Mineradoras australianas perderão US$ 11 bilhões em valor de mercado à medida que a derrocada das commodities se acelera

bhpUma pequena figura de brinquedo e imitação mineral são vistas na frente do logotipo da BHP nesta ilustração tirada em 19 de novembro de 2021. REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Por Shashwat Awasthi para a Reuters

20 Jun (Reuters) – As três grandes mineradoras da Austrália estavam em vias de perder mais de 16 bilhões de dólares australianos (US$11,12 bilhões) em valor de mercado combinado nesta segunda-feira nos níveis atuais, à medida que se aprofunda a queda na venda de commodities  causada pela diminuição da demanda da China e pelos temores de uma recessão global se aprofundaram.

As ações da Rio Tinto listadas na Austrália (RIO.AX) devem perder quase A$ 2 bilhões em valor, BHP (BHP.AX) mais de A$ 10 bilhões, e Fortescue Metals (FMG.AX) mais de A$ 4 bilhões.

A menor produção das siderúrgicas chinesas afetou a demanda por minério de ferro, enquanto os preços de commodities como cobre e alumínio caíram devido a preocupações de que aumentos agressivos das taxas de juros pelo Federal Reserve dos EUA e outros bancos centrais possam levar a economia global a uma recessão.

Os três gigantes da mineração australiana, até agora este mês, já perderam cerca de 30 bilhões de dólares australianos de seu valor de mercado combinado e estão enfrentando uma terceira semana consecutiva de perdas depois de atingir mínimos de várias semanas na segunda-feira.

As ações da Rio Tinto e da BHP estão sendo negociadas na mínima de um mês, enquanto a Fortescue está na mínima de três meses.

“Estamos condenados? Ou é mais escuro antes do amanhecer?”, escreveram os analistas da Jefferies no sábado com referência a dados econômicos recentes, os bloqueios da COVID-19 na China e a narrativa política do Fed.

Eles pareciam se inclinar para o último, confiantes de que a desaceleração da demanda por commodities seria seguida por uma recuperação liderada pelas mineradoras, acrescentando que os temores de recessão e inflação dariam lugar à recuperação.

Analistas do JP Morgan também ecoaram os riscos para o setor, mas disseram que um novo apoio político, juntamente com a flexibilização dos bloqueios da COVID-19 na China, estimularia uma recuperação no segundo semestre de 2022 e manteria sua visão “neutra” sobre a Rio Tinto e a BHP.

Mineradoras australianas caem em junho em meio a queda de commodities
Mineradoras australianas caem em junho em meio a queda de commodities


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!]

Do glifosato ao glufosinato: o aprofundamento de um modelo de deterioração socioambiental na Argentina pelas mãos da “geração HB4”

trigo limpo

Por Coletivo Trigo Limpo

Este trigo, projetado para tolerar o estresse hídrico e o herbicida glufosinato de amônio, é um novo recurso técnico-científico para expandir um modelo de agricultura extrativista baseado no objetivo de produzir commodities e ganhar dólares, de mãos dadas com práticas que aumentaram a concentração de riqueza , a exclusão das populações rurais e indígenas, bem como a deterioração da saúde humana e do meio ambiente.

A recente resolução 2022-27APN-SABYDR#MAGYP publicada em 12.5.2022 autoriza a liberação comercial do Organismo Vegetal Geneticamente Modificado (OGM) trigo IND-ØØ412-7 (Hb4).

Este trigo, projetado para tolerar o estresse hídrico e o herbicida glufosinato de amônio, é um novo recurso técnico-científico para expandir um modelo de agricultura extrativista baseado no objetivo de produzir commodities e ganhar dólares, de mãos dadas com práticas que aumentaram a concentração de riqueza , a exclusão das populações rurais e indígenas, bem como a deterioração da saúde humana e do meio ambiente.

As práticas hegemônicas da agricultura industrial estão fortemente relacionadas ao desmatamento e contaminação por agroquímicos (Angelsen e Kaimowitz 2001), com a deterioração da fertilidade do solo, do patrimônio genético, com o despovoamento rural, com maior desigualdade, com a perda da soberania alimentar, e com o aumento dos conflitos territoriais, entre muitos outros problemas que podemos citar.

Na Argentina, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca (MAGyP), desde a autorização da soja RR em 1996 até a primeira variedade transgênica de trigo aprovada em 2020, foram autorizados 62 eventos transgênicos. Cinquenta deles foram projetados para serem tolerantes a pesticidas. A maioria foi solicitada por 9 empresas transnacionais, lideradas pela Monsato-Bayer, que é responsável por 25 dessas variedades transgênicas. Além disso, é notável o aumento da introdução de caracteres combinados em variedades geneticamente modificadas que foram aprovadas em nosso país (também chamadas de “eventos empilhados” segundo Pilacinski et al. 2011). É o caso de várias variedades transgênicas nas quais foram introduzidos genes de tolerância conjunta ao glifosato e ao glufosinato de amônio. De acordo com o banco de dados MAGyP, existem atualmente 23 eventos transgênicos aprovados com tolerância conjunta a ambos os herbicidas, principalmente em variedades de milho, soja e algodão. Há também eventos de tolerância a outros herbicidas como dicamba e 2,4D, entre outros.

A isso se soma a recente aprovação do trigo transgênico HB4, tolerante à seca e glufosinato de amônio. A República da China aprovou recentemente a comercialização de soja tolerante à seca mais glifosato e glufosinato de amônio, um desenvolvimento produzido entre o CONICET e a empresa Bioceres, previamente aprovado na Argentina em 2018 (base de dados ArgenBio 2022). A notícia teve pouca repercussão na mídia, mas a aprovação da China, maior compradora de soja da Argentina (Sly 2017), sem dúvida resultará não apenas em maior contaminação por agroquímicos, o que por si só já é muito alto e inaceitável, mas também na expansão das lavouras de soja em detrimento dos ecossistemas semiáridos na Argentina. Desmatamento de ecossistemas secos tropicais e subtropicais (Grau et al. 2005; Aizen 2020) é uma prática claramente irresponsável no contexto dramático da mudança climática global que estamos passando (Siyum 2020). Nesse sentido, cabe destacar que os atuais modos de produção e apropriação da natureza em sinergia com as mudanças climáticas derivadas do aquecimento global e a consequente perda da biodiversidade, aproximam perigosamente a biosfera dos limites da possibilidade da própria vida. Por isso, é urgente pensar em novas formas de produzir alimentos saudáveis ​​em contextos socioambientalmente justos, ao invés de continuar repetindo a mesma receita que está gerando tantos problemas. Embora o desenvolvimento do trigo Hb4 seja promovido como uma solução combinada para o problema da seca e da fome, o resultado provável é que servirá apenas para aprofundar ambos os problemas,

Hoje sabemos que os problemas socioambientais que enfrentamos são de natureza complexa, envolvem múltiplos atores e se expressam em várias escalas de espaço e tempo. Por isso, sua abordagem requer um tratamento interdisciplinar e instâncias de participação democrática que possibilitem um diálogo horizontal entre o conhecimento científico e o conhecimento das comunidades e povos indígenas que lidam com esses problemas em seus territórios. Sabemos que a ciência tem contribuído para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, mas também destacamos que muitos dos desenvolvimentos técnico-científicos atuais estão impactando negativamente, sendo funcionais ao atual sistema produtivo e grandes responsáveis ​​pela crise ambiental em que vivemos nos encontramos, nos encontramos imersos Ciência e Tecnologia, como qualquer outra atividade humana, não são neutras e, sem dúvida, são atravessadas por valores e interesses. Por isso, suas prioridades e seus significados devem ser objeto de um amplo debate social, que enseje acordos sobre como queremos viver em territórios que produzam alimentos saudáveis, com projeção para níveis mais elevados de equidade e justiça socioambiental . Mas esse debate necessário é notável por sua ausência.

