A China prepara novos concorrentes para as commodities brasileiras na África

Investimentos chineses em infraestrutura, mineração e agricultura podem reduzir a dependência de Pequim em relação ao Brasil, enquanto a concentração brasileira na exportação de produtos primários aumenta nossa vulnerabilidade

Durante as últimas duas décadas, o crescimento econômico da China foi um dos principais responsáveis pela extraordinária expansão das exportações brasileiras de commodities agrícolas e minerais. Soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose encontraram no mercado chinês uma demanda gigantesca, ajudando a consolidar um modelo de inserção internacional cada vez mais dependente da venda de produtos primários. Entretanto, enquanto no Brasil ainda se comemoram sucessivos recordes de exportação, a China está contribuindo para construir uma nova geografia mundial das commodities, e a África ocupa posição cada vez mais importante nesse processo.

O movimento já é particularmente evidente no setor mineral, onde investimentos chineses em minas, ferrovias, rodovias, energia e portos estão permitindo transformar jazidas africanas anteriormente limitadas por gargalos logísticos em novas fontes competitivas de matérias-primas. O exemplo mais contundente é Simandou, na Guiné, gigantesco complexo de minério de ferro conectado a mais de 600 quilômetros de nova ferrovia e a instalações portuárias, cuja capacidade poderá chegar a aproximadamente 120 milhões de toneladas anuais. Para o Brasil, isso significa que a China não precisa deixar de comprar minério brasileiro para afetar nossa economia: basta aumentar suficientemente a oferta africana para fortalecer sua capacidade de negociação e exercer pressão sobre os preços internacionais.

No caso das commodities agrícolas, o processo ainda se encontra em estágio menos avançado, mas a direção é igualmente importante. A cooperação sino-africana passou a incorporar investimentos em produção agrícola, mecanização, irrigação, processamento, armazenamento e logística, ao mesmo tempo em que Pequim facilita o acesso de produtos africanos ao mercado chinês. Estradas, ferrovias e portos são particularmente importantes porque podem reduzir justamente um dos maiores obstáculos históricos à expansão das exportações agrícolas africanas: o custo de transportar a produção das áreas interiores até os mercados consumidores.

Isso não significa que a África esteja prestes a substituir o Brasil como grande fornecedora de soja, milho, carnes ou outras commodities agrícolas. A questão estratégica é outra: a China não precisa substituir o Brasil, mas apenas reduzir progressivamente sua dependência dele. Se diferentes países africanos ampliarem simultaneamente sua produção de soja, algodão, oleaginosas, açúcar, café, carnes e outros produtos, o efeito agregado poderá aumentar as alternativas disponíveis para Pequim e ampliar seu poder de negociação diante dos grandes fornecedores atuais.

A dependência brasileira possui também uma dimensão política

Há ainda um componente geopolítico que torna essa questão mais importante. Oficialmente, Pequim considera o Brasil um parceiro estratégico de primeira ordem, mas os acontecimentos das últimas décadas demonstram que a orientação internacional brasileira pode sofrer mudanças importantes entre diferentes governos. A experiência do governo Jair Bolsonaro, quando integrantes do próprio governo adotaram uma retórica fortemente hostil à China apesar da enorme dependência comercial brasileira, mostrou que a política externa do país pode oscilar rapidamente conforme muda a correlação política interna.

Isso acrescenta um elemento de risco que Pequim não tem razões para ignorar. Depender excessivamente do Brasil para soja, minério de ferro e outras commodities significa ficar parcialmente exposta não apenas às condições climáticas, produtivas e logísticas brasileiras, mas também às oscilações da política externa do país e à disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Diversificar fornecedores na África torna-se, portanto, simultaneamente uma estratégia de segurança alimentar, mineral, comercial e geopolítica.

O risco mineral é imediato; o agrícola é de médio prazo

No curto prazo, o sinal mais evidente para o Brasil está no minério de ferro, justamente porque Simandou transforma em realidade aquilo que durante muitos anos permaneceu como possibilidade. O crescimento da produção guineense acrescentará uma nova fonte importante de minério de alta qualidade ao mercado internacional, reduzindo progressivamente a dependência chinesa dos grandes fornecedores australianos e brasileiros e potencialmente pressionando preços.

Nas commodities agrícolas, o risco é principalmente de médio prazo. A escala, a produtividade e a estrutura empresarial da agricultura brasileira continuam proporcionando vantagens consideráveis, especialmente na soja e no milho. Entretanto, infraestrutura, capital, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso facilitado ao mercado chinês podem alterar gradualmente a competitividade de diferentes regiões africanas, sobretudo se esses elementos forem implantados de maneira coordenada.

O efeito sobre o Brasil tampouco precisa assumir a forma dramática de perda completa do mercado chinês. Ele poderá aparecer silenciosamente por meio de menor participação brasileira nas importações chinesas, maior competição entre fornecedores e pressão sobre os preços internacionais. Para uma economia cuja pauta exportadora se tornou fortemente dependente de commodities e para um agronegócio que possui na China seu principal comprador, alterações relativamente pequenas nesses três componentes podem produzir consequências econômicas significativas.

Quando outros mercados também começam a ficar mais difíceis

Essa vulnerabilidade ganha uma dimensão adicional porque a possível diversificação chinesa ocorre num momento em que o Brasil também encontra obstáculos em outros grandes mercados. Os Estados Unidos vêm utilizando instrumentos tarifários que alcançam produtos brasileiros, enquanto a União Europeia amplia exigências sanitárias, ambientais, aduaneiras e de rastreabilidade para diferentes cadeias de commodities. São mecanismos distintos e seria equivocado tratá-los como se fossem uma única política protecionista, mas todos demonstram que o acesso aos grandes mercados consumidores não está garantido apenas porque o Brasil consegue produzir commodities em enorme escala e a preços competitivos.

É justamente essa combinação que deveria preocupar. Enquanto determinados mercados tradicionais tornam o acesso mais condicionado ou oneroso, a China — que absorveu parcela crescente das exportações brasileiras — investe na infraestrutura e na capacidade produtiva de regiões capazes de se transformar em fornecedores alternativos. O problema deixa então de ser apenas comercial e passa a revelar os riscos de uma economia excessivamente especializada na exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes, celulose e outros produtos primários.

Há nisso uma ironia histórica que merece atenção. A China que nas últimas décadas ajudou a transformar o Brasil numa potência exportadora de commodities está utilizando sua capacidade financeira, tecnológica e empresarial para desenvolver novas regiões produtoras em outras partes do mundo. No setor mineral, essa estratégia já possui um nome bastante concreto: Simandou. Na agricultura africana, Pequim está ajudando a construir as condições materiais — infraestrutura, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso ao mercado — para que novos fornecedores possam ganhar importância nos próximos anos.

Por isso, o avanço chinês na África deveria provocar no Brasil uma discussão bem menos triunfalista sobre o futuro do chamado agronegócio e, mais amplamente, sobre nossa dependência de produtos primários. O risco não está em a África substituir repentinamente o Brasil, mas em nossos principais compradores passarem a dispor de alternativas cada vez maiores justamente quando outros mercados impõem novas condições de acesso às commodities brasileiras. Quanto maior o número de fornecedores disponíveis e quanto mais dependente permanecer o Brasil de poucos produtos e poucos mercados, menor será nossa capacidade de determinar preços e condições de comercialização.

A pergunta estratégica, portanto, não é se a China continuará comprando soja, minério de ferro, carne ou celulose do Brasil amanhã. É se daqui a dez ou quinze anos ainda precisará comprá-los de nós nas mesmas quantidades e nas mesmas condições. Se a resposta for negativa, os atuais recordes de exportação poderão estar escondendo uma vulnerabilidade que somente será percebida quando a nova geografia mundial das commodities já estiver consolidada. Nesse cenário, diversificar a estrutura produtiva brasileira, recuperar capacidade industrial e tecnológica e agregar valor ao que produzimos deixam de ser apenas antigas bandeiras desenvolvimentistas e passam a constituir uma necessidade estratégica.

A porta dos fundos dos agrotóxicos: o que quase mil alterações de pós-registro revelam sobre o mercado brasileiro

Atos publicados pelo Ministério da Agricultura em 2026 mostram que produtos já registrados continuam ganhando fabricantes, fornecedores, importadores e novos usos — e revelam uma impressionante predominância da indústria química chinesa

Quando se fala sobre a liberação de agrotóxicos no Brasil, quase toda a atenção costuma se concentrar na quantidade de novos registros concedidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Essa é uma informação importante, mas a análise que realizei dos atos de pós-registro publicados em 2026 mostra que existe outra parte da engrenagem regulatória que permanece praticamente invisível ao debate público. E o que acontece ali está longe de ser meramente burocrático.

Examinei os Atos nº 21, 24, 27, 37, 46, 48 e 53, mantendo o Ato nº 65, publicado em 30 de dezembro de 2025, apenas como referência imediatamente anterior. Somadas as posições numeradas nesses documentos, estamos diante de algo próximo de 970 itens de pós-registro em menos de cinco meses (ver relatório Aqui!). Esse número não representa 970 alterações líquidas, já que existem retificações, cancelamentos e itens posteriormente tornados sem efeito, mas dá uma ideia da escala de uma atividade regulatória que praticamente não aparece no debate público.

O problema começa justamente pela expressão “pós-registro”. Ela parece sugerir que estamos diante de pequenos ajustes administrativos realizados depois que determinado agrotóxico recebeu autorização. A leitura dos atos mostra outra coisa. Por meio desse mecanismo podem ser adicionados fabricantes e formuladores, autorizados novos importadores, incorporados outros produtos técnicos, transferidos registros entre empresas, criadas ou modificadas marcas comerciais e alteradas recomendações de uso. Em determinadas situações, produtos passam a alcançar novas culturas e organismos-alvo e podem sofrer até modificações de dose. Em outras palavras, um agrotóxico pode mudar bastante depois de ter sido registrado sem que isso apareça nas estatísticas de novos registros.

É nesse emaranhado de centenas de decisões publicadas no Diário Oficial  da União que aparece a descoberta que considero mais impressionante. Minha consolidação preliminar identificou aproximadamente 186 ocorrências envolvendo inclusão de fabricantes, formuladores ou manipuladores. Dentro delas aparecem cerca de 130 referências a unidades industriais chinesas, contra aproximadamente 12 indianas. Entre as inclusões estrangeiras cuja origem foi possível identificar, a participação chinesa fica próxima de 88%.

