Depois do coronavírus e desvalorização do Real, governo Bolsonaro abre crise diplomática com a China e com a bancada ruralista

bolso araujo chinaEduardo Bolsonaro começou crise com a China e ganhou apoio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Ciosos de replicar o discurso do governo de Donald Trump, Jair e Eduardo Bolsonaro resolveram abrir uma guerra diplomática com o principal parceiro comercial do Brasil, a China, ao levantar a acusação de que a pandemia do Coronavírus seria uma arma chinesa na guerra comercial com os EUA (ver imagem abaixo).

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A normalmente fleumática diplomacia chinesa resolveu respondeu de forma dura e imediata, ainda que centrando o fogo na figura do deputado federal Eduardo Bolsonaro (ver figura abaixo).

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Armada a crise diplomática, rapidamente o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ) e o presidente em exercício do Senado Federal, Antonio Anastasia (PSDB/MG) , se apressaram em pedir desculpas formais à China pelo ataque de Eduardo Bolsonaro.

Tudo resolvido? Claro que não! É que no dia de hoje, o ministro das Relações Exteriores e cético das mudanças climáticas, Ernesto Araújo, emitiu uma nota exigindo uma retratação formal por parte da China por um suposto ataque à figura de Jair Bolsonaro, levantando novamente as chamas da fogueira (ver figura abaixo).

MRE China

Essa pendenga com a China acabou causando outra crise diplomática, só que com a poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária (a famosa bancada ruralista), cujo presidente é o deputado federal Alceu Moreira (MDB/RS). Em manifestação pública, Moreira disse que “essa seria a pior para termos problemas com a China“, pois “o país asiático está superando a crise do coronavírus e precisará se reabastecer, o que deve incrementar e diversificar a exportação de produtos brasileiros para lá.

Menos cordato, o deputado Fausto Pinato (PP/SP) ,  presidente da Frente Parlamentar Brasil-China do Congresso Nacional, deputado federal Fausto Pinato (PP-SP) repudiou, nesta quinta-feira (19/03), as declarações de Eduardo Bolsonaro. Pinato teria afirmado que  o Eduardo Bolsonaro “foi irresponsável tanto por “atentar às relações diplomáticas” brasileiras quanto por expor o embaixador da China no país, Yang Wanming, que, afirma, tornou-se alvo de ameaças”.

A estas alturas do campeonato não sei o que é pior para Jair Bolsonaro e a sobrevivência do seu governo: abrir crise diplomática ou perder o apoio da bancada ruralista. Certamente qualquer uma das duas coisas (ou pior ainda, as duas juntas) não notícias nada boas para um governo que já está claramente na defensiva. E, novamente, muito em função de suas próprias ações.

Aparentemente ninguém informou a Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo do que diz a primeira lei de Murphy: “não há que esteja tão ruim que não possa piorar”. Mas como a China é responsável por comprar nada desprezíveis 80% da produção brasileira de soja, eles vão poder rapidamente testar essa lei. A ver!

Hegemonia chinesa e alta presença de agrotóxicos banidos caracterizam primeira rodada de liberações de 2020

agrotóxicos

Já comentei anteriormente a liberação de 16 agrotóxicos por meio do Ato No 13 de 2020 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Secretaria de Defesa Agropecuária (Mapa).  Mas como houve no mesmo dia, a promulgação do  Ato No 12, resolvi analisar a lista de 32 produtos que tiveram sua comercialização liberada por essa publicação.

Pois bem, a primeira coisa notável é que todos os 32 produtos (dos quais 2 são hormônios vegetais) são produtos técnicos, os quais passarão por outras etapas de preparo até serem colocadas no mercado.   Acrescido a isso, está o fato de que empresas localizadas na China respondem a 87,5% dos fabricantes primários, e basicamente os únicos, de todos os produtos técnicos liberados pelo Ato No 12 (ver gráfico abaixo).

origem país

Não bastasse essa clara predominância chinesa, pude notar que apenas três empresas chinesas fornecem 65% dos produtos aprovados, o que configura uma clara concentração nos fornecedores, o que poderá ter implicações sérias para os importadores brasileiros, tanto em termos de oferta como de preço dessas substâncias.