É preocupante a insistente instalação da imagem de cientistas destacados para justificar o desenvolvimento de políticas que nada mais são do que funcionais aos interesses econômicos ligados aos setores concentrados do poder. Apelam-se a visões tendenciosas, setores particulares do campo acadêmico que partem de saberes que são fragmentos e reduções da realidade e que assumem interesses e critérios éticos particulares. Ao contrário, os demais setores que não concordam com essa visão hegemônica são constantemente menosprezados, apresentando-os como obstáculos ao desenvolvimento do país, ainda que o acúmulo de evidências científicas não acompanhe, mas contrarie essas visões hegemônicas, reducionistas e sem licença comunitária.

Após mais de 25 anos de sua instalação e constante expansão, os impactos do modelo soja são visíveis. Os benefícios da semeadura direta para a conservação do solo desmoronaram com a introdução do pousio químico à base de glifosato. Sucessivas evidências de deterioração nos agroecossistemas e na saúde surgiram, detectadas e denunciadas por cidades fumigadas e ilustradas pelos resultados de inúmeras investigações científicas. Também pelo triste destino sofrido nas últimas décadas pelas florestas do Chaco, seus habitantes e sua biodiversidade, devastada pela ganância ilimitada no que diz respeito ao desempenho econômico do agronegócio. Da mesma forma, a promessa de crescimento e bem-estar está em desacordo com os níveis crescentes de dependência econômica, com o aumento escandaloso da pobreza,

O nosso país, submerso numa das suas piores crises económicas, com custos sociais extremamente elevados, e no contexto de uma crise socioeconómica global marcada por interesses geopolíticos, assim como ganância e intolerância, enfrenta desafios profundos, sendo um dos principais a necessária a transição do modelo extrativista para formas de produção e consumo solidárias, amigas do meio ambiente e da saúde de nosso povo, que contribuam para o bem viver. Apesar disso, o governo nacional decide mais uma vez optar pela continuidade da expansão de um modelo agroexportador que aprofunda a primarização da economia, concentra a riqueza e privilegia os retornos de curto prazo de alguns sobre o bem-estar da população. Mesmo multiplicando a bateria de agroquímicos já utilizados: herbicidas, inseticidas e fungicidas, que, somado à aprovação da Hb4 de trigo e soja, autoriza formalmente o uso do glufosinato de amônio. Apesar de vários funcionários e pesquisadores afirmarem desde a primeira instância de aprovação do trigo Hb4 em 2020 que os transgênicos que conferem tolerância ao glufosinato de amônio a esse evento eram apenas marcadores residuais da técnica usada para introduzir tolerância à seca, e garantiram que o glufosinato não seria utilizado em culturas, não há dúvida de que isso não corresponde aos termos da aprovação ou à política de comercialização da empresa Bioceres. Os próprios fundamentos da Res.27/2022 do MAGyP mencionam um parecer que -referindo-se ao glufosinato de amônio-, afirma que “estima-se que isso será uma nova alternativa para otimizar o controle de plantas daninhas na cultura do trigo e aumentar a produtividade em situações de estresse hídrico”. O glufosinato de amônio é um produto químico cujo risco é classificado pelo SENASA como faixa azul (15 vezes mais tóxico que o glifosato catalogado na faixa verde).

Para entender mais claramente qual é a lógica desses desenvolvimentos para perpetuar o agronegócio, é interessante conhecer o depoimento de quem os promove e se beneficia economicamente deles. Durante o 2020 China Formulation Innovation Summit, o diretor de P&D da Dow Chemical Asia Industrial Solutions, Dr. Jeff Mu, fez a seguinte pergunta para os participantes da indústria agroquímica da China: “Qual é o desenvolvimento sustentável da indústria agroquímica da China? A resposta do CEO Rajan Gajaría, vice-presidente executivo de Plataformas de Negócios da Corteva Agroscience, foi contundente “Não temos uma estratégia de sustentabilidade, temos um negócio que é sustentável”. De acordo com a meta para 2030 dessa empresa, sustentabilidade é uma espécie de interação entre sua produção e “soluções” para a sociedade como estratégia de negócios. Uma confissão de partes, retransmissão de provas. Da mesma forma, a empresa Bioceres comercializa seus novos eventos Hb4 soja e trigo como um “pacote tecnológico” que inclui o herbicida glufosinato de amônio, como pode ser visto em anúncios e treinamentos na WEB (ver:https://youtu.be/Jp2fBFJCVJE a partir do minuto 3.05).

Um aspecto fundamental para entender a tecnologia dos eventos empilhados é que, como na maioria das embalagens da agricultura transgênica, eles constituem uma “estratégia de negócios” para a venda cada vez maior de herbicidas e outros agroquímicos, sem levar em conta os danos que causam. causar saúde e meio ambiente. É importante considerar que muitas das empresas de sementes que produzem variedades transgênicas, principalmente as quatro maiores do mercado global (chamadas “Big 4”), também produzem e comercializam herbicidas, multiplicando assim seus lucros ao aumentar a dependência dos produtores ao impor a pacote tecnológico. Os valores éticos, políticos, sociais e ambientais associados a este tipo de lógica mercantilista nada têm a ver com o bem-estar do nosso povo,

No caso do glufosinato de amônio, Tianyu Dong (2020) mostrou que a exposição a esse herbicida durante o período pré-natal gera atividade locomotora reduzida, produzindo mecanismos de memória prejudicados e comportamentos semelhantes ao autismo em modelos experimentais de mamíferos. Outra investigação relevante do ano de 2018, publicada no International Journal of Environmental Pollution da Universidade Nacional Autônoma do México, constata que o glufosinato de amônio altera a qualidade (morfologia, mobilidade) e o DNA do esperma de mamíferos. De fato, a União Européia (Regulamento (CE) nº 1107/2009) determina que esta substância é proibida para todos os usos na categoria de “pesticidas”. Não há muito mais a acrescentar sobre os danos que -se não houver volta- este novo pacote tecnológico causará à saúde, apenas alertar sobre qual é o destino de grande parte das exportações argentinas de trigo: outros países pobres (ou poderíamos chamá-los de zonas de sacrifício). Dada a resposta de que as possíveis consequências deste pesticida se devem ao uso indevido ou à não aplicação de “boas práticas”, basta percorrer a bibliografia disponível para analisar em que locais e grupos de organismos, em que não devem ser encontrados, foram detectados os principais herbicidas aplicados, como é o caso do glifosato.

