Observatório dos Agrotóxicos: com mais 41 produtos liberados, governo Bolsonaro marcha para igualar recorde de 2019

agrotox

Em meio às disputas eleitorais do segundo turno e a marcha desenfreada da COVID-19, o governo Bolsonaro continua aproveitando as preocupações gerais para continuar literalmente passando a boiada na liberação de agrotóxicos para atender a demanda insaciável do latifúndio agro-exportador por mais venenos agrícolas no mercado brasileiro.

A última rodada de liberações veio por meio do Ato No. 65 de 23 Novembro que liberou mais 41 agrotóxicos para serem vendidos no Brasil. Com isso, o governo Bolsonaro já liberou mais 442 agrotóxicos em 2020, totalizando 945 agrotóxicos disponibilizados para o voraz mercado brasileiro desde o dia 1 de janeiro de 2019, o que representa um verdadeiro recorde.

O Ato No. 65 repete algumas características de atos anteriores, ainda que 24,3% dos produtos liberados sejam do tipo de controle biológico e fabricados por empresas nacionais. Com isso, o Brasil aparece como segundo maior fornecedor de agrotóxicos no Ato No. 65, logo após a China (ver figura abaixo).

origem agrotoxicos

O caso da China é particularmente interessante, na medida em que seguem as escaramuças entre o chamado “setor ideológico” do governo Bolsonaro que continua com suas provocações com o governo chinês por conta da tecnologia do 5G e da produção da vacina “coronavac”. É que fabricantes chineses respondem diretamente por 54% dos agrotóxicos aprovados em 2020. Além disso, empresas chinesas operando sob as bandeiras de empresas recentemente adquiridas (e.g., Syngenta e Adama) também fornecem agrotóxicos a partir de países como Israel e Suíça, o que indica que a influência chinesa no mercado brasileiro de agrotóxicos é ainda maior. Entretanto, essa questão não parece incomodar aos que de dentro do governo Bolsonaro tentam impedir a entrada da tecnologia chinesa em áreas como a da telefonia e do controle de pandemias. 

Um detalhe que também se repete em relação a atos anteriores é a aprovação de uma quantidade significativa de agrotóxicos que foram banidos pela União Europeia (ver figura abaixo).

classificação eu

No presente ato, o índice de agrotóxicos de base química banidos pela União Europeia (UE) é de 37%, levando-se em conta inclusive produtos compostos por até 3 substâncias diferentes.  Esse alto nível de produtos proibidos deverá ser ainda maior em um futuro imediato, pois várias das substâncias aprovadas pelo Ato No. 65 estão com suas licenças próximas de expirar na UE.  Este fato reforça o fato de que o Brasil está sendo transformado em uma espécie de repositório de agrotóxicos proibidos na Europa, mas que a chamada Comissão Europeia continua permitindo a produção para exportação para mercados com legislações mais frágeis, como passou a ser o caso do Brasil no governo Bolsonaro. 

Este aparente paradoxo entre regulação forte para uso na União Europeia e permissividade para a exportação criam, contudo, um problema óbvio para os legisladores europeus. É que parte significativa dos agrotóxicos que estão sendo usados são utilizados em culturas das quais os europeus são grandes consumidores dos produtos agrícolas brasileiros. Em outras palavras, os consumidores europeus acabam recebendo em suas mesas, os venenos agrícolas que suas multinacionais vendem no Brasil. 

Outro aspecto que deve ser ressaltado é o rebaixamento do risco à saúde humana que foi criado a partir da adoção do chamado “novo marco regulatório para a avaliação de risco de agrotóxicos” que foi adotado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em julho de 2019.  É que observando a classificação dos 41 produtos liberados pelo Ato No. 65 verifica-se que 49% dos produtos liberados foram classificados como sendo pertencentes à Categoria 5 (improvável de causar dano agudo) e nenhum foi enquadrado na Categoria 1 (extremamente tóxico) (ver figura abaixo).

