Refugiados ambientais

Por Fernando Safatle

Não sou catastrofista. Todavia não é possível ser tão ingênuo ao ponto de não enxergar as mudanças climáticas que estão ocorrendo e a crise hídrica que esta acontecendo com consequências dramáticas. As mudanças climáticas não são ocorrências que irão acontecer no amanhã. Não. Há que reconhecer: são fenômenos que já estão acontecendo agora. A duração do tempo de estiagem esta aumentando e a duração do período chuvoso esta diminuindo. Isto é fato. Tanto é assim, que o ciclo de plantio da soja no Centro-Oeste esta se modificando.

Ninguém podia imaginar que um dia poderia faltar água na região metropolitana de São Paulo. Durante séculos, a crise hídrica era fenômeno natural exclusivo da região do nordeste. São Paulo era sinônimo de abundancia de água e terras férteis: o Eldorado dos nordestinos. Era para lá que se direcionava o fluxo migratório dos flagelados pela seca. Hoje, em pleno período chuvoso, a represa de Cantareira, responsável por abastecer uma população estimada em 6,5 milhões de pessoas na capital paulista está com um volume de apenas 5,1% de sua capacidade, prestes a sofrer um colapso, ou seja, simplesmente secar.

Em levantamento feito pelo Estadão o sistema Cantareira atinge o pior nível de capacidade no mês de agosto, quando entramos no período critico da estiagem. Nesse mês, a vazão media do sistema historicamente calculado baixa para 21,24%. No ano de 1953, quando foi registrado a pior seca o nível em agosto alcançou 14,19%. Agora, em 2014, o nível caiu para 6,28 e, em janeiro de 2015, 5,1%. Ou seja, nunca o sistema da Cantareira baixou em tamanha proporção seu nível.

A crise hídrica não é exclusividade de São Paulo, atinge o sudeste como um todo, abrangendo Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Das quatro represas que abastecem de água e fornece energia ao Rio de Janeiro, São Paulo e Minas três já estão captando no volume morto: Paraibuna, Santa Marta e Funil.

Para se recompor em níveis que possa garantir o abastecimento de água seria necessário que a estação chuvosa no período de fevereiro-marco  fique acima da media histórica de 60% a 80% a mais. Diante do quadro atual é praticamente impossível disso acontecer.

O que se pergunta nessas circunstancia é o seguinte: o que vai acontecer quando se encerrar o período chuvoso e entrarmos, depois de abril, no inicio da estiagem? Se em pleno período de chuvas as represas não elevam a sua capacidade, ao contrario, diminuindo ao ponto de atingir o volume morto o que se pode esperar no período de estiagem? Certamente, o pior ainda esta por vir.

Diante desse quadro gravíssimo nenhuma autoridade responsável seja do governo estadual seja do governo federal vem a publico explicar para a população o que realmente esta acontecendo, quais são as causas de tudo isso e quais são as medidas que se tem que adotar a curto, médio e longo prazo. O que se vê é um comportamento de desfaçatez e desonesto, que procura tirar qualquer responsabilidade diante do que esta acontecendo, como se a culpa fosse exclusivamente da falta de chuvas. Repete-se aqui, como em todos os outros casos flagrados de corrupção, apesar das impressões digitais e tudo, de procurar se eximirem de qualquer culpa negando ad nauseiam suas responsabilidades. Lamentavelmente, gestou se uma casta política, independente do partido que ocupa o poder, que se pauta pela mediocridade e uma espetacular incompetência na gestão da administração publica. Não conseguem dar a mínima transparência de suas ações e muito menos planejar uma administração que consiga dar respostas concretas aos problemas que elas próprias geraram. A combinação perversa da desonestidade e da incompetência produz a catástrofe. O que esta acontecendo com as mudanças climáticas e com a crise hídrica é a face mais exposta desta combinação explosiva, que pode ter consequências trágicas para a população.

O cientista Antonio Donato Nobre mundialmente conhecido como pesquisador do INPE(Institui to Nacional de Pesquisa Espaciais) deu um depoimento extremamente esclarecedor sobre as causas e consequências do que esta acontecendo com as mudanças climáticas.