Por tudo isso, as políticas públicas relacionadas a esse problema fazem nascer a crença de que o Estado Nacional abandona a indelegável responsabilidade constitucional de proteger a população como um todo para proteger os interesses das empresas, em especial do grupo Bioceres e da empresa de serviços pesquisa e desenvolvimento (Indear ).

Consequentemente, solicitamos ao Governo Nacional que revogue RESOL-2022-27-APN-SABYDR#MAGYP. Ao mesmo tempo, tendo aprovado a República Argentina por lei nacional o Acordo de Escazú (Lei nº 27.566), exigimos que ela honre os compromissos assumidos, facilitando o acesso à Informação e possibilitando instâncias para a participação pública nas decisões relacionadas a questões ambientais. sensíveis como os expostos aqui. Além disso, solicitamos que sejam promovidas leis, atualmente atrasadas no Congresso Nacional, que promovam e financiem o acesso a modelos alternativos de produção e consumo condizentes com abordagens agroecológicas, agricultura familiar, acesso à terra, entre muitas medidas que possam pensar como alternativas à pecuária industrial.

Bibliografia e links consultados

  • Aizen M. 2021. Desmatamento no Gran Chaco: a bomba de carbono que o mundo ignora. Mongabay, Jornalismo Ambiental Independente na América Latina.  https://en.mongabay.com/2021/06/deforestation-gran-chaco-carbon-bomb/
  • Schmidt, M., Toledo López, V., Tobías, M., Grinberg, E., Merlinsky, G.. Conflito socioambiental pelo uso de agroquímicos em Salta, Santiago del Estero e Santa Fe, Argentina. Cien Saude Colet [jornal online] (2021/mar). [Citado em 26/05/2022]. Está disponível em:  http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/conflictividad-socioambiental-por-uso-de-agroquimicos-en-salta-santiago-del-estero-y-santa-fe-argentina/17986 ? id=17986
  • Schmidt, M. e V. Toledo López. «Agronegócio, Impactos Ambientais e Conflitos pelo Uso de Agroquímicos no Norte da Argentina». Revista Kavilando, Vol. 10, No. 1, Fev. 2018, págs. 162-79,  https://www.kavilando.org/revista/index.php/kavilando/article/view/218 .
  • Angelsen, A. & Kaimowitz, D. (eds.). 2001. Tecnologias Agrícolas e Desmatamento Tropical. Editora CABI, Wallingford, Reino Unido
  • ArgenBio©, 2022. Conselho Argentino de Informação e Desenvolvimento de Biotecnologia. Culturas transgênicas aprovadas na Argentina. www.argenbio.org/cultivos-transgenicos (Acessado em 30 de abril de 2022).
  • Dong, T., Guan, Q., Hu, W., Zhang, M., Zhang, Y., Chen, M., … & Xia, Y. (2020). A exposição pré-natal ao glufosinato de amônio perturba o microbioma intestinal e induz anormalidades comportamentais em camundongos. Journal of Hazardous Materials, 389, 122152.
  • Grau HR, Aide TM & Gasparri NI 2005. Globalização e Expansão da Soja em Ecossistemas Semiáridos da Argentina. AMBIO: A Journal of the Human Environment 34(3), 265-266, (1 de maio de 2005). https://doi.org/10.1579/0044-7447-34.3.265
  • MAGyP, Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca, (acessado em maio de 2022)  https://www.argentina.gob.ar/agricultura/alimentos-y-bioeconomia/ogm-vegetal-eventos-con-autorizacion-comercial
  • Pilacinski W, Crawford A, Downey R, Harvey B, Huber S, Hunst P, Lahman LK, Macintosh S, Pohl M, Rickard C, Tagliani L & Weber N. 2011 Plantas com eventos geneticamente modificados combinados por melhoramento convencional: uma avaliação de a necessidade de dados regulamentares adicionais. Alimento Químico Toxicol. Jan;49(1):1-7. doi: 10.1016/j.fct.2010.11.004.
  • Siyum, ZG 2020. Dinâmica das florestas tropicais secas no contexto das mudanças climáticas: sínteses de drivers, lacunas e perspectivas de gestão. Processo Ecológico 9, 25 https://doi.org/10.1186/s13717-020-00229-6
  • Sly MJH (2017) A parcela argentina da cadeia de commodities da soja. Palgrave Comunicações. 3:17095 doi:10.1057/palcomms.2017.95.

Fonte: Coletivo Trigo Limpo –  colectivo.trigolimpio@gmail.com


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Este texto foi originalmente escrito em Espanhol e publicado pela BiodiversidadLA [Aqui!]

Paraguai ou Soyguay: O resultado do agronegócio

A soja do Paraguai é majoritariamente geneticamente modificada e o cultivo é voltado para a exportação para a Europa. Com isso, a Europa alimenta seu gado em operações em massa e é o maior produtor de biodiesel do mundo

reforma agraria paraguay

Grafite em Assunção, capital do Paraguai: “Reforma Agrícola Agora”. Agricultores e comunidades indígenas lutam por uma distribuição justa de terras há décadas. FONTE:ÁLVARO MINGUITO. 
Por  Jesus Gonzalez Pazos, Tradução:Pia Niederhoff para o Amerika21

Há países que permanecem quase inteiramente no anonimato e, se pensarmos nas Américas, talvez o Paraguai venha em primeiro lugar. Na Europa, a maioria das pessoas teria grande dificuldade em encontrar o país no mapa, e as mesmas dificuldades surgiriam se perguntássemos sobre uma característica que caracteriza o país.

E, no entanto, além da mão de obra barata (mulheres migrantes como empregadas domésticas ou no cuidado de idosos), grande parte da soja geneticamente modificada que faz da Europa o maior produtor mundial de biodiesel vem desse país sul-americano.

Por mais positivos que o país tenha, se você se concentrar nos negativos, em breve poderá acabar renomeando o Paraguai como “Soyguay”. Em campanha publicitária em 2003, uma das maiores corporações transnacionais do agronegócio, a então Syngenta, hoje ChemChina-Syngenta, colocou esse território no centro de uma fictícia “República Unida da Soja” junto com outros estados vizinhos como Argentina e Brasil como Bolívia e Uruguai.

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“República Unida da Soja” da Syngenta.  FONTE:NODAL

Naquela época, o Paraguai era (e ainda é) um dos maiores países produtores de soja do mundo, sendo a soja em grande parte geneticamente modificada e voltada para exportação para a Europa. Com isso, a Europa pode alimentar seu gado, sobretudo na produção em massa, e ser o maior produtor de biodiesel do mundo.

Cabe lembrar que o biodiesel é um dos “bons” combustíveis no processo de decomposição dos combustíveis fósseis. No entanto, a questão é multifacetada, se considerarmos as consequências que o atual modelo de produção intensiva está tendo sobre os solos. Como muitos dizem, o problema não é só a planta, principalmente na sua variante geneticamente modificada, mas sobretudo a forma como é produzida. E o Paraguai é o melhor exemplo para representar essa outra realidade.

