Governo do Rio de Janeiro recua e anuncia recriação da Secretaria de Ciência e Tecnologia: uma vitória da mobilização

Reação rápida da comunidade científica força o governo estadual a rever uma decisão equivocada, mas agora será preciso acompanhar o Diário Oficial para verificar se os compromissos anunciados serão efetivamente cumpridos

Menos de 24 horas depois deste  blog divulgar a extinção da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro (SECTI-RJ), que ficaria incorporada à estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, chega uma notícia que merece ser saudada: o governo estadual decidiu recuar e anunciou que recriará uma secretaria específica para a área de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (7) pelo Tempo Real RJ, assinada pelo jornalista João Pedro Lima, o governador em exercício, Ricardo Couto, assumiu o compromisso de recriar a secretaria em até dez dias. O anúncio ocorreu depois da forte reação provocada pela extinção da pasta entre pesquisadores, universidades e entidades representativas da comunidade científica fluminense.

A informação foi divulgada publicamente pela vereadora Tatiana Roque, que participou de uma reunião com o governador em exercício, parlamentares e representantes da comunidade científica. Além da recriação da secretaria, o governo anunciou a constituição de um comitê formado por reitores de universidades e integrantes da comunidade científica, que deverá participar da discussão sobre a estrutura e as atribuições da nova pasta.

Além das informações tornadas públicas pela vereadora Tatiana Roque, recebi comunicação direta do deputado estadual Carlos Minc (PSB), que me transmitiu essencialmente as mesmas informações: o governo estadual teria decidido recriar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e constituir um espaço de interlocução com as universidades e a comunidade científica. A convergência entre as informações divulgadas pela vereadora e aquelas que me foram comunicadas diretamente pelo deputado Carlos Minc reforça a indicação de que houve, de fato, uma mudança de posição do governo estadual.

As duas medidas devem ser saudadas. A manutenção de uma estrutura administrativa própria para Ciência, Tecnologia e Inovação é fundamental para um estado que abriga algumas das principais universidades, instituições de pesquisa e centros de produção científica do Brasil. Igualmente positiva é a decisão de envolver as reitorias e representantes da comunidade científica na discussão sobre a estruturação da secretaria. Se esse diálogo for efetivo, poderá inclusive contribuir para que a pasta retorne mais fortalecida e com atribuições claramente definidas.

O episódio demonstra também que a mobilização pública produz resultados. A rápida reação das universidades, pesquisadores, entidades científicas, parlamentares e demais setores preocupados com o futuro da ciência fluminense obrigou o governo estadual a reconsiderar uma decisão que, caso permanecesse em vigor, representaria um inequívoco rebaixamento institucional da Ciência, Tecnologia e Inovação no estado do Rio de Janeiro.

Entretanto, entre o anúncio de uma decisão e sua efetiva materialização administrativa existe uma diferença importante. Por isso, o Blog do Pedlowski continuará acompanhando atentamente as próximas edições do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. O compromisso anunciado é de recriar a secretaria em até dez dias, e será no Diário Oficial que poderemos verificar a formalização da nova estrutura, suas atribuições, sua posição dentro da administração estadual e as demais medidas necessárias para transformar o anúncio político em realidade administrativa.

Há, finalmente, uma lição bastante óbvia que o governo estadual deveria retirar deste episódio: todo esse desgaste poderia ter sido evitado. Antes de extinguir uma secretaria responsável por uma área estratégica para o desenvolvimento econômico, social e tecnológico do Rio de Janeiro, o governador em exercício poderia — e deveria — ter ouvido justamente aqueles que conhecem o sistema estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. Bastaria consultar as reitorias das universidades públicas sediadas no estado, pesquisadores, dirigentes das instituições científicas e entidades nacionais como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Se essa consulta tivesse ocorrido antes da reforma administrativa, e não depois da reação provocada por ela, provavelmente o governo teria percebido antecipadamente a dimensão do equívoco que estava prestes a cometer. Política pública de ciência e tecnologia não deve ser construída por meio de decisões administrativas tomadas de cima para baixo, muito menos tratando a ciência como um apêndice de políticas de desenvolvimento econômico e interesses empresariais.

Por enquanto, fica registrada uma vitória importante da mobilização da comunidade científica fluminense, cuja reação rápida e contundente parece ter sido decisiva para produzir o recuo do governo estadual. Agora, porém, será preciso aguardar os próximos atos.  Afinal, como ensina o velho adágio derivado do jogo do bicho, “só vale o que está escrito”. E, neste caso, o que realmente valerá será aquilo que estiver formalmente publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Anúncios, compromissos e informações transmitidas por interlocutores políticos são importantes, mas a recriação da SECTI somente estará efetivamente consumada quando o ato correspondente aparecer preto no branco no DOERJ.

Por isso, como já disse, o Blog do Pedlowski ficará de olho — e com lupa — nas próximas edições do Diário Oficial para verificar o cumprimento do compromisso de recriação da SECTI. A mobilização da comunidade científica fluminense pode comemorar esta primeira e importante vitória, mas sem baixar a guarda.  Só vale o que está escrito. Até lá, aguardemos os próximos atos.

