Suécia mostra novidades em ciência, tecnologia e aeronáutica nas Semanas de Inovação 2019

Programação em diversas cidades brasileiras inclui desde palestra sobre biotecnologia para agroindústria a seminários sobre Cidades Inteligentes  e discussões sobre inteligência artificial no mercado financeiro; além de parceria com o Festival Tekla, iniciativa criada pela cantora pop sueca Robyn para discutir o acesso de meninas às áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática

feira suéciaEstudantes em escola sueca (Crédito: Lena Granefelt)

São Paulo, setembro de 2019 – O Team Sweden Brazil promove, entre os dias 16 e 27 de setembro, as Semanas de Inovação Suécia-Brasil 2019, uma série de eventos como workshops, bate papos, paineis e encontros baseados na parceria estratégica entre os dois países nas áreas de ciência, tecnologia e inovação (CTI). Em sua oitava edição, as Semanas de Inovação combinarão atividades em cidades como Brasília, Fortaleza, Joinville, Manaus, Porto Alegre, Rio e Janeiro e São Paulo.

“O objetivo das Semanas de Inovação Suécia-Brasil é fortalecer a Suécia como um parceiro de inovação de longo prazo para o Brasil, promovendo ambientes de inovação, estabelecendo colaborações entre os dois países e criando um ponto de encontro para atores suecos e brasileiros nas áreas de CTI”, explica Johanna Brismar Skoog, nova Embaixadora da Suécia no Brasil. “Elas também são importantes para celebrar parcerias existentes e descobrir oportunidades de cooperação bilaterais e multilaterais. O acordo União Europeia-Mercosul, por exemplo, tem tudo para proporcionar um aumento do comércio e de investimentos e também para assegurar a implementação do Acordo de Paris”, completa.

Para marcar a abertura das Semanas de Inovação, no dia 16 de setembro, a cidade de Manaus (AM) receberá um evento especial com a participação do Vice-Ministro Sueco da Inovação, Emil Högberg, da nova Embaixadora da Suécia no Brasil, Johanna Brismar Skoog, e do Governador do Amazonas, Wilson Lima. Na ocasião, o Auditório da FIEAM sediará o painel “Hélice Tríplice Suécia-Amazonas” que discutirá como a Suécia e o Estado do Amazonas têm aplicado o modelo de cooperação entre universidade-indústria-governo na sua busca por inovação, empreendedorismo e desenvolvimento sustentável. O evento contará com a participação de representantes de instituições brasileiras como SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, UFAM – Universidade Federal do Amazonas e UEA – Universidade do Estado do Amazonas, e suecas como Universidade de Linköping, RISE – Institutos de Pesquisa da Suécia, Agência Sueca de Proteção Ambiental, Electrolux e Ericsson.

Meninas na ciência

Um dos destaques da agenda de 2019 é o Workshop e Diálogo Tekla, nos dias 17 e 18 de setembro, em Brasília. Promovidos com apoio do Instituto Sueco e do Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo, eles fazem parte do Festival Tekla, iniciativa da cantora pop sueca Robyn que tem como missão inspirar o interesse em tecnologia entre meninas do ensino fundamental e médio, e discutir como reduzir a sub-representação feminina nas áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Com o objetivo de oferecer um ambiente no qual jovens garotas (13 a 15 anos) de 7 escolas do Distrito Federal possam testar e criar tecnologias junto com outros modelos de mulheres, o workshop e o bate papo contarão com a participação de Heidi Harman, fundadora da mais antiga rede de tecnologia feminina na Suécia, o GeekGirl Meetup, uma rede para mulheres em STEM, código, design e startups, que agora possui braços em 17 países.

O evento terá ainda a participação de Juliana Estradioto, Prêmio Jovem Cientista 2018 e primeira brasileira a ganhar primeiro lugar na categoria de Ciências dos Materiais na Intel ISEF (Intel International Science and Engineering Fair), maior feira de ciências pré-universitária do mundo. Conhecida também por ter sido premiada com a possibilidade de dar seu sobrenome a um asteroide, Juliana é fundadora do Meninas Cientistas, iniciativa que visa incentivar a pesquisa e a ciência entre jovens do ensino médio, principalmente entre meninas, por meio da divulgação de histórias inspiradoras.

Biotecnologia para uso agroindustrial

Brasília abriga ainda o painel Biotecnologia Industrial Aplicada a Resíduos Agroindustriais. Com a participação de Michael Salter (RISE) e do professor Fredrik Ingemarson, o evento pretende discutir como a utilização de biotecnologia industrial pode agregar valor e facilitar o manejo de resíduo agroindustrial.

Smart Cities em Porto Alegre e Rio de Janeiro

A discussão em torno das Cidades Inteligentes também permeia a programação das Semanas de Inovação Suécia-Brasil 2019.

Na capital federal, no dia 18, o Parque Tecnológico de Brasilia (BIOTIC) recebe o seminário Smart City Brasília: Conecta Mundi. O evento reunirá três agências suecas – Inovação, Proteção Ambiental, Crescimento Econômico e Regional -, o Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo, as Associações U&WE e C/O City, além de representantes do Governo do Distrito Federal, Senai, FAPDF e Embrapii, para apresentar parcerias e bons exemplos de Cidades Inteligentes com foco em desenvolvimento sustentável, resíduos sólidos e mobilidade.

O evento marca ainda a abertura oficial da exposição The Smart City – Meeting the Urban Challenge, uma mostra curada e organizada pelo Instituto Sueco sobre Cidades Inteligentes na Suécia, que ficará em cartaz no espaço até o dia 26 de setembro.

