Rio Negro pode atingir cota de inundação severa este ano em Manaus

Previsão do Serviço Geológico do Brasil alerta para o pico da cheia entre os meses de junho e julho

Segunda previsão de cheia mostra que Rio Negro deve atingir média de 28,3  metros em 2020, diz CPRM | Amazonas | G1

O rio Negro pode atingir a cota máxima de 29,45m em Manaus em 2021. A previsão é do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM). Esse valor para o pico da cheia representa a média, que pode variar dentro de um intervalo provável de 28,55m a 30,35 m (considerando um intervalo de confiança de 90%). Segundo o modelo utilizado, a probabilidade de que o rio venha atingir a cota de inundação em Manaus (de 27,50 m) é de 99%. Para a cota de inundação severa (29,00 m) essa probabilidade é de 80%.

A probabilidade de que esteja em curso uma cheia tão grande quanto a de 2012, ano da máxima histórica, existe, mas é de aproximadamente 17%. A cota máxima deve ser atingida entre junho e julho. O nível do rio Negro em Manaus depende da chuva que cai em toda a planície amazônica; a viagem da água da cabeceira até a foz do rio leva um mês.

O prognóstico foi divulgado pelo SGB/CPRM, empresa ligada ao Ministério de Minas e Energia, na manhã desta quarta-feira (31), durante o tradicional Alerta de Cheias de Manaus, que acontece desde 1989. A gravação da live está disponível no canal da TV CPRM .

rio negro

O retângulo amarelo no mapa é o que se espera do rio em Manaus entre os meses de junho e julho, com tendência a um evento extremo

Neste ano, o Alerta se estendeu para outras duas cidades amazonenses. Na cidade de Manacapuru, o nível do rio Solimões está acima do esperado para o atual período do ano. A previsão é que o rio atinja 20,27m em média, podendo variar entre 19,20 e 21,20 m, com 90% de confiança.

Em Itacoatiara, o rio está acima do nível normal desde fevereiro e deve atingir uma média de 14,90 m, com 90% de confiança de que fique no intervalo entre 14,30 m e 15,60 m. A cota de inundação no município, de 14,00m, tem 99% de chances de ser atingida neste ano, e a cota de inundação severa (14,20 m) tem a probabilidade de 97%.

A metodologia de determinação de cada uma das cotas de referência citadas, assim como os pontos que as representam estão detalhados no Relatório de Definição de Cotas de Referência da Amazônia Ocidental, disponível no link: http://rigeo.cprm.gov.br/jspui/handle/doc/22012

Segundo a pesquisadora Luna Gripp, os eventos estão cada vez mais extremos na Amazônia Ocidental, tanto em frequência quanto em magnitude. Seis das 10 maiores cheias de toda a série histórica de Manaus (com dados desde 1902) aconteceram recentemente, entre 2009 e 2020.

Nesse contexto, o Alerta de Cheias é importante para minimizar os impactos à população, uma vez que no Amazonas as comunidades foram sendo desenvolvidas muito próximas aos rios, o que as torna muito vulneráveis. O Sistema de Alerta Hidrológico do Amazonas beneficia hoje cerca de 3,3 milhões de pessoas diretamente.

FENÔMENO LA NIÑA

Conforme o meteorologista Renato Senna, o final de 2020 teve um déficit de precipitação em grande parte da Bacia Amazônica Ocidental. No princípio de 2021 esse padrão se inverteu e já em fevereiro de 2021, as chuvas foram muito acima do esperado na bacia como um todo, causando inclusive transbordamentos no Acre.

O pesquisador do Sipam explica que os oceanos são atores determinantes nas chuvas e, no caso da região amazônica, essa influência se dá pelo Pacífico. Como está em curso o fenômeno La Niña, de resfriamento das águas, ele altera a formação de nuvens sobre o oceano e elas passam a se concentrar na Oceania. O resultado têm sido chuvas mais concentradas e em maior quantidade do que o normal na Amazônia, o que tende a se agravar. Em abril, maio e junho as chuvas devem diminuir em intensidade e ficar um pouco acima do normal no médio e baixo Negro, além do curso principal do rio Solimões.