Além disso, no tocante ao status na União Europeia, 37,5% dos produtos aprovados contém ingredientes ativos que estão proibidos pelo bloco (ver figura abaixo).

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Há ainda que destacar que o famigerado Fipronil, apontado como um dos agrotóxicos responsáveis pelo extermínio de abelhas no Brasil, teve 8 produtos liberados pelo Ato No 12, e curiosamente 6 deles com submissão realizada pela mesma empresa, a AllierBrasil Agro Ltda., sediada na cidade de São Paulo, e que tem como única fornecedora a empresa chinesa Lianyungang Avilive Chemical Co., Ltd.

Trocando em miúdos, a se considerar as características apontadas acima, o que vemos é um aprofundamento da influência da indústria chinesa no fornecimento de agrotóxicos (muitos deles banidos em outras partes do mundo) para saciar as necessidades de consumo do latifúndio agroexportador. Por outro lado, a China é a principal parceira comercial brasileira na aquisição de commodities agrícolas como a soja (que curiosamente responde por mais de 50% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Resta saber quem está ganhando mais dinheiro com essa parceria envenenada. De cara, me parece que não é o Brasil que, na prática, acaba ficando com um enorme passivo ambiental e social por causa da parceria.

Quem desejar a conhecer a lista completa dos 32 agrotóxicos liberados pelo Ato No 12 de 2020, basta clicar [Aqui!]

Pandemia do Coronavírus poderá criar uma tempestade perfeita na economia global

tempestade perfeita

Uma tempestade perfeita é um evento no qual uma rara combinação de circunstâncias agrava drasticamente o evento. O termo é usado a partir de uma analogia com uma tempestade particularmente grave que resulta de uma rara combinação de fenômenos meteorológicos. Pois bem, o que estamos assistindo neste momento em escala global é, ao que tudo indica, a formação de uma tempestade perfeita a partir dos inevitáveis efeitos sobre a economia global da difusão em escala planetária do coronavírus.
É que apesar de ser uma enfermidade que acomete as parcelas mais idosas da população, a chamada COVID-19 (ou simplesmente coronavírus) iniciou sua onda de mortes na China que é atualmente o carro chefe da economia mundial. Dados iniciais mostram que um resfriamento de consumo no mercado chinês, o qual deverá se estender a outras economias, atingindo de forma mais aguda as mais periféricas como é o caso da brasileira.

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Imagens de janeiro e fevereiro de 2020 mostram sensível diminuição da poluição atmosférica nas principais áreas industriais da China em associação direta com a diminuição da produção industrial
Como ainda não se conhece a amplitude que a pandemia do COVID-19 terá em todo o mundo, o que estamos assistindo é o derretimento das bolsas financeiras nos principais mercados globais, e a rápida retirada de divisas, como tem se visto nas últimas semanas no Brasil.
O problema é que os problemas da economia mundial já estavam sinalizados antes da eclosão da COVID-19 em Wuhai. Assim, é bem possível que eclosão de uma pandemia causada pelo COVID-19 sirva para jogar os mercados globais em uma espiral recessiva que será tão ou mais difícil de ser controlada.
E no meio disso tudo, o Brasil ainda tem que conviver com um governo federal comandado por um presidente que não inspira confiança nem nos mega especuladores a quem o ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes, está tentando entregar nossas principais empresas estatais. O problema para a economia brasileira poderá ficar ainda mais grave se as últimas medidas anunciadas para liberar agrotóxicos altamente toxicos e a mineração em áreas indígenas resultarem em fugas de reservas ainda maiores do que já foram vistas nos primeiros dois meses de 2020.
Aí sim a tempestade perfeita virá com força total e com efeitos ainda mais devastadores.

Presidente da Suzano Celulose prevê desmatamento catastrófico na Amazônia

fireDesmatamento e fogo: irmãos siameses da destruição da Amazônia

Em entrevista produzida para a Bloomberg e repercutida pelo site UOL, o presidente da Suzano Papel e Celulose, Walter Schalka, fez uma previsão sombria sobre o avanço do desmatamento na Amazônia. Segundo o que escrevem os jornalistas Gerson Freitas Jr. e Fabiana Batista, Schalka acredita que as taxas de desmatamento na Amazônia serão ainda maiores em 2020, o que representará, nas palavras da maior empresa de celulose do mundo, uma “verdadeira catástrofe”.

