Reportagem aponta para possível envolvimento da JBS e da Marfrig em “lavagem de gado” feita por mandante de chacina

Acusado por chacina de Colniza cria gado em fazenda irregular e vende a fornecedores da JBS e Marfrig

Proprietário de fazenda desmatada em Rondônia e foragido da Justiça desde 2017, Valdelir Souza pode ter recorrido à “lavagem de gado” para conseguir vender animais à JBS

gadoA “lavagem de gado” envolve a venda de vacas criadas ilegalmente em terras desmatadas para fazendas “limpas”. Foto: Bruno Kelly / Greenpeace

Por Por André Campos*, da Repórter Brasil, e Dom Phillips, do The Guardian 

Apontado como o mandante de uma das maiores chacinas já registradas na Amazônia, que em abril de 2017 deixou nove mortos em Colniza, no Mato Grosso, Valdelir João de Souza está foragido da Justiça há mais de dois anos, mas continua criando gado em uma área ocupada ilegalmente em um assentamento da reforma agrária em Rondônia. Ao longo de 2018, Souza vendeu gado a pecuaristas da região que, por sua vez, forneceram animais a dois dos maiores frigoríficos brasileiros: a JBS e a Marfrig, segundo documentos sanitários obtidos pela Repórter Brasil.

Em 9 de maio de 2018, quando já estava foragido, a fazenda Três Lagoas, de propriedade de Souza, repassou ao sítio Erança de Meu Pai (sic), de Maurício Narde, 143 animais fêmeas. Onze minutos depois, o sítio de Narde transferiu 143 animais, com as mesmas características de sexo e idade, para abate no frigorífico da JBS. 

Poucos meses depois, em 25 de junho de 2018, Souza também negociou 153 bovinos com a fazenda Morro Alto, de José Carlos de Albuquerque, que naquele ano constava na lista de fornecedores da JBS e que abasteceu uma unidade de abate da Marfrig em Rondônia. 

Ilustração de Samuel BonoEm 19 de abril de 2017, nove camponeses foram brutalmente assassinados em Taquaruçu do Norte (MT), em massacre que ficou conhecido como a chacina de Colniza (Ilustração: Samuel Bono/Repórter Brasil) 

Especialistas ouvidos pela Repórter Brasil afirmam haver indícios de que Souza fez uso de uma prática recorrente entre fazendas com problemas ambientais, conhecida como “lavagem de gado”, para conseguir vender animais à JBS. 

A prática consiste em transferir o gado de uma fazenda com desmatamento ilegal para uma propriedade “ficha-limpa” com o objetivo de encobrir a origem dos animais para os compradores. A “lavagem de gado” tem como objetivo driblar o compromisso de “desmatamento zero” na Amazônia, assumido pelos maiores frigoríficos brasileiros, e o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) da Carne, um pacto firmado em 2009 pelas produtoras brasileiras de carne para monitorarem seus fornecedores e suspenderem a compra de fazendas com problemas socioambientais, entre eles desmatamento ilegal ou trabalho escravo.

Imagens de satélite mostram que grande parte de fazenda Três Lagoas, do pecuarista foragido, foi desmatada em 2015. Souza não poderia, portanto, fornecer diretamente à JBS, já que a empresa se comprometeu a não fazer negócios com fazendas amazônicas que tenham desmatamento registrado após 2009.  

“Não faz nenhum sentido um animal ficar 11 minutos em uma fazenda para depois ir para o frigorífico. Essa história tem todos os componentes de um processo de triangulação para lavagem de gado”, analisa Mauro Armelin, diretor da Amigos da Terra, organização que estuda a cadeia produtiva da pecuária desde 2009, após analisar os documentos enviados pela Repórter Brasil. “Provavelmente foi uma triangulação apenas no papel, ou seja, tudo indica que os animais foram enviados diretamente ao frigorífico sem passar por uma segunda propriedade”, completa.

