Sob pressão dos fatos, Águas do Paraíba emite nota “estilo Chacrinha” que mais confunde do que explica

chacriha

De uma forma bem atípica, a concessionária “Águas do Paraíba” finalmente resolveu vir à público para tentar responder à divulgação dos resultados sobre a qualidade da água de torneira divulgados pelo “Mapa da Água” e repercutidos por mim neste blog. O problema é que a nota emitida pela concessionária que monopoliza os serviços de água e esgoto em Campos dos Goytacazes está contaminada pelo que eu caracterizo como sendo “estilo Chacrinha” que é aquele imortalizado pelo saudoso comunicador Abelardo Barbosa que dizia que não tinha vindo “para explicar para confundir”.

Uma primeira faceta curiosa da nota “Chacrinha” da Águas do Paraíba é que há um reconhecimento de que a empresa forneceu dados errados para o banco de dados do Sisagua (será que ofereceu mesmo), gerando uma desconformidade entre o que teria sido medido e o que foi informado ao Ministério da Saúde.  Aqui, assumindo então que agora os dados são verdadeiros, haveria que se agradecer ao pessoal do “Mapa da Água” por alertar, gratuitamente, a Águas do Paraíba de que os dados fornecidos estavam incorretos.

A segunda faceta é que, diferente do que consta no “Mapa da Água“, a Águas do Paraíba declarou que suas medições encontraram apenas um agrotóxico (qual?) nas águas que analisou.  O curioso é que em 2019 na edição anterior do “Mapa da Água”, os resultados para Campos dos Goytacazes eram de que os 27 agrotóxicos medidos na água servida aos campistas tinham sido detectados, sendo que 9 deles estavam acima dos limites máximos permitidos. Naquela ocasião, talvez por não ter havido a mesma repercussão de agora, a Águas do Paraíba não se deu ao trabalho de contradizer os dados divulgados.  Por outro lado, me parece curioso que agora apenas 1 dos 27 agrotóxicos tenha sido encontrado e dentro dos limites máximos permitidos. Faltou a nota da Águas do Paraíba nos contar como se conseguiu esta performance tão melhor agora.

A terceira faceta que me chamou a atenção é que a nota da “Águas do Paraíba” informou que  a “concessionária informa que seus processos de tratamento de água estão de acordo com as tecnologias e procedimentos necessários, conforme características da água bruta tratada em cada unidade, sendo suficientes para o atendimento dos parâmetros previstos na legislação vigente.”  Em outras palavras, a água estaria chegando nas torneiras em atendimento ao que a lei determina.  Aqui faltou dizer que a legislação brasileira é bem mais tolerante, por exemplo, no caso dos agrotóxicos. 

No seu “Atlas dos Agrotóxicos” a professora Larissa Bombardi mostrou que no caso do glifosato (hoje caracterizado pela  como sendo causador do Linfoma de Non-Hodgkin) tem um limite legal 5.000 maior no Brasil do que o valor praticado na União Europeia. Em outras palavras, atender os parâmetros previstos na legislação vigente não assegura aquilo que todo consumidor deseja, qual seja, que a água que chega em suas torneiras é totalmente seguro.

O fato é que pensada ou não parece replicar o estilo de comunicação do Chacrinha, a nota da Águas do Paraíba confunde mais do que explica. Como haverá uma audiência pública no dia 31 de março na Câmara de Vereadores para discutir a qualidade dos serviços prestados pela empresa, vamos aguardar para ver se até lá temos informes mais precisos e menos enrolados.  Afinal de contas, isto é o mínimo que se espera de uma empresa que cobra tão caro por seus serviços.

Pego com “diploma fake”, Ricardo Salles dá uma de Chacrinha

chacrinha

Pego no escândalo do seu “fake” diploma de mestre pela Universidade de  Yale pelo site “The Intercept”, Ricardo Salles, o ainda ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, está lançando mão de duas conhecidas táticas de diversionismo para dar vida ao famoso lema de Abelardo Barbosa, o Chacrinha: eu não estou aqui para explicar, mas para complicar.  A primeira é lançar mão do descrédito ao jornalista que fez a matéria, imputando a ele o adjetivo que cabe ao seu inexistente título de mestre (ver reprodução de uma manifestação de Ricardo Salles em sua página oficial no Twitter).

ricardo salles fake news

A segunda tática é jogar a culpa sobre a informação agora sabidamente falsa nas costas de sua assessoria que teria se equivocado ao fornecer o dado à Folha de São Paulo no longínquo ano de 2012.