Agora, quase vinte anos após a campanha publicitária, é evidente que a situação piorou. Não só pelo solo, mas também pelos direitos humanos coletivos e individuais dos povos indígenas e do campesinato.

Oitenta por cento da terra arável do Paraguai está coberta de soja e praticamente 85% do antigo Bosque Atlântico foi desmatado. O responsável por isso é a invasão do agronegócio, que controla a produção em quase 95% da terra, enquanto a população camponesa controla apenas 5% da área restante. Do ar, metade do leste do país, 40% de seu território, aparece como um vasto mar verde, geneticamente modificado, no qual toda a vida não relacionada à soja, inclusive a humana, é sufocada todos os dias.

Essa crescente destruição ambiental obviamente tem consequências que não se refletem apenas na destruição da natureza em benefício do negócio desenfreado da soja. Além disso, há as consequências sociais, como o deslocamento direto ou indireto dos grupos populacionais rurais e indígenas, o que, por sua vez, leva a um crescente empobrecimento desses grupos populacionais e a uma maior desigualdade. E tudo isso é fruto da imposição do modelo neoliberal (extrativismo que coloca os mercados antes da vida, em seu sentido mais amplo), que tem consequências em quatro áreas em particular:

No ecológico 

A destruição de solos devido ao uso excessivo de pesticidas como o glifosato (até 58.569 toneladas de agroquímicos foram importados em 2019), esgotamento do solo (desaparecimento de nutrientes), poluição.

Do lado social 

Deslocamento da população camponesa e indígena (até 900.000 nos últimos dez anos) para as periferias das cidades ou para a emigração e perda das condições de vida digna. Um em cada três paraguaios nas áreas rurais vive em extrema pobreza.

No econômico 

O agronegócio só é lucrativo para as elites, não para o país. Cria 15% dos empregos precários com condições mínimas de trabalho e as receitas fiscais são apenas 2%, embora representem 25% do PIB.

Politicamente

Favorecimento mútuo das elites políticas e econômicas, corrupção desenfreada e políticas governamentais que favorecem a agricultura industrial em detrimento da agricultura camponesa e indígena.

No Paraguai, o maior impulso ao agronegócio veio do governo de Horacio Cartes (2013-2018), ou seja, após a deposição do presidente Fernando Lugo em um golpe de Estado. Ao mesmo tempo, aumentou a criminalização do crescente protesto social, indígena e rural.

Nesse panorama, o crescimento do protesto está enraizado na desigualdade social, na perda de terras e territórios camponeses e indígenas, despejos e deslocamentos para as periferias urbanas, no lento desaparecimento da agricultura tradicional, na degradação ambiental e, coletivamente, na atrofia dos direitos e condições de vida.

A resposta do governo, além de criminalizar os protestos, é a repressão aos setores mobilizados.

Por isso, 70% da violência perpetrada contra os protestos sociais está diretamente ligada aos objetivos das elites de desmobilizar, criminalizar e reprimir a luta indígena e camponesa por terra e território. Tentativas estão sendo feitas para manter o status quo que prevaleceu no Paraguai nas últimas décadas, particularmente desde a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

Paraguai ou Soyguay, enfim, a vida ou os interesses dos mercados, é disso que se trata.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com liberação de mais 25 agrotóxicos, governo Bolsonaro totaliza 1.660 liberações em 39 meses e 1,4 por dia

tereza bolsonaro

Jair Bolsonaro e Tereza Cristina seguem com a marcha desenfreada de liberações de venenos agrícolas altamente tóxicos

Em uma demonstração óbvia de que não está esperando pela aprovação do Pacote do Veneno também no Senado Federal, o governo Bolsonaro liberou por meio do Ato No. 14 de 07 de março um total de 25 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, levando seu “grand total” a 1.660 venenos agrícolas liberados em 1.169 dias de governo, o que dá a média de 1,4 agrotóxicos liberados por dia. Até para um país cuja agricultura de exportação está firmemente aprisionada na dependência química, esses números são de assombrar qualquer um que se preocupa com os ecossistemas nacionais e a saúde dos brasileiros.

Agrotóxicos proibidos na União Europeia circulam livremente no Brasil

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa, que importa  alimentos produzidos com estes químicos

Um aspecto repetitivo de toda essa onda de aprovações é a presença de produtos banidos na União Europeia cuja legislação pode ser considerada mais rígida do que a brasileira. A “estrela” do Ato No. 14, com 7 produtos liberados, é o Espirodiclofeno, um acaricida que foi proibido na União Europeia (UE) em julho de 2020. Mas além desse, esse ato mais recente também liberou o fungicida Epoxiconazol que está proibido na UE desde abril de 2020.

De quebra, outro “proibidão” liberado foi o fungicida Carbendazim que está proibido desde 2014 após ter sido relacionado a uma ampla gama de doenças que incluem embriotoxicidade, apoptose, teratogenicidade, infertilidade, disfunção hepatocelular, efeitos de desregulação endócrina, interrupção de funções hematológicas, anomalias do fuso mitótico, efeito mutagénico e aneugênico.

Mas apesar de todos esses efeitos, o governo Bolsonaro liberou 10 agrotóxicos contendo o princípio ativo do Carbendazim, uma substância pertencente ao grupo químico Benzimidazol.

A predominância da China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil

Agrotóxicos produzidos na China são maioria no pacote de venenos aprovado  pelo governo Bolsonaro |

Outra característica de liberações anteriores que se repetiu no Ato No. 14 foi a forte presença de empresas chinesas no fornecimento de venenos agrícolas para a agricultura nacional, na medida que 24 dos agrotóxicos serão produzidos por empresas sediadas na China. Entretanto, a única exceção que foi o fungicida Pidiflumetofem é produzido na Suiça pela Syngenta, que também é uma empresa chinesa.

Um dado expressivo sobre a dependência brasileira da indústria chinesa de agrotóxicos é que dos 1.660 agrotóxicos liberados nos 39 meses de governo Bolsonaro, 1.001 são “Made in China”, um número que ainda não representa a totalidade do impacto chinês, na medida em que empresas sediadas em países como a Suiça (Syngenta) e Israel (Adama) são de fato propriedade da ChemChina, fundada em 1984, que é um empresa química estatal chinesa que atua nos segmentos de produtos agroquímicos,  borracha, materiais químicos e especialidades químicas, equipamentos industriais e processamento petroquímico para os setores civil e militar.

Com uma 1,4 agrotóxico liberado por dia, governo Bolsonaro deverá ultrapassar 2.000 agrotóxicos liberados em 4 anos de mandato, um verdadeiro recorde mundial

Transgênicos e agrotóxicos: dois “temperos” ocultos na comida do brasileiro  |

Se o governo Bolsonaro mantiver sua média diária de liberações de venenos agrícolas  é de 1,42 por dia, o mais provável é que a dupla Jair Bolsonaro e Tereza Cristina coloquem mais de 2.000 agrotóxicos em um mercado já saturado deste tipo de produto altamente tóxico, o que invariavelmente nos levará a uma crise sanitária em alguns anos, dada a toxicidade de muitos dos produtos que estão sendo liberados, digamos, com sofreguidão.

