Guerra às universidades públicas visa aniquilar o conhecimento científico no Brasil

criacionismo

Os tambores de guerra contra as universidades públicas não estão nem esperando a posse do presidente eleito para serem soados. A alegação mais comum para essa declaração de guerra é de que elas custam caro e são um antro do pensamento esquerdista que supostamente é guiado por um suposto marxismo cultural. A primeira coisa que precisa ser dita é que as universidades públicas estão longe de serem essa fábrica de esquerdistas que seus inimigos alardeiam por um simples motivo. A verdade é que a maioria dos docentes brasileiros é razoavelmente conservadora e o pensamento crítico que existe nelas é amplamente minoritário. Só que não frequenta as nossas universidades é que cai na fake news de que as universidades públicas são manipuladas por perigosos esquerdistas.

A segunda questão que precisa ser colocada claramente é que as universidades públicas representam hoje algo em torno de 20% do estoque de vagas existentes no ensino superior brasileiro [1].  Em outras palavras, em cada 10 universitários brasileiros, 8 estão em instituições privadas, onde se paga muito caro por um ensino que passa ao largo de uma formação que habilite o Brasil a superar seus atrasos no campo do desenvolvimento científico. E, pior,  a imensa maioria destas instituições privadas não aparecem em qualquer ranking respeitável sequer na capacidade de reproduzir conteúdos programáticos, quiçá o de produzir conhecimento científico qualificado.

E é aí que parece residir o real objetivo do ataque em curso às universidades públicas, qual seja, minimizar a capacidade nacional de alcançar algum patamar de desenvolvimento científico que diminua a dependência na exportação de commodities agrícolas e minerais que, convenhamos, é o projeto macroeconômico das forças políticas que elegeram Jair Bolsonaro.

Estimo que muitos jovens e nem tão jovens pesquisadores brasileiros, sejam eles de qualquer perfil ideológico forem, estão se preparando neste momento para abandonar o Brasil à procura de instituições onde possam trabalhar de forma minimamente estruturada. Essa opção se dará essencialmente na necessidade de sobrevivência pessoal, e não há como condenar quem opte pela saída sugerida pelo próprio presidente eleito que foi o caminho do aeroporto. 

Agora, aos que optarem por ficar no Brasil, a única certeza é de que não poderão mais se dar ao luxo de se internarem voluntariamente em seus laboratórios de pesquisa. É que o que está em jogo não é se estarão trabalhando em instituições públicas e privadas, mas sim se poderão se dedicar à produção de conhecimento científico. A razão para isto é simples: não há lugar para cientistas em um país em que as elites optaram por se abraçar ao rentismo e ao que há de mais atrasado politicamente em nome da perpetuação da perpetuação de um modelo social altamente excludente.


[1] https://dwih.com.br/pt-br/cenario-de-inovacao/universidades-brasil

Presidente do CNPq denuncia riscos criados pelos cortes orçamentários sobre a ciência brasileira

cnpq

CARTA ABERTA DO PRESIDENTE DO CNPQ

“A Ciência Brasileira está em Risco

A Ciência, Tecnologia e Inovação são ferramentas fundamentais para o país e o impulso a esses setores é firme alavanca para o desenvolvimento sustentável com lastro: cada real que se destina à pesquisa científica e cada minuto que se permite à inteligência e criatividade brasileiras exercitarem a busca por soluções, nos mais diferentes campos, vão sempre render frutos e benefícios para o País. 

A história comprova isso: nações que se desenvolveram efetivamente, que deram salto em busca de se tornarem mais prósperas e justas, valeram-se intensamente dos benefícios proporcionados pela pesquisa científica. 

Hoje o Brasil tem investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento da ordem de 1,2% do seu Produto Interno Bruto, o que compreende os dispêndios privados e públicos para – é muito pouco. Para que possa alcançar novos potenciais e realizar diferentes objetivos, o Brasil precisa ampliar esse percentual para ao menos 2% de seu PIB. 

Neste contexto, e do ponto de vista público, como órgão gestor de projetos científicos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq alerta para as limitações orçamentárias impostas ao órgão para o exercício de 2019, a serem mantidos os valores previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual para o próximo ano. 

Se, em 2018, o CNPq pôde contar com recursos da ordem de R$ 1,2 bilhão, em 2019 a previsão de R$ 800 milhões poderá limitar ações diversas como o lançamento de editais de pesquisa, contratações de novos projetos e outras iniciativas. Uma perda da ordem de R$ 400 milhões. 

É preciso destacar o esforço empreendido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações nesses últimos anos pela recomposição orçamentária quanto a cortes promovidos, bem como os esforços para que o CNPq pudesse honrar o pagamento de bolsas a pesquisadores. Também é preciso destacar o papel do Ministério na máxima execução orçamentária de recursos disponibilizados pela equipe econômica do Governo Federal. 

