Faça o que eu falo, mas não o que eu faço. Ou como a oposição foi o maior aliada de Wladimir Garotinho

falo faço

Por Douglas Barreto da Mata

Este texto não procura diminuir as qualidades eleitorais e da gestão municipal, apesar de eu achar que há muita coisa a ser feita.  Nada disso.  No entanto, não é possível ignorar a capacidade de articulação política do atual prefeito, a forma como entendeu a carência deixada pelo seu antecessor, Rafael Diniz, O Incapaz, e mais, como dominou a comunicação de si mesmo, e do seu governo.

Não posso afirmar se Getúlio (Vargas) criou a obrigação de colocar o quadro do mandatário (no caso dele, presidente) nas repartições públicas, mas ficou para a História o jingle da sua campanha de 1950:  (bota o retrato de Velho outra vez/Bota no mesmo lugar/O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar, letra de Francisco Alves). 

Essa musiquinha dava contorno à concepção da onipresença, como se a imagem conferisse um olhar do líder sobre seus subordinados, compelindo-os a executar suas tarefas.  Ou seja, o líder cuida de todos, mas a todos observa.  Em tempos de rede social, a tarefa de se fazer presente se torna um pouco mais fácil. 

Nos tempos do pai do atual prefeito, o ex-Governador Garotinho, essa maneira de agir se manifestava em presença física em obras, escolas, etc, e justiça seja feita, o filho Wladimir ainda guarda essa rotina, para além da presença virtual nas redes sociais.

Zezé Barbosa, avô de Rafael Diniz, preferia madrugar no “triturador”, instalação usada para moer ossos em um antigo matadouro, convertida como instalação da prefeitura, ao lado do cemitério do Caju, de onde o então prefeito despachava desde muito cedo.

Essa conjugação de fatores (presença, marketing pessoal de rede e fracasso do antecessor) porém, não deve ser a única explicação, eu presumo, para tanta vantagem de Wladimir sobre os oponentes.

Como o título já entrega, a fragilidade, ou pior dizendo, a indigência intelectual dos opositores ajudou, e muito!  Vejam o caso do PT.  Primeiro, sob as ordens do grupo político que tem no presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) seu comandante, manteve a tese de que a deputada Carla Machado poderia ser candidata, ainda que até as pedras do Cais da Lapa soubessem que não.

A justificativa?  Mesmo na impossibilidade, a projeção do nome dela faria com que houvesse um capital político acumulado, que poderia ser herdado por quem ocupasse a vaga de dublê da deputada.

Bem, se foi isso, alguém tem que reclamar com o roteirista desse filme, que neste caso, dizem foi o pessoal do “Sou Feijó, mas Voto PT”, personificado em ninguém menos que Luciano D’  Angelo, considerado um dos alquimistas da político local, mas que, ao que tudo indica, perdeu um pouco a mão na dose de antigarotismo.

Além do constrangimento ao candidato, Jefferson, que sempre foi visto, e sempre se sentiu como um estepe, o tal capital político desejado (votos de Carla Machado) migrou sim, mas para o centro (Wladimir) e para a extrema direita (delegada), por um motivo simples: esse é o perfil do eleitor de Carla, a direita, conservadora, que enxerga nela um tipo de matriarca de São João da Barra.]

Pois bem, os tropeços e vergonhas se acumularam, com Jefferson debatendo dados do IDEB, mesmo com todas as evidências em seu desfavor, tingindo a campanha do PT de um negacionismo só visto nos piores tipos da extrema-direita, pois atacou, alucinadamente, dados de uma medição promovida pelo governo federal, que sabemos, hoje é liderado pelo PT.

Se já não fosse suficiente, Jefferson ainda teve que encarar o constrangimento de ter seu trágico desempenho nos índices de avaliação (ENEM-ENAD) trazidos ao público, já que em sua gestão a colocação do IFF Norte Fluminense despencou. 

O outro vexame se deu pelo fato de o PT funcionou como cavalo de aluguel da candidatura da extrema-direita, e essa certeza veio quando Jefferson tentou, de forma criminosa, criminalizar a campanha de Wladimir, inferindo que o prefeito tivesse vínculo com as supostas condutas ilícitas, atribuídas a um vereador, candidato à reeleição.  Logo o PT, querendo atacar e “lawfare”sendo o PT uma das grandes vítimas da ditadura das togas(Faça o que eu falo, não faça o que faço.)  Não ficaram só para o PT as trapalhadas.

O pessoal da candidata delegada também se esmerou. Primeiro a abordagem raivosa, quase bélica, contra um prefeito bem avaliado, com fama de bonachão e gente boa.  O episódio de um deputado estrangeiro ofendendo a primeira-dama foi o clássico tiro no pé, ainda mais para alguém que tem no seu único ítem no currículo a passagem pela DEAM. 

(Faça o que falo, não o que faço).

Ao invés de trazer debates necessários, a campanha da delegada preferiu o caminho do desgaste da imagem do atual prefeito, sem considerar o óbvio: na atual conjuntura, lendo as mesmas pesquisas qualitativas que, por certo, todos os grupos políticos têm acesso (ou deveriam), já deveria estar claro que essa tática não levaria a lugar algum.

O eleitor de Wladimir não identifica os erros como sua responsabilidade por dois motivos:  Wladimir conseguiu fazer com que parte dos erros sejam entendidos como resultado da gestão passada (o que é correto), mas principalmente, porque ele mesmo, Wladimir, tomou da oposição a narrativa desses erros, quando admite as suas existências, e diz que só ele poderá acertar no próximo mandato.

Isso só foi possível, como já dissemos, porque ele construiu uma relação bem sucedida com o eleitor, atributo pessoal dele, e que supera qualquer argumentação em contrário.

Restava à oposição falar daquilo que não se fala, mas aí faltou, do lado petista a coragem, e talvez também houvesse o impedimento pela estranha aliança com a extrema-direita, que interditou, por exemplo, uma discussão sobre tributos, questões fundiárias urbanas e rurais, ambiente, etc.