Ao extinguir a SECTI, governo do Rio rebaixa a ciência fluminense à condição de apêndice do mercado

A absorção da política de ciência, tecnologia e ensino superior por uma megassecretaria dedicada ao desenvolvimento econômico reduz sua autonomia institucional, enfraquece universidades e centros de pesquisa, amplia a influência empresarial sobre as prioridades científicas e pode representar o primeiro passo para a privatização gradual do sistema público estadual de produção do conhecimento

A decisão do governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, de extinguir a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação como órgão independente e incorporar sua estrutura a uma pasta ampliada de desenvolvimento econômico não representa uma simples mudança de organograma. Publicada no Diário Oficial desta quinta-feira, 6 de agosto de 2026, a medida cria a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio, Serviços, Ciência, Tecnologia e Inovação e reduz a formulação das políticas científicas, tecnológicas e de ensino superior à condição de uma subsecretaria submetida a uma estrutura administrativa hiperdimensionada.

O governo poderá apresentar a mudança como uma medida de racionalização administrativa, integração de políticas e redução de custos. Entretanto, a extinção de uma secretaria não elimina apenas um gabinete ou alguns cargos. Ela elimina um espaço institucional próprio de representação política, formulação estratégica e disputa pelo orçamento estadual. Ciência, tecnologia e ensino superior deixam de comparecer diretamente à mesa principal do governo e passam a depender da mediação de uma secretaria cuja agenda será inevitavelmente dominada por investimentos privados, incentivos fiscais, atração de empresas, mineração, energia, logística, comércio, serviços e geração imediata de empregos.

A diferença não é meramente simbólica. Em uma estrutura governamental, a posição hierárquica define quem participa das decisões, quem controla os fluxos administrativos, quem estabelece prioridades e quem possui capacidade de defender recursos. Um secretário de Estado pode dialogar diretamente com o governador, com a Secretaria de Fazenda e com a Secretaria de Planejamento. Um subsecretário responde, antes de tudo, ao titular da pasta à qual está subordinado. Com o rebaixamento, as demandas das universidades estaduais, da Faperj, da Faetec, da Fundação Cecierj e das demais instituições científicas terão de disputar espaço com interesses econômicos muito mais próximos dos grupos empresariais e da agenda cotidiana do governo.

Antes da mudança, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação congregava instituições estratégicas como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), a Faperj, a Faetec, a Fundação Cecierj, o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico e o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia. Essas instituições não constituem acessórios de uma política econômica. Elas formam um sistema público de produção de conhecimento, formação profissional, pesquisa básica, pesquisa aplicada, extensão universitária e democratização do acesso à educação.

Ao colocar esse sistema sob o comando de uma secretaria orientada prioritariamente pelos interesses da indústria, do comércio e dos serviços, o governo altera a própria concepção de ciência que deverá orientar as políticas públicas. A tendência será avaliar universidades, centros de pesquisa e programas de formação segundo critérios de retorno econômico imediato, capacidade de atrair investimentos, geração de patentes, contratos empresariais e atendimento às demandas do mercado. Áreas que não ofereçam resultados mercantis rápidos poderão ser apresentadas como pouco produtivas ou como despesas que deveriam ser reduzidas.

Esse enquadramento ameaça sobretudo a pesquisa básica, as Ciências Humanas, as Ciências Sociais, as artes, os estudos ambientais críticos e as investigações voltadas para problemas sociais que não interessam diretamente ao setor empresarial. Pesquisas sobre desigualdade, violência, degradação ambiental, conflitos territoriais, saúde pública, educação, racismo ou impactos socioambientais de grandes empreendimentos dificilmente serão consideradas prioritárias por uma estrutura governamental que interpreta inovação como sinônimo de competitividade empresarial.

Uma política científica séria não pode ser organizada exclusivamente a partir daquilo que as empresas já sabem que desejam. Parte essencial da ciência consiste justamente em produzir conhecimentos cujas aplicações ainda não são conhecidas, questionar modelos econômicos estabelecidos e investigar problemas que o mercado prefere ignorar. Quando a ciência é submetida administrativamente aos setores que poderão ser objeto de suas pesquisas, instala-se uma contradição estrutural: os potenciais investigados passam a influenciar a definição das prioridades dos investigadores.

Da produção de conhecimento à prestação de serviços

A fusão também poderá aprofundar uma tendência já presente nas políticas de ciência e tecnologia: a transformação das universidades públicas em prestadoras de serviços especializados para empresas. Em vez de o Estado financiar pesquisas definidas pela comunidade científica e pelas necessidades sociais, projetos poderão ser crescentemente condicionados à obtenção de parceiros privados, contrapartidas empresariais e metas de inovação comercial.

Nesse modelo, a universidade deixa de ser uma instituição pública relativamente autônoma, dedicada ao ensino, à pesquisa e à extensão, e passa a ser tratada como uma infraestrutura de apoio ao desenvolvimento empresarial. Laboratórios públicos, pesquisadores financiados pelo Estado e estudantes bolsistas podem ser mobilizados para reduzir custos de pesquisa e desenvolvimento de corporações privadas, enquanto os resultados economicamente apropriáveis são direcionados para quem possui capacidade de transformá-los em mercadoria.

