Incidência de “Vaca Louca” no Mato Grosso faz Brasil suspender exportações de carne bovina para a China

vaca loucaAnimais acometidos do “Mal da Vaca Louca” perdem a capacidade de manterem em pé, sendo um dos primeiros sinais da doença.

Se o funcionamento do agronegócio pudesse se apresentado como uma partida de futebol, creio que se poderia dizer que quando um time começa a dar errado, o que não falta é bola para fora do campo de jogo. 

É que depois da mídia corporativa notar que a participação das exportações de commodities agrícolas estava perdendo fôlego e afetando diretamente a balança comercial, hoje o Ministério da Agricultura anunciou a suspensão da exportação de carne bovina para a China em função da detecção de “um caso atípico” do “Mal da Vaca Louca” no estado do Mato Grosso.

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Para quem não se lembra, o chamado “Mal da Vaca Louca,  uma doença neurológica que acomete bovinos e, tem sido relacionada com a doença de Creutzfeldt-Jacob (CJD) em humanos, é normalmente associado ao uso de farinha de carne e ossos na alimentação do gado. Essa farinha resulta da transformação industrial dos corpos de animais e é usada para constituir rações para alimentar animais da mesma espécie.

É importante notar que a variante típica difere da variedade clássica ligada à doença de Creutzfeldt-Jakob nas pessoas. Como a vaca infectada não entrou na cadeia de fornecimento de alimentos, o status de risco sanitário para contração do “Mal da Vaca Louca” típico seria “insignificante”,  segundo fontes do MAPA.

Um primeiro anúncio do anúncio do MAPA foi a ocorrência de uma queda acentuada no valor das ações dos principais frigoríficos brasileiros ao longo desta 2a. feira, a começar pelo Minerva, o primeiro a ser afetado pela proibição de exportação para a China, justamente o maior comprador atual de carnes brasileiras.

O problema é que essa notificação tem tudo a gerar uma espiral de retração em relação à compra de carne bovina produzida no Brasil nos principais mercados consumidores desse produto, a começar pela China, Rússia e os países árabes. É que dificilmente os governos dos países importadores ficarão inertes à informação dessa ocorrência no Mato Grosso, e vão querer ter certeza de que este não foi apenas um caso isolado.

O pior é que dada a atual dependência da balança comercial brasileira na exportação de carne animal, principalmente bovina, essa notícia deverá azedar ainda mais as já bastante ácidas previsões para o comportamento do PIB brasileiro em 2019.

 

Com a aprovação de mais 31 produtos, governo Bolsonaro chega a 197 agrotóxicos em 2019

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Com mais 31 produtos  autorizados para comercialização, governo Bolsonaro chega ao número recorde de 197 agrotóxicos liberados apenas cinco meses de 2019.

O Diário Oficial da União publicou na sua edição desta 3a. feira (21/05) o Ato No. 34 de 16 de Maio de 2019 que autoriza a comercialização de mais 31 agrotóxicos no mercado brasileiro, o que leva a uma aprovação recorde de 197 produtos antes que se complete o quinto mês do governo Bolsonaro. Com esta aprovação, o Brasil possui agora estratosféricos 2.262 liberados para comercialização em seu território, muitos deles proibidos em outras partes do mundo por serem potencialmente danosos à saúde humana e ao meio ambiente.

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Como construí uma base de dados para acompanhar e identificar as principais características dos agrotóxicos aprovados apenas no governo Bolsonaro, sob a batuta da “Musa do Veneno”, a ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES), já acrescentei estes 31 “novos produtos”, e já posso compartilhar alguns dados que, digamos, saltam aos olhos, em uma primeira análise.

A supremacia chinesa no fornecimento de produtos técnicos

A China que vem paulatinamente assumindo o controle do fornecimento de produtos técnicos com os quais se fabricam as formulações que são utilizadas na agricultura brasileira é o país sede de 27 (87%) das empresas que constam como as primeiras, senão as únicas, fabricantes dos agrotóxicos que constam como aprovados no Ato No. 34.  Por sua vez, apenas um dos produtos técnicos aprovados é fabricado no Brasil.

Tal dependência da indústria de agrotóxicos da China tende a se aprofundar na medida em que muitos produtos que estão sendo banidos na União Europeia estão tendo sua produção transferida para lá.