No Rio de Janeiro, no dia 20, a discussão sobre Cidades Inteligentes ganha a forma de um seminário na Casa Firjan sobre Responsabilidade Social Corporativa e como a Indústria 4.0 pode influenciar um novo modelo social: a Sociedade 5.0, com confiança na inovação, automação e inteligência artificial. Entre os participantes, representantes da Tillvaxtverket – a Agência Sueca para Crescimento Regional e Econômico, e Vinnova – Agência de Inovação do país escandinavo.

Já em Porto Alegre, no dia 26, Marc Weiss responsável pela criação da Zona de Inovação Sustentável de Porto Alegre (ZIS Poa) comandará o painel Smart City Porto Alegre: política de resíduos sólidos, reunindo especialistas brasileiros e suecos em uma conversa sobre inovação no manejo de resíduos sólidos e o conceito de economia circular.

Empresas brasileiras na Suécia e mercado financeiro com inteligência artificial

São Paulo recebe, no dia 24, a sessão de lançamento da Iniciativa Corporate Venture Brasil-Suécia, realizada pelo CISB (Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro) em parceria com o Ignite Sweden e Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), e apoiada pela Vinnova. Evento tem como principal objetivo fazer a conexão de startups com grandes corporações no Brasil e na Suécia em busca de soluções inovadoras para os desafios tecnológicos da indústria. A sessão de lançamento apresentará a iniciativa e as parcerias CISB-Ignite e CISB-Anprotec, além de preparar grandes empresas brasileiras participantes do programa para sessões de matchmaking com startups suecas em outubro, em Estocolmo, na Suécia. Durante a atividade, algumas startups brasileiras também terão a oportunidade de apresentar seus inovadores modelos de negócios.

Um painel sobre Inteligência Artificial no Mercado Financeiro também será promovido sede da Swedcham – Câmara de Comércio Sueco-Brasileira, na capital paulista, no dia 17. Com a presença do especialista em Inteligência Artificial Sergio Quiroga e do Diretor para Inovação da Ericsson, Edvaldo Santos, o evento discutirá como a I.A. pode ser aplicada no mercado financeiro e prever a direção e movimentos dos mercados de ações a partir da análise de informações compartilhadas na imprensa e na internet.

Caças Gripen + FAB

A colaboração entre a empresa sueca SAAB e a Força Aérea Brasileira, responsável pelos novos caças brasileiros Gripen E, também estará presente na programação das Semanas de Inovação. No dia 23, em São Paulo, será realizado o segundo workshop do Swedish Professor Chair Program no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma iniciativa do CISB e da Saab para trazer grandes pesquisadores ao Brasil, e criar e fortalecer parcerias de longo prazo com a Suécia em tópicos relevantes de pesquisa.

Já em Joinville, o SC2C.Aero organizará este ano o seu 2° Workshop Anual, com o objetivo de integrar companhias, agências de fomento e instituições de pesquisa, desenvolvimento e inovação a fim de aperfeiçoar o ecossistema aeroespacial em Santa Catarina. Evento no dia 24 de setembro será realizado no Ágora Tech Park, uma parceria da UFSC juntamente com a iniciativa privada e o poder público.

Sobre a Sweden-Brazil Innovation Weeks

As Semanas de Inovação Suécia-Brasil são uma atividade anual coordenada pela Embaixada da Suécia em Brasília, com o objetivo de fortalecer a Suécia como um parceiro de inovação de longo prazo para o Brasil, promover ambientes de inovação suecos, estabelecer uma colaboração com parceiros brasileiros e criar um ponto de encontro para atores suecos e brasileiros nas áreas de CTI. Além de fornecer uma visão geral das atividades suecas de CTI no Brasil, elas são uma plataforma de promoção comercial e uma possibilidade de explorar, descobrir e analisar novas oportunidades de negócios e de cooperação entre a Suécia e o Brasil.

As Semanas de Inovação Suécia-Brasil são organizadas pelo Team Sweden Brazil: Embaixada da Suécia, Conselho Sueco de Investimento e Negócios (Business Sweden), Câmara de Comércio Sueco-Brasileira (Swedcham) e os Consulados Gerais e Honorários da Suécia.

Confira a programação completa em: inovacaosueciabrasil.com.br/programa

Precarização do trabalho científico cresce na América Latina

trabajo 1As precárias condições de trabalho dos pesquisadores aumentam a desigualdade de gênero, alertaram eles durante o Fórum. Crédito da imagem: CNDH México.

Por Cecilia Rosen

[CIDADE DO MÉXICO] Por que um país como o México deve aumentar o número de pesquisadores, se eles não podem oferecer-lhes um bom emprego após a conclusão dos estudos? Como garantir que o trabalho dos pesquisadores esteja no centro das políticas de ciência, tecnologia e inovação na América Latina? Quais mecanismos e estratégias podem garantir melhores condições de trabalho para as gerações mais jovens?

Essas foram algumas das questões levantadas durante o Primeiro Fórum Latino-Americano de Trabalhadores Científicos, realizado na semana passada (28 de agosto) nesta cidade.

O evento ocorreu na Câmara dos Deputados deste país, com a assistência de legisladores, professores universitários, representantes sindicais e cientistas interessados ​​em discutir as condições que afetam o trabalho de pesquisa na região e que impedem os países de se posicionarem como poderes científicos .

Algumas das questões mais difíceis para as políticas públicas sobre o assunto foram levantadas na mesa sobre precariedade de jovens cientistas, onde foi solicitado a resolver urgentemente o déficit de emprego enfrentado pelos pesquisadores recém-formados hoje.

