Análise da Pesticide Action Network sobre dados de testes do governo descobre produtos químicos associados ao câncer e prejudiciais às abelhas
Algumas uvas importadas continham resíduos de até 13 agrotóxicos, e 87% das amostras continham um coquetel químico. Fotografia: Zoonar GmbH/Alamy
Por Helena Horton para o “The Guardian”
Análises mostram que alimentos importados continham resíduos de 48 agrotóxicos que não foram aprovados para uso por agricultores britânicos, incluindo produtos químicos associados ao câncer e imidacloprido, que é prejudicial às abelhas.
A Pesticide Action Network (PAN) analisou dados de testes do governo do Reino Unido, comparando os resultados de testes de agrotóxicos em alimentos importados e produzidos internamente. Eles descobriram que havia resíduos de 46 agrotóxicos relacionados ao câncer em produtos importados, em comparação com 19 em alimentos de origem do Reino Unido. Os exportadores incluem a UE, Peru, Tailândia, Turquia e os EUA.
O PAN também descobriu que 29 agrotóxicos associados à desregulação endócrina, que podem interferir nos sistemas hormonais e levar a problemas de saúde, incluindo câncer e defeitos congênitos, estavam presentes em produtos importados, em comparação com 12 em alimentos cultivados no país.
Também foi detectado o pesticida imidacloprida, cujo uso foi proibido em plantações do Reino Unido em 2018. Vários estudos descobriram que o produto químico, que pertence ao grupo dos neonicotinoides, é extremamente prejudicial às abelhas. Traços do agrotóxico foram encontrados em produtos como batatas, ervilhas e uvas.
Nick Mole, da PAN UK, disse: “Embora os resultados para produtos do Reino Unido também sejam preocupantes, quando se trata de agrotóxicos que representam um risco à saúde do consumidor, as importações tendem a ser muito piores do que os alimentos cultivados aqui no Reino Unido. Os alimentos importados testados pelo governo continham quase três vezes o número de agrotóxicos altamente perigosos, incluindo carcinógenos, disruptores endócrinos e neurotoxinas.
“O governo do Reino Unido está permitindo que quantidades maiores de produtos químicos apareçam em uma lista cada vez maior de itens alimentares comuns. Eles precisam reverter urgentemente essa tendência atual.”
Junto com sua análise, o grupo de campanha lançou sua lista anual Dirty Dozen, que destaca os produtos que têm múltiplos resíduos de agrotóxicos presentes. Isso ocorre porque há evidências de que quando um produto tem mais de um pesticida, isso pode resultar em umefeito “coquetel”que agrava os problemas de saúde causados.
No topo da lista deste ano estão as frutas cítricas macias, que incluem satsumas, tangerinas e clementinas, das quais 96% tinham mais de um agrotóxico presente quando testadas. O maior número de agrotóxicos encontrados em um pedaço de fruta cítrica foi nove.
Laranjas ficaram em segundo lugar com 95% contendo um coquetel de produtos químicos, e nove agrotóxicos foram encontrados na fruta. Uvas foram encontradas com o maior número de agrotóxicos, 13, e 87% das amostras de uva continham um coquetel químico.
“Ao permitir agrotóxicos proibidos em nossas importações, o Reino Unido está exportando sua pegada ambiental e de saúde humana para o exterior. Trabalhadores rurais e a vida selvagem em países onde nossos alimentos são cultivados estão expostos a esses produtos químicos perigosos e sofrerão os danos associados. Isso também prejudica os agricultores britânicos em um momento em que pedimos que eles produzam de forma mais sustentável”, disse Mole.
“Mas qualquer queda nos padrões britânicos de agrotóxicos será um grande problema para o comércio com a União Europeia, o que também pode devastar a agricultura do Reino Unido. Se o governo for sério sobre proteger os consumidores britânicos e apoiar nossos fazendeiros, ele pode matar dois coelhos com uma cajadada só, não permitindo que importações de alimentos cultivados usando agrotóxicos proibidos para uso doméstico entrem na Grã-Bretanha.”
Um porta-voz do departamento de meio ambiente, alimentos e assuntos rurais disse: “Temos limites rígidos para resíduos de agrotóxicos em vigor, definidos após rigorosas avaliações de risco para garantir que os níveis sejam seguros para o público. Esses limites se aplicam tanto a alimentos produzidos domesticamente quanto importados de outros países.”
A Repórter Brasil teve acesso aos “Monsanto Papers”, série de documentos internos da empresa comprada em 2016 pela multinacional alemã Bayer; Mensagens revelam estratégia de encontrar cientistas aliados para a defesa do glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil
Por Carla Ruas e Sílvia Lisboa, edição de Paula Bianchi, para a Repórter Brasil
Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o agrotóxico glifosato como “provável cancerígeno”. Menos de cinco anos depois, no entanto, o Brasil rebaixou o grau de toxicidade do pesticida banido em países como Áustria e Alemanha. Por aqui, o glifosato segue campeão de vendas.
O lobby por trás dessa decisão, contrária à da agência ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), só agora começa a ser revelado, com a análise pela Repórter Brasildos chamados “Monsanto Papers”, originalmente divulgados em 2019. Até hoje, os documentos que mostram os bastidores da atuação no Brasil da principal fabricante do glifosato não haviam sido investigados.
E-mails internos da Monsanto, comprada pela multinacional alemã Bayer em 2016, mostram que a companhia fez uma lista de cientistas brasileiros que poderiam atuar contra eventuais restrições ao herbicida. Tratava-se de uma estratégia comum, segundo documentos da empresa.
Em mensagens de 2012 e 2013, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona quatro nomes de confiança no país: o médico Flávio Zambrone, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a toxicologista Silvia Berlanga Moraes de Barros, da Universidade de São Paulo (USP), o patologista João Lauro Viana de Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, também da Unesp e presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do governo federal.
Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)
Os Monsanto Papers vieram a público em 2019, durante uma leva de processos judiciais contra o glifosato nos Estados Unidos, e foram fundamentais para condenações que já somam US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões). Hámilhares de açõesna Justiça norte-americana em que agricultores afirmam ter contraído câncer devido ao uso do herbicida da empresa.
Os documentos vazados não trazem os posicionamentos dos cientistas brasileiros. Mas indicam como a empresa buscava a participação deles em audiências públicas e congressos acadêmicos, além de sugerir até mesmo edições em artigos científicos.
Procurada, a Bayer não retornou até a publicação desta reportagem.
Diretor da Monsanto sugeriu edições em artigo científico de brasileiro
Citado nos Monsanto Papers, o médico João Lauro Viana de Camargo é professor aposentado de Patologia da Unesp. Em 2015, enquanto o uso do glifosato estava sob reavaliação no Brasil, a Monsanto foi surpreendida pela decisão da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) de classificar o glifosato como um “provável cancerígeno para humanos”. O anúncio levou a empresa a montar uma estratégia global de redução de danos.
O plano incluía montar um grupo de especialistas, incluindo Camargo, para realizar estudos refutando as afirmações da Iarc. Em um documento de planejamento, a empresa diz que seu objetivo era “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”. A estratégia também falava em “fornecer cobertura para que as agências reguladoras continuem a tomar decisões de recadastramento com base na ciência.”
Em trecho de documento de planejamento, empresa fala em “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup [produto da Bayer], comunicando a segurança do glifosato” (Foto: Reprodução/Monsanto Papers)
A ofensiva da Monsanto resultou em uma série de artigos científicos publicados no periódico Critical Reviews of Toxicology. Dois deles foram assinados por Camargo, em conjunto com outros cientistas. Apesar de a empresa negar qualquer envolvimento nas pesquisas, ofícios internos mostram que a Monsanto teria participado ativamente da produção dos artigos, da redação de manuscritos à edição final por parte de executivos da empresa.
Em um email interno, o Diretor de Estratégia de Avaliação de Segurança de Produtos, William Haydens, admite que analisou um dos artigos coescritos por Camargo e indicou “o que acho que deveria ficar, o que pode ir, e em alguns pontos eu fiz uma pequena edição.”
Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)
A Monsanto pagou US$ 350 mil (R$ 1,9 milhão) para uma consultoria científica contratar os especialistas e coordenar o trabalho. Em memorando de comunicação interno analisado pela reportagem, a Monsanto admite que muitos, incluindo Camargo, já haviam trabalhado como consultores pagos pela empresa. Apesar do esforço, a Iarc manteve a classificação do glifosato como potencialmente cancerígeno.
A decisão repercutiu na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que desde 2008 estava reavaliando o glifosato. Em 2016, a agência contratou um parecerista técnico externo pelo valor de R$ 10 mil. Quem ganhou o edital foi a pesquisadora Marize Solano, orientanda de mestrado e doutorado de Camargo, na Unesp. No laudo, Solano discorda da Iarc e diz considerar “pouco provável” que o glifosato seja cancerígeno.
Em nota, a Anvisa afirmou que a contratada cumpriu exigências profissionais e de formação acadêmica, mas não respondeu se tinha conhecimento do vínculo com Camargo. Procurada, Solano não aceitou dar entrevista. Camargo também não respondeu a perguntas sobre sua relação com a Monsanto.
O parecer foi decisivo para a decisão final da Anvisa sobre o glifosato, finalmente anunciada em 2019. Embora tenha aprovado mudanças nas recomendações sobre o uso do produto, a agência não proibiu o glifosato no Brasil e abrandou seu grau de toxicidade. Hoje, o princípio ativo considerado um provável cancerígeno pela agência da OMS é classificado no Brasil como pouco tóxico para humanos.
Médico representou a Monsanto em audiências sobre o glifosato
Já o médico Flávio Zambrone é um velho conhecido da Monsanto. O toxicologista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fundou a consultoria privada Planitox nos anos 1990, que ainda hoje presta serviço para fabricantes de insumos agrícolas. Ele representou a Monsanto e outras 38 empresas de agrotóxicos durante a reavaliação do glifosato pela Anvisa.