E não se trata simplesmente de escrever “Made in China” sobre um mercado abstrato. Os endereços publicados pelo próprio MAPA conduzem repetidamente a províncias como Jiangsu, Shandong, Hebei, Anhui, Zhejiang e Hubei, justamente áreas onde estão instalados importantes complexos da indústria química chinesa. No Ato nº 27, por exemplo, aparecem sucessivas alterações envolvendo fabricantes localizados em Jiangxi e Jiangsu. Já o Ato nº 46 registra empresas chinesas e indianas sendo incorporadas às cadeias de produtos comercializados no Brasil.

A Índia aparece num distante segundo plano, mas também apresenta uma geografia bastante definida. Boa parte das fábricas identificadas está localizada no estado de Gujarat, particularmente nos polos industriais de Bharuch, Ankleshwar, Panoli e Dahej. O que emerge desses atos, portanto, é uma verdadeira cartografia internacional da indústria de agrotóxicos que abastece o agronegócio brasileiro.

Há outro aspecto que merece muito mais atenção. Um consumidor conhece eventualmente o nome comercial de um agrotóxico, mas dificilmente sabe quem produziu o ingrediente técnico utilizado em sua fabricação. Entretanto, o pós-registro permite que novos produtos técnicos sejam incorporados posteriormente aos produtos formulados. No Ato nº 46, por exemplo, o Clorantraniliprole Técnico CX foi incluído em uma extensa relação que contém Altacor, Premio, Coragen, Vantacor e diversos outros produtos. Uma única decisão administrativa pode, assim, alterar simultaneamente a cadeia de fornecimento de numerosos produtos encontrados no mercado brasileiro.

O mecanismo também permite ampliar o universo agronômico dos produtos existentes. No Ato nº 27 aparecem inclusões de algodão, feijão, milho e trigo e de grupos inteiros de culturas. Em outro caso, a lista acrescentada inclui desde alface, alho e cebola até brócolis, couves, espinafre, morango, mostarda, repolho e rúcula. O mesmo ato registra situação envolvendo inclusão de cultura e de organismos-alvo acompanhada de aumento de dose.

É preciso registrar que os atos também contêm exclusões e cancelamentos. O Ato nº 53, por exemplo, cancela o registro do Lactofen Técnico Sumitomo e exclui fabricantes anteriormente associados ao Bifenthrin Técnico FMC. Portanto, seria incorreto afirmar que toda decisão de pós-registro amplia automaticamente o mercado. O que os documentos demonstram é a existência de um sistema extremamente dinâmico de entrada, substituição, exclusão e expansão de fornecedores, produtos e possibilidades de utilização.

Mas há aqui uma questão política e regulatória que não deveria ser ignorada. Quando centenas de novos registros são liberados, isso eventualmente chega às manchetes. Já quando centenas de alterações posteriores modificam quem fabrica o produto técnico, quem formula, quem importa e onde determinado veneno poderá ser utilizado, tudo aparece pulverizado em páginas e páginas do Diário Oficial, escrito em linguagem burocrática que praticamente impede qualquer acompanhamento sistemático pela sociedade.

Talvez seja justamente aí que esteja a descoberta mais importante deste levantamento. Para compreender o tamanho real do mercado brasileiro de agrotóxicos, não basta contar quantos novos registros o governo concede. É preciso acompanhar o que acontece com esses registros depois que eles entram no sistema.

E o que os atos de 2026 estão mostrando é particularmente revelador: enquanto os olhos permanecem voltados para a porta da frente dos novos registros, existe uma gigantesca engrenagem funcionando nos bastidores, incorporando novos fabricantes, novos fornecedores técnicos, novos importadores e novos usos. Nessa engrenagem, a indústria química chinesa ocupa uma posição absolutamente dominante.

Por isso, depois de examinar conjuntamente esses documentos, eu resumiria o problema de uma maneira bastante simples: o registro é a porta de entrada, mas o pós-registro parece ser uma das principais engrenagens de expansão e reorganização do mercado brasileiro de agrotóxicos.

E talvez esteja na hora de começarmos a olhar com muito mais atenção para aquilo que está entrando por essa porta quase invisível.

China lança grande operação para combater má conduta acadêmica e pune pesquisadores renomados

A China iniciou sua maior repressão à má conduta acadêmica, demitindo quatro pesquisadores proeminentes e investigando mais de 40 outros após uma revelação nas redes sociais

Por Deepali Samaniya para “Times Now” 

A China lançou a sua maior operação pública de combate à má conduta acadêmica, removendo quatro acadêmicos proeminentes e iniciando investigações contra mais de 40 pesquisadores em universidades e hospitais, conforme relatado pela PTI . A questão, que ganhou repercussão após uma publicação nas redes sociais, desencadeou uma extensa investigação sobre supostas práticas acadêmicas indevidas.

Em 26 de agosto, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China (NFSC) divulgou detalhes sobre uma nova casos de má conduta em universidades e hospitais de todo o país. Os casos, segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, noticiado na quinta-feira, envolveram mais de 40 pesquisadores.

O anúncio da NSFC ocorreu quase dois meses depois de o presidente chinês, Xi Jinping, ter solicitado medidas mais rigorosas contra a má conduta acadêmica.

Segundo o relatório, pelo menos quatro acadêmicos de renome foram demitidos de universidades importantes depois que o estudante “Geng”, um blogueiro influente e ex-aluno de doutorado, os identificou em abril e apontou suas pesquisas por suposta má conduta.

Os acadêmicos foram reconhecidos pelo Fundo Nacional de Ciência para Jovens Pesquisadores de Destaque, um programa de bolsas de pesquisa/incentivo a jovens pesquisadores que fizeram contribuições notáveis ​​para a pesquisa básica, permitindo-lhes escolher suas próprias linhas de pesquisa e se envolver em projetos inovadores. Frequentemente, serve como trampolim para o ingresso nas principais academias de ciência e engenharia da China. Três deles atuaram como decanos ou vice-decanos em suas respectivas faculdades.

A revelação de Geng nas redes sociais motivou a maior investigação já realizada pela NSFC sobre má conduta acadêmica.

Financiamento e títulos revogados por má conduta

A fundação, por meio de um comunicado divulgado em agosto, retirou o financiamento e os títulos dos quatro, e ordenou que devolvessem mais de 10 milhões de yuans (US$ 1,49 milhão) em bolsas concedidas anteriormente, além de proibi-los de solicitar financiamento novamente por um período de três a sete anos.

Segundo reportagem do SCMP, essa mudança é frequentemente considerada uma “sentença de morte” para uma carreira acadêmica na comunidade de pesquisa do país.

Anteriormente, o presidente Xi pediu “padrões mais rigorosos” e “medidas mais concretas” para lidar com má conduta e “promover um ecossistema de pesquisa limpo e íntegro”, durante um discurso em uma reunião conjunta do Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia, da Academia Chinesa de Ciências, da Academia Chinesa de Engenharia e da Associação Chinesa para Ciência e Tecnologia.

A China tem aumentado persistentemente seus investimentos em pesquisa científica. No âmbito do 15º Plano Quinquenal, Pequim estabeleceu como meta que os gastos com pesquisa e desenvolvimento em toda a sociedade cresçam pelo menos sete por cento ao ano, de 2026 a 2030.


Fonte: Times Now

A expansão silenciosa dos agrotóxicos: o que 199 decisões de pós-registro do Ministério da Agricultura revelam

Ato publicado pelo Ministério da Agricultura mostra que a expansão do mercado de agrotóxicos não ocorre apenas pela concessão de novos registros: quase 70% das decisões analisadas ampliaram importadores, formuladores, fontes técnicas, marcas ou possibilidades de uso de produtos já existentes 

Quem acompanha o debate sobre os agrotóxicos no Brasil provavelmente já se acostumou com uma espécie de contabilidade macabra: a cada ano se anuncia quantos novos produtos foram registrados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), e a partir daí se tenta dimensionar o ritmo com que o mercado brasileiro continua sendo abastecido por novas formulações e marcas comerciais. O problema é que o Ato nº 53, de 1º de setembro de 2026, publicado no dia de hoje pela Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, mostra que olhar apenas para os novos registros permite enxergar somente uma parte da história.

O documento, publicado no Diário Oficial da União, reúne nada menos que 199 decisões de pós-registro de agrotóxicos e afins. É importante esclarecer desde logo que isso não significa a liberação de 199 novos agrotóxicos. O que o documento revela é algo mais complexo e, em certos aspectos, ainda mais interessante: depois que um agrotóxico recebe seu registro, sua trajetória regulatória não termina. Ao contrário, o produto pode continuar adquirindo novos importadores, formuladores, fabricantes, fontes de produto técnico, marcas comerciais e até novas possibilidades de utilização. É justamente essa movimentação posterior ao registro que aparece quase invisível no debate público sobre a expansão dos agrotóxicos no Brasil.

Uma classificação que realizei dos 199 itens publicados no Ato nº 53 mostra a dimensão desse fenômeno. Dos 199 procedimentos, 139, ou aproximadamente 69,8%, representam alguma forma de expansão da estrutura regulatória associada aos produtos, enquanto 38 correspondem a movimentos de retração, como exclusões, cancelamentos ou restrições, e outros 22 possuem natureza predominantemente administrativa ou neutra. Evidentemente, esse saldo não mede toneladas comercializadas, faturamento das empresas ou risco toxicológico. Mas mostra de maneira bastante clara para qual direção se movimentou a maioria das decisões publicadas naquele ato.

O dado mais impressionante aparece quando se observa a composição das decisões classificadas como expansivas. Foram identificadas 53 autorizações de novos importadores, 35 inclusões de formuladores e 31 inclusões de produtos técnicos, além de inclusões de fabricantes, manipuladores, marcas comerciais e ampliações das recomendações de uso. Isso significa que mais de uma centena das decisões publicadas naquele único ato está diretamente relacionada à ampliação de algum componente da cadeia que permite produzir, formular, importar ou disponibilizar produtos no mercado brasileiro.

Um dos exemplos mais didáticos está no item 63, no qual a empresa Agrofito é autorizada a importar uma extensa relação de produtos que inclui formulações de 2,4-D, atrazina, clorotalonil, diquate, flumioxazina, glifosato e glufosinato, entre outras. Mais adiante, a mesma empresa recebe novas autorizações envolvendo produtos contendo 2,4-D e a combinação 2,4-D + picloram.

Há ainda uma peculiaridade importante: um único procedimento administrativo pode produzir efeitos sobre diversos produtos comerciais. No item 147, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão do Picloram Técnico RF como fonte técnica para produtos comercializados sob nomes como Torban, Canchim, Torban Plus, Kaboclo, Limpeza, Canchim Plus, Temicab XTRA, Chapon Plus e Wrangler. Portanto, contar esse procedimento simplesmente como “uma alteração” também subestima sua dimensão material.