Em entrevista ao The Guardian, Maurício Narde confirmou a transação comercial, mas não explicou porque vendeu à JBS esses 143 animais poucos minutos depois de tê-los comprado de Valdelir Souza. “A gente compra e vende. É só para girar mesmo”, afirmou, antes de decidir não responder mais aos questionamentos da reportagem ao telefone. Além de comprador de gado, Narde já foi funcionário de uma das serrarias de Souza, a Madeireira Cedroarana – que entre 2007 e 2017 foi multada em R$ 902 mil pelo Ibama por crimes ambientais. A legislação não proíbe que frigoríficos comprem gado de fazendas e fazendeiros envolvidos em crimes comuns ou em problemas fundiários – há apenas a proibição da aquisição de animais criados em áreas embargadas por desmatamento ilegal. 

O procurador Daniel Azeredo, um dos principais responsáveis pela assinatura do  TAC da Carne, afirma que o acordo também proíbe a compra de gado de pessoas condenadas por assassinatos que estejam relacionados a conflitos por terra. Além disso, a JBS firmou um compromisso com o Greenpeace em 2009 para excluir de sua lista de fornecedores as fazendas que desmataram a floresta amazônica após outubro daquele ano.

Fazenda irregular 

Além dos problemas com o fornecimento de gado, a fazenda de Souza é irregular por estar localizada dentro do Projeto de Assentamento Lajes (PA Lajes), em Machadinho D’Oeste (RO) – município vizinho a Colniza – apesar de ele não constar na lista oficial de beneficiados pela reforma agrária. Ele declarou no Cadastro Ambiental Rural (CAR), em 2018, ser o proprietário de duas áreas dentro do assentamento, totalizando 1.052 hectares – tamanho superior ao permitido pela legislação dentro de um assentamento. O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) informou que os lotes citados pela reportagem estão em nome de outros beneficiários, não no nome do pecuarista foragido.

Já no envolvimento com a chacina, Souza foi denunciado pelo Ministério Público do Mato Grosso por homicídio triplamente qualificado. De acordo com o inquérito, ele contratou, há cerca de três anos, um grupo conhecido como “encapuzados” para matar os trabalhadores. Um mês após o crime, ele teve sua prisão preventiva decretada pela Justiça, mas nunca se entregou e continua com paradeiro incerto. O caso ainda não foi julgado. 

O juiz responsável pelo processo determinou a pronúncia de Souza – ou seja, que ele deverá ser julgado por um tribunal de jurados. O advogado do acusado recorreu, e a decisão está sendo analisada em segunda instância do Tribunal de Justiça do Mato Grosso. As mortes em Colniza, segundo investigação policial, estavam relacionadas a disputas por terras e à extração ilegal de madeira – Souza, além de criar gado, também foi proprietário de serralherias na região.

Procurada pela Repórter Brasil, a JBS classificou como “irresponsável” qualquer tentativa de vinculação do nome da companhia a Valdelir João de Souza. A empresa afirma que ele nunca figurou em sua lista de fornecedores. Além disso, diz não “adquirir animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasão de terras indígenas ou áreas de conservação ambiental, violência rural, conflitos agrários e que utilizam trabalho forçado ou infantil”.

“A companhia vem trabalhando em parceria com o Ministério Público Federal e a sociedade civil para aprimorar ainda mais seus controles, contribuindo para o combate da entrada de animais provenientes de fazendas irregulares ou de triangulações de gado na sua cadeia produtiva”, afirma a JBS.

foto de Ahmad JarrahEnterro das vítimas da chacina, em 2017, da qual Valdelir João de Souza é acusado de ser o mandante; mesmo foragido da Justiça, ele continua criando e vendendo gado para fornecedores da JBS e da Marfrig (Foto: Ahmad Jarrah/Repórter Brasil)

Já a Marfrig informou que desde 2012 solicita de seus fornecedores diretos informações voluntárias sobre os pecuaristas e as fazendas dos quais eles possam ter adquirido animais. Em outubro, a empresa firmou parceria com a ONG ambiental WWF para aprimorar o uso dessas informações na verificação de problemas em fornecedores indiretos. Leia aqui íntegra da nota. 

