Vice News faz nova matéria sobre o TsuLama

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​Quem poderá salvar o Rio Doce? Para o governo, é a própria Samarco

Por Débora Lopes

Da coluna ‘Desastre em Mariana’

No início do mês, o governo federal e os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo assinaram um acordo extrajudicial com as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton para mitigar os prejuízos causados à Bacia do Rio Doce, catastroficamente afetada pelo rompimento da barragem de rejeitos em novembro do ano passado. O investimento será de mais de R$ 4 bilhões. Porém, especialistas no assunto contestam a “carta branca” oferecida à Samarco, que contratou a Golden Associates, uma consultoria internacional, para mapear os impactos ambientais e traçar o plano de ações de recuperação.

A desconfiança parte também do Ministério Público Federal (MPF), que, em nota oficial, questionou a decisão por entender que ela “prioriza a proteção do patrimônio das empresas em detrimento da proteção das populações afetadas e do meio ambiente”.

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Margem do Rio Doce após o rompimento da barragem em Bento Rodrigues. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Em seu site oficial, a Samarco detalha que o acordo definiu a criação de uma Fundação que será composta por “Conselho de Curadores, Diretoria Executiva, Conselho Consultivo e Conselho Fiscal; além de especialistas técnicos e auditorias independentes”.

Para o engenheiro industrial e ativista dos direitos dos animais Alexandre G. Valente, “a Golden Associates vai apresentar o relatório que ficar conveniente pra mineradora”. Ele também acredita que o acordo firmado é desprovido de cláusulas específicas. “Ele não preconiza nada do que será feito no rio”, relata.

Quatro meses depois do episódio, o leito do Rio Doce continua a ser contaminado com rejeitos da barragem, já que o vazamento até hoje não foi contido. “Isso significa que estamos com um problema ainda em curso”, alerta Carlos Rezende, professor titular e chefe do laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).

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Moradores de Governador Valadares (MG) rezando durante distribuição voluntária de água. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Para ele, o mapeamento dos impactos ambientais na região deveria ficar a cargo de um comitê de bacia, como o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. “Um órgão colegiado com representações de diferentes usuários e [que] tem como pressuposto organizar o uso múltiplo das águas de um determinado recurso hídrico.”

De acordo com o especialista, será necessário muito empenho por parte da Samarco para trazer o Rio Doce e toda a região de volta à vida. “Os peixes foram temporariamente dizimados, assim como uma fauna pouco conhecida”, detalha. “Então, essa ausência de informação prejudica terrivelmente qualquer estimativa.”

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Morador de Resplendor (MG), lamenta a vista para um Rio Doce enlameado. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Se o debate popular acerca do acontecido em Marina se dissipou ou caiu no esquecimento, o coordenador de campanhas do Greenpeace, Nilo D’Avila, tem uma teoria. “A lama da Lava Jato sombreou a lama de Mariana“, pontua. Para ele, o Brasil vive um momento político conturbado. “As questões ambientais estão longe de ocupar a opinião pública.”

Há também o lado social do ocorrido. Sob o ponto de vista do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a decisão “representa a rendição ao criminoso”. Em nota oficial, o movimento denuncia que o acordo foi “realizado em gabinetes e sem participação nenhuma das vítimas que foram atingidas”.

FONTE: http://www.vice.com/pt_br/read/rio-doce-samarco

Pesquisador da UENF responde questões levantadas a partir da leitura da entrevista do Prof. Paulo César Rosman à BBC

Após ler com mais atenção a entrevista que o professor Paulo Cesar Rosman do COPPETEC/UFRJ concedeu à BBC sobre o incidente da Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton) no município de Mariana (MG), este blog conduziu uma entrevista com o Prof. Carlos Eduardo Rezende, professor titular e chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).  Além disso, o Prof. Carlos Rezende é um expert na dinâmica de poluentes metálicos, nutrientes, composição elementar e isotópica da matéria orgânica, e biomarcadores na interface dos ecossistemas terrestres e aquáticos, e tem atuado com intensidade na área de Ecologia Aplicada desde que chegou à Uenf em 1993.

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Além de prestar essa entrevista ao blog, o Prof. Carlos Rezende disponibilizou o seu telefone de contato na Uenf para que sejam feitos contatos diretos acerca dos pontos que ele levanta em sua entrevista. O número de contato do Prof. Carlos Rezende é 22-2748-6080.

Blog do Pedlowski (BP): Em sua entrevista à BBC, o Prof. Paulo César Rosman declarou que “embora especialistas tenham divulgado previsões de danos catastróficos, que incluiriam danos à reserva marinha de Abrolhos, no sul da Bahia, e um espalhamento da lama por até 10 mil m²”. “Além disso, o Prof. Rosman afirmou que os efeitos no mar serão “desprezíveis”, que o material se espalhará por no máximo 9 km e que em poucos dias a coloração barrenta deve se dissipar.” Como o senhor vê essas declarações do Prof. Rosman?

Carlos Eduardo Rezende (CER): Eu notei que o Professor Rosman informou que os efeitos serão desprezíveis, mas não fez qualquer tipo de avaliação quanto ao que é ou não desprezível. O que eu poderia responder sobre isto é que com a redução na penetração da luz teremos certamente uma drástica redução na produção primária, ou seja, fixação de carbono com consequência na cadeia alimentar costeira. Outra coisa, o que é considerado desprezível, a morte de espécies fluviais e marinhas? Não quero sequer entrar na questão socioeconômica em toda região. Bom, quanto ao modelo que ele usou, não vi qualquer informação, e hoje por imagem de satélite já se pode chegar a uma conclusão. Neste momento, precisamos de informações precisas e não foram apresentados números para contestar as afirmações de outros grupos. Este momento é muito delicado e a comunidade acadêmica deve se manifestar, a meu ver, com mais precisão nas suas avaliações técnicas.