É justamente aqui que aparece uma das principais peculiaridades do sistema. Imaginemos um agrotóxico registrado há alguns anos. Na estatística histórica ele continuará aparecendo como um registro. Entretanto, depois da concessão original podem ser incorporados um novo fabricante, dois novos formuladores, três importadores, uma nova fonte de produto técnico e outras marcas comerciais. Formalmente continuamos diante daquele registro original, mas economicamente sua infraestrutura de produção e abastecimento pode ter se tornado muito maior. Em outras palavras, o número de registros permanece parado enquanto a estrutura comercial por trás deles continua crescendo.

A forte presença da indústria chinesa

Outro aspecto que chama atenção no Ato nº 53 é a presença da indústria química chinesa. Em 22 dos 199 itens aparece referência explícita à China, sendo que 18 deles correspondem a movimentos classificados como expansivos. Esse número não deve ser confundido com 22 empresas diferentes nem permite concluir que todos os ingredientes ativos envolvidos sejam produzidos naquele país, mas evidencia a importância da China na cadeia industrial que abastece o mercado brasileiro de agrotóxicos.

O documento registra, por exemplo, sucessivas inclusões de empresas chinesas como formuladoras de produtos comercializados no Brasil. Um caso particularmente revelador envolve a Jiangsu Flag Chemical Industry Co. Ltd., que aparece sendo acrescentada como formuladora de vários produtos em decisões consecutivas. O padrão sugere que a análise do mercado brasileiro de agrotóxicos precisa considerar não apenas as empresas titulares dos registros no Brasil, mas também a geografia internacional da fabricação dos produtos técnicos e das formulações.

O pós-registro também pode ampliar onde e como o veneno é usado

Outro aspecto peculiar é que o mecanismo não atua apenas sobre a cadeia empresarial. O pós-registro pode modificar as próprias condições de utilização de um agrotóxico.

No item 167, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão da modalidade de aplicação aérea nas culturas de batata e tomate para o produto Consento. Nos itens seguintes aparecem inclusões de novas culturas nas recomendações de outros produtos, como a carinata. Assim, o mesmo instrumento administrativo que acrescenta importadores ou formuladores também pode aumentar as situações nas quais determinado produto poderá ser utilizado.

Isso torna o conceito de pós-registro particularmente importante para quem acompanha os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Não estamos falando apenas de mudanças no endereço de uma empresa ou na titularidade de um registro. Em determinados casos, estamos diante de decisões capazes de alterar concretamente a maneira como o produto chega ao mercado ou é utilizado no território.

Produtos proibidos na União Europeia continuam circulando pela engrenagem brasileira

O cruzamento dos ingredientes explicitamente mencionados no Ato nº 53 com sua situação regulatória na União Europeia oferece outro elemento importante, mas exige alguma cautela. Não seria correto afirmar que todos os produtos encontrados no documento estão proibidos no mercado europeu. Glifosato, 2,4-D, picloram, tebuconazol, lambda-cialotrina e cletodim, por exemplo, permanecem aprovados para usos fitossanitários na União Europeia, ainda que sujeitos a diferentes condições e processos regulatórios.

Entretanto, aparecem no ato brasileiro moléculas cuja situação europeia é radicalmente diferente.

Uma delas é o clorpirifós, cuja aprovação não foi renovada pela União Europeia em 2020. No Ato nº 53 brasileiro, entretanto, aparece uma autorização de importação envolvendo produto à base dessa substância. Outra é o propiconazol, cuja aprovação europeia não foi renovada em 2018. No Brasil, o item 67 do Ato nº 53 autoriza a inclusão do Propiconazol Técnico Cropchem II como nova fonte técnica para o produto Maragato 500 EC.

O caso do fipronil mostra, por outro lado, por que é preciso analisar cada procedimento individualmente. A substância deixou de ser aprovada para produtos fitofarmacêuticos na União Europeia, mas a decisão encontrada no Ato nº 53 não representa expansão de uso. Ao contrário, o MAPA determinou a exclusão da cultura do milho das recomendações do Fipronil 80 WG Gharda.

Esse exemplo é importante porque demonstra que uma crítica consistente ao sistema brasileiro não precisa transformar toda decisão administrativa em flexibilização. O próprio documento contém restrições e cancelamentos. O problema é que, quando o conjunto das decisões é contabilizado, a balança pende fortemente para o lado da expansão.

O pós-registro como uma espécie de segunda vida comercial

Talvez esta seja a principal conclusão que se possa retirar do Ato nº 53. O sistema de registro de agrotóxicos não funciona simplesmente como uma porta que se abre uma única vez. Depois de atravessá-la, determinados produtos continuam acumulando alterações capazes de ampliar sua infraestrutura industrial e comercial.

Isso significa que o debate brasileiro sobre a quantidade de agrotóxicos liberados anualmente precisa incorporar uma segunda variável. Além de perguntar quantos novos registros foram concedidos, seria necessário perguntar quantas expansões foram posteriormente autorizadas sobre o estoque de registros já existente.

Essa diferença não é meramente semântica. Um produto registrado uma única vez pode, ao longo dos anos, passar a contar com novos fornecedores de ingrediente técnico, novos formuladores internacionais, novos importadores brasileiros, novas marcas e novas recomendações de utilização. Nenhuma dessas mudanças necessariamente aparecerá como um “novo agrotóxico” nas manchetes sobre o número anual de registros.  Por isso, o Ato nº 53 permite enxergar algo que permanece quase sempre fora do radar: existe uma expansão silenciosa dos agrotóxicos que ocorre depois do registro.

E talvez seja justamente por permanecer enterrada em centenas de itens burocráticos publicados no Diário Oficial que essa dimensão do problema receba tão pouca atenção. Enquanto a discussão pública se concentra na quantidade de novos produtos liberados, a máquina regulatória continua trabalhando sobre os produtos antigos, acrescentando importadores, formuladores, fontes técnicas e possibilidades de utilização. O registro, portanto, não representa necessariamente o ponto final da autorização de um agrotóxico. Em muitos casos, ele parece funcionar como o início de uma trajetória regulatória que permite sucessivas ampliações posteriores.

Se quisermos compreender a verdadeira dimensão da dependência brasileira dos agrotóxicos, talvez seja hora de parar de contar apenas quantos entram pela porta da frente e começar a observar o quanto continuam crescendo depois que já estão dentro da casa.

Observatório dos Agrotóxicos informa: a marcha dos agrotóxicos continua no governo Lula

Ato nº 50 libera mais 44 produtos técnicos, 36 deles fabricados na China, enquanto o governo promete reduzir o uso de agrotóxicos e fortalecer a agroecologia

A publicação do Ato nº 50, de 14 de agosto de 2026, mostra que a marcha dos agrotóxicos continua avançando no terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O documento concedeu registro a 44 produtos técnicos, dos quais 36 têm fabricantes localizados na China. Ou seja, mais de 80% dos novos registros dependem diretamente da indústria química chinesa. A lista inclui ingredientes ativos que já não estão aprovados para uso em produtos fitossanitários na União Europeia, entre eles clorpirifós, picoxistrobina, lufenuron, tiametoxam, propiconazol, ciproconazol e dimetomorfe. Alguns tiveram suas aprovações explicitamente não renovadas pelas autoridades europeias. Ainda assim, continuam recebendo novos registros no Brasil.

É justamente aí que aparece a principal contradição do governo Lula. Durante a campanha de 2022, o programa apresentado ao eleitorado prometeu fortalecer a produção orgânica e agroecológica e incentivar sistemas alimentares sustentáveis. Já no governo, foi criado o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, o Pronara, cujo objetivo oficial é promover a redução gradual e contínua do uso dessas substâncias, especialmente das mais perigosas, ao mesmo tempo em que se ampliam a agroecologia e a agricultura orgânica.

No papel, portanto, o governo promete reduzir a dependência de agrotóxicos. Na prática, o Ministério da Agricultura continua ampliando o arsenal químico disponível para o agronegócio.  Não se trata de afirmar que Lula e Bolsonaro são iguais. Bolsonaro fez do libera-geral dos agrotóxicos uma política deliberada de governo e desmontou instrumentos ambientais e sociais que Lula voltou a reconstruir. Mas reconhecer essas diferenças não obriga ninguém a ignorar as continuidades.

A questão central é simples: como um governo pode afirmar que pretende reduzir o uso de agrotóxicos enquanto continua concedendo dezenas de novos registros, inclusive para ingredientes ativos que já foram retirados ou deixaram de ser aprovados em mercados regulatoriamente mais restritivos? A forte presença chinesa também desmonta parte da propaganda sobre a suposta autossuficiência tecnológica do agronegócio brasileiro. O Brasil exporta soja, milho, algodão e outras commodities, mas depende fortemente de ingredientes químicos produzidos no exterior para manter esse modelo funcionando. Dos 44 produtos técnicos autorizados no Ato nº 50, 36 estão vinculados a fabricantes chineses. É uma dependência química que raramente aparece nas celebrações da chamada potência agrícola brasileira.

O problema, portanto, não está apenas no número de registros. Está na ausência de sinais claros de que o país esteja efetivamente reduzindo sua dependência dos agrotóxicos. Se o Pronara pretende representar uma mudança real, o governo precisa apresentar metas concretas para retirar do mercado as substâncias mais perigosas, diminuir o consumo total de agrotóxicos e ampliar de forma mensurável os sistemas agroecológicos.  Caso contrário, a agroecologia continuará aparecendo nos discursos enquanto a agricultura químico-dependente permanece intacta no mundo real.

O Ato nº 50 deixa essa contradição bastante clara: enquanto uma parte do governo promete reduzir os agrotóxicos, outra continua autorizando novos produtos. E, nesse ritmo, a marcha dos agrotóxicos não apenas continua. Ela segue encontrando estrada livre.

Blogueiro provoca escândalo de integridade na pesquisa na China após revelar manipulação de dados por pesquisadores renomados

As acusações virais de manipulação de dados em periódicos da Nature , feitas por um videoblogger , desencadearam um intenso debate e investigações institucionais céleres

Um computador MacBook sobre uma mesa exibe um vídeo do YouTube do estudante Geng, um investigador científico.Os vídeos de Geng Hongwei provocaram um intenso debate nas redes sociais chinesas. Crédito: Tom Houghton/ Nature

Por Xiaoying You para “Nature”

Quatro acadêmicos chineses de alto escalão foram disciplinados depois que um blogueiro e ex-aluno de doutorado apontou anomalias nos dados de seus artigos publicados, o que viralizou.

Um blogueiro conhecido como Student Geng, cujo nome verdadeiro é Geng Hongwei, questionou a autenticidade dos dados em cinco artigos e nomeou cinco pesquisadores renomados de quatro universidades chinesas que foram coautores das publicações. Os artigos foram publicados na Nature e em três periódicos vinculados à Nature . Um dos pesquisadores acusados ​​está sendo investigado em sua universidade — os outros enfrentaram consequências severas após as investigações de suas instituições.

