Organizações pedem que a Anvisa suspenda o uso de 3 agrotóxicos após novas descobertas científicas

Por Yudi Soares para “Terra Brasil Notícias”

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novo fôlego em 2025 após entidades da sociedade civil solicitarem oficialmente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspensão das vendas de três ingredientes ativos amplamente utilizados: glifosato, atrazina e alacloro, em um contexto de recordes sucessivos no consumo dessas substâncias e de questionamentos sobre a integridade científica de estudos que embasaram decisões regulatórias anteriores.

Por que o glifosato está no centro da discussão no Brasil?

Por mais de duas décadas, decisões regulatórias sobre sua segurança se apoiaram em um estudo publicado no ano 2000, cuja independência científica passou a ser fortemente questionada.

Em 2025, veio à tona que funcionários da empresa Monsanto teriam participado da elaboração do artigo de forma não transparente, levando à sua retratação pela revista científica. Como esse estudo serviu de base para pareceres da Anvisa que mantiveram o glifosato liberado em 2020, entidades passaram a exigir reavaliação urgente com critérios atualizados, transparência e maior escrutínio público.

Quais são os números mais recentes sobre agrotóxicos no Brasil?

A discussão sobre o glifosato se insere em um cenário mais amplo de crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil. Em 2024, o Ibama registrou aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados, um aumento superior a 20% em relação a 2023, o maior volume já registrado na série histórica.

Entre esses ingredientes, o glifosato segue na liderança, com mais de 230 mil toneladas vendidas em 2024, seguido de compostos como o mancozebe, que subiu de posição após forte crescimento. Embora os dados do Ibama sejam autodeclaratórios e passíveis de revisão, eles confirmam uma tendência de expansão em volume e faturamento, também apontada pelo Sindiveg.

Quais são os riscos de câncer associados à atrazina e ao alacloro?

Além do glifosato, a atrazina e o alacloro também foram incluídos no pedido de reavaliação apresentado à Anvisa. Em novembro de 2025, especialistas internacionais em saúde classificaram essas duas substâncias como prováveis causadoras de câncer em humanos, aumentando a pressão por medidas de precaução.

A atrazina ocupa lugar de destaque no mercado nacional, com dezenas de milhares de toneladas comercializadas anualmente, o que amplia o potencial de exposição populacional. Diante dessa classificação de risco, as entidades defendem a aplicação do princípio da precaução, com suspensão temporária do uso enquanto uma nova análise toxicológica abrangente é conduzida.

Quais fatores são considerados na reavaliação toxicológica de agrotóxicos?

As entidades que assinam o pedido à Anvisa argumentam que uma reavaliação séria deve considerar não apenas estudos laboratoriais, mas também evidências de campo e impactos cumulativos. Nessa perspectiva, o processo precisa analisar efeitos à saúde humana, ao meio ambiente e às condições de trabalho no campo, de forma integrada.

Para tornar essa análise mais robusta, costumam ser avaliados diversos aspectos científicos e regulatórios, que ajudam a orientar decisões sobre restrições, cancelamentos ou mudanças de uso autorizado:

  • Novas evidências científicas sobre efeitos à saúde humana, incluindo estudos epidemiológicos;
  • Impactos ambientais, como contaminação de solo, água e biodiversidade;
  • Exposição ocupacional de trabalhadores rurais e condições de aplicação;
  • Resíduos em alimentos consumidos pela população e padrões de consumo.

Como o aumento do uso de agrotóxicos impacta a sociedade brasileira?

O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil é acompanhado por preocupações com saúde pública e meio ambiente, como contaminação da água, do solo e dos alimentos. Casos de intoxicação aguda em trabalhadores expostos diretamente e suspeitas de efeitos crônicos na população em geral reforçam a necessidade de políticas de redução e controle mais rigoroso.

Paralelamente, o país registra número recorde de liberações de novos produtos: em 2025, de fevereiro ao início de dezembro, foram autorizados mais de 700 agrotóxicos para uso agrícola, superando 2024. Esse avanço coexiste com iniciativas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que busca estimular práticas agrícolas menos dependentes de químicos sintéticos e fortalecer a vigilância em saúde.

Quais caminhos vêm sendo discutidos para reduzir a dependência de agrotóxicos?

No contexto atual, o debate sobre políticas de redução de agrotóxicos envolve diferentes frentes de ação governamental, científica e social. Documentos técnicos e propostas oficiais costumam apontar a necessidade de combinar mudanças regulatórias com incentivos a alternativas produtivas mais sustentáveis.

De forma geral, são mencionadas três linhas de atuação que podem apoiar uma transição gradual para modelos de produção menos dependentes de pesticidas químicos, conciliando produtividade com proteção à saúde e ao meio ambiente:

  1. Revisão regulatória: reavaliar ingredientes ativos, atualizar monografias, restringir usos específicos ou cancelar registros de substâncias com evidências consistentes de risco;
  2. Estímulo a alternativas: incentivar o manejo integrado de pragas, a agroecologia e insumos biológicos, reduzindo a necessidade de produtos químicos tradicionais;
  3. Transparência e monitoramento: ampliar sistemas de vigilância em saúde, controle de resíduos em alimentos e divulgação de informações acessíveis sobre riscos e usos permitidos.

Fonte: Terra Brasil Notícias

Relatório aponta que substâncias químicas sintéticas no sistema alimentar geram um custo de saúde de R$ 11 trilhões anuais

Cientistas emitem alerta urgente sobre substâncias químicas que comprovadamente causam câncer e infertilidade, além de prejudicarem o meio ambiente
Pastinacas, alface, aipo e tomates em embalagem plástica.
Os ftalatos e os bisfenóis são comumente usados ​​como aditivos plásticos, empregados em embalagens de alimentos e luvas descartáveis ​​utilizadas em seu preparo. Fotografia: Paul Weston/Alamy
Por Damien Gayle para “The Guardian” 

Cientistas emitiram um alerta urgente de que alguns dos produtos químicos sintéticos que sustentam o sistema alimentar atual estão impulsionando o aumento das taxas de câncer, distúrbios do neurodesenvolvimento e infertilidade, ao mesmo tempo que degradam os alicerces da agricultura global.

O impacto na saúde causado por ftalatos, bisfenóis, agrotóxicos e PFAS, os chamados “químicos eternos”, chega a US$ 2,2 trilhões por ano – aproximadamente o mesmo que os lucros das 100 maiores empresas de capital aberto do mundo, segundo relatório divulgado na quarta-feira .

A maior parte dos danos aos ecossistemas permanece sem preço definido, afirmam, mas mesmo uma contabilização restrita dos impactos ecológicos, levando em conta as perdas agrícolas e o cumprimento das normas de segurança da água para PFAS e agrotóxicos, implica um custo adicional de US$ 640 bilhões. Há também consequências potenciais para a demografia humana, com o relatório concluindo que, se a exposição a desreguladores endócrinos como bisfenóis e ftalatos persistir nos níveis atuais, poderá haver entre 200 milhões e 700 milhões de nascimentos a menos entre 2025 e 2100.

O relatório é fruto do trabalho de dezenas de cientistas de organizações como o Instituto de Saúde Preventiva , o Centro de Saúde Ambiental, a Chemsec e diversas universidades dos EUA e do Reino Unido, incluindo a Universidade de Sussex e a Universidade Duke. A equipe principal do projeto foi liderada pela Systemiq, uma empresa que investe em empreendimentos voltados para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.

Os autores afirmaram que se concentraram nos quatro tipos de substâncias químicas examinadas porque “elas estão entre as mais prevalentes e mais bem estudadas em todo o mundo, com fortes evidências de danos à saúde humana e ecológica”.

Um dos membros da equipe, Philip Landrigan, pediatra e professor de saúde pública global no Boston College, classificou o relatório como um “alerta”. Ele afirmou: “O mundo precisa acordar e fazer algo a respeito da poluição química. Eu diria que o problema da poluição química é tão sério quanto o problema das mudanças climáticas.”

A exposição humana e dos ecossistemas a produtos químicos sintéticos aumentou drasticamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a produção química aumentando mais de 200 vezes desde a década de 1950 e mais de 350.000 produtos químicos sintéticos atualmente no mercado global.

Há três anos, pesquisadores do Centro de Resiliência de Estocolmo (SRC) concluíram que a poluição química havia cruzado um “limite planetário” , o ponto em que as alterações provocadas pelo homem na Terra a empurram para fora do ambiente estável dos últimos 10.000 anos, período em que a civilização humana moderna se desenvolveu.

Ao contrário dos produtos farmacêuticos, existem poucas medidas de segurança para testar a eficácia dos produtos químicos industriais antes de serem utilizados, e o monitoramento dos seus efeitos após a sua utilização é mínimo. Alguns demonstraram ser extremamente tóxicos para humanos, animais e ecossistemas, obrigando os governos a arcar com os custos.

Este relatório avalia o impacto de quatro famílias de substâncias químicas sintéticas endêmicas na produção global de alimentos. Os ftalatos e os bisfenóis são comumente usados ​​como aditivos plásticos, empregados em embalagens de alimentos e em luvas descartáveis ​​utilizadas no preparo de alimentos.

Os agrotóxicos são a base da agricultura industrial, com grandes fazendas de monocultura pulverizando milhares de litros de produtos químicos nas plantações para eliminar ervas daninhas e insetos, e muitas culturas sendo tratadas após a colheita para manter o frescor.