Já no caso da extrema-direita, esta agenda nunca seria trazida ao centro do debate, por questões óbvias.  Assim, o prefeito “cercou por todos os lados”, como se dizia na contravenção, antigamente. 

Claro que tudo isso foi salpicado com passagens grotescas, porém bem-humoradas, ao contrário do triste episódio do deputado alienígena ofendendo a primeira-dama, ao lado de uma sorridente delegada da DEAM.

Teve também, por exemplo, a piada que foi a representação pela censura de um boneco, o Wladinho.  Ao morderem a isca e passarem ao ataque a uma referência, os opositores mostraram o quanto perdidos estão.  Sim, a metalinguagem transferida ao boneco é um truque antigo, mas ainda hoje, como vemos, é super eficiente.

Para responder a uma metáfora, só outra.

Não se responde a um boneco com fala de gente, formal, séria…você responde a um boneco com a mesma linguagem, no mesmo campo do humor e da jocosidade.  Atributos que não se encaixam no raivoso figurino da extrema-direita, e como também já falamos, foi a escolha desde o começo.

Já no campo dos debates, assistimos a um vídeo cansativo da deputada Carla Machado, deitando longos minutos de falação, enquanto suas mãos repousavam sobre um tipo de diploma ou título, como se a conferir respeitabilidade à interlocutora, um tipo de chancela.

Aquilo que ela prega aqui, para Campos dos Goytacazes, a candidata dela em SJB não pratica, ou seja, lá em São João da Barra, Carla Caputi, favorita à reeleição e apoiada por Carla Machado, não vai fazer debate com o opositor.

(Faça o que falo, não o que faço).

Como ato de “grand finale”, a deputada Carla Machado deu a facada final na moribunda campanha de Jefferson do PT, ao declarar apoio à delegada candidata.  Matou duas campanhas com uma paulada só. Talvez nem se ela desejasse tal consequência, ela teria tanto êxito, a deputada.

Ao aderir à delegada, talvez tenha tirado qualquer chance de que ela (a delegada) fizesse um pouco mais de votos, e assim se revelasse como um quadro político relevante para o futuro próximo.

Eleitores de direita e de extrema-direita da delegada, provavelmente, não engoliram essa união, e se não migraram para o campo dos brancos e nulos, ainda podem fazer o pior, e votar em Wladimir.

Quanto ao Professsor Jefferson, eu nem sei ao certo, talvez essa “facada” fosse a deixa para ele retirar a campanha, e se poupar um pouco da extrema vergonha que se fez passar, em um auto flagelo poucas vezes visto na História.

Quem sabe faltou ensaio, e ele não seguiu o roteiro?  Por último, e não menos importante, nestes últimos dias, a oposição se superou.  É claro que é leviano dizer que o time da delegada tenha censurado a publicação dos resultados da pesquisa Paraná/O Dia.

Não acho que um veículo com a dimensão do O Dia aceite fazer um papel tão rasteiro.  Porém, as más línguas (sempre elas) juram que essa censura pode ser verdade, pois a situação é ainda mais grave.

O resultado não seria apenas uma confirmação do quadro anterior, mas traria notícias ainda piores, ou seja, confirmava a tendência de queda já observada.

Alguns se perguntam, atônitos:  Uai, se eles dizem que pesquisas não importam, e que o resultado que importa é o dos urnas (e é verdade), por que tanto trabalho para esconder os resultados (negativos) da pesquisa?

(Faça o que falo, não o que faço). 

Outros ainda mais maldosos dizem que a debandada de eleitores da delegada levou o comando da campanha a gestos desesperados, como a contratação de milhares de pessoas para empunhar bandeiras pelas ruas, para dar ideia de volume (e vitória). O evento pode ser chamado de Invasão dos Bandeirantes.

Mesmo assim, o efeito parece ser o contrário, e há a nítida impressão de que os bandeirantes aceitem a remuneração, mas votem no atual prefeito, o que não seria inédito na história e anedotário eleitoral.

Como a última pesquisa foi, de fato, censurada, o que fica é a especulação, a quiromancia estatística.

Eu lembro do sincericídio de Rubens Ricúpero, chanceler do Itamaraty nos tempos de FHC, falando das estratégias de marketing do Plano Real, que foi capturado antes da entrevista, mas vazado, para desespero dele:  “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.

 
 
 
 

Errar é humano, persistir no erro é uma prova de baixa inteligência. Se for em período eleitoral, pior ainda

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Por Douglas Barreto da Mata

Hoje cedo dei uma passeada, muito à contragosto, pelas redes sociais.  Parece que, no campo da delegada Madeleine, o desespero se aproxima.

Pelo que li, as críticas sobre o fato da deputada Carla Machado ter trazido o “bode para a sala”, defendendo o ex-prefeito Rafael Diniz e seu “governo” (que esteve mais para desgoverno) calaram fundo nos apoiadores da delegada, e principalmente, porque essa fala se deu por uma parlamentar do PT, o que é inimaginável para aqueles que disputam a primazia de serem a extrema-direita campista.

Pois bem, o argumento fajuto deles é que o atual prefeito trouxe para seu lado pessoas que estiveram no “governo” Rafael Diniz.  Ora, pelotas!  Em uma cidade onde os grupos políticos que se revezaram no poder, ou estiveram ao lado da família Garotinho, ou contra eles, e vice-versa, muito pouca gente pode escapar de ter, um hora ou outra, participado deste ou daquele governo.

A questão não é essa, embora os fundamentalistas da delegada desejem rebaixar a conversa para o aspecto pessoal, e diga-se, como forma de fazer justiça, tais abordagens pessoais nunca foram proferidas (em público) por Rafael ou por Wladimir, conhecidos por suas fidalguias.

Porém, afastadas essas circunstâncias menores, há um campo para debater o recrutamento pelo atual prefeito de vários quadros, inclusive alguns da gestão Rafael Diniz.

Ninguém nunca disse que o governo Rafael Diniz deu errado por causa das pessoas, ao contrário, havia ali quadros tidos como muito capacitados, como foi o caso de Brand Arenari, ex-secretário de Educação, do ex- Procurador Geral do Município, tido como um jurista novo, mas talentoso.