“Segundo grande parte dos modelos de previsão, o fenômeno La Niña está se encerrando, fazendo com que o Pacífico tenda a se aquecer. Ao final do trimestre, a bacia do rio Branco pode chegar a condição de déficit já que a estimativa é de que as chuvas não sejam suficientes”, destacou Senna.

DEFESA CIVIL

Em vídeo apresentado durante o Alerta de Cheias, o Major Hélcio Cavalcante, chefe do Departamento de Resposta ao Desastre e Suporte da Defesa Civil do estado do Amazonas, afirmou que todos os municípios da calha do Juruá já estão com situação de emergência decretada. Na calha do Purus, 5 dos 7 municípios estão em situação de emergência. Como exemplo de resposta e proteção à população, a Defesa Civil estadual tem oferecido à população unidades móveis de tratamento de água.

BOLETIM SEMANAL

A Superintendência Regional do SGB-CPRM em Manaus emite semanalmente o Boletim de Monitoramento Hidrometeorológico da Amazônia Ocidental, que avalia o comportamento dos rios nos principais pontos das bacias dos rios Negro, Solimões, Madeira e Amazonas, observando a cota atual em relação a dados da série histórica.

Divulgado na última sexta-feira (26), o 12º boletim de monitoramento hidrometeorológico da Amazônia Ocidental mostra que a área tem 4 bacias com rios acima do nível normal para este período do ano. Na Bacia do rio Purus, o nível do rio Acre em Rio Branco (Acre) apresentou e está, atualmente, com níveis altos para o atual período.

As estações da calha do rio Solimões também se encontram em processo de enchente; nos municípios de Coari (Estação de Itapéua) e Manacapuru, os níveis atuais observados são maiores do que os esperados para o atual período do ano.

Em Manaus, o rio segue em processo de enchente e vem subindo a uma média de 6 cm por dia na última semana, encontrando-se em um nível considerado alto para o período. Clique aqui para ver o boletim completo .


REDE HIDROMETEOROLÓGICA NACIONAL

Os Sistemas de Alerta Hidrológico implantados e operados pela CPRM tem o apoio da Agência Nacional de Água (ANA), por meio de aporte de recurso para operação das estações que compõem os Sistemas, as quais fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional. Das estações da RHN, mais de 200 estações de monitoramento são operadas pela unidade da CPRM em Manaus em rios amazônicos.

PARTICIPAÇÃO NA LIVE

Os próximos alertas estão marcados para 30 de abril e 31 de maio. Nesta primeira edição, estiveram acompanhando ao vivo a apresentação a Defesa Civil Estadual do Amazonas, Defesa Civil de Manaus, Defesa Civil de Manacapuru, ​Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres – Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (CENAD/SEDEC/MDR), ANA, Defesa Civil do Careiro da Várzea, Defesa Civil de Roraima, Equipe de Resposta Nacional da Cruz Vermelha Brasileira, Departamento de Gestão de Risco de Desastre da Cruz Vermelha Brasileira Amazonas, Laghi Engenharia, Inmet-AM, Grupo de pesquisa em Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (MAUA-INPA), ISB-Coari da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Coordenação de Obras em Vias Navegáveis do DNIT, Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Consórcio L-RT, responsável pelos levantamentos na hidrovia do rio Madeira e a Unidade Gestora de Projetos Especiais do Governo do Amazonas (UGPE/CIAMA e UGPE/Ambiental). Os participantes tiveram a oportunidade de fazerem perguntas através do chat do canal, que foram respondidas ao vivo pelos pesquisadores Renato Senna e Luna Gripp.

As hidrelétricas, a nova cheia histórica do rio Madeira e as tergiversações de Dilma

Por LUIZ FERNANDO NOVOA GARZON   

A presidente Dilma Rousseff promoveu uma viagem relâmpago a Porto Velho e Rio Branco, no dia 15 de março, para verificar in loco o resultado da maior cheia já observada nessa porção da Amazônia – entre Rondônia, Acre e o noroeste boliviano. A verificação poderia ter se traduzido em algo mais do que as migalhas emergenciais de praxe, liberadas em casos de “calamidade pública”. Poderia ter sido um início de averiguação e avaliação conscienciosa dos danos sociais e ambientais adicionais, para além dos chamados “danos naturais”. Danos adicionados a outros tantos pré-existentes, produzidos por intervenções predatórias e imprevidentes, como foram as implantações das usinas de Santo Antônio e Jirau no rio Madeira.