Ainda que não se vislumbrem riscos a pagamentos de bolsas de pesquisa com os valores previstos para o ano de 2019, o CNPq destaca que o “encolhimento” dos recursos disponíveis afeta o sistema brasileiro de pesquisa científica e reafirma a importância do envolvimento da sociedade no debate sobre a importância da Ciência, Tecnologia e Inovação. O CNPq ressalta, por fim, a necessidade de recursos e apoio para que esses setores se desenvolvam de forma adequada fortalecendo o avanço do País rumo a se tornar uma grande nação. 

Prof. Mario Neto Borges, PhD
Presidente do CNPq”

FONTE: http://www.cnpq.br/documents/10157/6234432/CARTA+ABERTA_FINAL.pdf/ff79fc6d-14f6-40fc-8b60-d6b1f1fb26c7

CNPq, mais uma vítima da política de destruição do futuro imposta pelo governo Temer

Às ruas, cientistas!

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No mesmo dia em que o Brasil acorda sabendo que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se concederam um aumento de 16,38% em seus salários que atualmente são de “módicos” R$ 33,7 mil mensais, criando um efeito cascata que deverá gerar um custo adicional de R$ 4 bilhões para os cofres públicos, o jornalista Herton Escobar nos traz a informação de que o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também levou uma tesourada brutal pelo governo “de facto” de Michel Temer, o implicará na ausência de financiamento para projetos de pesquisa em 2019 [1 & 2].
Como de forma geral não há um entendimento imediato do que significa desprover a ciência brasileira de novos investimentos, é preciso lembrar que serão interrompidas e/ou perdidas pesquisas estratégicas em várias áreas sensíveis, começando, por exemplo, pela saúde, onde certamente serão interrompidas pesquisas sobre, por exemplo, doenças tropicais como a malária e a dengue. Mas ainda na área da saúde serão devastados grupos de pesquisa que estudam doenças como o câncer.
Apenas à guisa de comparação com os custos gerados pelo auto aumento concedido pelos ministros do STF que vão onerar os cofres públicos em R$ 3 bilhões, Herton Escobar nos informa que o orçamento do CNPq irá cair de R$ 1,2 bilhão para R$ 800 milhões em 2019, sendo que só as bolsas providas pela agência já custam por volta de R$ 900 milhões!
Apenas para parafrasear uma declaração do ministro Celso de Mello durante a sessão em que a maioria dos ministros do STF decidiram aumentar seus salários e mandar a conta para a víuva, , “estamos aqui em face daquelas escolhas trágicas”. A questão é que a tragédia que está se desenhando com a liquidação do ainda incipiente sistema brasileiro de ciência e tecnologia extrapola o destino de quem insiste em praticar ciência no Brasil. Com a liquidação da CAPES e do CNPq, o que está se fazendo a partir de escolhas que só são trágicas para que não está encastelado na alta burocracia do estado e para os segmentos da sociedade que se beneficiam do rentismo que sufoca a economia brasileira. O problema é que os excluídos dessas benesses representam quase a totalidade da população brasileira.
É por isso que eu repito que a comunidade científica precisa sair da sua letargia e tomar as ruas para pressionar o governo Temer para que estes cortes absurdos sejam revistos. Do contrário, estaremos diante do abismo de onde será difícil sair se os atuais cenários de asfixia orçamentária foram concretizados.
Às ruas, cientistas!


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/08/08/stf-aprova-reajuste-de-16-para-ministros-da-corte-a-partir-de-2019.htm
[2] https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cnpq-diz-que-so-tera-verba-para-bolsas-em-2019,70002438970

O oráculo de Tuffani: reagir ou perecer

No dia 21 de Novembro de 2017, a Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) realizou um debate intitulado “O Futuro da Ciência no Brasil em Debate”, e que contou com a presença do professor e pesquisador do Instituto de Biofísica da UFRJ,  Jean Remy Davée Guimarães , e do jornalista Maurício Tuffani, do Direto da Ciência.

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Note-se que o evento era promovido pelo sindicato dos docentes e não pela reitoria da Uenf que à primeira vista deveria estar liderando as reflexões que ocorreram naquele dia em face dos crescentes ataques que estavam sendo realizados contra as universidades públicas e, por extensão, ao sistema nacional de ciência e tecnologia.

Uma das passagens mais memoráveis daquele encontro entre dois grandes conhecedores do funcionamento da ciência brasileira foi quando Maurício Tuffani revelou sua incredulidade com a condição de passividade que parecia dominar  as instituições públicas de ensino superior.  Para Tuffani, tal passividade era difícil de entender dada envergadura do retrocesso que estava sendo arquitetado a partir de Brasília, mais precisamente do interior do governo “de facto” de Michel Temer. E nessa condição ele ainda vaticinou que se a pasmaceira não fosse quebrada, coisas ainda piores poderiam acontecer.

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Agora que a vaca parece estar sendo solenemente para o brejo com os anunciados cortes orçamentários que afetarão gravemente o sistema nacional de ciência e tecnologia, ainda não vejo o tipo de reação que foi demandada por Maurício Tuffani quase um ano depois do evento promovido pela Aduenf.