Mesmo que se admita que em 2012, a assessoria de Ricardo Salles tenha se equivocado em fornecer um dado falso, o problema é que só agora ele veio a público desmentir a informação. Em suma, ficou 7 anos sendo validado por uma informação que agora diz ser “equivocada” e que só está esclarecendo porque foi fisgado pela capacidade investigativa do jornalista Leandro Demori.

Mais interessante é o fato de que o primeiro cargo público que Ricardo Salles atesta em seu “franciscano” currículo profissional na área pública que está depositado na página oficial do Ministério do Meio Ambiente é o de “secretário particular”  (seja lá isso  o que for) do governador Geraldo Alckmin, o que teria se dado apenas em 2013.  Então qual teria sido a “assessoria” de Ricardo Salles que produziu a informação sobre o diploma inexistente na Universidade de Yale?

A verdade é que se estivesse no ministério de qualquer outro presidente brasileiro, Ricardo Salles já estaria tomando o rumo de caso depois dessa revelação que lhe cobre de vergonha. Mas como estamos sob o governo Bolsonaro é possível que ele ainda resiste algum tempo no cargo.

 

E o “Troféu Abacaxi” vai para a Prefeitura de São João da Barra!

A mídia corporativa local anunciou nos últimos dias a realização do “I Festival do Abacaxi” de São João da Barra. A matéria produzida pelo site “Ururau” teve até espaço para uma declaração curiosa do prefeito  Neco que teria declarado que “a cultura do abacaxi cresce a cada dia em São João da Barra, principalmente no quinto distrito, e a administração municipal caminha ao lado do produtor rural incentivando e prestando todo apoio necessário. Os investimentos no setor agrícola continuarão a serem feitos para que os resultados sejam cada vez melhores” (Aqui!).  Essa declaração é, no mínimo, curiosa já que a desapropriação de cerca de 7.500 hectares de terras onde o abacaxi era uma das culturas âncoras, e como não assisti nenhum aumento nas áreas restantes que compensasse o que foi tirado da agricultura familiar para beneficiar Eike Batista e seu conglomerado de empresas pré-operacionais, essa declaração de Neco parece ser um tanto descolada da realidade. Terra essa hoje que repousa nas mãos da corporação multinacional EIG Global Partners, diga-se de passagem.

O verdadeiro quadro no V Distrito está muito distante dessa realidade rósea que a prefeitura de São João da Barra tenta pintar com a realização desse festival. O fato é que os agricultores que teimam em continuar trabalhando para produzir alimentos agora estão pagando caro para arrendar terras, o que aumenta os custos sem que haja qualquer apoio para seja agregado valor para aumentar a lucratividade da produção. É até penoso ouvir a narrativa desses agricultores em relação ao suplício que sua labuta na agricultura, pois um número significativo deles continua esperando algum tipo de apoio oficial, inclusive para que se acelere o pagamento das compensações devidas pela expropriação de suas terras.

Assim, o verdadeiro festival do abacaxi de São João da Barra foi promovido por Eike Batista que usou dos seus contatos para expropriar terras produtivas e construir um grande latifúndio improdutivo em terras de agricultores humildes que tiravam da areia toneladas de alimentos todos os anos sem muito apoio oficial, diga-se de passagem.

E nunca é demais lembrar que está em curso um processo de salinização que pode ameaçar o que restou de área livre para a prática da agricultura! Aliás, com a volta das chuvas esse processo deverá mostrar seus efeitos nas áreas em que a cultura ainda é pratica. Assim, em vez de fazer um festival “fake” do abacaxi, o que a prefeitura de São João da Barra deveria estar fazendo era monitorar o andamento desse processo de contaminação ambiental. Bom, ai já é pedir demais de quem vende a imagem de que o Porto do Açu é a salvação da lavoura, não é?

Por essas e outras, é que no melhor estilo do Chacrinha, a prefeitura de São joão da Barra deveria receber o “troféu abacaxi” pelo tratamento dispensado aos agricultores desapropriados no V Distrito!