Há outros exemplos de pessoas inteligentes, mas que não deram certo sob o comando de Rafael.  Parece óbvio que não deu certo foi  o governo, a reunião desses quadros em torno de uma ideia ruim. Um governo com princípios ruins só poderia dar errado.

Rafael Diniz preferiu usar todo o capital político que tinha, conferido por uma surpresa alucinante nas urnas, que o levou a derrotar a família Garotinho, na empreitada de apagar da memória da cidade o legado desse grupo político.

Era possível? Sim, era, mas para tanto, ele precisava governar, dialogar, articular, e não apenas repetir jargões da mídia e da campanha. Era preciso fazer mais e melhor, ainda que com menos dinheiro.  Lamentar e chorar pela perda de receita não adianta, os problemas da população não entendem essa choradeira.

No fim, sobrou para Rafael e seus seguidores apenas o ressentimento. Ressentimento, sabemos, não é um bom adubo para semear carreiras políticas.

O que a oposição a Wladimir, que hoje se reúne em torno de Rafael Diniz, não entende, quando parte para esse desagravo tardio e burro, trazendo ele de volta ao cenário, para a alegria do prefeito Wladimir Garotinho, é que o atual prefeito conjugou a fórmula que era necessária: usou o antecessor desastroso como referência sim, mas articulou, conseguiu recursos externos, fez o dever de casa no quesito fiscal, criou obras de impacto, e principalmente, estabeleceu uma interlocução diária e cotidiana com o povo, através de todos os meios que soube utilizar magistralmente, as mídias e redes sociais, mesmo quando aparecia em desvantagem.

Rafael Diniz, eleito à base da onda digital, nunca pareceu entender o que havia lhe beneficiado, ao contrário, deu a entender que estava ali de passageiro e não de motorista do seu próprio destino.

Desmontou uma rede de proteção social, que embora não fosse perfeita, conseguiria deter os efeitos do que estava por vir, e veio, com a diminuição das rendas do petróleo, e depois, com a pandemia, já no governo atual.

Rafael Diniz quando se deparou com verbas menores, tirou os recursos dos programas que atendiam quem mais seria vulnerável a essa carência orçamentária.  Cortou os programas de renda mínima municipais.  Implodiu um sistema de transporte público que já era precário, é verdade, mas não colocou nada no lugar.  Deixou a cidade sem avaliação junto ao MEC, zerando a nota do IDEB.

Enfim, todo mundo se lembra da sua gestão como a pior de todas.

A presença dos quadros políticos de Rafael Diniz, que foram reaproveitados no atual governo, de Wladimir Garotinho, e que contribuíram para uma avaliação positiva de 76% da população, mostra que faltava liderança, faltava prefeito.

Quando os apoiadores da delegada mostram fotos desses quadros ao lado de Rafael Diniz, e hoje, ao lado de Wladimir, eles afundam ainda mais no desgoverno de Rafael, porque se estes quadros funcionam bem na atualidade, com Wladimir, por quê não deram certo antes?

Sim, o problema era o comandante. Justamente aquele com quem o PT, a delegada, e a deputada Carla Machado querem abraçar. Abraço de afogados?  As urnas dirão.

Queimadas da cana colocam Campos como principal área de contaminação por mercúrio atmosférico no RJ, mostra estudo

Produção de poluentes pela queima da vegetação e de combustível pode se espalhar pelo ar e comprometer a saúde da população. É que mostrou um levantamento da PUC-Rio

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Por Arthur Almeida para a Revista Galileu 

Um estudo feito no Laboratório de Química Atmosférica PUC-Rio avaliou as concentrações de mercúrio (Hg) em material particulado (PM2.5) no ar em três locais no estado do Rio de Janeiro. Os resultados revelaram que 63% das amostras apresentavam níveis diários superiores aos padrões estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dentre as regiões investigadas estavam o bairro da Gávea, na capital fluminense; o município de Campos dos Goytacazes, área urbana afetada pela queima de cana-de-açúcar; e a zona de proteção do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso). Um artigo que detalha a análise foi publicado em junho na revista científica Royal Society of Chemistry.

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“A novidade dos nossos resultados está na quantificação das concentrações de mercúrio no material particulado no Rio de Janeiro, na identificação das variações sazonais e nas suas possíveis fontes de emissão”, aponta Luis Fernando Mendonça da Silva, primeiro autor do estudo, em nota enviada à imprensa. Dado que possui um dos maiores centros urbanos e industriais do Brasil, ele acredita que o estado apresenta características únicas que tornam a investigação desses níveis de poluição relevante.

Na comparação das áreas avaliadas, a concentração média de mercúrio no PM2.5 em Campos dos Goytacazes foi a maior encontrada, com níveis de 169 ± 139 pg m⁻³. Segundo os especialistas, tal fato pode ser explicado pelas queimadas da cana-de-açúcar recorrentes na região.

Da mesma forma, embora o Parnaso seja uma área de preservação, suas concentrações médias de mercúrio (110 ± 71 pg m⁻³) foram maiores do que as identificadas na Gávea (81 ± 116 pg m⁻³). A provável explicação para essa diferença é a proximidade do ponto de amostragem do parque com a rodovia, na qual a queima de diesel dos veículos emite mercúrio para a atmosfera.

“As queimadas, independentemente do tipo de biomassa, não causam a poluição do ar apenas pela emissão de partículas, mas também pelos componentes associados a elas”, aponta Adriana Gioda, coordenadora do Laboratório de Química Atmosférica. Ela lembra ainda que essas partículas não são estáticas e tampouco se restringem a seus limites geográficos, o que significa que o mercúrio pode migrar para outras regiões e afetar populações distantes de onde as queimas aconteceram.

A variação sazonal também foi recorte de avaliação dos pesquisadores. As amostras levantadas entre 2022 e 2023 revelam que as maiores porcentagens de mercúrio no PM2.5 foram encontradas no outono (37%); seguido pela primavera (28%); inverno (24%); e, por fim, verão (11%).

