Os cartunistas do Charlie Hebdo estão levando a culpa por seu próprio massacre

Por Kiko Nogueira

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Luciana Genro acerta quando afirma que “o fascismo islâmico só retroalimenta a xenofobia e o fascismo europeu – no fundo são duas faces da mesma moeda”. Os que cometem crimes bárbaros em nome da religião, diz ela, “o fazem pisoteando a crença de milhões de pessoas de diferentes credos”.

Mais: os corpos dos cartunistas do Charlie Hebdo ainda estão quentes e eles já estão levando a culpa pela própria morte.

O líder católico conservador americano Bill Donohue divulgou um comunicado condenando a violência — MAS (sempre tem um “mas”)  “nós não devemos tolerar o tipo de atitude que provocou essa reação violenta”.

De alguma forma, os desenhistas fizeram por merecer. Um sujeito deixou o seguinte comentário num portal. “Esse jornaleco comunista desrespeitava explicitamente as religiões, perseguia-as, afrontando-as com charges de extremo mau gosto. Uma coisa é liberdade de expressão, outra bem diferente é querer ‘causar’ para vender mais jornais, e a serviço de uma ideologia que até hoje só trouxe MERDA, e da grossa, à humanidade. Ah, vá! Esses jornalistas mereceram cada bala que receberam.”

Há quem ache que os profissionais do Charlie pagaram pela política externa da França, seu alinhamento com os EUA, as bombas no Iraque e os maus tratos à comunidade árabe no país. Eles são desumanizados para servir de argumento ao gosto do cliente.

Charlie é — sim, porque ele continuará sendo impresso — um semanário de esquerda. Sempre foi antirreligioso. Bate em católicos, no islã, no judaísmo. Em políticos e na polícia. De acordo com o falecido editor Stephane Charbonnier, o Charb, reflete “todos os componentes do pluralismo esquerdista, até de abstêmios”.

De acordo com o jornalista inglês baseado na França Hugh Schofield, são parte de uma tradição do país que remete aos pasquins que ridicularizavam Maria Antonieta. A ideia é ser ultrajante e de mau gosto.

A publicação foi fundada em 1960, como Hara-Kiri. Foi banido algumas vezes. Em 1970, o presidente francês Charles de Gaulle, velho inimigo, morreu em sua propriedade em Colombey-les-Deux-Églises. Em homenagem a ele, e também a Charlie Brown, o jornal foi rebatizado Charlie. Mau gosto? Provavelmente. No caso do jornal, já era exatamente o que se esperava.

Em Paris, três homens agindo em nome de Alá entraram na redação e fuzilaram a equipe, além de um policial na fuga. Aos olhos dos assassinos, o CH ridicularizava ícones do islamismo e tinham de ser fuzilados.

Os matadores obviamente não representam todos os muçulmanos. Mas deram uma enorme força para a islamofobia crescente na Europa. O New York Times publicou o relato de uma sobrevivente chamada Corinne Rey do atentado. Alguns trechos:

Era por volta das 11h30 e cerca de uma dúzia de jornalistas, incluindo os principais cartunistas do jornal, se juntou a ele [Charb] para a reunião semanal regular para discutir os artigos que apareceriam na próxima edição. O dia deles já tinha sido produtivo: menos de duas horas antes, os editores publicaram um tweet de sua mais recente charge provocadora, um desenho de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, desejando ao seu público um Feliz Ano-Novo e, “acima de tudo, boa saúde!”.

Sem que soubessem, uma cena de terror estava transcorrendo à sua porta –uma que chamaria a atenção do mundo e provocaria novos temores por toda a Europa a respeito de um crescente choque de civilizações, entre os radicais islâmicos e o Ocidente.

Corinne Rey, uma cartunista conhecida como Coco, tinha acabado de pegar sua filha pequena na escola e estava digitando um código de segurança para entrar no prédio quando dois homens em trajes pretos, armados com metralhadoras automáticas AK-47, a agarraram e a forçaram brutalmente a abrir a porta.

Empurrada para dentro, Coco disse que se refugiou sob uma mesa enquanto os homens entravam no saguão e seguiam para o balcão da recepção, onde um segurança que trabalhava ali há 15 anos, Frédéric Boisseau, estava sentado.

