Banhos de maio

Mergulho do secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, na Baía de Guanabara, não foi o primeiro

Por João Batista Damasceno*

corrra cgagas

Rio – O mergulho do secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, na Baía de Guanabara, visando a assegurar que suas águas não são tão poluídas como mostrara reportagem, não foi o primeiro. Trata-se de um secretário mergulhão, mas em locais seguros. Desta vez Corrêa banhou-se em hora adequada, na maré cheia, com a água limpa do oceano entrando, em ponto junto à entrada da Baía, onde a corrente é mais forte. Evitou, desta forma, contaminação. Em 23 de dezembro de 2001, quando ocupava o mesmo cargo, no governo Garotinho, caiu no Piscinão de Ramos, acompanhado do então ministro do Trabalho de FHC, Francisco Dornelles, atual vice-governador. Em disputa de braçadas, o secretário se saiu melhor que o então ministro, que também ganhou exposição e aproximação com eleitores da periferia.

A entrada de autoridades em rios, praias e lagos poluídos para demonstrar sua adequação não é novidade nem aqui nem em lugar algum do Terceiro Mundo. Em data recente, autoridade indiana bebeu água do Ganges, um dos rios mais poluídos do mundo, para demonstrar sua adequação para as festividades em homenagem à divindade materna que simboliza.

Mas a escola no Rio é bem anterior. Em maio de 1982, acidente industrial poluiu o Rio Paraibuna, e a onda tóxica invadiu o Paraíba do Sul, destruindo fauna e flora. Toneladas de peixes mortos desceram rio abaixo. A poluição chegou até Campos, dizimando a vida por cerca de 300 quilômetros. O governador de Minas fechou a empresa poluidora, e o governador do Rio, Chagas Freitas, fundador do DIA , enviou mensagem ao então ministro Mário Andreazza informando que pediria indenização pelos prejuízos causados. Decorridos 10 dias, quando a lama venenosa interrompera o abastecimento de água para a população ribeirinha, o Dr. Chagas foi a Campos e banhou-se no Paraíba do Sul, além de beber sua água.

O governador era da ala moderada da oposição, dócil à ditadura, em tempo de bipartidarismo. Era aliado de Tancredo Neves, tio de Dornelles, e se opunham — na oposição — à ala autêntica, liderada por Ulysses Guimarães. Não se tem notícia de doença contraída pelo Dr. Chagas, nem de ajuste com a ditadura para sua conduta. Mas, naquele momento, prestou-se a tentar convencer a sociedade de que a poluição que via era apenas miragem.

O meio ambiente saudável é direito público subjetivo, do qual todos somos titulares. Melhor seria se, em vez de tentarem nos convencer de suas lucubrações, as autoridades tomassem efetivas decisões para a despoluição, a começar pelos rios e canais que deságuam na Baía de Guanabara.

*João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito

FONTE: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2015-05-09/joao-batista-damasceno-banhos-de-maio.html

André Corrêa imita Chagas Freitas e pula na Baía da Guanabara para “provar” que a poluição não é tão forte assim

Chagas

Mergulho. O governador do Rio, Chagas Freitas, toma banho no Rio Paraíba do Sul, em Campos Agência O Globo / 22/05/1982

Em 1982, em meio a um dos mais dramáticos incidentes ambientais que já atingiram o Rio Paraíba do Sul, o causado pela Companhia Paraibuna Metais, o então governador fluminense Chagas Freitas visitou a cidade de Campos dos Goytacazes e ali se jogou nas águas poluídas para demonstrar que o problema não era tão grave quanto a imprensa anunciava. 

Eis que quase 33 anos depois (faltou pouco porque o incidente da Paraibuna metais ocorreu no dia 12 de maio), o (des) secretário estadual do Ambiente, o inexpressivo André Corrêa, se jogou nas águas da Baía da Guanabara para também provar que o “bicho não está tão feio quanto parece”. 

Essa imitação seria até cômica se a pouco menos de um ano dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, as imagens diárias de lixo sólido e líquido entrando nas águas de um dos mais lindos ecossistemas do planeta não estivesse matando a vida aquática e colocando em perigo quem se arrisca a desafiar a contaminação que permanece descontrolada após bilhões de supostos investimentos.

Não é à toa que André Corrêa escolheu local e hora mais propícios, pois certamente seus assessores no INEA já lhe informaram quais tipos de doenças podem ser contraídos se o pulo nas águas for em local e hora menos aconselháveis para pessoas de fino trato como o (des) secretário. E não custa nada lembrar que depois daquele banho no Paraíba do Sul, coincidência ou não, Chagas Freitas atravessou um longo histórico de depressão e tentativas de suicídio, faleceu por problemas na aorta abdominal.

Secretário mergulha na Baía de Guanabara, mas escolhe local e hora mais propícios

A ação de André Corrêa é em defesa das competições das Olimpíadas de 2016

POR O GLOBO

ANDRE CORREIA

Otimista. Corrêa diz que na Baía dá para mergulhar como em Ipanema – Reprodução/Rede Globo / Reprodução/Rede Globo

RIO – O secretário estadual do Meio Ambiente do Rio, André Corrêa, deu um mergulho na Baía de Guanabara em reportagem exibida neste domingo pelo programa “Fantástico”, da TV Globo, com o objetivo de assegurar que as águas do local não são tão poluídas como mostravam as imagens de degradação exibidas pelo programa no domingo anterior.

O secretário escolheu cuidadosamente o local e o horário para banhar-se: um ponto junto à entrada da Baía, onde a corrente é mais forte, e durante a maré cheia, quando a água limpa do oceano está entrando.

– Aí, ó. Aqui dá para mergulhar igual em Ipanema, igual lá na Barra. Como eu disse, o desafio é o lixo flutuante. Esse é o desafio que nós vamos enfrentar porque lixo zero em nenhuma baía a gente consegue – disse o secretário.

O secretário admite que a poluição é grande numa das raias olímpicas, perto da Marina da Glória, mas garante que nas outras raias a água é boa. É o caso do trecho onde ele mergulhou, onde é menor o risco de a sujeira prejudicar os competidores de vela nas Olimpíadas.

FONTE: http://oglobo.globo.com/rio/secretario-mergulha-na-baia-de-guanabara-mas-escolhe-local-hora-mais-propicios-16049004#ixzz3ZAOVKHXs