adesão à ideologia escravocrata da cana e obviamente, a neo escravização pelo petróleo. Mentalidade extrativista decadente. Nem para espoliação de trabalho servem aqueles que nunca tiveram carteira assinada. A renda que não circula, não produz melhores condições.

A cidade é vivida como estranhamento, negação e vergonha. Nos escandalizamos com a compra de votos como motor de uma política do “meu pirão primeiro”. Mas mesmo diante de denúncias, nenhuma fiscalização surte efeito. São em pequenas mesas que o poder legislativo encontra o judiciário e os empresários e coronéis. Talvez alguns pastores atualmente.

Como mover a vida, o urbano, a cidade, na direção do futuro? Como resistir a degradação social, fruto de segregação?

Que utopia ainda ocupa nossa imaginação nas cidades do século XXI?

É preciso pensar este com urgência sobre o lixo, a violência, a ausência de praças e escolas no campo, o uso de terra, o lugar do Rio Paraíba.

É preciso pensar a cidade.

*Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.

Um dia depois, a fumaça continua e um silêncio sepulcral envolve os responsáveis por combatê-la

As imagens registradas nesta sexta-feira (24) mostram que as queimadas seguem consumindo áreas de Campos dos Goytacazes e mantêm uma espessa camada de fumaça sobre a cidade. A repetição do problema apenas um dia após a informação publicada neste blog revela a incapacidade — ou a falta de disposição — dos órgãos públicos para enfrentar uma situação que já ultrapassou os limites de uma questão ambiental e assumiu contornos evidentes de uma crise de saúde pública

Ontem publiquei neste espaço o texto Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental com o objetivo de chamar atenção para um fenômeno que se repete todos os anos, mas que em 2026 atingiu uma intensidade particularmente preocupante. As fotografias divulgadas naquele momento mostravam grandes colunas de fumaça cercando Campos dos Goytacazes e indicavam que a população estava submetida a uma deterioração significativa da qualidade do ar. A expectativa mais modesta seria que a ampla visibilidade do problema estimulasse uma resposta rápida dos órgãos encarregados da fiscalização e da proteção ambiental.

As imagens registradas nesta sexta-feira demonstram, entretanto, que praticamente nada mudou. Novos focos de queimadas continuam ativos em diferentes pontos do município, enquanto extensas massas de fumaça permanecem cobrindo o horizonte e reduzindo a visibilidade em diversos bairros. A população continua respirando material particulado e outros poluentes produzidos pela combustão da vegetação, situação que aumenta os riscos para crianças, idosos e pessoas acometidas por doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que compromete a qualidade de vida de todos os moradores. 

A persistência desse cenário evidencia que o problema não decorre apenas das condições climáticas típicas do inverno no Norte Fluminense, caracterizadas por baixa umidade relativa do ar, vegetação ressecada e ventos que favorecem a propagação do fogo. Esses fatores são conhecidos há décadas e deveriam orientar ações preventivas permanentes por parte do poder público. Quando as queimadas continuam ocorrendo sucessivamente e a fumaça permanece encobrindo a cidade por vários dias,  é inevitável concluir que as medidas de prevenção, monitoramento e fiscalização têm sido insuficientes para impedir que a situação se agrave.

Também não faz sentido restringir essa responsabilidade a um único órgão. A proteção da população exige atuação coordenada da administração municipal, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e das demais instituições responsáveis pela fiscalização ambiental e pela repressão aos responsáveis pelas queimadas. Diante da gravidade do quadro, a população tem o direito de conhecer quais operações foram realizadas, quantos autos de infração foram lavrados, quantos responsáveis foram identificados e quais providências concretas estão sendo adotadas para interromper uma sequência de eventos que já não pode mais ser considerada excepcional.

As fotografias obtidas hoje reforçam ainda mais a gravidade da situação porque documentam uma realidade impossível de ocultar. A fumaça permanece visível a grandes distâncias, altera completamente a paisagem urbana e demonstra que a poluição atmosférica deixou de ser um problema localizado para atingir uma parcela expressiva do território municipal. Trata-se de uma evidência objetiva de que milhares de pessoas continuam expostas diariamente a um ambiente degradado, enquanto as respostas institucionais permanecem praticamente invisíveis.