Isso não significa que universidades e empresas não devam cooperar. O problema surge quando a cooperação deixa de ser uma possibilidade regulada pelo interesse público e se converte no critério dominante para definir o que merece ser pesquisado. A partir daí, a relevância científica e social tende a ser substituída pela rentabilidade potencial, e a universidade passa a responder mais rapidamente aos sinais emitidos pelo mercado do que às demandas da população.

O risco de privatização e o avanço do Sistema S

A mudança não privatiza automaticamente as universidades estaduais ou a educação profissional. A autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial das universidades está protegida pelo artigo 207 da Constituição Federal. Seria, portanto, impreciso afirmar que o decreto, isoladamente, extingue essa autonomia ou entrega imediatamente a Uerj, a Uenf ou a Faetec à iniciativa privada.

Entretanto, o rebaixamento institucional poderá criar condições políticas e administrativas para um processo gradual de privatização. Privatizar não significa apenas vender uma universidade. A privatização também pode ocorrer pela terceirização de atividades, pela cobrança crescente de serviços, pela transferência de cursos para organizações privadas, pelo financiamento condicionado a contratos empresariais, pela substituição de servidores efetivos por vínculos precários e pela entrega da formação profissional a entidades empresariais.

Nesse contexto, o Sistema S poderá aparecer como alternativa supostamente mais eficiente, flexível e próxima das necessidades do mercado. O governo poderá argumentar que instituições como Senai, Senac e outras entidades possuem maior capacidade de responder rapidamente às demandas empresariais por qualificação profissional. Com isso, a Faetec e outras estruturas públicas poderão perder recursos, cursos, infraestrutura e centralidade política.

O problema é que o Sistema S é administrado por entidades patronais e organiza sua oferta formativa a partir das necessidades dos setores econômicos que o controlam. Ele pode cumprir funções relevantes de formação profissional, mas não deve substituir uma política pública de educação tecnológica submetida ao controle democrático, à transparência estatal e às necessidades mais amplas da população.

Caso a nova secretaria passe a privilegiar convênios e contratos com essas entidades, o Estado poderá financiar uma estrutura controlada pelo empresariado enquanto enfraquece suas próprias instituições. O dinheiro continuará sendo público, mas as prioridades, os métodos de gestão e parte das decisões serão progressivamente deslocados para organizações privadas. Essa é uma das formas mais recorrentes de privatização contemporânea: não se vende formalmente o patrimônio, mas se esvazia a instituição pública até que a terceirização pareça inevitável.

A fragilização da Faperj e da pesquisa de longo prazo

A Faperj possui uma proteção constitucional importante. A Constituição do Estado do Rio de Janeiro estabelece a destinação anual de 2% da receita tributária estadual, deduzidas as transferências e vinculações legais, para o financiamento da pesquisa científica e tecnológica. Isso impede que a simples reorganização administrativa elimine formalmente sua fonte de recursos.

Contudo, a existência de uma vinculação constitucional não torna a Faperj imune a pressões políticas. A agência poderá sofrer alterações nas prioridades de seus editais, na composição de seus órgãos dirigentes, na distribuição dos recursos entre pesquisa básica e inovação empresarial e na forma de avaliar projetos. O orçamento poderá permanecer formalmente protegido, enquanto sua aplicação passa a ser orientada por interesses econômicos mais estreitos.

Sob uma secretaria dominada por indústria, comércio e serviços, a Faperj poderá ser pressionada a concentrar seus investimentos em startups, incubadoras, empresas de base tecnológica, projetos com potencial de mercado e parcerias público-privadas. Essas áreas são legítimas, mas não podem absorver os recursos necessários à manutenção da pesquisa básica, à formação de pesquisadores e à investigação de problemas sociais, ambientais e culturais.

A produção científica exige continuidade, estabilidade institucional e horizontes de longo prazo. Empresas operam frequentemente com ciclos mais curtos, orientados por rentabilidade, competitividade e retorno sobre investimentos. Quando a lógica empresarial passa a comandar a política científica, projetos estratégicos podem ser interrompidos porque seus resultados não aparecem em um mandato governamental, não geram produtos patenteáveis ou não interessam aos grupos econômicos mais influentes.

Uma secretaria grande demais para pensar a ciência

A nova secretaria nasce com uma quantidade extraordinariamente ampla de atribuições. A estrutura anunciada deverá reunir desenvolvimento econômico, indústria, comércio, serviços, ciência, tecnologia, inovação, transformação digital, cidades inteligentes, economia criativa, mineração, energia, infraestrutura, logística, qualificação profissional, empreendedorismo e captação de investimentos.

Uma secretaria com tantas competências corre o risco de não formular adequadamente nenhuma delas. Na prática, os setores com maior capacidade de mobilizar investimentos, produzir anúncios governamentais e pressionar politicamente tendem a ocupar o centro das decisões. Ciência e educação superior, cujos resultados são mais complexos e normalmente aparecem no médio e no longo prazo, provavelmente serão empurradas para uma posição periférica.

