Os Fuzis de Brecht e o teatro em Campos

“Nós somos gente pobre e gente pobre não pode meter-se em guerra”: teatro e transformação social na experiência da peça Fuzis da Cia de Arte Persona

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Por Luciane Soares da Silva

A arte pode embrulhar o estômago. Causar perplexidade, desconforto. Pode produzir engajamento e pode mesmo servir como estopim de levantes populares. Pode divertir e proporcionar a desejada distinção aos que a consomem em palácios de mármore e luzes intensas. Pode servir para tudo e para muito pouco.

Fazer arte em Campos dos Goytacazes, uma cidade que investe parcos recursos na área de cultura já devia ser motivo de respeito. Escolher o teatro para discutir regimes totalitários e as diferentes formas de violência e resistência no cotidiano é motivo de admiração. Afinal, nada causa mais repulsa a elite local do que a lembrança de seu passado escravista.

É possível encenar uma peça no palco pequeno de uma escola pública, no meio de uma plantação de algodão, para cortadores de cana, presos. São muitos os caminhos  mas sabemos quais são visitados pela censura e quais são agraciados com premiações. O teatro pode ser fantasia, inquietação, experimento. Mas e quando ele possibilita ao homem comum, que reconheça seu lugar no mundo?

Cada leitura ganha a urgência de seu tempo. Recuperar a Guerra Civil Espanhola entrelaçando Brecht e nossas cotidianas lutas é desafiador. E encaminha uma das questões mais desconfortáveis de nosso século: é possível ser neutro diante do autoritarismo? É possível ser indiferente à morte de milhões nas guerras urbanas? É possível seguir em silêncio sob democracias que se parecem cada vez mais a Estados de Exceção?

A peça “Fuzis” da Cia de Arte Persona é ambientada em uma aldeia de pescadores, Nesta vila, a vida dos pobres segue a busca pela sobrevivência. Mas não sem conflitos! Já poderíamos criar o primeiro laço de aproximação com nossos pescadores no Farol, Atafona e na extensão do Paraíba. Acontece que a vida lá é interrompida pela guerra, pela morte. A vida aqui, é atravessada pelo Complexo Logístico Industrial do Porto do Açu. São tempos diferentes, são formas de resistência diferentes, muito material para pensar arte de forma crítica.

Cia. de Arte Persona apresenta "Fuzis", neste final de semana, em Campos  Folha1 - Cultura & Lazer

É possível manter a indiferença diante do desaparecimento forçado de pessoas? Diante da intolerância religiosa, da morte de mulheres, do racismo e da perseguição a comunidades Lgbtqiapn+? Diante da luta pela terra, pela água e por alimento, é preciso nesta cidade, que recuperemos as lições do Teatro do Oprimido, uma pedagogia crítica da passividade social por meio da arte. Campos dos Goytacazes teve seus palacetes e sua gente distinta, afeita ao bom gosto europeu. Mas vive há décadas sob o jugo da enxada e da fome.

Como animar o corpo daqueles que seguem passivos em ônibus lotados as seis da tarde e ouvem passivos a voz de sacerdotes tão pouco praticantes do Evangelho? Como lembrá-los de que esta terra pertence a quem nela trabalha?

Saudemos a coragem da Cia de Arte Persona por animar nosso espírito. E todos e todas que ousam fazer teatro em terra tão árida ao fomento concreto de políticas públicas favoráveis aos fazedores de cultura.

O IDEB separa a Califórnia da Louisiana, mas aproxima o PT da extrema-direita em Campos

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Ministério da Educação divulga dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – (crédito: Mila Ferreira/DA/CBPress)

Por Douglas Barreto da Mata

A corrida eleitoral já começou, e confesso que imaginei que nada mais me surpreenderia.  Engano meu.

Desde 1982, já me chamava a atenção o jornal “O Nacional”, que o PDT de Leonel Brizola editou, na época, com a logomarca do seu correspondente francês progressista, o Libération.  Ali comecei a me interessar pela política, para, finalmente, passar a militar no PT, a partir de 1986.

Achava que o pleito deste ano não traria novidades, e dado o favoritismo do atual prefeito de Campos dos Goytacazes, que concorre à reeleição, e a pouca densidade eleitoral e política de sua oposição, parecia que não haveria novidade.

Como já disse, errei feio.

Na última semana, houve a divulgação dos índices do IDEB, com a cidade campista revelando uma recuperação inédita, alcançando índice jamais registrado, de 5,4.  Enquanto isso, o Estado do Rio de Janeiro alcançou apenas 3,3, e se consolidou como o pior da região Sudeste, sendo o responsável pelo rebaixamento da média da região, e pior, colocando os fluminenses na penúltima colocação no Brasil, algo que retrocede a 2011, quando o estado apresentou os mesmos índices.

Ideb: estados não bateram meta — Foto: Editoria de arte com dados do Inep

Pois bem, mas em relação às eleições, qual foi a novidade?

Para meu espanto, consolidou-se uma estranha aliança na cidade de Campos dos Goytacazes, onde o PT e a extrema-direita se uniram para atacar os dados positivos do município, formando um estranho e impensável coro.