Nesse contexto, é razoável esperar que o Ministério Público e a Defensoria Pública já estejam adotando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades e exigir providências imediatas dos órgãos competentes. Os danos produzidos pelas queimadas ultrapassam claramente a esfera ambiental e atingem direitos difusos relacionados à saúde pública, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à qualidade de vida da população. As imagens produzidas ao longo de dois dias consecutivos constituem um registro eloquente dessa realidade e oferecem elementos suficientes para justificar a abertura de procedimentos destinados a identificar tanto os responsáveis pelos incêndios quanto eventuais omissões do poder público.

Infelizmente, a sucessão de fotografias produzidas ontem e hoje transmite uma mensagem que nenhuma cidade deveria aceitar com naturalidade. Enquanto a fumaça continua dominando o horizonte de Campos dos Goytacazes, cresce a percepção de que os órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pela defesa da saúde coletiva permanecem incapazes de oferecer uma resposta compatível com a gravidade do problema. A população já fez sua parte ao denunciar aquilo que qualquer pessoa pode ver a olho nu; agora cabe às instituições demonstrar que ainda são capazes de cumprir a missão para a qual foram criadas.

Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental

As imagens desta 5a. feira (23/7) em Campos dos Goytacazes mostram um horizonte praticamente encoberto por uma espessa camada de fumaça. O cenário impressiona pela perda de visibilidade, mas o que realmente preocupa é o que essa fumaça representa. Ela não é apenas um episódio passageiro de poluição atmosférica. Ela revela o acúmulo de problemas estruturais que o município ignorou durante décadas e que agora se tornam cada vez mais evidentes.

O primeiro desses problemas é o modelo de ocupação da paisagem. Campos dos Goytacazes transformou grande parte de seu território em uma vasta monocultura de cana-de-açúcar. Ao longo do tempo, esse processo eliminou praticamente toda a Mata Atlântica que originalmente cobria a região. Restaram apenas pequenos fragmentos florestais, incapazes de exercer plenamente suas funções ecológicas de regulação do clima, retenção de umidade e redução da propagação do fogo.

A simplificação extrema da paisagem tornou o município muito mais vulnerável às queimadas. Grandes extensões contínuas de vegetação seca, associadas ao inverno mais seco e às temperaturas cada vez mais elevadas, criam condições ideais para que pequenos focos de incêndio se transformem rapidamente em grandes queimadas. Quando isso ocorre, a fumaça não permanece restrita às áreas rurais. Ela invade bairros, avenidas, escolas, hospitais e residências, afetando diretamente a qualidade de vida da população.

As mudanças climáticas agravam ainda mais esse quadro. Períodos prolongados de estiagem, ondas de calor mais intensas e redução da umidade relativa do ar ampliam o risco de incêndios. O que antes poderia ser tratado como um evento excepcional passou a fazer parte de uma nova realidade climática, exigindo respostas completamente diferentes das adotadas até hoje.

Entretanto, o clima não explica tudo. A fumaça que hoje cobre Campos dos Goytacazes também evidencia a insuficiente preparação do poder público para prevenir e combater queimadas. A prevenção exige monitoramento permanente das áreas de risco, abertura e manutenção de aceiros, planejamento territorial, fiscalização rigorosa, campanhas educativas e equipes treinadas para atuar antes que os incêndios saiam do controle. Esperar que o fogo comece para então mobilizar recursos significa atuar quando boa parte do dano ambiental e sanitário já ocorreu.

As consequências recaem principalmente sobre a saúde pública. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias sofrem imediatamente com o aumento das partículas finas em suspensão. Crescem os casos de irritação nos olhos, crises de asma, bronquite e outros problemas cardiovasculares e pulmonares. Ao mesmo tempo, a fumaça reduz a visibilidade nas rodovias, aumenta o risco de acidentes e compromete as atividades econômicas.

O horizonte tomado pela fumaça deve servir como um alerta. Campos dos Goytacazes precisa abandonar a lógica de apenas reagir às emergências e construir uma política permanente de gestão da paisagem. Isso passa pela recuperação da Mata Atlântica, pela proteção das áreas úmidas, pela diversificação do uso do solo, pelo fortalecimento da prevenção e pelo investimento em estruturas de combate aos incêndios. Enquanto essas mudanças não ocorrerem, a fumaça continuará retornando a cada período seco, lembrando que a degradação ambiental não permanece confinada ao campo: ela invade a cidade, entra nas casas e chega aos pulmões de toda a população.

