Associação de funcionários do Banco Mundial critica indicação de Abraham Weintraub e cita declarações contra a China

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Abraham Weintraub aproveita tempo ocioso para visitar monumentos em Washington DC. Enquanto isso, associação de funcionários do Banco Mundial lembra suas declarações contra a China e os chineses. Fonte: Página  de Abraham Weintraub no Twitter

A Associação de Funcionários do Banco Mundial (WBG Staff Association) divulgou nesta quarta-feira (24) a carta enviada ao ao Conselho de Ética da instituição com críticas duras ao ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub. No texto, os signatários pedem que a nomeação do ex- ministro da Educação do governo Bolsonaro a um cargo no banco seja reavaliada.

O documento pede, ainda, que haja uma apuração sobre declarações de caráter racista dadas por Weintraub — no inquérito enviado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à primeira instância —, que o ex-ministro seja notificado pelo banco e que sua nomeação como diretor executivo no conselho administrativo fique suspensa até o fim das investigações.

“Solicitamos formalmente ao conselho de ética que reveja os fatos por trás dessas múltiplas alegações, com intenção de a) colocar sua indicação em espera até que essas alegações possam ser revisadas e b) garantir que o Sr. Weintraub seja avisado de que o tipo de comportamento pelo qual ele é acusado é totalmente inaceitável nesta instituição.”

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Enviada a todos os funcionários do banco, a carta cita as ameaças feitas por Weintraub a ministros da Suprema Corte do Brasil, além dos comentários racistas que o ex-ministro fez contra a China e minorias, como a população indígena brasileira.

“De acordo com múltiplas fontes, o senhor Weintraub publicou um tuíte de carga racial, ridicularizando o sotaque chinês e culpando a China pela COVID-19, e acusando os chineses de ‘dominação mundial’; levando a Suprema Corte a abrir uma investigação por crime de racismo.”

Segundo a associação, “o Banco Mundial acaba de assumir uma posição moral clara para eliminar o racismo em nossa instituição” e, portanto, o comportamento do ex-ministro é inaceitável.

Como se vê, enquanto estiver diretor executivo do Banco Mundial, Weintraub terá que se comportar de acordo com os protocolos do cargo; coisa que ele ignorou completamente enquanto foi ministro da Educação do governo Bolsonaro.

Observatório dos Agrotóxicos: a pandemia dos agrotóxicos avança com mais 27 liberações, totalizando 212 em 2020

pandemia pesticidesEm meio à pandemia da COVID-19, governo Bolsonaro continua avançando a boiada na liberação de agrotóxicos, incluindo produtos banidos na União Europeia e nos EUA

Em uma nova demonstração de que naquilo que se faz eficiente o governo Bolsonaro não para, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União da última 4a. feira (16/06) o Ato No. 36 de 05 de junho que libera mais 27 agrotóxicos para comercialização no mercado brasileiro.  Com essa nova rodada de aprovações, o total de agrotóxicos liberados em 2020 já alcança 212, o que implica em um total de 715 ao longo dos 18 meses que já dura o mandato do presidente Jair Bolsonaro, o que se configura em um recorde histórico de liberação de venenos agrícolas liberados no Brasil.

Ao examinar a lista de aprovados foi possível detectar mais uma vez a aprovação de cerca de 30% de produtos contendo princípios ativos proibidos na União Europeia, e a continuidade de uma prática peculiar que é produzir formulações que contém de conterem produtos proibidos e aprovados pela EU (ver gráfico abaixo).

ato 36 status euStatus dos agrotóxicos liberados pelo Ato 36 na União Europeia

Outro aspecto que se mostra persistente nessa nova rodada de aprovações é o fato de que a China continua sendo o país que mais vende os produtos técnicos (em outras palavras, a matéria prima de onde são geradas as formulações vendidas no mercado brasileiro) (ver gráfico abaixo).