Todos sabemos que índices estatísticos, ou índices de avaliação são referências, importantes sim, mas referências que indicam aspectos que não podem ser levados como a totalidade dos processos aos quais se referem, e nem resumem toda a complexidade dos objetos que são avaliados.

Em outras palavras, sim, é preciso avançar mais e manter o foco na melhoria das condições da rede de ensino, investimento em pessoal, modernização e acesso às novas plataformas, etc.

Aqui um parêntese:

Há um outro componente que a “esquerda” desprezou, que reside no aspecto simbólico de um índice positivo na educação, que motiva alunos, pais, e profissionais a apostarem na forma pública de gestão, quebrando o nefasto argumento de que os esforços estatais são sempre ineficientes. Em suma, quando se aliou à extrema-direita, a “esquerda” ajudou a consolidar o discurso de que o que é público, não presta.

Foi como se o PT desse um sonoro tapa na cara de alunos, pais e profissionais de ensino.  Não foi só isso.

Esconder o fato de que a cidade não apresentou dados à avaliação anterior, simplesmente porque a gestão de Rafael Diniz destroçou o sistema educacional que existia, parece adequado ao modelo fascista de fazer política.

Mas não combinaria muito com o PT.  Não combinaria, é verdade, se não fosse o fato de que PT de Campos dos Goytacazes e esta mesma extrema-direita estiveram juntos no governo Rafael Diniz.

Isto é, olhando com de uma perspectiva histórica mais ampla, o PT de Campos dos Goytacazes sempre serviu como linha auxiliar de um tipo de conservadorismo macabro, justificando essa posição como combate ao “populismo da família Garotinho”.

Aqui um mea culpa, não me eximo de ter compartilhado, em algum tempo, essa noção.  A atual “aliança” do PT com a extrema-direita é como se o partido unisse a Família Manson (Aqui!).

O PT e a extrema-direita pretendem não ver o rotundo fracasso (licença, Brizola) do Estado do Rio de Janeiro, que deu marcha à ré até 2011, quando o Rio obteve o mesmo índice, 3,3.  13 anos de volta para o passado.

Enquanto isso, no Nordeste, muito mais pobre e muito menos glamoroso que o Rio Mil Maravilhas, as maiores notas de matemática, as cidades com maiores notas no Brasil, e as maiores médias estaduais se concentram, em um prenúncio virtuoso de que a região poderá reforçar uma tendência mundial: As empresas de alta tecnologia caçam locais com níveis de excelência em matemática para instalarem suas plantas e seus investimentos. 

Pois é.

Mal comparando, tipo a Califórnia e o Vale do Silício, que surfa na onda de um progressismo educacional e cultural, iniciado lá na década de 50/60, do século anterior, que afastou por completo o ressentimento e violência cultural e política, comum nos estados do sul dos EUA e do meio oeste.

Resultado?

O sul dos EUA patina, mesmo rico em petróleo, e desperdiça a vocação multicultural de cidades como New Orleans, dentre outras, e confina as chances de aproveitamento desse capital social riquíssimo em redutos de fascistas brancos de pouca ou nenhuma instrução.

Parece familiar? Copacabana? Pelinca? Pois é.

No entanto, eu imagino que com todas as semelhanças desses locais, e guardadas as enormes diferenças também, a verdade é que parece inimaginável que os setores mais progressistas da política no sul dos EUA se aproximem, ou se unam, aos neonazistas da Ku Klux Klan (a famigerada KKK).

kkk

Pois é justamente, o que acaba de acontecer em Campos dos Goytacazes.

O jornal que virou papel para embrulhar peixe

peixe reclamando

Por Douglas Barreto do Mata

Há muitos anos, quando os blogs exerciam mais influência na rede mundial de computadores, denominei um veículo de comunicação campista com essa utilidade citada no título.  Eram tempos de ingenuidade, quando acreditávamos no conto da internet como ferramenta de comunicação livre, e enfim, de exercício de liberdade de expressão e luta política contra o “sistema”. 

Bem, ficou claro que nem a internet era, ou será livre, e nem há possibilidade de liberdade de expressão dentro da institucionalidade capitalista, seja qual for o meio utilizado. Muito menos liberdade de imprensa.  O capitalismo se sustenta, principalmente, pela hegemonia ideológica. Há truques fantásticos, que nos fazem aceitar, e pior, aderir às ideias sem questionamento algum, normalizando absurdos.  As ciências (mormente as sociais e políticas), os entes políticos, o estado, a escola, as religiões, partidos políticos, e a mídia fazem parte dessa estrutura sofisticada e complexa.

Primeira prestidigitação: Capitalismo e Democracia são compatíveis. Já falamos por várias vezes dessa impossibilidade, por isso mesmo, vamos resumir:  Um sistema que se dedica à concentração e desigualdade econômica não pode ter na sua esfera política de controle (super estrutura) uma correspondência democrática.