O lamentável abandono do Jardim São Benedito

jardim são benedito

Há poucos dias recebi a visita de familiares, incluindo uma sobrinha neta de 5 anos.  Como não queríamos que ela ficasse trancada em casa, tentamos acessar vários aparelhos públicos, incluindo o conhecido Jardim São Benedito. O resultado foi muito decepcionante, pois o que encontramos foi o retrato do completo abandono de um dos principais cartões postais da cidade de Campos dos Goytacazes.

Que o prefeito Wladimir Garotinho não tinha o cuidado de nossas praças e jardins como foco da sua administração isto já era notório.  Mas esse descaso também continua na gestão do novo prefeito (ou seria antigo) Frederico Paes, o que apenas reforça o fato de que o atual grupo governante não entende a importância de termos espaços públicos bem cuidados e disponíveis para uso da população.

Não é à toa que o campus universitário Leonel Brizola da Uenf se tornou a área verde mais frequentado pela população nos finais de semana. Acontece que a Uenf é um espaço estadual, o que causa uma curiosa situação em que uma cidade de mais de 500 mil habitantes tem como principal área de lazer e recreação um espaço cuidado pelo governo estadual e não pela prefeitura do município.

Eis uma coisa que Leonel Brizola e Darcy Ribeiro não devem ter antecipado quando decidiram implantar o campus da Uenf em um terreno baldio que servia como área de despejo de lixo. A ironia é que quem começou a transformação operada no que hoje é o campus Leonel Brizola foi o então prefeito Anthony Garotino. Aparentemente,  o pai sempre entendeu melhor a cidade do que o filho.

Em Campos dos Goytacazes, a distância também é uma forma de desigualdade

Estudo mostra que moradores das periferias e dos distritos pagam com mais tempo e dificuldades pelo acesso à cidade

Há trabalhos acadêmicos que cumprem corretamente as exigências formais de um curso universitário. E há aqueles que, além disso, ajudam a enxergar com maior clareza problemas que estão diante de nós, mas que frequentemente são tratados de forma fragmentada. É nesse segundo grupo que situo o trabalho de conclusão de curso de Gustavo Araujo Bezerra, intitulado A mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes (RJ): mecanismo de perpetuação da segregação socioespacial ou ferramenta de garantia do direito à cidade?.

O trabalho foi apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e aprovado em 2 de julho de 2026. Tive a satisfação de orientar Gustavo Araújo nessa pesquisa, que combinou a aplicação de 151 questionários com usuários do transporte coletivo, entrevistas com representantes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) e observações de campo. O estudo retira a mobilidade urbana do terreno estreito da engenharia de tráfego e a coloca onde ela efetivamente deve estar: no centro da discussão sobre desigualdade, segregação socioespacial e direito à cidade.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que, em Campos dos Goytacazes, a experiência de circular pela cidade é profundamente condicionada pelo lugar onde se mora. Os moradores dos bairros periféricos e dos distritos mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento, maior dependência do transporte coletivo e mais dificuldades para acessar trabalho, educação, saúde e lazer. A distância em relação ao centro não é apenas uma medida em quilômetros: ela se transforma em tempo perdido e em redução concreta das possibilidades de participação na vida urbana.

A pesquisa mostra ainda que os moradores das áreas mais distantes avaliam o sistema de forma mais negativa, especialmente quanto ao tempo de deslocamento, à disponibilidade do serviço e ao acesso aos equipamentos urbanos. Parte da população recorre a modalidades alternativas ou informais para contornar as limitações do sistema formal. O que poderia parecer uma simples escolha de transporte revela-se, assim, uma estratégia diante de um sistema incapaz de garantir condições equivalentes de circulação aos diferentes territórios do município.

É justamente nesse ponto que a mobilidade deixa de ser apenas uma questão de ônibus, linhas e horários. O morador periférico não está somente mais distante dos serviços e oportunidades: ele paga por essa distância com horas adicionais de deslocamento, menor previsibilidade e maior dependência de um sistema precário. A segregação socioespacial se expressa, portanto, não apenas no lugar onde cada grupo social consegue morar, mas também nas condições concretas que possui para acessar o restante da cidade.

Gustavo Araújo também identifica uma distância significativa entre o planejamento formal e a realidade vivida pelos usuários. Embora o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável contenha diretrizes voltadas à acessibilidade, à integração dos transportes e à mobilidade sustentável, sua implementação permanece limitada. Persistem problemas de cobertura, frequência e integração do transporte coletivo, além da ausência de uma rede cicloviária efetivamente conectada.

