Os inevitáveis custos do novo ataque de Jair Bolsonaro à China

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Jair Bolsonaro discursa durante abertura da Semana das Comunicações no Palácio do Planalto. Imagem: Fabio Rodrigues/ Agência Brasil

A mídia corporativa brasileira noticiou hoje mais um ataque do presidente Jair Bolsonaro à China, este na forma da propalação de uma suposta origem em algum laboratório chinês do Sars-Cov-2 (causador da COVID-19), o que foi agravado pela acusação de que teriam sido os chineses os únicos a terem crescimento econômico em 2020. A primeira coisa é que essas acusações são usuais no esgoto ideológico em que opera os grupos bolsonaristas, e o presidente da república está apenas repetindo publicamente o que é dito de forma fortuita entre os membros de adeptos de teorias da conspiração.

Entretanto, independente do que está sendo repetido publicamente por Jair Bolsonaro não ser nenhuma novidade por quem conhece minimamente essas teses esdrúxulas;  o problema é que ao repetir ainda que envergonhada o que dizem os seus adeptos que não possuem um cargo de relevância como o de presidente república, o presidente da república parece esperar que os chineses reajam de forma prejudicial aos interesses nacionais.   Um  problema é que os chineses certamente reagirão, ainda que não mesma forma e proporção que Jair Bolsonaro fez.

A primeira razão para esperar que os chineses rejam diferente é que eles são membros de uma cultura com mais de 5.000 anos de história, onde o pragmatismo é uma das principais marcas. Além disso, como a China hoje é controlada por um único partido que se caracteriza por forte disciplina, o mais provável é que haja algum tipo de comunicado oficial lamentoso onde se reclamará do tratamento indelicado com um grande parceiro comercial. Esse é o jeito da diplomacia chinesa operar e não parece crível que haja alguma declaração mais forte, até porque o Brasil representa risco estratégico zero, e os chineses não são de chutar cachorro morto, ainda mais em público.

O problema é que haverá uma outra ordem de resposta, e ela certamente virá com forte peso econômico, principalmente para o latifúndio agro-exportador que tem na China o destino de mais de 70% da soja nacional. Ao provocar politicamente a China e em público, Jair Bolsonaro deverá fazer que esse percentual diminua. A mesma coisa deverá acontecer com as exportações de carne e também do minério de ferro.  É que mais do que ninguém, a China sabe quanto o Brasil depende dela para gerar superávits em sua balança comercial, e como isso só deverá aumentar com o avanço do boicote a produtos brasileiros pela Europa.

Outra área que deverá sofrer será a de fornecimento de vacinas, pois o Brasil não depende dos chineses apenas para a “vacina chinesa” produzida pela Sinovac, mas para a produção do chamado  Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da maioria das vacinas que estão sendo usadas no mundo para combater a pandemia da COVID-19. Assim é bem provável que novas demoras no envio tanto de vacinas como do IFA necessários para fabricá-las aqui mesmo.

O que me parece ainda passível de discussão é sobre quais seriam os reais motivos de Jair Bolsonaro para irritar a China com provocações que não possuem a menor sustentação nos fatos.  Uma possibilidade é de que Bolsonaro é apenas uma pessoa sem noção de como o mundo opera. A outra é que ele tem perfeitamente noção de como o mundo opera e utilizou essa provocação para irritar os chineses, sabendo precisamente quais seriam as repercussões disso. De qualquer forma, seja qual for a alternativa correta, o certo é que Bolsonaro continua acendendo fósforo para ver  se os chineses jogam a gasolina onde eles caírem. 

Europeus querem diplomacia climática com a China, indica pesquisa

climate diplomacyUma tela mostra imagens de notícias do presidente chinês Xi Jinping participando de uma cúpula em vídeo sobre mudança climática com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron, em uma rua comercial de Pequim na sexta-feira, © REUTERS

O público em seis países europeus quer que seus governos priorizem a mudança climática nas relações com a China, indica uma nova pesquisa do Instituto YouGov. A pesquisa foi encomendada pelo think tank E3G e foi realizada na Alemanha, Dinamarca, França, Itália, Polônia e Reino Unido em abril de 2021.

Em média, nos seis países pesquisados, 7 em cada 10 (72%) pessoas acreditam que abordar a mudança climática deveria ser uma prioridade muito ou bastante alta na política externa de seu país em relação à China.

Mesmo nos países em que foram identificadas opiniões predominantemente negativas sobre a China (Alemanha, Dinamarca, França e Reino Unido), o público sente que a mudança climática deveria ser uma alta prioridade para o envolvimento de seu país com o gigante asiático.

No total, mais pessoas indicaram que a mudança climática é uma prioridade muito alta (40%) do que aqueles que veem a criação de novos acordos comerciais como uma prioridade muito alta (18%). 
 
A pesquisa chega em um momento em que a cooperação sobre o clima com a China – maior emissor do mundo com uma participação de 27% nas emissões globais – é percebida como estando encolhendo.
 
“Esta pesquisa fornece provas claras de que, apesar das tensões emergentes entre a União Europeia e a China, a maioria dos europeus acredita que o clima deve ser uma das prioridades na agenda de política externa com a China, juntamente com as preocupações sobre direitos humanos e o desenvolvimento de uma resposta global à COVID-19”, afirmou Nick Mabey, Chefe Executivo do E3G.

“Embora o público europeu pense que a diplomacia climática com a China é importante, eles também esperam que a China produza mais para cumprir suas ambiciosas metas climáticas” diz Byford Tsang, Assessor Sênior de política do E3G. “A União Européia, os Estados-Membros e o governo do Reino Unido devem continuar engajados com a China na implementação de ações climáticas de curto prazo, incluindo uma moratória sobre a construção de usinas elétricas a carvão no país e no exterior”.

Relação China-EUA

A China foi o primeiro país, após os Estados Unidos, a falar durante a Cúpula de Líderes Climáticos convocada pelo presidente Joe Biden. Embora nenhuma nova meta formal tenha sido anunciada, Xi Jinping disse que a China “limitaria estritamente o aumento do consumo de carvão no 14º período do plano quinquenal e o reduziria gradualmente no 15º período do plano quinquenal”.

Dias antes, em 18 de abril, EUA e China divulgaram uma declaração conjunta sobre suas metas climáticas. Nela, a China concorda em trabalhar metas mais ambiciosas nesta década e em entregar planos de descarbonização de longo prazo em linha com a neutralidade de carbono líquido zero na COP26, que será realizada em novembro, na Escócia.