Há ainda um evidente problema de conflito de prioridades. Uma política científica comprometida com o interesse público poderá produzir pesquisas que revelem danos ambientais causados por mineradoras, riscos associados a empreendimentos industriais, efeitos sociais da expansão portuária ou consequências sanitárias de determinadas atividades econômicas. Ao subordinar a área científica à mesma secretaria encarregada de atrair e apoiar esses investimentos, o governo cria uma situação em que a produção independente do conhecimento pode colidir com os objetivos econômicos da pasta.

Esse conflito poderá se manifestar na escolha dos dirigentes, na definição dos editais, na distribuição de bolsas e na seleção das áreas consideradas estratégicas. Não será necessário censurar diretamente pesquisadores. Bastará financiar abundantemente os temas convenientes e deixar sem recursos aqueles capazes de gerar resultados politicamente incômodos.

A falsa integração entre ciência e mercado

A aproximação entre ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico costuma ser apresentada como um objetivo incontestável. Mas ciência e mercado não são sinônimos, assim como inovação não pode ser reduzida à criação de produtos comercializáveis. O conhecimento científico também é indispensável para melhorar políticas públicas, proteger ecossistemas, combater epidemias, compreender desigualdades, planejar cidades, formar professores e ampliar direitos sociais.

Uma integração equilibrada exigiria fortalecer a secretaria científica, ampliar sua capacidade de coordenação e criar mecanismos permanentes de diálogo com os demais setores do governo. O que foi feito segue o caminho inverso: extinguiu-se a instância própria e subordinou-se a ciência a uma agenda econômica muito mais ampla.

O nome da nova secretaria tenta produzir a aparência de que todas as áreas possuem o mesmo peso. Mas a ordem institucional não é definida pela quantidade de palavras incluídas na placa do órgão. Ela é definida pela hierarquia administrativa, pelo controle orçamentário, pelo acesso ao governador e pela capacidade de estabelecer prioridades. Ciência, tecnologia e inovação aparecem no final de uma longa denominação porque também correm o risco de ficar no final da fila das decisões governamentais.

O início de um processo que precisa ser enfrentado

O decreto publicado em 6 de agosto não deve ser analisado apenas pelo que determina imediatamente, mas pelas mudanças que poderá facilitar. Ele abre caminho para o esvaziamento político das universidades estaduais, para o enfraquecimento da educação profissional pública, para a reorientação empresarial da Faperj e para a transferência gradual de atividades educacionais ao Sistema S e a outras organizações privadas.

A defesa da autonomia universitária não pode limitar-se à autonomia formal inscrita na Constituição. Uma universidade sem recursos, submetida a contingenciamentos, pressionada a vender serviços e obrigada a buscar patrocinadores para manter seus laboratórios poderá continuar sendo chamada de autônoma, mas terá perdido grande parte de sua capacidade de decidir livremente o que ensinar, pesquisar e oferecer à sociedade.

A comunidade científica, as universidades, os sindicatos, as entidades estudantis e a Assembleia Legislativa precisam exigir transparência sobre a nova estrutura, a vinculação das instituições, o controle dos fundos, a composição dos órgãos decisórios e a destinação dos recursos. Também será necessário acompanhar qualquer tentativa de transferir cursos, equipamentos, prédios, laboratórios ou funções públicas a entidades privadas.

Ao extinguir uma secretaria própria, o governo em exercício emitiu uma mensagem inequívoca sobre suas prioridades. Ciência e tecnologia deixaram de ser tratadas como políticas de Estado e passaram a ser concebidas como instrumentos auxiliares da atividade empresarial. O perigo maior não está apenas na criação de uma secretaria com um nome quase interminável. Está na tentativa de reduzir o conhecimento público, a educação superior e a formação tecnológica à condição de fornecedores subordinados de mão de obra, serviços e inovações para o mercado.

O Rio de Janeiro não precisa de menos capacidade pública de produzir conhecimento. Precisa exatamente do contrário: universidades fortalecidas, financiamento estável, pesquisa independente e uma política científica capaz de enfrentar os problemas econômicos, sociais e ambientais do estado sem pedir autorização aos mesmos setores que frequentemente contribuem para produzi-los.

A China muda de rumo — e o Brasil insiste no atraso

Enquanto Pequim investe em soberania alimentar, biotecnologia e proteínas alternativas, o Brasil aprofunda sua dependência da exportação de commodities agrícolas

Durante décadas, a relação econômica entre Brasil e China foi apresentada como uma parceria estratégica quase perfeita. O Brasil exportaria commodities agrícolas e minerais; a China compraria em volumes crescentes para alimentar sua industrialização, urbanização e ascensão de sua classe média. A soja tornou-se o símbolo máximo desse pacto silencioso. Mas um artigo escrito pelo professor da USP, Ricardo Abramovay, publicado pelo Valor Econômico, chama atenção para uma mudança estrutural que pode redefinir profundamente essa relação: Pequim está buscando reduzir sua dependência externa de proteínas vegetais — especialmente aquelas produzidas nas Américas.