Essa realidade objetiva explica o porquê do discurso anti-chinês que marcou as primeiras semanas do governo Bolsonaro ter basicamente sumido do noticiário. Isto sem falar na recente visita do vice-presidente Hamilton Mourão à China, certamente para tentar acalmar o humor dos dirigentes do governo chinês em relação aos discursos alinhados ao governo de Donald Trump que andaram sendo proferidos pelo presidente Jair Bolsonaro, e que foram claramente antagônicos à manutenção da China como principal parceiro comercial do Brasil.

Fripronil, o  assassino de abelhas, entra com mais 2 produtos no mercado brasileiro

Ao contrário de que alegou a ministra Tereza Cristina em relação ao que seria o uso ilegal do Fipronil por agricultores brasileiros, o Ato No. 34 traz a aprovação de mais agrotóxicos à base deste princípio ativo, totalizando 3 agrotóxicos aprovados desde que ela assumiu a pasta da Agricultura.

A ampliação da abundância de produtos que contém Fipronil deverá impactar ainda mais a população de abelhas. É que o Fipronil tem sido diretamente associado ao extermínio de centenas milhões de abelhas. Apenas no Rio Grande do Sul, o Fipronil foi responsabilizado por pelo menos 80% da mortandade de colmeias inteiras de abelhas.

Com a ampliação do uso e a falta de fiscalização, o mais provável é que haja um aumento ainda maior no extermínio de abelhas. É que além do Fipronil, houve ainda a aprovação de dois agrotóxicos à base do Imadacloprido, um agrotóxico Neonicotinóide, que também sido associado ao chamado “colapso” das abelhas. Outro neonicotinóide aprovado nessa leva foi o Tiametoxam que, ao contrário do Imadacloprido, é proibido na União Europeia.

Há ainda que se lembrar que o Fipronil é proibido para uso na União Europeia e só pode ser usado em condições altamente restritas nos EUA. Além disso, o Fipronil ficou conhecido, e posteriormente banido, por causa do escândalo envolvendo a contaminação de milhões de ovos de galinha que tiveram de ser recolhidos em países como Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Suécia, Reino Unido, Áustria, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polônia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Dinamarca.

O discurso da segurança continua sendo negado na prática

Um dos discursos mais comuns para justificar a aprovação acelerada de agrotóxicos é de que os novos produtos seriam mais modernos e seguros. Este discurso não resiste ao exame prático por duas razões básicas. A primeira é que a imensa maioria dos produtos sendo aprovados já estão disponíveis no mercado brasileiro. A segunda é que dos 31 agrotóxicos aprovados no Ato No. 34, 45% deles estão localizados nas faixas de maior toxicidade (I e II) para a saúde humana.

Outro exemplo de que não há de novo nos agrotóxicos que estão sendo aprovados via “fast track” foi a aprovação de mais 3 agrotóxicos à base da Glicina Substituída, ou seja, o Glifosato. Acontece que neste momento há uma clara rejeição ao uso deste herbicida em função das crescentes evidências de que o mesmo seria indutor do Linfoma Non-Hodgkin. Apenas nos EUA, a Bayer/Monsanto foi condenada em 3 casos que foram julgados, e no caso mais recente a multinacional alemã foi condenada a pagar uma indenização de 2 bilhões de dólares americanos a um casal de agricultores que teria contraído o Linfoma de Non-Hodgkin a partir de um longo período de exposição ao produto.

Todas essas evidências estão sendo desprezadas pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura e aqui no Brasil estão sendo aprovados inúmeros produtos contendo a Glicina Modificada como seu princípio ativo.

Além disso, há que se notar que 29% dos produtos liberados no Ato de No. 34 estão proibidos na União Europeia.

O céu é o limite para saciar a fome de venenos por parte da agricultura brasileira?

Como estamos apenas no mês de Maio, é muito provável que outras centenas de agrotóxicos sejam aprovados pelo governo Bolsonaro até o final de 2019. Essa é uma situação que deverá ser acompanhada de perto por todos os que se preocupam com a saúde coletiva dos brasileiros, e com os nossos ecossistemas naturais.

É que a fome insaciável por venenos agrícolas está transformando o Brasil numa espécie de banheira de produtos químicos banidos em outras partes do mundo.  Como a maioria dos brasileiros está desinformada dos amplos impactos que esse processo de uso indiscriminado de agrotóxicos poderá trazer sobre a saúde de gerações inteiras, é importante que a comunidade científica e os movimentos sociais continuem acumulando informações que possam ser transmitidas de uma forma compreensível aos que estão hoje na linha de frente do uso desses produtos que são os trabalhadores rurais, e os que estão sendo expostos de forma indireta a partir do consumo de água e alimentos contaminados, que somos todos nós.