Manipulação de dados

Em uma série de vídeos publicados nas redes sociais chinesas em abril e maio, cada um com duração de cerca de cinco minutos e visualizado quase dez milhões de vezes até o momento, Geng explica como analisou padrões nos dados e concluiu que os números poderiam ter sido fabricados.

Por exemplo, ele analisou uma planilha nos dados de origem de um artigo publicado na Nature em novembro de 2024, que estudava como uma enzima no corpo humano poderia regular o dano ao DNA. . Dos 280 pontos de dados na planilha, 76% terminavam com o número cinco, enquanto apenas 6% terminavam com o número seis, o segundo dígito final mais comum. Geng explicou que esse padrão é extremamente improvável do ponto de vista estatístico.

Geng interpretou isso como evidência de manipulação de dados: “Vocês estão me dizendo que esses números são autênticos?”, perguntou ele em um vídeo. Depois de dar mais exemplos de números terminados em cinco no mesmo artigo, ele zombou: “Essas tabelas mostram o amor dos autores pelo número cinco.”

Em abril, uma nota do editor foi publicada no jornal, alertando os leitores sobre preocupações com a confiabilidade dos dados e informando que uma investigação estava em andamento. Notas do editor foram adicionadas aos outros quatro jornais em maio e junho.

Em outra planilha, de um artigo publicado na Nature Cancer 6 em janeiro de 2024, que propôs uma maneira de combater cânceres difíceis de tratar, os dois dígitos após a vírgula de cada um dos seus 64 números são idênticos aos dos números localizados na célula na mesma posição na planilha seguinte, sugerindo que eles podem ter sido fabricados, diz Geng.

“Essas duas tabelas mostram que os autores não se importam com seus leitores e desprezam a autoridade da pesquisa científica”, comentou Geng em tom de brincadeira.

Geng também alegou em seus vídeos que outros quatro artigos do portfólio da Nature continham irregularidades em seus dados, mas não nomeou os autores desses artigos e suas instituições não anunciaram investigações.

Após ser contatada para comentar o assunto, Erika Pastrana, vice-presidente de periódicos de pesquisa e revisão da Nature na Springer Nature, disse: “Todos os artigos estão sendo cuidadosamente investigados pelo Grupo de Integridade em Pesquisa da SN, juntamente com avaliações editoriais das preocupações levantadas, contato com os autores e, quando apropriado, consulta a especialistas independentes e instituições relevantes.”

“Levamos as preocupações com a integridade da pesquisa muito a sério e temos diversas ferramentas e processos implementados para identificar possíveis problemas. Os periódicos do Nature Portfolio têm um compromisso de longa data com a transparência, o rigor e a inovação na revisão por pares. Nossas políticas de dados e relatórios estão entre as mais abrangentes no setor de publicações seletivas, apoiando tanto a avaliação editorial quanto a análise pós-publicação. Esse nível de transparência também significa que os problemas são identificados e examinados mais facilmente após a publicação, o que é uma parte importante da manutenção de um registro científico robusto e autocorretivo”, disse Pastrana. As equipes de carreiras e notícias da Nature são independentes da seção de pesquisa da Nature e de sua editora, a Springer Nature.

Ação institucional

As quatro universidades divulgaram comunicados logo após a publicação dos vídeos de Geng, informando o público sobre a abertura de investigações. Três delas — a Universidade Tongji em Xangai, a Universidade Nankai em Tianjin e a Universidade Sun Yat-sen em Guangzhou — já disciplinaram os acadêmicos acusados ​​e prometeram reforçar a supervisão de alunos e professores no futuro. Ainda não se sabe se essas universidades divulgarão mais detalhes das investigações.

Wang Ping, ex-reitor da Faculdade de Ciências da Vida e Tecnologia da Universidade de Tongji, foi o primeiro a ser penalizado. Ele foi destituído do cargo de reitor, rebaixado em dois níveis hierárquicos e teve diversos direitos, como responsabilidades de contratação e aumentos salariais, suspenso por 24 meses, segundo comunicado divulgado pela universidade em 6 de maio.

A Universidade Tongji afirmou que, durante a investigação de um artigo suspeito, descobriu que Wang não havia cumprido seu dever como orientador e autor correspondente de garantir a autenticidade dos dados e a qualidade do artigo. Segundo a universidade, o primeiro autor, Jin Jiali, conduziu os experimentos e forneceu os dados para as 14 tabelas em questão. A investigação constatou “má conduta acadêmica” na produção de dez das tabelas, “registro não padronizado” em uma e “uso indevido” nas três restantes. Jin, pesquisador da universidade, foi demitido, de acordo com o comunicado.

Chen Quan, ex-reitor da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade de Nankai, também foi afastado do cargo e rebaixado após uma investigação sobre um artigo suspeito. A investigação concluiu que o primeiro autor do artigo, Zheng Hao, havia cometido má conduta acadêmica, segundo um comunicado da Universidade de Nankai divulgado em 30 de maio. A universidade afirmou que Chen, um dos autores correspondentes, não manteve a qualidade do trabalho — assim como outro autor correspondente, que recebeu uma advertência. Zheng, um estudante de pós-doutorado, também foi demitido.

Os outros dois acadêmicos trabalham na Universidade Sun Yat-sen, que anunciou os resultados de sua investigação em um comunicado divulgado em 30 de maio. Um deles, Kang Tiebang, foi destituído de dois de seus cargos: vice-diretor do Laboratório Estatal de Oncologia do Sul da China e vice-diretor do departamento de pesquisa experimental do Centro de Câncer da Universidade Sun Yat-sen. O outro, Kuang Dongming, foi destituído do cargo de vice-reitor da Faculdade de Ciências da Vida da universidade. As investigações sobre seus artigos constataram “falta de rigor acadêmico e má conduta acadêmica”, afirmou o comunicado.

“Não tenho mais comentários a fazer neste momento”, disse Kuang Dongming quando contatado para comentar. “Acredito que qualquer avaliação dos resultados e conclusões do artigo só deve ser feita após uma verificação cuidadosa dos dados brutos”, afirmou.

Os demais pesquisadores foram contatados, mas não haviam respondido até o momento da publicação deste artigo.

O que é “impressionante” em Geng é seu enorme sucesso em levar adiante essas investigações de má conduta, afirma Elisabeth Bik, microbiologista e pesquisadora independente de integridade científica em São Francisco, Califórnia. Além disso, algumas das investigações já resultaram em constatações de má conduta — o que, segundo Bik, aconteceu de forma excepcionalmente rápida.

Uma pilha de diferentes edições impressas da revista científica Nature dispostas sobre uma mesa.

Geng tem se concentrado em revistas científicas da marca Nature em seus vídeos investigativos. Crédito: Masanori Inagaki/AP via Alamy

Esta é provavelmente a primeira vez na China que alguém com uma formação “popular” fora do sistema acadêmico formal recebe apoio da mídia estatal após fazer alegações sobre a integridade da pesquisa, afirma Shaoxiong Brian Xu, linguista aplicado da Universidade Normal de Huanggang, na China, que pesquisa retratações de artigos acadêmicos em todo o mundo.

O fato de suas acusações se concentrarem em pesquisadores de alto nível que trabalham em universidades de renome e publicam em periódicos de grande prestígio provavelmente contribuiu para atrair a atenção, diz Xu. “Além disso, suas acusações apontam para fabricação de dados”, acrescenta Xu. Esta é “uma das formas mais graves de violação da integridade da pesquisa”.

Viralizou

Geng conta que se tornou videoblogger em 2022, enquanto cursava doutorado em engenharia biomédica em uma universidade de Pequim. Ele afirma que, no ano passado, abandonou o programa no quinto ano por se sentir incapaz de realizar a pesquisa pela qual era apaixonado em um ambiente que o pressionava a publicar muitos artigos.

“Um motivo ainda mais importante foi que eu não conseguia enxergar uma trajetória de carreira viável para mim como pesquisador no sistema atual”, diz ele. Geng publica comentários em vídeo sobre novas descobertas científicas, notícias do meio acadêmico e suspeitas de má conduta acadêmica. Ele afirma que recebe informações de seus seguidores e de outros usuários da internet sobre artigos potencialmente fraudulentos antes de verificar as alegações por conta própria.

Já havia preocupações levantadas sobre alguns dos artigos no PubPeer, um site que permite que cientistas e o público comentem pesquisas publicadas, antes de Geng compartilhar suas análises em plataformas de mídia social, como o Bilibili, um site de vídeos semelhante ao YouTube na China, e o Douyin, a versão chinesa do TikTok. Geng afirma que, para a maioria dos artigos que sinalizou, ele havia enviado solicitações formais de investigação aos financiadores dos projetos e às universidades envolvidas antes de publicar online.

Impacto

O canal de Geng no Bilbili atraiu cerca de 2,2 milhões de seguidores. “Parabéns pela coragem da blogueira”, escreveu um fã na plataforma.

Em maio, um editorial publicado pela Xinhua, agência de notícias estatal chinesa, dizia: “Como blogueiro científico, o estudante Geng, sozinho, desencadeou investigações acadêmicas por diversas instituições. Isso não só demonstra que os verdadeiros mestres vêm das massas, como também expõe os problemas gritantes do sistema de supervisão acadêmica nacional.”

Retrato de Geng Hongwei em pé, sentado em uma cadeira de escritório e olhando para a câmera.

O estudante Geng, cujo nome verdadeiro é Geng Hongwei, afirma que se tornou vlogger em 2022 e posteriormente abandonou seu programa de doutorado. Crédito: Cortesia de Geng Hongwei

Geng afirma que espera que seus vídeos possam mostrar às autoridades chinesas que a má conduta acadêmica no país é um problema sério que precisa ser resolvido.

Mas as ações de Geng também atraíram críticas. “Alguns alunos temem que seu combate à má conduta acadêmica possa resultar na punição de um ou dois pesquisadores de alto nível, mas, no fim das contas, a responsabilidade e a carga de trabalho recairão sobre os alunos comuns se houver uma repressão aos artigos”, diz Jiang Rui, mestrando em ciência e engenharia de materiais em Hefei, na China.

Um espectador preocupado deixou um comentário nos vídeos de Geng, dizendo: “Só quero me formar sem problemas para poder encontrar um emprego… Quanto mais acusações surgirem, maior a probabilidade de as universidades aumentarem a supervisão dos trabalhos. Os mais afetados serão os estudantes.”

Jiang afirma que ele, seus colegas e amigos discutiram os vídeos virais de Geng e que as opiniões estão divididas. “Mas o fato de ele ter abandonado o doutorado, e não ser um pesquisador consagrado, torna ele e suas ações mais identificáveis ​​para nós”, diz Jiang.