O alerta é sério porque toca justamente no coração do modelo agroexportador brasileiro. Desde os anos 2000, boa parte da expansão da fronteira agrícola brasileira foi impulsionada pela demanda chinesa por soja destinada à alimentação animal, sobretudo de suínos e aves. O crescimento do agronegócio brasileiro passou então a depender não apenas da produtividade agrícola, mas também da continuidade quase infinita do apetite chinês por ração animal.

Agora, porém, a lógica começa a mudar.  A China vem investindo pesadamente em novas tecnologias alimentares, biotecnologia, fermentação de precisão, proteínas alternativas e substituição parcial de insumos importados. O objetivo é estratégico: ampliar sua segurança alimentar e reduzir vulnerabilidades externas num cenário internacional marcado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e crise climática. Essa transição não significa que Pequim deixará de importar soja amanhã. Mas significa algo talvez mais importante: o atual padrão de crescimento das exportações brasileiras pode ter chegado ao seu teto histórico.

O grande problema é que o Brasil parece continuar apostando exatamente no modelo que a China tenta superar. Enquanto Pequim direciona recursos para inovação científica, agregação tecnológica e sistemas alimentares mais sofisticados, o Brasil segue aprofundando sua especialização em commodities primárias de baixo valor agregado. A consequência é um risco crescente de descompasso estrutural entre os dois países.

Ricardo Abramavoy sugere em seu artigo que a grande ameaça para o Brasil não é simplesmente econômica, mas civilizatória. O país continua expandindo áreas agrícolas, pressionando biomas estratégicos como Cerrado e Amazônia, enquanto o mercado internacional começa lentamente a questionar os custos ambientais desse modelo. Ao mesmo tempo, os setores mais dinâmicos da economia global caminham para produtos intensivos em conhecimento, inovação biológica e sustentabilidade.

Há uma ironia importante nesse processo. O Brasil possui algumas das maiores capacidades científicas do mundo tropical: biodiversidade incomparável, centros avançados de pesquisa agropecuária, universidades públicas relevantes e condições excepcionais para liderar uma nova economia da bioinovação. No entanto, insiste em ocupar um papel subordinado na divisão internacional do trabalho, exportando matéria-prima e importando tecnologia.

A mudança chinesa deveria funcionar como um sinal de alerta estratégico. Se o principal comprador global de proteínas vegetais começa a buscar autonomia tecnológica e alimentar, países altamente dependentes desse mercado precisam rever urgentemente suas estratégias de desenvolvimento.

A questão central não é apenas “quanto soja o Brasil conseguirá vender no futuro”, mas qual será o lugar do país numa economia global cada vez mais baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

A Uenf entre a estratégia e a apatia

Da ambição de transformar o Norte Fluminense pela ciência ao risco da irrelevância institucional: o esvaziamento estratégico de uma universidade concebida para liderar o Terceiro Milênio

Quando cheguei à Uenf, no início de 1998, vivíamos um período de vacas relativamente magras sob o tacão de um governador cujos olhos pareciam fincados exclusivamente na capital — falo aqui de Marcelo Alencar —, em plena hegemonia da ideologia neoliberal, embora ela ainda não tivesse se infiltrado no tecido social com a profundidade que alcançou hoje.

Mas, apesar das dificuldades orçamentárias e dos prédios ainda inacabados — que seriam concluídos no governo seguinte, de Anthony Garotinho —, aquele era um período marcado por intensas visitas de políticos do primeiro escalão nacional, incluindo o futuro presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, além de importantes lideranças da comunidade científica brasileira, entre elas os presidentes das principais agências de fomento.

É claro que isso se devia, em grande medida, à presença de um quadro docente conectado ao topo da produção científica nacional, algo explicitado pela participação de diversos membros da Academia Brasileira de Ciências na Uenf, a começar por Helion Vargas e Vilmar Dias, entre outros.

Sem querer ser saudosista — mas já sendo —, aquele período inicial da minha trajetória na Uenf era marcado por intensos debates sobre como consolidar o projeto revolucionário concebido por Darcy Ribeiro, ancorado na pós-graduação e em um modelo vigoroso e ambicioso de iniciação científica. Foi esse modelo que, posteriormente, renderia à universidade dois prêmios nacionais reconhecendo a excelência da formação de jovens pesquisadores voltados ao desenvolvimento futuro da ciência brasileira.

Passados quase 30 anos, o que vejo é uma perda de visão e um esmaecimento da compreensão acerca do porquê do projeto formulado pelos fundadores da Uenf — liderados pelo irrequieto Darcy Ribeiro — precisar ser aprofundado e reafirmado como eixo orientador das ações estratégicas da instituição. Aliás, o que mais parece ter se perdido ao longo dessas três décadas é justamente o sentido estratégico atribuído por Darcy à Uenf: o de uma universidade instalada em uma região historicamente marcada pelo atraso social, econômico e tecnológico para atuar precisamente como instrumento de superação desse atraso no Norte Fluminense.