 

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

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A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

A guerra comercial China-EUA poderá ampliar a recessão brasileira

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Os mercados mundiais amanheceram hoje em ritmo frenético por causa da imposição de novas tarifas pelo governo de Donald Trump e a esperada reação chinesa de também impor este mesmo tipo de ação punitiva sobre os produtos estadunidenses (ver imagem abaixo que reproduz manchete da Bloomberg News).

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Esse aumento das tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo poderá ter efeitos devastadores sobre a economia brasileira que já não anda muito bem das pernas após quase 4 anos de medidas ultraneoliberais impostas por Michel Temer e Jair Bolsonaro, estando em virtual processo de recessão com milhões de desempregados e sem perspectivas de recuperação imediata.

A situação brasileira poderá ser ainda mais complicada em função das manifestações que poderão ser emanadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores que têm tido posições pró-EUA em vários assuntos, secundarizando os interesses comerciais brasileiros que tem na China o seu principal parceiro.

Por isso, mesmo que em alguns aspectos pontuais, a guerra comercial sino-estadunidense favoreça alguns grupos de interesse, a começar pelos vendedores de soja, em aspectos globais, o Brasil poderá se afundar ainda mais na recessão em que se encontra, especialmente se a dupla Bolsonaro e Araújo optarem pela submissão à Casa Branca em detrimento dos interesses econômicos nacionais. 

Por outro lado, é importante que quaisquer análises que sejam feitas sobre a realidade brasileira passe a levar em conta o complicado cenário mundial. É que tenho visto a preponderância de análises que passam ao largo das articulações existentes entre crise econômica e alinhamentos geopolíticos que hoje determinam fortunas e misérias na economia global. Nesse caso, se houver um alinhamento político por parte do governo Bolsonaro, não como o Brasil não sair duramente chamuscado no plano econômico.  Apesar de ser simples de se concluir, tenho dúvidas sobre qual lado o atual governo escolherá dados os perfis altamente ideológicos dos seus principais tomadores de decisões.

166 agrotóxicos já aprovados em 2019. E segue firme a marcha do veneno do governo Bolsonaro

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Aplicação de agrotóxicos.

Em meio a muitas outras notícias turbulentas na situação brasileira, passou despercebida a aprovação de mais 14 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro por meio do Ato 27 que foi publicado no dia 17 de Abril de 2019, perfazendo um total de 166 agrotóxicos liberados para comercialização apenas nos primeiros 4 meses do corrente ano, um verdadeiro recorde de aprovações.

Tendo atualizado a base de dados que criei para acompanhar a marcha do veneno do governo Bolsonaro, pude confirmar algumas tendências que já estava claras desde a primeira série de aprovações, e que desmentem o discurso oficial em várias esferas no que tange as interligações existentes entre o comércio de agrotóxicos e a expansão de áreas cultivas unicamente com monoculturas voltadas para a exportação.

A primeira é que não nada de minimizador ocorrendo em termos do nível de toxicidade das substâncias aprovadas, sendo que no tocante à saúde humana, 43% das substâncias aprovadas estão nas categorias mais perigosas,  I e II, e velhos venenos conhecidos estão na lista dos contemplados (a começar pelo Acefato e pela Atrazina, ambos banidos na União Europeia) (ver gráfico abaixo).

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Ainda no tocante ao elemento da toxicidade, analisei também a situação dos 166 agrotóxicos aprovados em relação à União Europeia e verifiquei que pelo menos 26% deles estão listados como proibidos (o que decorre da não aprovação em primeira instância ou do banimento posterior para aqueles que foram aprovados e depois tiveram comprovadas seus danos sobre saúde humana e meio ambiente) (ver figura abaixo).

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O fato do Brasil estar concentrando produtos que foram banidos pela União Européia já foi verificado anteriormente pela professora Larissa Miers Bombardi do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. Os resultados das pesquisas da professora Bombardi foram sintetizados na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia“.  Entretanto, o que os dados relativos aos 166 agrotóxicos aprovados em 2019 mostram é que as tendências verificadas anteriormente pode não apenas estar sendo mantidas, mas também aprofundadas, tornando o mercado brasileiro uma espécie de banheira preferencial para onde são despejados agrotóxicos  indesejados na União Europeia.

Outra tendência que vejo confirmada a partir dos agrotóxicos autorizados pelo Ato 27 é a extrema dependência do Brasil em relação à China no tocante à produção de agrotóxicos para manter sua agricultura voltada para a exportação.  Nesse quesito, apesar o Brasil importar produtos técnicos que serão utilizados nas diferentes formulações que chegam ao mercado  de diversos países, no caso dos 166 agrotóxicos aprovados em 2019, 63,4% dos fabricantes primários (e em diversos casos do único fabricante) são empresas chinesas (ver figura abaixo).