“As empresas se unem e contratam um toxicologista de confiança para que organize os seus dados e suas informações”, afirmou Zambrone em uma audiência pública sobre o processono Congresso Nacional, em 2019. “Essas informações são fornecidas para a Anvisa usar nas suas avaliações e tomar decisões”, explicou sobre o seu papel.
O médico também defendeu a indústria nas reavaliações de outros dois agrotóxicos: o 2,4 D – usado no cultivo da soja e milho – e o clorotalonil, fungicida utilizado em diferentes plantações, como batata e trigo.
Enquanto a Anvisa avaliava o glifosato, Zambrone fundou outras duas organizações para respaldar o uso de agrotóxicos no país: o Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox), responsável por treinamentos para produtores rurais e profissionais de toxicologia, e o Grupo de Informações e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), criado para defender o glifosato, principalmente na imprensa.
Em todas essas organizações, o médico contou com o apoio da filha, Maria Vitória Zambrone, especialista em comunicação corporativa e sócia do pai na Planitox. Maria Vitória também criou o serviço de checagem de notícias “Drops”, utilizado pelo portal do médico e comunicador Drauzio Varella, e encerrado em 2020.
Em uma das checagens, o Drops afirmou ser “insustentável” a notícia de que o glifosato tem relação com autismo, sem expor aos leitores a associação direta de sua fundadora com a indústria de agrotóxicos.
Procurado pela reportagem, o Portal Drauzio afirmou, em nota, desconhecer qualquer envolvimento de Maria Vitória Zambrone com as empresas de seu pai. O texto afirma que, “visto a situação atual, que chegou ao nosso conhecimento através desta reportagem, iremos retirar o conteúdo citado do ar”.
O agrônomo e ex-gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Claudio Meirelles, lembra que Flávio Zambrone estava sempre na agência defendendo o lado das empresas. “Ele (Zambrone) usa do prestígio de uma universidade pública para defender interesses privados. Esse viés é inaceitável, na minha opinião”, diz Meirelles, atualmente pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Universidade pública deve servir ao bem comum, ao interesse de todos”, complementa.
Procurados, Flávio e Maria Vitória Zambrone não responderam aos questionamentos da Repórter Brasil.
O médico já precisou dar explicações sobre outros possíveis conflitos de interesses em sua atuação. Em 2009, o Ministério Público do Trabalho (MPT) questionou a conduta do toxicologista diante do vazamento de uma fábrica de agrotóxicos da Shell e da Basf em Paulínia, interior de São Paulo.
O então pesquisador da Unicamp foi chamado para aferir os níveis de contaminação da população local, como parte de um convênio entre a universidade e a indústria. Mas, na época, Zambrone também prestava serviços de consultoria em toxicologia para a Shell e grandes empresas fabricantes de agrotóxicos, por meio da Planitox.
No documento, a procuradora Márcia Kamei Lopes Aliaga afirmaque atuação nas duas frentes “deixa entrever que o interesse público e o privado se mesclam, não havendo clara distinção, no caso, sobre tais conceitos”. A procuradora explica que a prestação de serviço de consultoria privada por um professor de universidade pública pode “comprometer a produção científica, tais questões podem ferir princípios éticos e legais da Administração Pública.”
Na época, moradores da região e ex-funcionários da fábrica acusaram o médico de favorecer a Shell, ao produzir laudos técnicos dizendo que não havia indícios de contaminação humana. Outra análise realizada pela prefeitura detectou substâncias intoxicantes em 86% das amostras de sangue analisadas.
‘A guardiã da toxicologia’ e o defensor dos transgênicos
Os outros dois cientistas citados nos Monsanto Papers são a toxicologista Silvia Berlanga de Moraes Barros, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, professor da Unesp – Campus Botucatu.
Berlanga foi presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) nos anos 1990 e continua influente na entidade, que hoje tem a Bayer como “sócia institucional”.
A aproximação da entidade com a fabricante do glifosato teria ocorrido em 2015, no mesmo ano em que a Iarc classificou o glifosato como provável cancerígeno.
Naquele ano, a SBTox chamou a associação que então representava a indústria de agrotóxicos no Brasil, a Andef, para organizar a “agenda científica” do seu congresso anual. Executivos da Bayer, Basf, Syngenta e Dow Agroscience foram palestrantes do evento científico. O episódio gerou umaonda de desfiliações e notas de repúdio entre toxicologistas.
A Repórter Brasil questionou a SBTox sobre a parceria com a Bayer, mas não obteve retorno. Berlanga também foi perguntada sobre sua relação com a multinacional e sobre as críticas de seus pares quanto à proximidade com fabricantes de agrotóxicos. A cientista se negou a dar entrevistas e disse “não ter gostado das afirmações” a seu respeito.
Já o agrônomo Edivaldo Velini é um dos principais defensores do uso de sementes transgênicas no país, outro filão de mercado da Bayer. Essas plantas são mais resistentes ao uso de agrotóxicos econsomem mais dessas substâncias.
Velini foi presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação responsável pela avaliação e aprovação de sementes transgênicas.
A nomeação de Velini para o cargo geroumanifestações de repúdiode organizações ambientalistas por causa de declarações favoráveis ao glifosato. Em entrevista ao site institucional da Monsanto em 2011, o professor afirmou que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.
A primeira semente transgênica comercializada no país foi a Soja Roundup Ready, da então Monsanto, no final da década de 1990. O grão foi desenvolvido para gerar maior produtividade com a aplicação do glifosato da companhia e chegou a ter sua venda proibida pela Justiça federal.
Em março de 2005, com a promulgação daLei de Biossegurança, a CTNBio se tornou responsável por solicitar ou dispensar estudos e relatórios de impacto ambiental para transgênicos. Até então, o Ministério do Meio Ambiente era o responsável por exigir a apresentação desses estudos. Até hoje, no entanto, a Monsanto nunca teve de apresentar os estudos das sementes transgênicas resistentes ao glifosato.
À Repórter Brasil, o professor da Unesp disse que produzir e difundir informações sobre os métodos de controle de ervas daninhas fazem parte das suas atribuições. “Esta é uma atividade que realizo em rotina e que não pode ser reduzida ao termo ‘apoiar agrotóxicos’”, disse.
Por Silvia Lisboa e Carla Russo para o InfoAmazonia
Análise aponta que risco dessas condições graves aumenta em cidades com 5% ou mais da área dedicada a plantações. MT apresentou os piores índices entre os estados do Brasil com maior parte do território voltado à produção de commodities.
Uma criança em Lucas do Rio Verde, município da região central de Mato Grosso, tem um risco 20% maior de nascer com anomalias congênitas — alterações estruturais ou funcionais que ocorrem durante o desenvolvimento fetal — do que uma criança nascida em Juruena, 670 quilômetros distante em direção noroeste, no mesmo estado.
Esse risco também se eleva para mortes fetais. Mulheres que vivem em Lucas do Rio Verde têm até 30% mais chances de perder o bebê após a 28ª semana de gestação do que as moradoras de Juruena.
A explicação está conectada à ocupação do território dessas duas cidades: enquanto Lucas do Rio Verde tem mais de 50% de sua área coberta por lavouras, Juruena tem menos de 5%. Essa configuração impacta a saúde da população porque eleva o risco dessas duas condições graves, segundo uma análise da InfoAmazonia em parceria com Tatiane Moraes, pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP).
Moraes, que atua na área de saúde ambiental e também integra o Observatório Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), primeiramente analisou todos os estados brasileiros para identificar os maiores produtores de commodities do país. O critério adotado foi selecionar aqueles com mais da metade dos municípios com ao menos 5% de sua área dedicada à agricultura. São eles: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em seguida, foi verificada a existência de uma associação entre anomalias congênitas e mortes fetais e o tamanho da área agrícola nos municípios desses estados.
Mato Grosso foi o que apresentou o maior risco de anomalias e mortes fetais entre todos os analisados. Já São Paulo e Paraná não apresentaram associação entre o aumento da área agrícola e um maior risco dessas condições.
No caso das anomalias, o estado da Amazônia Legal apresenta uma chance 20% maior em municípios com pelo menos 5% de lavouras em comparação àqueles que não alcançam esse percentual. Cerca de 60% do estado, isto é, 85 municípios, têm mais de 5% do seu território dedicado à agricultura.
Nos municípios mais agrícolas de Mato Grosso do Sul, por exemplo, o risco aumenta em 12%; em Goiás, em 4%. Na Região Sul, tanto o Rio Grande do Sul quanto Santa Catarina registraram um aumento no risco de anomalias, variando entre 2% e 4% em municípios com pelo menos 30% da área plantada.
Uso de agrotóxicos e a saúde
Os mesmos estados também estão entre os que mais comercializam agrotóxicos no país, segundodadosdo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mato Grosso também está no topo desse ranking, enquanto Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão entre os dez primeiros colocados.
O glifosato,o mais utilizado no país, e outros produtos, como o 2,4-D, a atrazina, o mancozebe, o clorotalonil e o acefato são fatores de risco ambiental para uma série de doenças, como as anomalias e as mortes fetais. Exceto o glifosato e o 2,4-D – um dos componentes do agente laranja, usado como arma de guerra –, os demais são proibidos na União Europeia.
Para chegar aos resultados, Moraes observou o avanço das áreas agrícolas entre 2013 e 2021, com dados extraídos da plataforma MapBiomas. Em seguida, analisou os registros do sistema nacional de saúde do DATASUS no mesmo período e verificou se havia aumento na taxa de anomalias congênitas e mortes fetais, condições já associadas à exposição a agrotóxicos. O objetivo era comparar os dados de saúde de municípios com mais de 5%, 30% e 50% da área dedicada a plantações de grãos com outros sem lavouras.