Sem visão estratégica, o que se vê hoje na Uenf é a adesão crescente a proposições que ignoram o horizonte de longo prazo e se limitam à lógica da tática imediata. Pior ainda: dissemina-se a ideia de que, para ser “útil”, a universidade deve apenas oferecer serviços, como se ciência e tecnologia pudessem ser reduzidas a mercadorias entregues no balcão, à moda de secos e molhados.

A consequência da hegemonia da tática sobre a estratégia é que a Uenf perdeu boa parte do protagonismo que marcou o seu nascimento. E o resultado disso é uma apatia interna em que desaparecem os elementos centrais da missão concebida por Darcy Ribeiro. Assim, no lugar de candidatos à Presidência da República, cientistas de ponta e dirigentes nacionais da ciência brasileira, o que se vê hoje são visitas esporádicas de políticos inexpressivos que aparecem para prometer migalhas incapazes de agregar qualquer densidade estratégica ao futuro da universidade.

Sou daqueles que acreditam que instituições são como a maré, com ondas que vão e vêm, alternando momentos altos e baixos. O problema é que universidades não podem se dar ao luxo de depender apenas das oscilações naturais do tempo histórico para reencontrar seu rumo. É preciso reação interna, lucidez coletiva e capacidade de reconstruir ciclos virtuosos. O risco de não fazer nada já foi demonstrado no caso da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo), extinta e transformada em campus da Uerj.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro administrativo da Uenf, mas a sobrevivência do projeto histórico que lhe deu origem. Universidades não começam a morrer apenas quando perdem prédios ou orçamento, mas quando abandonam sua ambição intelectual, sua capacidade estratégica e seu compromisso com a transformação social. Se a Uenf aceitar a redução de seu papel a mera prestadora de serviços e abrir mão da ousadia concebida por Darcy Ribeiro, correrá o risco de permanecer existindo apenas formalmente, enquanto sua razão de existir se dissolve silenciosamente diante da indiferença interna e da mediocridade política externa.

Entre a ciência e o palanque: o desvio político da Faperj no Rio de Janeiro

Enquanto pesquisadores enfrentam abandono institucional e o hub de inovação da Faperj se deteriora no Catete, milhões destinados à ciência foram direcionados ao Segurança Presente sob influência de deputados da Alerj e interesses eleitorais

Um relatório interno do governo do estado do Rio de Janeiro revelou que a expansão do programa Segurança Presente, financiada parcialmente com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, teria sido conduzida por interesses políticos vinculados a deputados da bancada do PL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, e não por critérios técnicos relacionados à incidência criminal. O convênio previa o repasse de R$ 20 milhões para a abertura de dez novas bases do programa, enquanto a Faperj estava sob influência política do então secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes.

Os documentos apontam que diferentes bases do Segurança Presente foram associadas diretamente a interesses eleitorais de parlamentares. Além de Anderson Moraes, aparecem envolvidos o presidente da Alerj, Douglas Ruas, e os deputados Thiago Gagliasso, Índia Armelau e Filippe Poubel, cada um ligado à instalação de bases em áreas de interesse político-eleitoral. O processo também registra a utilização de emendas parlamentares para financiar unidades em municípios do interior fluminense.

O episódio evidencia uma profunda contradição institucional: recursos de uma fundação cuja finalidade legal é fomentar ciência, tecnologia e pesquisa científica passaram a financiar um programa de segurança pública, área que deveria possuir orçamento próprio e planejamento técnico específico. A utilização de verbas da Faperj para sustentar ações policiais revela não apenas um desvio de finalidade administrativa, mas também uma inversão de prioridades em um estado marcado pelo sucateamento das universidades públicas, pela precarização da pesquisa e pela redução de investimentos científicos.

Essa contradição torna-se ainda mais simbólica quando se observa a situação do prédio histórico que abriga o hub de inovação da Faperj, no bairro do Catete. O imóvel segue sem receber reformas estruturais adequadas, incluindo a recuperação e pintura de sua fachada externa, apesar de representar institucionalmente a política estadual de ciência e inovação. A deterioração física do espaço amplia a percepção de desconexão entre a missão original da fundação e a forma como seus recursos vêm sendo direcionados. Enquanto laboratórios, pesquisadores e universidades enfrentam dificuldades para obtenção de financiamento e manutenção de infraestrutura científica básica, recursos milionários são deslocados para programas de segurança pública associados a disputas político-eleitorais. O contraste entre o abandono de um patrimônio ligado à produção do conhecimento e a priorização de iniciativas alheias à pesquisa explicita uma crise de identidade institucional da própria Faperj.

A situação fica ainda mais delicada diante das evidências de ingerência política sobre a definição territorial do programa. Em vez de obedecer a estudos técnicos, indicadores de violência ou diagnósticos de segurança pública, a expansão das bases teria seguido interesses de parlamentares em seus redutos eleitorais, convertendo um programa estatal em instrumento de capital político. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre fundos públicos destinados à ciência e reforça o debate sobre a instrumentalização de estruturas do Estado para fins eleitorais e de fortalecimento de grupos políticos.