BP: O Professor Rosman também declarou á BBC que “para ele, a sociedade e os governos mineiro e federal precisam cobrar de Vale e BHP Billington, donas da Samarco, o processo de reflorestamento e reconstrução ambiental, de custo “insignificante” para as empresas.”.

CER: Custo insignificante em que termos? E os serviços ambientais que foram totalmente alterados ou comprometidos com o TsuLama que foi liberado pelo rompimento da barragem da Samarco? Eu diria que o reflorestamento e a reconstrução ambiental se forem feitos como se deve, precisaríamos de um acompanhamento ao longo de alguns anos para avaliar quando os serviços ambientais serão recuperados (ex.: A recarga das águas subterrâneas foi ou não comprometida?). Eu penso que não se pode tratar a questão ambiental varrendo coisas para debaixo do tapete e a população precisa de readquirir confiança na empresa e nos órgãos ambientais. Este momento deve ser usado como exemplo de pior hipótese, visto que o problema poderá ser repetido se mantivermos a precariedade na fiscalização, pois existem 765 barragens no estado de Minas Gerais, e poucos fiscais realizando este serviço.

BP: O Prof. Rosman declarou ainda que “no caso da ciência as coisas são mais factuais, quantitativas, mais numéricas. No caso do indígena, ele constata e sofre com a “morte” do rio. A diferença é que o rio está morto neste momento, é verdade, mas ressuscitará muito rapidamente, e eles vão poder comprovar isso.” O que o senhor tem a dizer sobre essa previsão de ressurreição que o Prof. Rosman fez?

CER: A minha resposta a esta afirmação é muito simples. Para quem afirma que ciência é quantitativa e mais numérica, precisamos de números, e estes não foram apresentados, mas foram realizadas afirmativas que deveriam vir respaldadas com maiores detalhes. Ao afirmar que em 5 meses tudo estará normalizado, seria fundamental saber o que realmente tínhamos neste sistema antes da passagem dos rejeitos e sabemos que as informações, neste exato momento, são insuficientes.

BP: O Professor Rosman também afirmou que “há muitos exemplos de acidentes muito mais graves e mais sérios do que este da barragem de Mariana. Veja a erupção vulcânica do monte Santa Helena, nos Estados Unidos (em 1980). Foi tudo devastado e destruído, numa área imensamente maior. Você vai lá hoje e vê que os animais voltaram e a mata voltou.” Como o senhor responde a estas afirmações?

CER: Aqui, mais uma vez, há uma tentativa de naturalização do problema ao usar um evento extremo e natural e compará-lo com um que poderia ter sido minimizado com medidas que deveriam estar sendo cumpridas. Para um profissional da área, o Prof. Rosman me parece estar negligenciando um ponto importante na engenharia de reservatórios e de segurança. Além disso, o evento de Itajaí precisa ser detalhado, pois muitas pessoas não conhecem. Os números precisam ser apresentados, e não basta, a meu ver, afirmar que foi maior, sem estabelecer claramente as diferenças entre os eventos.

BP: Na sua entrevista, o Prof. Rosman afirmou também que as fortes chuvas entre novembro e abril “lavarão” o rio Doce, num processo natural. Como o senhor vê essa previsão?

CER: O fato concreto é que parece ter sido esquecido que estamos sobre o efeito do El Niño, e que este fenômeno gera um déficit pluviométrico na região Sudeste, onde os dois estados atingidos pelo derrame da Mineradora Samarco estão inseridos, e que há 3 anos estamos passando por secas prolongadas.

BP: O Prof. Rosman também afirmou que “para se ter uma ideia, a água transparente do mar, costeira, tem tipicamente 5 mg/l de sedimentos em suspensão. A água dentro de uma baía tem tipicamente entre 50 mg/l a 100 mg/l de sedimentos em suspensão. A água de um rio com cor barrenta tem em torno de 500 mg/l de sedimentos de suspensão, são todos dados naturais.”. Nesse caso, há alguma coisa que o senhor gostaria de apontar?

CER: A região estuarina ou marinha do rio Doce não está diretamente associada a uma baía, muito pelo contrário é aberta e ligada diretamente ao oceano, assim 50 a 100 mg/L não é um valor baixo, inclusive estando dentro da faixa encontrada para rios (ex.: rio Paraíba do Sul). Inclusive, para considerarmos legalmente algumas questões, devemos observar a Resolução CONAMA 357/2005 e confirmar se as águas estão em conformidade com os padrões estabelecidos para a Classe I, pois a região é usada para recreação e, portanto, contato primário.

BP: Um aspecto final que eu gostaria de perguntar ao senhor se refere às responsabilidades pelo incidente em Mariana.  No tocante à isto, o Prof. Rosman disso o seguinte “Olha, irresponsabilidade é quando você tem consciência do fato e não faz nada. Tudo é óbvio depois que você já sabe o que aconteceu.”.  Como é que o senhor vê a questão das responsabilidades sobre o incidente que ocorreu em Bento Rodrigues com o rompimento da barragem Fundão da Mineradora Samarco?

CER: Creio que nesta resposta em particular, não houve uma resposta concreta, pois existem informações conflitantes sobre as condições deste e de outros reservatórios segundo informações publicadas em diferentes órgãos de imprensa nacional e internacional. Dai quando ocorrer algum outro rompimento de barragem de rejeitos, haverá ou não responsáveis? Parece-me que sim.