Outra linha de trabalho da Marfrig é cruzar as informações comunicadas pelos fornecedores com mapas de áreas mais expostas ao risco de desmatamento, visando reduzir riscos. Segundo a empresa, mais da metade (53%) dos animais que ela abate no bioma amazônico são de fazendas de ciclo incompleto – ou seja, que adquirem animais de outras áreas durante a produção.

À Repórter Brasil, José Carlos de Albuquerque, o outro pecuarista que negociou com Souza gado do assentamento, afirmou à reportagem que o rebanho de Souza estava devidamente habilitado para venda, com documentação sanitária em dia, e que cabe aos órgãos de controle atestar a legalidade de bois e vacas disponíveis para negociações no mercado.

“É como comprar uma camiseta em uma loja de um shopping. Não posso levantar suspeição de que a loja não esteja com seu alvará de funcionamento em dia, ou taxas de bombeiros etc.”, diz o pecuarista proprietário Fazenda Morro Alto, em Monte Negro (RO). “Acredito nos órgãos de controle, de que aquela atividade ali estabelecida está sendo fiscalizada para tal.”

Apesar de registros sanitários apontarem a entrada de gado fornecido por Souza na Fazenda Morro Alto, Albuquerque afirma que a compra dos animais não foi consolidada por divergências comerciais. Os animais, segundo ele, foram “estornados” para o fornecedor. A reportagem pediu a ele o envio de documentos que comprovem o cancelamento do negócio, porém Albuquerque não respondeu.

A reportagem informou ao Incra sobre as irregularidades relativas à fazenda de Souza dentro do assentamento da reforma agrária. O órgão informou que, diante da denúncia feita pela reportagem, irá realizar uma vistoria na fazenda. 

Repórter Brasil e o the Guardian também tentaram ouvir Valdelir João de Souza, mas não houve retorno às tentativas de contato com o pecuarista, feitas por meio de seu escritório de advocacia. Em entrevista concedida ao Gazeta Digital em 19 de abril de 2019, Valdelir Souza negou ter encomendado a chacina e diz que não se entrega por medo de ser assassinado na cadeia.   

*colaborou Ana Magalhães

Esta reportagem foi realizada com o apoio da DGB Bildungswerk, no marco do projeto PN: 2017 2606 6/DGB 0014, sendo seu conteúdo de responsabilidade exclusiva da Repórter Brasil

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Esta reportagem foi publicada originalmente pela Repórter Brasil [Aqui!].

Cadê a comoção com o ataque terrorista contra os 5 jovens pretos no Rio de Janeiro?

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Por Fransérgio Goulart

do Fórum de Juventudes RJ – Publicado no Brasil de Fato

Logo quando aconteceu o atentado terrorista na França, a população carioca e a brasileira em redes sociais vieram logo manifestar toda a solidariedade aos mortos e suas famílias. Por que no caso dos 5 jovens mortos pelo atentado terrorista do grupo denominado PM (Polícia Militar) não aconteceu o mesmo?

Por que com os mortos da França a grande mídia não levantou a ficha de antecedentes criminais dos mortos? E já no atentando terrorista do RJ, a primeira pergunta feita foi qual o antecedente criminal dos 5 jovens pretos moradores de favelas?

Não estamos querendo com essas indagações, afirmar que uma dor é maior que outra, mas sinalizar e diagnosticar o racismo e o processo de criminalização dos jovens negros, pobres e moradores de favelas e de bairros de periferia.

O atentado terrorista realizado pelo ESTADO (PM) contra os 05 jovens negros: Wilton Esteves Domingos Júnior, 20 anos; Wesley Castro Rodrigues, 25 anos; Cleiton Correa de Souza,18 anos; Carlos Eduardo da Silva de Souza, 16 anos e Roberto de Souza Penha, 16 anos é mais uma prova cabal do RACISMO INSTITUCIONAL vigente e histórico das polícias brasileiras.

E não podemos aceitar de jeito algum o discurso do governador Pezão e do Secretário de Segurança Pública Mariano Beltrame que trata-se de mais um ato isolado e de caráter e conduta do indivíduo policial. E também não aceitamos o discurso que formação é o caminho para resolver esse genocídio. As questões são muito mais profundas.