“Mensuramos o risco de viver em um município agrícola com foco na saúde das crianças”, disse Tatiane Moraes, que foi bolsista do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Os resultados reforçam a necessidade de reavaliar o uso massivo de agrotóxicos na agricultura brasileira”, disse.
Em 2011, quando Lucas do Rio Verde tinha metade da população atual, mas já despontava como um dos polos do agronegócio, uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) já haviaidentificado a presença de agrotóxicos em amostras de leite materno de 62 mulheres. Em todas, havia algum resíduo de pesticida; em outras, até seis tipos de agrotóxicos. O estudo foi orientado por Wanderlei Pignati, líder de um grupo de pesquisadores da universidade que há décadas se dedica a avaliar os diferentes impactos do agronegócio na saúde coletiva.
De lá para cá, o setor agrícola em Lucas do Rio Verde só cresceu. Sua localização às margens da BR-163, a principal via de escoamento das commodities até os portos do Pará ou do Rio Grande do Sul, selou seu destino. O município abriu seu território para as produções de milho, soja, arroz, algodão, que hoje ocupam mais de 120 mil hectares. A populaçãoquase dobrouna última década.
Sinop, conhecida como a Capital do Nortão, expressão cunhada por ser referência a outros 30 municípios da região, e Colíder, ambas situadas no trajeto da BR-163 em direção ao norte, também seguem o mesmo caminho: destinam 30% a 50% do seu território a lavouras, respectivamente. Mato Grosso deve plantar na safra 2024-2025mais de 12,6 milhões de hectares só de soja, uma área superior a do território de Portugal.
Juruena e Lucas, paisagens distintas
A paisagem de Juruena, um município com pouco mais de 10 mil habitantes, é oposta à de Lucas do Rio Verde. Em vez de uma rodovia, está situada à beira do rio homônimo, uma das nascentes do rio Tapajós. As áreas protegidas da floresta amazônica, que dominam a região noroeste do estado, ofereceram mais resistência ao avanço agrícola. A conversão do solo para a agricultura em Juruena não alcança 5%.
Ali a presença de terras indígenas e unidades de conservação serviu como um freio ante o desmatamento, que começou em Mato Grosso por Cuiabá em direção ao norte. “A ocupação da região noroeste de Mato Grosso é bem mais recente, data do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, incentivada pela ditadura”, explica o biólogo Eduardo Darvin, coordenador do programa de Economias Sociais do Instituto Centro de Vida (ICV). “Como toda a ocupação na Amazônia, ocorreu de forma desordenada, incentivando o desmatamento e teve vários ciclos, entre eles o da madeira e o do garimpo”, detalha.
Área de plantação de soja próxima ao município de Brasnorte, no noroeste do Mato Grosso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Nos últimos anos, as áreas de pecuária estão sendo substituídas pela plantação da soja. Com a commodity, veio toda uma cadeia que antes não existia, como máquinas agrícolas e aviões usados na pulverização aérea de pesticidas. “Está ocorrendo muito arrendamento e concentração de terras para expansão das lavouras, uma mudança na economia regional que começa a trazer desemprego e agrotóxicos”, preocupa-se Darvin.
A pulverização aérea de agrotóxicos já chegou a abalar a rede de produtores agroecológicos coordenada pelo ICV na região. “Alguns agricultores perderam toda a produção e tiveram problemas de saúde”, disse. “Outros não conseguem ingressar na rede porque estão cercados de lavouras que usam esses produtos”. O projeto do ICV foi criado para fortalecer a agricultura familiar e fazer frente ao avanço do desmatamento da região norte e noroeste, ocasionado primeiro pela pecuária e, agora, pela soja.
Efeito sobre as crianças
Embora as pesquisas científicas apontem uma relação entre os agrotóxicos e o desenvolvimento de doenças, ainda é um desafio quantificar a exata influência dos pesticidas. “Mas o fato de ser complexo não significa que não haja impacto, isto é, que os riscos não existam”, disse a geneticista Lavinia Schuler-Faccini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Eles (os riscos) existem e estão sendo cada vez mais demonstrados por estudos ecológicos, que comparam populações diretamente expostas com as não expostas, por pesquisas em animais e com células in vitro”.
Uma das maiores autoridades em anomalias congênitas, Schuler-Faccini lidera um serviço de vigilância no sul do Brasil, outra região agrícola importante. O grupo trabalha para identificar as causas evitáveis de defeitos físicos e neurológicos em bebês – e os pesticidas, é claro, entram na mira. Alguns deles funcionam como desreguladores endócrinos, resultando em problemas de fertilidade; outros modificam a expressão de genes, um efeito que vem sendo estudado pela epigenética.
“A presença do pesticida no organismo, até mesmo em pequenas doses, pode alterar o funcionamento das sinalizações produzidas por genes. Desligam a expressão de determinado gene, ou o acende de modo fraco, ou muito forte. É um efeito a longo prazo, que ocorre muito antes de uma gestação”, explica.
Orientando de doutorado de Schuler-Faccini, o bioquímico Ricardo Rohweder assina um estudo de revisão que avaliou 80 pesquisas observacionais realizadas em 13 países da América Latina e do Caribe sobre os efeitos da exposição pré-natal a pesticidas na saúde de gestantes e seus filhos. Publicada no Journal Health and Pollution, a pesquisa identificou uma associação dos agrotóxicos a uma série de efeitos adversos à saúde dos bebês. “Além de anomalia congênita, encontramos outros desfechos obstétricos, como prematuridade, perda gestacional, baixo peso, leucemia infantil, alergias e problemas de neurodesenvolvimento”, detalhou. Chamou a atenção de Rohweder a pouca quantidade de estudos sobre o glifosato, o mais usado no Brasil e no mundo.
Uma das pesquisadoras do Núcleo de Estudos Ambientais e em Saúde do Trabalhador (Neast), coordenado por Pignati, da UFMT, a enfermeira Mariana Soares tambémidentificou uma associação entre a exposição parental aos agrotóxicos e risco de câncer em crianças e adolescentes no mundo.
Máquinas colheitadeiras em plantação de soja no norte do Mato Grosso. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real
O estudo de revisão mostrou que herbicidas, como o glifosato, e os inseticidas organofosforados foram os mais relacionados com o câncer infanto-juvenil, especialmente a leucemia infantil. “Estamos cada vez mais demonstrando quais são os fatores que adoecem as pessoas em uma região onde o agronegócio domina”, explicou Soares.
Agrotóxicos e a chegada da soja
No Brasil, os agrotóxicos foram introduzidos com a soja transgênica na década de 1990, e o seu uso só aumentou à medida que essa commodity ganhou espaço. Atualmente, a soja domina a produção agrícola brasileira, atingindo 154,6 milhões de toneladas na safra 2022/23, quase toda geneticamente modificada. Enquanto isso, o Brasil aplicou um recorde de 800,6 mil toneladas de agrotóxicos em 2022, quantidade maior do que em qualquer outro país no mundo.
A tendência é que o uso desses produtos químicos aumente, já que o caminho para os agrotóxicos está cada vez mais livre. Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)reavaliou o glifosato e considerou não haver evidências científicas que o produto da Monsanto cause danos à saúde humana que tornem proibitivo seu uso.
Em maio deste ano, o pacote de leis chamado PL do Veneno afrouxou ainda mais o controle de novos agrotóxicos no país, apesar de duras críticasda comunidade científica. Entidades e partidos políticos da oposição protocolaram no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação direta de inconstitucionalidade para derrubar a lei, em parte porque viola os direitos das crianças e adolescentes.
Para Larissa Bombardi, autora do livro “Colonialismo e Agrotóxicos” publicado em 2023, um dos principais argumentos que impulsiona os agrotóxicos é o fato que eles aumentam a produção de comida, o que ajuda a acabar com a fome. A pesquisadora do Departamento de Geografia da USP explica, no entanto, que esse raciocínio não funciona, já que as culturas que mais crescem no país não servem para a alimentação, como a soja.
Segundo Bombardi, o debate dos agrotóxicos tem de ocorrer sob outra perspectiva.“Temos que pensar se queremos produzir commodities sem limites ou se queremos preservar nossa biodiversidade e a qualidade da água,” afirma a pesquisadora. “Será que produzir mais é importante para o conjunto da sociedade brasileira?”.
Antes mesmo do PL do Veneno, a legislação já permitia níveis muito elevados de resíduos de agrotóxicos em água potável. A União Europeia aceita, para a maioria dos agrotóxicos comercializados, o valor máximo de 0,1 de microgramas por litro (μg/L). Considerando os produtos mais vendidos no Brasil, o valor tolerado por aqui é 20 vezes maior para a atrazina, 300 vezes maior para o clorpirifós e 2,4-D, 900 vezes maior para o Diuron, 1.800 vezes maior para o mancozebe, e para o acefato sequer existe um limite.
O glifosato, agrotóxico mais vendido do Brasil e no mundo, tem o valor limite de 500 μg/L no Brasil, o que representa 5.000 vezes mais do que os países europeus. O limite nos Estados Unidos é maior:aproximadamente 700 μg/L.
“Temos dois problemas: os limites tolerados da nossa legislação estão desatualizados, e não temos estudos sobre as misturas de agrotóxicos”, disse a farmacêutica Solange Garcia, professora da UFRGS especializada em toxicologia. “Não estamos expostos a uma única substância naquela concentração determinada. Isso não existe.”
Garcia chamou atenção para outro aspecto pouco falado: agrotóxicos contêm metais pesados. “Ninguém fala sobre isso”, observou. O mancozebe, por exemplo, o segundo agrotóxico mais usado no Mato Grosso, conforme dados do Ibama, tem manganês na composição.