Amazônia catastrofe

Vinda da boca de um membro do alto empresariado mundial, esta previsão remonta a quase que uma certeza de que o pior ocorrerá.  A verdade é que este avanço da franja de desmatamento para partes ainda relativamente intocadas da floresta amazônica é algo mais do que previsível visto que o governo Bolsonaro operou para desconstruir a frágil governança ambiental existente na Amazônia, bem como desmantelou os igualmente tíbios mecanismos de comando e controle que impediam a ação descontrolada de todo tipo de agente de pilhagem das riquezas naturais estocadas nos biomas amazônicos.

Diante das ações objetivas do governo Bolsonaro é que foi dada uma ordem não escrita para a realização de uma pilhagem generalizada na Amazônia, a qual envolve desde elementos paroquiais ligados a grupos liderados por aliados políticos de Jair Bolsonaro até grandes corporações multinacionais. Com isso, o aumento das taxas de desmatamento não é só previsível, mas quase que inevitável. 

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O que a entrevista do presidente da Suzano Celulose não abordou é que o desmatamento é apenas uma das faces da moeda, pois há ainda que se levar em conta o aumento do processo de degradação florestal que é causado, entre outras coisas, pelos garimpos e pela exploração ilegal de madeira.  Como já existem evidências que a degradação corre quase como um processo separado e autônomo em relação ao desmatamento, a catástrofe poderá ser maior do que a antevista por Walter Schalka.

O interessante é que outra coisa previsível que deverá acompanhar o avanço do desmatamento e da degradação será o aumento das dificuldades para que seja aprovado no Parlamento Europeu o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Isso se dá por causa das salvaguardas postas neste acordo em termos da proteção dos ecossistemas amazônicos e dos povos indígenas que neles vivem. Como o governo Bolsonaro não está agindo para conter tanto o desmatamento como a invasão dos territórios indígenas, a vida dos que se opõe à assinatura do acordo de livre comércio entre UE e o Mercosul vai ser facilitada. Com isso, aumentará ainda mais a dependência do Brasil da apetite do mercado chinês. Isso até que o governo da China resolva parar de olhar para o outro lado em relação ao processo de destruição das florestas amazônicas. Isto sem falar nos impactos inevitáveis que a epidemia do coronavírus irá causar no apetite importador dos chineses.

De toda forma, há que se preparar o espírito e os pulmões para a próxima estação de queimadas que vai ocorrer na Amazônia brasileira. Eu não me surpreenderei se tivermos por aqui um cenário semelhante ao que acaba de acontecer na Austrália. Lembrando-se que hoje a imensa maioria dos habitantes da região amazônica vivem em cidades que estarão cercadas de incêndios criados pelo desmatamento e pelo uso de outras estratégias de aproveitamento das terras desflorestadas. Em  outras palavras, a catástrofe poderá ser muito maior do que a prevista pelo presidente da Suzano Celulose. 

A China quer comida. O Brasil paga o preço.

Os esforços nacionais da China para fortalecer a segurança alimentar têm um impacto muito além das fronteiras de um único país.

desmatamento 1Um agricultor brasileiro limpa o chão para impedir que o fogo atinja sua propriedade CRISTINA DE MIDDEL / MAGNUM PHOTO

Este artigo é uma colaboração entre o The Atlantic e o Pulitzer Center.

Por Melissa Chan e Heriberto Araújo

A Amazônia tende a evocar uma visão edênica – de uma terra misteriosa e impenetrável, grávida de feras de onças a sucuris, ricas em flora não descoberta. Mas parte disso é incongruente com essa reputação, onde grandes caminhões de plataforma passam por postos de gasolina em ruínas e cobertos de sujeira, e onde as terras antes cheias de árvores e a promessa de aventura na selva se transformaram em pastagem de gado ou campo de soja.