Os PFAS são utilizados em materiais que entram em contato com alimentos, como papel impermeável a gordura, embalagens de pipoca e caixas de sorvete, mas também se acumularam no meio ambiente a tal ponto que chegam aos alimentos por meio da contaminação do ar, do solo e da água.

Todas foram associadas a danos como disfunção endócrina (sistema hormonal), câncer, defeitos congênitos, deficiência intelectual e obesidade.

Landrigan afirmou que, durante sua longa carreira em saúde pública pediátrica, observou uma mudança nas condições que afetam as crianças. “A quantidade de doenças e mortes causadas por doenças infecciosas como sarampo, escarlatina e coqueluche diminuiu bastante”, disse ele. “Em contrapartida, houve um aumento incrível nas taxas de doenças não transmissíveis. E, claro, não há um único fator, mas as evidências são muito claras de que a exposição crescente a centenas, talvez até milhares, de substâncias químicas fabricadas é uma causa muito importante de doenças em crianças.”

Landrigan afirmou estar mais preocupado com “os produtos químicos que danificam o cérebro em desenvolvimento das crianças e, portanto, as tornam menos inteligentes, menos criativas e menos capazes de contribuir para a sociedade ao longo de toda a sua vida”.

“E a segunda classe de substâncias químicas que realmente me preocupa são as substâncias disruptoras endócrinas”, acrescentou. “O bisfenol seria o exemplo clássico, que entra no corpo das pessoas em todas as idades, danifica o fígado, altera o metabolismo do colesterol e resulta em aumento do colesterol sérico, aumento da obesidade, aumento do diabetes e, internamente, aumenta as taxas de doenças cardíacas e AVC.”

Questionado se o relatório poderia ter analisado outros grupos de substâncias químicas estudados, Landridge disse: “Eu diria que elas são apenas a ponta do iceberg. Estão entre o número muito pequeno de substâncias químicas, talvez 20 ou 30, para as quais realmente temos informações toxicológicas sólidas.”

“O que me assusta demais são os milhares de produtos químicos aos quais estamos expostos diariamente, sem sabermos nada sobre eles. E enquanto um deles não causar algo óbvio, como crianças nascendo com membros faltando, vamos continuar nos expondo sem pensar.”


Fonte: The Guardian

Agência Ambiental dos EUA rejeita alerta científico de câncer causado por atrazina, corrobrando críticas feitas pela Syngenta

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Por Brian Bienkowski e Carey Gillam para “The New Lede” 

Órgãos reguladores dos EUA estão rejeitando uma nova pesquisa de especialistas internacionais em câncer que alerta para a ligação entre o câncer e o pesticida atrazina, amplamente utilizado, ridicularizando a equipe de cientistas e ecoando as críticas da Syngenta, fabricante da atrazina.

Segundo um porta-voz da Agência de Proteção Ambiental (EPA), a EPA não vê necessidade de agir rapidamente em relação à nova avaliação divulgada no mês passado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde.

A IARC tem “um longo histórico de conclusões gravemente equivocadas”, afirmou a porta-voz da EPA, Carolyn Holran.

Em novembro, a IARC classificou a atrazina — o segundo herbicida mais utilizado nos EUA, depois do glifosato — como provavelmente cancerígena para humanos”, após uma longa revisão de anos de estudos científicos.

O grupo citou evidências de estudos em humanos, animais e mecanismos que levaram às suas conclusões, incluindo pesquisas que associam a substância química ao linfoma não Hodgkin em humanos. A IARC afirmou haver evidências “fortes” em estudos mecanísticos que demonstram que a atrazina apresenta características-chave de carcinógenos, incluindo inflamação, estresse oxidativo e morte celular.

A IARC tem “um longo histórico de conclusões gravemente equivocadas” – afirmou Carolyn Holran, porta-voz da EPA.

A classificação como cancerígena não foi uma surpresa para os defensores da saúde pública e ambiental, que há muito tempo pedem a proibição da atrazina não apenas por preocupações com o câncer, mas também devido a pesquisas que a associam a danos reprodutivos e ao desenvolvimento.

Uma pesquisa realizada pela própria Syngenta há mais de 20 anos mostrou altas taxas de câncer entre os trabalhadores de sua fábrica de pesticidas, um fato que a empresa não divulgou até ser obrigada por um processo judicial.

“Isso deveria ser apenas mais um prego no caixão da atrazina”, disse Lori Ann Burd, diretora de programa de saúde ambiental e advogada sênior do Centro para a Diversidade Biológica. “Apesar de todas as evidências crescentes, parece que nada está sendo feito para conter esse produto químico terrível que é proibido em tantos outros lugares.” 

A atrazina é proibida em cerca de 60 outros países, incluindo toda a União Europeia, mas os agricultores dos EUA aplicam aproximadamente 70 milhões de libras do pesticida em seus campos todos os anos, geralmente usando-o para cultivar milho, sorgo e cana-de-açúcar, de acordo com estimativas da EPA .

Incitar o medo?

A IARC possui quatro classificações para as diferentes substâncias, práticas de estilo de vida e outros fatores ambientais que analisa para determinar os níveis de risco para os seres humanos – e a maioria das conclusões de mais de 1.000 dessas análises foi considerada pela IARC como “não classificável” quanto à carcinogenicidade.

A classificação atribuída à atrazina – “provavelmente cancerígena” – é a mais rara emitida pela IARC. A segunda classificação mais rara é “cancerígena”.

“Isto deve ser apenas mais um prego no caixão da atrazina.” – Lori Ann Burd, Centro para a Diversidade Biológica

No entanto, a EPA considera a classificação da atrazina pela IARC como “apenas mais um exemplo da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde usando uma abordagem profundamente falha em suas avaliações de câncer”, disse Holran.

Ela afirmou que a IARC está simplesmente fomentando o medo, salientando que a avaliação científica final completa do grupo não deverá ser publicada antes do final de 2026 ou 2027 .

Quando a avaliação completa da IARC estiver disponível nos próximos dois anos, a agência considerará se há alguma nova descoberta científica a ser levada em conta para fins regulatórios, disse Holran. O atrazina está atualmente em processo de registro pela agência, mas Holran não comentou sobre o andamento do processo. 

Avaliações anteriores da EPA concluíram que “a totalidade das evidências disponíveis não sustenta uma associação entre a exposição à atrazina e o câncer em humanos”. 

O resumo da classificação da atrazina pela IARC foi publicado no periódico The Lancet Oncology no mês passado. É prática comum da IARC publicar os resumos bem antes do extenso volume final das classificações.

Holran fez coro às críticas da Syngenta, que emitiu um comunicado no mesmo dia em que a conclusão da IARC foi divulgada, apontando de forma depreciativa para classificações anteriores da IARC sobre práticas como beber bebidas muito quentes , trabalhar como barbeiro ou cabeleireiro exposto a produtos químicos para coloração capilar , consumir carne vermelha e trabalhar no turno da noite — todas classificadas pela IARC como “provavelmente cancerígenas”.

Em seu comunicado, a Syngenta classificou o relatório como “totalmente inconsistente com o consenso científico de cerca de 50 autoridades reguladoras e órgãos de especialistas científicos em todo o mundo” e afirmou que a IARC “não avalia sistematicamente a qualidade nem a consistência” dos estudos que examina ao fazer suas avaliações.  

A classificação da IARC não estabeleceu uma “relação causal entre a exposição à atrazina e o aumento do risco de câncer”, afirmou a Syngenta.

Sob escrutínio há anos

A atrazina tem sido alvo de escrutínio há anos, em meio a evidências científicas que associam a exposição a defeitos congênitos, baixo peso ao nascer, disfunções hormonais, alguns tipos de câncer e problemas no sistema imunológico. Um estudo de 2011 concluiu que a atrazina “causa efeitos graves na saúde humana”, que variam desde efeitos no sistema nervoso, sistema imunológico, rins, coração e fígado, até hormônios e enzimas. Ela é considerada um disruptor endócrino , o que significa que pode interferir no sistema hormonal humano.

Embora os trabalhadores agrícolas sejam considerados o principal grupo populacional exposto à atrazina, o produto químico é comumente levado das lavouras dos campos agrícolas para os cursos d’água e é um poluente recorrente no abastecimento de água potável para milhões de americanos.

Russell Cattley, pesquisador e professor da Universidade de Auburn e presidente do grupo de trabalho da IARC sobre atrazina, composto por 22 membros, não comentou se a nova classificação deveria ou não impactar as decisões regulatórias nos EUA, mas afirmou que as classificações “são frequentemente usadas como base para políticas, diretrizes, avaliações de risco e recomendações nacionais e internacionais para minimizar os riscos de câncer”.

Questionado sobre as críticas da Syngenta, Cattley afirmou que o grupo “revisa rigorosa e sistematicamente estudos disponíveis publicamente, principalmente da literatura científica revisada por pares, e avalia a força das evidências de que um agente pode causar câncer em humanos”, acrescentando que o grupo sobre a atrazina era composto por 22 especialistas internacionais independentes de 12 países. 

Daniele Mandrioli, cientista italiano e membro do grupo de trabalho da IARC sobre atrazina, afirmou que a determinação da concentração de atrazina foi baseada em um “forte consenso” do grupo de trabalho da IARC.

Ele afirmou que a descoberta do grupo sobre a atrazina poderia “servir globalmente como uma avaliação de risco sólida e independente, na qual as autoridades de saúde pública e todas as partes interessadas poderiam confiar e adotar”.