Por isso tudo é que repito ser fundamental que haja um amplo debate em torno do modelo de agricultura viciada em agrotóxicos que hoje é hegemônica. O fato é que além de ser altamente poluentes e tóxicos, os agrotóxicos são hoje protegidos por uma série de benesses fiscais, causando fortes perdas financeiras a economia brasileira.

É passada a hora de se deixar de premiar o latifúndio agro-exportador e as corporações químicas às custas da degradação ambiental e do envenenamento da água e dos alimentos que os brasileiros consomem.

Quem desejar baixar a planilha contendo os 25 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 14, basta clicar [Aqui!]. Para os interessados em baixar a planilha contendo os 1.660 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Conflito na Ucrânia coloca agronegócio brasileiro em uma encruzilhada espinhosa

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A ação militar da Rússia está causando uma inquietação incomum nas lideranças do agronegócio brasileiro, especialmente naqueles setores que pensam estrategicamente ação do latifúndio agro-exportador. Ainda que as primeiras sinalizações sejam em torno do encarecimento do preço de fertilizantes, essas lideranças devem saber que existem coisas ainda mais graves fermentando enquanto as bombas caem em Kiev. 

Uma questão essencial tem a ver mais do que a compra de insumos, mas fundamentalmente do destino da produção. É que o alinhamento do Brasil (ainda que extra-oficial do presidente Jair Bolsonaro) à Rússia certamente terá consequências no mercado europeu, na medida em que neste momento a opção da União Europeia e dos EUA é usar uma mão pesada contra aqueles que forem vistos como lenientes com as ações do governo de Vladimir Putin.

Há que se lembrar que as commodities agrícolas brasileiras já vinham enfrentando problemas por causa do avanço do desmatamento na Amazônia, com uma série de grandes empresas optando por retirar produtos brasileiros de suas prateleiras por causa da pressão de uma clientela cada vez mais alarmada com a devastação promovida pelo agronegócio brasileira. Entretanto, agora o buraco, digamos assim, é mais embaixo porque as razões postas tem a ver mais com os esforços para conter o giro estratégico que os russos estão forçando nas relações comerciais e financeiras em escala global.

Por isso, todo o discurso que sendo alardeado de preocupação com o potencial aumento dos preços dos alimentos no Brasil por causa da falta dos fertilizantes fornecidos pela Rússia e pela Bielo Rússia não passam de uma cortina de fumaça, na medida em que a produção de alimentos no Brasil depende diretamente da agricultura familiar onde o uso de fertilizantes sintéticos ocorre em menor escala do que nos grandes latifúndios cuja produção é voltada primariamente para a exportação.

O erro estratégico da desnacionalização e privatização do setor de produção de fertilizantes

A ministra Tereza Cristina reconheceu ontem (2/3) um dos erros estratégicos mais óbvios que o governo Bolsonaro, do qual ela é uma das líderes ideológicas, cometeu desde que tomou o poder em janeiro de 2019. É que desde 2016, a Petrobras (já soube os desígnios de Michel Temer e Jair Bolsonaro) fechou três fábricas de fertilizantes, sendo caso da  Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) que foi fechada em fevereiro de 2020.

Com todos esses fechamentos, o Brasil precisa hoje importar 80% dos fertilizantes que utiliza na sua agricultura, o que com a atual situação na Ucrânia se mostrou um erro gravíssimo, na medida em que a Rússia não deverá voltar a exportar até que haja uma correção do sistema de pagamentos após a sua expulsão do chamado sistema “Swift“.

Desta forma, como não há uma fonte interna de produção, o que deverá ser um processo de escassez que, consequentemente, aumentará os custos de produção, contribuindo assim para uma perda de competitividade das commodities agrícolas brasileiras em um processo que poderá ser agravado pela diminuição da demanda.

A encruzilhada adiante é de natureza essencialmente estratégica

Um problema especialmente agudo que afeta o latifúndio agro-exportador brasileira tem pouco a ver com fertilizantes. Na verdade, como o que está ocorrendo na Ucrânia neste momento é apenas a ponta do iceberg de um movimento de reorganização do funcionamento da economia global, o agronegócio brasileiro (como o resto do mundo) vai ter que aguardar o final do conflito armado para ver qual será o rumo geopolítico das grandes forças envolvidas no processo.

É que tudo indica que estaremos entrando em um novo status quo geopolítico, com a ordem de Bretton Woods sendo enterrada para que se veja o nascimento de outra que será marcada pela justaposição ocidente-oriente. Como o Brasil, por sua natureza de economia dependente, tem os pés (e mãos) amarrados nesses dois polos, qualquer opção de alinhamento mais específico trará implicações políticas e econômicas.

A Constituição da China e o Conceito de Civilização Ecológica

ecological china

Por Douglas de Castro, Siyi Zhang e Chen Daoshan*

Se a racionalidade, conforme construída pelo projeto modernista, nos levou à beira da destruição (p.ex., Segunda Guerra Mundial, degradação ambiental e violação de direitos humanos), o movimento pós-modernista nos diz para desconstruir nossas experiências, porém, não fornece uma opção para substituí-las. Esta é a condição de fundo do precário estado da natureza devido à intervenção humana e uso insustentável dos recursos naturais vis-à-vis a (in) eficiência regulatória do Direito Internacional do Ambiente.

Desde o início do período das grandes navegações europeias, há um movimento sistemático para separar o mundo natural do mundo social.

O uso do termo “natureza”, que inclui a espécie humana, foi substituído por “meio ambiente”, o que implica nas coisas que circundam a humanidade. Mesmo o uso do termo natureza, hoje em dia, implica em posicionar o homem como um observador externo de um objeto de estudo e regulação. Este movimento foi notado por Raymond Willian em sua obra seminal Ideias da Natureza: “Um toque da natureza pode tornar todo o mundo familiar, mas geralmente, quando dizemos natureza, queremos nos incluir?”

Como causa direta da separação dos mundos natural e social, temos o paradoxo existência do Direito Ambiental Internacional. As altas pressões que o atual modelo desenvolvimentista aplica sobre a natureza, os crescentes fenômenos naturais extremos representam uma ameaça existencial para a humanidade. Neste contexto, o Direito Internacional do Meio Ambiente surge e é sustentado marginalmente pelas regulamentações do comércio ou excessos ou abusos dos direitos de propriedade. Nesse sentido, uma representação empírica desse argumento é a Convenção Internacional para a Conservação de Animais Selvagens, Aves e Peixes na África (1900), que foi elaborada por caçadores interessados ​​na “sustentabilidade” dos recursos de caça, juntamente com a sua sucessora, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (CITES-1973), na qual o comércio é o negócio principal.