Estamos viajando por uma estrada, que por falta de imaginação, é chamada de BR-163. Acesse o Google Maps e aumente o zoom para o estado de Mato Grosso e encontre o fio fino da estrada que atravessa o estado. Ramificando-se, existem linhas marrons perpendiculares, todas elas  desmatadas, cortando e contrastando com a floresta verde escura. Essa rodovia é onde a agricultura e a selva amazônica se encontram.

A floresta tropical aqui no Brasil foi progressivamente vítima da demanda global por soja e carne bovina. E o maior cliente do país para ambos é a China. A história da Amazônia se enredou não apenas com a história da fraca proteção do Brasil em sua fronteira florestal, mas também com a ascensão dessa nova superpotência e sua estratégia de segurança alimentar. A soja é o elo fraco da China, a principal commodity de alimentos de que precisa no mundo exterior. O país importa a safra, que costuma usar para alimentar seus porcos, e as empresas estatais chinesas também investem diretamente na cadeia de suprimentos do Brasil, para que o país sul-americano possa aumentar suas próprias exportações. Essa crescente fome de soja incentivou os garimpeiros brasileiros a manter o ritmo arrasando a selva intocada, acelerando o desmatamento.

Essa dinâmica destaca algumas das tensões inerentes ao desafio de combater as mudanças climáticas. A classe média da China tem uma fome crescente de carne, levando a um aumento na demanda por soja. Para um país que se comprometeu a honrar o Acordo de Paris, as medidas de segurança alimentar da China são contrárias aos seus esforços ambientais, embora o acordo climático vise reduzir as emissões nacionais de carbono, ele não responde pelas atividades e responsabilidades dos signatários de outros países. E o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, argumenta que o país deve priorizar o crescimento econômico, mesmo que isso acarrete o custo de destruir a maior floresta tropical do planeta.

sinop

Sinop, um próspero município de 140.000 habitantes no norte de Mato Grosso e um centro de agricultura industrial, simboliza essa transformação. O local está em um estágio de desenvolvimento desfavorável – o Burger King realizou sua grande inauguração aqui recentemente e o McDonald’s está a caminho – mas também é uma economia avançada com comunidades  fechadas com casas milionárias que mostram desenhos modernos da metade do século. Junto com a soja e o gado, uma cidade extensa deslocou a floresta exuberante, com a cidade se encontrando com ela, e os moradores se orgulham disso.

“Somos campeões da soja e do gado”, vangloria-se Daniel Brolese. “A demanda da China é o que tranquiliza os agricultores daqui”. Brolese, vice-prefeito de assuntos econômicos, nos conduz pelas ruas, apontando quadras particulares de tênis e vôlei de praia. Nas calçadas, carros de luxo, de um Corvette Stingray a um Porsche Cayenne. Periodicamente, ele faz uma pausa na turnê para se concentrar em um novo projeto que, segundo ele, catapultará Sinop ainda mais e ajudará a impulsionar mais exportações para a China. “Ferrogrão”, diz ele, “não é questão importante para o desenvolvimento”.

Ele está se referindo a uma ferrovia com a qual os produtores sonham há muito: Ferrogrão – o “trem de grãos” – em português – transportaria soja do interior da Amazônia para seus portos fluviais ao longo do rio Tapajós e depois para o Oceano Atlântico. Há muito desejado pelos agronegócios e autoridades daqui, o projeto nunca teve o capital político e financeiro necessário do governo federal para avançar – os oponentes argumentaram que isso custou muito e beneficiou muito poucos. Mas duas coisas se juntaram que podem finalmente tornar Ferrogrão uma realidade: a eleição de Bolsonaro e a China.