Documentos internos obtidos por meio de litígios contra a empresa relacionados à atrazina revelaram que a empresa fez de tudo para desacreditar ou silenciar os críticos do herbicida, incluindo a contratação de uma agência de detetives para investigar cientistas de um painel consultivo federal, o pagamento secreto a terceiros para que parecessem apoiar de forma independente a segurança da atrazina e a tentativa de difamar a reputação de um cientista que constatou impactos alarmantes da atrazina em anfíbios.

Steve Tillery, o advogado que descobriu os arquivos internos da Syngenta em uma batalha judicial de nove anos, afirmou que as evidências dos danos causados ​​pela atrazina são claras e que a Syngenta trabalhou para ocultar essas evidências.

“Eles não têm sido transparentes”, disse ele sobre a empresa. “Pelo que vimos, trata-se de uma substância química que quase certamente causa diversos tipos de doenças humanas muito graves.”

Ele disse que a EPA deveria tomar providências.

“Quando se trata de vidas humanas, de sofrimento humano, acho que a primeira e mais importante obrigação da EPA e desses fabricantes é a segurança das pessoas que usam esses produtos químicos”, disse Tillery.

Substância química diferente, mesmo debate

As críticas da EPA e da Syngenta à IARC são semelhantes à reação da EPA e da fabricante de pesticidas Monsanto quando a IARC classificou o herbicida glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015. A Monsanto, que introduziu os herbicidas à base de glifosato na década de 1970, chamou o trabalho da IARC de ciência lixo e trabalhou para intimidar e assediar os pesquisadores de câncer, pressionando os EUA a cortar o financiamento da agência de pesquisa do câncer.

Antes disso, as classificações da IARC não eram normalmente vistas como controversas, mas a Monsanto e seus aliados trabalharam para desacreditar a organização e suas conclusões. Um grupo que comprovadamente recebe financiamento da indústria química também atacou a IARC por sua classificação de um tipo de substância per e polifluoroalquilada (PFAS).

Desde que a IARC classificou o glifosato, mais de 150.000 ações judiciais foram movidas por pessoas que alegam que a exposição a herbicidas à base de glifosato da Monsanto, como o Roundup, causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin.

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) ainda mantém a posição de que o glifosato provavelmente não causa câncer em humanos, e o governo Trump se posicionou esta semana ao lado da Bayer , que comprou a Monsanto em 2018, em sua batalha contra o processo judicial em andamento sobre o Roundup.

“A EPA se contorceu toda para negar as conclusões da Organização Mundial da Saúde sobre o glifosato e para se manter firme em sua avaliação, então não tenho muita esperança de que eles analisem a atrazina com a mente aberta sob a atual liderança política”, disse Burd. 

A classificação da IARC surge depois de a EPA ter revisto, em outubro, a sua determinação anterior de que a atrazina provavelmente prejudica mais de 1.000 espécies ameaçadas de extinção. A agência, juntamente com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, afirmou agora, em outubro, que a atrazina representa pouco ou nenhum risco para as espécies ameaçadas de extinção.

Philip Landrigan, diretor do Observatório Global de Saúde Planetária do Boston College, afirmou que é provável que a posição da EPA sobre a atrazina permaneça inalterada, apesar das preocupações levantadas pela IARC.

“Acho que a EPA, sob a atual liderança, encontrará uma maneira de ignorar isso”, disse ele. No entanto, ele tinha esperanças maiores em relação a outros países.

“Os processos regulatórios não mudam da noite para o dia”, disse ele. “Mas acho que veremos mudanças acontecendo nos próximos dois anos.”

Imagem em destaque: Getty Images para Unsplash+


Fonte: The New Lede

Hormônio cancerígeno proibido pela União Europeia encontrado em carne bovina brasileira gera nova reação negativa ao acordo com o Mercosul

Hormônio cancerígeno proibido na UE é encontrado em carne bovina brasileira e gera nova reação negativa ao acordo Mercosul.

Comitês científicos que assessoram a UE concluíram repetidamente que o estradiol-17β deve ser considerado um “carcinógeno completo”.

Por Eva Osborne para “Breaking News” 

Um hormônio de crescimento proibido , considerado “completamente cancerígeno” pelas autoridades científicas da União Europeia, foi descoberto em carne bovina brasileira importada para os mercados da Europa, provocando um recall e alimentando uma crescente tempestade política em torno do acordo comercial proposto para o Mercosul .

A União Europeia proibiu o uso de hormônios para promover o crescimento em animais de criação desde 1981, incluindo substâncias como o estradiol-17β, que foi encontrado em carne bovina brasileira congelada na Itália.

Os comitês científicos que assessoram a UE concluíram repetidamente que o estradiol-17β deve ser considerado um “carcinógeno completo”, com efeitos tanto de iniciação quanto de promoção tumoral.

A descoberta de tais substâncias proibidas na carne bovina brasileira tornou-se o principal ponto de conflito no debate comercial entre a UE e o Mercosul, com eurodeputados irlandeses e líderes agrícolas alertando que a saúde pública, a proteção ambiental e a concorrência leal estão em risco.

‘Um alerta sério’

O recente recall, combinado com as conclusões de uma investigação conjunta da IFA e do Irish Farmers Journal sobre os padrões de produção brasileiros, intensificou o alarme na indústria.

O editor adjunto do Irish Farmers Journal, Adam Woods, disse que os agricultores querem igualdade de condições.

“Eles querem que a carne bovina que entra na UE seja exatamente igual à que produzimos… qualquer carne bovina que entre nesse mercado deve ser submetida ao mesmo rigor que a carne bovina produzida aqui.”

O presidente da IFA, Francie Gorman, afirmou que as conclusões deveriam servir como um “sério alerta” para aqueles que, segundo ele, são os “apoiadores” do acordo Mercosul.

“Para que fique claro, isso foi descoberto por acaso e demonstra que os controles que nos disseram que existiam não existem. É preciso impedir urgentemente a entrada dessa carne bovina na UE.”

Gorman afirmou que o recall prova que as garantias sobre as salvaguardas “nunca serão cumpridas”. Ele também pediu ao Tánaiste (vice-primeiro-ministro) e líder do Fine Gael, Simon Harris, que esclarecesse a posição de seu partido.

“O Programa de Governo é muito claro”, disse ele, citando o compromisso do governo de se opor ao “atual acordo comercial com o Mercosul”.

Ele argumentou que as importações de alimentos deveriam ser completamente excluídas do acordo.

“As chamadas salvaguardas não fazem qualquer referência à saúde pública… As autoridades da UE não podem confiar nos sistemas de controlo do Brasil. Ignorar isto coloca em risco a saúde pública e a dos consumidores.”

Acordo comercial Mercosul

A União Europeia e os países do Mercosul, que incluem Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, chegaram a um avanço político no acordo de parceria em dezembro de 2024.

A Comissão Europeia publicou propostas para a assinatura e conclusão do acordo em setembro de 2025.

Se ratificado, o acordo de parceria Mercosul se tornaria um dos maiores acordos comerciais do mundo.

No entanto, a resistência está aumentando rapidamente, à medida que legisladores irlandeses e europeus citam preocupações ambientais, agrícolas e, agora, de saúde pública decorrentes da descoberta do hormônio.

O Parlamento Europeu deverá votar as medidas de salvaguarda ainda este mês, com o acordo comercial mais amplo enfrentando perspectivas incertas em meio a um escrutínio crescente.

O eurodeputado Billy Kelleher, do Fianna Fáil, afirmou que a componente da carne bovina no acordo com o Mercosul é agora “inaceitável” e confirmou que votará contra o acordo no Parlamento Europeu ainda este mês.

“Nas últimas semanas, vimos recalls de carne bovina brasileira devido ao uso de hormônios proibidos que comprovadamente causam câncer”, disse ele.

Kelleher acrescentou que investigações recentes da mídia mostraram “quão frouxos são os controles sobre o uso de antibióticos no Brasil”.

Ele alertou que o aumento das importações de carne bovina levaria a uma maior destruição da floresta amazônica e ao deslocamento de comunidades indígenas.

“Precisamos ser honestos conosco mesmos: o aumento das exportações de carne bovina brasileira para a Europa resultará na destruição ainda maior da floresta amazônica e no deslocamento de povos indígenas. Na minha opinião, isso é moral e eticamente errado.”

Ele criticou a Comissão Europeia por sacrificar a agricultura em troca de benefícios para outros setores, como as exportações de automóveis.

“Fundamentalmente, para chegar a um acordo, elementos do acordo comercial do Mercosul, ou seja, o importante segmento da carne bovina, foram cedidos para garantir um acordo que beneficiasse outros setores da economia, como as exportações de automóveis.

“Isso é inaceitável para mim. Embora supostamente tenham sido implementadas salvaguardas, a sua implementação e o cumprimento das nossas regras dependem, em última análise, das autoridades nacionais competentes dos países do Mercosul.”

“Para ser sincero, não tenho confiança suficiente nessas autoridades.”


Fonte: Breaking News

The Lancet Oncology publica monografia de Grupo de Trabalho que avaliou risco de câncer de três agrotóxicos usados no Brasil

Grupo de Trabalho avaliou risco de câncer dos agrotóxicos atrazina, alaclor e do vinclozolina

Atrazine's Effect On Populations | Morris & Dewett

Atrazina, um herbicida amplamente utilizado no Brasil e proibido na União Europeia, é classificado como cancerígina por grupo internacional de pesquisadores

De outubro a novembro de 2025, um Grupo de Trabalho composto por 22 cientistas de 12 países reuniu-se na Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), em Lyon, França, para finalizar a avaliação da carcinogenicidade da atrazina, do alaclor e do vinclozolina.