Questões mais profundas

A viralização de Geng expôs alguns desafios enfrentados pelo sistema acadêmico chinês, afirmam os entrevistados. Um desses problemas é a qualidade de algumas publicações de pesquisa, dizem eles.

“É impressionante o rápido progresso da ciência chinesa, que partiu de um patamar muito baixo há apenas 26 anos”, afirma Rao Yi, neurologista da Universidade de Pequim e crítico proeminente da má conduta acadêmica no país. Mas Rao acrescenta que também está “entristecido tanto pelo número quanto pela proporção de artigos contendo informações falsas provenientes da China”.

Com o rápido crescimento do número de artigos publicados por autores sediados na China, o número de retratações também aumentou. Em 2023, mais da metade das 50.002 publicações retratadas em todo o mundo envolviam pelo menos uma instituição de pesquisa chinesa — mais de cinco vezes o número de publicações dos Estados Unidos, segundo uma análise de Xu e seu colega . Cerca de 20% das retratações de pesquisadores chineses foram causadas pelo uso de “fábricas de papel”, empresas que produzem manuscritos fraudulentos ou de baixa qualidade sob demanda; o plágio representou 4,3% e a fabricação ou falsificação, 2,8%, de acordo com a análise. (As retratações são frequentemente usadas como um indicador de má conduta científica na ausência de uma métrica alternativa, o que por si só já causou controvérsia: algumas editoras argumentam que as retratações muitas vezes demonstram um compromisso com práticas responsáveis.)

A má conduta científica ocorre em todo o mundo, mas a China é “muito propensa” a ela devido ao grande volume de artigos publicados por seus pesquisadores, “portanto, o número absoluto será alto”, diz Bik.

Veículos de comunicação estatais e alguns pesquisadores entrevistados pela Nature também apontam para a urgência de aprimorar o sistema de avaliação acadêmica da China, que normalmente prioriza métricas quantitativas, particularmente o número de artigos que um indivíduo ou universidade publicou em periódicos de alto impacto. O sistema já foi criticado no passado por seu efeito negativo sobre a integridade da pesquisa, ao priorizar a quantidade em detrimento da qualidade, afirma Johannes Knops, ecologista aposentado da Universidade de Nebraska-Lincoln, que trabalhou na China e acompanhou casos de má conduta acadêmica nos últimos seis anos.

A China tem tentado se afastar do sistema por meio de uma grande reforma de avaliação lançada em 2020. Mas vários casos de má conduta de alto nível nos últimos anos mostram que “ainda existem pessoas que querem obter sucesso rápido no meio acadêmico e os canais normais de supervisão estão de certa forma bloqueados”, escreveu Tian Chenxu, colunista do Banyuetan , publicação afiliada à agência de notícias Xinhua, em um comentário sobre Geng em 21 de maio.

Embora o governo chinês tenha proibido as universidades de usar o número de publicações como a única forma de avaliar o desempenho do corpo docente, na realidade, essa métrica ainda está “profundamente ligada” ao ranking dos departamentos e à promoção de funcionários, escreveu Tian.

Geng afirma que seu plano agora é dar visibilidade aos pesquisadores que dedicam tempo e esforço a pesquisas rigorosas, em vez de publicarem artigos às pressas.

“Quero encontrar alguns exemplos da vida real para mostrar que, mesmo publicando menos artigos do que seus colegas, eles também podem receber reconhecimento pelo seu trabalho”, diz ele.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-026-01902-0


Fonte: Nature

Alerta Observatório dos Agrotóxicos: Venenos proibidos na Europa continuam chegando aos pratos e às águas dos brasileiros

O Ato nº 34 escancara a lógica do colonialismo químico e a crescente influência de fabricantes chineses na cadeia de agrotóxicos utilizada pelo agronegócio nacional

Desde 2019, o Observatório dos Agrotóxicos  do Blog do Pedlowski acompanha sistematicamente os atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária que autorizam a comercialização e o uso de novos agrotóxicos no Brasil. Ao longo desse período, uma tendência preocupante tem se repetido: um número expressivo dos produtos registrados contém ingredientes ativos que já foram proibidos ou deixaram de ser aprovados em diversos países, especialmente na União Europeia, em razão de evidências relacionadas aos seus impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente. A análise do Ato nº 34, de 29 de maio de 2026, feita a partir da base oficial da União Europeia, confirma esse padrão e reforça um diagnóstico inquietante: o Brasil continua consolidando sua posição como um dos maiores mercados mundiais para substâncias rejeitadas por sistemas regulatórios mais rigorosos. Mais do que uma simples estatística, esse cenário revela uma escolha política que transfere riscos ambientais e sanitários para trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas brasileiros, ao mesmo tempo em que sustenta um modelo agrícola altamente dependente do uso intensivo de venenos.

O fato é que o  Ato nº 34, de 29 de maio de 2026, publicado hoje (15/6) pelo Ministério da Agricultura e Pecuária,  confirma uma contradição profunda da política brasileira de agrotóxicos: enquanto diversos ingredientes ativos deixam de ser aceitos na União Europeia por razões sanitárias, ambientais ou toxicológicas, eles continuam sendo registrados e utilizados no Brasil. Na triagem realizada pelo Blog do Pedlowski, como informado,  a partir da própria base oficial da União Europeia, ao menos 24 dos 50 registros autorizados contêm substâncias que aparecem como não aprovadas na base oficial europeia, entre elas acefato, clorotalonil, glufosinato de amônio, S-metolacloro, diquate, isopirazam, clorfenapir, etiprole, bifentrina e imidacloprido. O próprio Ato nº 34 explicita que muitos desses produtos são classificados como “muito perigosos” ou “altamente perigosos” ao meio ambiente, o que torna ainda mais grave a naturalização de sua presença no território brasileiro. A base da Comissão Europeia permite consultar o status regulatório dessas substâncias e indica a condição de “not approved” para diversos ingredientes ativos citados no ato.

As implicações para a população brasileira são evidentes. Trabalhadores rurais, moradores de áreas agrícolas, comunidades indígenas, quilombolas, populações camponesas, consumidores de alimentos contaminados e ecossistemas inteiros passam a funcionar como zona de tolerância química para substâncias que já não encontram autorização em mercados regulatórios mais rigorosos. Não se trata apenas da exposição ocupacional direta, embora essa seja uma das dimensões mais dramáticas do problema. A pulverização terrestre e aérea, a deriva dos produtos, a lixiviação para o solo e a infiltração em aquíferos, rios, lagoas e reservatórios fazem com que esses compostos ultrapassem os limites das propriedades rurais e se espalhem pelo território, produzindo um processo de contaminação difusa de difícil controle e monitoramento. Como consequência, resíduos de agrotóxicos alcançam sistemas de abastecimento de água, alimentos de origem vegetal e animal e diversos componentes da cadeia alimentar, expondo milhões de brasileiros que jamais tiveram contato direto com a aplicação desses produtos. Trata-se de uma exposição crônica, silenciosa e cumulativa, cujos efeitos podem levar anos ou décadas para se manifestarem, estando associados na literatura científica ao aumento do risco de câncer, doenças neurológicas, distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e alterações no desenvolvimento infantil. O veneno, portanto, deixa de ser um insumo agrícola localizado e passa a constituir um contaminante ambiental disseminado, incorporado à água que se bebe, aos alimentos que se consomem e aos ecossistemas que sustentam a vida.

O caso também mostra o peso crescente das empresas chinesas na cadeia global dos agrotóxicos. A leitura do Ato nº 34 revela que a China aparece como sede de fabricantes técnicos e formuladores em grande parte dos registros, muitas vezes fornecendo ingredientes ativos que chegam ao Brasil por meio de empresas registrantes nacionais ou multinacionais instaladas no país. Isso indica que o mercado brasileiro não é apenas consumidor final de substâncias perigosas, mas parte de uma engrenagem internacional em que a produção química se desloca para polos industriais asiáticos, enquanto os riscos ambientais e sanitários são redistribuídos para países dependentes da agricultura de exportação. A China, nesse contexto, ocupa uma posição central como fornecedora industrial de moléculas que sustentam a expansão do agronegócio brasileiro, especialmente em cadeias como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e eucalipto.

Esse quadro ajuda a compreender a atualidade do conceito de “colonialismo químico”, formulado por Larissa Bombardi. A autora vem demonstrando que há uma geografia desigual dos agrotóxicos: substâncias recusadas ou restringidas em países centrais continuam circulando em países periféricos ou semiperiféricos, onde a vida humana e os ecossistemas parecem valer menos diante dos interesses do comércio internacional de commodities. A Articulação Nacional de Agroecologia sintetiza esse ponto ao observar que Bombardi relaciona o colonialismo químico aos interesses dos países centrais e ao duplo padrão de comportamento regulatório. Seu livro Agrotóxicos e colonialismo químico, publicado em 2023, aprofunda justamente essa crítica à divisão internacional dos riscos químicos.

O dado novo, contudo, é que esse colonialismo químico já não pode ser entendido apenas como uma relação direta entre Europa e Brasil. A presença dominante de fabricantes chineses mostra que a cadeia se tornou mais complexa e multipolar. Mesmo assim, a lógica colonial permanece: países como o Brasil continuam ocupando o lugar de território de aplicação intensiva, onde populações vulneráveis absorvem os custos sanitários e ambientais de um modelo agrícola orientado para exportar commodities baratas. Em outras palavras, muda a origem industrial de parte dos venenos, mas permanece a estrutura que converte o território brasileiro em plataforma de experimentação, consumo e dispersão de substâncias perigosas.

O problema, portanto, não se resume a uma lista técnica de ingredientes ativos. O Ato nº 34 revela uma escolha política. Ao autorizar produtos que carregam substâncias banidas ou não aprovadas na União Europeia, o Estado brasileiro reafirma uma hierarquia perversa: protege-se a competitividade do agronegócio, enquanto se relativiza a saúde de trabalhadores, comunidades rurais e consumidores. A pergunta que fica é simples e incômoda: se essas substâncias são consideradas inadequadas para circular nos campos europeus, por que deveriam ser aceitáveis nos corpos, nas águas, nos solos e nos alimentos dos brasileiros?

Essa é a essência do colonialismo químico: a transferência seletiva do risco. O Brasil exporta soja, milho, carne, celulose, açúcar e outras commodities; em troca, internaliza contaminação, adoecimento e degradação ambiental. O Ato nº 34, longe de ser apenas mais uma publicação burocrática do Diário Oficial da União, é um retrato da inserção subordinada do país na economia mundial dos venenos agrícolas.