Os resultados da pesquisa realizada com os europeus estão alinhados com os dados de outra pesquisa de opinião , feita nos EUA, em dezembro do ano passado pelo Asia Society Policy Institute. O estudo indicou que a maioria dos americanos apoia a cooperação com a China para enfrentar a mudança climática e reduzir as emissões.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 33 produtos técnicos liberados, governo Bolsonaro atinge liberação de recorde de agrotóxicos em 28 meses

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Um dos mais aspectos mais marcantes dos quase 28 meses de governo do presidente Jair Bolsonaro é a persistente onda de liberações de agrotóxicos que estão inundando o mercado brasileiro com produtos banidos nos países que os criaram, começando pela União Europeia, por causarem danos consideráveis sobre a saúde humana e o meio ambiente.  As liberações mais recentes ocorreram com a publicação do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 que aprovou a comercialização de mais 33 agrotóxicos do tipo produto técnico. Com essa rodada, o governo Bolsonaro alcançou incríveis 1.172 liberações em 845 dias de governo, o que dá uma média de 1,39 agrotóxicos liberados por dia. Além disso, graças a essa volúpia de aprovações, o Brasil hoje conta com 3.231 produtos disponíveis no mercado, o que implica no fato de que o governo Bolsonaro é responsável por 36% de todos os agrotóxicos passíveis de serem comprados legalmente no Brasil.

Como em outras publicações, o ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 beneficia fortemente empresas sediadas na China que são responsáveis pela produção de 76%  dos agrotóxicos liberados, incluindo o fato de que uma empresa  localizada em Israel, e que fornecerá um dos agrotóxicos liberados, também agora é controlada por uma estatal chinesa (ver gráfico abaixo).

Ato no, 20 países sede

Outro aspecto recorrente da “tsunami de agrotóxicos” do governo Bolsonaro é a recorrente aprovação de produtos que contém substâncias banidas por terem sido flagradas causando graves danos à saúde humana e aos ecossistemas ambientais. No caso do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021, 30% dos agrotóxicos estão proibidos na União Europeia.

Tabela substâncias liberadas

Dentre as substâncias liberadas há que se enfatizar pelo menos duas, a Atrazina e o Fipronil, cujos impactos sobre a saúde humana (a Atrazina) e sobre espécies benignas como as abelhas (o Fipronil) estão solidamente documentadas não pela comunidade científica, mas também por órgãos governamentais como é o caso da União Europeia. No caso do Fipronil, que teve sua introdução no Brasil feita pelo governo Bolsonaro, o total de produtos liberados contendo esse princípio ativo chega a 25, o que deverá ter fortes impactos sobre as populações das abelhas em território nacional. No caso da Atrazina, o total de produtos liberados pelo governo Bolsonaro é de 22, apesar de todas as evidências que existem sobre o impacto que essa substância causa vários impactos negativos saúde humana (e.g., a exposição materna à atrazina na água potável foi associada a baixo peso fetal e defeitos cardíacos, urinários, além de retardar o desenvolvimento de fetos e causar a redução na sobrevida dos mesmos. Essa substância também têm sido associada à ocorrência de câncer de mama e de próstata, além de ser considerada um disruptor endócrino). 

O mais problemático disso tudo é que a sinergia dessa verdadeira multidão de agrotóxicos altamente perigosos e seus potenciais impactos sobre a saúde ecossistemas naturais, corpos hídricos e os alimentos que chegam às mesas dos brasileiros está sendo fortemente negligenciada pela mesma agência, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que continua adotando táticas protelatórias no processo de liberação de vacinas contra a COVID-19, como é o caso da vacina russa Sputnik V.  Pelo jeito, todo o cuidado alardeado pela Anvisa não cobre a aprovação tsunâmica de agrotóxicos, deixando clara qual é a opção que orienta as ações do governo Bolsonaro.

Quem quiser baixar a planilha contendo os 33 agrotóxicos técnicos, basta clicar [Aqui ]. Para os interessados, em baixar a planilha contendo os 1.172 agrotóxicos liberados desde 01 de janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

Emissões de carbono vão disparar em 2021 pela segunda maior taxa da história

Emissões de carbono vão disparar em 2021 pela segunda maior taxa da história

EMISSÕES CHAMINÉSUma usina de carvão nos EUA, onde Joe Biden está considerando medidas para acelerar a mudança para a energia renovável. Fotografia: J David Ake / AP

Por Fiona Harvey correspondente de Meio Ambiente do “The Guardian”

As emissões de dióxido de carbono devem saltar este ano para o segundo maior aumento anual da história, à medida que as economias globais despejam dinheiro de estímulo em combustíveis fósseis na recuperação da recessão COVID-19.

O salto ficará atrás apenas da recuperação massiva de dez anos atrás, após a crise financeira, e colocará as esperanças climáticas fora de alcance, a menos que os governos ajam rapidamente, alertou a Agência Internacional de Energia .

O uso crescente de carvão, o combustível fóssil mais sujo, para eletricidade está causando o aumento das emissões, especialmente na Ásia, mas também nos Estados Unidos. A recuperação do carvão causa particular preocupação porque ocorre apesar da queda nos preços da energia renovável, que agora é mais barata do que o carvão.

Em declarações exclusivas ao Guardian, Fatih Birol, diretora executiva da IEA e uma das maiores autoridades mundiais em energia e clima, disse: “Isso é chocante e muito perturbador. Por um lado, os governos hoje estão dizendo que a mudança climática é sua prioridade. Mas, por outro lado, estamos vendo o segundo maior aumento de emissões da história. É realmente decepcionante. ”

O aumento das emissões este ano deve ser o segundo maior da história, perdendo apenas para a recuperação da crise financeira

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As emissões precisam ser reduzidas em 45% nesta década, se o mundo quiser limitar o aquecimento global a 1,5 ° C (2,7 ° F), alertaram os cientistas. Isso significa que 2020 deve ser a década em que o mundo muda de rumo, antes que o nível de carbono na atmosfera aumente muito para evitar níveis perigosos de aquecimento. Mas a escala da atual recuperação das emissões da crise da COVID-19 significa que “nosso ponto de partida definitivamente não é bom”, disse Birol.

Birol comparou o atual aumento das emissões à crise financeira, quando as emissões aumentaram mais de 6% em 2010, depois que os países tentaram estimular suas economias por meio de energia de combustível fóssil barata. “Parece que voltamos a repetir os mesmos erros”, alertou. “Estou mais decepcionado desta vez do que em 2010.”