Aparentemente  há um dissintonia cognitiva dentro das universidades públicas entre a realidade que se imagina dentro dos muros e aquilo que está efetivamente ocorrendo no mundo externo.  Lamento ter que fazer esta constatação, mas me parece que ainda não há um entendimento do projeto estratégico que se está executando no Brasil,  especialmente no tocante ao fato de que esse projeto dispensa totalmente a existência de centros de excelência como os hoje existentes em dezenas de universidades e institutos de pesquisa públicos. 

E, pior, não vejo as reitorias da maioria das universidades tomando para si o papel estratégico de combater o desmanche que está se avizinhando. São raros os reitores e demais dirigentes universitários que aceitam cumprir o papel de denunciar publicamente o amplo alcance das medidas de desconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia. A maioria dos reitores tem preferido utilizar a tática do avestruz, enterrando a cabeça na areia em nome de procedimentos mais pragmáticos para barganhar migalhas.

Desta forma, que ninguém que se surpreenda se virem os sindicatos representativos de professores, servidores e estudantes liderando o processo de resistência ao que o pesquisador Miguel Nicolelis denominou de “dia do juízo final das universidades brasileiras”. É que até agora é por aí que a resistência tem passado, e não vejo nada que indique que algo novo vá acontecer.

Por ora, a comunidade científica continua devendo a Maurício Tuffani e à maioria da população brasileira o tipo de reação que se espera dela em face dos graves riscos que estão aparecendo todos os dias no horizonte da ciência brasileira. Esperemos que o “wake up call” de Tuffani seja ouvido antes que estejam sob os escombros daquilo que ainda não foi destruído pelo governo Temer.

 

 

Recursos para CT&I na União Europeia vão sentido inverso ao do Brasil

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Enquanto no Brasil vivemos uma profunda crise de financiamento para a área de ciência e tecnologia, com a ameaça de implosão em 2019, na União Eurpéia o caminho adotado é justamente o inverso.

A figura abaixo aponta que está ocorrendo m aumento significativo de recursos para a área, dentro do programa Horizon 2020.  E lembrem que os valores abaixo se referem a bilhões de euros.

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Diante desses valores é que se vê quão danosa para o futuro do Brasil são os atuais cortes na ciência e tecnologia, e que colocam em perigo o ainda incipiente sistema nacional de pós-graduação.

E que ninguém se engane: não sairemos desta crise nos isolando dentro das universidades ou acreditando nas desculpas esfarrapadas do governo Temer. Ou nos mobilizamos ou seremos destruídos. Simples assim!

O governo Temer e o extermínio do futuro

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Após a divulgação da nota da Capes alertando para a virtual paralisação dos financiamentos de bolsas acadêmicas e projetos de pesquisa repentinamente disparou a consciência acerca do virtual extermínio da ciência brasileira.  Mas eu diria que o alarme que parece estar tomando conta das pessoas já deveria ter sido acionado quando outros tantos ataques foram cometidos pelo governo “de facto” de Michel Temer contra outros segmentos da população brasileira.

Um exemplo disso foi a atitude de inércia que grassou nas universidades públicas com as repetidas operações da Polícia Federal contra reitores e demais dirigentes universitários que teve no suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier. 

Tampouco se ouviu falar de ações mais robustas dentro da comunidade científica quando Michel Temer garantiu a aprovação da chamada PEC do Teto, a qual está na base dos cortes avassaladores que estão sendo realizados não apenas na Capes e no CNPq, mas também nos orçamentos de todas as universidades federais e institutos federais de ensino ou pesquisa.

Agora defrontados com a possibilidade real de que todo o sistema nacional de ciência e tecnologia seja reduzido a escombros, e com ele qualquer chance de futuro enquanto nação soberana, vemos, finalmente, algum processo de mobilização, mesmo que ainda restrito às redes sociais.

A verdade nua e crua é que, como já alertou o neurocientista, Miguel Nicolelis, o governo Temer já marcou o dia do juízo final da ciência brasileira. Resta saber se haverá quem queira se mobilizar para evitar isso. E quanto mais rápido, melhor. Afinal, é o futuro do Brasil que está em jogo.

Miguel Nicolelis alerta que (des) governo Temer marcou o dia do juízo final da ciência brasileira

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O neurocientista Miguel Nicolelis, que é atualmente o mais reconhecido cientista brasileiro no mundo, usou a sua conta oficial no Twitter para corroborar o alerta feito pelo presidente da Capes em carta ao ministro da Educação alertou sobre as consequências desastrosas que o corte de R$ 300 milhões feito no orçamento da instituição para a ciência brasileira.

Em termos francos e diretos, Miguel Nicolelis afirmou que se nada mudar no orçamento do MEC de 2019, está marcado o dia do juízo final da ciência brasileira se nada mudar  (ver figura abaixo).

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Eu adicionaria apenas que apenas uma profunda mobilização da comunidade científica poderá impedir esse juízo final cuja consumação representará a vitória do projeto político que quer transformar o Brasil numa colônia exportadora de soja e olhe lá.

A coisa parece clara: ou a comunidade científica se mobiliza ou será exterminada. Simples assim, mas ainda altamente trágico.