ato 36 paises

País de origem do fabricante primário dos 27 agrotóxicos liberados pelo Ato 36

Este padrão a crescente dupla dependência da agricultura de exportação brasileira em relação à China, na medida em que os chineses compram a maior parte da soja produzida no Brasil, enquanto são os principais fornecedores de agrotóxicos que terminam abastecendo principalmente essa cultura. Tal dependência tende a se agravar, na medida em que crescem as possibilidades de boicote às commodities agrícolas brasileiras em outras partes do mundo, justamente por causa do uso excessivo de agrotóxicos considerados como altamente perigosos e que, por isso, já foram banidos por alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil, a começar pela União Europeia.

Em relação aos produtos aprovados, os mesmos consistem do que pode se chamar de um “museu de velhas novidades”, na medida em que a maioria deles já estão sendo vendidos no Brasil. Entretanto, vale ressaltar a aprovação de outra formulação do herbicida Dicamba que teve sua venda proibida recentemente proibida nos EUA por ter tido seus impactos tóxicos subestimados durante o seu processo de liberação.

A verdade é que o argumento de que a verdadeira pandemia de novos agrotóxicos no mercado brasileiro, que já é o maior do mundo, serviria para trazer ao Brasil produtos mais modernos e menos tóxicos não se confirma na prática, visto que a maioria dos produtos liberados já estão no mercado. Resta saber agora se o argumento do barateamento dos novos/velhos produtos sobreviverá na prática. Aliás, há que se frisar que chega a ser inacreditável que produtos proibidos  na União Europeia estejam sendo colocados na Categoria 5  (Inprovável de causar dano agudo) para toxicidade humana no Brasil.

Quem desejar acessar a planilha específica do Ato 36, basta clicar [Aqui!]. Já para acessar a base completa de 2020, basta clicar [Aqui!]

Vacina contra o coronavírus pode estar pronta para uso emergencial dentro de meses, diz especialista chinês Zhong Nanshan

Zhong Nanshan, especialista em doenças respiratórias diz que o desenvolvimento da imunidade do rebanho vai custar milhões de vidas, então a única maneira de derrotar o Covid-19 é inocular pessoas. 

Zhong  afirma que as vacinas para uso em emergências podem estar prontas até o outono, mas o uso em larga escala pode demorar até dois anos.

zhangZhong Nanshan disse que a vacina estará pronta para uso emergencial no final do ano. Foto: Xinhua

Por Zhuang Pinghui em Beijing

A China poderia ter uma  vacina para uso em emergências já neste outono, de acordo com o principal especialista em doenças respiratórias do país,  Zhong Nanshan.

A estimativa de Zhong ecoou os comentários do mês passado que foram feitos por Gao Fu, chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, de que estava elaborando diretrizes para determinar quem seria elegível para receber a vacina, quando tomá-la e o que constituiria uso emergencial.

O chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Antony Fauci, fez comentários semelhantes, dizendo que 100 milhões de doses podem estar prontas até o final do ano, mesmo antes do final dos ensaios clínicos.

Zhong disse que a “imunidade do rebanho sem intervenção não poderia ser alcançada sem um alto número de mortos, tornando a inoculação o único meio viável de obter imunidade ao rebanho“.

A imunidade natural precisa de 60 a 70% da população de um país para ser infectada pelo novo coronavírus, o que poderia causar um número de mortes de 30 a 40 milhões“, disse Zhong em um evento ao vivo realizado pelo gigante da tecnologia Baidu. “A [única] solução ainda é a vacinação em massa”.

[A imunidade do rebanho] ainda depende do desenvolvimento de vacinas. A vacinação em larga escala levará de um a dois anos. A nova vacina pode ser usada em caso de emergência já neste outono ou no final do ano.”

Cinco vacinas desenvolvidas por cientistas chineses estão passando por testes em seres humanos, de acordo com um documento oficial do governo publicado no domingo.