Para explicar a diferença do mercúrio nas amostras ao longo do ano, a equipe trabalha com a hipótese de que as temperaturas elevadas e a maior radiação solar no verão podem facilitar a transformação de gás em partículas. “As concentrações de Hg foram, aproximadamente, duas vezes maiores durante o período seco, quando comparados com o verão, sugerindo contribuições de fontes locais e poluição transfronteiriça”, revela Gioda.

De acordo com os pesquisadores, estudos complementares devem ser realizados no futuro. A ideia agora é entender como ocorre o ciclo desse poluente no Rio de Janeiro.


Fonte: Revista Galileu

A reforma agrária ignorada eleva o custo da comida para os pobres e perpetua a injustiça social em Campos dos Goytacazes

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O fato de existirem 11 assentamentos de reforma agrária  criados a partir de 1998 em Campos dos Goytacazes, os quais abrigam em torno de 800 famílias de pequenos agricultores não está, mais uma vez, merecendo a devida atenção na atual campanha eleitoral. 

Como alguém que estuda a dinâmica social e produtiva dessas áreas desde que cheguei para trabalhar na Uenf, olho essa situação como um misto de incredulidade e impaciência, na medida em que vivemos em uma cidade que quase metade de seus habitantes possui acesso precário a uma alimentação digna e que garanta nutrição saudável.

O fato é que estudando esses assentamentos, e o estudo mais recente foi a da agora mestre em Políticas Sociais, Mariana Batista, enfatiza a falta de políticas municipais que permitam não apenas o escoamento da produção que sai dos lotes de reforma agrária, mas também que haja o devido investimento para a agregação de valor que sirva para gerar mais renda entre os assentados.

Como temos um vice-prefeito que é um dos impulsionadores de um tentativa de reviver o moribundo setor sucro-alcooleiro campista, o fato da primeira gestão de Wladimir Garotinho ter investido centavos (se muito) no apoio à agricultura familiar dinamizada pela reforma agrária não chega a ser surpreendente. É até de se esperar, pois o compromisso continua sendo com os usineiros e grandes proprietários de terra.

Mas essa é uma fórmula cara e ineficiente e, pior, socialmente injusta, na medida em que o apoio à produção dos assentamentos seria mais racional, já que dali sai muito comida. Mas com a falta da participação municipal, boa parte dessa comida acaba sendo adquirida por atravessadores que exportam essa produção para outros municípios e capitais. Com isso se reforça a injustiça social de impedir que os assentados elevem a sua renda, já que os atravessadores pagam menos pelo que compram, e a comida que poderia matar a fome dos campistas vai para outras regiões do estado e do país.

Por isso, acho extremamente positivo a presença de dois candidatos a vereador que são ligados umbilicalmente à luta pela reforma agrária, um literalmente já que nasceu no Assentamento Zumbi dos Palmares. Falo aqui do candidato pelo PT,  “Mateus do MST” (13713),  que vem a ser um dos filhos do líder do MST, Cícero Guedes, que foi covardemente assassinado quando lutava pela criação de um assentamento nas terras da Usina Cambahyba. O outro candidato ligado à luta pela reforma agrária é uma liderança importante na luta pela criação de canais coletivos de comercialização da produção oriunda dos assentamentos, sendo ele próprio assentado no Assentamento Antonio de Faria.  Falo aqui do “Hermes Mineiro”  (13014) que conheço desde os tempos em que chegou para se instalar no acampamento que deu origem ao assentamento onde ele vive e produz alimentos em base ecológica. 

A minha expectativa é que sendo bem votados, tanto Mateus quanto Hermes possam avançar na luta pelo criação de estruturas de agregação de valor e comercialização da produção de alimentos oriundos dos assentamentos existentes em Campos dos Goytacazes e outros municípios vizinhos (como Cardoso Moreira e São Francisco do Itabapoana). Afinal, eles entendem bem não apenas a importância da realização da reforma agrária, mas do papel central que os assentamentos podem cumprir em garantir acesso a comida barata e livre de agrotóxicos.

Para mim, enquanto pesquisador e cidadão que vive nesta cidade, está muito claro que um dos principais focos da luta política em nossa região continua sendo a realização de uma ampla reforma agrária nos muitos latifúndios improdutivos que existem nela. É que, com a reforma agrária não apenas teremos a democratização da distribuição da terra, mas também teremos mais alimentos disponíveis para a matar a fome que campeia livre por um município tão desigual quanto rico.

Em Campos dos Goytacazes, a eleição para prefeito deverá ser por W.O. Mas e depois?

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Por Douglas Barreto da Mata

Há algum tempo, escrevi que a eleição de Campos dos Goytacazes seria decidida não pelo embate governo e oposição, mas por completa ausência desse último segmento, como você pode relembrar aqui.  Hoje, li o texto do Professor Marcos Pedlowski, tecendo considerações sobre o governo Wladimir Garotinho e suas respectivas a falhas.

Pois bem, é preciso fazer um pouco de justiça, a partir de algumas constatações.  É fato que encontrar a cidade após a desastrosa administração de Rafael Diniz já seria algo difícil de reconstruir.  Agora imagine essa condição, acrescentada pela pandemia da COVID-19.  O que se viu, literalmente, foi terra arrasada.  Boa parte do tempo da administração foi dedicado à reversão desse quadro. 

Aquilo que o neto do oligarca Zezé Barbosa disse que seria impossível, a repactuação da cessão de direitos dos royalties, foi costurada pelo atual governo com certa rapidez, assim como uma intensa negociação com o Governo do Estado, que alocou uma gama considerável de recursos na cidade, e deu alívio de caixa ao município.  Também na esfera federal, a atual administração circulou com boa capacidade de interlocução, e conseguiu recursos para melhora da frota urbana de ônibus e outras verbas.

Tudo isso deu chance à recuperação da pontualidade dos pagamentos dos servidores, para posterior recomposição parcial de perdas salariais, restituição dos programas sociais interrompidos, como o Cartão Goytacá, Restaurante Popular, e outros programas menores.

A rede municipal de educação e saúde pareciam uma zona pós guerra, tanto do ponto de vista físico desses equipamentos, quanto do funcionalismo.  Uma grande parte foi reconstruída, e a parte gerencial é prometida como próxima etapa. 