A China muda de rumo — e o Brasil insiste no atraso

Enquanto Pequim investe em soberania alimentar, biotecnologia e proteínas alternativas, o Brasil aprofunda sua dependência da exportação de commodities agrícolas

Durante décadas, a relação econômica entre Brasil e China foi apresentada como uma parceria estratégica quase perfeita. O Brasil exportaria commodities agrícolas e minerais; a China compraria em volumes crescentes para alimentar sua industrialização, urbanização e ascensão de sua classe média. A soja tornou-se o símbolo máximo desse pacto silencioso. Mas um artigo escrito pelo professor da USP, Ricardo Abramovay, publicado pelo Valor Econômico, chama atenção para uma mudança estrutural que pode redefinir profundamente essa relação: Pequim está buscando reduzir sua dependência externa de proteínas vegetais — especialmente aquelas produzidas nas Américas.

O alerta é sério porque toca justamente no coração do modelo agroexportador brasileiro. Desde os anos 2000, boa parte da expansão da fronteira agrícola brasileira foi impulsionada pela demanda chinesa por soja destinada à alimentação animal, sobretudo de suínos e aves. O crescimento do agronegócio brasileiro passou então a depender não apenas da produtividade agrícola, mas também da continuidade quase infinita do apetite chinês por ração animal.

Agora, porém, a lógica começa a mudar.  A China vem investindo pesadamente em novas tecnologias alimentares, biotecnologia, fermentação de precisão, proteínas alternativas e substituição parcial de insumos importados. O objetivo é estratégico: ampliar sua segurança alimentar e reduzir vulnerabilidades externas num cenário internacional marcado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e crise climática. Essa transição não significa que Pequim deixará de importar soja amanhã. Mas significa algo talvez mais importante: o atual padrão de crescimento das exportações brasileiras pode ter chegado ao seu teto histórico.

O grande problema é que o Brasil parece continuar apostando exatamente no modelo que a China tenta superar. Enquanto Pequim direciona recursos para inovação científica, agregação tecnológica e sistemas alimentares mais sofisticados, o Brasil segue aprofundando sua especialização em commodities primárias de baixo valor agregado. A consequência é um risco crescente de descompasso estrutural entre os dois países.

Ricardo Abramavoy sugere em seu artigo que a grande ameaça para o Brasil não é simplesmente econômica, mas civilizatória. O país continua expandindo áreas agrícolas, pressionando biomas estratégicos como Cerrado e Amazônia, enquanto o mercado internacional começa lentamente a questionar os custos ambientais desse modelo. Ao mesmo tempo, os setores mais dinâmicos da economia global caminham para produtos intensivos em conhecimento, inovação biológica e sustentabilidade.

Há uma ironia importante nesse processo. O Brasil possui algumas das maiores capacidades científicas do mundo tropical: biodiversidade incomparável, centros avançados de pesquisa agropecuária, universidades públicas relevantes e condições excepcionais para liderar uma nova economia da bioinovação. No entanto, insiste em ocupar um papel subordinado na divisão internacional do trabalho, exportando matéria-prima e importando tecnologia.

A mudança chinesa deveria funcionar como um sinal de alerta estratégico. Se o principal comprador global de proteínas vegetais começa a buscar autonomia tecnológica e alimentar, países altamente dependentes desse mercado precisam rever urgentemente suas estratégias de desenvolvimento.

A questão central não é apenas “quanto soja o Brasil conseguirá vender no futuro”, mas qual será o lugar do país numa economia global cada vez mais baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

Observatório dos agrotóxicos: a marcha do veneno segue sem freios

Nova rodada de liberações de agrotóxicos reforça um modelo agrícola sustentado pela contaminação ambiental e pelo adoecimento coletivo

Apesar de todas as evidências científicas de que o Brasil já se encontra sob grave risco ambiental e sanitário em razão do uso intensivo de agrotóxicos — sendo parte significativa deles composta por substâncias banidas na União Europeia — o governo Lula publicou hoje o Ato nº 29, de 7 de maio de 2026, autorizando a comercialização de mais 44 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”. 

As características observadas nas centenas de liberações ocorridas durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se repetem, compondo uma espécie de “museu de velhas novidades”: produtos cujos princípios ativos já circulam amplamente no mercado, com predominância quase absoluta de formulações produzidas por empresas chinesas (ver gráfico abaixo).

O que se observa nessa nova rodada de liberações é a completa ausência de compromisso com a redução dos riscos — amplamente conhecidos e documentados — que esses compostos representam tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Em vez de estimular uma transição para modelos agrícolas menos dependentes de insumos tóxicos, o país aprofunda sua submissão a uma lógica produtiva baseada na contaminação sistemática do solo, da água e dos alimentos.

Tudo isso ocorre para sustentar um modelo agrícola estruturalmente deficitário, cuja aparência de viabilidade depende da aplicação crescente de venenos agrícolas. E a pergunta que permanece é: quem paga a conta desse sistema envenenado? Pagamos todos nós — por meio das isenções fiscais bilionárias concedidas ao agronegócio químico e, sobretudo, com o próprio corpo. Pagamos no aumento das doenças crônicas, nos casos de intoxicação silenciosa, na contaminação da água que chega às casas, no adoecimento de trabalhadores rurais e no comprometimento do futuro das próximas gerações. Enquanto os lucros se concentram nas mãos de poucas corporações, socializam-se os danos, o sofrimento e a degradação ambiental.

O Brasil segue, assim, avançando perigosamente rumo a um horizonte em que o veneno deixa de ser exceção para se tornar parte naturalizada da nossa paisagem cotidiana.

A indústria de fábricas de artigos científicos falsos da China: Entrevista esclarece como o sistema funciona

Por Leonid Schneider para “For Better Science”

No início de 2020, tive a honra de publicar em meu site uma grande investigação sobre a indústria chinesa de artigos científicos falsos, um modelo de negócios curioso criado pelo sistema centralizado de promoções e recompensas para funcionários da área da saúde na China. Quase 600 artigos foram rastreados até uma única e misteriosa fábrica de artigos fraudulentos de pesquisa biomédica, todos completamente falsos, fabricados por escritores fantasmas a partir de bancos de fragmentos gráficos aleatórios, como imagens de microscopia, gráficos de citometria de fluxo e bandas individuais de western blot. Mesmo assim, todos foram publicados em periódicos supostamente respeitáveis ​​por editoras renomadas.

O trabalho de investigação foi realizado por um grupo de especialistas. Apenas uma dessas investigadoras da indústria de artigos falsos é conhecida do público em geral: Elisabeth Bik, consultora de integridade em pesquisa e especialista em detecção de duplicação de imagens, sediada nos EUA . Os demais optaram por permanecer anônimos, usando apenas pseudônimos, pois, infelizmente, o meio acadêmico não é tão tolerante com denunciantes quanto com os autores de má conduta em pesquisa. Mas isso não significa que seus esforços devam passar despercebidos; na verdade, a equipe continua trabalhando em conjunto, expondo as atividades das fábricas de papel e celulose, sem receber um centavo por isso. Seu impressionante trabalho pode ser visto diariamente no site PubPeer.com, onde artigos individuais podem ser comentados anonimamente.  

Em particular, dois desses investigadores dedicados têm sido extremamente produtivos. Seu trabalho conjunto descobriu centenas de falsificações de fábricas de artigos científicos falsos que acabaram sendo publicadas como artigos de pesquisa revisados ​​por pares, muitos dos quais já foram retratados ( você pode encontrá-los aqui ).Um periódico tomou medidas extremas para evitar que isso acontecesse novamente. Infelizmente, muitos outros periódicos afetados e suas editoras internacionalmente reconhecidas optaram por não fazer nada até o momento. Alguns são até mesmo parte ativa do problema.

Abaixo, entrevisto esses dois especialistas incríveis e pseudônimos: Smut Clyde (um acadêmico na Nova Zelândia com um talento único para detectar duplicações de imagens) e Tiger BB8 (um pesquisador clínico baseado nos EUA, originário da China). Suas verdadeiras identidades me são conhecidas.

Leonid Schneider (LS): Prezado Tiger BB8, prezado Smut Clyde, muito obrigado por aceitarem esta entrevista. Vamos começar com uma explicação: como vocês definiriam uma fábrica de papel? Como vocês a imaginam funcionando, quais serviços ela oferece? O que é necessário para montar uma fábrica de papel? 

TigerBB8 : Eu defino uma fábrica de artigos como uma empresa que produz artigos com o objetivo de obter lucro (obviamente). Os artigos produzidos não contêm dados reais, utilizam modelos para produção em massa e têm planos meticulosos para evitar serem detectados por periódicos, como, por exemplo, submeter um conjunto de manuscritos muito semelhantes a vários periódicos quase simultaneamente.

Tudo o que é necessário para publicar um artigo pode ser um serviço fornecido por uma plataforma de publicação de artigos científicos. Agora sabemos que isso inclui até mesmo responder a perguntas no PubPeer.

Uma pequena gráfica precisa de algumas pessoas com conhecimento básico dos componentes de um manuscrito. Tudo o que elas fazem é copiar trechos de artigos publicados e juntá-los para formar um novo manuscrito. Também é necessário alguém com experiência para supervisioná-las e garantir que, pelo menos, o trabalho final faça sentido.

Uma “paper mill” muito mais sofisticada pode assumir o formato de uma empresa de consultoria que presta serviços a pesquisadores em praticamente tudo. Elas podem ter projetos comerciais legítimos, como cuidar de experimentos com animais, análise de amostras, análise de dados, auxílio na redação de manuscritos, etc. No entanto, elas também operam fábricas de papel de alto nível, utilizando a coleta de dados e outros materiais de seus serviços legítimos, sejam eles pequenos ou grandes.

Smut Clyde : Suspeito (sem provas, apenas por intuição) que muitas fábricas de artigos científicos falsos sejam, na verdade, estúdios maiores, em escala industrial. Imagino-as como um scriptorium medieval, baseando minha imagem mental em “O Nome da Rosa”, com uma sala cheia de monges em suas mesas individuais, trabalhando em tarefas distintas.

Existem níveis de qualidade e (imagino) uma gama correspondente de preços relacionados ao calibre da revista em que o artigo é publicado e ao esforço que a editora deve investir na individualização do produto para ocultar sua origem em série. Como muitos já apontaram, os artigos que detectamos como fraudulentos estão na extremidade mais barata do mercado. Deve haver artigos mais sofisticados que nunca são suspeitos de fraude porque os falsificadores se orgulham mais do que fazem.