Uma das vacinas candidatas, desenvolvida pelo Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, publicou seus dados pré-clínicos na revista Cell no sábado.

Os dados mostram que em macacos a vacina, que usa um patógeno inativado, induziu altos níveis de anticorpos que defendem o corpo e forneceu uma proteção altamente eficiente contra o Sars-CoV-2, o vírus que causa o Covid-19.

Os macacos foram imunizados duas vezes no dia zero e no dia 14, enquanto um grupo placebo recebeu solução salina.

No dia 24, todos os macacos foram expostos ao Sars-CoV-2.

O grupo placebo manteve uma carga viral alta durante o período de avaliação de sete dias após a exposição, mas as zaragatoas dos macacos vacinados mostraram que a carga viral atingiu o pico no quinto dia e foi significativamente menor no sétimo dia.

No sétimo dia após a exposição ao vírus, todos os animais foram sacrificados para exame patológico.

Laboratório chinês produz possível vacina contra o coronavírus ...Cinco vacinas chinesas estão passando por testes em humanos. Foto: AFP

Nenhum macaco nos grupos de baixa e alta dose apresentou carga viral detectável nos lobos pulmonares, diferentemente do grupo placebo.

“Em conjunto, todos esses resultados demonstraram que as vacinas de baixa e alta dose conferiram proteção altamente eficiente contra Sars-CoV-2 em macacos sem aumento observado da infecção dependente de anticorpos”, escreveram os pesquisadores.

Yang Xiaoming, presidente do China National Biotec Group, empresa controladora do Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, disse ao portal de notícias Thepaper.cn no mês passado que o grupo estava se concentrando no desenvolvimento de uma vacina inativada porque era experiente nesse campo e poderia ser produzido com segurança.

Outra subsidiária, o Instituto Wuhan de Produtos Biológicos, está conduzindo testes em humanos com outra vacina inativada. O grupo construiu instalações de produção de alta biossegurança que podem produzir 200 milhões de vacinas por ano.

O grupo também está desenvolvendo vacinas que usam outras técnicas – incluindo uma vacina de proteína recombinante que usa engenharia genética – mas essas são de menor prioridade.

O especialista em vacinas de Xangai, Tao Lina, disse que diferentes tecnologias de vacinas têm suas vantagens e desvantagens e ainda é cedo para dizer que tipo de vacina estará pronta para ser usada primeiro.

“Os inativados geralmente precisam de duas ou três doses, enquanto outras tecnologias podem precisar de apenas uma dose. As vacinas que usam a tecnologia de DNA ou RNA provavelmente entrarão em ensaios mais tarde do que as vacinas inativadas, mas é mais fácil expandir a capacidade de produção para elas ”, disse Tao.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “South China Morning Post” [Aqui!].

Governo Bolsonaro brinca com fogo ao provocar a China

guedes china 2O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, está preocupado com possíveis repercussões econômicas e políticas das citações desairosas que foram feitas à China na reunião ministerial de 22 de abril.

No dia 12 de maio escrevi uma postagem neste blog acerca do que entendo ser uma relação esquizofrênica do presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros com o principal parceiro comercial do Brasil, a República Popular da  China. Eis que ontem o jornal Folha de São Paulo publicou um artigo assinado pelos jornalistas Gustavo  Uribe e Bernardo Caram indicando o medo de que estão possuídos o ministro da Fazenda Paulo Guedes e seus pares militares de ministério em função da possível divulgação de partes ainda sob sigilo do vídeo da malfadada reunião ministerial de 22 de abril. 

guedes china

A razão para as preocupações de Paulo Guedes e seus companheiros seriam as menções nada honrosas que são feitas à China, a começar as que emanaram do próprio Jair Bolsonaro. Do falado pelo ministro Paulo Guedes já se sabe que ele disse que a China seria uma espécie de sujeito rico, mas chato, que se precisa aturar porque ele tem poder de compra. Mas o trecho abaixo indica que Guedes pode ter dito coisa ainda pior.

guedes china 1

Em favor de Guedes há o reconhecimento dele que a China hoje compra 3 vezes mais do Brasil do que, por exemplo, os EUA. Entretanto, é quase certo que a liderança chinesa não recebeu com um mínimo de riso a afirmação de que os chineses são vistos como chatos que precisam ser tolerados porque podem comprar bastante commodities brasileiras (que é isso que o Brasil está vendendo para eles).

