Na esquina do fim do capitalismo, o beco sem saída

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Por Douglas Barreto da Mata

Nenhum dos esforços ou promessas de desenvolvimento nacional se cumprirá, ao menos, não da forma como se imagina ou deseja. A riqueza resultante da produção industrial cai a cada ano desde 1980. A massa salarial dos trabalhadores, responsável pela manutenção dos níveis de consumo, que alimentam essa produção, caíram na mesma proporção, com alguns leves períodos de recuperação, que comparados à média da série histórica, acabam por representar mera estagnação.

É comum a maioria das pessoas, levadas ao erro por economistas de má fé, confundirem o sistema de crédito com o sistema financeiro. Enquanto crédito é a disponibilização de recursos para consecução de um objetivo específico, seja a compra de uma geladeira, ou bens de capital, o sistema financeiro se resume na remuneração do dinheiro pelo próprio dinheiro, atribuindo mais ou menos renda de acordo com um sistema de avaliação totalmente atípico, ou seja, baseado não em uma lógica de demanda (oferta ou necessidade do tomador), mas sim em variáveis que buscam, simplesmente, o aumento das rendas e a sua acumulação vertical.

O sistema de crédito capitalista é uma ferramenta de distribuição de capitais para equilibrar as assimetrias entre áreas deficientes de dinâmica econômica e as áreas mais prósperas, evitando que o acúmulo de poupança interna em países mais ricos pudesse emperrar suas economias, foi substituído por um modelo desregulado, que passou, de forma simplista, a replicar dinheiro pelo dinheiro, fenômeno chamado de alavancagem.

A crise de 2008 não foi uma crise de crédito, quando devedores de juros devidos pelos empréstimos pararam os pagamentos, nada disso. A quebra subprime se deu pelo entrelaçamento de uma rede infinita de títulos criados a partir de outros títulos, que geraram papéis que apostaram na quebra desses papéis, os CDS, e toda essa estrutura de sobreposição de papagaios não tinha nenhuma garantia em aumento de empregos ou renda do trabalhador, mas sim do seu endividamento. Como se sabe, a expansão do setor imobiliário dos EUA foi uma bolha criada por engenharias financeiras. Deu no que deu.

As nações ricas, ao invés de puxar o freio, e ao mesmo tempo, colocarem boa parte dos banqueiros na cadeia, preferiram emitir montanhas de dinheiro para salvar o modelo falido (Quantitative Easy).  Não mexeram nos marcos de regulação, e uma das razões, nos EUA, por exemplo, é que os bancos usaram esse dinheiro para pagar o lobby que evitou que os congressistas votassem leis mais duras. Crime perfeito.

As consequências para o resto do mundo são percebidas até hoje.  No lado mais pobre do mundo, a piora das diferenças cambiais e a exportação de déficits agravou a dependência financeira, criando enormes dúvidas públicas impagáveis, ao mesmo tempo que as privatizações e precarização constante de direitos sociais e trabalhistas pressionam a demanda por serviços públicos, cada vez piores por causa dos endividamentos dos erários.

O problema é que os países (os mais pobres primeiro) e seus orçamentos parecem ter esgotado suas capacidades de endividamento e supressão das condições de vida das suas sociedades. O crescimento inercial do PIB, até dos países ricos, confirma essa tendência.  Os EUA experimentaram, nos últimos anos, crescimento oscilante e inflação persistente. Desde 2008, muita coisa mudou, e para pior. A montanha de dinheiro do sistema financeiro também não se reverteu em mais produção capitalista, do mesmo modo que os burgueses e as expansões coloniais não sustentaram o feudalismo por muito tempo.

É certo que os Estados Nacionais, necessários à transição feudal para o modo de produção capitalista foram mantidos, inclusive com a manutenção de monarquias absolutas.  Até que essa (super) estrutura tornou-se desnecessária, e pior, antagônica à expansão do novo modo econômico de produção. 

Com a iminente transição capitalista para a sua fase posterior, apesar do convívio das estruturas capitalistas carcomidas com as formas institucionais conhecidas, partidos, parlamentos, sistemas representativos e etc, há uma nova ordem a caminho, e não significa que será um progresso em relação ao anterior.

Tudo indica que a conformação conhecida de Estado (de Direito) e suas derivações institucionais estão à beira do colapso, tão logo a nova ordem econômica de instalar, e estes arranjos sejam considerados obsoletos e antagônicos.