Toxicidade humana

O problema é que verificando-se apenas 1 substância, o Fluroxipir-meptílico é possível notar que a mesma era anteriormente como sendo de Classe I ( extremamente tóxica) para Categoria 4 (Improvável de causar dano agudo). Como a estrutura da molécula do Fluroxipir-meptílico não se rearranjou magicamente, o que fica claro é que a nova de classificação adotada pela Anvisa é mais tolerante com produtos que estão rejeitados em países cuja legislação não é tão, digamos, camarada com os fabricantes de venenos agrícolas. O problema é que o Fluroxipir-meptílico é apenas um dos exemplos de produtos extremamente tóxicos que agora estão sendo vendidos como improváveis de causarem dano agudo aos agricultores que os manejam diariamente em todas as partes do Brasil.

Quem desejar acessar a base de dados contendo os 41 agrotóxicos liberados pelo Ato, basta clicar [Aqui!]. Já que os que desejarem baixar a base de dados contendo os 442 agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: novo pacote de liberações mostra que o governo Bolsonaro rejeita 5G e vacina, mas ama agrotóxicos “Made in China”

Em 2018 pelo menos 30% dos agrotóxicos consumidos no Brasil tiveram origem na China, cuja influência deve ser ainda maior por causa do uso de produtos chineses por empresas de outros países que terminam vendendo seus produtos no mercado brasileiro.

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Workshop promovido pela China para ampliar a exportação de agrotóxicos  contou com representantes de empresas sediadas no Brasil que têm se beneficiado da  onda de aprovações de agrotóxicos realizada pelo governo Bolsonaro

As recentes manifestações do presidente Jair Bolsonaro e do seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, um sobre a “coronavac” e o outro sobre a compra da tecnologia 5G colocaram o Brasil à beira de uma séria crise diplomática com a China. Pelo menos é o que mostra uma dura resposta da Embaixada da China no sentido de que os responsáveis pelas declarações desairosas ao principal parceiro comercial brasileiro “vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil“.

O curioso é que o aparente desgosto por produtos “Made in China” não alcança a compra de venenos agrícolas, visto que no novo pacote de liberações de agrotóxicos levado a cabo por meio do Ato No. 64 de 18 de Novembro, os 21 agrotóxicos que tiveram sua venda autorizada são produzidos inteiramente na China, envolvendo 12 empresas diferentes.

Neste nova rodada de liberações, a “estrela” dos produtos agora livres para comercialização no Brasil foi o “Dibrometo de Diquate”, um herbicida  que foi proibido em 2018 pela União Europeia por causar efeitos deletérios em trabalhadores que manuseiam, além de causar danos às populações de pássaros. O Dibrometo de Diquate  também tem sido relacionado a problemas de contaminação de solos e do lençol freático. 

Originalmente produzido pela Syngenta, corporação suíça que foi adquirida em 2017 pela estatal chinesa ChemChina, agora chega no Brasil pelas mãos da Dezhou Luba Fine Chemical Co., Ltd, localizada na província de Shandong.

O curioso é que em toda essas manifestações que afrontam a presença e a importância fundamental da China no funcionamento da economia brasileira nunca vi nenhuma que colocasse em questão o papel central das empresas chinesas no abastecimento de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador.  Enquanto isso, se sucedem ataques ao fornecimento de vacinas contra a COVID-19, especificamente a Coronavac produzida pela empresa Sinovac, e contra a entrada da tecnologia 5G produzida na China, principalmente pela Huawei. O interessante é quem ambos os casos, está ficando óbvio que os produtos chineses são de melhor qualidade em relação àqueles produzidos por empresas europeias e estadunidenses.

Também considero curioso o silêncio da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), que, como representante dos interesses do latifúndio agro-exportador brasileiro e das empresas vendedoras de venenos agrícolas no Brasil, deve estar sendo muito pressionada por seus pares para impedir que os interesses estratégicos do setor continuem sendo colocados em xeque por declarações estapafúrdias, que hoje nem servem aos interesses do aliado Donald Trump que está lentamente preparando suas malas para sair da Casa Branca. 

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Jones Yasuda, CEO da CCAB, uma das empresas que mais aprovaram agrotóxicos no governo Bolsonaro, apresenta a legislação do “Pacote do Veneno”. o famigerado PL 6299/02, em um evento de fabricantes de agrotóxicos realizado em 2019 na China

Quem desejar baixar o arquivo contendo a lista dos 21 agrotóxicos “Made in China” liberados pelo Ato No. 64, basta clicar [Aqui!]. Já quem quiser baixar a base contendo os 401 agrotóxicos liberados apenas nos primeiros onze meses de 2020, basta clicar [Aqui!].