Como já afirmei em outras ocasiões não sou um especialista em China, apenas estive lá por duas vezes quando pude interagir com cientistas e autoridades das cidades que visitei (i.e., Yantai e Shenzen).  E posso dizer que os cientistas e líderes chineses são extremamente gentis, mas não são chegados a piadas de mau gosto ou desrespeito ao que eles entendem ser seu direito de ter relações apenas com quem lhes retorna a gentileza. Desta forma, é mais do que provável que o governo Bolsonaro já tenha causado fissuras consideráveis na disposição dos líderes chineses em manter relações comerciais com o Brasil nos níveis atuais. Há que se lembrar que o embaixador da China,Yang Wanming, já mostrou forte exasperação com os filhos do presidente Jair Bolsonaro por afirmações proferidas em relação à pandemia da COVID-19 em março. 

O problema é que desde então, os ataques desferidos de dentro do governo Bolsonaro contra a China não cessaram e parecem ter tido seu ápice na reunião ministerial de 22 de abril.  Por isso, a situação econômica do Brasil que já se encontra na fase do real ser considerado como moeda tóxica (afungentando assim até os especuladores do mercado financeiro), ainda poderá piorar em breve, caso os chineses não esperem o fim da pandemia para dar o troco a Jair Bolsonaro et caterva.

Esta situação toda é causada pelo alinhamento ideológico (para não dizer submissão) do presidente Jair Bolsonaro ao governo de Donald Trump que, curiosamente, decidiu fechar as fronteiras dos EUA aos brasileiros por causa da gestão caótica da pandemia da COVID-19 por parte do governo federal. E durma-se com um barulho desses.

 

A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

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Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

Observatório dos Agrotóxicos divulga lista completa dos 147 agrotóxicos liberados até 01 de Abril de 2020

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Como havia adiantado,  organizei o “Observatório dos Agrotóxicos” para continuar informando a todos os interessados sobre a marcha das aprovações de novos agrotóxicos pelo governo Bolsonaro. Lembro que em 2019, o Ministério da Agricultura (MAPA) atingiu a impressionante marca de 503 agrotóxicos liberados para o mercado brasileiro.

Mas aparentemente a ministra Tereza Cristina está disposta a estabelecer um novo recorde de liberações em 2020, pois com cinco atos publicados até o dia 01 de abril, o MAPA já totaliza 147 “novos” agrotóxicos nos primeiros 92 dias do corrente ano. Isso demonstra que nem a pandemia da COVID-19 está servindo para diminuir a avidez em despejar no mercado brasileiro uma série de produtos “genéricos” de agrotóxicos já disponíveis no mercado. 

Noto ainda que a nova metodologia de avaliação dos riscos sobre a saúde humana e o meio ambiente que está sendo utilizada pelos órgãos responsáveis pelo processo de liberação de agrotóxicos no Brasil (i.e., Anvisa, IBAMA e MAPA) criou uma situação peculiar, pois a maioria dos agrotóxicos aparece como mais potencialmente tóxicos para o meio ambiente do que para a saúde humana, o que modifica os padrões que existiam antes das modificações impostas na forma de classificação dos agrotóxicos pelo governo federal.