A atrazina e o alaclor foram classificados como “provavelmente carcinogênicos para humanos” (Grupo 2A), com base em uma combinação de evidências “limitadas” de câncer em humanos com evidências “suficientes” de câncer em animais experimentais e evidências mecanísticas “fortes” em sistemas experimentais. O vinclozolina foi classificado como “possivelmente carcinogênico para humanos” (Grupo 2B), com base em evidências “suficientes” de câncer em animais experimentais e em evidências mecanísticas “fortes” em sistemas experimentais. Essas avaliações serão publicadas no Volume 140 das Monografias da IARC. 1

Para cada um desses pesticidas, os trabalhadores de fábricas e da agricultura apresentam as maiores exposições, que podem ocorrer durante a produção de pesticidas e atividades agrícolas ou hortícolas, principalmente por inalação e absorção dérmica. A exposição da população em geral ocorre principalmente pela ingestão de água potável e alimentos, e geralmente é considerada baixa. A atrazina e o alaclor são persistentes no meio ambiente e foram detectados em matrizes ambientais, especialmente na água. O vinclozolina não é persistente no meio ambiente.

A atrazina é um herbicida triazínico clorado de amplo espectro, usado principalmente no cultivo de milho, sorgo e cana-de-açúcar. Seu uso como pesticida foi proibido na União Europeia e em diversos outros países, mas continua sendo amplamente utilizado em outros locais. Na população em geral, o contato com gramados residenciais pode resultar em doses dérmicas e orais acidentais de curto prazo mais elevadas do que as provenientes de alimentos ou água potável.

Há evidências “limitadas” em humanos de que a atrazina causa linfoma não Hodgkin (LNH) positivo para a translocação cromossômica t(14;18). Dois estudos de caso-controle relataram fortes associações positivas entre a exposição à atrazina ou triazinas (em um período em que a atrazina era a triazina predominante utilizada na área do estudo) e LNH positivo para translocação (razão de chances meta, 2,03; IC 95% 1,12–3,68), e nenhum aumento de risco para casos de LNH negativos para translocação. 2,3 A translocação t(14;18) foi considerada relevante porque pode dificultar a apoptose celular. O Grupo de Trabalho considerou que o viés e os fatores de confusão poderiam ser descartados com razoável confiança, mas que o papel do acaso não poderia. Para todos os outros tipos de câncer considerados, os estudos disponíveis em humanos não mostraram resultados positivos consistentes, e as evidências foram consideradas “inadequadas”.

A evidência “suficiente” de câncer em animais experimentais para a atrazina baseou-se no aumento da incidência de neoplasias malignas em ratas em múltiplos estudos bem conduzidos, incluindo dois que seguiram as Boas Práticas de Laboratório (BPL). A atrazina causou adenocarcinoma da glândula mamária em ratas Sprague-Dawley4 e adenocarcinoma do útero em ratas Fischer 344/LATI.

Há fortes evidências mecanísticas de que a atrazina exibe características-chave de carcinógenos (CKs). A atrazina induz estresse oxidativo em sistemas experimentais. Diversos estudos em roedores mostraram aumento na produção de espécies reativas de oxigênio e em desfechos de danos oxidativos a lipídios e DNA em múltiplos órgãos, além de redução do estresse oxidativo na presença de antioxidantes. A atrazina induz inflamação in vivo, incluindo aumento da expressão de genes dependentes de NF-κB e alteração do equilíbrio de citocinas Th1 e Th2. A atrazina é imunossupressora; em roedores, diminuiu a contagem de leucócitos e células T efetoras, aumentou as células Treg reguladoras e diminuiu a resposta de hipersensibilidade tardia. A atrazina modula os efeitos mediados por estrogênio em sistemas experimentais. A atrazina aumentou a atividade da aromatase (CYP19). Ela modulou o receptor de estrogênio de membrana mER/GPR30/GPER5 em diversas linhagens de células de câncer de mama humano, tanto hormônio-sensíveis quanto triplo-negativas. Em ratos Wistar machos, a atrazina reduziu os níveis séricos de testosterona, hormônio luteinizante e hormônio folículo-estimulante.⁶  A atrazina também alterou a proliferação e a morte celular in vitro e induziu hiperplasia em diversos tecidos de roedores.

O alaclor é um herbicida cloroacetanilida que tem sido amplamente utilizado em culturas como milho e soja. Outrora um dos herbicidas mais utilizados globalmente, o uso do alaclor diminuiu drasticamente após o início das restrições regulatórias na década de 1990, e hoje seu uso é muito menor.

Há evidências “limitadas” de que o alaclor causa câncer de laringe em humanos, com base em evidências de um único estudo de coorte amplo e de alta qualidade com aplicadores de pesticidas.⁷ Foi encontrada uma forte associação dose-resposta entre o alaclor e o câncer de laringe, que permaneceu inalterada em diferentes períodos de latência e após o ajuste para uma série de coexposições e potenciais fatores de confusão, incluindo outros pesticidas, tabagismo, álcool e outros fatores de risco para câncer de laringe. A possibilidade de acaso não pôde ser descartada com razoável certeza, pois se tratava de um achado isolado para um tipo de câncer não comumente associado à exposição a pesticidas. Para todos os outros tipos de câncer, as evidências foram consideradas “inadequadas”, pois os estudos disponíveis não apresentaram resultados positivos consistentes.

A evidência “suficiente” em animais experimentais para o alaclor baseia-se no aumento da incidência de neoplasias malignas ou de uma combinação apropriada de neoplasias benignas e malignas em ambos os sexos de duas espécies em múltiplos estudos bem conduzidos, incluindo um que cumpriu as Boas Práticas de Laboratório (BPL). O alaclor causou adenoma ou carcinoma bronquioloalveolar (combinados) em camundongos albinos CD-1 machos.8 Em ratos Long-Evans machos e fêmeas, o alaclor causou tumores malignos no estômago. Em machos, o alaclor também causou tumores malignos e benignos ou malignos (combinados) na cavidade nasal9 e na glândula tireoide. Em fêmeas, o alaclor também causou tumores benignos ou malignos (combinados) na cavidade nasal e tumores malignos na glândula tireoide, no timo e no útero.

Há fortes evidências mecanísticas de que o alaclor exibe efeitos característicos em sistemas experimentais. O alaclor modula efeitos mediados por receptores, demonstrando modulação in vitro da via do receptor de estrogênio. O alaclor alterou a proliferação celular no tecido nasal de ratos e camundongos em múltiplos estudos. Hiperplasia também foi observada no tecido nasal e no estômago de roedores. O vinclozolina é um fungicida que tem sido usado principalmente em frutas e vegetais, mas também em gramados. Na década de 2000, seu uso foi gradualmente eliminado na União Europeia, nos EUA e em vários outros países, mas permanece em uso em outros locais.

As evidências sobre o câncer em humanos são “inadequadas” para o vinclozolina, pois os resultados relatados nos poucos estudos disponíveis foram em grande parte nulos.

A evidência “suficiente” de câncer em animais experimentais para o vinclozolina baseia-se no aumento da incidência de neoplasias malignas ou em uma combinação apropriada de neoplasias benignas e malignas em ambos os sexos de duas espécies em múltiplos estudos que cumpriram as Boas Práticas de Laboratório (BPL). O vinclozolina causou carcinoma hepatocelular em camundongos fêmeas C57BL/6/JICO.10 Em ratos Wistar machos, o vinclozolina causou carcinoma hepatocelular e tumores benignos ou malignos de células de Leydig (combinados). Em fêmeas, o vinclozolina causou adenoma ou carcinoma (combinado) da glândula adrenal e do córtex adrenal, tumores benignos ou malignos de células C (combinados) da glândula tireoide e adenocarcinoma do útero. 11

Há fortes evidências mecanísticas de que o vinclozolina exibe efeitos carcinogênicos em sistemas experimentais. Ele induziu alterações em marcadores epigenéticos associados a vias carcinogênicas in vitro e in vivo. O vinclozolina aumenta os marcadores inflamatórios in vitro e induz inflamação crônica em roedores em diversos tecidos, incluindo a próstata.12 .O vinclozolina modula a via de sinalização de andrógenos in vitro. Na ausência de andrógenos, o vinclozolina ou seus metabólitos induziram a secreção do antígeno prostático específico (PSA). O vinclozolina e seus metabólitos promoveram a proliferação celular in vitro 13 e induziram hiperplasia em roedores em diversos tecidos, incluindo a próstata.

Membros do Grupo de Trabalho da Monografia:

RC Cattley (EUA) – Presidente da Reunião; AJ De Roos (EUA); D Mandrioli (Itália); N Pearce (Reino Unido); A Pronk (Países Baixos); A Soshilov (EUA) – Presidentes das Reuniões dos Subgrupos; SO Abarikwu (Nigéria); I Baldi (França); DB Barr (EUA); LE Beane Freeman (EUA [ausente]); S Bortoli (França); A Connolly (Irlanda); MA Dalvie (África do Sul); MJM Ferreira (Brasil); MB Genter (EUA); L Le Hégarat (França); S Lorenzetti (Itália); JR McLaughlin (Canadá); P Møller (Dinamarca); CC Montagner (Brasil); HCS Silveira (Brasil); T Toyoda (Japão); DH Volle (França)

Observadores

 R Bars, Regulatory Science Associates, Reino Unido; A Charlton, Syngenta, EUA; M Kemeny, BASF, Alemanha; NR Visconti, Bayer Crop Science US, EUA


Fonte: Lancet Oncology

Por que 70% dos agrotóxicos largamente usados no Brasil foram banidos na União Europeia?