No país da carne, aos mais pobres restará comer coração (e olhe lá!)

CORAÇÃO DE BOI ACEBOLADO E BEM MACIO! - YouTubeA mensagem do governo Bolsonaro aos mais pobres pode ser traduzido como “se não tem picanha que comam coração”

A imagem abaixo mostra uma tabela com os preços praticados para diversos cortes de carne bovina em um supermercado típico do Brasil, e a realidade que emerge desses números é que, apesar de sermos os maiores exportadores de carne bovina desde 2004 e temos o maior rebanho comercial, a maioria dos brasileiros está fadada a comer coração, já que os demais cortes (incluindo os de miúdos como fígado e língua) se tornaram inatingíveis para eles.

tabela de carne

Uma das razões para os preços estratosféricos para o preço da carne bovina (que deverá arrastar junto o de outras carnes como porco e galinha) resulta da inexistência de qualquer medida de estabelecimento de um estoque doméstico que impedisse justamente a ocorrência desse caráter explosivo dos preços.

Ao mesmo tempo, há que se notar que boa parte da produção nacional está sendo destinada para a China cujo governo está tendo uma ação modelar no controle da pandemia da COVID-19, o que habilitou o gigante da economia global a retomar rapidamente os níveis de produção e consumo. Tudo isso representa o caminho contrário do que foi adotado pelo governo ultraneoliberal comandado pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Há que se salientar que a elevação da inflação em itens consumidos mais diretamente pelos segmentos mais pobres da população já vinha ocorrendo com outros itens, resultando no fato de que o aumento de preços para as famílias brasileiras mais pobres  tivesse sido mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas de janeiro até setembro de 2020.  E é justamente esta parcela da população que está sendo mais fortemente afetada pelo agravamento do desemprego que já era alto antes, mas que aumentou ainda mais após a erupção da pandemia da COVID-19.

A situação que se abre no Brasil com essa combinação de alta inflacionária para os mais pobres e aumento do desemprego é geradora de uma situação potencialmente explosiva.  Essa situação deverá ser agravada ainda mais pela insistência do governo Bolsonaro em aprofundar sua agenda ultraneoliberal com a promoção de privatizações e ataques aos direitos sociais e trabalhistas. 

Ao seu modo, Jair Bolsonaro parece estar adaptando o famoso trágico bordão atribuído (erroneamente dizem os historiadores) à imperatriz francesa Maria Antonieta que teria dito- pouco antes da Revolução Francesa- que “se não tem pão que comam brioches”- para “se não tem picanha que comam coração”.  O resultado acontecido com Maria Antonieta a história já nos conta. Resta saber o que acontecerá com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

E antes que eu me esqueça, ofereço uma reminiscência familiar. Sendo filho de um agricultor transformado em metalurgico, passei boa parte da minha infância e juventude tendo uma dieta que era turbinada com partes menos nobres do boi, incluindo fígado, rins e bucho. Ainda bem que minha mãe era uma mestra em transformar esses miúdos em deliciosas iguarias. O meu ponto aqui é que passadas seis décadas, com o Brasil tendo um plantel gigantesco de animais que são criados às custas de muita destruição ambiental, não há de nada de romântico ao que está sendo imposto aos pobres por um governo que não possui qualquer preocupação com o que está sendo colocado (na maioria das vezes isso é nada) de uma parcela significativa dos brasileiros.

Carne bovina brasileira testa positivo para coronavírus em Shanxi, norte da China

carne brasileira

Três lotes de carne bovina importada do Brasil continham o coronavírus em sua embalagem interna em Taiyuan, província de Shanxi do norte da China, disseram autoridades locais na terça-feira. Os 20 produtos de carne bovina em questão foram lacrados antes de entrarem no mercado.

Durante uma inspeção de carnes congeladas importadas e produtos aquáticos em Taiyuan na segunda-feira, três amostras da embalagem interna de carne bovina importada do Brasil enviadas de Zhengzhou na província de Henan na China central apresentaram coronavírus, de acordo com o comunicado divulgado pelo Center for Disease Controle e prevenção em Taiyuan.