Também é importante salientar que se consolida a hegemonia de empresas chinesas no oferecimento das versões genéricos de agrotóxicos que já existem no mercado brasileiro. O detalhe é que esses agrotóxicos “genéricos” abarcam uma quantidade significativa de produtos banidos nos países que os desenvolveram originalmente. Tal fato indica uma articulação entre corporações localizadas nos países centrais e empresas chinesas  para mover a produção dessas substâncias indesejadas nos países centrais para a China que, depois, as comercializa com países produtores de commodities agrícolas como o Brasil e a Argentina.

Quem desejar acessar a base de dados, contendo os 147 agrotóxicos já aprovados em 2020, basta clicar [Aqui! ].

A COVID-19 em tempos da pirataria estatal: roubo, desvio e apreensão de equipamentos médicos

equipamentoCaixas de máscaras protetoras são descarregadas de um avião da Air China com suprimentos médicos doados pelo governo chinês, em Atenas, Grécia, em 21 de março de 2020. REUTERS / Alkis Konstantinidis REUTERS – ALKIS KONSTANTINIDIS

A resposta tardia de muitos governos (incluindo países poderosos como EUA e França, mas incluindo também o Brasil) à pandemia causada pela COVID-19 está resultando em uma retomada de práticas selvagens de pirataria estatal que remontam ao Século XVII. Há uma crescente evidência que, sob a liderança dos EUA, diversos países estão empregando táticas agressivas, via leis do capitalismo selvagem ou pelo simples uso de regras alfandegárias) para desviar todo tipo de material médico que seria usado para combater os aspectos mais drásticos da pandemia da COVID-19.

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As autoridades de Berlim dizem que 200.000 máscaras  foram desviadas para os EUA, pois estavam sendo transferidas entre aviões na Tailândia. Fotografia: David Becker / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

O primeiro a gritar foi  o presidente da região sul da França, Renaud Muselier, que denunciou que máscaras adquiridas e pagas pela França  foram compradas “no asfalto”   do aeroporto por agentes dos EUA, que teriam pago mais do que 3 vezes mais do que os franceses já haviam pago para ficar com o material.

No dia de hoje, o mesmo relato foi oferecido pelo secretário da Casa Civil do estado da Bahia, Bruno Dauster, que informou que uma carga de 600 respiradores que foi comprada na China foi inicialmente retida no Aeroporto Internacional de Miami para depois ter a entrega a um consórcio de estados nordestinos simplesmente cancelada.  A desconfiança é que, mais uma vez, o governo Trump agiu para ficar com uma carga que já sido paga pelos brasileiros.

Em um artigo assinado por Alan Mcleod para o site “MPN News” aparece a informação que outros países também tomaram decisões altamente questionáveis acerca da apreensão de materiais médicos, citando a ação de autoridades tchecas que apreenderam suprimentos médicos chineses que estavam sendo enviados para Itália, enquanto a aeronave que levava o carregamento realizava o processo de reabastecimento de combustível. Entretanto, MCleod sinaliza claramente que esse processo de “pirataria estatal de equipamentos médicos” está sendo liberado globalmente pelo governo Trump.

Um exemplo mais subliminar foi o “pedido” do presidente Donald Trump para que a gigante 3M acelecerasse a fabricação de máscaras hospitalares para atender apenas os EUA, sacrificando o envio de máscaras e respiradores mecânicos  para o Canadá e para a América Latina, segundo informou a empresa em comunicado oficial.

Interessante notar o papel nefasto das empresas chinesas nessa situação. É que as práticas de revender o que já havia sido pago por outros compradores sinaliza a adesão à uma lógica da superexploração e do incentivo à concorrência desleal entre clientes. E isso tudo no meio de uma pandemia gravíssima e de alcance ainda incalculáveis.  

Apesar de ter ido na China e visto como funciona o que os chineses denominam desocialismo com características chinesas“, não me considero capaz de realizar uma crítica mais profunda sobre o que de fato existe por lá (i.e., socialismo a la chinesa ou capitalismo de estado puro e simples). Mas uma coisa me parece certa: no presente momento, muitas empresas chinesas estão colocando a maximização do lucro acima dos contratos já firmados.   Isto, no mínimo, não me parece uma forma muita solidária de ajudar o mundo a debelar uma pandemia.