A polícia já é muito bem formada para acabar com nossas vidas e corpos negros favelados, é só vermos a história da própria polícia e essa lista recente que faz parte do relatório do impacto da militarização na vida dos jovens negros do Fórum de Juventudes RJ, e entendermos o processo do racismo e da militarização que recebemos cotidianamente:

Carlos Magno levou um tiro de fuzil na nuca, Paulo Roberto foi espancado até morrer, João não se lembra mais quantas vezes levou tapa na cara de policial. Claudia Ferreira foi baleada, seu corpo foi removido do local do crime no porta-malas de uma viatura policial e no trajeto ficou pendurado no para-choque por um pedaço de sua roupa, sendo arrastado por quase 300 metros. Carolina estava indo pra escola quando sua casa foi invadida por policiais, que a xingaram e deram um chute nas suas costas, deixando na sua blusa de uniforme a marca da sola do coturno da PMERJ. Daniel e Felipe foram obrigados a entrarem numa viatura, que após dar voltas por toda a favela com eles, os levou pra uma quadra onde eles foram obrigados a se arrastar pelo chão com canos de fuzis encostados nas suas costas, fazendo pressão sobre a pele pra eles rastejarem como cobras. Mariana todos os dias desvia seu caminho na volta pra casa com medo de ser estuprada pelos agentes da UPP da favela onde mora. Zélia não fez mais festas em casa depois que sua neta recém-nascida foi atingida por spray de pimenta no rosto no dia que os policiais de plantão invadiram seu churrasco de dia das mães. Julia e outras crianças da mesma rua têm medo do barulho do helicóptero blindado do BOPE que sobrevoa baixo e faz ventar no telhado das suas casas. Vinicius foi perseguido por meses porque pintou o cabelo no salão do amigo e passou a máquina fazendo desenhos. Marcos foi parado e revistado por soldados do exército dezessete vezes no mesmo dia na favela onde mora – os mesmos soldados que nessas revistas examinaram fralda de bebê de colo.

A presença militarizada do Estado é atualizada todos os dias em cada xingamento racista e/ou machista, em cada casa invadida com chave mestra, em cada laje feita de esconderijo sem autorização, em cada equipamento de comunicador comunitário apreendido por um policial ou por um soldado. A militarização dos espaços de favelas é alimentada pela lógica bélica que constrói a ideia de que os moradores de favelas, especialmente os jovens negros, são inimigos que precisam ser eliminados. É essa mesma lógica que pauta toda a racionalidade estatal que elabora as políticas públicas direcionadas pra esses espaços de favelas e periferias e pauta também as subjetividades das pessoas que não moram nas favelas e que demandam mais e mais policiamento, que investem em equipamentos de segurança privada e que legitimam as ações genocidas dos agentes de Estado. O processo de militarização das favelas e das periferias do Rio de Janeiro é uma das peças principais do funcionamento de uma engrenagem governamental de controle de corpos dos jovens negros (as).

Mas diante de mais um Atentado Terrorista do Estado(PM), o Fórum de Juventudes RJ vem gritar e dizer: esses corpos negros caídos no chão não podem ser naturalizados e entendido pela sociedade como algo normal. Criar uma grande arena pública para debate e ações com a sociedade brasileira sobre o racismo e a militarização de nossas vidas é fundamental.

Nossa sociedade brasileira e carioca está doente, e essa doença é chamada RACISMO. Podemos a partir de um processo da desmilitarização do sistema de segurança pública e da descriminalização das drogas minorar esses atentados terroristas do Estado realizado através de suas polícias, mas isso só vai ser possível se colocarmos o Racismo e a questão de Classes como eixos estruturantes dessas discussões e entender o protagonismo da juventudes negras, pobres e faveladas nessa construção.

Estamos na luta sempre nas ruas e não em gabinetes. Nossos mortos não serão esquecidos, e racistas não passarão !!!

E convidamos a todos e todas para estarmos no ato contra o Genocídio da Juventude Preta no dia 03 de dezembro às 17 horas no Parque de Madureira.

FONTE: http://www.canalibase.org.br/cade-comocao-ataque-jovens-rj/