Medidas de emergência, incluindo rastreabilidade de alimentos, investigação e isolamento de pessoal e desinfecção do local foram imediatamente tomadas pelas autoridades locais. Os testes de ácido nucléico do coronavírus foram realizados em todos os contatos e cargas no mesmo veículo, e os resultados foram todos negativos.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal Global Times [Aqui!].

China recebe delegação brasileira que inspecionará a produção da vacina contra a COVID-19

vacinaVacina Covid-19 de Sinovac. Foto: VCG

Por Hu Yuwei e Zhang Hongpei para o Global Times

A China está disposta a dar a comodidade necessária à delegação brasileira enviada ao país para fiscalizar a pesquisa e o desenvolvimento das vacinas COVID-19, de acordo com as legislações pertinentes e práticas internacionais, disse sexta-feira o Itamaraty, já que o Brasil pretende enviar um delegação à China antes de potencialmente aprovar a vacina para uso brasileiro.

O processo de desenvolvimento e produção de vacinas para COVID-19 da China está em uma posição de liderança no mundo. “Estamos cooperando com muitos países, incluindo o Brasil, do qual todas as partes falam bem”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Wang Wenbin, em entrevista coletiva.

Representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), agência reguladora de saúde brasileira, visitará a fábrica da chinesa Sinovac Biotech (Sinovac), incluindo as linhas de produção de vacinas e toda a fábrica, para avaliar se o processo atende às Boas Práticas de Fabricação (BPF) do Brasil, uma fonte da Sinovac informou ao Global Times nesta sexta-feira. 

A visita faz parte do marco regulatório de medicamentos e vacinas do Brasil e é uma etapa necessária antes de ser disponibilizada ao público brasileiro. “Quando importamos vacinas de outro fornecedor, também vamos à fábrica dele fazer a inspeção”, disse a fonte, que pediu anonimato.

A equipe de fiscalização deve visitar Sinovac entre 30 de novembro e 4 de dezembro, após o período de quarentena de 14 dias solicitado na chegada em 15 de novembro. A equipe é composta principalmente por inspetores da Anvisa e pesquisadores do Instituto Butantan de São Paulo, parceiros com Sinovac.

“A equipe também inspecionará os registros de produção para ver se o pessoal responsável pelas operações compreende, domina e implementa os requisitos relevantes”, acrescentou.

A Anvisa anunciou na última quarta-feira, a retomada dos ensaios de uma vacina candidata desenvolvida pela Sinovac, após a suspensão na segunda-feira após ter sido informada a morte de um voluntário em São Paulo. A mídia descreveu o caso como um caso “adverso grave”, mas a emissora TV Cultura disse na terça-feira que a morte foi um suicídio não relacionado à vacina.

“Estamos felizes em ver a retomada dos testes clínicos de Fase III da vacina COVID-19. Quatro vacinas chinesas estão em testes clínicos de Fase III em vários países, indicando preliminarmente um bom perfil de segurança. O progresso de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da China foi elogiado por muitos países “, disse o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China.

O governo brasileiro concordou em comprar 46 milhões de doses da vacina Sinovac no início de outubro.

De acordo com a Johns Hopkins University, as infecções globais por COVID-19 atingiram 52.753.626, com 1.293.434 mortes até as 16h de sexta-feira. Os EUA, Índia e Brasil apresentam o maior número de infecções.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal Global Times [Aqui ].

O neoliberalismo tosco de Bolsonaro e Guedes força Brasil a importar soja e milho dos EUA

milho-e-sojaApós permitir venda da safra brasileira a preços baixos, o governo Bolsonaro foi obrigado a zerar as tarifas de importação de soja e milho para abastecer o mercado interno

Há algo de muito peculiar no processo de produção, exportação e importação de grãos pelo Brasil neste momento em que estamos afundados em uma grave crise econômico que foi aprofundada pela pandemia da COVID-19. É que após o governo Bolsonaro acabar com as travas mínimas que protegiam precariamente o mercado interno, o Brasil está sendo forçado a importar soja e milho dos EUA, após ter batidos novos recordes de exportação para a China.

Essa situação é particularmente peculiar, porque o Brasil em 2019 foi o maior exportador mundial desses dois grãos, fato que deverá se repetir em 2020. Entretanto, ao não impor nenhuma medida para reservar os estoques necessários para o consumo interno, o governo Bolsonaro gerou a necessidade de que o Brasil passe a importar a produção dos EUA desses dois grãos, já que por causa do conflito com a China, sobram soja e milho nos EUA, enquanto faltam por aqui.