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Um detalhe ainda mais curioso, é que 98% dos proibidos na União Europeia chegam no Brasil por meio de empresas chinesas. Este dado revela que a China não apenas é a principal fonte de agrotóxicos vendidos, mas, e especialmente, daqueles que foram banidos em outras regiões do planeta, a começar pela União Europeia. 

Por essas e outras é que aparentemente cessaram todas as manifestações belicosas contra a China que marcaram os primeiros momentos do governo Bolsonaro. É que alguém deve alertado quem atacava os laços comerciais com a China, a começar pelo ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, visto que dependemos dos chineses não apenas para assimilar a produção de várias commodities agrícolas, mas também para a compra de agrotóxicos, muitos deles, friso eu, banidos em outras partes do mundo por causa dos fortes impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Interessante lembrar o caso do Paraquat  que tem 85% de sua produção baseada na China, tornando os latifundiários brasileiros diretamente dependentes dos chineses para comprarem esse produto.  O problema é que no caso do Paraquat , o produto já foi proibido para uso na China em 2016 e os chineses irão cessar sua produção para consumo externo em 2020. Enquanto isso no Brasil, a Anvisa só deverá banir o Paraquat, isso se os ruralistas permitirem, coincidentemente em 2020.

Como ainda existem mais de 200 agrotóxicos esperando na fila para aprovação, o mais provável é que brevemente eu tenha de atualizar a minha base de dados. Entretanto, acredito que as tendências aqui observadas não apenas serão mantidas, como possuem fortes possibilidades de serem aprofundadas. Em outras palavras, mais venenos agrícolas altamente tóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, inclusive na China que os produz para os ruralistas brasileiros consumirem.  E depois que ninguém se surpreenda se aumentar a contaminação na água que chega nas nossas torneiras e na comida que alcança a mesa de que ainda consegue comprar.

O Brasil e seu grande salto para trás

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Presidente Jair Bolsonaro é o engenheiro do “Grande Salto para Trás” do Brasil.

Após a conquista do poder em 1949, a participação na Guerra da Coreia e o sucesso do 1º Plano Quinquenal (1953-1957), o líder chinês Mao Tsé-tung lançou o Grande Salto para Frente (1958-1962), um programa de profundas reformas cujo objetivo era acelerar o crescimento da economia chinesa.  O grande salto para frente de Mao Tsé-Tung acabou tendo efeitos inesperados e acabou colhendo um fracasso que quase terminou o experimento do socialismo na China.

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Cartaz de propaganda oficial da política do “Grande Salto para Frente” implementada pelo Partido Comunista da China sob a liderança de Mao Tsé-tung.

Pois bem, quase 6 décadas depois do programa de reformas de Mao Tsé-tung, temos no Brasil um governo cujo lema parece ser a realização do “Grande Salto para Trás“, justamente numa época em que a China é uma das economias mais fortes do planeta, justamente porque se livrou das consequências mais negativas de seu próprio salto.

Esse grande salto para trás está se manifestando em todos as frentes em que o governo Bolsonaro mais investe, a começar pelas relações políticas e comerciais com os EUA, onde em troca de nada palpável, o Brasil está alienando grandes parceiros comerciais e colocando um risco aquele setor da economia que ainda mantém a balança comercial em tintas azuis que é o latifúndio agro-exportador (auto rebatizado de “agronegócio”).

Mas as ameaças não param na agricultura, pois o processo de desindustrialização iniciado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso está sendo aprofundado, com o fechamento de fábricas importantes como a de caminhões da Ford em São Bernardo do Campo (SP) e da ROCHE no Rio de Janeiro , e a venda da EMBRAER para multinacional BOEING, justamente em um momento em que a empresa sediada em Chicago se encontra particularmente fragilizada por causa de vários acidentes inexplicáveis com suas aeronaves.

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Operários protestam contra fechamento da fábrica de caminhões da multinacional Ford em São Bernardo do Campo (SP).

O “Grande Salto para Trás” também está  sendo dado na área da ciência e tecnologia, pois o encurtamento do orçamento federal para a área está comprometendo pesquisas essenciais para o Brasil, e nos afastando daquela comunidade de países que podem gerar ganhos bilionários com novos produtos e técnicas. A maioria das universidades e institutos de pesquisas federais se encontram hoje, na melhor das hipóteses, em estado comatoso e muitos grupos de pesquisa estão sendo inviabilizados, o que vem incentivando a que ocorra um processo de migração de jovens pesquisadores para outros países que estão executando o caminho oposto do Brasil, a começar pela China e pela União Europeia.