Com a entrada de recursos públicos, a economia gerou empregos, e aqui uma outra observação: sempre creditam o fracasso ou estagnação da economia local, um tipo de Doença Holandesa, a hiper dependência dos royalties.  30 bilhões em royalties, dizem.

Sim, é verdade, o que não dizem é outra coisa.  Apesar de concordar com a tese do desperdício, boa parte desse dinheiro foi destinado ao pagamento de inúmeros serviços públicos, além da indução da economia local, seja com obras públicas, seja com pagamento de servidores. Se não fosse esse gasto, quem geraria empregos? A iniciativa privada?  Onde?

Com saldo positivo de geração de empregos nestes quatro últimos anos, nenhum empreendimento gerador de emprego foi iniciado nesta cidade.  Nada. Os parasitas continuam onde sempre estiveram, esperando vagar uma teta no orçamento público.  Então, temos que rever alguns conceitos sobre esses valores, diante de uma elite tão preguiçosa e mau caráter como a nossa, legatária do tempo da escravidão, e que ainda não entrou no Século XX.

Assim, o Professor Pedlowski sabe muito mais que eu, que por tudo isso, o que foi realizado teve lugar dentro de um ambiente hostil, da maioria da mídia e dos chamados setores “intelectuais”, ao contrário do silêncio cúmplice na administração de Rafael Diniz.

E se governar também é disputar espaço dia-a-dia, uma parte do esforço deste governo foi empenhada na tarefa de construção, senão de um consenso, pelo menos de alguma boa vontade destes, digamos, leões contra a família Garotinho, e gatinhos quando se trata de outros grupos políticos.

Pois bem, há, ainda, grandes problemas?  Certamente.  Mas como os governos se orientam em um processo democrático?  Sem uma oposição forte, com capacidade de debate propositivo, estruturado em dados, os governos tendem a perder a referência de si mesmos.

Quando menciono oposição relevante, não falo apenas do aspecto do incômodo, como fez o grupo local de vereadores, que tentou barrar a votação da lei orçamentária, deixando a cidade em suspenso até o início deste ano.

Querem um exemplo?  Eu me recordo que no início do governo Wladimir Garotinho, diante da possibilidade de restrições orçamentárias, o prefeito enviou à Câmara Municipal um projeto de reforma tributária, bem tímido, diga-se, exortando os mais ricos a pagarem na proporção de suas riquezas, a conta do funcionamento da cidade.

Foi o caos, e pior, raro caso de unanimidade dos edis, governistas e oposicionistas, e de todos os setores da cidade, inclusive da esquerda.  Aquilo que seria o início de uma importante discussão para reconfiguração da estrutura urbana, e que reside na assertiva de que paga mais quem pode mais, e por tal razão, têm os melhores serviços da cidade, foi abortada no útero legislativo.

Outro estranho consenso?  Águas do Parahyba, uma das chagas da vergonha da cidade, uma concessão que age quase na ilegalidade.  Como o prefeito enfrentará essa corporação sem uma base sólida de apoio de todos os vereadores, ou ao menos, a maioria deles? 

O caminho da justiça, tentado pela Procuradoria do Município trouxe alguns ganhos, mas que são poucos, diante do que precisa ser feito como regulação dessa concessão nefasta.  Eu acho que o compromisso das pessoas que desejam uma Campos dos Goytacazes melhor, em todos seus aspectos, é estabelecer uma disputa política concreta e honesta, trazendo para a pauta aquilo que realmente importa:  a cidade e seus serviços devem atender aos que mais precisam, e quem deve custear tudo isso são aqueles que têm mais grana.

É preciso dar aos bairros mais periféricos o mesmo conforto, limpeza, mobilidade, e segurança dos bairros mais ricos. 

É preciso diminuir a quantidade de carros nas ruas, as cidades devem respirar, e a gente andando é que faz a cidade respirar.

É preciso disciplinar, fiscalizar, multar e diminuir a velocidade dos veículos, dizer aos motoristas que eles não são os senhores da vida e da morte.

É preciso praças arborizadas, nos bairros, equipamentos públicos de convivência, mas também com grandes parques, como o Parque Ecológico em construção.

É preciso levar as instalações da administração para as áreas degradadas (centro e etc), fazendo com que funcionários vejam e sejam vistos pela gente que eles servem.

É preciso interromper o ciclo de apropriação da cidade por uma minoria, e devolvê-la à maioria.

Esta tarefa não é só do prefeito, é da comunidade, que deve cobrá-lo, permanentemente.

É preciso, terminada a eleição, sentarem todas estas partes envolvidas, governo, vereadores eleitos, os setores menos delirantes da oposição, e construírem um pacto pela governança da cidade.

Não com nostalgias de um passado horroroso e escravocrata, uma suposta opulência excludente e provinciana, que alguns bobocas de classe média, lacaios de uma elite arcaica, verbalizam por aí, com ares de academicismo. 

Uma cidade plural, viva e pulsante.  Uma cidade cidadã.

Como a Uenf se tornou tão irrelevante politicamente? A resposta está soprando no vento

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Há alguns dias publiquei um texto provocativo escrito pelo Douglas da Mata, intitulado “Qual será a opção academia diante do fascismo: ação ou omissão?“,  em que ele faz uma espécie de convocação às armas para a comunidade acadêmica campista para participar ativamente do debate eleitoral em Campos dos Goytacazes.  A partir do seu olhar aguçado, Douglas da Mata notou a solene ausência do que podemos chamar com alguma liberdade dos intelectuais acadêmicos sobre o urgente e necessário esforço de defender a democracia brasileira do crescente perigo que nos é imposto pela ideologia de extrema-direita.

Fiquei pensando no que foi dito pelo Douglas da Mata a partir da minha própria trincheira que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Como cheguei aqui no cada vez mais longínquo ano de 1998, fui testemunha de visitas ilustres que incluíram Leonel Brizola, Lula, Anthony Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, apenas para citar os mais emblemáticos.