Essa situação insólita em que o Brasil é o maior produtor mundial de soja e milho, mas tem que importar para suprir as necessidades do seu mercado interno, é um problema grave porque tende a aumentar os custos da cesta básica, principalmente dos brasileiros mais pobres.  O fato é que, em que pese a diminuição das tarifas de importação, a soja vinda dos EUA é mais cara e tenderá a apagar, inclusive, parte dos ganhos obtido com a exportação de soja mais barata, principalmente para a China e a União Europeia.

Se acrescermos  ao encarecimento da cesta básica dos brasileiros aos dados negativos da economia as perdas e conflitos socioambientais que ocorrem na esteira da ampliação da área de plantada de soja e milho, veremoa que toda cantilena de que o latifúndio agro-exportador mata fome do mundo não passa de conversa para boi pastar em áreas ilegalmente desmatadas na Amazônia brasileira.

Trump é derrotado nos EUA, e Bolsonaro perde no Brasil

soccer shirtJair Bolsonaro e Donald Trump trocaram camisas das seleções nacionais durante encontro na Casa Branca. A derrota de Trump representa uma dura perda política para Bolsonaro no Brasil

A agora confirmada derrota do presidente Donald Trump na sua tentativa de reeleição representa uma dura perda para Jair Bolsonaro no Brasil.  É que ao perder eleição, Trump remove de Bolsonaro de se manter como uma espécie de cópia malfeita no Brasil. 

Um dos elementos centrais da presidência cambaleante de Jair Bolsonaro tem sido a implementação de uma espécie de “nacionalismo de vassalagem” onde a submissão dos interesses estratégicos do Brasil aos de Donald Trump (e não necessariamente dos EUA) agora terá que se confrontar com a realidade de que o novo presidente estadunidense exigirá (isso mesmo, o verbo é exigir) uma mudança na forma com que o governo Bolsonaro se relaciona os biomas da Amazônia brasileira.

De nada adiantará qualquer simulacro de nacionalismo para dizer que o Brasil tem o direito soberano de usar os recursos naturais existentes na Amazônia como bem entender, pois o agora eleito Joe Biden já disse que exigiria uma mudança na situação de descontrole existente na proteção da Amazônia. Nessa área há ainda que se lembrar que Biden já disse que um dos seus primeiros atos como presidente será recolocar os EUA no Acordo de Paris para combater as mudanças climáticas.

Há ainda que se lembrar que Jair Bolsonaro será compulsoriamente obrigado a mudar os ocupantes dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, o primeiro por ser visto como anti-ambiente e o segundo por ser umbilicalmente alinhado com o ideário de Donald Trump. O que Bolsonaro fará com Ricardo Salles e Ernesto Araújo ainda não se sabe, mas está óbvio que eles não ficarão nos postos que ocupam depois de do 01 janeiro de 2021.

Agora, há que se dizer que em outros aspectos ainda mais cruciais como o da tecnologia 5G e das relações comerciais com a China, a eleição de Joe Biden representa uma péssima notícia não apenas para Jair Bolsonaro, mas principalmente para o Brasil. É que os democratas já indicaram que nesses dois itens, eles deverão adotar uma postura ainda mais agressiva do que a adotada por Donald Trump. Como a economia brasileira hoje respira em função do que a China compra do Brasil,  a situação que se abre não será nada fácil. Por isso mesmo, se alguém tem que estar feliz com a vitória de Trump são as corporações estadunidenses e não os brasileiros.

Houve analista de TV brasileira que afirmasse que uma eventual vitória de Donald Trump repercutiria positivamente para os candidatos apoiados por Jair Bolsonaro nas eleições municipais que se aproximam no Brasil. Agora, como temos o resultado oposto, há que se ver qual será a performance dos candidatos apoiados pelo presidente brasileiro.  Eu continuo achando que o elemento mais importante da derrota de Donald Trump que foi a sua postura irresponsável frente à pandemia da COVID-19 ainda não foi colada em Jair Bolsonaro no Brasil, o que pode fazer com que ele saia ileso da derrota de Donald Trump. 