As emissões caíram um recorde de 7% globalmente no ano passado , devido aos bloqueios que se seguiram ao surto da Covid-19. Mas, no final do ano, eles já estavam se recuperando e a caminho de ultrapassar os níveis de 2019 em algumas áreas.

As projeções da IEA para 2021 mostram que as emissões provavelmente terminarão este ano ainda um pouco abaixo dos níveis de 2019, mas em um caminho ascendente. No próximo ano, pode haver aumentos ainda mais fortes com o retorno das viagens aéreas, acrescentou Birol. A aviação normalmente contribuiria com mais de 2% das emissões globais, mas esteve quase ausente no ano passado.

Ele pediu aos governos que apresentassem novas políticas climáticas com urgência e busquem uma recuperação ecológica da crise da Covid-19. “No ano passado, expressei minha esperança de que a recuperação econômica da COVID-19 seja verde e sustentável. Mas esses números indicam que essa recuperação hoje é tudo menos sustentável para o nosso clima ”, disse ele.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está convocando uma cúpula sobre o clima esta semana , com a expectativa de participação de líderes de 40 países, na qual ele exortará os países a apresentarem compromissos firmes na redução das emissões nesta década. Birol disse que esta é uma oportunidade para os países mudarem de rumo e implementarem políticas para uma recuperação verde.

“Se os governos tomarem uma ação clara e iminente , com a quantidade de tecnologias de energia limpa e baratas que temos, podemos transformar essa decepção em alguns bons resultados”, disse ele.

A IEA é considerada o padrão ouro global para dados de energia e suas projeções para 2021 são baseadas em sondagens abrangentes de todo o mundo, incluindo dados de fontes de energia existentes e novas usinas programadas para entrar em operação. Os dados de energia do final do ano passado mostraram os combustíveis fósseis à frente dos níveis de 2019, e o aumento continuou na primeira parte deste ano.

Em seu Global Energy Review , publicado na terça-feira, a IEA descobriu que as emissões globais de carbono do uso de energia, que responde pela grande maioria das emissões de gases de efeito estufa, estavam em curso para aumentar em 1,5 bilhão de toneladas em 2021, após ter caído no ano passado. Isso representa um aumento de 5% para 33 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no ano. Após mais de meia década de declínio, a demanda global por carvão deve crescer 4,5%, aproximando-se do pico de todos os tempos em 2014.

A China planeja construir dezenas de usinas termelétricas a carvão, apesar de prometer no ano passado atingir emissões líquidas zero até 2060. O plano econômico de cinco anos do país, estabelecido por Pequim no mês passado, continha poucos detalhes sobre a redução das emissões antes de 2030. No entanto , após uma visita surpresa a Xangai do enviado climático dos EUA, John Kerry, os EUA e a China prometeram cooperação nas emissões de gases de efeito estufa na próxima década.

O uso de carvão também está aumentando nos EUA, revertendo as quedas anuais desde 2013. Birol disse que isso foi o resultado dos altos preços do gás, que estão levando a uma mudança do gás para o carvão na geração de eletricidade. Donald Trump, como presidente, descartou as regulamentações estabelecidas por Barack Obama para restringir o uso de carvão nas usinas de energia . Biden está considerando outras medidas para acelerar a mudança para a energia renovável.

Nicholas Stern, economista do clima e presidente do instituto de pesquisa Grantham sobre mudança climática da London School of Economics, disse que os resultados da IEA “mostram que os países realmente devem agir com maior urgência para acelerar a transição para os caminhos de carbono zero ter uma chance de redução das emissões de acordo com o acordo de Paris. Esta é uma oportunidade crucial e histórica de reconstruir de forma diferente das formas poluentes do passado e, em particular, de se afastar muito mais rapidamente do carvão. Uma recuperação forte e sustentável virá de menos carvão, não mais. ”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Limites do “Socialismo de Mercado”

As tentativas de países de socialismo realmente existente de combinar uma economia planejada com mecanismos de mercado falharam não apenas por causa do dogmatismo

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Por Felix Wemheuer para o Neues Deutschland

No contexto da crise climática e das novas possibilidades tecnológicas por meio da digitalização, tornou-se socialmente aceitável novamente, pelo menos nos debates de esquerda, discutir uma economia planejada como modelo para o futuro. Um problema central neste contexto, entretanto, continua sendo o fracasso da economia planejada centralizada sob o “socialismo real”. Alguns acreditam que combinar socialismo com mecanismos de mercado é uma alternativa. Vale a pena reler os debates sobre o “socialismo de mercado” no século XX.

Os defensores do “socialismo de mercado” ainda consideram a “Nova Política Econômica” soviética (NEP) (1921-1928) um ​​importante ponto de referência. Nos confrontos entre Josef Stalin e a chamada “oposição de direita” em torno de Nikolai Bukharin em 1928, foram levantados muitos argumentos que mais tarde foram usados ​​em debates. Bukharin defendeu a NEP como um modelo de longo prazo para a construção do socialismo. Ele argumentou que o setor estatal da indústria deveria competir no mercado com o comércio privado e a vasta massa de pequenos produtores. O governo deve promover o setor estatal e uma associação voluntária para formar cooperativas de produção rural. Esses elementos socialistas não poderiam, no entanto, por meio de medidas coercitivas, mas apenas demonstrando sua maior produtividade em relação ao setor privado. O aumento da renda dos pequenos agricultores pode gerar demanda por produtos da indústria leve e, assim, impulsionar seu desenvolvimento. Bukharin não falou em “socialismo de mercado”. Ele não deixou dúvidas de que entendia a NEP como uma luta de classes com o objetivo de finalmente desaparecer a produção de mercadorias e “explorar as classes”. Era indiscutível que sua concepção incluía a aceitação de diferenças de renda maiores como um mal inevitável por um longo período de tempo. 

Quando Stalin realmente se voltou contra a NEP no contexto de uma crise de abastecimento urbano em 1928, ele argumentou que essa estratégia havia levado à divisão de classes no campo e que os “kulaks” haviam de fato conquistado o poder em muitas aldeias. Com o modelo de Bukharin, só se pode esperar até que a população rural cresça pacificamente para o socialismo em “passo de caracol”. A proposta de Bukharin de neutralizar a crise de abastecimento urbano importando grãos de países capitalistas estrangeiros levaria a uma desaceleração ainda maior no ritmo de industrialização, já que faltariam divisas para a importação de tecnologia industrial. Diante da ameaça imperialista, o desenvolvimento da indústria pesada deve ter precedência e ser financiado por meio de um “tributo” à agricultura, disse Stalin.