O primeiro ano no poder de Bolsonaro foi caracterizado por recompensas por alguns de seus maiores patrocinadores de campanhas na Big Ag. Como Donald Trump, o líder populista brasileiro chegou ao poder em parte com o apoio do lobby agrícola, e Bolsonaro parece ver o meio ambiente principalmente como um recurso, apontando para a hipocrisia das próprias histórias dos países desenvolvidos para justificar sua estratégia na Amazônia. Ele desmantelou as leis de proteção ambiental, substituiu dezenas de funcionários do Ministério do Meio Ambiente por companheiros políticos e cortou drasticamente o orçamento para a aplicação da lei na selva. Ele acusou os grupos indígenas que estão trabalhando para preservar a Amazônia de manter reféns a prosperidade econômica em geral. As tribos que conhecemos ao longo de nossa jornada nos disseram que estavam se preparando para a batalha. Aos olhos dos ambientalistas, a presidência de Bolsonaro literalmente alimentou o desmatamento – eles culpam a permissividade do laissez-faire pelos incêndios extraordinários do verão passado. Em dezembro, houve um aumento de 183% na taxa de desmatamento em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Em uma das exibições mais tangíveis de suas prioridades, Bolsonaro enviou o exército à Amazônia para concluir a construção da BR-163, uma vez uma estrada de terra congestionada e lamacenta. Em um país acostumado a esperar incessantemente pelas promessas do governo, Bolsonaro concluiu o trabalho em poucos meses. Para as pessoas daqui, foi um marco: “Bolsonaro é o melhor presidente!”  diz o nosso motorista enquanto ele cruza a estrada recém-pavimentada em alta velocidade.

A BR-163 também está exatamente onde a China vê uma oportunidade para sua Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). A estratégia global de desenvolvimento de infraestrutura prevê uma rede internacional de ferrovias, portos, oleodutos e outros megaprojetos que conectam a economia de Pequim ao mundo. Apoiados por financiamento de bancos estatais chineses, mais de 60 países se comprometeram ou manifestaram interesse em participar. O Brasil já possui dois acordos designados pelo BRI, ambos na Amazônia: um sistema de transmissão de alta tensão para distribuir energia da barragem de Belo Monte e uma expansão do porto de São Luís. Ferrogrão pode ser o terceiro.

Correndo de forma paralela à BR-163, o projeto ferroviário reduziria os custos de transporte em 40% e afastaria as semanas das datas de entrega, tornando o Brasil mais competitivo contra seu principal rival de soja, os Estados Unidos. Mas a um custo estimado de US $ 3,1 bilhões, o Brasil tem lutado para encontrar investidores. O governo Bolsonaro agora diz que tem o dinheiro, sugerindo que parte seria do fundo soberano da Arábia Saudita e também da China, que prometeu US$ 100 bilhões para projetos de infraestrutura e agronegócios brasileiros durante uma reunião de novembro do grupo BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Além disso, as empresas estatais chinesas, que têm projetos semelhantes em partes da África e Ásia, demonstraram interesse em Ferrogrão, com três delas indicando que concorriam a contratos de construção ferroviária. O Brasil planeja iniciar o processo de leilão este ano.

A marca do capitalismo estatal de Pequim significa que a China possui uma estratégia nacional para todos os setores, e seu plano quinquenal mais recente enfatiza a obtenção de “auto-suficiência básica” em grãos e “segurança alimentar absoluta”. Embora a China tenha conseguido melhorar a produção doméstica de arroz, trigo e outros produtos básicos, ainda depende de importações de soja para alimentar sua população de suínos, que inclui metade dos suínos do mundo. Os chineses adoram carne de porco. É a carne preferida deles, do dim sum de siu mai e da carne de porco agridoce ao leitão assado inteiro – tanto que o Partido Comunista Chinês mantém uma reserva estratégica de suínos, semelhante à Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA, até garantir um suprimento constante. A escassez de carne de porco como resultado da peste suína do ano passado, que levou a um abate em massa, colocou Pequim na defensiva.

Se a China pudesse, plantaria sua própria soja. O grão rico em proteínas é fundamental para engordar os porcos, mas são necessárias cerca de 1.500 toneladas de água para produzir uma tonelada de soja, e o país tem fontes inadequadas de água para suprir a necessidade. A China “nunca será auto-suficiente em soja”, diz Michael Cordonnier, presidente da Soybean & Corn Advisor, uma empresa de consultoria em Illinois. “Não há como eles produzirem o suficiente para atender sua demanda.”