Nosso argumento neste artigo é que o conceito de civilização ecológica introduzido pela Constituição chinesa reduz o significado interpretativo dos conceitos de natureza e meio ambiente, proporcionando, assim, uma importante contribuição ontológica ao Direito Internacional do Meio Ambiente.

O presidente Xi Jinping foi eleito secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC) e presidente da China em 2012, assumindo os cargos em Marco 14 de 2013. Na 18ª sessão do Comitê Político PCC em 24 de maio de 2013, ele proferiu: “Devemos aumentar a consciência sobre a necessidade de respeitar, proteger e acomodar-nos à natureza, seguir a política estatal básica de conservação de recursos e proteção ambiental e dar alta prioridade à conservação, proteção do meio ambiente e promoção de sua restauração natural”.

Em março de 2018, a Constituição chinesa foi emendada pela quinta vez desde 1954 para incorporar o conceito do “desenvolvimento de civilização ecológica”. A emenda marca a grande preocupação com as questões ecológicas no nível jurídico fundamental e com o processo de constitucionalização do “Plano Integrado das Cinco Esferas” do socialismo com características chinesas. A civilização ecológica significa que os seres humanos podem não apenas se beneficiar da natureza, mas também benefícios para a natureza, ou seja, os humanos devem proteger a natureza enquanto a transformam em uma interação harmoniosa entre o homem e a natureza. O conceito de civilização ecológica absorve e dá conta das variáveis de estudo da Teoria da Economia Circular, Teoria da Modernização Ecológica e Teoria da Economia de Baixo Carbono.

Esta Emenda Constitucional não adotou o método tradicional dos “direitos ambientais”, mas utilizou a forma de “cláusula objetiva nacional” para garantir o “desenvolvimento da civilização ecológica”, e realizar a proteção ambiental dos cidadãos por meio da imposição de obrigações ao Estado. Ao obter benefícios econômicos no processo de extração de recursos naturais, os as pessoas inevitavelmente causam danos ao meio ambiente, gerando um desequilíbrio economia, recursos naturais e meio ambiente. Neste momento, a “mão visível” do governo é necessária para intervir razoavelmente para equilibrar esses aspectos. Este é o propósito da civilização ecológica.

A Constituição atualmente forma um sistema normativo relativamente completo de “desenvolvimento de civilização ecológica” por meio de regulamentação normativa e substantiva.

1. As frases “novo conceito de desenvolvimento”, “civilização ecológica”, “bela China”, “um grande país socialista moderno” e “realizar o grande rejuvenescimento da nação chinesa” fazem parte do preâmbulo da Constituição. Pertence à parte das tarefas nacionais da China que incorpora os objetivos de valor da China e desempenha um papel de comando nos artigos da Constituição.

2. Os artigos 9, 10 e 26 que tratam dos “Princípios Gerais” da Constituição são disposições gerais para o macrocontrole do ambiente ecológico. Do ponto de vista da estrutura das normas, esses artigos são programáticos no sentido de incentivar o comportamento. O Artigo 9 estabelece como “o Estado deve garantir o uso racional dos recursos naturais e proteger os animais e plantas raras”. A obrigação contida no Artigo 10 incorpora a necessidade de que “todas as organizações e indivíduos que usam a terra devem usá-la de maneira apropriada”. O Artigo 26 prescreve que “o estado deve proteger e melhorar os ambientes de vida e o ambiente ecológico, e prevenir e controlar poluição e outros riscos públicos. O estado deve organizar e encorajar o florestamento e proteger as florestas”. Essas obrigações mostram os recursos naturais, recursos terrestres, qualidade de vida e aspectos ecológicos como centrais para o “desenvolvimento da civilização ecológica” como descrita no preâmbulo da Constituição. Eles fornecem garantias institucionais para a realização da obrigação nacional de “desenvolvimento da civilização ecológica” “e contém seu objetivo normativo.

3. O artigo 89 está localizado na parte das “Instituições do Estado” da Constituição, consubstanciando uma norma obrigatória para as funções e atribuições do Conselho de Estado na forma de uma enumeração positiva. É a forma específica nas instituições estatais da obrigação do Estado de “desenvolvimento da civilização ecológica”, refletindo formas concretas de promover o desenvolvimento da civilização ecológica.

A emenda da Constituição de 2018 inclui o “Plano Integrado das Cinco Esferas”, caracterizando o desenvolvimento do socialismo com características chinesas que abrange o desenvolvimento econômico, político, cultural, social e ecológico, assim, elevando o Plano ao status constitucional. O Plano foi proposto no 18º Congresso Nacional do PCC em 2012 e concluído no 19º Congresso Nacional do PCC em 2017. E aproxima os valores tradicionais e os entendimentos modernos da China, por exemplo, na “Antiga Filosofia Ecológica Chinesa”, “Harmonia entre o Homem e a Natureza”, “Xi Jinping Pensamento sobre a Civilização Ecológica”, “Uma Abordagem Socialista à Civilização Ecológica”.

O Plano Integrado das Cinco Esferas é um roteiro para a construção do socialismo chinês e a promoção do desenvolvimento humano completo e do progresso social. Espera-se que os esforços tragam novos patamares em todas as dimensões do progresso material, político, cultural e ético, social e ecológico, e tornem a China um grande país socialista moderno que é próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e lindo. O Plano Integrado das Cinco Esferas reflete a compreensão mais profunda do Partido Comunista e da China acerca dos princípios básicos para o progresso coordenado em todos os setores e o socialismo com características chinesas, encampando os interesses fundamentais e as aspirações compartilhadas do povo chinês.

De uma postura programática para uma mais prática, o governo central chinês emitiu em 2017 um documento conhecido como Linha Vermelha Ecológica, que contém disposições para fazer cumprir as linhas de proteção dos ecossistemas, para gerir todos os principais espaços ambientais a partir de padrões consistentes. As Linhas Vermelhas Ecológicas que estavam em construção desde 2017 foram concluídas em 2020.

As regiões protegidas representam mais de 25 por cento do território terrestre nacional e incluem zonas ecológicas funcionais essenciais, regiões ecologicamente frágeis e vulneráveis ​​e locais-chave de diversidade biológica, que inclui a conservação das fontes de água, manutenção da biodiversidade, conservação da água e do solo e estabilidade ecológica costeira em regiões ecologicamente frágeis que são propensas à erosão do solo, desertificação e salinização.

As Linhas Vermelhas são os pilares da segurança biológica do estado, sendo importantes para o planejamento do espaço. Desenhá-los e aplicá-los são movimentos importantes para implementar os sistemas de zoneamento funcional e controle de uso do espaço ecológico, que são eficazes para ajudar a expandir a capacidade de fornecer eco produtos e prestar serviços aos ecossistemas enquanto constroem a segurança biológica da China. É uma inovação institucional que também pode impulsionar a construção de uma Eco civilização na China e promover seu desenvolvimento verde, um componente importante do sistema de instituições para a construção de uma civilização ecológica por uma medida eficaz para cumprir os direitos e responsabilidades de proteção ecológica, para mobilizar todas as partes participem na proteção ecológica e no avanço do ritmo da China.