Não sejamos tolos de imaginar que processos eleitorais sejam sinônimo de Democracia, ou que “o pleno funcionamento do Estado de Direito” também seja.  Qual nada. O Estado de Direito do capitalismo é garantir privilégios às elites e deveres aos pobres.  Esse é o “normal” no capitalismo.

Por outro lado, se concordamos que não há democracia no capitalismo, muito menos haverá liberdade de expressão ou de imprensa.  Pessoas, classes e empresas vocalizam suas demandas sempre filtradas por uma hierarquia (de classes), assim como tais atores são retratados e tratados com essa mesma clivagem, sempre.

Outra sacada genial do capitalismo:  Dizer que a existência de empresas de comunicação em pleno funcionamento, e sem qualquer regulamentação social ou controle social coletivo são sinônimos de plena democracia.

Ora, como empresas que são, os meios de comunicação de massa agem para defesa de interesses (e de seus pares, os ricos), e não em busca de uma verdade factual, ou de ampliar “os horizontes da democracia e dos direitos coletivos e individuais”, como gostam de recitar os empregados e os barões da mídia.

Acidentalmente, a verdade factual pode até servir a tais interesses, geralmente através de distorções e manipulações, usar uma parte desta verdade para legitimar uma mentira inteira.  Na essência, porém, a imprensa empresarial trabalha para dificultar que a maioria explorada se enxergue como tal, e quando há uma fresta de luz nestas trevas, logo é fechada com os poderes constituídos, dentre eles, o principal, o judiciário.

Não haveria problema algum em reconhecer que tais empreendimentos de mídia se inclinam a defender seus interesses de classe.  Isso seria honesto.  Daria a todos nós, os consumidores de conteúdo, a correta visão do que consumimos, fazendo o julgamento necessário. Nem sempre um interesse, como dissemos, invalida uma informação.  Mas não é assim que acontece.  Eles preferem seguir na lenga-lenga da democracia como valor universal. 

Desde que esse “universalismo” seja para garantir seus pontos de vista, como no caso da ferrenha luta pela democracia venezuelana, e a amnésia em relação ao regime saudita, por exemplo, ou para dar tons dramáticos à guerra russo-ucraniana, e banalizar o genocídio israelense.  Capturar os conceitos de liberdade (de imprensa e de expressão) como valores empresariais foi uma ideia brilhante, confesso.

Confesso que a angústia que tenho com o descalabro da internet e das redes sociais é suavizado, um pouco, quando assisto a luta (perdida) e renhida dos meios tradicionais de mídia e as redes sociais.

De tanto manipularem o conceito de liberdade de expressão (e de imprensa), agora são vítimas da “ditadura da liberdade de expressão” das redes, do “totalitarismo democrático” pós-capitalista, que tornou os grandes veículos meros papéis de embrulhar a sobra da feira. Os grupos de mídia aprendem, no leito de morte, que nem todo barulho é democracia, nem toda narrativa é liberdade de expressão, nem toda atividade econômica pode existir sem controle.

Foram engolidos pelo monstro que criaram.  Digo sempre que a luta agora, entre os escombros da mídia e as redes digitais, é pelo controle da mentira. Esse monopólio sempre foi dos grandes grupos nacionais e seus afilhados regionais, como o grupo referenciado nesse texto. Perderam essa batalha.

Se eu fosse sentimental, diria que sinto pena. Não, não sinto.

Mas também não cheguei a festejar, porque o que foi colocado no lugar da mídia corporativa pode ser bem pior. Em Campos dos Goytacazes, aquele que se jactava de ser o mais influente e poderoso grupo de comunicação, que se dizia, e se imaginava ter o poder de “fazer e derrubar reis e rainhas”, de estabelecer o padrão de costumes, na verdade, trejeitos “jecas” e provincianos, com sonhos de cosmopolitismo mal ilustrado e, quase sempre, preconceituoso, agora, se contorce na inutilidade absoluta.

Não imaginem um insucesso financeiro, nada disso. Ninguém vai passar fome. A questão central para um grupo de mídia é monopolizar o verbo, e aí sim, obter a verba, quer dizer, convencer a todos que ganha dinheiro porque detém “a verdade”, ou pior, aquilo que será “a verdade”, justamente, porque eles disseram que é. Esses dias ficaram no passado.

Todos os antigos empregados, com algo entre 2 e 5 neurônios, saíram em busca da autonomia, e arrecadam para si mesmos aquilo que faziam em troca de salários de fome, chantageados pela falta de opção e pelo delírio de “trabalhar em um jornal influente”.

No velho jornal, e na tentativa de versão digital, ficou só o pessoal do “copia e cola” dos “releases” das assessorias dos órgãos oficiais, cujos responsáveis ainda guardam alguma memória afetiva com a redação carcomida pela irrelevância, enquanto colocam recursos grossos nas redes sociais e nas suas próprias estruturas de mídia.  A morte de um jornal se dá pela sua irrelevância.

Vamos esperar a próxima Páscoa, e quem sabe, o jornal vai servir para o comércio de pescados descartar o peixe apodrecido?