Uma pesquisa orientada por Garcia descobriu doses elevadas de manganês no sangue de crianças em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul – os estudantes desenvolveram alterações endócrinas e cognitivas em função da contaminação. “Os metais se acumulam no organismo, na planta, no solo. É muito grave”.
No exterior, o glifosato e outros produtos considerados perigosos também seguem sem grandes restrições. No ano passado, a Comissão Europeia autorizou o uso do herbicida por mais 10 anos, apesar de permitir que cada país-membro possa controlar o uso por conta própria.
Nas cortes norte-americanas, porém, a Monsanto-Bayer, fabricante do Roundup, marca que tem o glifosato como principal ativo, tem contabilizado derrotas. Vítimas de câncer têm conseguido provar na Justiça a associação entre as suas doenças e a exposição ao produto.
No Mato Grosso, o Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso (MPT-MT) lidera uma das frentes contra o uso intensivo dos pesticidas. Em 2019, uma ação civil pública movida pelo MPT pediu a proibição do uso de glifosato nas lavouras do estado, incluindo a difundida pulverização aérea, para proteger a saúde dos trabalhadores rurais. A ação não prosperou, mas foi encaminhada para o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), órgão mediador da justiça. A estratégia agora é tentar a redução do uso do herbicida com a conscientização junto a entidades como a Aprosoja, que representa sojicultores.
Mais recentemente o MPT-MT entrou com uma outra ação, ainda em curso, pedindo o cancelamento do registro da atrazina, o terceiro agrotóxico mais usado no Mato Grosso. A atrazina é proibida na Europa há mais de duas décadas, após estudos mostraram sua ação sobrehormônios sexuais dos animais. Segundo o procurador do trabalho Bruno Choary Cunha de Lima, a ação observa o princípio da precaução: não se pode expor um trabalhador a um produto reconhecidamente perigoso.
Na Câmara dos Deputados, um projeto de lei do deputado Padre João (PT-MG) também pede o banimento da atrazina. No texto do PL, o deputado destaca que a substância pode trazer danos à saúde em doses muito pequenas e de não haver controle sobre a quantidade usada nas lavouras.
Além deameaçarespécies de plantas eanimaisem extinção por desregular a ação hormonal, a atrazina também está relacionada a anomalias genitais congênitas em meninos. Seus efeitos sobre as crianças se assemelham ao que ocorre nos animais, como redução da produção da testosterona, hipospádia (abertura anormal da uretra) e micropênis.
COMO ANALISAMOS O IMPACTO DOS AGROTÓXICOS NA SAÚDE DA POPULAÇÃO DO MATO GROSSO?
. A partir do cruzamento desses dados, foi mensurado o risco da ocorrência dessas condições por município, conforme a área agrícola.
. Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dadosnesta pasta.
Esta reportagem foi apoiada pelo Fundo Howard G. Buffett para Jornalistas Mulheres da International Women’s Media Foundation; e as visualizações de dados foram produzidas naUnidade de GeojornalismoInfoAmazonia, apoiada pelo Instituto Serrapilheira.
Texto: Sílvia Lisboa e Carla Ruas Análise de dados: Tatiane Moraes Visualização de dados: Carolina Passos Edição: Carolina Dantas Coordenação de dados: Thays Lavor Direção editorial: Juliana Mori
Os esforços de alguns legisladores da Califórnia para proibir o controverso herbicida paraquate terminaram esta semana com a aprovação de uma lei que mantém o produto químico em uso, mas exige uma reavaliação pelos reguladores nos próximos cinco anos.
Os defensores da proibição citaram evidências científicas que ligam o paraquate a uma série de problemas de saúde, incluindo a doença cerebral incurável conhecida como Mal de Parkinson, como uma das principais razões para proibir o uso do paraquate no estado.
No início deste ano, a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou o que foi chamado de “moratória” sobre o paraquate, que entraria em vigor em janeiro de 2026 e previa um processo que daria aos reguladores estaduais a oportunidade de reavaliar o paraquate e potencialmente reaprovar o produto químico com ou sem novas restrições.
Mas as emendas do Senado estadual eliminaram qualquer moratória ou restrição ao uso. O projeto de lei, conforme aprovado, agora exige apenas que os reguladores estaduais de agrotóxicos concluam uma reavaliação do paraquate até janeiro de 2029.
A deputada da Califórnia, Laura Friedman, disse que o fato de a legislatura ter aprovado requisitos para uma reavaliação regulatória ainda é uma vitória.
“Com a crescente evidência médica indicando que o paraquate é simplesmente muito tóxico para permanecer em uso amplo, estou muito confiante de que [os reguladores estaduais] não apenas farão uma reavaliação completa do paraquate, mas também o proibirão completamente ou colocarão maiores restrições ao seu uso”, disse Friedman em uma declaração.
“A legislatura falou alto e claro”, disse Bill Allayaud, vice-presidente de assuntos governamentais do Environmental Working Group (EWG), em umcomunicado à imprensa . O EWG foi um dos principais apoiadores do projeto de lei. “Eles querem que a ciência sobre o paraquate seja considerada agora, enquanto os trabalhadores rurais e os moradores próximos são expostos – não mais para frente.”
Houve forte oposição à proibição do paraquate. Umaanálise legislativa da lei cita uma “coalizão de oponentes, incluindo fabricantes de agrotóxicos, associações comerciais da indústria química e organizações comerciais agrícolas”, opondo-se à lei.
Os oponentes da indústria também se opõem a uma reavaliação regulatória do paraquate, dizendo que isso “constituirá um impacto fiscal significativo” sobre os reguladores estaduais que poderiam estar revisando outros produtos, de acordo com a análise.
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem até o final de setembro para assinar ou vetar a lei.
Neste verão, os legisladores estaduais aprovaram um projeto de lei relacionadoque aumenta as taxas sobre vendas de pesticidas para ajudar a financiar programas aprimorados de supervisão regulatória dentro do estado.
O paraquate tem sido usado há décadas como um herbicida amplamente utilizado. Mas um grande corpo de evidências científicas vinculou o uso crônico do produto químico à doença de Parkinson, que se tornou uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.
Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquate, Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquate e alegando que a Syngenta escondeu os riscos do público e dos reguladores.
O New Lede revelouanteriormenteque a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma “equipe SWAT” para combater as críticas.
“É simplesmente inconcebível que esse herbicida ainda exista e seja amplamente usado nos Estados Unidos”, disse o membro da Assembleia da Califórnia Rick Zbur emuma coletiva de imprensa em abril, discutindo os esforços para proibir o paraquate. “Não deveríamos pulverizar amplamente um herbicida conhecido por causar pressão alta, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença de Parkinson, leucemia infantil e câncer.”
Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada em propriedades rurais estava fortemente associada à incidência de câncer. Isso vem logo após um forte lobby da indústria de pesticidas para limitar sua responsabilidade nos processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos
Um aviso colocado na borda de um campo de aipo para indicar que o campo não era seguro para entrada pouco depois da aplicação de pesticidas no Vale de Salinas, Califórnia, no dia 7 de julho de 2023. (Jack Clark / Design Pics Editorial / Universal Images Group via Getty Images)
Por Lois Parshley, Tradução Sofia Schurig, para a “Jacobina”
Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada nas fazendas estava fortemente associada à incidência de muitos tipos de câncer — não apenas para os agricultores e suas famílias, mas para comunidades inteiras. Isso vem logo após lobby significativo da indústria de agrotóxicos na primavera para limitar sua responsabilidade por processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos.
A análise recém-lançada mostrou que “os agrotóxicos agrícolas podem aumentar seu risco para alguns tipos de câncer tanto quanto o tabagismo”, diz o coautor Isain Zapata, professor associado de pesquisa e estatísticas na Rocky Vista University, no Colorado. Por exemplo, viver em lugares com alto uso de pesticidas aumentou o risco de câncer de cólon e pâncreas em mais de 80%, resultados que surpreenderam até mesmo os pesquisadores.
“Na minha opinião, isso é loucura”, disse Zapata, acrescentando que eles não esperavam encontrar uma associação tão significativa.
A ideia para a pesquisa surgiu de um dos alunos de Zapata, um estudante de medicina que cresceu em uma fazenda. Os cientistas obtiveram dados sobre o uso de sessenta e nove pesticidas diferentes a partir de pesquisas conduzidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Eles então compararam esses dados com as taxas de incidência de câncer por condado em todo o país, utilizando bases de dados do Instituto Nacional de Saúde e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças de 2015 a 2019.
Finalmente, ajustaram a análise para outros fatores que poderiam ter contribuído, incluindo disparidades socioeconômicas. Os resultados forampublicadosna quinta-feira no jornal acadêmico Frontiers in Cancer Control and Society (Fronteiras no Controle do Câncer e na Sociedade).
Os pesquisadores afirmam que este estudo é a primeira avaliação abrangente do risco de câncer associado aos agrotóxicos em nível populacional. Zapata explicou que eles foram cuidadosos para não atribuir danos a compostos ou empresas específicas, pois na realidade as pessoas frequentemente estão expostas a múltiplos agrotóxicos, complexos “coquetéis” que podem ter impacto muito além do local onde foram aplicados originalmente. O vento pode levar resíduos dos campos ou a água da chuva pode carregar substâncias químicas para o lençol freático, ele explica.
“Pense nisso como o escapamento em uma cidade”, diz ele. “Você pode ser exposto a ele mesmo sem estar dirigindo.”
Os pesticidas são atualmente parte integrante do sistema agrícola industrializado do país: de acordo com o USDA, cerca de um bilhão de libras de agrotóxicos são usados a cada ano, em quase todos os estados do país.