Mas talvez a conclusão politicamente mais incômoda do trabalho seja outra. Entre 1999 e 2024, Campos dos Goytacazes recebeu mais de R$ 37 bilhões em royalties e participações especiais do petróleo. Ainda assim, chegou a 2026 com um sistema de mobilidade incapaz de assegurar condições minimamente equitativas de acesso ao seu território. A disponibilidade excepcional de recursos não produziu uma estrutura capaz de reduzir desigualdades territoriais historicamente acumuladas.

Isso significa que o problema de Campos não pode ser atribuído simplesmente à falta de dinheiro. A questão está também nas escolhas políticas feitas ao longo de décadas sobre onde investir, que territórios conectar e quais grupos sociais priorizar. A precariedade da mobilidade não é apenas uma deficiência administrativa ou operacional; ela é também resultado de uma determinada forma de produzir e governar o espaço urbano.

Como orientador deste trabalho, considero especialmente relevante que uma pesquisa produzida por um novo cientista social formado pelo curso de Ciências Sociais da UENF ofereça uma contribuição tão concreta ao debate sobre Campos dos Goytacazes. A universidade pública cumpre uma de suas funções mais importantes quando forma estudantes capazes de olhar criticamente para o território em que vivem e produzir conhecimento sobre suas contradições.

O estudo de Gustavo Araújo mostra, afinal, que a mobilidade pode funcionar tanto como instrumento de integração quanto como mecanismo de segregação. Em Campos dos Goytacazes, as evidências reunidas sugerem que, para uma parcela significativa da população, ela ainda opera muito mais como barreira do que como garantia de direitos. Enquanto o acesso à cidade continuar dependendo do lugar onde se mora, o direito à cidade continuará sendo distribuído de forma profundamente desigual.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a monografia de graduação de Gustavo Araújo, basta clicar [Aqui!].

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado

José Luís Vianna da Cruz argumenta que o município permanece submetido a estruturas de poder herdadas do escravismo e do patrimonialismo, que alimentam desigualdades, reprimem iniciativas populares e impedem a construção de um futuro mais justo

Por José Luis Vianna da Cruz*

Grande parte das  nossas elites políticas, econômicas e sociais  cultivam um conjunto de práticas predatórias, contra o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de Campos, com influências igualmente negativas sobre o desenvolvimento regional. São práticas herdeiras da tradição colonialista, de senhor de escravos, de uma pretensa aristocracia sucroalcooleira e de donos de latifúndios, patrimonialistas. Exercidas com mandonismo, autoritarismo, clientelismo, racismo, patriarcalismo, discriminação, segregação e violência contra a população trabalhadora, empobrecida e exercendo atividades precarizadas.

Quais as evidências dessas características? Em quê elas impedem o desenvolvimento de Campos e da região? Me baseio nas pesquisas e produções acadêmicas e na militância dos movimentos e coletivos libertários, além do conhecimento como campista militante social. Falo do que está na boca do povo, como na canção de Chico Buarque e Milton Nascimento:

“O que será, que será…

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que andam falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados…”

A existência de inúmeros quilombos e “bairros negros”, em favelas e bairros de baixa renda, segregados em relação à existência e à qualidade da infraestrutura, ao acesso e mobilidade, à integração na cidade. A segregação de favelas e bairros pobres urbanos, onde a maioria é preta.

A predominância, nos lugarejos, vilas e áreas urbanas rurais, do abandono dos serviços urbanos, particularmente do esgotamento sanitário e do atendimento à saúde e, principalmente, das vias e do transporte coletivo, na frequência, qualidade e acesso. Essas localidades são ilhas de vida saudável, respiram natureza, conservam as relações de vizinhança, amizade, solidariedade e apoio mútuo entre seus moradores, têm história e cultura de modos de vida, que tendem a desaparecer, pela total irresponsabilidade dos poderes públicos.

A precariedade dos vínculos trabalhistas nas atividades tradicionais, desde o trabalho na área rural até o trabalho no comércio. É amplamente sabido que muitas lojas de comércio não assinam carteira, ou mesmo quando assinam, a remuneração vem somente das comissões das vendas. As jornadas de trabalho chegam a mais de 10 horas por dia. É comum comerciantes que sonegam os impostos municipais e se utilizam da proximidade com políticos para terem suas dívidas postergadas, anuladas ou ignoradas. A assinatura da carteira de trabalho e o respeito aos direitos trabalhistas da(o)s trabalhadora(e)s doméstica(o)s é majoritariamente ignorado pelas famílias e o tratamento dado a ela(e)s mantém resquícios da crueldade e violação dos direitos herdados da sociedade escravocrata.