Mas nenhuma outra área está dando um salto para trás tão eloquente quanto a do meio ambiente. Além do avanço do processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado, o Brasil hoje experimenta uma regressão completa na proteção de áreas ecológicas de extremo valor sob as mãos de todo tipo de agente, o que já está causando o retorno de graves processos de contaminação ambiental, a começar pelo garimpo de ouro ilegal que está liberando toneladas de mercúrio nos rios da Amazônia. Para garantir isso, o governo Bolsonaro, sob a batuta do ainda ministro Ricardo Salles, vem tentando desmanchar o sistema nacional de proteção ambiental, utilizando métodos que seriam inaceitáveis em qualquer país que clame ser democrático. 

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Após vários anos sob controle, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer em 2018 e está ainda mais acelerado em 2019.

O grande salto para trás já é visível nos milhões de desempregados e domicílios desprovidos de uma pessoa sequer que esteja gerando renda. Esse processo de volta acelerada para o passado também está presente no aumento do número de ativistas sociais que estão sendo assassinados, bem como no aumento exponencial das taxas de feminicídio que estão espalhando terror e medo por todo o território nacional.

Diante desse quadro regressivo é preciso entender que para garantir o grande salto para trás, a imposição da repressão e da violência se tornará cada vez mais necessária, pois já existem demonstrações claras de que a maioria do nosso povo não quer retornar para o passado.  Assim, restará o caminho do enfrentamento a esse esforço concentrado de desmanche do Brasil enquanto um nação viável para a maioria do seu povo. Mesmo sabendo que isto aumentará o nível de repressão e violência não há outro caminho a não ser impedir que o “Grande Salto para Trás” seja executado sem a devida oposição de todos os que querem que o Brasil caminhe para frente, especialmente no tocante ao estabelecimento de um sistema social onde a riqueza gerada coletivamente deixe de ser apropriada por uma minoria que sequer mora aqui.

 

Agronegócio vive mar de agruras após ter apostado todas as suas fichas em Jair Bolsonaro

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O agronegócio (leia-se latifúndio agroexportador) que apostou todas as suas fichas na candidatura de Jair Bolsonaro, agora se vê engolfado por um mar de agruras.

Os lideres do chamado agronegócio (na verdade o clássico latifúndio agro-exportador) optaram massivamente pela candidatua vencedora de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, provavelmente na expectativa de ampliaram os seus ganhos fabulosos com a exportação de commodities agrícolas.

A realidade, entretanto, vem sendo muito diferente das expectativas. O fato é que desde o início do governo do presidente Bolsonaro o setor está sendo inundado por uma coleção interminável de más notícias.  Primeiro veio a má notícia de que a Arábia Saudita decidira suspender a compra de carne de frango vinda de cinco frigoríficos brasileiros, o que foi um golpe duro já que o país árabe é o maior importador brasileiro.

Poucos dias depois ocorreu a notificação feitas pela Rússia de que se não houver uma diminuição dos resíduos do herbicida Glifosato, um dos principais destinos da soja brasileira será fechado até que os níveis de contaminação baixem.

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Agora foi a vez da China recusar a habilitação de frigorificos brasileiros, frustrando as expectativas de grandes empresas do setor (por exemplo JBS, Marfrig e Minerva que esperavam uma notícia diferente após a visita de técnicos chineses a dez abatedouros de aves e bovinos.

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Para completar esse cenário desastroso, em sua visita recente aos EUA o presidente Jair Bolsonaro isentou produtores estadunidenses de tarifas na venda de trigo no Brasil, e  abriu  possibilidade de que isto seja também garantido à produção de suínos o que poderá representar uma concorrência dura para produtores brasileiros e argentinos.

Como o dito agronegócio é tudo menos pop, há que se ver como reagirão seus líderes dentro e fora do congresso nacional. Mas uma coisa, se essas notícias ruins não foram revertidas logo, o mais provável é que haja uma reação clara para mostrar descontentamento com os ruídos causados nas relações comerciais pela chamada agenda ideológica do governo Bolsonaro, a qual aliena alguns dos principais compradores das commodities brasileiras.

E pensar que este setor foi tratado a pão de ló durante os governos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff. Talvez aí resida uma certa justila poética nas agruras que não param de ocorrer para os latifundiários brasileiros.