O afastamento da NEP não foi apenas o resultado da arbitrariedade de Stalin. A crise de abastecimento urbano, o alto desemprego e a nova riqueza do »povo da NEP«, comerciantes privados, causaram grande ressentimento na população e na festa da cidade em 1928. Como primeiro passo para superar a crise de abastecimento, Stalin iniciou medidas coercitivas para confiscar grãos na Sibéria. Por fim, desencadeou-se uma dinâmica que resultou na coletivização por vezes violenta da agricultura e na chamada “liquidação dos kulaks como classe”. A luta pelos grãos levou a uma grande fome rural (1931-1933) com milhões de mortes e confrontos semelhantes a uma guerra civil na Ucrânia. Em meados da década de 1930, esse “batismo de fogo” deu origem ao “modelo clássico”, que se caracterizava por uma economia planejada centralizada com determinação estatal de quase todas as metas de produção, investimentos, preços e salários. Além da grande indústria estatal e da agricultura coletiva, o estado concedeu à população rural terras para autossuficiência.

Após a Segunda Guerra Mundial, as “democracias populares” na Europa Oriental e os países socialistas de estado da Ásia seguiram o modelo soviético. Na primeira fase da “nova democracia” ou “ordem básica antifascista”, os governos realizaram “reformas agrárias antifeudais” e criaram sistemas econômicos que lembravam a NEP. Quase em todos os países, houve defensores de uma mudança gradual e prolongada para o “modelo clássico” e forças mais radicais que foram orientadas para a “ofensiva socialista” de Stalin de 1928/29. Em vista de uma crise de abastecimento urbano na China em 1953, Mao Zedong, por exemplo, defendeu a coletivização forçada da agricultura com quase os mesmos argumentos de Stalin em 1928. Liu Shaoqi, por outro lado, defendeu a continuação de longo prazo do ” ordem econômica neo-democrática,

No início, a rápida transição para o “modelo clássico” na Europa Oriental e na China parecia promissora. Na década de 1950, muitos países socialistas estatais conseguiram construir indústrias pesadas e gerar um crescimento econômico impressionante. Os governos dos estados agrários da Europa Oriental e da Ásia também esperavam superar a posição periférica de seus países no período entre guerras, construindo eles próprios uma base industrial.

Após a morte de Stalin, o “modelo clássico” experimentou sua primeira crise de legitimação com os levantes na RDA em 1953 e na Polônia e Hungria em 1956. Além do ressentimento com o domínio esmagador da União Soviética, partes da classe trabalhadora não queriam mais apoiar o regime de acumulação de ricos de privação de renúncia ao consumo e elevação dos padrões para o desenvolvimento da indústria pesada. Numa “primeira onda de reformas” (1953-1957), quadros e economistas iniciaram debates sobre como alcançar um equilíbrio no desenvolvimento da indústria pesada e leve, bem como da agricultura. A Iugoslávia e a Polônia permitiam agricultura em grande parte privada. A descentralização do planejamento, bem como mais autonomia para as empresas deve ajudar, por exemplo, na Polônia, a ser capaz de fazer uma adaptação mais flexível às necessidades do comprador, mas também aos desafios técnicos. Em vez de reformas, foi inicialmente referido com cautela como “aperfeiçoar o plano”.

Um grande problema era, por exemplo, que as empresas acumulavam materiais e trabalhadores, às vezes escondidos das autoridades, para poderem compensar as faltas no futuro. Os consumidores agiam de maneira semelhante, acumulando mercadorias quando estavam disponíveis nas lojas, aumentando assim a escassez de suprimentos. A definição de metas com base em critérios predominantemente quantitativos (a infame “ideologia do barril”) gerou deficiências de qualidade e grande desperdício de recursos. A ética do trabalho na força de trabalho deixou a desejar, pois não havia medo do desemprego, principalmente entre os procurados trabalhadores qualificados. Foi fácil para eles pedirem demissão por uma mudança de emprego, mas foi difícil para as empresas demiti-los. O entusiasmo dos novos começos se foi em grande parte. Pelo menos na Europa Oriental, as lideranças do partido não estavam mais dispostas e eram capazes de usar punições draconianas como na era de Stalin para impor a disciplina de trabalho, entrega e planejamento. Na maioria dos países socialistas de estado do bloco soviético, as tentativas de reforma foram interrompidas em 1957 e as idéias em questão foram descartadas como “revisionismo”.

Após as primeiras breves tentativas de reforma, uma »segunda onda« mais abrangente ocorreu na primeira metade da década de 1960. Em comparação com os anos do pós-guerra, o crescimento econômico diminuiu significativamente em muitos países do Leste Europeu durante este período. Sérios problemas de abastecimento surgiram com bens de consumo cotidianos, por exemplo, na Tchecoslováquia. Na China, a imitação da “ofensiva socialista” de Stalin como parte do “Grande Salto para a Frente” entre 1959 e 1961 levou a uma fome com entre 15 e 40 milhões de mortos. Somente uma nova “orientação” radical da economia e das importações de grãos poderia acabar com a catástrofe.

No contexto da “idade de ouro” do capitalismo ocidental nos centros, aumentaram as dúvidas sobre a “superioridade” da economia centralizada planejada na Europa Oriental na competição dos sistemas. Na URSS, o líder do partido Nikita Khrushchev buscou em 1962, no curso do chamado debate de Liberman, uma orientação mais forte para o lucro e a autonomia das empresas estatais a fim de aumentar a eficiência econômica. Em 1965, a liderança do partido do PCUS aprovou as chamadas reformas Kosygin, em homenagem ao então primeiro-ministro. O desenvolvimento na URSS também abriu uma nova liberdade para os “Estados irmãos”. O “Novo Sistema Econômico de Planejamento e Controle” (NÖSPL) (denominado “Sistema Econômico do Socialismo” de 1967) e o novo “Mecanismo Econômico” na Hungria (1968-1973) foram particularmente ambiciosos na RDA de 1963. Na Tchecoslováquia, a liderança do partido sob Alexander Dubcek combinou reformas econômicas com liberalização política na “Primavera de Praga” em 1968. O governo iugoslavo de Tito fortaleceu a autonomia das fábricas e a competição no quadro da “autogestão operária”.