Quando os autores são questionados no PubPeer sobre o material falso ou reaproveitado em seus artigos, muitas vezes explicam que terceirizaram alguns (ou todos) os experimentos para um laboratório biomédico externo, tornando- se as verdadeiras vítimas. Seria mais credível se eles divulgassem o nome da empresa que os enganou, para alertar outros sobre o mesmo erro ao utilizarem seus serviços. Mesmo assim, acredito que há um fundo de verdade nisso, e que algumas empresas especializadas em “acabamento de artigos científicos” se especializam em criar resultados e construir uma narrativa em torno do material fornecido pelo cliente, para que possam se anunciar como um “serviço de acabamento de artigos”.

Um comentarista neste blog deu um relato em primeira mão da produção de artigos falsos em pequena escala, realizada por uma única pessoa, como uma indústria caseira.

Utilizando informações próprias, James Heathers e Otto Kalliokoski reconstruíram a rotina diária de uma operação semelhante.

LS: Vocês dois investigam artigos científicos em busca de duplicação de imagens e outras irregularidades. Como chegaram às suas investigações sobre a fábrica de papel? Vocês suspeitavam que devia haver fábricas de artigos falsos em operação, ou chegaram a essa conclusão ao observar uma série de artigos semelhantes? Em que momento começaram a perceber padrões e como concluíram que esses artigos deviam ser da mesma fábrica de papel? 

Smut Clyde : Meu primeiro contato com essa situação delicada foi através de uma postagem no PubPeer sobre ratos que se multiplicavam milagrosamente. Eu me perguntei se haveria outras manifestações. Depois, me perguntei se seria mais fácil procurar por trechos verbais específicos. O fenômeno da fábrica de artigos falsos já havia sido documentado naquela época, mas foi minha introdução a esse ecossistema. A falsificação de imagens em forma de girino [leia aqui e aqui , -LS] chamou a atenção porque o colaborador “Indigofera” comentou no PubPeer sobre imagens falsas de Transwell em alguns artigos, e as falsificações foram construídas a partir dos mesmos motivos, ou seja, foram construídas pelas mesmas pessoas. Isso inspirou uma busca por outros exemplos, e a atenção se expandiu para a forma estilizada dos Western Blots, e, de repente, a planilha já tinha quase 600 entradas. Byrne e Christopher haviam identificado independentemente a mesma constelação de características definidoras, o que foi reconfortante. Outras investigações seguiram a mesma trajetória.  A característica unificadora poderia ser um estilo de bandas sintéticas de Western Blot, ou um universo restrito de blots que fornecem as mesmas figuras repetidamente. Ou gráficos de dispersão de citometria de fluxo, reciclados ou obviamente desenhados à mão. O colaborador do PubPeer, “Xylocampa Areola”, deu início a mais uma discussão sobre citometria de fluxo com um comentário sobre a repetição de falhas, e eu fiquei obcecado. 

LS: Quais critérios você usa para apontar para um artigo científico e dizer: “Isso foi fabricado por uma fábrica de artigos científicos”?

Tiger BB8 : Normalmente, eu começaria a suspeitar da existência de uma fábrica de artigos científicos se percebesse algum padrão. Por exemplo, quando dois artigos sem relação entre si apresentassem linguagem idêntica, disposição das figuras, erros gramaticais, etc., o que é muito improvável. Então, eu registraria esse padrão suspeito e ficaria atento para que ele reaparecesse. Se eu me convencesse de que o padrão era real, compartilharia minhas ideias com colegas, perguntando se alguém mais havia observado o mesmo padrão ou um similar, e muitas vezes recebo confirmações. Outros indícios são situações em que pessoas com pouca probabilidade de colaborar acabam como coautoras, ou quando os autores não parecem ter a expertise necessária para o estudo. Também verifico as afiliações dos autores. Por exemplo, se a afiliação do autor for um hospital regional na China, como um hospital de um distrito administrativo abaixo do nível de uma província, isso é suspeito. A menos que esteja em uma área muito rica, a possibilidade de um hospital desse tipo apoiar pesquisas em nível celular ou molecular, ou mesmo pesquisas com animais, é mínima. É improvável que certos tipos de hospitais consigam fornecer as instalações e os técnicos qualificados necessários para apoiar pesquisas experimentais. Quando surgem questionamentos sobre o artigo no PubPeer, observo a resposta do autor, ou a falta dela, especialmente quando também relato esses casos no Weibo, a rede social chinesa. Se os autores continuam ignorando completamente as críticas do PubPeer mesmo depois de eu tê-las publicado no Weibo, é muito provável que tenham comprado produtos de fábricas de papel. Às vezes, porém, aparecem algumas respostas no PubPeer com redação muito semelhante; nesses casos, é bem provável que o gerente de caso da fábrica de papel esteja respondendo em nome de seus clientes.

Smut Clyde : Não posso oferecer nenhum conselho útil nesse caso. Os produtos de uma “Papermill” só se tornam aparentes em retrospectiva, no contexto de um conjunto de artigos de autores não relacionados, usando a mesma imagem (ou os mesmos métodos de geração de imagem). O que geralmente acontece, cada vez que um desses “estilos de produção em massa” é identificado, é que descobrimos que parte de sua produção já havia sido denunciada no PubPeer. Mas denunciada por sobreposições internas de imagens, talvez, ou manipulação visível, e não por ser produzida em massa, embora os artigos já tivessem atraído atenção cética. As gráficas de publicação tendem a ser descuidadas, os clientes não pagam um preço premium pelo perfeccionismo. Portanto, seus produtos têm um risco elevado de fraudes. Existem muitos artigos por aí que parecem ter saído de uma linha de produção, com (digamos) Western Blots ou gráficos de citometria de fluxo que são variações do mesmo tema. Mas não consigo ver como provar isso, e os editores relutam em retratar artigos simplesmente com base na “intuição de um colaborador anônimo do PubPeer”.

LS: Você menciona hospitais regionais como afiliações suspeitas. Quem são esses clientes típicos de fábricas de artigos e por que eles recorrem à compra desses produtos?

Tiger BB8 : Os médicos em hospitais regionais são os principais clientes das fábricas chinesas de artigos científicos falsos. Eles precisam de artigos para conseguir uma promoção, mas seus hospitais não possuem a infraestrutura e o suporte técnico necessários para realizar pesquisas significativas. Por outro lado, a maioria dos médicos chineses não recebe um bom treinamento em pesquisa. Quando precisam apresentar algo para o qual não foram treinados e não têm como realizar pesquisas experimentais para produzir um artigo, recorrem às fábricas de papel para comprar produtos prontos. Mais importante ainda, eles não querem reduzir seu tempo clínico (que é onde são remunerados) para investir em pesquisa.

Smut Clyde : O nicho econômico para as fábricas de artigos científicos é produto de uma política que obriga os médicos a publicarem um artigo acadêmico como requisito para promoção em carreiras não relacionadas à pesquisa. Que eu saiba, isso só existe na China. Se o governo chinês abolisse essa exigência, o incentivo para a produção de artigos científicos desapareceria e poderíamos voltar a procurar fraudes caseiras à moda antiga, e imagens copiadas e coladas na produção de um único laboratório, em vez de dispersas por toda a literatura científica. As fábricas de artigos acadêmicos têm como cliente principal pessoas que precisam publicar apenas uma vez. Assim como acontece com as fábricas de dissertações e ensaios, se alguém almeja uma carreira de pesquisa em tempo integral , essa pessoa fará pesquisa de verdade (ou criará seus próprios dados, ou contratará alunos para falsificar resultados). Dito isso, toda fábrica de artigos acadêmicos tem alguns clientes recorrentes, mas eles são minoria.

LS: Então você está dizendo que é basicamente um cliente por produto de fábrica de papel? Um médico de um pequeno hospital provincial comprando papel para conseguir uma promoção e um aumento salarial?

Preciso esclarecer isso. Há uma fábrica de papel que parece ter como únicos clientes professores da Universidade de Jilin e seus hospitais afiliados (o que não significa que todas as falsificações dessa instituição venham de um único lugar; a Universidade de Jilin era responsável por cerca de um sexto da produção da “fábrica de papel girino”). Uma segunda fábrica vende cerca de metade de sua produção para a Universidade Central do Sul. Em termos de clientes recorrentes, a CSU tem professores com cinco, seis, sete trabalhos acadêmicos, todos com as características de terem vindo da mesma fábrica. Eles são insignificantes comparados a Jilin, onde professores já assinaram nove, onze, doze, até quinze trabalhos de uma única fonte (diferente). Programas inteiros de pesquisa, abrangendo mais de uma dezena de departamentos, são verdadeiros contos de fadas.  Fui informado de que a Universidade de Jilin e a CSU são universidades consolidadas e importantes que se tornaram instituições de ensino médico por meio de fusões com faculdades de medicina. Elas não têm tradição em pesquisa biomédica e talvez não priorizem o currículo médico. Cada uma está cercada por um pequeno império de hospitais afiliados, então também há muitos médicos, todos precisando de uma ou duas publicações. Começo a suspeitar que as pessoas na administração central perceberam quanto dinheiro era gasto com taxas de produção de documentos, então transformaram a “invenção de documentos” em política oficial e criaram seus próprios estúdios de fabricação para economizar dinheiro e aumentar a produtividade da equipe.  Cerca de 80% dos artigos falsificados da CSU foram publicados em periódicos de uma única editora. O estúdio de Jilin, em menor escala, também utilizava esses periódicos para 45% de sua produção – portanto, a relação não era tão simbiótica, e eles também trabalhavam com outras editoras de menor expressão, provenientes da “literatura cinzenta”. Nos últimos anos, ampliaram seu escopo para incluir a revista “Biomedicine & Pharmacotherapy”, da Elsevier. 

LS: Nesse sentido, qual você acha que é a origem das fábricas de papel? Os proprietários são ex-cientistas ou cientistas da ativa? Há outros indícios de que acadêmicos atuantes em universidades estejam administrando uma fábrica de papel por dentro? 

Tiger BB8 : Sim, acredito que muitos donos de fábricas de artigos científicos falsos sejam cientistas, atuais ou antigos. Acredito também que algumas fábricas de papel sejam administradas por acadêmicos em atividade. Posso dar um exemplo. Anos atrás, encontrei 8 ou 9 artigos reutilizando dados de um laboratório de uma universidade chinesa. Anunciei isso no Weibo: “Professor fulano de tal, existem artigos usando dados do seu laboratório, o que fez com que seus próprios artigos fossem questionados no PubPeer. Por favor, fique atento à proteção dos seus dados”. Publiquei isso pelo menos 2 ou 3 vezes, sem obter nenhuma resposta. Então, meus seguidores no Weibo me disseram que repassaram pessoalmente minha mensagem de alerta para esse professor. Mas, novamente, nenhuma resposta. Por quê? Mais tarde, alguém sugeriu a possibilidade de que esses dados tivessem sido vendidos a terceiros pelo laboratório. Essa é a única explicação plausível que faz sentido.