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura

agua mole

Por Douglas Barreto da Mata

Podemos acusar a empresa concessionária de fornecimento de água e tratamento de esgoto de Campos dos Goytacazes de muitas coisas, menos de falta de engenhosidade para driblar qualquer subordinação às normas e regulamentos do contrato a qual está vinculada, junto com a municipalidade.  Aliás, se usassem 5% dessa engenhosidade e energia para melhorarem os seus processos administrativos, para cumprimento de suas obrigações, Campos dos Goytacazes estaria no paraíso.

A estratégia dos grupos concessionários, sem exceção, no Brasil e no resto do mundo, e em qualquer atividade econômica, seja conservação de estradas, gestão de rodoviárias, aeroportos, portos, ou, neste caso, seja de águas  esgoto é sempre a mesma.Ignoraram o poder concedente.

Veja o caso da concessão estadual de trens urbanos no Rio. Literalmente  derrubam esgoto in natura na cabeça do poder concedente, e estão na iminência de entregar a concessão de volta, sem os investimentos prometidos.  Cobram tarifas, e pronto, agora, depois de comida a carne, entregam os ossos para o Governo do Estado.

A concessão da BR 101 também não é lá muito diferente, e vez por outra tenta escapar às suas obrigações contratuais, quando ameaça devolver a concessão.

Estes grupos econômicos agem como se fossem donos dos serviços concedidos, e ao mesmo tempo, subtraem as atribuições dos entes legislativos, e subvertem as regras, subordinando-as aos seus interesses negociais. Vencem pelo cansaço, daí o título desse texto.

Prestação de contas da empresa do grupo Águas? Ninguém sabe, ninguém viu?

Outro caso famoso na cidade campista foi o rompimento do dique na Av XV de Novembro. Com a velocidade da luz, construíram a narrativa de que foi a força do leito do rio que levou a contenção.

Aqui, uma outra face dessa estratégia:  O controle da narrativa, facilitado por relações incestuosas com grupos de mídia locais.Como água mole em pedra dura, a mentira repetida também “fura” a pedra da verdade.

O fato é que, depois da apresentação da “certeza” de que foi a cheia do rio a causa do incidente, ninguém mais questionou se poderia ter sido o rompimento da adutora, que passava bem no local.

Nesses últimos dias, a crise hídrica se apresentou, e houve fundada suspeita sobre a qualidade da água fornecida.

A empresa, antes de todos, sem qualquer base científica, correu e desmentiu qualquer possibilidade de contaminação, antes mesmo de que fosse comprovada ou afastada essa circunstância.  Depois disse que poderia ser, depois desdisse, e assim, ficou tudo por isso mesmo.

Por último, a “do carvão ativado”.  Eu não sou engenheiro, nem especialista no assunto, mas me pareceu que aquela mancha de carvão exaurida dos tanques de filtragem deixa algumas dúvidas:

– Se houve aumento do uso do insumo na filtragem, algo errado havia, ou não?

Eu dei uma rápida olhada no pai digital dos burros, o Google, e olhem o que achei:  o carbono é um material extremamente poroso que atrai e retém uma grande variedade de contaminantes prejudiciais à saúde. O carvão ativado consiste em uma esponja porosa sólida e preta. É usado em filtros de água, medicamentos que removem seletivamente toxinas e processos de purificação química.

Uai, se estava tudo certo, sem toxinas, por que colocar carvão ativado até ter que exaurir e jogar o excesso no Rio Paraíba do Sul?  E mais, que coincidência fazer isso quando negavam que havia toxinas, não é?

Enfim, como confiar em uma empresa que não tem transparência para apresentar suas contas aos consumidores e aos órgãos fiscalizadores do contrato? Como acreditar em quem esconde os números que integram o cálculo da tarifa, quando eles nos dizem que a água é boa?

Dizem os antigos, quem faz um cesto, faz cem.

A luta por moradia digna: uma homenagem ao professor Antonio Godoy

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Antonio Godoy deixa um legado de excelência acadêmica e de compromisso com a construção de uma cidade mais justa, mas saudável e menos desigual

Por Luciane Soares da Silva

No ano de 2021 tive a oportunidade de unir forças com o Instituto Federal Fluminense no edital de seleção pública de projetos de apoio à assistência técnica em habitação de interesse social (ATHIS)  para patrocínio pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo  (CAU/RJ) Demetre Anastassakis. Fomos contemplados com o primeiro e segundo lugares e iniciamos a construção de instrumentos que possibilitassem a compreensão da urgência de acesso a moradia. O território escolhido foi a  Ocupação Novo Horizonte. Perto do Aeroporto de Campos dos Goytacazes este território continha à época aproximadamente 700 famílias. Sem luz, água e vivendo em condições de grande vulnerabilidade, abrigava principalmente mulheres e crianças. Desde então me aproximei do curso de Arquitetura e Urbanismo, seus professores, alunos e seu coordenador, o professor Antonio Godoy.