O termo socialismo de mercado costumava ser evitado na maioria dos países para não dar a impressão de que a economia planejada havia falhado e que havia um retorno ao capitalismo. Em vez de mercados, as forças reformistas frequentemente falavam da “aplicação da lei do valor”, da “produção socialista de bens”, da “contabilidade econômica” ou do “controle por meio de alavancas econômicas”. É claro que os debates e reformas durante a segunda onda não ocorreram da mesma forma em todos os países, mas havia semelhanças: as empresas deveriam ser incentivadas a aumentar a produtividade por meio da orientação para o lucro e de bônus mais altos para a administração e a força de trabalho. Lucros e perdas só poderiam ser mapeados de forma realista se todos os preços não fossem mais definidos politicamente, mas sim baseados no “valor” dos produtos, segundo os reformadores. Os altos subsídios para alimentos básicos, em particular, sobrecarregaram o orçamento do estado. Esse problema se agravou após o fim da era Stalin, quando na maioria dos países socialistas os preços de compra aumentaram em favor dos agricultores, mas não os preços de venda nas lojas. Como parte da agenda de reforma, o número de produtos nas especificações do plano central agora foi reduzido significativamente. Além das reformas de negócios e de preços, o fortalecimento do setor coletivo e o reconhecimento de um pequeno setor privado devem compensar as deficiências na oferta e levar a mais concorrência. Os reformadores tentaram convencer a população de seu plano prometendo um nível de consumo significativamente mais alto.

Na esfera de influência soviética, Moscou interrompeu em grande parte as reformas econômicas no início dos anos 1970 e pôde contar com as alas conservadoras dentro dos partidos comunistas. Na pesquisa histórica também foi apontado que na RDA e na Tchecoslováquia, por exemplo, as ideias igualitárias do período entre guerras ainda estavam ancoradas no corpo dos trabalhadores, o que em alguns casos levou à rejeição de maiores diferenças de renda dentro das empresas. Na China, o início da Revolução Cultural em 1966 acabou com o “alinhamento” da economia.

De qualquer forma, as reformas econômicas não foram capazes de atender a muitas expectativas. As reformas de preços foram particularmente complicadas, pois inicialmente levaram a preços mais altos para alimentos básicos anteriormente altamente subsidiados e à inflação. Por exemplo, anúncios de aumentos de preços de alimentos na União Soviética em 1962 e na Polônia em 1976 e 1981 levaram a protestos de trabalhadores. Mesmo o “segundo pacote salarial” na forma de assistência médica, educação, moradia ou ofertas culturais disponibilizadas pelo Estado gratuitamente ou a preços simbólicos também não era desejado pela maioria das forças reformistas. O economista tcheco e vice-premier durante a “Primavera de Praga”, Ota Šik, já havia pedido em 1965 a possibilidade de fechamentos e demissões de empresas como um elemento necessário da estrutura de incentivos econômicos. A introdução de um mercado de trabalho e a aceitação do desemprego em larga escala situaram-se nos “verdadeiros países socialistas” (com exceção da Iugoslávia) para a grande maioria do partido e da população em oposição às “conquistas do socialismo”. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por mais uma década. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por uma década. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por mais uma década.

Como na Hungria no final dos anos 1960, o economista húngaro Janosch Kornai considerou o “socialismo de mercado” um modelo híbrido ineficiente. Apesar de todos os incentivos proporcionados pelos bônus, a gestão das empresas estatais se comportava como parte da burocracia e não como empreendedora. Como não podiam ameaçar demissões, a administração tentou acalmar a força de trabalho fazendo concessões paternalistas. Na verdade, as empresas poderiam continuar operando com “orçamentos brandos” e não teriam que contar com consequências dolorosas mesmo em caso de perdas. A aplicação administrativa da disciplina no desempenho do trabalho e cumprimento do plano por parte do Estado fragilizou a descentralização e mais autonomia para as empresas. No entanto, as reformas operacionais e de preços não levaram à criação de uma nova disciplina por meio de incentivos econômicos, disse Kornai. A partir disso, ele concluiu que apenas uma privatização completa e mercantilização do trabalho poderia resolver esse dilema.

As lideranças do partido na Europa Oriental não estavam preparadas para isso e as “mudanças de regime” após 1989 foram necessárias para iniciar essa transformação. Na República Popular da China, o governo foi muito mais longe do que os “camaradas” do Leste Europeu. Entre 1998 e 2002, fechou grande parte das empresas estatais, demitiu mais de 40 milhões de trabalhadores e finalmente mercantilizou completamente a força de trabalho. A habitação foi privatizada e os cuidados de saúde, educação e ofertas culturais foram fortemente comercializados. Ao fazer isso, o PCCh excedeu os limites do “socialismo de mercado” da “segunda onda”. É extremamente duvidoso que o modelo chinês tenha algo a ver com o socialismo.

Felix Wemheuer é professor de Estudos da China Moderna na Universidade de Colônia. O leitor crítico que editou, Market Socialism: A Controversial Debate, será publicado pela Promedia Verlag em março.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Genocídio uigur?

A disputa pela província de Xinjiang faz parte de uma estratégia para impedir ou desacelerar a ascensão da China

uigurBase e superestrutura na província chinesa de Xinjiang: abaixo do transporte de crianças em idade escolar, acima de um cartaz de propaganda com o presidente Xi e dignitários uigur

Por UWE BEHRENS para o Neues Deutschland

O governo Biden, os holandeses e o parlamento da UE estão acusando o governo chinês de genocídio contra o grupo étnico uigur na província de Xinjiang. Eles impuseram sanções contra líderes individuais, bem como contra empresas. A República Popular da China respondeu com contra-sanções contra parlamentares da UE e institutos de pesquisa especializados na China.

Em contraste, a Organização para a Cooperação Islâmica saudou as condições em que os muçulmanos vivem na China em 2019, o que também foi confirmado pela visita do ministro das Relações Exteriores chinês à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein e Irã em março deste ano. fui.

Para compreender que, por um lado, os Estados ocidentais condenam a China pelas condições de vida de um grupo étnico islâmico e, por outro lado, os Estados islâmicos elogiam a China por essas condições, é necessário olhar para os antecedentes e os detalhes.

Existem dois grandes grupos étnicos muçulmanos na China: os hui, a maioria dos quais se estabeleceu na província de Ninxia, ​​e os uigures, a maioria dos quais vive em Xinjiang. Ambos os grupos gozam de proteção e privilégios garantidos por lei a todas as 55 minorias nacionais na República Popular da China. Eles tiveram e terão acesso preferencial a instituições de ensino, incentivos fiscais e a não aplicação da política do filho único, que já terminou, com renúncia às restrições de nascimento.