A indústria argumenta que as regulamentações atuais de pesticidas são rigorosas e que o governo deveria “controlar as ervas daninhas, não a agricultura”. No entanto, trabalhadores ruraisrelataramlesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados. Enquanto isso, produtos químicos associados à infertilidadesão amplamente encontrados em alimentos como Cheerios.
“Trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados.”
O novo estudo contribui para um longodebate científico sobre quão prejudiciais os pesticidas podem ser, um corpo de pesquisa que alguns cientistas afirmam ter sido prejudicado pela indústria, retardando a regulamentação. Leland Glenna, um professor que estuda os impactos sociais e ambientais da ciência e tecnologias agrícolas na Penn State, e que não esteve envolvido no estudo da Frontiers, disse que esse tipo de análise epidemiológica é crucial porque é “difícil contestar tendências populacionais amplas”.
Frequentemente, a toxicidade dos pesticidas é determinada em estudos controlados com animais, já que existem preocupações éticas com testes de produtos químicos em pessoas. Mas expor ratos de laboratório a pesticidas não necessariamente demonstra o que essas substâncias podem fazer com seres humanos que vivem e trabalham regularmente com elas.
Para complicar ainda mais, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency – EPA), que monitora e aprova pesticidas, estuda apenas ingredientes ativos isoladamente. Eles ignoram outros ingredientes inertes que podem ainda conter substâncias nocivas como PFAS (conhecidos como “produtos químicos eternos”) e não examinam as formulações finais do produto — apesar de evidências substanciais de que a combinação de ingredientes pode torná-los mais tóxicos.
Veneno sob medida
Um dos pesticidas mais controversos em uso hoje é o glifosato, também conhecido pelo nome comercial Roundup. Sua fabricante original, a Monsanto, sediada no Missouri, foi adquirida pela empresa multinacional de biotecnologia Bayer em 2018, desenvolvendo interesse por herbicidas durante os anos 1960.
Eles foram um dos principais fabricantes doAgente Laranja, um desfolhante amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã para eliminar a cobertura vegetal para o Viet Cong, que o Exército dos EUA estava combatendo. (Cientistas levantaram preocupações sobre o Agente Laranjajá em 1965; mais tarde foi comprovadoque causava impactos severos à saúde, incluindo defeitos de nascimento e câncer. Um dos ingredientes do Agente Laranja, o2,4-D, ainda é amplamente usado como herbicida nos Estados Unidos, incluindo em produtos comuns de cuidado com o gramado.)
Após a guerra, a Monsanto desenvolveu oRoundup, que foi promovido como uma alternativa mais segura a outros herbicidas. O glifosato mata as plantas inibindo uma enzimaque as plantas usam para produzir energia. Embora os humanos não possuam essa enzima, algumas pesquisas descobriram que elacompartilha caminhoscom as bactérias intestinais, perturbando nosso microbioma. Isso pode levar à inflamação eestresse oxidativo, danificando oDNA celular.
Com o tempo, esses danos podem se acumular, desencadeando mutações que causam câncer. Mesmo em níveis muito baixos de exposição, o glifosato pode perturbar o sistema endócrino, acelerando o crescimento de tumores.
Nos anos 1990, a Monsanto começou a vender sementes geneticamente modificadas para que os agricultores pudessem pulverizar o Roundup sobre as colheitas, e apenas as ervas daninhas morressem. Quanto à toxicidade de pesticidas, diz Lori Ann Burd, diretora do programa de saúde ambiental da organização sem fins lucrativos Center for Biological Diversity, o glifosato está longe de ser o pior. Mas ela acrescenta que o veneno está na quantidade da dose. “Desenvolvemos todo um sistema agrícola em torno das culturas resistentes ao Roundup”, diz Burd, “e por causa disso, usamos uma quantidade tão absurdamente grande que está causando danos enormes”.
O glifosato é agora o agrotóxico mais usado nos EUA, com um mercado global de10 bilhões de dólares. Ele foi detectado em níveis inseguros emáguas pluviaise emmulheres grávidassem exposição conhecida. E assim como o Agente Laranja, a Monsantonegou publicamenteos riscos associados por muitos anos — mesmo quedocumentos internosda empresa mostrem que tinha razões para acreditar que o glifosato era perigoso desde pelo menos 1983.
Em umestudo de 2021, Glenna da Penn State descobriu que a Monsanto, agora de propriedade da Bayer, anteriormente tentou manipular o processo de revisão por pares científicos. Ele documentou os esforços da empresa usando e-mails internos divulgados durante um processo judicial,mostrando que a Monsanto usou autores fantasmase conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas, com o objetivo aparente de “manipular o processo regulatório para poder continuar vendendo um produto que a pesquisa da própria empresa indicava ser perigoso”.
“A Monsanto utilizou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas.”
Em resposta a um pedido de comentário, Jessica Christiansen, chefe de comunicações de ciência da colheita da Bayer, escreveu em uma declaração por e-mail: “Nós apoiamos um sistema regulatório previsível e baseado na ciência e a certeza e disponibilidade que ele proporciona aos agricultores americanos”.
Glenna explicou que tanto o público quanto os reguladores tendem a confiar em estudos revisados por pares e desconfiar de pesquisas patrocinadas por empresas. Por isso, emum e-mail, um funcionário da Monsanto explicitamente diz que o objetivo de não listar pessoas da empresa como autores é “ajudar a aumentar a credibilidade”. Outros e-mails mostram interpretações seletivas de resultados de toxicidade e mais preocupação em evitar estudos de acompanhamento do que com a segurança pública.
A EPA baseou-se nesses tipos de estudos quandoconcluiu em 2016 que o glifosato “provavelmente não é carcinogênico para os humanos” e emitiu uma decisão de reaprovaçãodo agrotóxico em 2020. Issocontradiz diretamente a pesquisadas principais autoridades globais na Organização Mundial da Saúde (OMS), que encontraram o glifosato como um provável carcinógeno em 2015. A EPA dependeu muitode estudos regulatórios não publicados, enquanto a organização de saúde internacional baseou-se principalmente em trabalhos revisados por pares.
Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito determinou que a decisão da EPA foibaseada em procedimentos defeituosos, observando que o próprio painel consultivo científico da agência havia criticado os critérios que ela utilizou. Eles exigiram que a EPA reavaliasse o pesticida; dois anos depois, isso ainda não foi feito.
Liberdade sem fiscalização
Essas revisões de registro de agrotóxico são rotineiramente atrasadas. Parte do problema, segundo Glenna, é que os reguladores precisam depender das indústrias para liberar informações toxicológicas porque estas são consideradas informações proprietárias. “[É] propriedade intelectual”, diz ele, “então cientistas de universidades ou financiados pelo público simplesmente não têm a capacidade de realizar essa pesquisa”.
Quando um agrotóxico é registrado pela primeira vez com os reguladores federais, a grande maioria das informações disponíveis sobre ele é científica e conduzida pela empresa que o fabricou. “A presunção nos EUA é a favor da segurança do produto químico”, diz Burd. Em outros lugares, como na União Europeia, “os produtos químicos não são considerados segurospor padrão; adotam uma abordagem muito mais precaucionária”.
Na verdade, de acordo com a legislação federal, a EPA só pode recusar o registro de um pesticida se seus riscos forem maiores do que os benefícios que ele proporciona, medidos pela produtividade ou qualidade das colheitas. Como resultado, cerca de um terço do uso de agrotóxicos nos EUA envolve produtos químicos proibidos na China, Brasil e União Europeia.
Há também uma porta giratória entre a agência e a indústria que regula. Alexandra Dunn,ex-administradora assistentedo Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, por exemplo, agora lideraa CropLife America, o principal grupo de lobby da indústria de pesticidas. Ela é apenas a mais recente; desde 1974, todos os diretores do escritório passaram a trabalhar para empresas de agrotóxicos.
Esta influência da indústria dentro da agência é exacerbada pelo fato de que cerca de 40%do financiamento do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA vem de taxas de registro — pagas pelas próprias empresas.
“O Projeto 2025 deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam ‘baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos’.”
Monsanto descreveu a maneira como aproveitou esse ambiente regulatório como “Liberdade para Operar”, um princípio operacional que definiu eme-mails internos da empresacomo “as ações regulatórias, técnicas, de marketing e comunicação para estabelecer um ambiente mais favorável para garantir as autorizações de nossos produtos e tecnologias”.
Essas ações incluíram premiar funcionáriospor defender a empresa após a designação do Roundup como cancerígenos pela OMS, e manipular relatórios deexposição no local de trabalhode funcionários doentes.
Os reguladores podem em breve estar dando um passo adicional para trás. O Projeto 2025, um relatório de políticas conservadoras desenvolvido porinteresses corporativos para moldar uma futura administração de Donald Trump, afirma que os programas da EPA “são constantemente pressionados para banir o uso de certos produtos químicos, geralmente baseados no medo como resultado de ciência mal caracterizada ou incompleta”. Ele deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam “baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos”.
Em última análise, ele advoga que “[os] agricultores e o sistema alimentar devem estar livres de qualquer intervenção governamental desnecessária” e que os reguladores agrícolas deveriam priorizar “a liberdade pessoal, a propriedade privada e o Estado de Direito”.
Ameaça existencial
Embora a Bayer insista que o produto que herdou de sua fusão de 2018 com a Monsanto é seguro, enfrenta mais de170.000 processos judiciaisrelacionados ao glifosato, mesmo após um acordo de $10 bilhões em 2020 com milhares de vítimas que afirmam que o pesticida causou suas doenças. Nesta primavera, a gigante de biotecnologia tem feitolobby no Congressopara restringir sua responsabilidade por processos judiciais relacionados à exposição ao glifosato, incluindo o trabalho para redigir uma linguagem sobre o assunto no próximo projeto de lei agrícola.