Parte desse fenômeno já se apresenta nas eleições ao redor do mundo, e nas formas de convívio social, ou seja, nesta percepção de volatilidade que temos em relação à realidade que aprendemos a reconhecer como tal.

O sistema financeiro e seus trilhões de dólares, que são muitas vezes maiores que o PIB da produção industrial mundial (não mais há relação entre um e outro), criou uma nova realidade tecnológica, comunicacional e social, conhecida como internet e, depois, os algoritmos das redes sociais e suas interações com a Inteligência Artificial.

A oposição de classes (luta de classes) é um dos vetores das mudanças de modos de produção, como sempre aconteceu, e parece que do atrito entre as classes proprietárias e as não-proprietárias nasceu uma nova, que não mais vive (apenas) da expropriação da mais valia, mas da replicação financeira das rendas acumuladas nesse processo de ultra exploração recente.

É o fim do capitalismo pelo esmagamento de sua força de trabalho pelo volume gigantesco de riqueza não produtiva alavancada e acumulada exponencialmente. Cada vez menos necessários, uma horda global de descartados se dedicará a uma condição sub humanizada na economia de serviços, onde o produto não é outro senão o próprio trabalhador.

No sistema capitalista, apesar da brutal desigualdade de condições entre os donos do capital e os trabalhadores, onde estes últimos tão somente aceitavam as condições para a venda de sua força de trabalho, sob pena de perecimento, houve a luta permanente para que esta relação desigual se ajustasse a algum tipo de amenização, a depender do processo histórico incidente a cada nação e sua sociedade.

De forma alguma, com raras e conhecidas exceções das revoluções anticapitalistas, estas posições relativas foram alteradas.  No entanto, é forçoso reconhecer que os ganhos foram somados às classes trabalhadoras, através daquilo que entendo ser um mercado representativo eleitoral e as lutas setoriais (sindicais).

A inovação tecnológica e financeira trazida à tona pela ultra digitalização subverte essas relações baseadas em produção de valor através da compra e venda de trabalho, e subtrai a utilidade das instituições conhecidas para mediar aquele conflito anterior, que se tornou obsoleto não por sua resolução, mas sim pela substituição (superação) de novas e mais modernas formas de exploração, reafirmando o que disse Karl Marx.

A ideologia central do capitalismo era fazer crer ao trabalhador que a ele era possível ascender socialmente pelo trabalho, e como correspondência política, incutiu a (falsa) noção de que um homem é igual a um voto, e o sistema representativo resolveria as demandas por direitos suprimidos por este próprio sistema econômico excludente.

Agora, os donos dos algoritmos e dos fundos de investimentos conseguiram criar um mundo onde as formas sociais do trabalho deixaram de ser vistas como relevantes, ou melhor dizendo, assumem uma relevância distinta, confinando estas relações em células individualizadas, que não acabam com o conceito de classe em si, mas as subordinam sob uma forma de alienação jamais vista, e que sempre foi perseguida pelos donos do capital, mas que lhes era impossível pelo próprio sistema de organização do trabalho para a geração dos produtos e dos lucros.  Essa barreira foi quebrada.

Não há mais necessidade de estabelecer uma lógica coletiva (social) do trabalho como requisito de inserção social, já que a nova ordem preconiza a individualização ou a atomização completa da vida econômica em mecanismos de recompensas cada vez mais relacionados com mecanização digital financeirizada, e menos com com resultados econômicos relacionados a algum tipo de transformação industrial conhecida.

Se houver futuro, não parece promissor.

Incidente da Samarco e sua relação com a financeirização do capitalismo

Samarco, a agonia do capitalismo financeiro

O caso das barragens da Samarco nos leva a reflexões colaterais sobre o capitalismo financeiro e seus personagens. A Samarco hoje é controlada pela maior companhia de mineração do mundo, a BHP, fusão da Broken Hill Proprietary, fundada na Austrália em 1851, e a Billiton, originada na Indonésia holandesa na mesma época, depois integrante do Grupo Royal Dutch Shell, e a nossa Vale, cuja origem é a americana Itabira Iron, de Percival Farquar, maior empresário do Brasil nas primeiras décadas do Século XX, empresa nacionalizada pelo Presidente Artur Bernardes e que virou Cia. Vale do Rio Doce na década de 40.