A presidente não precisaria fazer tal sobrevoo para anunciar medidas mitigatórias-padrão. Motivações da campanha eleitoral pela reeleição? Talvez. Mas convenhamos que o público-alvo em questão não são os diminutos eleitorados dos dois estados. Dilma veio em defesa de sua preciosa relação com o setor elétrico que embalou sua carreira política. Veio reafirmar que as concessões no setor de infraestrutura são incondicionadas – e por isso muito rentáveis para os investidores. Veio advogar, com túnica presidencial, a causa dos consórcios que detêm a concessão para aproveitamento energético do rio Madeira: “É um absurdo atribuir às duas hidrelétricas a quantidade de água que vem pelo rio”, afirmou a zelosa Dilma. Absurda é a própria alegação de que alguém possa atribuir tal dom às hidrelétricas.

Não há registro de qualquer afirmação de que as hidrelétricas multipliquem água. Se tal milagre fosse possível, os reservatórios do centro-sul não estariam em tão baixo nível. É preciso não escamotear: o problema nunca foi a água que vem pelo rio, mas a que ficou no meio do caminho por conta de dois reservatórios concebidos e operados sem estudos hidro-sedimentológicos suficientes e que abrangessem a bacia do rio Madeira.

A presidente procurou ser didática na vitimização dos investidores privados, que primeiro se empenharam na cruzada, vinculada ao PAC, de expandir em marcha forçada a fronteira elétrica para toda a Amazônia. “E eu até uso a fábula do lobo e do cordeiro. O lobo na parte de cima do rio diz ao cordeiro: ‘você está sujando minha água’. O cordeiro respondeu: ‘não estou, não. Eu estou abaixo de você no rio’”. Odebrecht e Suez, controladoras respectivas das concessionárias de UHE de Santo Antônio e Jirau, seriam o cordeiro? Quem seria então o lobo nessa fabulação? A natureza em si mesma, inexorável e imprevisível?

Se assim fosse, tais hidrelétricas nem poderiam ter sido construídas, ou nem poderiam mais operar, pois foram planejadas para fazer uso controlado da vazão hídrica, ou seja, da “água que desce”. Dilma tergiversa e diz que agora “vamos trabalhar para que não sejamos mais pegos de surpresa em situações como essa que aconteceu em Rondônia”. Mas se todos “fomos pegos de surpresa”, foram pegos em primeiro lugar os dois consórcios, o IBAMA, a Agência Nacional de Águas e a Agência Nacional de Energia Elétrica, justamente aqueles que atestavam plena viabilidade do empreendimento e juravam deter todos os dados relevantes para o monitoramento do fluxo e do volume de água que “entra no Madeira”.

Se, como diz a presidente, “não podemos evitar desastres naturais, mas temos como amenizar os danos causados por eles”, a responsabilidade primeira pela amenização desses danos – antes, durante e depois do desastre – deveria ser dos consórcios e dos órgãos licenciadores e de outorga. Segue em contradição consigo mesma a presidente: “basta lembrar o exemplo de várias cidades nos Estados Unidos, onde existe um período de inverno denso, mas após esse período a agricultura e as condições estruturais da cidade são rapidamente normalizadas, isso vem do planejamento e monitoramento”.

Exatamente o que não veio, o que não foi cobrado e fiscalizado. Planejamento e monitoramento que agora precisam ser efetivados ao custo da suspensão da licença de operação, conforme o acertado entendimento do Ministério Público e da Justiça Federal, em primeira instância, que obriga os consórcios a assumirem a responsabilidade pelos danos a montante, além de refazerem os estudos de impacto em função da nova vazão máxima atingida.