 

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Segundo uma testemunha citada na imprensa francesa, os assassinos abriram fogo, matando Boisseau e disparando tantas vezes no saguão que algumas pessoas acharam que se tratava da queda de um andaime.

Momentos depois, segundo testemunhas, os homens subiram correndo as escadas, com suas metralhadoras prontas, e seguiram para a sala de reunião.

“Onde está Charb? Onde está Charb?”, eles gritavam, usando o apelido amplamente conhecido de Charbonnier. Ao avistarem seu alvo, um homem magro de óculos, os homens miraram e atiraram.

Então, disseram as testemunhas, eles mataram os principais cartunistas do jornal que estavam sentados, paralisados. Depois massacraram quase todas as demais pessoas na sala em uma rajada de fogo.

“Durou cerca de cinco minutos”, disse Coco, abalada e com medo. “Eles falavam francês perfeitamente e alegavam ser da Al-Qaeda.”

Sigolène Vinson, uma free-lancer que decidiu vir naquela manhã para participar da reunião de pauta, achou que seria morta quando um dos homens a abordou.

Em vez disso, ela contou à imprensa francesa, o homem disse: “Eu não vou matar você, porque você é uma mulher, nós não matamos mulheres, mas você deve se converter ao Islã, ler o Alcorão e se cobrir”, ela lembrou.

“Depois”, ela acrescentou, ele partiu gritando, “Allahu akbar, Allahu akbar!” [Alá é grande, Alá é grande].

O tipo de sátira praticada pelo Charlie era propositadamente de mau gosto, obscena, iconoclasta. Só poderia ser publicada ali. A tragédia acabou transformando os criadores em algo que criticavam: mártires.

Depois que o prédio do Charlie Hebdo foi alvo de uma bomba em 2011, Charb disse que a culpa não era dos muçulmanos franceses, mas de “extremistas idiotas”. A frase continua atual. Ele deveria abandonar seu ofício por causa de fanáticos? Mudar de ideia?

Ninguém deveria ter o direito de se apropriar da tragédia com aqueles artistas para difundir seus próprios dogmas.

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FONTE:  http://www.diariodocentrodomundo.com.br/luciana-genro-acerta-quando-diz-que-o-fascismo-islamico-alimenta-o-fascismo-europeu/

Atentado contra a extrema-esquerda na França

JE SUIS CHARLIE
Por João Alexandre Peschanski.

Charlie Hebdo, cuja redação foi alvo de um atentado terrorista em 7 de janeiro de 2015, é um veículo de comunicação de extrema-esquerda. A origem política e artística dos principais nomes do veículo remonta aos anos 1960 na França. É a essa geração original que pertenciam Cabu e Wolinski, que estão entre as doze vítimas confirmadas até o momento em que escrevo este texto, com vários feridos ainda em estado grave. A marca inicial soixante-huitarde – dos participantes dos protestos de 1968 – está impregnada em toda a trajetória do semanário satírico.

O diretor de redação do Charlie Hebdo, Charb, também assassinado no ataque, era parte de uma nova geração de artistas e jornalistas, diretamente herdeira do grupo original. Três décadas mais jovem que Cabu e Wolinski, era ele quem orientava a linha política e editorial do semanário desde 2009. Segundo o jornal francês Libération, foi ele o principal alvo dos terroristas.

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Charb é especialmente conhecido por seu engajamento com bandeiras progressistas na França. Atuou diretamente em campanhas do Partido Comunista Francês e da Frente de Esquerda. Preparou o material de divulgação de mobilizações contra o racismo e a guerra. Uma de suas tiras mais conhecidas,Maurice et Patapon, reúne um cão (Maurice) anarquista, bissexual, pacifista e extrovertido, e um gato (Patapon) fascista, assexuado, violento e perverso. Essa obra, de traços simples, se preocupa principalmente em revelar as tensões muitas vezes escatológicas entre as personagens – o cão como aquilo que sonhamos ser e o gato como nos pressionam a ser, diz Charb em entrevista. O nome da tira remete a um dos símbolos do colaboracionismo francês com o nazismo, Maurice Papon, responsável direto pela morte de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. No trabalho de Charb, o alvo era muitas vezes a extrema-direita crescente na Europa, especialmente o Front National (Frente Nacional), da família Le Pen. O ex-presidente Nicolas Sarkozy foi também objeto frequente dos desenhos de Charb, a quem dedicou vários livros de ilustrações.