Nestes anos nossa cooperação se estreitou na troca de aprendizados, bancas, produção de artigos, trabalho de campo e envolvimento direto na divulgação de ATHIS, compreendendo a moradia como um processo muito mais amplo do que acesso à casa. As situações de vulnerabilidade urbana em Campos têm sido objeto de pesquisa ao mesmo tempo em que uma equipe multidisciplinar atua em áreas como a Chatuba, Margem da Linha e Novo Horizonte.

Antonio esteve presente na articulação de todas estas frentes, na relação com a Universidade Federal Fluminense e com a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Como professor, pesquisador e orientador entusiasmado, experiente, engajado, era especialmente cativante sua generosidade em compartilhar a vida como aposta de trabalho. Árduo. A rede construída a partir destas colaborações, frutifica não apenas na produção de conhecimento mas na possibilidade de impactar diretamente as políticas públicas municipais.

Em 2021, defendeu a tese “O resultado da aplicação dos royalties do petróleo na intensificação da segregação espacial e nas transformações de Campos dos Goytacazes/RJ (1997-2020)” no Programa de Pós Graduação em Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ao tratar da expansão urbana da cidade de Campos, abordou os conflitos que geram a cidade que conhecemos hoje. A valorização do solo, o crescimento da especulação imobiliária, a forma desigual da distribuição da produção habitacional. Godoy problematizou em sua tese a construção de conjuntos habitacionais em áreas periféricas, com  “menor oferta de equipamentos e serviços públicos”.

Recentemente estivemos juntos construindo coletivamente propostas que coloquem a assistência técnica em habitação de interesse social no centro de uma política municipal de governo para Campos. A possibilidade de “ouvir a sociedade” o motivava. E deve seguir motivando alunos, pesquisadores e toda população interessada em construir uma cidade mais justa, mas saudável e menos desigual.

Seu legado como professor e pesquisador seguirá conosco.

O PT Campos continua esperando Godot

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Por Douglas Barreto da Mata

Estive na Convenção do PT em Campos dos Goytacazes, a convite do meu amigo José Alves de Azevedo, irmão do candidato a prefeito Jefferson. Como imaginei, foi parecido com um encontro com uma pessoa que você foi muito íntima por anos, mas que agora só restam memórias afetivas. Mas, surpreendentemente, não foi tão ruim como imaginava.

Encontrei muita gente querida por lá, o próprio Zé Alves, Érica e  Zé Luis, Norma, Afrânio, Dudu Peixoto e sua esposa Odisseia, Luciano D’Angelo, tive um bom papo com alguns deles, conheci gente nova, como o companheiro Alan, enfim, foi uma manhã interessante.

Destaque para a presença do pessoal do MST e do Sindipetro. Eu sou ranzinza, mas eu entendo que o MST use camisetas, bonés, e toda sua identificação visual para se destacar na cena, mas, confesso, não consigo entender porque os “petroleiros”, ao invés de estarem com bonés, camisas, e as mesmas ferramentas visuais, usam aquele uniforme laranja, com se estivessem a caminho do embarque.  É como policiais sindicalizados e petistas fossem a um evento político fardados, ou ostentando armas. O mais engraçado é que boa parte dos “petroleiros” nunca subiu em uma plataforma, e só exerceu funções administrativas. Mais uma vez comparando, é como se policiais da oficina da PM fossem a um ato político fantasiados de “BOPE”. Fetiche estranho.

A saia justa, inclusive, que pude perceber, foi a presença do candidato e coordenador do sindicato dos petroleiros no palco com os convidados e com o candidato majoritário, que provocou a esperada reação dos que ficaram de fora. Como se vê, mesmo entre “companheiros”, as cotoveladas e as atitudes do tipo “manda quem pode, obedece quem tem juízo” são mais comuns do que se imagina.

Pois bem, e por óbvio, sendo coerente com o título, Godot não foi a Convenção, e nem a deputada estadual Carla Machado, que até então, junto com Godot, eram a esperança de salvação do partido na cidade. Cansativo.

O problema do PT de Campos, concordou comigo um companheiro, é o que digo faz tempo: é melhor ser cabeça de mosquito a ser rabo de elefante. O PT insiste em ser o rabo e a bosta do bicho. É repetitivo, eu sei, mas para um partido que comete sempre os mesmos erros, enquanto aguarda resultados diferentes, nunca é demais dizer.

Foi legal ver o entusiasmo e a força de Luciano D’Angelo, e seu amor pela política, e ao mesmo tempo, angustiante ver que sua onipresença representa justamente a falta de renovação do partido e dos seus quadros pensantes.

O incômodo que percebi pela ausência da deputada, não é maior que o incômodo que senti ao ver que o partido está lá em 1988, e Jefferson me lembrou Luís Antônio Magalhães, o então candidato do PT, que não aceitou entrar no movimento Muda Campos, que elegeu Anthony Garotinho.

Mas há uma sensível diferença: mesmo Luís Antônio e seus correligionários de um lado, e os que desejavam embarcar no projeto político da frente ampla contra a dinastia moribunda de Zezé Barbosa, havia um senso político mais amplo, visões de mundo em debate, enfim, havia vida no partido. Não é saudosismo, é fato, e a História prova.