Em Ningxia, consegui me convencer das visitas regulares às mesquitas e do livre exercício das tradições muçulmanas. Os conflitos na província de Xinjiang obviamente não são sobre o Islã, mas sobre os esforços separatistas, que ressurgiram por mais de 20 anos, para separar a região autônoma de Xinjiang da China e convertê-la em um califado islâmico. Tais estruturas já existiam, embora não fossem reconhecidas internacionalmente, de 1865 a 1877, de 1933 a 1934 e de 1944 a 1949.

As razões para o ressurgimento dessas aspirações de independência política e territorial podem ser encontradas na própria província autônoma de Xinjiang e – e na campanha com pressão política inadequada e aberta – fora da China.

A província de Xinjiang é caracterizada por pastagens escassamente povoadas, desertos e montanhas com um uso agrícola tradicionalmente modesto. Como consequência, a prosperidade e o nível de educação da população são muito inferiores aos de outras regiões da China, especialmente quando comparados com as províncias industriais do leste e nas costas do país. Durante minhas muitas estadias profissionais e turísticas na província nos últimos 30 anos, fiquei surpreso ao ver tanto atraso na China nos anos 90.

A fim de equilibrar essas diferenças de prosperidade, mas também de ser capaz de usar os diversos recursos, investimentos têm sido feitos no desenvolvimento da indústria, infraestrutura e agricultura desde os anos 80 e 90, o que levou a um forte influxo de não Os uigures, especialmente Han, estavam ligados à província. Os novos residentes possuíam ensino superior e também ocupavam os cargos mais bem remunerados. Uma lacuna de prosperidade se desenvolveu entre os uigures e os chineses han, o que se refletiu no aumento das tensões.

A organização do exílio do grupo étnico, o Congresso Mundial Uigur, com sede em Munique e apoiado por um think tank estadunidense financiado pelo Estado, se considera uma espécie de governo no exílio e clama por um Turquestão Oriental independente. Ao mesmo tempo, este congresso mundial mantém uma organização militar, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que em última instância é responsável pelos ataques terroristas, mas foi retirada da lista de organizações terroristas pelos EUA em 2020.

Esta situação foi alimentada adicionalmente pelos conflitos militares nos vizinhos Paquistão e Afeganistão. No Corredor Wakhan, na fronteira com a China, violentos uigures foram treinados junto com o Taleban para a luta religiosa. Posteriormente, grupos uigures entraram em contato com organizações terroristas em outros países, inclusive ingressaram no EI e lutaram na Síria e na Líbia, entre outros.

Já nos anos entre 2000 e 2010, ataques terroristas foram perpetrados em território chinês, nas províncias e nas cidades por uigures de influência islâmica. Centenas de civis e forças de segurança foram mortas.

Em Xinjiang, a questão não é a supressão do Islã ou da etnia uigur em bloco, mas a luta contra as tendências separatistas, que são apoiadas por forças estrangeiras por meio de uma ideologia islâmica política, que não deve ser confundida com a prática usual da religião de Islamismo. As ações terroristas planejadas pelos separatistas para desestabilizar a situação, especialmente nas áreas afetadas, devem ser descobertas e prevenidas neste contexto pelas forças de segurança chinesas.

O governo central chinês está tentando neutralizar a ameaça latente do terrorismo com um pacote completo de medidas: aumento do investimento em infraestrutura e no desenvolvimento industrial e agrícola, expansão do sistema educacional e, assim, superação da pobreza. Além disso, foi estabelecido um sistema de controle e vigilância para prevenir quaisquer atividades separatistas e terroristas, das quais, sem dúvida, também sofre a pacífica população civil. Existem postos de controle fortemente armados nas entradas e saídas de cada vila e cidade, e dentro das cidades há uma delegacia de polícia a cada 500 metros. Câmeras de vigilância para reconhecimento facial são onipresentes. Isso não é bom e não parece tranquilo, relaxado e assustador para os visitantes ocidentais.

A industrialização e a modernização da agricultura devem ser vistas, acima de tudo, no contexto dos esforços do governo para erradicar a pobreza. Acordos de parceria foram feitos entre as cidades da província de Xinjiang e as províncias mais ricas, que prevêem a colocação de gerentes experientes, conhecidos no Ocidente como quadros. O mesmo princípio foi aplicado em outras províncias como Guizhou ou Sichuan. Recebeu muitos elogios na mídia internacional.

Além de estabelecer uma indústria de pequena escala com suporte digital nas aldeias, esses projetos de desenvolvimento também incluem a instalação de instalações de produção modernas para as indústrias têxtil, automotiva e eletrônica. As empresas das regiões parceiras estão investindo em Xinjiang, construindo novas instalações de produção para sua indústria. A mão-de-obra necessária para isso é recrutada entre a população local, ou seja, o povo uigur, que inevitavelmente tem de ser combinada com uma formação prévia. Ao mesmo tempo, esta industrialização implica a deslocalização para os novos centros industriais. Cerca de três milhões de uigures que viviam em mais de 3.500 aldeias foram tiradas da pobreza, incluindo a realocação de 170.000 pessoas.

A agricultura também foi transformada industrialmente. Os exportadores americanos de maquinário agrícola, em particular, fizeram o negócio do século fornecendo máquinas de colheita para a indústria de algodão. Hoje, cerca de 70 a 80 por cento das colheitas de algodão são mecanizadas. Isso levou a um declínio acentuado no número de trabalhadores da colheita. Enquanto cerca de 700.000 trabalhadores da colheita de toda a China ainda eram necessários em 2008, o número era de apenas 100.000 em 2018; no entanto, agora eles são fornecidos apenas pela província de Xinjiang, ou seja, pela população uigur.

Todas essas medidas permitiram superar a pobreza absoluta entre os uigures até 2020. Durante minha última viagem por Xinjiang, pouco antes da crise de Corona, pude ver tudo isso por mim mesmo em 2019.

Os acontecimentos na província de Xinjiang entraram em conflito entre os EUA e a China desde a política de contenção do governo Trump. Eles são avaliados de acordo com os interesses dos EUA e de seus aliados. Novos complexos industriais com instituições educacionais são reinterpretados como campos de internação.