Já no tocante aos EUA e outros governos que estão colocando em prática de pirataria estatal, não posso dizer que estou surpreso. É que em momento de “farinha pouca”, os que podem mais tendem a querer “o pirão” todo para eles.

Observatório dos agrotóxicos: a inédita lista dos 101 produtos liberados em 2020

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Em meio ao avanço devastador da pandemia da COVID-19 em todo o mundo, o Brasil incluso, o “Observatório dos Agrotóxicos “, que criei em janeiro de 2019 para informar sobre as liberações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, está lançando a lista completa dos 101 agrotóxicos liberados nos 3 primeiros meses de 2020.

Ainda farei análises adicionais nos próximos dias, mas já observei que a forte predominância de empresas chinesas na oferta dos produtos que estão sendo liberados no Brasil continua firme e forte, com a China sediando 70,3 % das firmas que estão tendo agrotóxicos liberados (ver figura abaixo com os números absolutos por país exportador).

agrotóxicos liberados março 2020

Há ainda que se observar que a influência chinesa pode ser maior na medida em que empresas que foram adquiridas em outras partes do mundo pelas estatais chinesas, como é o caso da Syngenta.

Os dados mostram ainda que o Brasil sedia menos de 6% das empresas que tiveram produtos aprovados.  Um detalhe peculiar dessas aprovações é que todos os agrotóxicos aprovados são do tipo “controle biológico”, o que, em tese, mostraria um potencial para que a dependência externa em agrotóxicos altamente perigosos possa ser diminuída no futuro.

Entretanto, dentre os 101 agrotóxicos liberados, cerca de 30% deles está proibida pela União Europeia, o que reforça a tendência já ocorrida nas aprovações realizadas em 2019 do Brasil se tornar uma espécie de “zona de sacrifício” para onde as grandes corporações multinacionais estão despejando agrotóxicos que já foram banidos nos seus países sedes, inclusive a própria China que já baniu o perigoso Paraquate.

Quem desejar acessar a base completa dos 101 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro até o dia 31 de março, basta clicar [Aqui!]

Depois do coronavírus e desvalorização do Real, governo Bolsonaro abre crise diplomática com a China e com a bancada ruralista

bolso araujo chinaEduardo Bolsonaro começou crise com a China e ganhou apoio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Ciosos de replicar o discurso do governo de Donald Trump, Jair e Eduardo Bolsonaro resolveram abrir uma guerra diplomática com o principal parceiro comercial do Brasil, a China, ao levantar a acusação de que a pandemia do Coronavírus seria uma arma chinesa na guerra comercial com os EUA (ver imagem abaixo).

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A normalmente fleumática diplomacia chinesa resolveu respondeu de forma dura e imediata, ainda que centrando o fogo na figura do deputado federal Eduardo Bolsonaro (ver figura abaixo).

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Armada a crise diplomática, rapidamente o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ) e o presidente em exercício do Senado Federal, Antonio Anastasia (PSDB/MG) , se apressaram em pedir desculpas formais à China pelo ataque de Eduardo Bolsonaro.

Tudo resolvido? Claro que não! É que no dia de hoje, o ministro das Relações Exteriores e cético das mudanças climáticas, Ernesto Araújo, emitiu uma nota exigindo uma retratação formal por parte da China por um suposto ataque à figura de Jair Bolsonaro, levantando novamente as chamas da fogueira (ver figura abaixo).

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Essa pendenga com a China acabou causando outra crise diplomática, só que com a poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária (a famosa bancada ruralista), cujo presidente é o deputado federal Alceu Moreira (MDB/RS). Em manifestação pública, Moreira disse que “essa seria a pior para termos problemas com a China“, pois “o país asiático está superando a crise do coronavírus e precisará se reabastecer, o que deve incrementar e diversificar a exportação de produtos brasileiros para lá.