Segundo ele, foram desmatados na Amazônia durante os últimos 40 anos, 42 bilhões de arvores, o que equivale a três São Paulo e duas Alemanha. Evidentemente que tudo isso não se fez sem consequências trágicas para o clima do planeta. Apesar de muitos asseclas que circulam nas altas esferas do poder afirmar o contrario (resultado disso foi à atitude da Dilma em não assinar o compromisso de desmatamento zero em 2030 na reunião da ONU) , segundo Nobre, a Amazônia realmente condiciona o clima. O desmatamento muda o clima. A região amazônica funciona como uma verdadeira usina de serviços ambientais. Para corroborar com sua tese ele afirma que cientificamente esta provada que uma arvore da Amazônia com uma copa de 10 metros de raio coloca mais de mil litros de água por dia, via transpiração. Ora, o calculo que faz é de que se considerarmos o território da região amazônico com uma área de cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrado, teríamos, portanto, um volume de 20 bilhões de toneladas de água que a floresta transpira diariamente. O rio Amazonas despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia no oceano. Assim, Nobre chega a estonteante conclusão de que a floresta amazônica gera um fluxo de vapor maior do que o do rio Amazonas. O ar que circula pelo continente adentra vai recebendo o fluxo de vapor da transpiração da floresta e da evaporação da água do oceano agregando outros fatores precipita as chuvas.

Dessa forma o desmatamento não causa um problema somente em relação ao CO2 como também causa destruição no sistema de condicionamento climático local. A conclusão da tese de Nobre é estarrecedora: o estrago já foi feito é irreversível mesmo se adotasse o desmatamento zero. A única maneira de mitigar a tragédia é partir para um esforço de guerra realizando um programa massivo de reflorestamento, replantando florestas e recompondo ecossistemas.

Alguns anos atrás tive oportunidade de ler uma entrevista do ministro do meio ambiente da China na revista alemã Dier Spiegel onde ele alertava da possibilidade da região nordeste da China produzir um fenômeno inaudito, por conta da exploração intensiva do solo que estava provocando sua desertificação: os refugiados ambientais. Segundo seu alerta esta região poderia provocar um êxodo de mais de 200 milhões de chineses. Fiquei imaginando as consequências catastróficas de fenômeno dessa natureza e não passava nunca pela minha cabeça que um dia pudéssemos aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, imaginar que poderíamos estar na eminência de termos um fenômeno semelhante: refugiados ambientais, fugindo da falta d’água, em uma região que outrora foi palco da abundancia de recursos naturais e que agora são vitimas da incompetência generalizada dos governos estadual e federal. Somado a tudo isso ainda tem o apagão energético causado pela falta d’água. Repito, não sou catastrofista, ate quando, não sei.

Fernando Safatle- Economista- Fernando.safatle@gmail.com

Água: vão evacuar São Paulo?

Por Roberto Malvezzi*

A penúria hídrica nesse momento atinge várias regiões do Brasil. As piores são o São Francisco e a população paulistana, pelo esgotamento do sistema Cantareira.

Os problemas hídricos de hoje, se os levarmos a sério, não apenas do ponto de vista eleitoreiro, são o começo da “vingança da natureza” contra uma civilização predadora. A situação de São Paulo foi construída desde a década de 1950, quando se intensificou o desmatamento em São Paulo e quando a concentração urbana tornou-se um fenômeno alucinante.

A do São Francisco vem desde o século XIX, quando os vapores consumiram toda a madeira que compunha a mata ciliar do Velho Chico.

Quando construíamos o texto base da Campanha da Fraternidade de 2004 – Fraternidade e Água –, já nos chamava a atenção que a região mais escassa de água per capta do Brasil era exatamente a cidade de São Paulo. Naquele ano, cada paulistano dispunha de pouco mais de 200 m3 por pessoa anuais. No Nordeste, a região mais pobre de água era o sertão de Pernambuco, com uma disponibilidade de aproximadamente 1.200 m3 por pessoa por ano. Claro, isso é média, não acesso real à água.

Esse cálculo é relativamente fácil. Basta dividir a capacidade dos reservatórios pelo número de habitantes. Óbvio, eles podem estar cheios ou não. Então, o cálculo é dinâmico.

Acontece que, segundo os padrões da ONU, só têm segurança hídrica aquelas populações que dispõem de, pelo menos, 1.000 m3 por pessoa por ano. É bom ressalvar que é para todos os usos, não somente para o consumo doméstico. O padrão é questionável, mas é o que prevalece.

Ora, São Paulo já vem no fio da navalha há muito tempo. Olhando o passado, a concentração populacional de São Paulo não mediu as consequências da hiper-população sobre os mananciais. Pior, com o processo de desmatamento e impermeabilização dos solos, a água que cai escorre rapidamente para as partes baixas, causando inundações, mas não penetrando no solo. Com isso, perdem forças os aquíferos, que são os melhores depósitos da água de chuva para os períodos nos quais não chove. São eles que depois permitem a tal “vazão de base”, que vai alimentar a vazão de superfície.