O número de aproximadamente um milhão de uigures internados na mídia ocidental é baseado em uma estimativa da rede chinesa de defensores dos direitos humanos, apoiada pelo Fundo Nacional de Empoderamento dos Estados Unidos, que perguntou a oito pessoas em oito aldeias se e quantas pessoas eles conheciam estavam internadas campos ser. Verificou-se que cerca de dez por cento da população da aldeia estava internada. Essa porcentagem foi então extrapolada para toda a população e o número um milhão nasceu. Até onde sei, não há nenhuma evidência adicional ou mais substancial. A situação é semelhante com o número de acampamentos. A BBC avaliou as imagens de satélite e identificou os complexos murados recém-construídos como possíveis campos.

Um estudo publicado recentemente pelo Newlines Institute for Strategy and Policy nos Estados Unidos, baseado nos mesmos dados originais e similares, concluiu que a China estava cometendo genocídio.

Este estudo é uma série de informações secundárias não verificadas e declarações de uigures que vivem no exterior e é, em última análise, baseado na pesquisa na Internet do antropólogo Adrian Zenz, que trabalha no ambiente de cristãos evangélicos de direita e trabalha para um think tank conservador de direita em os Estados Unidos.

O estudo, que teria exigido a confirmação de cientistas independentes, aguarda ainda a assinatura de 33 dos 66 cientistas interrogados, que não deram o seu parecer por legítimas dúvidas. Em uma entrevista no “Neue Zürcher Zeitung” em março de 2021, Zenz admitiu que as evidências para a alegação de genocídio eram “muito frágeis”, mas achou “de um ponto de vista simbólico” usar o termo de qualquer maneira porque “alcançou um forte efeito psicológico “e, portanto, levar a” consequências econômicas “.

Tudo isso questiona a credibilidade das acusações, mas mostra claramente a intenção por trás delas: desestabilizar a China com o objetivo declarado de impedir a ascensão bem-sucedida da China, ou pelo menos desacelerá-la.

O que mais assusta é o facto de os factos construídos e os casos suspeitos apresentados serem assumidos pelos meios de comunicação ocidentais sem serem examinados e servir de base às decisões políticas.

Uwe Behrens, é doutor em Economia, nasceu em 1944 e trabalhava no sistema de transporte da RDA. De 1990 a 2017, ele morou e trabalhou na China – primeiro para uma empresa de agenciamento de carga alemã, depois para uma joint venture germano-chinesa e uma franco-indiana. Ele visitou a China pela última vez em 2019, incluindo a província de Xinijang. Seu livro “Feindbild China. O que não sabemos da República Popular «(224 pp., Fr. 15 €).

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Devorando a Amazônia: a atração dos chineses por carne bovina impulsiona as exportações do Brasil

As vendas cresceram 76% no ano passado e não mostram sinais de desaceleração, alimentando a crise ambiental na Amazônia e no Cerrado

boi 1O Brasil é de longe o maior exportador de carne bovina para a China – em detrimento da floresta amazônica. Foto: Paulo Santos / Reuters

Por Dom Phillips no Rio de Janeiro e Michael Standaert em Shenzhen, para o “The Guardian”

Durante o jantar em uma churrascaria movimentada em Shenzhen, Lei Yong e Zhao Xu, dois empresários na casa dos 40 anos, refletiram sobre como o consumo de carne na China mudou drasticamente em suas vidas, especialmente nos últimos 10 a 15 anos.

“Talvez 20 anos atrás, as pessoas em vilarejos e cidades menores não comiam muita carne, mas as das grandes cidades sim”, diz Zhao, referindo-se à movimentada megacidade em que ele e Lei estão criando suas famílias. “Agora, as pessoas nas cidades maiores estão mais preocupadas com a saúde e estão comendo mais vegetais, mas as das cidades menores têm mais dinheiro. Agora eles estão realmente comendo muito mais carne. Eles acham que ser rico significa comer mais carne. ”

A demanda voraz da China ajudou as vendas de carne bovina brasileira a níveis recordes – mas o boom tem um alto custo ambiental .

A economia do Brasil foi duramente atingida pela pandemia do coronavírus e mais de dois milhões de pessoas perderam seus empregos. Mas a agricultura continua a florescer, e o país é o maior exportador de carne bovina do mundo.

O Brasil forneceu 43% das importações de carne da China em 2020, calculou a consultoria Safras & Mercado usando dados do governo, com as exportações de carne bovina ao país crescendo 76% no ano passado em comparação com 2019.

“Houve esse boom”, diz Thiago de Carvalho, professor de agronegócio da Universidade de São Paulo, destacando a qualidade da carne bovina brasileira e seu baixo preço depois que a moeda brasileira, o real, despencou no ano passado. “A carne brasileira está [entre] as mais baratas do mundo.”

As vendas devem subir ainda mais este ano , à medida que a indústria suína da China luta para se recuperar da doença mortal da peste suína africana .

“A necessidade da China de comprar carne no ano passado foi impressionante”, diz Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, que se traduz em Colheitas e Mercado. “O Brasil é mais do que capaz de fornecer o que os chineses precisam.”

Embora os chineses comam menos carne per capita do que os americanos, o consumo aumentou nas últimas décadas , à medida que a economia cresce. Tradicionalmente, a carne favorita da China é a carne de porco, mas em 2018 e 2019 mais da metade dos 440 milhões de porcos do país foram mortos pela peste suína africana ou abatidos para diminuir sua disseminação. As importações de carne bovina aumentaram enquanto a China buscava substituir a proteína.

Pesquisas com consumidores também mostram que mais chineses estão se voltando para a carne bovina. Uma pesquisa com consumidores chineses abastados pela empresa de marketing Meat & Livestock Australia descobriu que um terço havia comido mais carne durante o ano passado.

boi 2As exportações brasileiras de carne bovina para a China aumentaram impressionantes 76% em 2020 em relação ao ano anterior. Fotografia: VCG / Getty

Quase 70% das importações de carne brasileiras da China vieram do Cerrado, a vasta região de savana tropical, e da Amazônia em 2017, de acordo com a Trase (Transparência para Economias Sustentáveis), uma rede europeia que monitora cadeias de abastecimento. Cerca de metade do Cerrado e cerca de 20% da Amazônia brasileira foram desmatados – com um impacto devastador no aquecimento global, pois ambos são importantes sumidouros de carbono .

“A Amazônia forneceu cerca de um quinto das importações da China, mas na verdade é a metade do risco de desmatamento”, diz Erasmus zu Ermgassen, pesquisador da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, e um dos autores de um estudo sobre o impacto das exportações de carne bovina.

“As exportações estão se expandindo para a Amazônia”, diz Zu Ermgassen. “Quando você aumenta a demanda no sistema agrícola brasileiro, você está empurrando a agricultura mais para dentro da floresta.”