 A prática das monoculturas que geram monolitismo nas estruturas de poder, empresariais, nas instituições públicas e privadas; ou seja, no conjunto da vida social, impedem a valorização, a reprodução e o fortalecimento da economia popular e da diversificação produtiva, tanto na produção como no comércio e serviços. Isso se expressa na substituição da monocultura da cana pela do petróleo e gás e, agora, pela da infraestrutura de armazenagem, transporte e circulação de mercadorias internas e de commodities do extrativismo, via condomínios logísticos, porto e vias. Também nos oligopólios dos atacarejos e varejos, com os megaempreendimentos sufocando os médios e pequenos de capitais locais, gerando falências, desemprego e aprofundamento da precarização. Isso explica o apartheid urbano expresso numa cidade (re)partida entre condomínios horizontais de renda média e alta, fechados, murados, segregados e o resto da cidade. E, ainda querem atrair monoculturas do agronegócio, datacenters, fazendas de energia eólica e outras atividades profundamente predatórias do meio ambiente e da vida social, cujo nível de automação não gera empregos e desemprega, como explicarei adiante. O mesmo acontece com as expressões culturais da periferia, marginalizadas e, muitas vezes, hostilizadas pelos Poderes Públicos.

Fazem isso através de estratégias econômicas, sociais, políticas e militaristas: impedem a agricultura familiar, a agricultura dos pequenos produtores tradicionais e a dos assentados, agroecológica e orgânica, que fortalece a natureza, o ambiente, a saúde, o trabalho, a distribuição de renda, a diversificação e, por consequência o verdeiro desenvolvimento, diversificado, democrático, inclusivo, distributivo e saudável. Destroem e inibem as economias tradicionais, de pequeno e médio porte, produzindo desemprego e favorecendo o subemprego e a total informalidade e abandono dos trabalhadores. O que chamam de desenvolvimento é um balcão de negócios privados, visando beneficiar-se financeiramente da implantação de mega empresas nos segmentos imobiliário, de atacado e varejo, de educação, de hospedagem, dentre outros; tendo o cuidado de bloquear quaisquer iniciativas econômicas, sociais, culturais e políticas que possam ameaçar o monopólio do poder, o controle dos territórios, da força de trabalho; isto é, bloquear as energias e iniciativas que possam “abrir”, romper e superar essa herança perversa.

Nisso consiste o trabalho mais profundo, dramático e leviano, contra a o bem-estar social. Por meios coercitivos, repressivos e, muitas vezes, violentos, reprimem e oprimem qualquer possibilidade de reação a esse padrão de condução do poder na sociedade campista: controlam o poder na gestão das escolas e dos equipamentos de assistência social e serviços públicos; controlam a liderança política nas favelas e bairros mais pobres, onde se encontra a maioria do eleitorado, obrigada a conviver com o poder e controle dos traficantes, nessas favelas e bairro pobres. Quando promovem políticas sociais, como a da habitação popular, misturam populações de bairros controlados por facções rivais, aprisionando e submetendo a população às leis dos conflitos entre poderes institucionais, formais e os do crime organizado. Grande parte da população está aprisionada em suas residências, tolhida e controlada no direito de morar, conviver e de ir e vir na cidade. Não encontram abrigo no Poder Público local, omisso, indiferente e verdadeiramente hostil às vozes populares.

Para mim, a expressão mais revoltante dessa prática é o Campo de Concentração chamado Tapera III, à margem da BR-101, no meio do nada, uma das formas mais violentas de confinar a população pobre, expulsa da Favela Margem da Linha e jogadas numa área vulnerável ao controle do crime organizado, sem nenhum serviço urbano digno, submetida à total insegurança, ao transporte absolutamente precário e à morte frequente de seus moradores, pelo tráfego da BR-101. Digna de um projeto nazista, que submete os moradores à tortura e privação diárias dos mais elementares direitos humanos. Uma monstruosidade.

O que faz do nosso município – e da região – um território marcado pela predominância do legado da sociabilidade e do poder vigentes na escravatura, no Império e no pior da República, que se instalou nesse país e, muito forte e profundamente, por aqui. A parte dominante dessa elite embrulha tudo isso com o invólucro do conservadorismo direitista, falsamente moralizador, de braços dados com segmentos inimigos da democracia e do desenvolvimento. Porque não ama nossa cidade e nossa região, porque não ama nossa gente.