 

Carne suína brasileira contaminada com coronavírus é descoberta na China

Carne suína importada do Brasil infectada com coronavírus foi encontrada em uma churrascaria em Yantai. Rastreamento de contato próximo já está em andamento

carne suinaFoto do arquivo: VCG

Por Global Times

 Um lote de produtos suínos congelados importados do Brasil com sua embalagem externa testando positivo para coronavírus, foram encontrados em uma churrascaria  e em um mercado de frutos do mar em Yantai, província de Shandong do leste da China, confirmaram autoridades locais em um anúncio no sábado. 

Os residentes que visitaram esses lugares durante o período de tempo determinado devem se apresentar imediatamente às comunidades locais antes das 22h de sábado e observar de perto suas condições de saúde, disse o escritório local de prevenção e controle COVID-19. O trabalho de investigação relacionado também deve terminar antes das 22 horas deste sábado.

Os departamentos de saúde rastrearão todos os contatos próximos dos produtos suínos em questão e os organizarão em grupos para fazer testes de ácido nucléico em hospitais designados. 

O coronavírus foi detectado na embalagem externa de alguns produtos suínos importados na quinta-feira. Um total de 1.475 peças pesando 27 toneladas foram rastreadas para varejistas e restaurantes na noite de sexta-feira. 

Um total de 3.097 amostras foi coletado de contatos próximos, produtos, embalagens e ambientes externos, e todos tiveram resultado negativo para coronavírus até o momento da publicação, Jiemian relatou.  

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “Global Times” [Aqui!].

Observatório dos agrotóxicos: com mais 16 produtos liberados, governo Bolsonaro totaliza 408 agrotóxicos em 2020

Com 54% das autorizações, China lidera fornecimento dos agrotóxicos liberados em 2020. Enquanto isso, 30% dos produtos liberados estão proibidos na União Europeia

agrotoxicos rjAgricultor espalha agrotóxicos  em uma plantação de vegetais no Rio de Janeiro, Brasil. Ze Martinusso / Moment Open / Getty Images

Com a publicação do Ato No. 60 de 26 de outubro de 2020, o governo Bolsonaro liberou mais 16 agrotóxicos para o mercado brasileiro, chegando a 408 apenas nos dez primeiros meses de 2020, perfazendo um “grande total” de 911 agrotóxicos liberados nos primeiros 20 meses de governo, um verdadeiro recorde.

A análise das liberações feitas em 2020 confirma a China como o principal fornecedora de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador brasileiro, principal responsável pelo alto consumo de venenos agrícolas na agricultura nacional. Interessante notar que o Brasil ocupa a segunda colocação na produção de agrotóxicos por um crescimento ascendente do chamado controle biológico. Por sua vez, a Índia é o segundo maior fornecedor estrangeiro de venenos agrícolas, o que representa uma interessante especialização dos países do chamado BRICs   na produção deste tipo insumo usado nas grandes monoculturas de exportação (ver figura abaixo mostrando a origem da produção dos produtos liberados em 2020).

agrotóxicos 2020

Países sedes das empresas que vendem os ingredientes técnicos dos agrotóxicos liberados no Brasil em 2020

Um detalhe importante é que os dados acerca dos agrotóxicos liberados em 2020 mostra que 16 países fornecem este tipo de produto para o Brasil, a maioria na Europa, o que torna o Brasil um dos principais (senão o principal) destino de substâncias que já estão banidas pela União Europeia nos países membros (EU). Entretanto,  o pragmatismo da EU não impede que empresas estabelecidas no Velho Continente (por exemplo: Basf, Bayer e Syngenta) continuem exportando venenos agrícolas que já foram ali banidos por seus reconhecidos efeitos danosos para o meio ambiente e a saúde humana (ver gráfico abaixo).

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Status na União Europeia dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro em 2020

Um aspecto que não pode ser omitido nessa nova liberação é que apesar de ter sumido das manchete as alegações do presidente Jair Bolsonaro acerca da “Coronavac” em função da mesma ser produzida pela empresa Sinovac Life Science.  Entretanto, essa oposição à Coronavac parece nem chegar perto dos agrotóxicos produzidos por dezenas de empresas chinesas que as distribuem com maior facilidade após a chegada de Jair Bolsonaro ao posto de presidente da república, com a ajuda célere da ministra Tereza Cristina (DEM/MS). Em suma, toda a gritaria em torno da Coronavac não passa de uma forma apurada de cinismo hipócrita.