Pois bem, neste ano eleitoral, apesar de termos uma penca de candidatos associados (ou pelo menos tentando se associar) à Uenf quando ela completa 31 anos de existência, vivemos um completo marasmo em relação à eleição do próximo prefeito de Campos dos Goytacazes. Além disso, não tive notícia de que qualquer um dos candidatos tenha solicitado uma audiência com a reitora Rosana Rodrigues para tratar das possíveis contribuições que a universidade poderá dar para a solução dos graves desafios que persistem no município, sendo a miséria extrema que assola quase metade da população da população o maior deles.

Não creio que exista apenas uma causa para a perda da importância da Uenf no plano político municipal. Um primeiro aspecto que penso ser importante foi o crescente cerceamento imposto às universidades públicas pela justiça eleitoral para a realização de simples debates entre candidatos, quiça a prosaica distribuição de material de propaganda no interior do campus Leonel Brizola, uma trágica ironia para uma universidade que leva o nome de um dos principais líderes políticos da história recente do Brasil. É importante notar que as regras draconianas impostas pela justiça eleitoral às universidades públicas não foram acompanhadas por reações mínimas dos dirigentes universitários.  Em eleições anteriores, o que houve foi a adesão pura às medidas que engesseram o necessário debate de propostas dentro dos espaços universitários. Quem não se lembra da assinatura coletiva de um documento vindo da justiça eleitoral que potencialmente criminalizava docentes que fossem pegos realizando atividades políticas durante o expediente? Por causa desses dirigentes é que tem hora que lembro de um famoso poema do dramaturgo Bertolt Brecht, o Analfabeto Político.

Por outro lado, ao menos no caso da Uenf, o que se vivencia é o desgaste laboral de uma categoria cujos salários, apesar de serem maiores do que a média nacional, se encontram em franca corrosão há pelo menos uma década, o que torna boa parte dos pesquisadores cada vez mais mais envolvida em atividades adicionais que lhes toma tempo e energia. Com isso, poucos se dispõe a participar do processo eleitoral, que é visto pela maioria como algo com que, para começo de conversa, não vale que se gaste o tempo eventualmente livre.  

Também vejo que graças à compartimentalização disciplinar criada pelo Capitalismo, há quem se sinta constrangido a emitir opiniões e se engajar em debates eleitorais por não se sentirem capacitados a emitir opiniões com algum nível de autoridade acadêmica. Com isso, o pouco de discussão que é conduzida pela mídia corporativa campista acaba sempre reunindo um grupo seleto de intelectuais consentidos cujo olhar é guiado por um viés que não trata a luta política como ela realmente é, optando por um tom escolástico de análise que empareda e engessa em vez de dinamizar. Essa tendência de engessamento favorece aos proprietários da mídia corporativa campista já que se habilitam a indicar e escolher quem possui ou não a habilidade de interpretar o que está acontecendo, criando um museu de velhas novidades.

É juntando todos esses ingredientes que se pode chegar a entender como é que a Uenf se tornou tão irrelevante. O dramático é que se juntam cada vez mais evidências de que o papel idealizado por Darcy Ribeiro para a Uenf nunca esteve tão atual.  A situação política, econômica e ambiental que estamos vivendo demanda um envolvimento de todos os centros de pesquisa da Uenf na formulação de propostas que possam contribuir para que o município de Campos dos Goytacazes possa finalmente vir a ser aquilo que nunca foi.

O problema aqui é como quebrar a inércia paralisante que afeta não apenas os professores da Uenf, mas também os de outras instituições de ensino superior instaladas em Campos dos Goytacazes.  Um bom começo seria prestar atenção no que o Douglas da Mata, um outsider assumido, tem a nos dizer sobre os custos da nossa paralisia frente aos principais embates políticos que se colocam diante de nós nesta eleição e em outras que virão em um futuro próximo.

Na planície dos Goytacazes, pau que dá em Chico, quase nunca dá em Francisco

pesquisas eleitorais

Por Douglas Barreto da Mata

A jornalista Jane Nunes é uma das pessoas mais abalizadas para tecer comentários sobre pesquisas e disputas eleitorais.  Ela é um daqueles personagens com rara experiência no ramo, tanto como (ex) integrante de governos locais, como profissional de comunicação. É aquilo que se chama de “casca grossa”.

Já fomos mais próximos, hoje estamos bem afastados, mas é preciso dizer que tenho grande respeito por ela. Por isso, me chamou atenção um artigo em que Jane Nunes desanca pesquisas recentes sobre a eleição para prefeito em Campos dos Goytacazes. Aliás, há algumas considerações ali que eu mesmo faria, sim, há um mercado de pesquisas eleitorais, que se destina a “vender uma versão da realidade” que se auto confirme, sim, há. 

Ela mesma já conviveu em redações, onde os patrões eram agentes importantes desse mercado.  Porém, como Jane Nunes sabe, isso não é de hoje.  Nem é exclusividade desse ou daquele lado, já que ela também já militou em todos os espectros da política local, principalmente, a favor e contra a família Garotinho.

Isso não a desmerece, de forma nenhuma, nem as suas opiniões, e muito menos o fato de ter escrito no “diário oficial” da oposição.   Mas vamos ao argumento dela. Primeiro, o viés de Jane Nunes está claro.  Ela tentou desconstruir a ideia de que o atual prefeito, Wladimir Garotinho, candidato à reeleição, seja favorito, ou melhor, que vá se manter como tal.

E o que ela usa para legitimar essa narrativa?  Os mais de 50% de indecisos, apurados pelo Instituto Paraná/Jornal O Dia.  Ora, se fosse totalmente coerente o argumento, onde está a sondagem feita logo depois, pelo Instituto Big Data/Rede Record, que apontou um número de indecisos muito menos, na ordem de 30%?

Não é uma discrepância insignificante, a ponto de desmerecer por parte da articulista uma menção, até para descredibilizar um instituto ou dar mais ênfase ao outro.  Também Jane Nunes nada menciona que o instituto que mostrou 50% de indecisos fez sondagens por telefone, o que induz um número maior desse indicador (indecisos).