Então, aí entra a responsabilidade dos gestores da água. A água do Cantareira é estadual, portanto, responsabilidade direta do governo de São Paulo. Claro que o governador atual não é o responsável pela destruição ambiental das matas e pela impermeabilização da cidade. Mas, como gestor do estado federado, teria que ter previsto a escassez da água, a corda bamba na qual a região conurbada se balança há anos, e ter planejado o uso racional da água na cidade. Não foi feito e agora é uma situação caótica.

Aqui pelo Nordeste, de forma penosa, estamos aprendendo a ter uma ética de cuidado com a água e seu uso. Sabemos que ela é suficiente, mas é pouca. Portanto, se quisermos ter água, precisamos cuidar dela. Por isso nos espanta a apatia do governo federal, do governo de Minas e dos governos do Nordeste com a situação também caótica do São Francisco.

Mas São Paulo é um caso emergencial. Há um plano B para São Paulo caso os volumes mortos do Cantareira se esgotem? Os gestores teriam que fazer cenários para um futuro breve. E teriam que considerar o pior dos cenários: se os reservatórios de São Paulo secarem, qual será a saída para população? Existe a possibilidade de outras fontes ou terão que evacuar 6 ou 7 milhões de pessoas?

Essa é a razão do conflito entre governo estadual, Agência Nacional de Águas e Ministério Público.

A eleição não está permitindo esse debate. A população paulistana, que já está sofrendo com a falta de água, pode pagar caro por uma tragédia socioambiental absolutamente previsível. Ainda é bom lembrar que só estamos no começo das tragédias socioambientais que colheremos em futuro breve.

O crime ambiental do desmatamento, a concentração populacional e a inoperância dos gestores formam uma tempestade perfeita na cidade de São Paulo.

 *Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=10136

‘Única alternativa para a falta d´água em SP é rezar’, diz engenheiro

Comunidade Sistema Cantareira/ CC

Professor da Unicamp afirma que engenharia não dispõe mais de meios para suprir e impedir que os principais reservatórios do estado sequem completamente, o que resultará em problemas diversos

Da Rede Brasil Atual

O professor da Unicamp Antônio Carlos Zuffo, especialista em recursos hídricos, alerta que a engenharia já esgotou sua capacidade de solucionar a crise de abastecimento de água que atinge o estado de São Paulo, e que só resta aos paulistas apelar para a espiritualidade. “Se não ocorrer chuva, a solução que nós temos no curtíssimo prazo é voltar a fazer novena e procissão pedindo chuva porque a engenharia não dispõe mais de meios.”

O nível do reservatório Cantareira, que abastece grande parte da capital, bateu novo recorde negativo na quinta-feira (8), e chegou a 5,3% de sua capacidade total.

Zufo, ouvido pela TVT, aponta que o estoque de água do Cantareira é alarmante, e que, pelos seus cálculos, o reservatório do chamado volume morto vai secar por volta dos dias 13 ou 14 de novembro. Ainda segundo o professor, as obras anunciadas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) como forma de solucionar o problematrarão soluções efetivas apenas daqui a quatro ou cinco anos.

De acordo com o MPE, a Sabesp já conhecia o risco da estiagem que afeta o abastecimento desde 2012, pois, em relatório à bolsa de Nova York, reconhece o risco de uma estiagem como a atual.

Sobre os riscos para a saúde da população, Antônio Carlos Zuffo acredita que “se diminuir a disponibilidade hídrica para a população, é claro que vai haver aumento de problemas de saúde, principalmente doenças gastrointestinais”.

Além da própria falta de água para consumo humano, a crise no abastecimento, criada a partir da falta de planejamento do governo estadual, poderá causar graves problemas em outros setores.

Cenários

Segundo Zuffo, as consequências do desabastecimento devem atingir também a atividade econômica em curto prazo. “Primeiro, com a paralisação da produção industrial, seguida por desabastecimento de produtos nas prateleiras e demissões nas fábricas, causando portanto um problema social. E com o desemprego vem a violência, que nós já conhecemos”, prevê o professor.

Ele finaliza lembrando que faltou ao governo do estado atentar para os muitos sinais de que a atual crise já havia sido prevista, inclusive pela própria Sabesp, que em 2012 alertou a seus acionistas, em Nova York, que a situação caminhava para a escassez de recursos.

“A renovação da outorga de captação de água do sistema Cantareira, em 2004 – a resolução conjunta entre a Agência Nacional de Águas e o Departamento de Águas e Energia Elétrica, órgão estadual – previa uma curva de aversão ao risco, que permitiria controlar a quantidade de água a ser retirada do sistema. Se esse alerta de risco tivesse sido obedecido nós não estaríamos nesta situação hoje”, conclui.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/30114