Quem desejar baixar a base de dados contendo as informações sobre os 16 agrotóxicos liberados pelo Ato 60 de 26 de outubro, basta clicar [Aqui! ]. Já para os interessados em baixar a base de dados contendo os 408 agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: após renegar vacina contra COVID-19, governo Bolsonaro autoriza mais 10 agrotóxicos produzidos na China

agrotoxicosO governo pró-veneno de Jair Bolsonaro cria caso com a vacina da COVID-19, mas aprova agrotóxicos produzidos na China em ritmo acelerado

O governo liderado pelo presidente Jair Bolsonaro acaba de liberar mais 12 agrotóxicos na forma de produtos técnicos por meio do Ato No. 59 de 19 de outubro de 2020, sendo 10 deles produzidos por empresas localizadas na China. Essas aprovações mantém as empresas chinesas como importantes fornecedoras de venenos agrícolas que estão sendo usados principalmente no cultivo de commodities agrícolas, a começar pela soja, que têm na China o seu principal mercado.  

Assim, o mesmo presidente que vocifera contra uma vacina que poderá salvar milhões de vidas brasileiras por ser desenvolvida por empresas farmacêuticas chinesas, não hesita em permitir que mais venenos agrícolas sejam autorizados para livre circulação no Brasil, em que pese o fato de também serem produzidas na China.   Essa discrepância de tratamento entre uma vacina que salvará vidas e agrotóxicos cujo uso prejudica não apenas a saúde de seres humanos mas também do meio ambiente, mostra a extensão do cinismo do discurso presidencial.

Mas ao olharmos as substâncias aprovadas para uso a partir de mais este ato do Ministério da Agricultura, veremos que nesta nova rodada de liberações estão inclusos três princípios ativos proibidos pela União Europeia:  Fipronil, Tiacloprido e Tiodicarbe.  Em seus relatórios de reprovação dessas substâncias que foram preparados pela Comissão Europeia, um caso que salta aos olhos é o do Tiodicarbe cuja proibição se baseia no risco à saúde de crianças trazidos pelo consumo de uvas contaminadas por esse produto e à dos adultos por causa do consumo de vinho. Além disso, a União Europeia já proibiu o uso do Tiodicarbe nos seus países membros desde setembro de 2007, o que não impede que a substância continue sendo produzida por empresas europeias e chinesas para serem vendidas em países como o  Brasil.

Ainda em relação ao Tiodicarbe fica explícita a contradição trazida pela modificação das regras de avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, já que um produto cujo risco de dano ao ambiente é considerado como sendo de Classe I (o mais alto em termos de riscos), recebe apenas a informação de que sua toxicidade para a saúde humana é equivalente ao produto técnico de referência, sem que seja informado qual seria.

É interessante notar que com mais 12 agrotóxicos, o total de produtos liberados apenas em 2020 já chegou a 392, totalizando 895 liberações desde janeiro de 2019, o que explicita uma marcha desenfreada para a aprovação de produtos altamente perigosos para a saúde dos brasileiros e para o meio ambiente. E como já observado acima, com uma expressiva participação de empresas chinesas, sem que haja restrição como a oferecida à vacina contra a COVID-19. Em suma, as empresas chinesas são maléficas quando produzem vacinas, mas são benignas quando fornecem agrotóxicos.

E pensar que ontem mesmo publiquei informações sobre os níveis alarmantes de contaminação por agrotóxicos de alguns dos principais itens da dieta dos brasileiros. Pelo jeito, a ministra Tereza Cristina e o seu colega (na falta de melhor palavra) o ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles acham que todo o veneno que estamos ingerindo via alimentos é pouco. 

O mais grave é que no ritmo que vai, o governo Bolsonaro vai quebrar o seu próprio recorde de agrotóxicos aprovados apenas em um ano que foi de 503 em 2020, mas pode ser ainda maior em 2020. E tudo isso em meio a uma crise sanitária!

Quem desejar acessar a lista de produtos liberados pelo Ato No. 59 de 19 de outubro de 2020 basta clicar [Aqui!]. Já para os interessados acessar a lista de todos os agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar [Aqui!].