Então o país deve comprá-lo. Antes de Trump lançar sua guerra comercial contra Pequim, a China dependia da soja americana. O recente acordo comercial colocará as vendas de soja de volta nos trilhos – mas entre Trump e Bolsonaro, os chineses agora veem este último como um parceiro mais preferível e confiável. Acordo ou não, Pequim está mudando para o Brasil, onde agora compra de 70 a 80% de sua soja. A maior empresa de processamento de alimentos da China possui 7.500 funcionários no país sul-americano, com planos de expansão adicional.

Tecnicamente, o cultivo de soja não deve impulsionar o desmatamento da Amazônia, por causa da “moratória da soja“, um acordo intermediado entre o Greenpeace, o governo brasileiro e os agronegócios há mais de uma década atrás, quando os compradores se comprometeram a não comprar soja cultivada em terras desmatadas. . Por um tempo, o pacto levou a uma queda significativa na taxa de desmatamento.

Mas os garimpeiros aproveitaram o fraco estado de direito e a aplicação de políticas ambientais para encontrar uma maneira criativa de continuar lucrando: primeiro eles derrubavam árvores para dar lugar ao gado e, depois de alguns anos usando os campos como pastagens, eles os converteria para cultivar soja. A rigor, a terra não seria mais “recém-colhida” e a moratória da soja se manteria. Mesmo os agronegócios comprometidos com a moratória lutam com a responsabilidade ao coletar informações. A criação de gado agora é oficialmente o maior motor do desmatamento na Amazônia, tanto porque existe uma demanda internacional crescente genuína por carne bovina quanto porque os desenvolvedores estão planejando um eventual desenvolvimento da soja.

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8200 ScannerUma floresta em pé no Brasil cercada por terras desmatadas para agricultura e produção de soja. Fotos de Alex Webb / Magnum

Mesmo que o governo e os produtores brasileiros aumentem a produção de soja, eles ainda precisarão superar gargalos logísticos. É por isso que a Ferrogrão é crucial. O trem abriria uma nova rota de transporte do norte, terminando ao longo do Tapajós, um afluente do rio Amazonas. Isso permitiria a expansão e movimentação de 40 milhões de toneladas adicionais de safras para a China, Europa e outros mercados até 2050. Juntamente com a revisão do porto de São Luís e outros cinco principais portos novos ou em expansão, o objetivo do O “Arco do Norte”, como a rota é conhecida aqui, é aproveitar o poder do sistema do rio Amazonas, o maior do mundo. O ministro da Infraestrutura do Brasil, Tarcísio Gomes de Freitas, que considerou Ferrogrão um divisor de águas para o agronegócio, nos disse que não havia motivo para preocupação, que a nova infraestrutura pode ser “sustentável” e será construída “sem derrubar uma única árvore”.

Ainda assim, o plano ambicioso preocupa ambientalistas e tribos indígenas que vivem em reservas da Amazônia. O caminho da Ferrogrão também atravessaria um parque nacional. Dados oficiais mostram que, embora a taxa de desmatamento tenha diminuído em alguns anos, o quadro geral é de uma diminuição contínua da Amazônia. Erradicar a extração ilegal de madeira na Amazônia até 2030, uma promessa feita anteriormente pelo Brasil para combater as mudanças climáticas, agora parece uma promessa precária sob o governo Bolsonaro.

A China não é o único ator nessa situação. O agronegócio  brasileiro opera  há muito tempo na Amazônia, e a gigante agrícola americana Cargill administra seus maiores fora dos EUA ali e quer ver a Ferrogrão construída. O chefe de operações portuárias da empresa, Clythio Backx Van Buggenhout, nos disse que a ferrovia seria “um grande salto em frente na logística do agronegócio”.

Mas a China ainda é o maior parceiro comercial do Brasil, comprando não apenas a maioria de sua soja, mas também metade de suas exportações de carne bovina. Em conjunto com a estratégia de segurança alimentar de Pequim e seus planos de infraestrutura, seu grande impacto na Amazônia merece cuidadoso exame e contabilidade. Até agora, a China ficou em silêncio, inclusive durante os incêndios do verão passado. Quando perguntado sobre o papel da China na destruição da Amazônia, por mais indireta que seja, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores Geng Shuang disse apenas: “A correlação é nova para mim”. A embaixada chinesa no Brasil não respondeu aos nossos pedidos de comentários.