Segundo oWashington Post, os deputados Dusty Johnson (R-SD) e Jim Costa (D-CA) trabalharam em estreita colaboração com a empresa para redigir a medida que impede futuros pagamentos por processos judiciais relacionados ao glifosato, que foi posteriormente adicionada ao projeto de lei agrícola, responsável por definir a política agrícola do país a cada cinco anos e previsto para votação neste outono. O comitê de ação política da empresatambém contribuiupara as campanhas de Johnson e Costa por várias eleições.
Durante um discurso em uma conferência nesta primavera, o CEO da Bayer, Bill Anderson,chamou a potencial responsabilidade legal pelos impactos à saúde de seus pesticidas de uma “ameaça existencial”. Agora, estáconsiderandousar uma estratégia chamada “Texas two-step“. Nesse movimento legal, uma empresa se divide em duas, sendo que uma metade mantém os ativos e a outra os passivos. Esta última então entra com pedido de falência, forçando as pessoas que buscam compensação a entrar na justiça de falências, o que frequentemente resulta em acordos adiados ou menores.
Além de seu lobby federal, a Bayer intensificou seus esforços de lobbyestado por estado. Ela forneceu linguagem semelhante para projetos de lei apresentados este ano em Missouri, Flórida, Idaho eIowa, que protegeriam as empresas de pesticidas de futuros processos judiciais relacionados ao glifosato, em parte excluindo essas empresas dos requisitos estaduais de informação sobre seus potenciais perigos ou riscos.
Em sua declaração ao Lever, Christiansen da Bayer escreveu que o “apoio da empresa a legislações como essa, tanto em nível federal quanto estadual, ajuda a proteger a integridade do processo regulatório e garante que as conclusões minuciosas e baseadas cientificamente da EPA sejam a base para os rótulos de proteção de cultivos”.
Em Idaho, o vice-presidente de assuntos governamentais estaduais e locais da Bayer apresentou pessoalmente o projeto de lei que a empresa esperava aprovar em um comitê do Senado. Para angariar apoio ao projeto de lei, a empresa aumentou seus gastos no estado, gastando mais de US$8.000 e empregando pelo menos três pessoas. Ela veiculou anúncios em jornais locais proclamando: “Apoie os Agricultores de Idaho, Não Advogados de Julgamento”. A Bayer também criou uma coalizão multiestadual chamadaModern Ag Alliance, afirmando que oitocentos empregos em Idaho estão ligados à produção de glifosato, juntamente com quinhentos em Iowa.
As iniciativas legislativas foram derrotadas em Idaho e Flórida, mas passaram pelo Senado estadual em Iowa e ainda estão tramitando na casa legislativa de Missouri.
Essas táticas fazem parte doplano de cinco partesda empresa para lidar com sua responsabilidade, o qual está sendo usado para tranquilizaracionistas preocupados. Segundo documentos da empresa, o primeiro passo é “buscar uma decisão positiva da Suprema Corte dos EUA”.
Assim como em seus projetos de lei estaduais propostos, a empresa argumenta que, como a EPA até agora concluiu que o glifosato não causa câncer e não exige um rótulo de aviso, as leis estaduais de falha em avisar devem ser preteridas. Eles entraram com duas ações judiciais federais com esse objetivo, que atualmente estão em tramitação nos tribunais.
Burd diz que não está surpresa com as manobras da Bayer, mas “o que é decepcionante é que há tantos legisladores dispostos a apoiá-las”.
Embora o glifosato tenha um perfil alto, Zapata, da Rocky Vista University, diz que o problema final é muito mais complexo do que apenas um pesticida, ou mesmo uma empresa tão influente como a Bayer.
“O fato de não ouvirmos sobre outras coisas não significa que não seja um problema”, ele diz. É por isso que seu estudo recente tentou capturar o quadro geral de como, coletivamente, esses compostos estão de fato influenciando a saúde das pessoas.
Ele afirma que suas motivações são apolíticas — e que há muita responsabilidade a ser compartilhada. “Se queremos ir ao supermercado e comprar tomates baratos, provavelmente eles serão produzidos usando um sistema muito industrializado”, ele diz.
Ao mesmo tempo, ele reconhece que divulgar esse tipo de risco tem um valor econômico e ético. “Se você compra terra em uma área com alta capacidade agrícola, está assumindo também parte desse risco”, ele explica. E as pessoas que têm a capacidade de escolher viver em outro lugar, ou que têm recursos suficientes para não precisar trabalhar em empregos mal remunerados com maior exposição, estão simplesmenteterceirizando esse perigo.
“Se você não mora naquele lugar, outra pessoa terá que morar”, diz Zapata.
Você pode se inscrever no projeto de jornalismo investigativo de David Sirota, o Lever, aqui.
Sobre a autora: Lois Parshley é uma jornalista investigativa premiada. Seu trabalho já foi publicado na New Yorker, no New York Times, na Harper’s, National Geographic e mais.
Pessoas que não cultivam, mas vivem em comunidades agrícolas dos EUA onde agrotóxicos são usados nas fazendas, enfrentam um risco maior de câncer, tão significativo quanto se fossem fumantes, de acordo com um novo estudo.
Oestudo, publicado em 25 de julho no periódico Frontiers in Cancer Control and Society , analisou dados de incidência de câncer de quase todos os condados dos EUA e observou como esses dados correspondiam aos dados federais sobre o uso de agrotóxicos . Os pesquisadores relataram que descobriram que quanto maior o uso de agrotóxicos, maior o risco para cada tipo de câncer que os pesquisadores analisaram.
“O uso de agrotóxicos tem um impacto significativo em todos os tipos de câncer avaliados neste estudo (todos os cânceres, câncer de bexiga, câncer de cólon, leucemia, câncer de pulmão, linfoma não-Hodgkin e câncer de pâncreas); e essas associações são mais evidentes em regiões com alta produtividade agrícola”, afirma o estudo.
“Cânceres associados a agrotóxicos parecem estar no mesmo nível de vários tipos de câncer associados ao tabagismo”, afirma o estudo. Está bem estabelecido que fumar aumenta o risco de câncer, com pelo menos de 70dos milhares de produtos químicos na fumaça do tabaco considerados cancerígenos.
As descobertas se somam a uma riqueza de pesquisas sobre pesticidas e riscos à saúde humana que apontam para deficiências nas regulamentações de pesticidas dos EUA, disse Dana Barr, pesquisadora de saúde ambiental da Universidade Emory que não estava envolvida no estudo.
“No momento, não acho que as regulamentações para agrotóxicos sejam as mais protetoras da saúde, e elas parecem presumir que um produto químico é seguro até que seja provado que é tóxico, e não o contrário”, disse ela. “Acho que precisamos de uma reforma política que coloque o ônus sobre os fabricantes para fazer um trabalho melhor de avaliação da segurança antes de permitir novos registros.”
Os autores disseram que analisaram dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS) disponíveis para 69 pesticidas em milhares de condados, juntamente com dados sobre câncer dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e dos Centros de Controle de Doenças (CDC).
“Ingenuamente, pensamos que algumas das taxas de [risco] de câncer não seriam afetadas”, disse Isain Zapata, professor associado da Rocky Vista University, College of Osteopathic Medicine no Colorado e um dos autores do estudo. “Foi aí que encontramos nossa surpresa”, disse ele.
“Falamos sobre pesticidas serem ruins, temos exemplos de agrotóxicos específicos tendo alguns efeitos muito extremos”, disse Zapata. Mas isso não afeta apenas pessoas que são expostas diretamente enquanto trabalham com [pesticidas].”
Além dos agricultores
Pesquisas anteriores associaram agrotóxicos a vários tipos de câncer.
O glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup e o herbicida mais utilizado no mundo, foi classificado como um provável carcinógeno humano pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).
Mais de100.000 demandantesprocessaram a Monsanto e sua proprietária Bayer AG alegando que a exposição ao Roundup e produtos relacionados os fez desenvolver NHL. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) afirma que não há evidências de que o glifosato cause câncer em humanos.
Dicamba, um ingrediente ativo em vários outros herbicidas populares, foi associado a vários tipos de câncer em umestudo do NIH de 2020. Em fevereiro, um juiz federal no Arizona proibiu três herbicidas à base de dicamba feitos pela Bayer, BASF e Syngenta e decidiu que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) violou a lei ao permitir seu uso.
O novo estudo publicado hoje não faz parte doAgricultural Health Studyde longa duração , que é uma colaboração do National Cancer Institute, do National Institute of Environmental Health Sciences e da EPA. Desde 1993, o AHS estuda câncer e outros resultados de saúde em 89.000 fazendeiros licenciados para pulverizar pesticidas na Carolina do Norte e Iowa, bem como em seus cônjuges.
Em 2022, um estudo da AHSdescobriumaiores taxas de câncer renal em agricultores que usavam frequentemente certos agrotóxicos , incluindo clorpirifós, paraquate e atrazina, bem como maiores taxas de câncer de tireoide em agricultores que pulverizavam o inseticida lindano e naqueles que usavam o fungicida metalaxil.
Mas, embora o Estudo de Saúde Agrícola tenha feito muitas contribuições ao conhecimento sobre a ligação entre pesticidas e câncer em agricultores, ele não leva em consideração as pessoas que vivem em áreas agrícolas, mas não cultivam.
“Nosso estudo visa preencher essa lacuna”, afirma a nova avaliação.
“Poucas áreas poupadas”
Para entender o quanto o uso de agrotóxicos contribui para o risco de câncer em diferentes regiões dos EUA, Zapata e colegas primeiro executaram uma análise estatística para mapear padrões de uso de pesticidas agrícolas nos EUA usando dados de nível de condado do USGS. Em seguida, eles usaram dados do CDC e do NIH para determinar como esses padrões de uso de agrotóxicos correspondiam às incidências de câncer.