Aquele PT conseguiu, a duras penas, demarcar um campo, uma posição firme, era quase uma aldeia de gauleses no meio do Império Romano, como desenharam Goscinny e Uderzo. A fórmula mágica era a esperança. Na convenção do dia 20/07 havia barulho sim, mas vida política não. Esperança? Nem rastro.

Outra coisa que me chamou a atenção foi que, findada a Convenção, realizada na sede do Sindicato dos Bancários, alguns foram para o sindicato ao lado, o dos trabalhadores em saneamento. Confesso que não entendi a divisão em dois lugares, mas pode estar relacionado com o funcionamento do Sindicato dos Bancários, sei lá.

Porém, ficou parecendo que há uma clara divisão em uma estrutura que já não reúne muita coisa. Dividir quase nada resulta em nada para todos. Não vejam na minha fala uma crítica a divisões, não.  Divisões, comportamentos e posturas diferentes são desejáveis, pois do conflito nasce o novo, é o atrito que gera energia necessária ao movimento. A questão é a hora e a forma de apresentar tais cismas.

Assim, o PT de Campos espera Godot e seus salvadores.

Em uma rede social, assisti um vídeo daqueles feitos em massa, pela Presidenta do PT, Gleisi. Além da horrorosa impessoalidade, me assombrou a falta de cuidado, o zelo em, pelo menos, repetir a gravação e corrigir o erro quando fala: “PT de Campos “do” Goytacazes”, coisa horrível, descortês mesmo.

A candidatura do PT em Campos parece um parente indesejado, que chegou sem avisar e diz que vai ficar um dia, e acaba ficando três meses. O pior é que esse parente chega em um casa de meio cômodo e sem banheiro, tal a dimensão do partido na cidade.

Tudo isso, como resultado de uma tática maluca, que foi tentar manter no páreo quem não podia estar nele, na crença que as intenções de votos consagradas à deputada Carla Machado, por encanto, fossem para no colo de outra candidatura.

Kafka não escreveria melhor: Uma candidata que não podia ser, transferiria votos que ainda eram intenções, cuja entrega nunca pretendeu ou seria impossível. Assusta a ingenuidade de quem, lá no PT, acha que essas intenções migraram para Jefferson, como se houvesse essa identidade partidária entre a deputada e o partido, ou pior dizendo, como se ela não tratasse desse capital eleitoral como um brinquedo que não quer emprestar a ninguém, como aquelas crianças egoístas.

O problema do PT de Campos não é a infidelidade declarada de Carla Machado, ou o seu completo desprezo pelos protocolos políticos caros ao partido.

Carla é Carla. Carla Machado construiu seu patrimônio político na base do mesmo personalismo que o PT diz querer combater em Campos, com uma sensível diferença: mesmo com muito mais dinheiro per capita para cuidar da sua gente sanjoanense, o que ela legou ao município, que a elegeu por duas vezes, foi 77% de pessoas na faixa da miséria e no CadÚnico.

Em qualquer avaliação séria, a administração de Carla Machado em SJB é um desastre sócio-econômico e socioambiental. O cerne é que o PT de Campos hoje é menor do que Carla Machado, e, como dissemos, ela mesma não é lá grande coisa. Além de votos em SJB, um colégio eleitoral adjacente de uma cidade satélite de Campos, qual é o grande feito de Carla Machado? O Porto? 

Hum, grilagem oficial de terra (ou reforma agrária invertida, tirando dos pobres e dando aos ricos), desterro de pessoas, desastre ambiental com salinização de terras e água potável, e agora o último dado recente que desmistifica as mentiras que o justificava sua existência: O porto gera poucos empregos de qualidade para as pessoas daqui, que, como sempre, ficaram só com o osso para roer. Combate à pobreza? Não é o que dizem os dados oficiais. Combate à desigualdade? Idem.

Então, qual é o encanto que faz Carla Machado parecer a salvação para o PT de Campos? Sinceramente, não sei responder, o coração tem razões que a própria razão desconhece, talvez.  Quem sabe?

Uma crise hídrica floresce nas águas do Paraíba do Sul e ameaça o abastecimento em Campos

rps verdeÁguas do Rio Paraíba do Sul com tom esverdeado dão pista sobre as causas da crise em curso

Mesmo distante de Campos dos Goytacazes, continuo acompanhando o que está se transformando em um episódio modelo da crise hídrica que está sendo construída há décadas na bacia do Rio Paraíba do Sul e muitos de suas afluentes.  Ao contrário das tentativas de minimizar o problema, quero lembrar que esta época do ano é extremamente propício para o crescimento de algas em rios altamente antropizados como é o caso do Paraíba do Sul. E com elas a liberação de toxinas que podem ser altamente prejudiciais à saúde humana.