Com tantos jogadores poderosos, os defensores da linha de frente da Amazônia parecem insignificantes e impotentes em comparação.

Dôto Takakire é um deles. Líder da tribo indígena Kayapó, um grupo com status especial protegido e propriedade de uma faixa da Amazônia perto do caminho projetado de Ferrogrão, ele passou a maior parte de sua vida lutando contra invasões no território de seu povo. Ele acredita que Pequim é o único jogador com influência real sobre Bolsonaro. “A China deveria parar com isso”, diz Dôto. “A China deveria dizer a Bolsonaro: ‘Só compraremos se você respeitar o que foi preservado nas reservas indígenas e na floresta amazônica, conforme estabelecido por lei'”.

E se a China não? “Não vamos parar de lutar”, diz ele.

Em todo o mundo, ambientalistas e governos dedicados ao combate à emergência climática podem torcer por esses cruzados. No entanto, falar com ele no coração da Amazônia apenas ressalta o quão distante e abstrata a comunidade global se sente e o quão solitário e pequeno ele e seu povo são quando enfrentam os gigantes da Amazônia.

Renata Magnenti e Yun Jiang contribuíram com reportagem.

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MELISSA CHAN é uma repórter focada em questões transnacionais, geralmente envolvendo a influência da China além de suas fronteiras. Sediada na cidade de Nova York e Berlim, ela é colaboradora do Global Reporting Center e trabalhou anteriormente para a Al Jazeera English e Al Jazeera America.  

HERIBERTO ARAÚJO reporta principalmente na América do Sul, com foco especial na floresta amazônica. Anteriormente baseado em Pequim e no Rio de Janeiro, ele é autor de três livros sobre a expansão global da China, incluindo o “Exército Silencioso da China”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista “The Atlantic” [Aqui!].

Com mais 57 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro quebra recorde histórico e transforma o Brasil em uma piscina envenenada

Man spraying toxic pesticides or insecticides on fruit growing plantation. Natural light on hard sunny day. Blue sky with clouds in background.Com mais 57 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro quebra recorde histórico e transforma o Brasil em uma piscina de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo

Se há uma área onde não se pode questionar a eficiência e a coerência do governo Bolsonaro essa é a da liberação de agrotóxicos. É que no dia de hoje, com a publicação do Ato No. 82 que liberou mais 57 agrotóxicos, o total para 2019 é de 467. Com isso,  a ministra Tereza Cristina, a “Musa do Veneno”, consegue tornar o Brasil uma espécie de bacia das almas para produtos banidos em outras partes do mundo.

Como já é de praxe, vou atualizar a base que construí ao longo de 2019 com as principais características desses “novos” agrotóxicos e vou postar assim que tiver todos os dados preenchidos, o que normalmente leva algum tempo para evitar erros de preenchimento.

Mas de cara é possível notar que a China continua sendo a principal fornecedora dos produtos que foram liberados no dia de hoje, com mais de 50% dos produtos aprovados vindos de industrias chinesas. Esse fato mostra quão integrado e dependente o agronegócio brasileira se tornou da China que, por um lado, fornece a maioria dos venenos agrícolas que estão sendo consumidos no Brasil e, por outro, se transformou objetivamente no principal mercado das commodities agrícolas brasileiras.  O problema é que neste intercâmbio comercial, nós acabamos ficando com a “parte podre” do processo, pois acumulamos o envenenamento maior de nossos solos e águas, bem como a ampliação do desmatamento e da degradação de nossos biomas florestais, a começar pela Amazônia.

Um aspecto que ainda deverá ser analisado é a negligência óbvia sobre a saúde dos trabalhadores rurais e de todos que entrem em contato direto e indireto com esse número aumentado de substâncias altamente tóxicas que estão sendo colocadas no mercado brasileiro. E há que se frisar que isto ocorre para atender as necessidades dos grandes latifundiários que hoje controlam a exportação das commodities onde está fortemente concentrado o uso dessas substâncias.