Como diz o ditado, que muitos atribuem a Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”. As investigações da Polícia Federal parecem confirmar o ditado.

Da nossa parte, continuamos firmes na luta para superar radicalmente essa história nefasta imposta por uma parcela da elite dominante campista e regional, porque amamos essa terra e a nossa gente.


*José Luis Vianna da Cruz é professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, possui graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS, 1978), Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 1990), e Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 2003).

Do lote à feira. Artigo discute gargalos que afetam a comercialização da produção agrícola dos assentamentos de reforma agrária em Campos

Em abril de 2024, a minha orientanda Mariana Batista de Souza defendeu com sucesso a sua dissertação “Investigando os canais e os gargalos do processo de comercialização dos alimentos produzidos pela reforma agrária em Campos dos Goytacazes/RJ” que apresentava os resultados de um estudo sobre a dinâmica que regula e dificulta a chegada da produção obtida pelos assentados da reforma agrária à população via as chamadas feiras livres.


Eis que agora praticamente 2 anos depois, a revista Coloquio- Revista do Desenvolvimento Regional acaba de publicar um filhote daquela dissertação sob o título de “Do lote às feiras. Desvelando os gargalos que dificultam a comercialização coletiva da produção dos assentamentos der reforma agrária em Campos dos Goytacazes (RJ)”.  Este artigo é resulta de um trabalho conjunto que também envolveu o professor Marcelo de Souza do Laboratório de Engenharia Agrícola (LEAG) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da Uenf.

Mais do que uma diferença semântica em termos de título, o artigo traz reflexões que avançam sobre o que foi alcançado na dissertação, especialmente no tocante ao papel do governo municipal não apenas como indutor, mas como agente ativo na organização dos mercados.

O artigo mostra também que a ausência de suporte institucional consistente compromete a autonomia econômica dos assentados da reforma agraria.  Por outro lado, em termos teóricos, os resultados reforçam a centralidade das mediações comerciais na reprodução das desigualdade o que restou demonstrado é que, sem intervenção pública efetiva e sem fortalecimento organizativo interno, os espaços das feiras livres tendem a reproduzir as assimetrias que estruturam os circuitos convencionais de comercialização.

Quem desejar baixar a íntegra do artigo, basta clicar [Aqui!].

Havan chega em uma planície marcada pela fome, e tem quem celebre

Wladimir recebe diretor da Havan e anuncia que obras do mega empreendimento  iniciam em breve - Campos 24 Horas | Seu Jornal Online.

O prefeito Wladimir Garotinho dando boas vindas a Nilton Hang que promete para “breve” a instalação de uma estátua da liberdade na planície goitacá

Tive o desprazer de assistir um vídeo em que o prefeito de Campos dos Goytacazes “faz sala” para Nilton Hang, diretor de expansão da famigerada Havan. O prefeito apresenta a chegada da Havan como uma confirmação de que em se trabalhando, a coisa vai.

Mas o que é e o que vende a Havan? A Havan é uma rede de lojas de departamento brasileiras que vende uma vasta gama de produtos nacionais e importados no varejo e atacado, incluindo vestuário, eletrodomésticos, eletrônicos, utilidades domésticas, móveis, brinquedos e alimentos, muitas delas produzidas pelo setor de produtos menos qualificados das corporações chinesas. Além disso, a Havan se notabilizou por suas grandes lojas terem fachadas inspiradas na feiosa arquitetura americana e por colocar réplicas horrorosas da Estátua da Liberdade no interior dos seus estacionamentos.

Em outras palavras, a Havan é uma dessas combinações estereotipadas que, por um lado, vende os valores morais de um potência decadente (os EUA), enquanto entrega produtos de segunda linha produzidos pela potência emergente (a China).

Eu diria que até aí ainda vá lá, pois quem quiser comprar produtos ruins por preços caros que compre. O problema é que essa chegada e a promessa minguada de empregos como se fossem grande coisa se dá em uma cidade em que uma parcela significativa, cerca de 150 mil cidadãos segundo dados da própria prefeitura, vive abaixo da linha da pobreza, e precisa encarar a fome diariamente, não como exceção, mas como regra.

Em outras palavras, a chegada da Havan não resolverá problemas cruciais, e ainda pode piorar outros, pois toda vez que uma grande loja de departamentos chega em algum lugar, centenas de pequenos estabelecimentos são fechados por não terem como concorrer.