Segundo dados de 2018 da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ), o México é o primeiro país da América Latina e o sexto do mundo com a maior exportação de migração altamente qualificada. Grande parte da chamada “fuga de cérebros” está ligada à falta de condições de trabalho adequadas para jovens pesquisadores. O México é seguido pela Colômbia, Cuba, Jamaica e Brasil no ranking dos países com maior perda de pesquisadores.

Embora a formação de novos pesquisadores tenha sido uma prioridade para diferentes instituições científicas da América Latina, a inserção laboral de novos médicos é um problema cada vez mais sério. No México, por exemplo, entre 4.000 e 6.000 médicos são treinados por ano – de acordo com os números mencionados no evento – e a principal universidade do país, a Universidade Nacional Autônoma do México, gera desde 2000 apenas 500 novas vagas para pesquisadores.

A definição de um jovem pesquisador está em questão, concordaram os oradores, uma vez que a idade de entrada no mercado de trabalho em ótimas condições está aumentando cada vez mais na ausência de oportunidades para todos.

“Uma das contradições do sistema é que aqueles que são chamados de jovens têm cerca de 40 anos e hoje não tem um emprego estável, não têm condições decentes de trabalho; não têm um emprego em que os direitos sejam totalmente respeitados ”, afirmou Adriana Gómez, membro da Federação Latino-Americana de Trabalhadores Científicos e pesquisadora do Centro de Estudos Antropológicos do Colégio de Michoacán, no México.

trabajo 2Especialistas discutiram o emprego precário de jovens cientistas. Crédito: CNDH México.

Embora o emprego precário de mão de obra qualificada seja um fenômeno global que se acentuou nos últimos 15 anos, diz Gómez, no México essa questão permaneceu invisível para a maioria das instituições e autoridades do setor.

No México, “alguns mecanismos foram criados como paliativos, [incluindo coordenadores de pesquisa temporários e maior apoio a bolsas de pós-doutorado], mas como não é uma política substantiva, bem apoiada e planejada, articulada com planos de desenvolvimento, apenas levou a maior precarização ”, ele acrescentou como parte de seu diagnóstico.

“O emprego precário de cientistas vai muito além do salário: tem a ver com condições de bem-estar, estabilidade, um bom ambiente de trabalho que permita que seja produtivo e contribua para o desenvolvimento da ciência”, disse Gomez.

Falando da precariedade na América Latina, Marcelo Magnasco, representante da Federação de Professores Universitários da Argentina, disse que uma das deficiências está na falta de contratos coletivos que garantam o cumprimento dos direitos trabalhistas.

O sistema universitário latino-americano quase não possui acordos de negociação coletiva que garantam a estabilidade no emprego dos professores universitários. E os trabalhadores científicos ligados à universidade têm ainda menos direitos; muitas vezes eles assinam contratos de 3 ou 6 meses ”, ele ilustrou.

Magnasco disse ainda que em muitos países o trabalho do pesquisador é considerado um hobby e não um emprego. “O apoio científico é baseado em bolsas de estudo, um trabalho precário, porque esse mecanismo é uma espécie de presente”, disse ele.

Ele disse que, no México, por exemplo, o trabalho deve ser realizado em uma estrutura reguladora em que o Congresso, universidades e pesquisadores participam, a fim de garantir a estabilidade no emprego desse setor.

A última intervenção do evento ficou a cargo de Edgar Vargas, membro da Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação do México. O aluno disse que esta organização está pensando em formar a “Academia Mexicana de Cientistas Precários”, em resposta à falta de inclusão de vozes mais jovens nas instituições acadêmicas tradicionais e em chamar a atenção para a seriedade do problema.

“O resto da sociedade está pedindo uma renovação do sistema científico acadêmico. Os cidadãos confiam nos cientistas, mas essa confiança não é eterna ou livre ”, acrescentou.

Link para o registro audiovisual do evento.

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Este artigo foi publicado originalmente em espanhol pela SciDevNet [Aqui!].

Governo Bolsonaro asfixia ciência nacional e acelera o avanço para a neocolônia Brasil

C&TCortes feitos no financiamento do CNPq e da CAPES significam a interrupção de pesquisas estratégicas para o Brasil e deverão alimentar a fuga de cérebros.  Tânia Rego/Agência Brasil

Em um país com milhões de desempregados oficiais e outros tantos milhões vivendo de vender doces e salgados em semáforos na maioria das suas cidades, a decisão do governo Bolsonaro de cortar recursos que mantinham milhares de jovens cientistas pode até passar despercebida aos que passam fome e todo tipo de privação. Mas esta decisão que compromete o futuro da nossa capacidade de desenvolvimento econômico com um mínimo de autonomia não deveria passar em brancos por todos aqueles que entendem o papel da ciência e da tecnologia no processo de crescimento econômico.

É que sem ciência e tecnologia produzidas dentro de nossas fronteiras, o Brasil se tornará cada vez mais uma espécie de neocolônia dos países que estão hoje investindo pesadamente no desenvolvimento de sua capacidade de estabelecer novas formas de gerar riqueza sem depredar completamente rios e florestas, como é modelo que o governo Bolsonaro abraça com sofreguidão.

O que os cortes no investimento em ciência e tecnologia significam então é muito mais do que podar os sonhos de jovens pesquisadores que ficarão sem meios de sustento para continuarem dentro de universidades públicas (isso porque perto de 100% da ciência produzida no Brasil ocorre dentro delas) cada vez mais sucateadas e incapacitadas de pagarem sequer suas contas de água e eletricidade.