Um problema adicional é a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) não apenas no Rio Paraíba do Sul, mas também em alguns de seus afluentes.  Nesse sentido, fiz uma inspeção visual rápida na bacia do Rio Pomba a partir do município homônimo até o encontro com o Rio Paraíba do Sul e detectei a presença de 6 PCHs, algumas com reservatórios de tamanho razoável e capazes de se tornarem ambientes altamente propícios para alta reprodução de algas com capacidade de emitirem toxinas (ver imagem abaixo da área do reservatório da PCH Ivan Botelho 3 com suas águas esverdeadas).

pcv ivan botelho 3

A questão é que ao ter suas águas fluindo para o interior do Paraíba do Sul, que atualmente possui características propícias para a proliferação de algas, o Rio Pomba eleva o nível de ameaça que já deveria ter alertado tanto as concessionárias de água e esgoto como a Águas do Paraíba e CEDAE, mas também órgãos ambientais como o INEA e o IBAMA.

Quero ainda lembrar a existência do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap) e também do  Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana que tem como objetivo promover a gestão descentralizada e participativa dos recursos hídricos da Região Hidrográfica IX que abrange inclusive o citado Rio Pomba. O problema é que até agora, em meio à eminência de uma crise hídrica que ameaça a continuidade do abastecimento de água em Campos dos Goytacazes, não há sinal de vida por parte dos representantes do Comitê Baixo Paraíba do Sul. Esse tipo de inação levanta questões importantes sobre a utilidade real deste tipo de comitê, pois os comitês de bacia possuem recursos financeirosvindos principalmente das cobranças pelo uso da água, que são mais do que suficientes para operarem em prol dos interesses da população,

Mas uma coisa é certa: os problemas que têm sido notados pela população campista em termos de odor e sabor da água que chega nas torneiras são apenas sintomas de uma crise que pode estar apenas começando. Como li que os pesquisadores do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf já estão coletando amostras  para ir ao cerne da questão, é bem provável que tenhamos mais respostas sobre o que de fato está acontecendo.

As decisões políticas, as salsichas e o tratamento da água

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Por Douglas Barreto da Mata

Diz um antigo ditado que se o povo soubesse como são feitas as salsichas e como são tomadas certas decisões políticas, o mundo entraria em convulsão. Pois bem, eu adiciono mais um item: o tratamento de água e esgoto executado pelas empresas concessionárias do país.

Os economistas, historiadores, cientistas sociais e políticos mais atentos sabem que os serviços concedidos (água, esgoto, transporte, estradas, equipamentos de infraestrutura, etc) são a última fronteira a ser atacada pelos fundos de investimentos, os fundos predadores ou fundos urubus.

Na ausência de mais riquezas para transferir para as suas matrizes, depois de exaurir as economias da periferia com a imposição de altas taxas de arbitragem ao capital que emprestam (juros), ao mesmo tempo que criam as condições para que haja demanda por tais empréstimos (variação cambial, ataques especulativos, e etc), estes fundos atacam os serviços concedidos.

É o caso da ENEL, da Arteris, e de todos os conglomerados financeiros que adquiram outras fatias das estruturas primordiais de nossa economia, como a Eletrobrás, portos e aeroportos, enfim, tudo que faz um país se movimentar.

Na cidade de Campos dos Goytacazes, bem como em tantas outras ao redor do país, atua a empresa do grupo Águas do Brasil. Aqui denominada Águas do Parahyba, o grupo é conhecido por duas características que são comuns a todos os serviços concedidos: Péssimo serviço e tarifas que beiram a extorsão. Mas há um outro ingrediente nessa receita.

A total e completa falta de transparência, que acontece sob o beneplácito do ente que deveria fiscalizar e exigir essa circunstância.

A Câmara Municipal de Vereadores de Campos dos Goytacazes permite que a empresa Águas do Parahyba faça da cidade a sua “casa da mãe Joana”.

Por exemplo, a prestação de contas e a exibição das planilhas de custo e investimentos exigidas no contrato está há anos sem aparecer, e alguns gaiatos passaram a chamar essas informações de “cabeça de bacalhau”, existe, mas raramente se vê.

É com essas informações que se elabora a tarifa, os níveis de satisfação, a previsão vinculante (obrigatória) de investimentos, a descrição dos custos e investimentos já realizados, enfim, é nesse monte de dados que a população sabe, dentre outras coisas, se o contrato está sendo cumprido, e se o preço é correto.

Isto tudo não é um “favor” da empresa, é obrigação legal, já que o contrato de adesão já traz em si uma dose elevada de cláusulas que não podemos alterar.

Ou seja, neste modelo de contrato não há discussão entre as partes contratantes, nem possibilidade de usarmos outro fornecedor.

Quando uma das partes não pode debater as condições do que está contratando, e por tal razão, não pode escolher, nem dizer se aceita aquela forma de contrato, que por isso, é uma imposição (“adesão”) , criam-se regras para que o poder público aja em nome do contratante, a população.

O ente escolhido para avaliar, fiscalizar e encerrar (denunciar) o contrato é a Casa Legislativa, sem a qual, pouco pode fazer o Poder Executivo, além de judicializar os problemas, como tem feito, ultimamente.