Smut Clyde : Também estou convencido de que algumas fábricas de artigos falsos estão instaladas em laboratórios e são administradas por pesquisadores de verdade para complementar sua renda. Eles podem usar os arquivos de imagens do laboratório, aproveitando as “fotos descartadas” que não foram necessárias para suas próprias publicações, a fim de fabricar manuscritos para clientes que precisam de autoria. O laboratório de Qin He é um exemplo disso . No campo da geofísica, uma série de artigos com espectroscopia de raios X de alta energia falsa pôde ser atribuída a uma única pessoa, embora ela tenha conseguido transferir a culpa para seus clientes quando tudo se tornou um escândalo. Não sei se a compra de coautoria pode ser considerada verdadeira manipulação científica. Elisabeth Bik escreveu em seu blog sobre Fatih Sen, na Turquia [leia também aqui , -LS], e a produção industriosa de falsificações em nanotecnologia de seu laboratório, com imagens TEM versáteis e complexas; parecia que a autoria de suas criações estava disponível mediante pagamento. Havia também Guoqiang Zhao , cujos artigos frequentemente ostentavam coautores que não eram seus alunos nem tinham qualquer ligação óbvia com seu laboratório.

LS: Falamos sobre as fábricas de artigos e seus clientes. Mas, é claro, há outra parte envolvida nesse jogo. Qual é o perfil típico de um periódico que cai nas mãos de uma fábrica de artigos falsos? Quais foram as piores práticas editoriais que você encontrou nesse sentido?

Tiger BB8 : Para serem facilmente alvos de uma fábrica de artigos, as revistas científicas precisam atender às seguintes condições: ter fins lucrativos ou mesmo visar apenas o lucro (como as revistas do século eletrônico), ter um fator de impacto inferior a 10 (geralmente entre 1 e 5), apresentar revisão por pares de baixa qualidade ou mesmo ausência de revisão por pares e, é claro, serem revistas predatórias. Com base nas minhas observações, as revistas de Acesso Aberto são as vítimas mais comuns de publicações de baixa qualidade. No entanto, algumas revistas aparentemente prestigiosas e com acesso restrito também são infiltradas por produtos dessas publicações.

Smut Clyde : Não existe um diário típico! Ninguém está a salvo!

Dito isso, algumas editoras inegavelmente entraram no mercado para ajudar autores chineses a cumprirem sua exigência de “publicação internacional” (e lucrar com isso), ou simplesmente se infiltraram nesse nicho, tornando-se, na prática, canais para fábricas de papel (embora, às vezes, pesquisadores ingênuos enviem pesquisas genuínas para lá por engano). Refiro-me também aos periódicos da e-Century; além do European Review for Medical and Pharmacological Sciences (ERMPS); Journal of the Balkan Union of Oncology (J.BUOn); e alguns outros. Artigos no J.BUOn podem citar artigos no ERMPS ou no American Journal of Translational Research (publicado pela e-Century), e vice-versa, já que todos têm a mesma origem. J.BUOn é o exemplo mais flagrante , onde a relação de trabalho entre editores e fábricas de artigos é especialmente próxima, e os editores reagem a alertas sobre artigos fraudulentos revisando-os discretamente para remover as evidências que os expuseram. Juntas, essas revistas de baixa qualidade formam uma espécie de penumbra, uma literatura paralela de fantasia, parasitária da literatura do mundo real baseada em resultados experimentais. São revistas voltadas apenas para a publicação de artigos, não destinadas à leitura , mas os resumos aparecem em buscas bibliográficas (porque estão indexadas no PubMed), então autores preguiçosos de revisões sistemáticas/sintéticas as citam mesmo assim. Ainda bem que não trabalho nessas áreas, assim não preciso me preocupar em distinguir o joio do trigo. Outras editoras escapam do rótulo de “predatórias” porque são grandes o suficiente e têm uma longa trajetória, mas é claro que também existem periódicos da Elsevier, Wiley, Taylor & Francis e Karger que são bastante compartimentados.

 

LS: Quantas fábricas diferentes você encontrou, com quantos tipos de papel cada uma produz, e quais as diferenças entre seus produtos? 

Smut Clyde : Sem reivindicar todo o crédito pela descoberta, criei planilhas do Google Docs para mais de uma dúzia de estilos de fabricação (poderíamos chamá-los de “fábricas de papel separadas”). O estilo “girino” tem 600 exemplos. Outros são menos comuns, mas pode ser que eu simplesmente não tenha consultado os periódicos certos.  Uma editora de artigos científicos possui um pequeno repertório de gráficos de dispersão de citometria de fluxo e uma predileção por Western Blots que lembram uma fila de lagartas em procissão; eu havia registrado 50 casos, com o periódico Oncology Research sendo o maior exemplo. Então, a notícia se espalhou de que os editores do RSC Advances estavam retratando cerca de 70 artigos. Vários deles eram dessa editora de artigos científicos sobre “ tumores itinerantes “, mas eu nunca havia consultado o RSC Advances !

LS: Você percebe alguma diferença qualitativa e existem indícios que apontem para a relação custo-benefício?

Tiger BB8 : Eu percebo uma diferença na qualidade dos produtos das fábricas de artigos falsos. O preço dos produtos de impressão em papel varia consideravelmente, mas quase sempre está atrelado ao Fator de Impacto do periódico em questão. Como mencionei anteriormente, periódicos com Fator de Impacto próximo a 5 são alvos fáceis para essas empresas. Perguntei sobre os preços no Weibo. Alguns seguidores me encaminharam anúncios que receberam e eu também obtive informações de outras fontes. Os preços que observei variam entre 10.000 e 25.000 RMB [1.300 a 3.200 €] por ponto de Fator de Impacto, com preços bem mais altos para pedidos expressos e descontos para pedidos de múltiplos artigos. 

LS: Como as autoridades chinesas reagiram às suas descobertas? Os clientes das fábricas de papel foram sancionados de alguma forma? Há indícios de uma repressão na indústria de fábricas de papel?

Smut Clyde : Não tenho conhecimento de nenhum sinal de repressão. Tenho a impressão de que as autoridades chinesas fazem alarde deplorar a fraude em pesquisa, mas o equivalente chinês ao Escritório de Integridade em Pesquisa está realmente com financiamento insuficiente. Elas não estão revertendo as políticas que tornam a produção de artigos científicos inevitáveis. Fraudadores reincidentes às vezes são repreendidos como exemplo para outros, mas isso não se estende aos clientes dessas fábricas de artigos (como poderiam ser punidos? Nada seria resolvido banindo um não-pesquisador de pesquisas futuras).

Tiger BB8 : Primeiro, as autoridades chinesas estão realmente furiosas com a descoberta e exposição das fábricas chinesas de artigos científicos falsos. No entanto, como sempre, preferem silenciar quem descobre o problema em vez de trabalhar para resolvê-lo. Pelo que sei, estão muito irritados conosco, especialmente com o Dr. Bik. Ignoram o fato de que o Dr. Bik vem expondo fraudes em pesquisas de muitos países, como EUA, Índia, Brasil, Turquia, etc., além da China.  Em segundo lugar, eles levam todos os nossos relatórios sobre fábricas de artigos muito a sério. Analisaram a lista de artigos citados em cada um dos nossos relatórios sobre fábricas de artigos e, naturalmente, escolheram os autores menos influentes para impor algum tipo de sanção. É por isso que alguns clientes de fábricas de artigos foram sancionados de uma forma ou de outra, com diferentes graus de punição. Até o momento, não há nenhum sinal de repressão à indústria de fábricas de artigos científicos falsos. Acredito que isso se deva à falta de recursos. Corre o boato de que apenas um punhado de pessoas trabalha com má conduta em pesquisa no Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST). Não há como elas acompanharem os relatórios que enviamos sobre as fábricas de artigos falsos. Já fui advertido diversas vezes por várias entidades da China, não necessariamente em relação à indústria de artigos científicos falsos, mas de forma geral, por expor má conduta em pesquisas realizadas por autores chineses. Minha conta no Weibo foi suspensa por expor um peixe grande, e minhas postagens foram apagadas pela administração a pedido e sob ameaças de autores indignados. Mas esses ataques, em sua maioria, não partiram de clientes ou empresários do setor das “paper mills”.

LS: Por fim, seu conselho para a comunidade científica e editorial. O que você sugere que os periódicos, seus editores e revisores façam para não se tornarem vítimas de fábricas de artigos científicos?

Tiger BB8 : Tenho as seguintes sugestões: faça uma revisão por pares de verdade, exija imagens e dados originais, retire todos os artigos publicados por fábricas de artigos científicos falsos, consulte o PubPeer regularmente e contrate investigadores de integridade científica.

Smut Clyde : Contrate-me! Caso contrário: não vou sugerir “escolher melhores revisores por pares”, porque os revisores por pares já são voluntários sobrecarregados, e detectar fraudes deliberadas seria uma tarefa muito difícil para eles. Mas alguém no processo editorial precisa adotar uma postura crítica e perguntar a cada submissão: “Será que isso veio de uma fábrica de artigos falsos? Como seria diferente se viesse?” Aqui vai mais um conselho: 

  • Verifique os endereços IP usados ​​para o envio de manuscritos, caso haja um padrão de vários artigos sendo transmitidos pelo mesmo canal.
  • Esteja preparado para retratar artigos quando, em retrospectiva, ficar óbvio que foram elaborados às pressas para inflar o currículo de alguém. Abrace as retratações! Orgulhe-se delas!
  • Artigos inventados se tornam um problema real quando as pessoas os aceitam como verdade e esperam que seus alunos repliquem os resultados ou os ampliem, citando-os como parte de seus próprios programas de pesquisa. Talvez precisemos de um software que analise os manuscritos recebidos e informe os autores (e revisores) se eles citaram trabalhos que foram retratados ou receberam uma Declaração de Preocupação.
  • Uma Wiki dedicada aos estilos de publicações científicas de baixa qualidade conhecidas também seria uma boa ideia. Atualmente, há discussões no PubPeer quando uma publicação de baixa qualidade vem à tona, mas misturadas a outras conversas, e essa não é a função principal do PubPeer. Tampouco é a atividade principal do Retraction Watch, nem do For Better Science.

LS: Caro Tiger BB8, caro Smut Clyde, muito obrigado por esta entrevista e, principalmente, por todo o excelente trabalho que vocês fazem!


Nota : A entrevista foi originalmente solicitada por uma revista científica com revisão por pares e submetida a ela no início de março de 2021. Após atrasos e divergências sobre pedidos de referências adicionais e extensa edição das respostas dos entrevistados, a entrevista original é publicada aqui, porém em versão atualizada.


Fonte: For Better Science