Gosto sempre de citar a entrevista que dei ao jornal Diário de Notícias que é publicado a partir de Lisboa onde teci um cenário tenebroso para a ciência brasileira com o nosso país sob o comando do presidente Jair Bolsonaro. Olhando em retrospectiva, penso que acertei na maior parte das minhas previsões do que estaríamos vivendo. Mas vejo que subestimei a intensidade do ataque que sofreríamos, e as condições que já estão postos representam quase que um extermínio de nossas instituições universitárias públicas.  Acrescento ainda que sob o impacto da forte recessão que vivemos, as instituições privadas de ensino superior também estão vivendo problemas graves que ameaçam deixar apenas com menor qualidade de portas abertas.

Um desdobramento imediato do ataque do governo Bolsonaro à ciência brasileira será a partida de milhares de jovens e não tão jovens pesquisadores para outras partes do mundo, começando pela Europa e pela América do Norte. É que em função dos investimentos feitos nos últimos 50 anos, o Brasil desenvolveu uma série de áreas da ciência que estão em forte demanda, o que implicará em um processo de recrutamento que nos tirará muita gente capacitada e que rumarão para o exrerior em busca das condições de estabilidade financeira e emocional que todo pesquisador necessita para avançar seus estudos.  Em outras palavras, continuada a atual situação asfixia financeira, o Brasil viverá um intenso processo de “fuga de cérebros” que provavelmente não ocorreu em períodos de exceção como foi a vigência do regime militar instalado em 1964. E com os saem sairão um enorme conhecimento acumulado em áreas como doenças tropicais,  aumento da produtividade agrícolas e novas formas de exploração do petróleo em áreas profundas.

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“A fuga de cérebros aponta o fracasso de um país”

Desta forma, considero que é mais necessário do que nunca que de dentro das universidades e instituições de pesquisa públicas seja iniciado um processo vigoroso de resistência política ao projeto de desmanche que está imposto pelo governo Bolsonaro sob a batuta trôpega de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub e Marcos Pontes. Isso precisa ser feito não apenas em nome das necessidades imediatas dos pesquisadores que tiveram suas bolsas cortadas, mas principalmente o futuro da ciência nacional.  Se nada for feito, a nossa transformação em uma neocolônia será inevitável.

 

Com novo corte de bolsas de pós-graduação, governo Bolsonaro coloca futuro científico do Brasil em xeque

brain drain 1Com os cortes no orçamento do MEC, o governo Bolsonaro está apontando o caminho do aeroporto para uma geração promissora de jovens cientistas brasileiros.

O anúncio no dia de ontem de que haverá um corte adicional de 2.700 bolsas de pós-graduação possibilita ao governo Bolsonaro atingir um recorde na eliminação de recursos voltados para ampliar a capacidade científica do Brasil.  Os primeiros perdedores desse corte de 6.200 bolsas são os programas de pós-graduação, especialmente aqueles situados nas regiões Norte e Nordeste, justamente aquelas onde a formação de quadros mais capacitados está mais atrasada.

É preciso dizer que se em primeira vista perdem os programas, o principal perdedor dessa remoção de recursos da pós-graduação é o próprio país, que se verá cada vez mais empurrado para uma condição de importador de tecnologias, inclusive para aquelas onde nossas condições naturais impõe vantagens e desvantagens, a começar pela disseminação de doenças associadas à transmissão por mosquitos, como é o caso da Dengue, da Zika e da Chikungunya . Mas perderemos também na área de tecnologias para o desenvolvimento de materiais sustentáveis para a construção civil, para a melhoria dos processos de produção agrícola, e por aí vai.

O fato do Brasil estar hoje sob o comando sobre uma combinação de ideólogos neoliberais com indivíduos que têm completo desdém pelo conhecimento científico representa um poderoso salto para trás no sentido do desenvolvimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia que permitisse o aproveitamento de nossas capacidades, sejam humanas ou naturais.

O maior paradoxo dessa situação é que haverá o inevitável êxodo de uma série de jovens pesquisadores de uma geração altamente promissora que irá para países como a Alemanha que, neste momento, estão fazendo justamente o caminho oposto do tomado pelo governo Bolsonaro e investido bilhões de euros em suas universidades e institutos de pesquisa. E, pior, o Brasil ainda terá de pagar o dinheiro que não terá para poder adquirir tecnologias que esses jovens pesquisadores brasileiros irão desenvolver, aproveitando inclusive a boa base que receberam em seu treinamento científico dentro das universidades brasileiros que o governo Bolsonaro está optando por desmantelar.

Por isso mesmo é que é preciso manter a mobilização em defesa das universidades públicas e do nosso emergente sistema nacional de Ciência e Tecnologia. É que esse jogo for mantido na forma que o governo Bolsonaro decidir organizar o tabuleiro, o resultado final será um tremendo xeque mate nas nossas possibilidades de competir com um mínimo de viabilidade de sermos um país que não é apenas um espaço depósito de oportunidades perdidas.

 

Nos países desenvolvidos, o dinheiro que financia a ciência na universidade é público

Nas universidades dos Estados Unidos, 60% dos recursos vêm do governo;  nas da Europa, 77%

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Por Luiza Caires para o “Jornal da USP”

Para quem tem dúvida, os números esclarecem sem rodeios: no mundo desenvolvido, universidades e outras instituições de pesquisa são financiadas majoritariamente com recursos públicos – isso vale até mesmo para as universidades que cobram mensalidades. No caso dos Estados Unidos, 60% do dinheiro para a pesquisa vêm dessa fonte; na Europa, 77%. Há poucas semanas, para garantir a “prosperidade em longo prazo”, a Alemanha anunciou o investimento de 160 bilhões de euros no ensino superior e em pesquisa científica para a próxima década. Embora o Brasil enfrente desafios que as nações mais ricas não conhecem, mesmo por aqui não dá para imaginar que haverá desenvolvimento sem cuidar desse setor.