Como empresas tão experientes lograram correr um nível de risco patrimonial tão alto a ponto de incorrer em indenizações que provavelmente vão zerar o valor financeiro da Samarco? Esta faturou R$ 7,2 bilhões em 2014, ganhou líquidos 2,8 bilhões e investiu apenas 78 milhões em segurança ambiental. Com um pouco mais reforçaria as barragens, que são de terra, as mais baratas que existem, instalaria sensores para monitorar o risco da pressão do volume sobre a parede e, com mitigação maior de risco, transformaria a parte de terra despejada na represa em pellets, que poderiam ser armazenados fora da represa e diminuiriam consideravelmente o volume dentro  da barragem. Assim, ficaria com muito menor ocupação resultante apenas em água impura, mas em muito menor volume do que o conjunto lama+detritos+água. Essa solução mais definitiva custaria um pouco mais, mas seria um seguro infinitamente mais barato do que o custo econômico que agora cairá sobre a empresa que será devorada pelas indenizações.

Como os executivos não assumiram esse caminho? Por causa do modelo de capitalismo financeiro que vem assumindo a direção das grandes empresas da economia produtiva.  Foram-se os executivos “de indústria”,  “do ramo”. Hoje, assumiu uma geração de jovens calculistas que trabalham exclusivamente com planilhas, índices, taxas de retorno. Não tem ligação com o produto físico, com as máquinas, com a terra, com o minério, com a barragem. O mundo deles e de seus chefes e acionistas é exclusivamente financeiro.

O lucro pode ser fantástico, mais de um terço do faturamento, mas nem por isso a pressão para obter mais é da essência dessa cultura financeira.  Fora das planilhas e dos “budgets”, dos “targets”, não tem mais nada no radar, nem o futuro da empresa, é só o próximo trimestre, base dos bônus. No semestre posterior pode ter caído o CEO mundial do grupo e o CEO da Samarco, então a única meta que conta é o lucro do trimestre.

Conheci profundamente o sistema. De 1974 a 1978, fui o principal executivo de uma subsidiaria de multinacional americana no Brasil, havia uma obsessão com a meta trimestral, nada mais importava. No fim de cada trimestre, todos os executivos-chefes de cada divisão viajavam para a matriz em St. Louis, eram 130 divisões no mundo e lá mesmo no bunker do subsolo do prédio havia, durante toda a semana, em um auditório, uma revisão do budget de cada divisão. Se o executivo não tivesse atingido a meta era execrado em público e alguns despedidos lá mesmo. Depois, partia-se para fixação da nova meta para o trimestre seguinte, a pressão era intensa visando aumentar o lucro prometido, máxima pressão, até que o executivo acabasse por aceitar, mesmo sabendo que era impossível atingir, pelo menos ele teria o emprego por mais um trimestre.

Era um sistema diabólico para espremer cada divisão como um limão. Isso há 40 anos. Hoje, está muito pior, o único critério de sucesso é aumentar a taxa de retorno para o acionista com o mínimo de investimento, o mínimo de empregados e o maior aproveitamento dos ativos. Os que atingiam e ultrapassavam um pouco viravam heróis e eram homenageados com convite para jantar com o CEO, ganhavam sorrisos e cumprimentos, às vezes até promoção no ato.

Esse “capitalismo do trimestre” leva a mega distorções. É possível aumentar o lucro no curto prazo economizando em itens que causarão danos só no longo prazo, como não fazer a manutenção periódica dos equipamentos, trocar mão de obra cara por mais barata, rebaixar a qualidade do produto, continua vendendo, mas vai queimando a marca. Economizar na segurança ambiental é uma típica manobra para aumentar o lucro no curto prazo, a custo do longo prazo…

Esse é o típico capitalismo  AMBEV: padronizar todas as cervejas, só muda o rótulo, o gosto é o mesmo. Isso faz cair o custo por causa dos mega volumes de uma fabricação uniforme, abrindo espaço para centenas de fábricas de cervejas artesanais, porque o consumidor não quer o mesmo paladar padronizado. Isso é o capitalismo financeiro, os controladores da AMBEV são todos financistas e não industriais, heróis do capitalismo de corte de custos até o osso.

Hoje, firmas como a BHP e a Vale são controladas por fundos e não por pessoas. Os fundos querem taxas de retorno, é preciso pressionar os executivos. Estes, encostados na parede, cortam custos essenciais para fazer subir a taxa de retorno. Esse capitalismo deixa destroços pelo caminho, no limite vão acabar com o emprego e a sustentabilidade do planeta. O caso SAMARCO pode ser um dos maiores símbolos desse sistema que gera sua própria autodestruição.

FONTE: http://jornalggn.com.br/noticia/samarco-a-agonia-do-capitalismo-financeiro