Por último, a jornalista não questiona os dados coincidentes de todos os demais resultados, com pequenas variações, justamente quando entram os 50% de indecisos.  Estranho mesmo é ela falar desse “mercado de pesquisas”, os seus possíveis usos, e usar um dado de…de…de…pesquisa para referendar a ideia de que o eleitor ainda não se decidiu, na faixa dos 50%…

Uai, é para acreditar na pesquisa, qual pesquisa, em toda pesquisa, ou só na parte que convém?  Eu não acho que tenha sido má fé dela.  É só paixão política mesmo, vontade de que a sua versão ou visão da realidade seja a que se confirme. Ops, justamente o que ela criticou, né?

Pois é.  Nós podemos usar um discurso, números, enfim, podemos usar tudo para justificar nossos interesses e defendê-los.  O que não se pode é usar dois pesos e duas medidas.  Até porque, a história ensina que nenhum candidato favorecido pelas sondagens eleitorais jamais questionou a validade das pesquisas, mesmo que, depois, possa ser surpreendido por elas.  Já os que são desfavorecidos pelos números, sempre os questionam.

É do jogo.

Porto do Açu: um enclave isolado que é uma ameaça à mobilidade urbana em Campos

Sobre o Porto do Açu - Portogente

Construído como enclave portuário, o Porto do Açu só tem acesso viável pelo mar

No dia 7 de julho de 2024 (quase três meses atrás) publiquei neste espaço um mosaico de imagens produzidas no portão principal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) mostrando um pouco do caos causado no trânsito campista pelos caminhões indo e vindo do Porto do Açu.  Aquela postagem atraiu pouca atenção e foi ignorada por quem deveria estar cuidando da segurança dos usuários das vias urbanas campistas, os dirigentes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT).

A verdade é que, mesmo funcionando de forma muito abaixo da sua capacidade construída, o Porto do Açu e sua falta de conexão viária ou ferroviária vem causando fortes impactos na mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes, colocando em risco motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres que precisam se aventurar pelas mesmas vias em que se locomovem caminhões super pesados que as utilizam como se estivessem em Interlagos.

Apesar do recente atropelamento e morte de uma ciclista ter causado forte repercussão, ao longo dos últimos meses já era possível verificar que o perigo causado pelo trânsito de caminhões vem aumentando significativamente. A causa disso é uma combinação de vários fatores, a começar pelo tamanho e peso desses super caminhões (ver exemplos abaixo na mesma entrada principal da Uenf).

Outra coisa é que a cidade de Campos continua com um sistema de sistema e controle de tráfego ultrapassado e abaixo das necessidades impostas pela realidade de uma cidade média. Aqui inexistem radares de velocidade ou outros mecanismos de controle já existentes até em cidades menores. Com isso, se fomenta uma forte indisciplina no trânsito de veículos e se estimula uma situação do salve-se quem puder. E nesta situação quem mais pode se salvar são os caminhões vindos do Porto do Açu, sendo ciclistas e pedrestres os principais alvos para tragédias.

Mas mesmo se a estrutura de monitoramento e controle de trânsito não fosse tão precária, o risco continuaria.  Isso se deve ao fato de que o Porto do Açu foi constituído como um enclave portuário desprovido de vias de acesso que comportassem o fluxo de veículos que sua existência causaria, mesmo em na versão ociosa que é a que temos neste momento.  Beirou a irresponsabilidade completa se colocar essa estrutura portuária em uma área que não possui nem uma rodovia ou ferrovia que pudesse facilitar a logística de transportes.  Com isso, a chegada de caminhões de carga vindos de diferentes direções certamente está causando impactos não apenas na cidade de Campos dos Goytacazes, mas nas rodovias de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Agora que, premido pelas evidências dos riscos criados pelo Porto do Açu na mobilidade urbana em Campos, o prefeito Wladimir Garotinho se viu obrigado a fazer o óbvio: proibir o trânsito dos caminhões do Porto do Açu nas vias internas da cidade, e o bode está exposto no meio da sala, digamos assim.  É que sem poder transitar por vias como as avenidas Arthur Bernardes e Alberto Lamego, por onde irão fluir as cargas do enclave conhecido como Porto do Açu? É uma verdadeira sinuca de bico, onde ninguém quer ser pai desse filho feio.

Não posso deixar de notar a anedótica nota da seção local da moribunda Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) que alertar para o impacto de se tirar supostos 12.000 caminhões da circulação interna da cidade de Campos. Primeiro que 12.000 caminhões é um número fantasioso destinado, muito provavelmente, a tentar agradar os donos do Porto do Açu. É que se tivéssemos 400 caminhões indo e vindo do Porto do Açu, o caos seria muito maior do que é.  Mas passado esse aspecto, o que salta aos olhos dessa nota é a completa falta de preocupação com a população de Campos que precisa circular pelas mesmas vias que os caminhões.  Não li na nota nenhuma cobrança pela melhoria dos sistemas de monitoramento e controle da velocidade, aumento de policiamento nas ruas, ou coisas do gênero.  O que a Firjan parece propor é que se deixe tudo como dantes no quartel de Abrantes, e que se salvem aqueles que forem mais hábeis.

Como antevejo que as pressões vindas do Porto do Açu e dos seus apoiadores governamentais fatalmente imporão o retorno do trânsito dos caminhões super pesados nas artérias principais da cidade, o que eu espero do prefeito Wladimir Garotinho é que coloque o IMTT para fazer o que não fez até hoje que é implantar um sistema de monitoramento e controle de velocidade em toda a cidade de Campos. É passada a hora de que se tome as providências necessárias para melhorar o grau de segurança nas ruas e avenidas.  

Ah sim, e que se mande a conta para o Porto do Açu porque até aqui desse enclave só se teve promessas vazias e externalização de seus impactos sociais e ambientais para a nossa cidade. 

Queimadas avançam e colunas de fumaça cobrem a cidade de Campos: eu vejo o futuro repetir o passado

cana

Os últimos dias tem sido marcados por um tempo muito seco, o que tem propiciado a plantadores de cana de açúcar no entorno de Campos dos Goytacazes a colocarem fogo nos seus plantios (como se faz desde o período colonial), causando o aparecimento de imensas colunas de fumaça que ficaram bastante visíveis no céus da cidade (ver imagens abaixo).