Antes mesmo de assumir o cargo, o ministro das Ciências, Tecnologia e Comunicações Marcos Pontes anunciou que uma de suas prioridades seria incentivar parcerias entre empresas e universidades públicas no País, para que o setor privado investisse mais em pesquisa. Para as instituições, recurso é sempre bem-vindo. Mas a declaração também pode reforçar um discurso falacioso repetido ultimamente: a ideia de que, por si só, o capital privado – seja via parcerias, endowment (doações de ex-alunos, por exemplo) ou cobrança de mensalidades – seria a salvação para o financiamento da ciência e da universidade.

O reitor da USP Vahan Agopyan afirmou que estudos já feitos na instituição mostram que o dinheiro vindo de eventuais mensalidades não chegariam a 8% do orçamento. “Uma universidade de pesquisa é cara”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo. Para Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química da USP, “essas instituições requerem vultosos recursos para cumprir suas funções, pois elas geralmente mantêm hospitais universitários e museus, executam numerosos serviços de extensão, formam a elite dos professores do País e nelas são desenvolvidas pesquisas que dependem de insumos e equipamentos sofisticados.” Assim, o ensino básico não pode ser comparado com ensino superior. “A amplitude das ações desenvolvidas em uma universidade pública é infinitamente maior do que a das praticadas na escola básica, restritas ao ensino, e isso explica por que o cálculo total de recursos por aluno é uma falácia”, afirmou em artigo no Jornal da USP.

Otaviano Helene, professor do Instituto de Física (IF) da USP que há vários anos acompanha as políticas universitárias pelo mundo, diz ser impossível para as maiores universidades financiar o grosso do seu orçamento com mensalidades, fundos de endowment e outros recursos privados, como fazem algumas poucas e pequenas instituições nos Estados Unidos, como Harvard, que tem 6.700 alunos na graduação – a USP tem 59 mil. “As pessoas acham que Harvard pode servir de modelo, mas Harvard é uma exceção, mesmo dentro dos Estados Unidos. É uma universidade pequena e privada, as grandes universidades públicas americanas têm centenas de milhares de alunos. Assim como Yale, Stanford e Universidade da Pensilvânia, no nordeste americano, todas pequenas, privadas e com finalidades muito específicas. Aqui parece que queremos imitar as exceções.” Ele chama a atenção também para a relevância da educação superior mantida pelo governo naquele país: de acordo com dados de 2016 da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), 73% dos estudantes de nível superior norte-americanos estão matriculados em universidades públicas. 

 

“Uma universidade de  pesquisa é cara”

“Aqui parece que queremos imitar as exceções”

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Ciência e desenvolvimento

Para o professor Carlos Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, o modelo de financiamento apropriado para a realidade brasileira é “o que quase todos países usam: pesquisa em universidades é financiada majoritariamente por recursos governamentais”. Segundo ele, os países sabem que para terem desenvolvimento econômico e social é preciso usar recursos dos impostos para isso. “Além de ajudar a educar os estudantes a serem criativos e imaginativos em suas carreiras, a pesquisa em universidades também cria ideias fundamentais que as empresas e a sociedade vão usar no futuro. Soluções que vão para o mercado e que viabilizam o desenvolvimento econômico e social mais adiante.”

Sylvio Accioly Canuto, pró-reitor de Pesquisa da USP, acredita que a participação de recursos privados ou de empresas é muito importante para a inovação, mas que a inovação se baseia em conhecimento básico – é aí que a participação do Estado é essencial, segundo ele: no desenvolvimento de pesquisa básica e descomprometida de aplicações de curto prazo. “Há um entendimento equivocado sobre a participação do Estado. Para o avanço do conhecimento, são essenciais estudos que requerem maior fôlego e que gerarão impacto num prazo maior. O Estado teve papel fundamental nos avanços científicos e tecnológicos recentes” diz o pró-reitor, citando a Apple e o desenvolvimento do iPod como um caso emblemático em que o conhecimento científico de base já estava disponível. Assim, segundo Canuto, o modelo ideal para as universidades deve contar com forte financiamento do Estado complementado por recursos atraídos de empresas. “Não há nação desenvolvida que tenha universidades fracas e desprestigiadas”, pontua.

De origem espanhola, a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Esther Solano diz que, ainda que nos países mais ricos também não seja muito fácil para a sociedade enxergar a importância da ciência para o desenvolvimento, o caso do Brasil chama a atenção pela “forma tão brutal, estapafúrdia, tosca com que os cortes nas pesquisas vêm sendo feitos.”

Mas o que pensa o diretor do principal entre poucos órgãos privados de fomento à ciência no Brasil, o Instituto Serrapilheira? Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, Hugo Aguilaniu foi enfático: “Verba pública é o coração da ciência”. Para ele, o governo tem que assumir esse investimento. “É como se fosse um acordo entre o governo e o resto da cadeia produtiva. Em qualquer lugar do mundo é assim. Mesmo nos Estados Unidos, onde as indústrias investem pesadamente nas pesquisas, o investimento público é muito forte porque as pessoas entendem esse papel. O investimento público precisa apoiar a pesquisa básica, que depois gera tecnologia, produto, economia para as empresas”, afirmou.

 

“Pesquisa em universidade cria soluções que vão para o mercado e viabilizam o desenvolvimento”

“Não há nação desenvolvida que tenha universidades fracas e desprestigiadas”

“Verba pública é o  coração da ciência”

As cifras do conhecimento

Nos Estados Unidos, a Fundação Nacional de Ciência (NSF) relata que o Governo Federal investiu 118 bilhões de dólares em pesquisa só em 2017 – valor distribuído entre universidades, agências nacionais (como a Nasa) e indústria. 2,7% do PIB norte-americano são aplicados em pesquisa, de acordo com a Unesco; o Brasil investe menos da metade: 1,3%.