Eles observaram o maior risco elevado em estados conhecidos pela alta produção de milho, incluindo o principal estado produtor de milho dos EUA, Iowa, juntamente com Illinois, Nebraska, Missouri, Indiana e Ohio.
O estudo observou, no entanto, que os efeitos da exposição a agrotóxicos estavam “espalhados por todo o país, com poucas áreas poupadas”.
Embora os estudos tenham se concentrado no uso de agrotóxicos como um todo, eles também descobriram que alguns produtos químicos específicos contribuíram mais para o risco de câncer de um condado do que outros. Por exemplo, riscos maiores de câncer de cólon e pâncreas foram encontrados em regiões onde o dicamba era popular, enquanto riscos maiores de câncer em geral, bem como câncer de cólon e pâncreas, especificamente, foram observados em regiões onde o glifosato era amplamente usado.
“Precisamos educar as pessoas”, disse Zapata. “Precisamos continuar fazendo pesquisas para termos melhores maneiras de usar esses produtos ou avaliar os efeitos desses produtos.”
A campanha da Associação AGROLINK para proibir herbicidas à base de glifosato na Bulgária, iniciada há 7 anos, terminou com sucesso. O uso de glifosato agora é proibido em áreas usadas pelo público em geral ou por grupos vulneráveis: parques e jardins públicos, campos esportivos e recreativos, escolas e playgrounds infantis, bem como perto de instalações de saúde e educacionais,informou o GMWatch.
A categoria de herbicidas à base de glifosato (GBH) na Bulgária foi alterada de não profissional para somente profissional, o que significa que somente distribuidores, consultores e usuários profissionais que possuam um certificado emitido pela Agência Búlgara de Segurança Alimentar (BFSA) podem comprar e usar glifosato.
A BFSA emitiu ordens sobre herbicidas à base de glifosato publicadas no site da agência e todos os fabricantes e comerciantes são obrigados a mudar a maneira como os usam. Eles são:
Não deve ser usado por usuários não profissionais – todos os produtos à base de glifosato devem ser categorizados na categoria de uso profissional;
Não deve ser aprovado para pulverização aérea;
Não ser aprovado para uso como dessecante ou desfolhante antes da colheita de culturas agrícolas;
Não deve ser utilizado para tratamento de cursos de água;
Não deve ser aplicado a áreas utilizadas pelo público em geral ou por grupos vulneráveis, como parques e jardins públicos, campos esportivos e recreativos, escolas e parques infantis, e nas imediações de instalações de saúde e educação;
Não deve ser aplicado em áreas protegidas designadas pela Lei de Áreas Protegidas; áreas protegidas que fazem parte da rede ecológica europeia Natura 2000 designadas pela Lei da Biodiversidade.
A Dra. Svetla Nikolova, iniciadora da campanha, disse: “Após a decisão da Comissão Europeia de estender o uso do glifosato na UE por mais 10 anos, a ação do ministério búlgaro é um bom passo para reduzir o uso deste herbicida perigoso, que está causando danos catastróficos à saúde humana, à biodiversidade, ao solo e à água.”
A AGROLINK disse em um comunicado à imprensa: “A Associação AGROLINK e outras organizações continuarão a trabalhar em conjunto com cientistas e especialistas para educar municípios, jardineiros, arquitetos paisagistas, cidadãos e agricultores na implementação de práticas alternativas para reduzir o uso de agrotóxicos não apenas em áreas sensíveis, como parques, jardins, escolas, mas também em áreas agrícolas.
A Associação AGROLINK, juntamente com cientistas e médicos, trabalhará pelo reconhecimento do Parkinson como uma doença ocupacional para agricultores que trabalham com glifosato e sua compensação pelo estado. Apoiamos o processo da PAN Europe contra a Comissão Europeia para permitir que o glifosato, o herbicida mais amplamente utilizado na Europa e no mundo, amplamente conhecido pelo produto Roundup, continue por mais 10 anos. Esperamos que a primeira cidade livre de pesticidas na Bulgária seja em breve declarada parte da Rede Europeia de Cidades Livres de Agrotóxicos.”
Os alimentos estavam armazenados em residências de Ribeirão Preto e seriam consumidos por famílias participantes de pesquisa. Estudo é o primeiro do Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta
A exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes (foto: André Borges/Agência Brasil)
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP
Ao analisar amostras de farinha e de arroz armazenadas em residências de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) constataram a presença de altas quantidades de toxinas fúngicas (micotoxinas). Os resultados do estudo, que contou com apoioda FAPESP, foram divulgados no periódico Food Research International.
Como destacam os autores, a exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes. Os dados reforçam, portanto, a importância de armazenar alimentos como grãos e farinhas em locais secos e protegidos de insetos para evitar o risco de contaminação.
“Todos os microrganismos, incluindo os fungos, necessitam do chamado ‘binômio temperatura e tempo’ para se desenvolver em um substrato. Portanto, quanto mais tempo um alimento contendo fungos toxigênicos ficar armazenado em condições inadequadas, por exemplo, exposto ao ambiente, desprotegido, em local quente e úmido, maior a probabilidade de haver altas concentrações de micotoxinas”, afirma Carlos Augusto Fernandes de Oliveira, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), no campus de Pirassununga, e coordenador do estudo.
Segundo o pesquisador, existem mais de 400 toxinas que os fungos produzem para se defender ou interagir com outros organismos. “Seis dessas substâncias, as quais chamamos de meninas superpoderosas, requerem mais atenção por serem carcinogênicas, imunossupressoras ou por atuarem como disruptores endócrinos [causarem alteração no equilíbrio hormonal do organismo]. É algo que demanda muita atenção pelos seus efeitos prejudiciais à saúde”, destaca.
Em todas as amostras analisadas foram encontradas as seis toxinas de preocupação: aflatoxinas (AFs), fumonisinas (FBs), zearalenona (ZEN), toxina T-2, desoxinivalenol (DON) e ocratoxina A (OTA). No caso das micotoxinas FBs, ZEN e DON as taxas estavam acima do limite de tolerância estabelecido pelos órgãos de saúde. Este estudo foi o primeiro no Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta de crianças e adolescentes.
Oliveira explica que a aflatoxina B1, descoberta na década de 1960, é o mais potente carcinógeno natural conhecido. A substância lesa o DNA dos animais, provocando mutações genéticas que podem levar ao desenvolvimento de carcinoma hepático. Há ainda outros efeitos, como imunossupressão, problemas reprodutivos e teratogênese (quando gestantes ou pessoas em amamentação transferem as toxinas para o embrião, feto ou criança, causando problemas de saúde).
“Não existe nenhuma substância conhecida pelo homem na natureza que tenha o poder cancerígeno dessa micotoxina, só raras exceções criadas em laboratório, como, por exemplo, dioxinas”, conta o pesquisador.
Já a desoxinivalenol, encontrada em altas taxas nas amostras analisadas, embora não seja carcinogênica, pode reduzir a imunidade de pessoas contaminadas. “Ela também tem efeito no sistema gastrointestinal. Nos animais, por exemplo, ela provoca tanta irritação que eles regurgitam. Por isso, ela é vulgarmente chamada de vomitoxina”, diz.
A fumonisina B1 é considerada um possível carcinógeno humano, podendo causar câncer esofágico e outros problemas hepatotóxicos, assim como a ocratoxina A, outro potencial carcinógeno. Já a zearalenona, encontrada em taxas elevadas nas amostras de alimento analisadas, possui uma estrutura idêntica à do hormônio feminino estrógeno, podendo produzir problemas relacionados ao excesso de estrógeno no organismo (hiperestrogenismo).
“São, portanto, toxinas com repercussões pesadas. Diferentemente do chumbo ou de outros contaminantes químicos, como o bisfenol [encontrado em alguns materiais plásticos], essas micotoxinas não são cumulativas. No entanto, elas têm efeito progressivo. Isso quer dizer, por exemplo, que, com a exposição a moléculas de B1, em algum momento não será mais possível reparar o DNA que foi lesado pela micotoxina. É a partir daí que pode surgir o câncer. Por isso, a nossa preocupação com crianças e adolescentes, que tendem a ser mais sensíveis a toxinas em geral”, afirma.
As análises foram realizadas por cromatografia líquida de ultraeficiência acoplada à espectrometria de massa em tandem (UPLC-MS/MS, método que permite discriminar diferentes substâncias em uma mistura com base no peso molecular). As 230 amostras de alimentos analisadas estavam disponíveis para consumo nos domicílios de 67 crianças, incluindo 21 pré-escolares (3 a 6 anos), 15 escolares (7 a 10 anos) e 31 adolescentes (11 a 17 anos).
O grupo está realizando uma segunda etapa do trabalho para identificar mais a fundo o grau de contaminação. Amostras de urina das crianças e adolescentes foram coletadas e os pesquisadores estão em fase de análise do resultado do material.
“A partir da análise de biomarcadores encontrados na urina é possível avaliar a exposição a micotoxinas, uma vez que a excreção de biomarcadores se correlaciona bem com a ingestão de algumas micotoxinas. Com isso poderemos antever potenciais efeitos da contaminação”, adianta Oliveira à Agência FAPESP.
Um tribunal de apelações do Oregon anulou na quarta-feira uma vitória judicial da proprietária da Monsanto, a Bayer AG, em uma decisão que se soma a um debate em andamento sobre os esforços da empresa para criar uma proteção legal e legislativa nacional contra ações judiciais alegando que o herbicida Roundup causa câncer.
Otribunal concluiuque o juiz de primeira instância no caso proibiu indevidamente que evidências importantes sobre a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) fossem apresentadas ao júri, o que poderia ter levado o júri a decidir em favor do reclamante. E, notavelmente, o tribunal rejeitou argumentos da empresa de que alegações sobre os perigos de seus produtos deveriam ser proibidas porque esses produtos carregam o selo de aprovação da EPA.