As autoridades de lá consideram alertas científicos da relação dessas substâncias com o câncer, malformações fetais, danos à reprodução, rins e fígado, autismo, Parkinson, Alzheimer, contaminação da água e muito mais

Tecnologia avançada para aplicar aqui venenos proibidos em outros países. Foto: ANAC

Cida de Oliveira* 

Atentas aos alertas da ciência sobre os riscos que os agrotóxicos representam para a saúde pública e o equilíbrio dos ecossistemas – e, claro, à pressão dos consumidores – autoridades da União Europeia já baniram 223 ingredientes ativos químicos desde 2001. Pesou na decisão a relação desses produtos com a alarmante lista do início desta reportagem, que vai bem além. Ou seja, foram proibidas as substâncias que foram utilizadas até que a efetividade e a segurança foram questionadas por estudos mais modernos e abrangentes. Portanto, deixaram de ser aceitáveis perante os novos conhecimentos científicos.

Já o Brasil, em sentido oposto, segue autorizando esses produtos por aqui. Tanto que esses 223 correspondem a 52% dos 429 ingredientes químicos permitidos no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São matérias primas usadas na formulação de uma infinidade de herbicidas, fungicidas, inseticidas, acaricidas e reguladores do crescimento das plantas, que compõem as milhares de toneladas vendidas todo ano no Brasil, o maior mercado consumidor desses venenos.

Para piorar, desses agentes banidos pelos europeus, 7 estão na lista dos 10 mais vendidos no Brasil em 2023, segundo dados do Ibama divulgados no início do ano. No final da reportagem, você poderá conferir um recorte a partir do parecer publicado nesta terça (28) aqui no Blog do Pedlowski. Trata-se de um documento produzido e divulgado de maneira voluntária pela professora juntamente com Leonardo Melgarejo, coordenador adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos, para respaldar organizações e setores do governo e legislativo na discussão de possibilidades relacionadas ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara).

 “São moléculas banidas há muito tempo porque são velhas, mais tóxicas. E aqui se usa já há muitos anos, desde 1985. Isso impede a entrada de outras mais novas, menos tóxicas e melhor testadas”, disse ao Blog a engenheira química Sonia Corina Hess, professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coautora de um parecer técnico detalhando dados sobre esses produtos banidos na União Europeia. “Não é por falta de opção que a gente está usando essas moléculas velhas. E sim porque são despejadas aqui devido ao preço mais baixo desse lixo em relação a moléculas novas. É por isso que entre os mais vendidos estão 7 banidos. A gente vai cumprindo assim esse papel de lixeira mesmo”.

De acordo com ela, que se dedica arduamente ao estudo desse caldeirão de venenos, a situação é bem complexa. Entre suas causas principais está o poder das transnacionais fabricantes, com seu lobby sobre os poderes da República. “A indústria química foca muito no Brasil porque é o maior mercado de agrotóxicos do mundo. Vale muito dinheiro. Há forte pressão até para impedir o banimento. Por isso a gente está com esse cenário tão trágico para o povo brasileiro, que praticamente não tem defesa diante desse poder das indústrias multinacionais”.

Regulação frágil

Esse lobby onipresente, aliás, explica em parte a fragilidade da regulação brasileira quando comparada à do bloco europeu. Lá o conjunto de países observa vários pontos no processo de análise de pedido de registro e de sua validade. “Na União Europeia a reavaliação dos produtos é periódica. Trata-se de um trabalho extenso, que pode levar 6 anos ou até mais; um processo bem bacana, em que um país assume a liderança desses estudos. Depois é feito um parecer que é apresentado para os demais países. Entra então em consulta pública. Se aparece algum ponto que pode sinalizar para o banimento, eles convocam a indústria para justificativas. É bem sério”, disse.

“Já no Brasil a validade é eterna, não tem prazo. Uma vez aprovado, não há regras definindo datas para reavaliação. Por isso a gente tem moléculas que são vendidas no Brasil desde 1985. Para conseguir banir é um processo muito complicado; é no varejo e não no atacado, como na Europa. Como lá cada substância tem uma validade e se naquele prazo não se justificar a manutenção, eles vão banir. Existe uma organização, uma sistemática de reavaliação que não tem no Brasil”, disse. “Isso é que falta aqui. E cada vez que tem reavaliação de agrotóxicos no Brasil é aquele drama, um ‘Deus nos acuda’, com o lobby todo contrário pressionando. E ninguém leva em consideração a saúde pública, o gasto no SUS, a tragédia que é o adoecimento das pessoas. Uma tragédia brasileira diante desse poderio das multinacionais.”

Sonia Hess lembra ainda o processo de enfraquecimento da legislação do setor. “A lei dos agrotóxicos, em vez de mais rigorosa, ficou mais branda, dificultando o banimento. Mas os números da saúde pública estão aí. A incidência de câncer em pessoas mais jovens está aumentando. Autismo, desregulação endócrina. São muitas doenças que provêm de contaminação ambiental e os agrotóxicos têm papel muito decisivo nisso”, disse a especialista, que se vê particularmente preocupada com a qualidade da água de abastecimento. “Cada vez que a gente analisa a água encontra uma série de substâncias perigosas, inclusive agrotóxicos.”

Interesses em conflito

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, com extenso currículo envolvendo o tema, acrescenta outro fator agravante: o poder do agro no poder, inclusive sobre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por trás da liberação dos agrotóxicos. “O MAPA afirma que precisamos usar no Brasil venenos desnecessários na União Europeia por conta de nosso clima tropical. Oculta com isso um fato simples: aqueles produtos hoje proibidos na União Europeia já foram utilizados lá; eram necessários para a agricultura até que se comprovaram perigosos demais para a saúde humana e ambiental. Mas como a agricultura européia se mantém, sem eles? Utilizando outras formulações”, apontou.

“O fato é que estas outras formulações são mais caras, enquanto o lixo tóxico, que não pode ser comercializado lá é desviado para cá, a preços baixos. Lixo tem preço baixo”, disse, fazendo coro a Sonia Hess. Na sua análise, trata-se tambem de uma questão de contabilidade, onde os gastos com saúde são desprezados por aqueles só enxergam os resultados da lavoura, a cada safra, desprezando o horizonte de uso de seus próprios territórios. “Estão acabando com a microvida e a fertilidade dos solos, envenenando a água, multiplicando tragédias familiares e justificam isso com base em argumentações falaciosas”, completou.

Após uma década de espera pelos movimentos e organizações da sociedade civil, em junho deste ano o governo federal instituiu, por decreto, o Pronara. A política visa a redução gradual e contínua do uso de agrotóxicos, principalmente os altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos para a saúde. 

Mensagem de repúdio ao Pacote do Veneno projetado em edifício. Foto @projetemos

atribui ao mesmo MAPA, entre outras coisas, priorizar o registro de agrotóxicos de baixa toxicidade e de bioinsumos. Ou seja, uma incumbência que destoa dos horizontes do poderoso comando da pasta. Para Melgarejo, o nó dessa improvável convergência de interesses só pode ser desatado pela sociedade. E isso quando estiver plenamente consciente da situação.

“As pessoas que residem nas ‘zonas de sacrifício’ não estão cientes de que seus parentes estão sofrendo doenças incuráveis que poderiam ser evitadas, que gestações estão sendo perdidas, que se multiplicam casos de oncologia infantil e distúrbios nos sistemas endócrinos, nervoso e reprodutivo porque a água está sendo envenenada. E se soubessem que isso tudo poderia ser evitado com mudanças nas regras de financiamento, isenção de impostos e autorização de uso, aqui, de venenos que são PROIBIDOS em outros países, não reagiriam?”, pondera, lembrando que “zonas de sacrifício” são áreas nas quais os índices de mortalidade, afecções cancerígenas, gestações perdidas e casos de autismo e infertilidade superam as médias nacionais.

 Nessa perspectiva, Melgarejo defende que a sociedade seja informada sobre a gravidade da situação em que vive. “As pessoas estão sendo enganada a respeito dos agrotóxicos. E o Pacote do Veneno é um instrumento criminoso a serviço de interesses econômicos, cego aos direitos humanos fundamentais, antiético e contrário à civilidade”, disse. “Os números e fatos relatados no parecer demonstram isso. A sociedade precisa ser informada para avaliar aqueles seus representantes que vêm sendo escolhidos para ocupar espaços no poder legislativo. A maioria deles, como demostram as decisões envolvendo o pacote do veneno e as dificuldades para discussão de um modelo de desenvolvimento amistoso à natureza, zombam da saúde de seus eleitores”, diz.

Ele defende também que esta disseminação de informações sobre o tema dê o devido espaço para os avanços das práticas agroecologias, “um sistema de produção mais coerente com as necessidades de soberania alimentar e de enfrentamento ao aquecimento global, está sendo bloqueado pelo estímulo ao uso de lixo tóxico entre nós”. “Precisamos de proteção para as regiões onde a agroecologia se expande, que sejam estabelecidas áreas livres de agrotóxicos e os avanços possam ser multiplicados.