Diante das denúncias, o governo estadual anunciou a transferência do Segurança Presente para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e a realização de auditoria no programa. A promessa é que futuras expansões sejam orientadas por mapas de incidência criminal e critérios técnicos, buscando reduzir o peso das articulações políticas na condução da política de segurança pública.

A crise da UENF é a crise do futuro fluminense

Perdas inflacionárias superiores a 50%, salários iniciais pouco competitivos e carreiras fragilizadas expõem o desinvestimento público e ameaçam o futuro científico e tecnológico do Rio de Janeiro

A crise salarial que atinge os docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) não é um fenômeno isolado nem conjuntural.  Esta crise é uma expressão concreta de um modelo persistente de desvalorização do trabalho intelectual no setor público brasileiro — um modelo que, no caso fluminense, assume contornos particularmente agudos.

Ao longo dos últimos anos, os servidores da instituição acumularam perdas inflacionárias superiores a 50%. Esse dado, por si só, já seria suficiente para caracterizar um processo de corrosão sistemática do poder de compra e, consequentemente, das condições materiais de vida desses profissionais. No entanto, a gravidade do quadro se aprofunda quando se observa a estrutura remuneratória vigente. O salário inicial de um professor doutor em regime de dedicação exclusiva — R$ 10.858,66 — posiciona a universidade entre os piores pisos salariais dentre as principais economias estaduais brasileiros. Em um contexto de crescente competição por quadros altamente qualificados, isto se revela como sendo uma política que beira a autossabotagem institucional.

A precarização não se limita ao valor nominal dos salários. A ausência de mecanismos clássicos de progressão e valorização — como triênios e licenças especiais — retira da carreira docente elementos fundamentais de previsibilidade e atratividade. Jovens doutores, formados em programas de excelência e frequentemente disputados por instituições nacionais e estrangeiras, encontram na Uenf um cenário pouco convidativo: baixos salários, escassas perspectivas de evolução e instabilidade normativa. A consequência é previsível — e já observável: dificuldade de renovação dos quadros e envelhecimento progressivo do corpo docente.

No outro extremo da carreira, a situação tampouco é menos preocupante. A estratégia adotada para mitigar, ainda que parcialmente, a defasagem salarial — a concessão de adicionais — revela-se, na prática, um mecanismo de transferência do problema para o futuro. Esses adicionais, ao não serem incorporados à aposentadoria, produzem uma perda abrupta de renda, frequentemente em torno de 30%, no momento em que o professor se retira da ativa. Trata-se de uma penalização tardia, mas não menos severa, aplicada justamente àqueles que dedicaram décadas à consolidação da instituição. O resultado é um duplo efeito perverso: desincentivo à permanência e insegurança quanto ao futuro.

Diante desse quadro, a inação do governo estadual torna-se ainda mais difícil de justificar. Medidas relativamente simples — como a reposição, ainda que parcial, das perdas inflacionárias — poderiam representar um alívio imediato. De forma mais estrutural, a aprovação do novo plano de cargos e vencimentos, em análise desde 2021, ofereceria uma base institucional mais sólida para a reorganização da carreira docente. No entanto, a ausência dessas iniciativas indica não apenas uma limitação fiscal, mas uma escolha política: a de relegar a universidade pública a um papel secundário nas prioridades do estado.

As implicações dessa política ultrapassam, em muito, o universo corporativo dos docentes. A fragilização das condições de trabalho compromete diretamente a capacidade da universidade de cumprir suas funções essenciais: ensino, pesquisa e extensão. Projetos científicos tornam-se mais difíceis de sustentar diante da evasão de talentos e da sobrecarga dos que permanecem. A formação de novos pesquisadores é prejudicada por um ambiente institucional instável. Parcerias estratégicas, tanto nacionais quanto internacionais, tendem a rarear à medida que a reputação da instituição se deteriora.

Em um estado como o Rio de Janeiro, cuja economia demanda diversificação e inovação, o enfraquecimento de um polo científico como a Uenf representa um retrocesso significativo. A produção de conhecimento — especialmente em áreas estratégicas para o desenvolvimento regional — não é um luxo, mas uma condição necessária para a construção de alternativas econômicas sustentáveis. Ao negligenciar a valorização de seus docentes, o estado não apenas compromete o presente da universidade, mas também limita suas próprias possibilidades de futuro.

Finalmente, o que está em jogo é a própria ideia de universidade pública como instrumento de desenvolvimento social e econômico. A crise salarial da Uenf não deve ser interpretada como um problema localizado, mas como um sintoma de uma política mais ampla de desinvestimento. Persistir nesse caminho é aceitar, de forma tácita, a erosão de um dos pilares fundamentais da produção de conhecimento no estado. E essa é uma escolha cujos custos, cedo ou tarde, serão cobrados de toda a sociedade.