Outros tribunais rejeitaram de forma semelhante os chamados argumentos de “preempção” da Bayer, que comprou a Monsanto em 2018. Mas, depois de não conseguir apoio judicial, a Bayer tem pressionado os legisladores estaduais e federais a darem a ela e a outros fabricantes de agrotóxicos a proteção que os tribunais rejeitaram. Uma medida proposta está sendo considerada pelos legisladores para inclusão no US Farm Bill. A Bayer/Monsanto argumentou sem sucesso ao tribunal de apelações que o caso nunca deveria ter ido a um júri porque as alegações deveriam ter sido preemptivas.
Em uma declaração emitida após a decisão, a Bayer disse que discordava da decisão do tribunal e estava considerando suas opções legais. “Continuamos confiantes de que o Roundup não foi responsável pelos supostos ferimentos neste caso com base no peso esmagador de pesquisas científicas e avaliações de reguladores de saúde e cientistas líderes em todo o mundo, incluindo a EPA e a União Europeia, que apoiam a segurança de produtos à base de glifosato”, disse a empresa na declaração. A Bayer disse que “alcançou resultados favoráveis em 13 dos últimos 19 julgamentos, incluindo os últimos quatro, e resolveu a esmagadora maioria das reivindicações neste litígio.
O advogado Andrew Kirkendall, que representou o autor no caso, disse que acolheu a decisão do tribunal e estava ansioso para julgar novamente o caso com as evidências sobre a EPA incluídas.
“Não é inofensivo”
O depoimento que o juiz de primeira instância se recusou a permitir deveria ter vindo de Charles Benbrook, um ex-professor pesquisador que serviu como diretor executivo do conselho de agricultura da Academia Nacional de Ciências. Benbrook é autor de artigoscríticos sobre o tratamento da EPA com os herbicidas de glifosato, observando que a agência deu pouco peso à pesquisa independente sobre os produtos realmente vendidos no mercado e usados por milhões de pessoas ao redor do mundo. Em vez disso, a EPA se baseou principalmente em estudos pagos pela Monsanto e outras empresas que vendem herbicidas de glifosato que não encontraram preocupações com câncer.
“Há uma nova ciência importante para compartilhar com o júri que esclarece por que e como o Roundup pode causar câncer”, disse Benbrook esta semana após saber da decisão do tribunal.
Excluir o depoimento de Benbrook foi um erro que “não foi inofensivo”, disse o tribunal de apelação em sua decisão.
“A Bayer/Monsanto se defendeu alegando que cumpria os regulamentos da EPA, e o depoimento do Dr. Benbrook teria ajudado o júri a entender a estrutura regulatória aplicável — o que a EPA faz e não faz, o que fabricantes como a Monsanto são obrigados a fazer, etc. Como o Dr. Benbrook foi excluído, nenhuma testemunha do reclamante abordou a estrutura regulatória. Tal depoimento teria sido relevante para a teoria do caso do Autor e qualitativamente diferente das outras evidências apresentadas”, concluiu o tribunal de apelação do Oregon.
A Bayer disse em sua declaração pós-decisão que continua a acreditar que a exclusão de Benbrook foi apropriada. A Bayer “não acredita que ele esteja qualificado para testemunhar sobre questões científicas ou o processo regulatório da EPA”, disse a empresa.
O tratamento dado pela EPA à Monsanto e seus produtos de glifosato tem sido alvo de muita análise nos últimos anos, já que documentos internos revelaram muitas interações questionáveis e negócios secretos que, segundo os críticos, minam a credibilidade da supervisão da agência.
Em 2022, um tribunal federal concluiuque a EPA não seguiu as diretrizes estabelecidas para determinar o risco de câncer, ignorou estudos importantes e desconsiderou o aconselhamento especializado de um painel consultivo científico em sua supervisão do glifosato.
Questão de preempção
O caso no cerne da nova decisão é apenas um dosmais de 100.000movidos em tribunais dos EUA por pessoas que alegam que seu uso de herbicidas da Monsanto feitos com um produto químico chamado glifosato fez com que desenvolvessem linfoma não-Hodgkin (NHL). O litígio começou depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) classificou o glifosatocomo um provável carcinógeno humano, encontrando evidências “fortes” de genotoxicidade e uma “associação estatisticamente significativa entre linfoma não-Hodgkin e exposição ao glifosato”.
Nos últimos anos, a Bayer foi condenada por júris — ou acordada em acordos — a pagar bilhões de dólares em danos a muitos dos demandantes.
Mas a empresa também ganhou vários casos em julgamento, incluindo o caso do Oregon que é o assunto da decisão desta semana. O autor nesse caso é o morador do Oregon, Larry Johnson, que começou a usar Roundup à base de glifosato na década de 1990 para matar ervas daninhas ao redor de sua casa. Johnson continuou usando Roundup por mais de 20 anos até ser diagnosticado com NHL em 2019, de acordo com o processo.
Johnson alegou, assim como outros demandantes no litígio Roundup em andamento, que a Monsanto sabia há muito tempo de estudos científicos conectando seus herbicidas à base de glifosato ao câncer e deveria ter alertado os clientes sobre os riscos. Os processos alegam que a Monsanto se envolveu em uma série de atividades fraudulentas para ocultar evidências da conexão com o câncer, incluindo estudos de ghostwriting para perpetuar suas alegações de que os produtos são seguros e se envolver em negociações secretas com a EPA para proteger sua capacidade de vender produtos à base de glifosato.
A Monsanto cita a determinação da EPA de que o glifosato “não é provável” que cause câncer em sua defesa e afirma que a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Raticidas (FIFRA) prevalece sobre as alegações da lei estadual porque a EPA aprovou os rótulos do Roundup e de outros produtos com glifosato sem a necessidade de um aviso sobre câncer.
Mas o tribunal de apelações foi o mais recente de vários tribunais a rejeitar esse argumento da Bayer/Monsanto.
A Bayer/Monsanto “confia na aprovação da EPA do selo Roundup e afirma que essa aprovação – que não inclui um aviso sobre câncer – preempta as alegações do autor”, afirma o tribunal em sua decisão. “Mas, em nossa opinião a aprovação da EPA de um selo sob a FIFRA não preempta as alegações da lei estadual.” A FIFRA permite especificamente que os estados tenham um papel na regulamentação de pesticidas para produtos vendidos dentro de seus limites, a menos que o uso do produto seja proibido pela FIFRA, disse o tribunal.
O tribunal observou que, juntamente com a proibição do testemunho de Benbrook, o juiz de primeira instância – a pedido da Monsanto – instruiu especificamente o júri do caso a levar em conta a supervisão da EPA. O tribunal ordenou que a vitória do julgamento para a Monsanto fosse “revertida e reenviada”.
Um novo julgamento não é automaticamente acionado pela decisão – a proprietária da Monsanto, Bayer, pode pedir reconsideração pelo tribunal de apelação e pode buscar uma revisão pela Suprema Corte do Oregon. Mas Kirkendall disse que estava confiante de que seu cliente teria outro dia no tribunal.
“Assim que superarmos esses obstáculos, o Sr. Johnson terá um novo julgamento”, disse ele.
Especialistas de todo o país discutem avanços científicos no combate ao câncer de mama e avaliam políticas públicas para melhorar acesso da população à prevenção e tratamento
O Rio de Janeiro volta a ser palco de debate de novas soluções e técnicas no tratamento do câncer de mama, além de medidas efetivas que possam potencializar a estrutura já existente no atendimento público às mulheres. Trata-se do SIM Rio – Simpósio Internacional de Mastologia, evento tradicional na Cidade e no país e que chega a sua 13ª edição, a partir desta quinta-feira, 20/06.
De acordo com a Dra. Maria Julia Calas, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – regional Rio de Janeiro, a entidade tem um olhar contínuo na busca por melhorias para o acesso das mulheres à prevenção do câncer de mama e, principalmente, ao tratamento para quem já recebeu o diagnóstico. Por isso, neste ano o evento contará com o “Fórum para todos”, no qual mulheres da sociedade civil poderão discutir com os médicos o tema central de tratamento e qualidade de vida. “Devido a limitação de espaço, abrimos 50 vagas para que diferentes mulheres com histórias distintas, diagnosticadas ou não, possam obter mais informações, e, fundamentalmente, compartilhar as suas histórias, mostrando suas dificuldades de acesso a exames e tratamento. Essa troca é enriquecedora e nos ajuda na identificação da realidade vivida por elas e, consequentemente, na necessidade de novas diretrizes em termos de políticas públicas”, afirma a presidente.
A especialista destaca também alguns temas polêmicos na sociedade, mas que é de suma importância para quem está no tratamento do câncer de mama, como o uso da cannabis no tratamento oncológico, os efeitos da hormonioterapia e, sobretudo, como as pacientes são fundamentais como agentes de mudança, ou seja, no impacto das políticas de saúde. “Nosso objetivo no Fórum é proporcionar para elas e com elas reflexões e entendimentos sobre esse tema complexo. Se de um lado o nosso SUS é uma referência mundial, por outro sabemos que há muitos gargalos, como o acesso não tão ágil aos exames preventivos, como a mamografia, e, principalmente, no tratamento das mulheres diagnosticadas”, esclarece, lembrando que há lei em vigor no Brasil que garante as mulheres o início do tratamento do câncer em até 60 dias após o diagnóstico, o que nem sempre acontece.
O SIM Rio acontece entre os dias 20 e 22, no Prodigy Hotel, no Aeroporto Santos Dumont, e reunirá cerca de 500 especialistas, entre mastologistas, oncologistas, ginecologistas, radiologistas, entre outros, abordando também temas relevantes do conteúdo científico e novos estudos, inclusive com palestrantes internacionais.