Mas não é só. Como tudo isso depende de políticas públicas, a importância de esclarecimento da sociedade ganha ainda mais relevância. “Até mesmo para o ganho de força na correlação que levou o agro ecocida a dominar o estado”, diz Melgarejo. “Eles estão no legislativo e ocupam postos chave no executivo, em todos os governos. Ocuparam o estado, que precisa se aproximar mais das necessidades da população e se afastar dos mecanismos que nos subordinam a interesses ofensivos à saúde humana e ambiental.”

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Confira a seguir


Cida Oliveira é jornalista e colaboradora regularmente com o Blog do Pedlowski.

Parecer técnico identifica graves riscos à saúde de centenas de agrotóxicos banidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil

Um parecer técnico preparado por dois especialistas que eu considero altamente qualificados nos estudos dos impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos, Sonia Corina Hess e Leonardo Melgarejo, faz um Raio-X detalhado de mais de 200 ingredientes ativos de agrotóxicos (223 na verdade) que estão banidos para uso na Europa, mas que continuam sendo legalmente comercializados no Brasil.

O parecer técnico inclui um quadro descritivo que discrimina o ingridiente ativo, classe de uso, ano de autorização no Brasil, ano de banimento na Europa, toneladas comercializadas em 2023, total de agrotóxicos comercializados, e efeitos sobre a saúde e o ambiente.

Um dos detalhes mais chocantes que aparece nas informações colhidas por Hess e Melgarejo a partir de fontes como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), do Agrofit (um banco de informações sobre os produtos agroquímicos e afins registrados no Ministério da Agricultura) e da União Europeia, é que o Brasil vem constantemente registrando ingredientes ativos logo após, ou a despeito, seu banimento na Europa. Além disso, uma quantidade considerável dos ingredientes ativos autorizados jamais foram registrados pela União Europeia.

O parecer ainda aborda o impacto não avaliado dos chamados adjuvantesque também são perigosos à saúde e m ambiente, mas não são acompanhados pela ANVISA ou considerados durante o processo de liberação dos ingredientes. Em alguns casos, os adjuvantes podem ser tão ou mais tóxicos do que os próprios ingredientes ativos que formam os agrotóxicos, mas não são avaliados por serem considerados inertes.

A informação que deveria ser levada especialmente em atenção se refere à longa lista de doenças associadas a esses ingredientes ativos, seja por contato direto ou indireto. Aí estamos falando de diferentes tipos, desregulação do sistema endócrina, danos celulares, danos ao sistema neurológico, danos renais, autismo e déficit de atenção.

A contaminação por esses produtos atinge ainda os recursos hídricos que, por sua vez, são as fontes de abastecimento das cidades brasileiras. Em outras palavras, e como já foi demonstrado pelas referências científicas anexadas ao parecer técnico, o processo de contaminação é bastante difuso, pois a água servida nas cidades está repleta de resíduos de agrotóxicos, formando uma espécie de poção venenosa que está envenenando os brasileiros de forma ampla, geral, irrestrita e altamente silenciosa.

O parecer assinado por Hess e Melgarejo sugere que “sem prejuízo à medidas direcionadas à proibição de todos aqueles 190 ingredientes ativos banidos dos mercados europeus, se atente para a possibilidade de articulações junto ao MS, FUNAI, MMA e ao MAPA, com vistas à suspensão imediata do uso daqueles produtos” em áreas de reforma agrária, zonas de sacrifício (que são aquelas regiões com indicadores de danos à saúde relacionados ao uso de agrotóxicos, superiores às médias nacionais), zonas de consolidação das práticas de base agroecológica, e em terras indígenas e áreas protegidas.

Uma questão ética que se levanta nas questões levantadas por esse parecer técnico se refere ao fato de que o Brasil continua autorizando ingredientes ativos que são conhecidamente altamente tóxicos e perigosos para a saúde humana, o que é revelado por seu banimento na Europa, sem que haja qualquer tipo de dispositivo que impeça que produtos banidos sejam autorizados no Brasil, algo que deveria ser automático.

Há ainda que se ressaltar que todo o processo de registro de ingredientes ativos se tornou ainda mais maleável e propositalmente rápido após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno” pelo Congresso Nacional.  Uma das maiores excrecâncias que constam no pacote é o registro eterno dessas substâncias altamente tóxicas.  E para vantagem de quem? Das empresas multinacionais, principalmente europeias, especializadas em despejar no Brasil aquilo que a Europa baniu.

Quem desejar ler na íntegra o parecer técnico assinado por Sonia Hess e Leonardo Melgarejo, basta clicar [Aqui!].

O câncer de cólon está aumentando entre os jovens – e a ciência aponta alimentos ultraprocessados como um dos principais culpados

Se fumar foi o vilão do câncer do século XX, comer alimentos ultraprocessados ​​pode ser sua contrapartida no século XXI

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza.

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza. Fotografia: Steve Parsons/PA

Por Devi Sridhar para “The Guardian” 

O câncer costumava ser visto como parte do envelhecimento: algo que afetava principalmente pessoas com mais de 60 ou 70 anos. Mas, embora ainda seja verdade que a maioria dos novos diagnósticos de câncer afeta pessoas com mais de 70 anos, o padrão está mudando de forma sutil. Alguns tipos de câncer são cada vez mais encontrados em pessoas mais jovens.

Veja o caso do câncer colorretal (intestino): embora as taxas tenham diminuído em pessoas com mais de 60 anos, os dados mostram um aumento acentuado em muitos países desenvolvidos entre pessoas com menos de 50 anos, no que é chamado de doença de início precoce.

Isso não se deve apenas à triagem mais ampla ou ao melhor diagnóstico, e não é encontrado apenas em um país ou comunidade em particular. O aumento é real e global , passando de aproximadamente 94.700 casos em 1990 para 225.736 em 2019. Um estudo em toda a Europa descobriu que, para aqueles com idade entre 20 e 29 anos , a incidência aumentou 7,9% ao ano entre 2004 e 2016, com as taxas aumentando em 4,9% entre aqueles com idade entre 30 e 39 anos e 1,6% no grupo de 40 a 49 anos aproximadamente no mesmo período. O câncer de cólon não só está aumentando em todas as coortes etárias abaixo de 50 anos, como a taxa de crescimento é maior no grupo mais jovem. A modelagem sugere que o câncer colorretal de início precoce pode dobrar a cada 15 anos na Austrália, Canadá, Reino Unido e EUA.

Na Inglaterra, o programa de rastreamento do câncer de intestino do NHS abrange pessoas de 50 a 74 anos, convidando-as para um exame gratuito a cada dois anos. No entanto, essa faixa etária exclui pessoas mais jovens, que geralmente só são diagnosticadas em estágio avançado, quando o câncer já se espalhou e elas apresentam sintomas.

O que está causando o aumento no número de jovens? Podemos descartar a genética: estima-se que 75% dos casos ocorram em pessoas sem histórico familiar ou predisposição genética conhecida. Cientistas começaram a analisar fatores ambientais associados ao aumento do câncer de cólon desde a década de 1960, com cada geração tendo maior probabilidade de desenvolver câncer do que a anterior.

Um fator continua emergindo como o principal culpado: alimentos ultraprocessados , com uma revisão de 2025 na Nature Reviews Endocrinology destacando as ligações. Esses alimentos, definidos aproximadamente como lanches embalados em fábricas, refeições prontas, cereais açucarados, refrigerantes, carnes processadas e muitos fast foods, agora representam mais da metade da dieta média em países como o Reino Unido e os EUA.

As evidências estão crescendo: um importante estudo publicado no British Medical Journal analisou três grandes coortes nos EUA para examinar a associação de alimentos ultraprocessados ​​com o risco de câncer colorretal. Uma dessas coortes envolveu mais de 46.000 homens, acompanhados por 24 a 28 anos. Em comparação com o grupo que menos consumiu alimentos ultraprocessados, o risco daqueles que mais consumiram de desenvolver câncer colorretal – mesmo considerando nutrição e peso – foi 29% maior. Os autores concluem que mais estudos são necessários para compreender os mecanismos fisiológicos de como exatamente os alimentos ultraprocessados ​​contribuem para o desenvolvimento do câncer.

O interessante é que, embora grande parte da pesquisa tenha associado alimentos ultraprocessados ​​ao aumento da obesidade, que é um importante fator de risco para diversos tipos de câncer, o estudo acima aponta para o aumento do câncer colorretal em pessoas com peso normal . Será que alimentos ultraprocessados ​​podem ser cancerígenos independentemente do índice de massa corporal (IMC) de uma pessoa? Em outras palavras, esses alimentos são prejudiciais à saúde mesmo que você tenha um estilo de vida ativo e esteja em uma faixa de peso saudável?

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados ​​têm sido associadas a interrupções na sinalização da insulina, inflamação crônica de baixo grau e alterações no microbioma intestinal, todos mecanismos implicados no desenvolvimento do câncer. O que comemos afeta o crescimento de nossas células, o funcionamento do nosso sistema imunológico e o comportamento das bactérias intestinais – que ajudam a regular a inflamação e a imunidade. Emulsificantes , aditivos adoçantes artificiais comumente encontrados em alimentos ultraprocessados ​​demonstraram, em estudos com animais, promover a inflamação intestinal e o crescimento de tumores. Enquanto isso, a falta de fibras e fitoquímicos protetores (compostos promotores da saúde encontrados em plantas) nesses alimentos pode alterar o microbioma intestinal necessário para o funcionamento ideal do corpo.