Desde 2019, a China licenciou 22 frigoríficos brasileiros para exportação – 14 deles na Amazônia, enquanto quatro estão no extenso estado do Pará, que possui o quinto maior rebanho bovino do Brasil.

Isso teve um grande impacto no preço da carne, diz Maurício Fraga Filho, pecuarista e presidente da associação de pecuaristas do Pará.

Sob o presidente populista de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que assumiu o cargo em janeiro de 2019, o desmatamento na Amazônia atingiu seu pico em 12 anos . Investidores e grandes empresas brasileiras têm pressionado o governo brasileiro a agir, e fazendeiros como Fraga Filho estão preocupados com potenciais boicotes.

O aumento da demanda nas fazendas do Brasil está empurrando a agricultura ainda mais para dentro da floresta. Foto: Bruno Kelly / Reuters

“Essa é uma grande preocupação”, diz Fraga Filho. “O mercado não deve barrar produtos da Amazônia. Isso será o caos. ”

Ele diz que mais esforços devem ser feitos para ajudar os agricultores a resolver problemas legais, como terras embargadas devido a infrações ambientais, permitindo-lhes fornecer legalmente às empresas de carne. Isso os impediria de vender para um mercado negro que “existe e sempre existiu”, diz Fraga Filho. “Hoje não é mais preciso desmatar.”

Os três maiores exportadores de carne bovina do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – administraram 72% das exportações de carne bovina do Brasil de 2015-17, de acordo com a Trase. Todos os três gastaram muito desenvolvendo sistemas para monitorar seus “fornecedores diretos” – agricultores como Fraga Filho, que vendem para frigoríficos – por infrações ambientais. Mas eles têm sido incapazes de monitorar seus “fornecedores indiretos” – fazendas que criam ou criam gado que abastecem os “fornecedores diretos”.

No ano passado, JBS e Marfrig prometeram monitoramento completo de sua cadeia de suprimentos até 2025 e o Minerva está testando um sistema de controle de seus fornecedores.

Embora a China ainda não tenha mostrado preocupação com a conexão entre as importações de carne bovina brasileira e o desmatamento na Amazônia, há pelo menos sinais de que seu governo quer cortar o consumo de carne , o que melhoraria a saúde pública e reduziria as emissões de carbono. Em setembro passado, o presidente Xi Jinping surpreendeu muitos quando disse que a China pretendia se tornar neutra em carbono até 2060 .

Mas enquanto o mercado para alternativas baseadas em plantas está crescendo , desmamar as pessoas da carne – e a sensação de riqueza que ela traz – pode ser mais difícil do que ele espera.

  • Dom Phillips é bolsista da Fundação Alicia Patterson em 2021

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

fome
Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 27 liberações, governo Bolsonaro chega a 1.127 agrotóxicos liberados em 26 meses

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Enquanto o Brasil segue distraído pelas idas e vindas do presidente Jair Bolsonaro no combate à crise sanitária criada pela pandemia da COVID-19, o seu governo continua ampliando a enxurrada de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos pela União Europeia.

Com a promulgação do Ato 13 de 26 de Fevereiro, o governo Bolsonaro autorizo o uso de mais 27 agrotóxicos em sua forma industrial (o chamado produto técnico) que depois serão transformados em produtos formulados que poderão ser vendidos a varejo ou no atacado.

Dentre os produtos aprovados, a carga habitual de produtos que já estão proibidos pela União Europeia, incluindo os já conhecidos Atrazina, Dibrometo de Diquate, Glufosinato e Hexazinona, todos conhecidos por causarem algum tipo de dano à saúde humana e a outros seres vivos, e também nas águas e solos (ver figura abaixo).

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Status na União Europeia dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

É interessante notar que nessa leva também foi feita a aprovação de mais um agrotóxico baseado no Fipronil, conhecido por causa de sua letalidade contra polinizadores. Com isso, o governo Bolsonaro já liberou um total de 23 agrotóxicos com base no Fipronil, sendo que 10 deles são produtos técnicos que poderão gerar sabe-se lá quantos produtos formulados.  O resultado disso é que temos em curso a massificação da venda de um produto conhecido por exterminar abelhas, o que, curiosamente, poderá causar perdas colossais à agricultura brasileira, especialmente naqueles segmentos que mais usam agrotóxicos que são os produtos de commodities agrícolas de exportação.

Empresas chinesas estão aumentando sua hegemonia no fornecimento de agrotóxicos no mercado brasileiro

pesticides china

Outra característica marcante nos 27 agrotóxicos que foram liberados pelo Ato No. 13 é que 92% deles são fabricados por empresas chinesas, a maioria de forma exclusiva (ver figura abaixo).

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Países de origem das empresas fabricantes dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

Mas além de participar intensamente do fornecimento, noto agora que empresas chinesas estão se estabelecendo em número cada vez maior no Brasil para passarem a vender diretamente seus produtos em vez de simplesmente entregá-los para empresas brasileiras fazerem o processamento de produto técnico para as diferentes formulações. Essa mudança tende a fortalecer a hegemonia das empresas chinesas no fornecimento de agrotóxicos que serão usados mais amplamente no cultivo daquelas commodities que a China mais importa do Brasil.  O problema aqui é agrotóxicos, como todo produto industrializado, sempre custará mais caro do que soja, por exemplo. E nisso fica uma troca desigual, pois enquanto os chineses compram soja e milho mais baratos dos exportadores brasileiros, o Brasil paga mais caro pelos agrotóxicos chineses, De quebra, por aqui ficam as consequências nefastas de alguns produtos que a própria China já baniu em seu território.

Governo Bolsonaro: vacina não, agrotóxico sim

Voltando ao governo Bolsonaro e sua postura de boicote à vacina Coronavac, fabricada pela  Sinovac, é sempre importante lembrar que a rejeição está longe de ocorrer com os agrotóxicos produzidos por dezenas empresas chinesas sobre as quais há pouca ou nenhuma informação, inclusive nos sites que estas possuem na rede mundial de computadores.

Mas, convenhamos, há extrema coerência nessa situação, pois o governo Bolsonaro além de ser representante direto dos interesses do latifúndio agro-exportador, é liderado por um presidente que até aqui mostrou pouquíssimo interesse em preservar a vida dos brasileiros, e os números de mortos pela COVID-19, quase 270 mil, estão aí para não me deixar falando sozinho.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a descrição dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. de 26 de fevereiro, vasta clicar [Aqui!]. Já para baixar a base completa contendo os 1.127 agrotóxicos liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar  [Aqui!].