Com a CDL parece que é assim: o lucro é todo meu, o prejuízo é todo seu

A FEPE, a CDL, “o setor produtivo” mostram as garras: o importante é revitalizar o lucro irresponsável!

When good greed goes bad and what to do about it

Por Douglas Barreto da Mata

Quase tudo foi dito sobre o episódio que envolveu a montagem de uma feira de saldo de lojistas locais, a prefeitura, e os danos causados pelos primeiros durante o processo de instalação das estruturas.  Já sabemos que a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) foi flagrada destruindo o piso da Praça do Santíssimo Salvador, que a  Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes (PMCG) embargou a montagem, que ofereceu outras áreas alternativas, e que o presidente da CDL veio a público tentar culpar os outros pelo erro que ele cometeu. Erro não, crime, em tese, de ofensa ao patrimônio público, senão me engano, artigo 163, § único, inciso III do Código Penal.  Como disse, quase tudo foi dito. Faltaram detalhes.

O primeiro é a hipocrisia da CDL, que adora exigir que o poder público cumpra suas obrigações, e quando se trata da iniciativa privada, as obrigações de zelo e preservação patrimonial somem abafadas pelo tilintar das moedas.  Parece que a prioridade não é revitalizar a área central, mas apenas os ganhos dos comerciantes. 

Depois, muito espanta o silêncio do Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal (COPPAM), entidade de defesa e elaboração dos marcos regulatórios de preservação, justamente quando um dos seus integrantes, o Presidente da CDL foi surpreendido danificando aquilo que é objeto de preservação pelo órgão que ele é filiado. Nenhum dos aguerridos e combativos conselheiros se mexeu ou fez qualquer ruído, logo eles, inclinados aos abraços simbólicos, aos textos eloquentes e indignados, e aos gestos dramáticos.  Nada, nenhum sussurro. Esse pessoal que se descabela quando cai um prego de uma cumieira, ou quando trinca um vidro de uma janela do acervo histórico.  Fazem assim uma vigilância, digamos, seletiva, para dizer o mínimo.

Talvez estejam guardando forças para a bela festa que o presidente da CDL oferece anualmente, na esperança de que, enfim, esse ano o convite sonhado venha. Seja lá como for, entre pisos destruídos, cinismo em rede social e silêncio hipócrita, salvou-se apenas a certeza de que a hipocrisia ainda é o combustível social dessa cidade.

Ataque a protesto revela intolerância e expõe entranhas autoritárias do governo Wladimir Garotinho

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Qualquer cidadão campista que passe pelo centro de Campos dos Goytacazes nota o estado de abandono a que essa parte da cidade está submetida há vários governos.  E isso ocorre sem que as tais entidades representativas (como CDL e ACIC) esbocem qualquer ação prática para questionar os prejuízos que determinadas medidas causam sobre uma área comercial que atende primariamente as camadas mais pobres da população.

Lembro aqui que já apontei para os efeitos devastadores que a instalação de corredores de trânsito nas ruas Marechal Floriano e Rua dos Goitacazes, sem áreas de estacionamento, teria sobre o comércio que ainda resiste no centro de Campos dos Goytacazes. Mas os efeitos vieram, e nada aconteceu para pressionar o governo municipal a reordenar o uso dessas artérias, de modo a permitir uma sobrevida do comércio central. Isso ocorre porque aparentemente, as lideranças da CDL e da ACIC têm estado ocupadas demais com reuniões para mudar o gabarito de construção de prédios do que defender os lojistas que estão cada vez mais sufocados e baixando suas portas.

Mas bastou que um grupo de comerciantes descontentes com o abandono do centro histórico fizesse um protesto tímido para que houvesse uma reação violenta e autoritária de apoiadores do prefeito Wladimir Garotinho (abaixo mostro imagens de antes do ato de vandalismo cometido contra um protesto essencialmente pacífico).

Se essa ação foi ordenado ou não pelo prefeito Garotinho, isso é de menor importância. É que até agora, passadas 24 horas do vandalismo, há um silêncio sepulcral que só pode ser entendido como apoio ao ato. Com isso, fica revelada a intolerância e as entranhas autoritárias com que o prefeito Wladimir Garotinho realmente opera quando não está ocupado em postar imagens simpáticas nas suas redes sociais.

A questão é que essa pequena manifestação espontânea que foi vandalizada pode ser a semente para dificuldades políticas em 2024.  Se essas dificuldades realmente se materializarem, aí é possível que o prefeito Garotinho repentinamente saia a campo para condenar os atos autoritários de seus apoiadores.