Aí, entra outra questão. A julgar pelo sucesso dos advogados da empresa junto ao TJ/RJ e até ao STJ e STF, eu diria que todos deveriam ser indicados para tomarem assentos como desembargadores e ministros, haja vista tanta competência. Se eu fosse Governador, ou Presidente da República, na dúvida sobre quem indicar, não hesitaria mais: um advogado da empresa Águas do Brasil.

Não há, na história da advocacia brasileira, nenhum caso de tamanha taxa de vitórias em cortes superiores como este, dos advogados do grupo Águas.

Pois bem, como a falta de transparência é regra, e não exceção nessa relação consumerista, não nos causa espanto que a água bebida pelos campistas pareça com cocô de paulista (outro ditado  antigo: orgulho de campista é beber cocô de paulista), pois como sabemos, o Rio Parahyba tem sua nascente em São Paulo.

Ontem os meios de comunicação divulgaram a contaminação de espécies de tubarão por cocaína, o que revela que a ausência de tratamento do esgoto lançado no mar, ou tratamento ineficiente. Agora é a água da cidade de Campos dos Goytacazes.

Meses atrás foi a contaminação do sistema Guandu, provavelmente, por empresas ligadas à cadeia do refino de petróleo. Novamente, ninguém sabe. E nunca saberemos, porque as empresas do setor não revelam seus “segredos”.

Fica só uma dúvida: Será que na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, e nas festas de veículos de imprensa patrocinados pela empresa Águas do Parahyba, serve-se água da torneira filtrada ou eles consomem água mineral envasada? 

Água de torneira em Campos: o que há de errado?

água

Venho ao longo dos anos acompanhando a situação da distribuição da água na cidade de Campos dos Goytacazes, tendo inclusive orientado uma dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf que foi defendida no cada vez mais distante ano de 2012.

Por isso mesmo, recebi com certa incredulidade um telefone de uma colega que me narrou uma série de problemas que estariam afetando a condição da água que está sendo distribuída na cidade de Campos dos Goytacazes pela concessionária “Águas do Paraíba”. Segundo essa colega, os problemas estariam causando transtornos a que ingeriu uma água que estaria com alterações de odor e gosto. O principal sintoma dessas alterações seria o fato de que o produto servido aos campistas estaria com um “cheiro de terra molhada”. 

Imediatamente me ocorreu o fato de que o cheiro de terra molhada ou a chuva é um efeito que resulta da combinação de duas substâncias principais: o petricor e a geosmina. É preciso lembras que estas duas substãncias são componentes naturais do solo e das plantas que, quando entram em contato com a chuva, produzem uma série de reações das quais emerge o aroma único. Em função dessa evidência é que descartei uma versão que estaria circulando sobre um suposto acidente químico no Rio Pomba, afluente do Rio Paraíba do Sul.

Se o problema detectado pelos campistas tiver alguma relação com a presença de uma dessas substâncias, poderemos estar diante do mesmo problema que afetou o abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2021.

Há que se lembrar que apesar da presença de Geosmina não apresentar efetivamente um efeito tóxico ao organismo, pesquisadores já relataram que a água com gosto desagradável pode causar efeitos psicossomáticos (sintomas causados por alguma instabilidade emocional que vão gerar efeitos físicos no organismo) como dores de cabeça, estresse e náuseas.

Desta forma, o que se espera é que a ação dos órgãos de fiscalização da qualidade da água servida aos campistas seja rápida, e que se dê o devido retorno aos cidadãos campistas que estão neste momento justamente alarmados.

O trânsito na porta da Uenf: abrindo uma janela para os impactos do Porto do Açu na mobilidade urbana em Campos

Como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, me tornei um observador privilegiado de um fenômeno que considero pouco estudado, mas que deveria merecer mais atenção das autoridades municipais em função dos graves riscos de acidentes de grande monta que são postos sobre a população de Campos dos Goytacazes.

Falo aqui do trânsito de caminhões indo e vindo do Porto do Açu e que, graças ao fechamento da Estrada dos Ceramistas, estão transitando diretamente em nossas ruas e avenidas, sem que se perceba qualquer controle sobre o conteúdo de suas cargas, especialmente aquelas que possuam maior potencial para graves acidentes.

É como se assistisse um filme de ação sentados calmamente em uma sala de projeção sem que aquilo tivesse o potencial de realmente explodir em nossas caras, o que, evidentemente, não é o caso da frota de caminhões pesados que hoje, na inexistência de um ferrovia ou rodovia apropriada, ocupam o mesmo espaço ocupado por carros de passeio, vans, ônibus de transporte público, motocicletas e até bicicletas. 

Ao longo do último ano passei a fotografar parte desses caminhões enquanto espero para poder entrar ou sair do campus Leonel Brizola.  Hoje, até para lembrar a importância que seria a retomada urgente das obras da Estrada dos Ceramistas ou a inauguração da chamada “ponte de integração”, posto abaixo parte do meu acervo fotográfico.  Aproveito ainda para cobrar que as autoridades municipais, a começar pelo IMTT, comecem a fiscalizar esse trânsito de caminhões pesados na área urbana de Campos dos Goytacazes, antes que algo realmente grave aconteça.