Demorou décadas, mas agora aceitamos que o tabaco causa câncer de pulmão e que o álcool aumenta o risco de câncer de mama e de fígado. A próxima década poderá testemunhar a inclusão de alimentos ultraprocessados ​​como um fator de risco fundamental para o câncer colorretal, especialmente em adultos jovens. Não estou escrevendo isto para assustá-lo. É sim para refletir sobre pesquisas recentes, realizadas em estudos rigorosos e de longo prazo. O que comemos importa mais do que você imagina.

Se fumar foi o vilão do câncer no século XX, consumir alimentos ultraprocessados ​​pode ser seu equivalente no século XXI. A ciência ainda não está consolidada, mas está se desenvolvendo rapidamente. Costuma-se dizer que comida é remédio. E, como estamos aprendendo cada vez mais, comida é prevenção. Nesse sentido, um estudo de 2025 descobriu que consumir iogurte regularmente pode reduzir o risco de desenvolver câncer de cólon, um subtipo do câncer colorretal. Então, se há uma lição a tirar desta leitura: coma mais iogurte e menos alimentos ultraprocessados.

A professora Devi Sridhar é presidente de saúde pública global na Universidade de Edimburgo


Fonte: The Guardian

Novo relatório mostra onde produtos químicos cancerígenos estão poluindo a água de mais de 200 milhões de pessoas nos EUA

What you need to know about toxic 'forever chemicals'

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Mais de 200 milhões de pessoas correm o risco de beber água da torneira contaminada com produtos químicos que causam câncer, danos ao fígado, defeitos congênitos e outros danos reprodutivos, de acordo com uma pesquisa divulgada na quarta-feira que inclui um mapa interativo de pontos críticos de alto risco.

O mapa, desenvolvido pelo Environmental Working Group (EWG), concentra-se no arsênio, no cromo-6 e no nitrato — todos cientificamente conhecidos por causar câncer e outros problemas de saúde.

Nitratos, comumente gerados pelo uso de fertilizantes em terras agrícolas, não só causam câncer, como também impactam negativamente os níveis de oxigênio no sangue de bebês. Bebês que consomem nitratos na água potável podem sofrer da chamada “síndrome do bebê azul”. Além disso, pesquisas mostram que gestantes expostas a nitratos na água potável correm riscos de partos problemáticos, incluindo baixo peso ao nascer e parto prematuro.

Dos três produtos químicos examinados no relatório, o nitrato é o que mais afeta a água da torneira. O EWG afirmou que o nitrato está afetando a água da torneira de cerca de 263 milhões de americanos em 49 estados atendidos por 26.644 sistemas de água. A água potável contaminada com nitrato tem sido um problema grave para muitos estados agrícolas, particularmente o estado de Iowa, principal produtor de milho, nos últimos anos, e pesquisadores temem que isso esteja elevando as taxas de câncer .

Iowa tem a  segunda maior taxa  de câncer dos EUA e se tornou um dos dois únicos estados dos EUA onde a incidência de câncer está aumentando. Leucemia, assim como cânceres de pâncreas, mama, estômago, rim, tireoide e útero, estão entre os diferentes tipos de câncer em ascensão em Iowa,  de acordo com o Instituto Nacional do Câncer. Nitratos têm sido rotineiramente encontrados em níveis acima dos 10 miligramas por litro estabelecidos pelos órgãos reguladores federais como padrão de segurança. E os níveis de nitrato neste verão em Iowa estavam tão acima dos padrões federais que a concessionária que atende 600.000 pessoas na capital do estado, Des Moines, e arredores, restringiu o uso de água  porque não conseguiu eliminar os altos níveis com segurança.

Muitos cientistas consideram o atual valor de referência da EPA de 10 miligramas por litro como alto demais para ser verdadeiramente protetor. O EWG afirmou que esse padrão não protege totalmente contra o risco de câncer ou danos ao feto em desenvolvimento. A diretriz de saúde do EWG é de 0,14 ppm, o que, segundo ele, reduziria o risco de câncer para um em um milhão.

(O mapa do EWG ilustra a prevalência de contaminação concomitante da água potável.)

Também preocupante é a contaminação generalizada da água da torneira com cromo-6, também conhecido como cromo hexavalente. Pesquisadores do EWG afirmaram que ele contamina a água da torneira de cerca de 260 milhões de pessoas atendidas por 7.538 concessionárias de serviços públicos, principalmente no Arizona e na Califórnia. Mesmo níveis baixos desse contaminante aumentam o risco de problemas reprodutivos, danos ao fígado e câncer de estômago.

O cromo-6 é a forma tóxica do metal cromo e é gerado principalmente por processos industriais. Algumas formas de cromo ocorrem naturalmente no meio ambiente, no solo e nas rochas, mas são menos tóxicas.

O filme “Erin Brockovich”, de 2000 , trouxe o cromo-6 à atenção do público, com foco na história de uma empresa de serviços públicos da Califórnia que envenenou as águas subterrâneas da região com cromo-6, causando doenças em famílias. A Califórnia vem tomando medidas nos últimos anos tanto para regulamentar o metal pesado quanto para reduzir seu uso, estabelecendo um nível máximo de contaminante de 10 microgramas por litro. O EWG afirma que o máximo permitido deve ser 0,02 partes por bilhão (ppb).

A pesquisa de mapeamento também inclui dados que indicam que o arsênio contamina a água que abastece cerca de 134 milhões de pessoas em 50 estados por meio de 12.945 concessionárias de serviços públicos. O arsênio também ocorre naturalmente no meio ambiente, mas é altamente tóxico em sua forma inorgânica. o arsênio está associado a doenças cardiovasculares e diabetes, danos ao desenvolvimento cognitivo infantil e aumento de mortes entre jovens adultos.

O limite de arsênio para água potável da EPA é de 10 ppb, embora o EWG diga que uma diretriz melhor é 0,004 ppb.

Os dados usados ​​para produzir o mapa foram reportados pelas concessionárias aos órgãos reguladores estaduais e coletados pelo EWG. Baseiam-se em dados enviados até 2023 e refletem uma média de três anos, afirmou Sydney Evans, analista científico sênior do EWG.

Evans afirmou que os dados são mais uma evidência de que as concessionárias precisam instalar sistemas de filtragem de água, como os de troca iônica, que podem reduzir efetivamente esses e outros contaminantes nocivos da água. Um estudo publicado recentemente mostra que o uso de filtragem especializada para reduzir as concentrações de cromo6 e arsênio na água potável pode prevenir cerca de 50.000 casos de câncer.


Fonte: The New Lede

Glifosato e Câncer: Um Caso Clássico de “Fabricação de Dúvidas”

Uma lata de herbicida glifosato, na casa de um fazendeiro em Ouzouer-sous-Bellegarde (Loiret), em 2017. 

Por  Stéphane Foucart para o Le Monde 

A recente publicação de um estudo que indica um risco aumentado de vários tumores em ratos de laboratório expostos ao glifosato gerou inúmeros comentários nas redes sociais e na imprensa, com o objetivo de minimizar ou denegrir essa pesquisa.

Esses resultados, publicados em 10 de junho na revista Environmental Health, apenas confirmam as conclusões da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que estimou em 2015 que os estudos disponíveis na época forneciam “evidências suficientes” da carcinogenicidade do glifosato em animais.

Os ataques a este estudo, liderados pelo Instituto Ramazzini em Bolonha, Itália, oferecem um exemplo exemplar da manipulação da “fabricação de dúvidas”, uma retórica que visa minar a confiança nos resultados científicos, frequentemente usada para atrasar ou combater decisões regulatórias.

“O periódico é desconhecido, então o estudo é falho.”

Eric Billy, pesquisador de imuno-oncologia, foi um dos maiores críticos do estudo do Instituto Ramazzini (que, na verdade, foi um estudo internacional com autores de todo o mundo, não apenas do Instituto Ramazzini), que ele considerou “falho”. Em uma série de mensagens publicadas em 14 de junho em suas contas X e Bluesky, que receberam inúmeros retuítes, este funcionário da empresa farmacêutica Novartis primeiro acusou seus autores de terem “escolhido um periódico mais brando para evitar críticas”, explicando que ele esperava ler este artigo nos periódicos “Nature, Science ou Cell”, que ele acredita serem de maior qualidade.

Por que é irrelevante

A Environmental Health, publicada pelo grupo SpringerNature, é, na verdade, uma das revistas mais influentes em sua área. Sua taxa de citação a coloca em 32º lugar entre 687 revistas indexadas que abrangem as áreas de saúde pública, saúde ambiental ou saúde ocupacional, de acordo com o ranking de 2024 da editora científica Elsevier. Revistas de prestígio como Nature ou Science geralmente não publicam testes como o realizado pelo Instituto Ramazzini.

“Vários estudos de toxicidade confiáveis e de alta qualidade, como o que você compartilha conosco, são publicados em periódicos especializados”, explica Meagan Phelan, porta-voz das publicações da Science. “Embora sejam elementos essenciais da avaliação de substâncias, esses testes não são considerados avanços conceituais e, como tal, a Science geralmente não os publica.”