A porcentagem do orçamento federal aplicada no investimento em pesquisa e desenvolvimento também mantém-se mais ou menos constante desde a década de 1980, de acordo com a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), ficando acima de 10% para os gastos discricionários (não obrigatórios).

Universidades Norte-Americanas

Olhando especificamente para as universidades norte-americanas, o investimento público é crescente desde a década de 1990, como mostra a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), com dados da NSF. Em 2017, quase 60% dos recursos para as universidades vieram do Governo Federal e dos estados norte-americanos.

 

Recebendo cerca de 2% do total do orçamento federal dos Estados Unidos, os programas de ensino superior daquele país representam uma grande parcela dos investimentos em educação, como aponta o estudo Federal and State Funding of Higher Education, da organização não governamental The Pew Charitable Trusts. Cerca de metade do orçamento do Departamento de Educação dos EUA foi dedicado ao ensino superior em 2013. O financiamento da educação superior também vem de outras agências federais, como os Departamentos de Saúde e Serviço Social e a Fundação Nacional de Ciência (NSF). O setor conta ainda com dinheiro dos estados: a educação superior foi a terceira maior área de gastos do fundo geral estadual em 2013, atrás apenas da educação básica e do Medicaid, sistema de saúde do país.

Para o ano acadêmico de 2018-19, a Universidade da Califórnia, por exemplo, apresentou um orçamento de 36,5 bilhões de dólares, dos quais apenas 7% vêm dos apoios privados. Como afirma seu relatório Budget for Current Operations, o orçamento conta com fundos de variadas fontes, mas os recursos estatais – sejam federais ou estaduais –  “continuam sendo fundamentais”.

Universidades Europeias

“A universidade pública não é um privilégio, se olharmos para a Europa, com países tão ricos, as universidades também são públicas”, afirmou ao Jornal da USP Liedi Bernucci, diretora da Escola Politécnica (Poli)  da USP. De fato, como nos Estados Unidos, em sua maioria as universidades europeias são não somente públicas, mas também financiadas pelo Estado: os governos são a principal fonte de recursos das instituições, de acordo com dados do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), respondendo, em 2015, por 77% da receita total.

“A universidade pública não é um privilégio”

 

Em relação ao investimento, o último relatório da European University Association sobre a evolução financeira das universidades da Europa reflete a diversidade de contextos dentro do bloco europeu, apontando variações entre os países de 2008 (ápice da crise econômica mundial) a 2017. Assim, ao mesmo tempo que uma forte queda do investimento público atingiu instituições de ensino e pesquisa de Grécia e Irlanda no período, outras nações como Portugal, Holanda e Noruega tiveram aumentos nominais de, respectivamente 21%, 22% e 54% nos recursos públicos para universidades. Como um todo, porém, fica claro que os recursos públicos são os mais relevantes para as universidades – em quase todos os países do bloco, seria impossível para as instituições sobreviver sem eles.

A professora da Unifesp Esther Solano conta que em seu país de origem, a Espanha, as universidades também têm sofrido com falta de recursos, principalmente em momentos mais acentuados de crise econômica – apesar de cobrar taxas anuais dos alunos. “Os custos das matrículas não garantem um autofinanciamento, e também passamos por algo parecido ao que está acontecendo aqui, com críticas a áreas supostamente ‘inúteis’, e uma certa pressão social para que cursos considerados secundários e com poucos alunos, como filosofia grega, por exemplo, fossem fechados.”

Segundo a professora, “cortes são feitos em muitos locais, principalmente em momentos de crise”, mas ela ressalta nunca ter visto em nenhum local ataques contra a universidade sendo feitos como no Brasil agora, “com essa virulência e ressentimento”.

Apesar de não ser contra o ingresso de recursos privados na Universidade pública, Esther chama a atenção para uma discussão mais ampla. “Eu até acho que sim, os recursos privados poderiam ajudar, mas não é essa a questão principal. Acredito que a educação deve ser pública e gratuita por princípio. Por um princípio republicano e democrático: o Estado tem obrigação de dar educação de qualidade para seus cidadãos, pois é uma das mais importantes formas de combater as desigualdades”, defende.

“Acredito que a educação deve ser pública e gratuita por princípio”

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Do Canadá à China

Em seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Danilo de Melo Costa fez um estudo comparativo entre Brasil, Canadá e China sobre o financiamento público da educação superior.

De acordo com o pesquisador, no Canadá, o dinheiro público representa de 55% a 60% do financiamento das universidades e na China, de 40% a 45%. No caso chinês, ele ressalta que existem dois projetos governamentais que concedem apoio financeiro adicional às universidades. “No Projeto 211, o apoio se dá para as cem melhores do país, com o intuito de ajudá-las a alcançar o status de universidades worldclass (de ‘classe mundial’). Já o Projeto 985 concede apoio ainda mais generoso a um grupo especial de 39 universidades, com uma concentração maior de recursos para as Universidades de Pequim e Tsinghua, com o objetivo de impulsioná-las para as vinte melhores do mundo”, relata.

 

“A expansão da educação superior na China foi preponderante para o destacável crescimento econômico vivenciado pelo país”

 

Sobre o peso do financiamento privado no orçamento das universidades, ele destaca que universidades consideradas worldclass têm mais predisposição para atrair parceria, “mas, de modo geral, em ambos os países se observou uma média entre 15% a 20% de investimento de empresas privadas.”