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O ex-presidente Nicolas Sarkozy, em charges do livro Marx, manual de instruções

No Brasil, o trabalho de Charb ficou especialmente conhecido pelas ilustrações que acompanham o livro Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd, lançado em 2013. Aí, apresenta caricaturas sobre o mundo do trabalho, a vida de Marx, os dilemas da esquerda. Há uma charge especialmente marcante, um “aviso” intitulado “Nem todos os barbudos são Marx”, onde retrata o encontro de Marx com um islâmico radical. A mensagem que fica é: não basta a esquerda revolucionária e os extremistas religiosos terem inimigos em comum para estarem na mesma luta. Aliás, Charb não poupava sátiras a todas as religiões.

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A partir de 2006, quando Charlie Hebdo ficou mundialmente conhecido por republicar charges cômicas retratando Maomé e ser alvo de críticas e ataques de grupos islâmicos fundamentalistas, Charb adotou como tema central de seu trabalho o Islã. Anticlerical, dizia: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo” – e a guerra e o capitalismo, poderia sem dúvida ter acrescentado. Quando Charb assumiu a direção do semanário, a satirização do Islã tornou-se tão importante na linha editorial quanto a ridicularização do fascismo e das perversões do capitalismo, rendendo várias primeiras-páginas doCharlie Hebdo e ataques contra a redação, incluindo um atentado contra sua sede em 2011.

Charb, na frente do Charlie Hebdo após o atentado que explodiu a sede do semanário na manhã 2 de novembro de 2011. Em suas mãos, a edição programada para o dia de 3 de novembro que motivou o ataque.

A linha sistemática de sátira do Islã fez com que Charlie Hebdo fosse alvo de críticas por parte da esquerda francesa. Por um lado, as críticas eram justas, pois na tentativa de satirizar o Islã pela esquerda muitas charges acabaram deslizando para abjeto racismo e islamofobia, servindo principalmente de material aos grupos próximos à família Le Pen e sua campanha xenófoba na França. Vale dizer que o mau gosto e os excessos também eram e são cometidos no semanário contra judeus, católicos etc. Por outro lado, havia e há ainda certa perplexidade na esquerda francesa sobre sua posição política em torno do crescente movimento islâmico, o uso do véu em escolas e por militantes, o árabe como idioma nacional. Parte da esquerda combativa francesa via-se diante do problema de não saber “o que fazer” com o Alcorão. Nesse contexto, o semanário satírico dirigido por Charb marcava uma posição firme, a mesma que tradicionalmente adotara contra instituições conservadoras: a chacota inveterada, atravessando muitas vezes o limite do bom gosto. “Não tenho a impressão de assassinar alguém com nossas caricaturas”, salientava Charb em entrevista.

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Charges do livro Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd e Charb. Clique na imagem para ampliar.

A sátira ao Islã nas páginas do Charlie Hebdo dava-se a partir de uma leitura progressista, de rejeição ao conservadorismo clerical, diretamente alinhada a posições tradicionais do semanal contra o sionismo, o fascismo, o imperialismo e o capitalismo. Entender o atentado de 7 de janeiro, um dos mais graves já ocorridos na França, apenas como um ataque à liberdade de expressão é uma meia verdade e envolve um grande risco político de interpretação. A liberdade de expressão de Charb, Cabu, Wolinski e a equipe do Charlie Hebdo era um meio para um posicionamento político radicalmente democrático e profundamente progressista, na tradição da extrema-esquerda francesa. O risco de interpretar o atentado como meia verdade é alimentar ainda mais um dos principais oponentes do semanal satírico, o fascismo europeu, e fomentar a polarização entre os extremistas de direita e do Islã. Não indicar os assassinatos de Paris como um atentado à extrema-esquerda – e simplesmente contra a sociedade ocidental e a liberdade de expressão no abstrato – abre espaço para fortalecer aquilo que os jornalistas do Charlie Hebdo mais repudiavam: a extrema-direita. E, como dizia Charb, “a Frente Nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara e contra eles não economizamos nossa arte”.

 

João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas

FONTE: http://blogdaboitempo.com.br/2015/01/07/atentado-contra-a-extrema-esquerda-na-franca/