Os problemas causados pela contaminação ambiental e humana decorrente da transformação do Brasil em uma espécie de piscina tóxica deverão ser sentidos nas próximos anos e décadas, visto que muitos dos produtos que estão sendo liberados ou possuem alta persistência ou geram metabólitos ainda mais tóxicos do que o produto ativo original quando são rapidamente degradados no ambiente.

Enquanto isso, os vendedores de veneno, principalmente os baseados na China, agradecem a esse ritmo desenfreado de aprovações. Mas como toda alegria pode acabar, os próximos meses deverão trazer repercussões econômicos de países que prezam minimamente pela saúde de suas populações.  A verdade inescapável é que caminhamos para um processo de isolamento sanitário por causa do nível de resíduos de agrotóxicos perigosos em que o modelo agrícola agroexportador brasileiro está baseado. Simples assim!

Jair Bolsonaro e sua recente visita à China: pragmatismo acima de tudo e de todos

bolso xi(Divulgação/Palácio do Planalto)

A recente passagem do presidente Jair Bolsonaro pela República Popular da China pode ter desagradado a parte mais dura do seu eleitorado, mas é um reconhecimento de que ele pode ser tudo, menos o político incapaz de concessões pragmáticas que parte da oposição parece acreditar que ela seja.

Ao convidar a China para participar do mega leilão de reservas do petróleo e para ampliar a compra de commodities  agrícolas brasileiras apenas reconhece o óbvio, pois há mais de uma década é o mercado chinês que mantém a balança comercial brasileira na condição de superávit.  O apetite chinês por minérios e produtos agrícolas como a soja fazem com que dos 27 estados brasileiros, 24 tenham a China como seu principal parceiro comercial. E, sim, muito em função da venda de produtos primários.

Assim, toda aquela conversa de que haveria um afastamento econômico da China em função da orientação dita comunista da sua economia não teria mesmo como sobreviver às necessidades brasileiras de vender as suas commodities. E agora foi substituída por um chamamento no sentido da ampliação da forte interação econômica existente. É que além de um rompimento com a China nos privar de moeda forte, os principais apoiadores da eleição de Jair Bolsonaro não o elegeram para inviabilizar o agronegócio exportador.

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O problema nessa relação com a China é que os dirigentes chineses parecem ter estabelecido uma dualidade que tem tudo para aumentar as pressões ambientais no território brasileiro.  Falo aqui da disposição de misturar o que os chineses chamam de estruturas “verdes” e “cinzas” para o seu processo de crescimento econômico. Pelo que eu presenciei recentemente durante a minha participação em eventos científicos em Shenzhen, os chineses já reconheceram que ao lado estabelecimento de infraestruturas “cinzas” como pontes, estradas, hidrelétricas e ferrovias, há a necessidade de se ampliar as “verdes” que incluem o aumento de áreas florestadas e a proteção de seus mananciais.

A questão que decorre disso é que a combinação cinza+verde é algo que se dará preferencialmente para dentro com a imposição de um modelo puramente cinza para parceiros comerciais que fornecem os produtos necessários para ampliar o controle chinês sobre a economia mundial.  E nesse caso o custo socioambiental ficará por conta daquelas áreas que se coloquem como periferia preferencial do modelo “cinza+verde” da China.

Como já está mais do que claro o desprezo do governo Bolsonaro pelas estruturas verdes, a ampliação da parceria com a China poderá não apenas ampliar o desmatamento na Amazônia e o uso dos agrotóxicos banidos que chegam aqui após serem produzidos em plantas chinesas, mas como também uma presença ainda maior das petroleiras chinesas na exploração da costa brasileira. Tudo essas possibilidades de ampliação da participação chinesa na economia brasileira deveriam então soar alarmes estridentes por aqui.

Interessante notar que todo esse cenário poderá ser alterado se ocorrer um acordo a partir das rodadas de negociação que os EUA e a China estão desenvolvendo neste momento.  É que se o desfecho for positivo, o agronegócio brasileiro será diretamente afetado já que os EUA são concorrentes diretos no comércio de soja e carne. Essa situação é, no mínimo, muito curiosa. É que o governo de Donald Trump, a quem o presidente Bolsonaro já teceu juras públicas de amor, poderá ser o coveiro da parceria pragmática que se busca com os chineses.