“Animais expostos vivem tanto quanto os outros”

O estudo de Ramazzini não revelou nenhuma diferença significativa na mortalidade entre ratos expostos ao glifosato e ratos de controle não expostos. Este ponto foi destacado pelo Sr. Billy para colocar as conclusões do estudo em perspectiva. E acertou em cheio: foi posteriormente relatado no Le Figaro, que o considerou a “primeira lição” deste trabalho.

Por que é mais complicado

O fato de o estudo não ter revelado diferenças significativas nas taxas de sobrevivência entre os dois grupos não foi apresentado pelos pesquisadores de Ramazzini como um resultado em si. Seu protocolo foi, na verdade, projetado para detectar o potencial carcinogênico de um produto, não seu efeito na sobrevivência dos animais: todos eles foram sacrificados dois terços de suas vidas, com 104 semanas de idade. Agora, é fácil entender que, se fumantes humanos fossem comparados a não fumantes, as diferenças de mortalidade seriam pequenas se todos os indivíduos fossem eutanasiados aos 50 anos.

Na realidade, a ausência de diferença na mortalidade entre grupos de animais ao longo do teste é principalmente uma garantia da qualidade do estudo, por razões estatísticas. Um animal que morre prematuramente terá sido exposto por menos tempo à substância testada, e a probabilidade de desenvolvimento de tumores em seu grupo será, portanto, reduzida. Seu peso estatístico na análise será, portanto, diferente. Uma alta taxa de sobrevivência em cada grupo, tanto tratado quanto controle, garante a “manutenção do poder estatístico” do experimento, de acordo com os guias de boas práticas em toxicologia (mantidos pela OCDE).

“A linhagem de roedor escolhida não é apropriada.”

Vários comentaristas também criticaram a escolha da chamada linhagem de ratos “Sprague-Dawley” pelos pesquisadores do Instituto Ramazzini. Eric Billy argumenta que o uso desse tipo de rato “já foi fortemente criticado pela comunidade científica devido à frequência anormalmente alta de lesões tumorais espontâneas em comparação com outras linhagens de roedores”, lembrando que essa linhagem foi usada por Gilles-Eric Séralini em seu famoso e controverso estudo sobre OGM.

Por que está incorreto

Na realidade, as altas taxas de tumores espontâneos observadas na cepa “Sprague-Dawley” afetam apenas certos locais (tumores da glândula mamária, hipófise, etc., encontrados em taxas comparáveis nos grupos tratado e controle). Além disso, os pesquisadores têm à disposição uma vasta literatura para levar em consideração as características específicas dessa cepa.

A cepa “Sprague-Dawley” não só não é problemática em si, como também é a mais amplamente utilizada. Em 2024, pesquisadores mostraram que mais de 55% dos 263 estudos de carcinogenicidade de ingredientes ativos conduzidos nos últimos anos em ratos utilizaram essa cepa. A carcinogenicidade do Ruxolitinibe, um fármaco comercializado pela Novartis, foi, por exemplo, testada nessa cepa. Quanto ao estudo do Dr. Séralini (publicado em 2012, antes de ser retratado e republicado), a escolha da cepa não estava, por si só, entre as críticas feitas. Conforme resumido por especialistas da IARC em 2015, foi todo o protocolo implementado que foi criticado.

“As doses testadas são irrealistas”

Assim como várias outras vozes críticas, Eric Billy se surpreende com as altas doses de glifosato às quais os ratos foram expostos no estudo do Instituto Ramazzini, afirmando que “mesmo a menor dose testada excede em muito a exposição humana [dietética] real” e que “as outras duas doses são, portanto, cem e mil vezes maiores do que essa exposição humana”. O mesmo argumento e o mesmo número são usados em Le Figaro.

Por que é irrelevante

Este argumento é frequentemente levantado para questionar a relevância dos resultados de estudos com animais. No entanto, milhões de humanos expostos por décadas não podem ser comparados a cem ratos expostos por 24 meses. O objetivo desses testes é caracterizar o potencial carcinogênico das substâncias, não avaliar os riscos enfrentados pela população em níveis reais de exposição (às vezes muito superiores à exposição alimentar, para pessoas que vivem perto de fazendas, trabalhadores rurais, etc.).

De fato, o glifosato já foi associado a um risco aumentado de certos linfomas em agricultores em quatro meta-análises e um estudo combinado — os mais altos níveis de evidência em epidemiologia. Estudos em animais nos permitem interpretar esses resultados, sugerindo que essas associações são indicativas de um nexo causal. E mesmo que demos crédito ao argumento da “dose muito alta”, a objeção permanece infundada.

O estudo Ramazzini de fato examinou os efeitos do glifosato em doses consideravelmente menores do que todos os estudos semelhantes anteriores. Nos sete estudos selecionados pelas autoridades europeias durante sua última avaliação da molécula herbicida, as doses mais baixas testadas foram de 12 a 420 vezes maiores do que no estudo Ramazzini, e as exposições mais altas foram de 10 a 33 vezes maiores.

“A via de exposição não é adequada.”

No estudo de Ramazzini, os animais foram expostos ao glifosato através da água potável, não da comida. O Sr. Billy sustenta que isso é inadequado, argumentando que os humanos têm maior probabilidade de serem expostos através da comida.

Por que é irrelevante

Entre os estudos com glifosato em animais submetidos às autoridades sanitárias ou avaliados pelo IARC, nenhum foi considerado inadmissível por ter optado por uma via de exposição semelhante. Além disso, a água potável é considerada aceitável para avaliar “alimentos ou produtos químicos ambientais, incluindo pesticidas”, assim como a dieta, de acordo com o Guia de Boas Práticas nº 451 da OCDE.

Essa falsa controvérsia é um argumento clássico. Em 1953, o primeiro trabalho do Instituto Sloan Kettering sobre o potencial carcinogênico do tabaco envolveu a observação do desenvolvimento de tumores na pele raspada de roedores após a aplicação de extratos de alcatrão de cigarro. A American Tobacco Company criticou o uso, pelos cientistas, de uma “alta concentração de extratos de fumaça — totalmente diferente da fumaça que uma pessoa inala de um cigarro”, afirmando que “todos os cientistas concordam que não há relação conhecida entre câncer de pele em camundongos e câncer de pulmão em humanos”.

Assim como os pesquisadores de Ramazzini, os do Instituto Sloan Kettering não buscavam imitar exatamente a exposição humana ao agente testado (ninguém espalha alcatrão de cigarro no próprio corpo), mas testar seu potencial cancerígeno.

“O número de animais é insuficiente”

Em seu tópico crítico, Eric Billy faz um cálculo estimando que, para alcançar maior robustez estatística, os pesquisadores de Ramazzini deveriam ter usado pelo menos três vezes mais ratos, ou 160 a 220 indivíduos por grupo.

Por que isto está incorreto

Tais requisitos são fantasiosos. Nenhum estudo de toxicidade crônica ou carcinogenicidade do glifosato realizado em ratos jamais incluiu tantos animais. Todos os estudos semelhantes aos de Ramazzini incluíram cerca de 50 ratos por grupo. E por um bom motivo: este é o limite recomendado pelo documento de orientação da OCDE.

“Neste caso, é completamente ridículo exigir mais animais por grupo”, afirma o bioestatístico americano Christopher Portier, ex-diretor do Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, cujo trabalho é uma autoridade no assunto. Segundo este especialista, testemunha especializada dos autores em vários julgamentos em andamento nos Estados Unidos, os pesquisadores de Ramazzini “conseguiram demonstrar uma tendência estatisticamente significativa de aumento de certos tumores nos animais tratados, embora houvesse apenas 50 por grupo. Por que o experimento seria repetido com mais animais para obter maior poder estatístico?”

Na realidade, é quando um efeito estatisticamente significativo não é encontrado que se pode argumentar que o número de animais é muito pequeno e que pode ser útil aumentar o poder estatístico. “A única desvantagem de ter 50 ratos por grupo, em vez de 160 ou 220, é ‘perder’ um efeito, certamente não ver um efeito que não existe”, conclui o Sr. Portier.

Este artigo se beneficiou de discussões com pesquisadores do Instituto Ramazzini e de revisão crítica por três pesquisadores (INRAE e INSERM) envolvidos em trabalhos de toxicologia envolvendo estudos em animais.

O que é a “fabricação da dúvida”?

Como os historiadores científicos Naomi Oreskes (Universidade de Harvard) e Erik Conway (NASA) mostraram em um livro histórico (Merchants of Doubt, 2012), a “fabricação da dúvida” foi desenvolvida na década de 1950 pelas empresas de tabaco para negar ou relativizar os efeitos dos cigarros.

Essa retórica vira a ciência contra si mesma, distorcendo as ferramentas intelectuais que estão no cerne das abordagens dos cientistas (dúvida metódica, exigências de rigor, desconfiança em afirmações percebidas como espetaculares, etc.). Portanto, é muito eficaz contra membros das comunidades científica e médica que não trabalham diretamente com os temas em questão, bem como contra públicos apegados à racionalidade e à defesa de valores científicos, ou mesmo jornalistas que às vezes repetem esses argumentos circulantes sem pensar duas vezes.

Uma técnica de propaganda altamente eficaz, a “fabricação de dúvidas” às vezes exige longas explicações para ser desmascarada, especialmente porque às vezes mistura críticas legítimas com outras baseadas em inverdades, interpretações errôneas ou simplesmente considerações errôneas. Constitui uma caixa de ferramentas constantemente utilizada há décadas por diversos setores industriais que desejam proteger suas atividades de qualquer regulamentação sanitária ou ambiental.


Fonte: Le Monde