Para Danilo Costa, a estratégia de sucesso nestes países foi a diversificação das fontes de financiamento e não a completa ruptura de um modelo de orçamento. Ele é a favor de uma maior aproximação do setor privado com a academia aqui no Brasil, mas enfatiza que “o Estado é, sim, fundamental. Em momentos de prosperidade econômica, existe uma predisposição das empresas investirem mais nas universidades, mas durante uma recessão, este incentivo vai fatalmente diminuir”. Para ele, se esta for a única fonte de sustentação, as universidades enfrentarão graves problemas e terão ameaçada até sua continuidade.

Por fim, ele aponta que investimento nas universidades é considerado prioridade nessas nações. É quase uma unanimidade que “a expansão da educação superior na China foi preponderante para o destacável crescimento econômico vivenciado pelo país.” O Canadá, diz ele, é outro país que investe maciçamente em educação, e que objetiva atingir o chamado sistema universal, deixando a educação superior disponível para todos que vislumbrem frequentá-la.

“Na minha pesquisa, dados de 2003 a 2012 demonstraram que o porcentual do PIB investido em educação superior no Canadá passou de 2,4% em 2003 para 2,8% em 2012. Já na China, o porcentual do PIB investido no setor passou de 1,1% em 2003 para 1,5% em 2012. Ou seja, a educação superior é vista como preponderante para o desenvolvimento da nação, bandeira que também defendo”, conclui o professor, que coordena o Programa de Mestrado Profissional em Administração do Centro Universitário Una (MG).

Foto de destaque: pesquisadores da Universidade da Califórnia, campus San Francisco – Divulgação/ucsf.edu

Arte: Thais H. Santos

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo “Jornal da USP” [Aqui! ]

Revista “Nature” publica artigo sobre luta dos cientistas brasileiros contra cortes orçamentários do governo Bolsonaro

Cientistas brasileiros se esforçam para transformar políticos em aliados. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro corta o apoio à ciência e à educação, os cientistas abrem caminhos para oferecer conselhos científicos a parlamentares

protestos educação

Protestos contra os cortes do governo brasileiro na educação e financiamento da ciência ocorreram em mais de 220 cidades em 15 de maio. Crédito: Cris Faga / NurPhoto via Getty

Por Rodrigo de Oliveira Andrade para a Nature

Os cientistas do Brasil estão lutando contra os planos do presidente Jair Bolsonaro de cortar o financiamento de programas de pesquisa e educação. Os pesquisadores se uniram a membros do Congresso Nacional, Cientistas do Brasil estão lutando contra os planos do presidente Jair Bolsonaro de cortar o financiamento de programas de pesquisa e educação. Pesquisadores se uniram a membros do Congresso Nacional  para destacar o papel estratégico que a ciência, a tecnologia e a educação desempenham no desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Cerca de 20 congressistas se reuniram com pesquisadores acadêmicos, empresários e representantes do setor industrial para lançar em Brasília a “Iniciativa de Ciência e Tecnologia no Parlamento” no dia 8 de maio. O anúncio foi feito no mesmo dia em que mais de 60 órgãos científicos brasileiros se reuniram no Congresso Nacional para demonstrar sua oposição aos cortes que o governo Bolsonaro fez no orçamento das universidades públicas e no sistema nacional de pesquisa.

“A iniciativa vai se concentrar em questões onde a ciência e a política se encontram”, diz Ildeu de Castro Moreira, físico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um dos grupos que está coordenando o projeto.  O principal objetivo é fornecer assessoria científica aos parlamentares brasileiros – e promover relações próximas com eles, promovendo discussões abertas sobre questões de ciência e educação.

A iniciativa a vem em um momento delicado para os setores de ciência e educação do país. O presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, que tomou posse em janeiro, começou a desmantelar o sistema nacional de pesquisa, contradizendo sua promessa de campanha de fazer da ciência e tecnologia uma prioridade e aumentar os gastos brasileiros em pesquisa de 1% a 3% de seu produto interno bruto. .

No final de março, o governo Bolsonaro anunciou que congelaria 42% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações – reduzindo efetivamente seu financiamento para apenas 2,9 bilhões de reais (US $ 750 milhões). Isso é 2,2 bilhões de reais a menos do que o nível aprovado para 2019, e o menor orçamento para o setor desde 2006. O governo também cortou 5,8 bilhões de reais, ou 25%, do orçamento do Ministério da Educação.

E no final de abril, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que o governo estava planejando “descentralizar” seus investimentos nas ciências sociais e na filosofia. Dias depois, o governo anunciou que cortaria 30% dos fundos para as universidades federais. O ministério também congelou, sem aviso prévio, mais de 3.000 bolsas de estudo destinadas a apoiar pesquisas de pós-graduação.

Milhares de cientistas, professores e estudantes saíram às ruas no dia 15 de maio, em mais de 220 cidades brasileiras, para protestar contra os cortes no financiamento da educação e da ciência.

Procurando aliados

Os defensores da nova iniciativa científica dizem que já estão encontrando apoio entre os políticos para políticas que visam impulsionar a pesquisa no Brasil.

“Já começamos a trabalhar para encontrar soluções em conjunto com os congressistas para alguns grandes projetos de lei em andamento no Congresso Nacional”, diz Luiz Davidovich, físico da UFRJ e presidente da Academia Brasileira de Ciências, que está ajudando a orientar a iniciativa. .

Um dos projetos de lei evitaria que o governo usasse o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do país para pagar dívidas públicas. Davidovich diz que isso ajudaria a garantir a sustentabilidade a médio e longo prazo do apoio do governo à pesquisa.

A iniciativa de ciência e tecnologia também espera convencer os legisladores a derrubar os vetos de leis de Bolsonaro que o Congresso Nacional havia aprovado em 7 de janeiro. O presidente derrubou dispositivos que regulam a criação de fundos de doações filantrópicas para apoiar instituições públicas, como universidades e centros de pesquisa.