O que deveria ter sido condição prévia (provar a capacidade do empreendimento de se adaptar à dinâmica do rio e da bacia) tornou-se uma interpelação judicial – que vem sendo soberbamente ignorada pelas empresas concessionárias. Assim como obtiveram suas licenças ambientais à revelia dos embargos técnicos e dos conflitos sociais de 2007 até hoje, a Santo Antônio Energia (SAE) e a Energia Sustentável do Brasil (ESBR) acreditam apenas na lei do lobo e no seu direito de devorar o cordeiro, de apossar-se do rio e de determinar unilateralmente seu uso. Acreditam também no direito de inviabilizar o modo de vida das comunidades ribeirinhas, de interromper o ciclo de reprodução e migração dos peixes e do agroextrativismo de várzea. Além disso, converteram a cidade de Porto Velho, capital do estado, primeiro em um apêndice dos seus canteiros de obras e depois em um campo de testes da incidência da vazão a jusante, o que redundou no desbarrancamento de toda sua orla e na condenação de seu patrimônio histórico mais conhecido, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Em dezembro de 2013, já era possível identificar acúmulo de precipitações na região dos formadores do Madeira. Em janeiro de 2014, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) já descreviam o fenômeno chamado “Alta da Bolívia” que, associado à zona de convergência intertropical e ao bloqueio proporcionado por uma extensa massa de ar quente e seca posicionada no centro- sul, estava produzindo níveis de precipitação acima da média nos Departamentos de Beni (Bolívia) e Madre de Dios (Peru).

Enquanto isso, a SAE e a ESBR, obcecadas com a maximização do aproveitamento energético e motorização das usinas, atracavam-se em torno de novas cotas máximas para seus reservatórios. Até o desligamento das turbinas, determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e atestado no dia 24 de fevereiro, a usina de Santo Antônio operava acima da cota autorizada de 70,5m (71,3 m segundo a CPRM, ou 75m, conforme sua “parceira” de empreendimento, a ESBR), passando a operar desde então com uma cota de 68m. Os dois reservatórios retiveram água porque planejaram maximizar sua operação no período da cheia, indiferentes e cegos ao fenômeno climático e hídrico que se instaurava nas cabeceiras. Consumado o desastre, restou-lhes despejar a água excedente para salvar suas instalações.

Novos estudos, se promovidos com distanciamento mínimo dos interesses imediatistas das empresas concessionárias, poderão provar que as usinas funcionaram como uma bomba de retardo e contenção de água a montante, “afogando” igarapés, furos e rios acima, território boliviano adentro. Poderão provar também que a subida das águas a jusante, a partir da última semana de fevereiro, se deu de forma muito acelerada e em defasagem com o fluxo concomitante verificável em Abunã, a montante de Jirau.

Em suma, diante da nova e “surpreendente” cheia histórica, as usinas se mostraram ineptas para controlar ou sequer acompanhar a variabilidade da vazão hídrica e de sedimentos do rio Madeira. Primeiro super-armazenaram, depois passaram a liberar grandes “bolsões” d’água com efeitos fatais para comunidades ribeirinhas centenárias como São Carlos, Calama e Nazaré, que tiveram suas casas não apenas alagadas, mas arrancadas pela correnteza amplificada pela abertura não programada dos vertedouros das usinas.

A presidente certamente entende que o funcionamento de usinas a fio d’água na Amazônia deveria pressupor conhecimento meticuloso e detalhado da variação da vazão e do nível dos rios formadores e em formação. Como também sabe que esse conhecimento e essa capacidade operacional não existem – por causa da flexibilização do licenciamento ambiental que ela mesma promoveu enquanto ministra de Minas e Energia e depois como presidente –, ela tergiversa.

As usinas são responsáveis não pela cheia do Madeira, com as quais os povos e comunidades da região sempre souberam lidar até a construção das usinas, mas pelos seus efeitos amplificados e direcionados justamente para os segmentos populacionais que já se encontravam mais fragilizados por conta dos impactos cumulativos de sua implantação.

Luis Fernando Novoa Garzon é professor da Universidade Federal de Rondônia e pesquisador do ETTERN/IPPUR-UFRJ.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9433:submanchete180314&catid=72:imagens-rolantes