Os compromissos assumidos pela China no cenário internacional refletem o impulso interno do país para a construção de uma civilização ecológica como um novo modelo de desenvolvimento, que vê a natureza, não como um objeto dominado pelo homem, mas um mundo do qual o homem faz parte, portanto, responsável pelos processos de adaptação e transformação. Além disso, a construção da civilização ecológica aponta para um novo tipo de relações internacionais, que busca compartilhar resultados de desenvolvimento no nível econômico, salvaguardar os valores comuns da humanidade no nível cultural, buscar a segurança universal no nível social, e buscar a segurança global no nível ecológico.

A China está se tornando um país que define a agenda no sistema internacional. Embora esse fato traga algum desconforto para outras nações, especialmente os Estados Unidos e seus aliados, a China está fazendo contribuições significativas para a governança global sobre o meio ambiente, que de alguma forma tem um forte potencial para aumentar a eficiência regulatória do Direito Internacional do Meio Ambiente ao incorporar visões de mundo alternativas e valores que até agora estão sendo excluídos pelo Direito Internacional tradicional, um produto iminentemente eurocêntrico.

Douglas de Castro é  Professor de Direito Internacional – Faculdade de Direito da Universidade de Lanzhou.  Siyi Zhang é Doutoranda – Faculdade de Direito da Universidade de Lanzhou, e Chen Daoshan é  Mestrando – Faculdade de Direito da Universidade de Lanzhou

China está acumulando mais de metade dos alimentos no mundo

O resultado desse movimento de compras veio em forma de inflação mundial

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Por Leonardo Gottems para o Agrolink

A China vai controlar 69% das reservas de milho de todo o mundo já no primeiro semestre de 2022, além de 60% das reservas de arroz e 51% do trigo. As projeções são do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), segundo o qual esse acúmulo aumentou em cerca de 20 pontos percentuais nos últimos 10 anos.

Considerando que as afirmações vieram do maior adversário dos chineses, a informação poderia ter um viés suspeito. No entanto, a “fome” do gigante asiático é comprovada por declarações vindas do próprio governo comunista. 

“A China detém atualmente um estoque de alimentos em níveis historicamente altos […] que conseguem responder a uma demanda equivalente a um ano e meio”, afirmou no último mês de novembro Qin Yuyun, responsável pelo departamento de cereais da Administração Nacional de Alimentos e Reservas Estratégicas de Pequim.

Apenas em 2020 a China gastou US$ 98,1 bilhões de dólares em importações de alimentos, de acordo com os dados da Administração Geral e Alfandegária do país asiático. De janeiro a setembro de 2021, Pequim reforçou as suas reservas nos maiores níveis desde 2016 comprando mais soja, milho e trigo entre duas a doze vezes mais que Brasil e EUA, por exemplo.

O resultado desse acúmulo de reservas veio em forma de inflação: segundo os dados da Agência para a Alimentação e Agricultura da ONU, os preços dos alimentos dispararam 30% num ano em todo o mundo. Em novembro, o índice alimentar das Nações Unidas voltou a registar um novo máximo de 10 anos. “A acumulação da China é uma das razões para o aumento dos preços”, afirmou Akio Shibata, presidente do Instituto de Investigação de Recursos Naturais de Tochigi, em entrevista ao Nikkei Asia.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site especializado “Agrolink” [Aqui!].

Hegemonia chinesa chega na produção científica e evidencia corrosão da hegemonia dos EUA e o aumento do atraso do Brasil

china eua produçãoChina superou pela primeira vez os EUA na publicação de artigos científicos

Graças ao jornal “Folha de São Paulo”, temos agora mais uma prova de que a hegemonia chinesa se consolida cada vez mais em plano global. É que a partir de um levantamento feito sobre a publicação de artigos científicos, a matéria mostra que a China ficou em primeiro lugar, deixando os EUA em segundo. Além disso, a matéria mostrou que a liderança chinesa se dá a partir de publicações nas áreas de de biologia molecular e a farmacologia, principalmente com pesquisas relacionadas diretamente à COVID-19.  Além disso, a China também está em primeiro lugar em assuntos como astronomia, agricultura, ciências da computação e engenharias.  Essa situação representa um verdadeiro rearranjo na “tectónica de placas” que controlam a dinâmica da ciência mundial.

Segundo os jornalistas Sabine Righetti e Estêvão Gamboa, os dados obtidos da  Plataforma Scimago incluem métricas de mais 20.000 periódicos científicos listados pela base Scopus, sendo artigos do tipo “revisados por pares”, o que reforça a noção de que estes artigos todos não refletem apenas uma dominância quantitativa, mas também qualitativa.

Como alguém que acompanha o debate em torno da dualidade “quantidade versus qualidade”, acrescento ainda que o governo chinês vem adotando medidas para conter a publicação de artigos de baixa qualidade científica e até mesmo o envolvimento de seus pesquisadores com revistas “predatórias”. Em função disso,  o governo chinês vem adotando uma série de sanções contra pesquisadores pegos adotando práticas impróprias, a quais incluem proibições temporárias de solicitação de financiamento ou perda de bolsas e promoções – seguem uma política introduzida em setembro do ano passado com o objetivo de eliminar as fábricas de artigos científicos e lidar com outras condutas impróprias. 

O Brasil no caminho inverso ao da China

Um caminho oposto está sendo adotado no Brasil onde não apenas temos os piores níveis de financiamento em ciência e tecnologia em mais de uma década, mas também a ação livre, leve e solta de revistas predatórias que ajudam um número indeterminado de pesquisadores a terem vantagens indevidas na obtenção de recursos estatais para o custeio de suas pesquisas.

O resultado da adoção desse caminho inverso ao chinês é que estamos perdendo tração na produção científica, seja em termos de quantidade, mas principalmente de qualidade. O resultado dessa perda de tração não deverá se dar no plano imediato, mas principalmente em médio e longo prazo, causando danos consideráveis à capacidade do Brasil de estabelecer novos padrões de competição nas próximas etapas da produção capitalista, as quais vão depender justamente da capacidade de investir e produzir ciência em áreas de ponta, tal qual os chineses estão fazendo neste momento.

O domínio chinês veio para ficar?

Uma pergunta que sempre pode aparecer é se esse sucesso chinês é do tipo “gigante de pés de barro”. A minha impressão é que não, pois o nível de investimento que está em curso dentro de um planejamento de fortalecimento em linha da ciência chinesa é uma garantia de que mesmo removido o peso das publicações de baixa qualidade, a China vai continuar se consolidando como principal potência científica do planeta.

Como ciência será a principal commodity das próximas décadas, a grande possibilidade é que a migração do centro da ciência mundial dos EUA para a China não apenas vá se manter, mas também irá se aprofundar, causando profundos impactos no desenho econômico da economia mundial. 

Já para o Brasil, mantidas a atual situação criada pelo chamado “teto de gastos”, o que nos espera é um aprofundamento do processo de dependência tecnológica e, consequentemente, de atraso em relação às potências científicas globais. Por isso, na campanha presidencial de 2022, a comunidade científica brasileira terá que se organizar para oferecer um conjunto de propostas que nos permitam superar a atual dinâmica que mistura pobreza de financiamento com ação livre de pesquisadores que abraçaram as revistas predatórias para inflar seus números.