O projeto brasileiro segue os passos de iniciativas semelhantes em outros países. O Comitê Parlamentar e Científico do Reino Unido tem funcionado como um elo de ligação entre os formuladores de políticas, órgãos científicos e a indústria científica desde 1939. Outro grupo, o Science & Technology Australia, ajudou a promover boas relações entre os políticos e líderes de ciência e tecnologia do país. Esses links resultaram em mudanças na política que beneficiaram a ciência, a tecnologia, a engenharia e a medicina, incluindo a pesquisa.

Os defensores esperam por um sucesso semelhante no Brasil, dado o atual clima sombrio de pesquisa e educação. Cientistas no país têm lutado com sucessivos cortes orçamentários desde 2013, diz Fernando Peregrino, presidente do Conselho Nacional de Fundações de Instituições de Ensino Superior e Pesquisa Científica e Tecnológica. Mas algo mudou sob Bolsonaro, ele diz: “É a primeira vez que testemunho essa hostilidade do governo com a comunidade científica”.

“Eles estão tentando destruir o sistema de ciência e tecnologia do país, que foi construído ao longo de décadas”, diz Peregrino. “E nós não devemos deixar acontecer.” 

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista “Nature” [Aqui!]

Cortes na ciência e tecnologia vão agravar fuga de cérebros

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Intencional ou não, um dos primeiros efeitos que os cortes draconianos que foram executados pelo ministro Abraham Weintraub, aquele que possui dificuldades extremas com o cálculo de porcentagens, no sistema nacional de pós-graduação será acelerar um processo que historicamente drena recursos humanos do Brasil que é conhecido pela alcunha de “fuga de cérebros”. 

Esse processo não é de hoje, mas será aprofundado por uma opção de retirar investimentos da ciência e tecnologia para encher os cofres dos grandes agentes internacionais e nacionais que fazem a festa com dinheiro público a partir da especulação financeira.

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Eu já vinha sendo procurado por jovens pesquisadores interessados em sair do Brasil para procurar oportunidades de treinamento em nível de pós-graduação em centros como Canadá e Austrália.  Essas conversas geralmente revolviam em torno da necessidade de manter ou aprofundar treinamentos iniciados no Brasil em países onde há maior estabilidade no aporte de verbas.  Como realizei no meu doutorado e meu pós-doutorado nos EUA, quem me procurou estava buscando informações sobre como não só acessar programas em universidades estrangeiras, mas também sobreviver ao duro teste que é viver fora do Brasil enquanto se estuda e faz pesquisas.

O que os presentes cortes drásticos feitos pelo governo Bolsonaro acabarão causando, em um sistema que objetivamente se tornou um dos mais promissores do mundo ao longo das últimas décadas onde houve uma certa melhora no aporte de recursos, será acelerar um processo que sempre existiu.  Uma das razões para isso é que muitos desses jovens pesquisadores (e até alguns assim não tão jovens) já alcançaram algum tipo de expertise científica que será facilmente assimilada em países que estão realizando o percurso oposto ao do Brasil e realizando investimentos pesados em ciência e tecnologia.

Um exemplo é a União Europeia que apenas na iniciativa conhecida como “Horizon 
Europe” irá investir algo em torno de R$ 500 bilhões entre 2021 e 2027.  Esse montante ainda será acrescido de investimentos feitos pelos próprios países europeus, a começar pela Alemanha que está planejamento investimentos de R$ 800 bilhões em suas universidades e institutos de pesquisa entre 2021 e 2030.

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Com  o “Horizon Europe”, a União Europeia irá investir R$ 500 bilhões no desenvolvimento científico e tecnológico apenas entre 2021 e 2027.

Como estive recentemente na Finlândia pude constatar que também naquele país estão sendo realizados investimentos massivos nas universidades, os quais estão permitindo a atração de excelentes quadros científicos de todas as partes do mundo para fortalecer a capacidade de produção em todas as áreas de conhecimento. Um modelo que, aliás, a China já vem executando há alguns. 

Os apoiadores do governo Bolsonaro poderão dar de ombros e dizer que o aeroporto será o melhor caminho para aqueles que não quiserem “amar” o Brasil que está sendo montado pelo “mito”.  O problema é que ao perdermos quadros científicos, aumentaremos ainda mais a nossa dependência em todo tipo de produto, a começar, por exemplo, por vacinas e remédios contra doenças tropicais.  Cito aqui o caso da pesquisadora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Letícia Takahashi ,que anunciou a sua desistência do seu programa de doutoramento cujo foco seria a continuidade de suas pesquisas sobre a Leishmaniose, doença transmitida por mosquitos, que cresceu quase 53% nos últimos 26 anos no Brasil e que pode ser fatal. Não ficarei surpreso se alguma universidade estrangeira vier ao nosso país para recrutá-la, pagando muito mais do que os minguados R$2.200,00 que ela receberia na forma de uma bolsa de pesquisas da CAPES.

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Leticia Takahashi, pesquisadora que teve que interromper o doutorado por falta de bolsa. Arquivo pessoal

Assim é preciso que fique claro que se centenas ou até milhares de pesquisadores decidirem sair do Brasil em busca de condições de trabalho, os culpados serão não apenas os membros do governo Bolsonaro que engendraram os cortes operados no sistema nacional de ciência e tecnologia, mas também aqueles que podendo pressionar para que isso não ocorresse estão se omitindo. Um desses personagens omissos é o ministro da Ciência e Tecnologia, o auto intitulado astronauta Marcos Pontes, que está assistindo a tudo o que está sendo com cara de paisagem.  Se é para se comportar assim, melhor seria ele voltar a anunciar travesseiros feitos como se fossem da NASA, mas que não o são.