Sem educação e policiais no trânsito, ciclofaixas viraram vias de confronto entre carros e bicicletas

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Como alguém que dirige veículos diariamente na cidade de Campos dos Gotacazes há quase duas décadas, reconheço a extrema importância de aumentar o nível de segurança dos milhares de ciclistas que usam nossas ruas e avenidas como vias preferenciais de locomoção.  Nesse sentido, o aumento de ciclofaixas deve ser saudado como uma evolução positiva no sentido de aumentar o nível de segurança dos campistas que circulam em meio a carros, caminhões, motos e carroças todos os dias.

Dito isso, até por experiência pessoal recente, foram feitas combinações que não pode tem muita chance de dar certo nas últimas ações do IMTT. Essas ações combinaram o aumento no fluxo dos carros com áreas em que os motoristas agora podem transitar mais livres e a instalação de ciclofaixas, muitas delas tão estreitas que mal cabem uma bicicleta. Aí entra em xeque a versão oficial de que as novas ciclofaixas estão aumentando a segurança e a mobilidade em Campos dos Goytacazes.

Por outro lado, ainda falta na maioria dos diferentes usuários de veículos algo que me parece essencial para que sejam evitados choques e atropelamentos. Esse elemento seria o desenvolvimento de ações de educação no trânsito com a presença ostensiva de guardas municipais para disciplinar o trânsito. No caso dos guardas municipais até áreas que eram normalmente policiadas, agora se encontram praticamente abandonadas. 

De fato, o que temos nas ruas atualmente, e muitos motoristas preocupados com os demais parceiros de trânsito apontam, é a instalação de uma situação de “salve-se quem puder”. É que a partir da pandemia da COVID-19 houve um sensível decréscimo o nível de civilidade dentro do trânsito (que, convenhamos, já não era alta antes), coisa que foi piorada com essa nova realidade de fluxo acelerado no trânsito de carros.

Não tenho em mãos um levantamento do número de acidentes, feridos e mortos no trânsito campista, mas tenho quase certeza que as estatísticas estão piorando. E em um caso pessoal, a ciclista que abalroou o meu carro com alta violência felizmente saiu pedalando como se nada tivesse acontecido, me dando apenas o tempo de perguntar se ela estava bem e ouvir de volta que eu deveria olhar melhor por onde dirijo. Para esse caso sequer haverá estatística, o que indica que o problema pode ser maior do que os números eventualmente colhidos possam mostrar.

Então, é urgente que o governo municipal trabalhe para melhorar essa situação ou ainda teremos muitos acidentes que poderiam ser evitados e nos quais nem sempre os ciclistas envolvidos podem sair pedalando após o encontro com carros e caminhões.

Os donos de carro contra o resto da Humanidade ou a Ditadura dos Cabeças de Biela

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Em protesto contra as novas ciclofaixas, comerciantes incendiaram pneus e fecharam a rua Barão de Miracema em Campod dos Goytacazes (Foto: Redes sociais)

Por Douglas da Mata

Há muito tempo, quando pretendo debater algo que envolva proprietários de veículos e suas relações com os espaços urbanos, me lembro de um hilário desenho animado da Disney, tendo o Pateta como personagem principal (ver vídeo abaixo).

https://youtu.be/uV_K5qA2KLQ?si=GMxPwE-fo-1c5fgf

 É o filme chamado Mr Wheeler e Mr Walker, algo mal traduzido em Senhor Volante e Senhor Pedestre, que faz uma adaptação da história de dupla personalidade famosa dos filmes de terror, Dr Jhekyl e Mr Hide, ou o Médico e o Monstro.

No episódio recente que reuniu de um lado os donos de veículos, e de outro, o resto da cidade, ficou claro o nível de semelhança com as alegorias acima, onde motoristas enfurecidos atearam fogo a pneus, berraram nas redes sociais, conclamando a “revolução dos carros”.

Não adianta dizer que o interesse dos carros e da indústria automobilística moldaram os Séculos XX e XXI, onde as cidades foram construídas a partir de um único ponto de vista: o do banco de um motorista.

Com maior ou menor intensidade, sistemas de transportes de massa foram sucateados e orçamentos públicos foram todos desviados para a construção de ruas, avenidas, vias expressas, pontes, viadutos, assim como vários serviços públicos foram empenhados na garantia de ir e vir de quem tem um carro.

Hospitais, resgates, policiais, agentes de trânsito, etc.

 Toda uma rede de equipamentos e serviços dedicada às Vossas Excelências, o dono de carro.

 Isenções fiscais para compra de veículos? Claro!

 Anistia de multas e licenciamentos atrasados? Várias vezes.

 Desse modo, solidificou-se a noção de que o dono de um carro é uma versão menor de dono do Universo, tudo isso estruturado em leis e costumes que garantiram a esse grupo minoritário da sociedade uma gama de privilégios digna das castas indianas superiores ou das mais nobiliárquicas dinastias europeias.

 Nestes tempos recentes, o Prefeito de Campos dos Goytacazes, uma cidade plana e conhecida por seu uso intenso de bicicletas por sua população pobre, e talvez por isso, já que transporte público de massas ela não tem, decidiu intensificar a implantação de ciclofaixas, para dar um mínimo de segurança e ESPAÇO PÚBLICO para as bicicletas transitarem.

Foi o caos!

 Não se tratou de nenhuma desapropriação ou requisição de uso de nenhuma fatia privada do território da cidade, mas sim ESPAÇO PÚBLICO.

Os até então “pacíficos e ordeiros” proprietários de veículos, comerciantes e outras classes de motorizados deixaram vir à tona os monstros que habitam em seus íntimos.

 Como o personagem do Pateta no filme de animação mostrado acima, revelaram sua pior índole, assemelhando seus atos àqueles nomeados como terrorismo.

 Tudo isso para deixarem claro que o não há ESPAÇO PÚBLICO que escape ao “apetite” dos cabeças de bielas.

Irônico também foi a turma do “mas”, ou “tem que ter conversa antes”.

 “Ah, MAS não pode começar pelas ciclofaixas” ou “Ah, porque não conscientizou antes, ou conversou?”.

Uai, mas vai dar espaço para bicicletas começando por aonde, mandando eles subirem as calçadas para disputarem com os já ameaçados pedestres?

“Conscientizar, educar, conversar”? Como assim?

Tratam-se de crianças?

Então o Prefeito tem que pedir ou tentar convencer os bárbaros cabeças de biela que ele vai tentar devolver uma parte da cidade que pertence a todos?

Quem sabem não desejem esse pessoal que o Prefeito divida a cidade em feudos, com cancelas e muralhas, entregando a eles o direito de dizer quem pode ir e vir?

Milhões de mortos no trânsito ao longo dos anos, outros tantos mutilados, prejuízos imensos para famílias e sistemas previdenciários e hospitalares, mas nada disso é suficiente para sensibilizar os cabeças de biela.

Esperemos que o Prefeito faça valer sua autoridade…