Menos cordato, o deputado Fausto Pinato (PP/SP) ,  presidente da Frente Parlamentar Brasil-China do Congresso Nacional, deputado federal Fausto Pinato (PP-SP) repudiou, nesta quinta-feira (19/03), as declarações de Eduardo Bolsonaro. Pinato teria afirmado que  o Eduardo Bolsonaro “foi irresponsável tanto por “atentar às relações diplomáticas” brasileiras quanto por expor o embaixador da China no país, Yang Wanming, que, afirma, tornou-se alvo de ameaças”.

A estas alturas do campeonato não sei o que é pior para Jair Bolsonaro e a sobrevivência do seu governo: abrir crise diplomática ou perder o apoio da bancada ruralista. Certamente qualquer uma das duas coisas (ou pior ainda, as duas juntas) não notícias nada boas para um governo que já está claramente na defensiva. E, novamente, muito em função de suas próprias ações.

Aparentemente ninguém informou a Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo do que diz a primeira lei de Murphy: “não há que esteja tão ruim que não possa piorar”. Mas como a China é responsável por comprar nada desprezíveis 80% da produção brasileira de soja, eles vão poder rapidamente testar essa lei. A ver!

Hegemonia chinesa e alta presença de agrotóxicos banidos caracterizam primeira rodada de liberações de 2020

agrotóxicos

Já comentei anteriormente a liberação de 16 agrotóxicos por meio do Ato No 13 de 2020 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Secretaria de Defesa Agropecuária (Mapa).  Mas como houve no mesmo dia, a promulgação do  Ato No 12, resolvi analisar a lista de 32 produtos que tiveram sua comercialização liberada por essa publicação.

Pois bem, a primeira coisa notável é que todos os 32 produtos (dos quais 2 são hormônios vegetais) são produtos técnicos, os quais passarão por outras etapas de preparo até serem colocadas no mercado.   Acrescido a isso, está o fato de que empresas localizadas na China respondem a 87,5% dos fabricantes primários, e basicamente os únicos, de todos os produtos técnicos liberados pelo Ato No 12 (ver gráfico abaixo).

origem país

Não bastasse essa clara predominância chinesa, pude notar que apenas três empresas chinesas fornecem 65% dos produtos aprovados, o que configura uma clara concentração nos fornecedores, o que poderá ter implicações sérias para os importadores brasileiros, tanto em termos de oferta como de preço dessas substâncias.

Além disso, no tocante ao status na União Europeia, 37,5% dos produtos aprovados contém ingredientes ativos que estão proibidos pelo bloco (ver figura abaixo).

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Há ainda que destacar que o famigerado Fipronil, apontado como um dos agrotóxicos responsáveis pelo extermínio de abelhas no Brasil, teve 8 produtos liberados pelo Ato No 12, e curiosamente 6 deles com submissão realizada pela mesma empresa, a AllierBrasil Agro Ltda., sediada na cidade de São Paulo, e que tem como única fornecedora a empresa chinesa Lianyungang Avilive Chemical Co., Ltd.

Trocando em miúdos, a se considerar as características apontadas acima, o que vemos é um aprofundamento da influência da indústria chinesa no fornecimento de agrotóxicos (muitos deles banidos em outras partes do mundo) para saciar as necessidades de consumo do latifúndio agroexportador. Por outro lado, a China é a principal parceira comercial brasileira na aquisição de commodities agrícolas como a soja (que curiosamente responde por mais de 50% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Resta saber quem está ganhando mais dinheiro com essa parceria envenenada. De cara, me parece que não é o Brasil que, na prática, acaba ficando com um enorme passivo ambiental e social por causa da parceria.

Quem desejar a conhecer a lista completa dos 32 agrotóxicos liberados pelo Ato No 12 de 2020, basta clicar [Aqui!]