Observatório dos Agrotóxicos: em mais 3 atos, governo Bolsonaro confirma opção por produtos banidos, supremacia chinesa e uso preferencial em monoculturas

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Dando continuidade a um trabalho de acompanhamento iniciado em janeiro, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski divulga hoje a lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019. A presente divulgação inclui ainda as planilhas relativas aos atos de No. 42, 47 e 49 publicados em setembro e novembro de 2021.

A disponibilização dos conteúdos específicos desses 3 atos e da lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro visa dotar pesquisadores e ativistas sociais de uma ferramenta que lhes permita aprofundar esforços em curso para entender o grau de dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos para o ambiente e para a saúde humana. 

Como venho acompanhando o processo de liberação “fast track” de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, sob a batuta firme da ministra Tereza Cristina (DEM/MS), considero que já seja possível verificar a presença de algumas características marcantes nessa verdadeira “tsunami” de venenos agrícolas, as quais procurarei dar indicações gerais logo abaixo.  

A presença marcante de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa - CicloVivo

Um dos elementos que considero fundamental para se entender a atual dinâmica de aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro é a presença de uma quantidade significativa de agrotóxicos cujos princípios ativos já foram identificados como causadores de graves impactos sobre a saúde humana e sobre fauna, biota, solos e recursos hídricos. Alguns deles já foram banidos há algum tempo na União Europeia e em outros mercados importantes para agrotóxicos, como os EUA e a China. Alguns exemplos desses agrotóxicos banidos são: Ametrina, Atrazina, Acefato, Fipronil e Paraquate. Além disso, produtos, como por exemplo o Glifosato) que estão sendo banidos paulatinamente em outras partes do mundo, continua sendo liberados e classificados como sendo de baixo risco para a saúde humana, em que pese o conhecimento científico existente que aponta o contrário. Colocados juntos, os agrotóxicos banidos representam em torno de 30% dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro, sendo que o banimento paulatino de novos produtos tenderá a aumentar esse valor nos próximos anos.

A forte dependência da indústria chinesa de agrotóxicos

pesticides china

Um elemento particularmente significativo é o fato de que o Brasil criou uma relação de duas mãos com a República Popular da China, com uma vantagem comparativo para o maior parceiro comercial brasileiro que compra soja e vende agrotóxicos e outros insumos agrícolas, realiza praticamente uma captura da agricultura brasileira. Essa captura fica evidente quando se vê que sem a China a produção agrícola brasileira não teria como ser escoada e que, ao mesmo tempo, o Brasil hoje não teria como substituir os insumos chineses, seja por causa de preços ou pelo fato de que a indústria chinesa está oferecendo produtos que já não estão sendo produzidos nos países centrais que originalmente produziam os agrotóxicos banidos que estão sendo liberados por aqui.

O peso das monoculturas de exportação no uso de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos

Ao se verificar a lista de agrotóxicos liberados a partir de janeiro de 2019 é possível observar que a imensa maioria deles está sendo autorizada para culturas dominadas por monoculturas, tais como soja, algodão, milho e cana de açúcar.  Essa predominância de liberações tem relação direta com o nível de consumo, visto que essas quatro monoculturas são responsáveis por mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Essa característica além de desnudar todo o discurso de que precisamos do uso intensivo de agrotóxicos para garantir a produção de alimentos, também evidencia que a população brasileira está arcando com um alto custo em termos de poluição ambiental e ocupacional para garantir a acumulação de riqueza por grandes latifundiários e o setor financeiro que são os principais beneficiários de um modelo agrícola fortemente dependente do uso intensivo de substâncias altamente perigosas.

O resultado final deste modelo é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental e sanitário

tereza bolsonaro

A análise dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro também desmonta o discurso de que a aprovação “fast track” de agrotóxicos visaria um processo de modernização do portfólio de venenos agrícolas usados na agricultura brasileira. A maioria dos produtos liberados contém princípios ativos que estão presentes há algum tempo no mercado, sendo que muitos deles foram descontinuados no norte global por serem altamente perigosos.  Assim, a liberação e venda desses produtos no Brasil, para uso principalmente na agricultura de exportação, não tem nada de modernizador, e atende apenas os interesses dos grandes latifundiários e as corporações transnacionais (com forte participação chinesa) que controlam o mercado global de agroquímicos.

O resultado disso tudo ainda não é possível de se determinar, até porque estamos em meio a um processo em desenvolvimento. Mas a professora Larissa Bombardi, que afirmou recentemente que o Brasil vivencia hoje um grande desastre industrial por causa dessa opção preferencial por venenos agrícolas altamente perigosos.

O acesso às bases de dados do Observatório dos Agrotóxicos

Como sempre ocorre quando são feitas as liberações de agrotóxicos, o Observatório dos Agrotóxicos está liberando a planilha total dos 1.507 agrotóxicos (Aqui!), e dos atos individuais  42 (Aqui!) 47 (Aqui!) e 49 (Aqui!).

 

Observatório dos Agrotóxicos: com mais dois atos, governo Bolsonaro chega a 1.507 agrotóxicos liberados em 35 meses

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Ministra Tereza Cristina e presidente Jair Bolsonaro são a corda e a caçamba por detrás da tsunami de agrotóxicos assolando o Brasil

Como já é feito desde o primeiro dia do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem informar que em mais dois atos publicados pelo Ministério da Agricultura (47 e 49), o Brasil acaba de bater um novo recorde em termos de liberação de agrotóxicos, com um total de 1507 substâncias ganhando autorização para produção e comercialização em território brasileiro.

Nos próximos dias estarei liberando as planilhas referentes a esses dois atos, mas uma análise preliminar já mostra que as mesmas características presentes em atos anteriores estão presentes. Entre estas características estão a aprovação de produtos banidos em outras partes do mundo por seu grau de alta toxicidade, bem como a forte influência de empresas chinesas de agrotóxicos que têm no Brasil um mercado preferencial para os chamados produtos pós-patente que são aqueles cuja produção inicial é normalmente antiga, tendo os seus fabricantes iniciais perdido a condição de fabricantes únicos dessas substâncias. 

É interessante notar que tais características vão de encontro ao discurso oficial que era de que essa tsunami de agrotóxicos seria para modernizar o portfólio de produtos disponíveis e garantir o seu barateamento.  Na prática nenhuma dessas promessas foram cumpridas, com o agravante que sequer houve um barateamento dos custos desses venenos agrícolas.

Na prática a única coisa que se pode ter certeza é que o nível de contaminação por agrotóxicos, seja em termos ambientais ou da saúde humana, vai aumentar, com resultados imprevisíveis a médio e longo prazo para a maioria da população, enquanto os beneficiários principais são os grandes proprietários de terras envolvidos na exportação de commodities agrícolas, a começar pela soja que consome mais de 50% usados no Brasil.