O que ficou menos discreto, o particulado fino que é lançado junto com a fumaça, está hoje sendo depositado sobre a área urbana de Campos, como mostra o pará-brisa do meu veículo que ontem não estava nem próximo da situação calamitosa em que o encontrei nesta manhã de sábado (ver imagem abaixo).

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Enquanto isso, apesar de existir uma lei estadual (a Lei Nº 5990 de 20 de junho de 2011) banindo essa prática ultrapassada, não vejo notícia de que órgãos ambientais ou a justiça estejam se mobilizando para fazer cessar as queimadas nos campos de cana. Com isso, o que deve estar certamente acontecendo é uma corrida à farmácias e postos de saúde por crianças e idosos que estão tendo um agravamento em doenças respiratórias.  

O agravamento de doenças respiratórias é apenas a faceta mais óbvia dos acometimentos que recaem sobre a população com essas queimadas ilegais. É preciso que se lembre das evidências científicas acumuladas sobre a remobilização de compostos contendo mercúrio que estão presos nos solos da região após décadas da proibição do agrotóxico DDT que era o veneno por muitas décadas. 

De tempos em tempos, ouve-se e ou se lê os clamores por uma espécie de volta ao passado de glórias das usinas de açúcar e álcool em Campos dos Goytacazes. Ao meu ver, o bom é que esses clamores nunca serão materializados, visto que a fronteira dinâmica da indústria sucro-alcooleira nacional se moveu defintivamente para outros estado como São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Quem fala por aqui em voltar ao tempo das dezenas de usinas ou quer ser iludido ou quer iludir, com fins não necessariamente claros.

Eu digo que ainda bem que o setor sucro-alcooleiro fluminense é coisa do passado. Afinal, se com poucas usinas operando com capacidade ociosa nós já temos o grau de poluição atmosférica que estamos vendo nos últimos dias, imaginem o que aconteceria se tivessem de volta os tempos de ouro em que o cheiro vinhoto já era sentido em Casimiro de Abreu?

Aliás, falando em São Paulo e seu poderoso setor sucro-alcooleiro, ao menos 30 cidades decretaram situação de emergência por causa da queima descontrolada de campos de cana-de-açúcar que está impedindo a circulação de veículos em um número inédito de estradas paulistas (ver vídeo aqui).

A verdade é que temos que nos mover para longe das monoculturas de exportação que hoje estão literalmente colocando fogo no Brasil. Não temos literalmente que ver o futuro repetir o passado, pois está evidente que o passado nunca assim tão dourado como alguns insistem em pintar, sempre às custas dos cofres públicos e da saúde da maioria.

No debate sobre as notas de Campos no Ideb, o Professor Jefferson joga a criança fora com a água suja do banho

baby out

Douglas Barreto da Mata

Para não dizer que não falei de números

Estranho fenômeno acometeu o candidato petista à prefeitura de Campos dos Goytacazes. Como se não bastasse ter dado eco ao discurso da extrema-direita, atacando o índice do IDEB 2023, quando a cidade alcançou 5.4, deslocando-se várias posições para cima no ranking estadual, o moço agora meteu-se em uma discussão meio sem sentido, justamente com seus pares da academia, que ousaram desafiar as teses do candidato sobre aprovação automática, e o peso desse vetor no total dos dados.

Sim, engraçado assistir o candidato cavando um buraco embaixo dos próprios pés, subtraindo de si mesmo o único local de fala que tem, ou seja, o meio acadêmico, já que no campo popular ele inexiste. Ora, vamos desenhar para gente burra entender: a variação do índice de aprovação, como disse o Professor da UCAM-Campos, Eduardo Shimoda, não teve um valor que alterasse significativamente a nota final apurada.

Ponto!  Vamos encerrar esta questão dos números com alguns mais saborosos: Vejam os dados do ENEM e o IFF Norte Fluminense na gestão do rapaz.  Catastróficos, eu sei, um desastre.  Se formos usar a mesma régua torta do doutor engenheiro da computação, a gente pode sentenciar, é o porco falando do toucinho. 

Porém, como eu sou um cara do bem, não tenho doutorado, mas tenho bom senso, eu sei que ele poderá alegar que foi o período Michel Temer/ Jair Bolsonaro, etc, etc, etc.  Pode ser, quem sabe?  Ou pode ser também uma boa dose de incompetência dele, não?

Se eu fosse um cara do mal, eu usaria a mesma lógica que ele utiliza, quando esconde que o governo Rafael Diniz (de que boa parte do PT e os aliados da deputada estadual desaparecida fizeram parte) dinamitou todas as Políticas Sociais, e aí, principalmente a Educação Pública, com escolas fechadas, salários atrasados, merenda ruim, etc.

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Para não dizer que não falei de gente

O que importa, afinal, nesse debate, são as pessoas.  Quando ataca um índice conseguido depois de uma pandemia, que fez com o que o Governo Federal fizesse a recomendação de aprovação automática, para que os alunos não ficassem ainda mais atrás das escolas privadas, dos ricos que podem pagar pelo ensino e pela recuperação de conteúdo, o “Professor Jefferson” diz a que veio: Danem-se os pobres! Que sejam punidos várias vezes, por serem pobres, inclusive com a reprovação.

Sabe o “professor” que a Escola não se encerra em notas, aprovações ou reprovações, IDEB ou colocações no ENEM, mas no processo vivo de aprendizado, que se adapta às circunstâncias, como o fato de que o atual governo encontrou terra arrasada no setor.  Ainda assim, com todas as dificuldades, professores e todo pessoal administrativo, alunos e pais de alunos se uniram para alavancar o nível de aprendizagem.

Ao atacarem o índice, o PT e  o Professor Jefferson atacam esse esforço, essa ideia de recuperação, esse movimento de valorização, e mesmo de propaganda, se assim quisermos, de dizer que o público é bom.  Eu tinha evitado usar os dados do ENEM do IFF, até aqui. Porém, com tanta desonestidade intelectual, é preciso colocar certas coisas em seus lugares.

E não podemos nunca nos esquecer que “pau que dá em Chico, dá em Francisco”.