Eduardo Paes e o risco de virar um novo Celso Russomanno

Por Douglas Barreto da Mata

Para quem não sabe, o jornalista Celso Russomanno passou à história política paulista como eterno cavalo paraguaio.  Militante da causa da defesa do consumidor, com uma ampla exposição diária denunciando e “fiscalizando” abusos contra clientes insatisfeitos com bens e serviços, Russomanno era sempre “pule de 10” nas eleições nas quais concorreu.  Não ganhou nenhuma. Há várias explicações, eu resolvi escolher uma. O excesso de especialidades, ou em outras palavras, ele sempre ficou restrito a uma pauta.  Claro que esse não é o caso de Eduardo Paes, apesar dele ter se “cacifado” como novo Russomanno carioca após a surra épica que levou de Wilson Witzel. Eduardo Paes tem uma pauta mais ampla, e experiência de prefeito consagrada. É aí que a porca torce o rabo.  O eleitor fluminense, pelo menos os 80% que não escolheram seu candidato a governador em 2026, enxerga Paes como “prefeito do Rio”, e não como alguém capaz de pilotar o caos do Estado inteiro.

Ao mesmo tempo, esse “excesso de identificação” com o Rio lhe dá um aspecto, que nunca foi negado por ele, muito pelo contrário, de “carioca malandro”, de “empada do Belmonte”.  Quem não frequenta a orla da zona sul terá dificuldade em decifrar a comparação com a iguaria de um bar bem específico da cidade carioca. É disso que se trata. Eduardo Paes é uma “empada do Belmonte”, um mestre de cerimônia da balada da Farme de Amoedo, um item de “consumo” da pedra da zona sul. Por isso depende de uma capilaridade que não tem, e que a julgar pelos seus movimentos recentes, não conseguirá.

A chegada de Washington Reis, um combatente que parece ter desistido, sob a suposta soma do eleitorado de Caxias e dos evangélicos, pode trazer resultado inverso.  Ninguém diz, mas o eleitor carioca, até aqui o mais fiel e expoente de Paes, detesta tudo que vem de Caxias e arredores, bem calmo rejeita São Gonçalo e adjacências.  O carioca odeia mais a Baixada e a zona metropolitana que o interior, apesar de guardar preconceito contra tudo que não esteja no “suvaco do Cristo”. Aí mora o problema de quem construiu uma aliança imaginando que Caxias seria uma “aquisição matemática”.

Política e eleição são símbolos, mensagens, mais que números. No lado dos evangélicos, ainda que Silas Malafaia e todos os “cardeais” protestantes embarquem na campanha de Paes, o que no caso de Malafaia já foi descartado, é preciso entender que Paes representa tudo que o evangélico não gosta: A mistura religiosa, o “humor jocoso”, do tipo da alegoria da família enlatada, do chapéu Panamá (Zé Pilintra), e etc. Eduardo Paes não tem como renunciar a esse perfil, e quando tenta perde dos dois lados, parecendo falso tanto ao seu eleitor fiel, que se afasta quanto ao eleitor evangélico, que não se aproximará. Nas redes sociais, a reação de um nicho de público às tratativas recentes de Paes com os Reis revelou o quão “setorizado” ele se tornou, sendo certo que suas características mais fortes são:  Um malandro carioca lulista.

Essa face não permite um ajuste tão conservador, como o cantinho que montou em seu palanque para Flávio Bolsonaro e Washington Reis.  Por certo, na maioria das vezes, ganha quem amplia mais. No entanto, só alguns têm a capacidade de fazer isso sem parecer que “acende uma vela para Deus e outra para o cão”.