A sabotagem de um projeto revolucionário: o desmonte silencioso da Universidade do Terceiro Milênio

Como a Uenf se afastou do projeto transformador de Darcy Ribeiro em meio à captura das riquezas do interior fluminense e à erosão de seu modelo original

O levantamento realizado pela diretoria da Associação de Docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Asduerj), que divulguei neste blog, constitui uma evidência contundente de um processo de sabotagem do projeto da chamada “Universidade do Terceiro Milênio”, concebido por demanda da população campista sob a liderança de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Fundada a partir de um modelo inovador, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) introduziu mudanças estruturais decisivas. Em primeiro lugar, abandonou o modelo departamental clássico, adotando os laboratórios de pesquisa como eixo organizador de sua estrutura institucional. Em segundo, estabeleceu a pós-graduação como fundamento do seu modelo acadêmico, ancorado na produção científica, o que permitiu um início ágil e altamente qualificado. Por fim, definiu como princípio a contratação exclusiva de docentes com título de doutorado, em regime de dedicação exclusiva. Com esses pilares, a Uenf avançou de forma rápida e notável, tornando-se uma espécie de laboratório vivo de um novo modelo universitário no Brasil.

Esse projeto, contudo, estava intrinsecamente ligado a uma condição essencial: a valorização material de seu corpo de servidores, por meio dos melhores salários do país. Para Darcy Ribeiro, esse não era um detalhe, mas um elemento estruturante. Afinal, tratava-se de implantar uma universidade de excelência fora dos grandes centros metropolitanos, em uma região marcada por desigualdades profundas e estagnação econômica — um desafio que exigia medidas igualmente extraordinárias.

Passados quase 33 anos de sua fundação, a Uenf encontra-se distante do modelo originalmente idealizado. A própria expressão “Universidade do Terceiro Milênio” desapareceu dos documentos institucionais recentes, como se o projeto tivesse sido silenciosamente abandonado. O que se observa hoje é uma adaptação resignada ao possível, em contraste com o horizonte transformador que orientava a concepção original.

Ainda que nem todos os problemas tenham origem externa, é difícil ignorar que parte significativa do esvaziamento da Uenf resulta de decisões estratégicas que limitaram seu potencial como polo dinâmico no interior fluminense. Caso esse projeto tivesse sido plenamente desenvolvido, é plausível supor que certas dinâmicas regressivas observadas no estado do Rio de Janeiro encontrariam maior resistência. Ao inviabilizar a consolidação desse modelo inovador, evitou-se também o “mau exemplo” de uma ciência de excelência florescendo fora dos circuitos tradicionais de poder e riqueza.

Nesse contexto, é impossível dissociar esse processo da forma como as rendas petrolíferas foram apropriadas no interior do estado, transformando a região em uma espécie de “Oriente Médio brasileiro”. Bilhões foram gerados, mas amplamente capturados por interesses privados, sem promover transformações estruturais significativas. Ao contrário, reforçou-se um modelo social e economicamente excludente. Enfraquecer a Uenf — retirando-lhe capacidade crítica e potência transformadora — acabou sendo funcional a esse arranjo.

Ainda assim, instituições atravessam ciclos, e não há destino irreversível, sobretudo no caso de uma universidade com o DNA da Uenf. No entanto, se os fatores externos foram determinantes para sua inflexão, a retomada de seu projeto original dependerá, em primeiro lugar, de uma transformação interna. Será necessário romper com a paralisia e a anemia intelectual que se escondem sob o verniz de um empreendedorismo superficial — muitas vezes apenas um rebaixamento de expectativas travestido de inovação. O desafio colocado é recuperar a capacidade de pensar e agir à altura do momento histórico, honrando o legado de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Hierarquias invertidas: salário docente e a economia política do abandono no Rio de Janeiro

Últimos lugares em salários docentes não são acaso, mas resultado de uma política que fragiliza Uerj e Uenf e compromete o desenvolvimento científico

Quem observa à distância pode até supor que a realidade salarial dos professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro reflete um padrão nacional — especialmente quando se trata de estados que concentram o grosso da riqueza produzida no país. Essa leitura, no entanto, não resiste ao confronto com os dados.

Um levantamento recente da diretoria da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj) desmonta essa ilusão com contundência. No ranking dos salários iniciais para professores doutores em regime de Dedicação Exclusiva, o contraste é gritante: o Pará, apenas o 12º maior PIB estadual, lidera a remuneração, enquanto Rio de Janeiro e Minas Gerais — segunda e terceira maiores economias do país — amargam as últimas posições. Não se trata de uma distorção pontual, mas de um sintoma claro de uma política sistemática de desvalorização ( ver abaixo).

No caso do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. O salário inicial pago na Uerj é  igual ao da Uenf, o que escancara uma dupla precarização dentro do próprio estado. Em termos concretos, isso significa que docentes altamente qualificados recebem menos do que seus pares em estados com economias significativamente menores — muitas vezes enfrentando, ainda, custos de vida mais elevados e piores condições de trabalho. É uma equação insustentável que empurra as universidades para um processo silencioso de esvaziamento.

Os dados não deixam margem para dúvidas: o que está em curso é um rebaixamento deliberado do investimento em ciência, tecnologia e formação de alto nível. O salário docente funciona, nesse sentido, como um verdadeiro “canário na mina” — um indicador sensível de um colapso mais amplo. Quando se avilta a remuneração dos professores, o que está sendo corroído é a própria capacidade do estado de produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento. 

Diante desse quadro, não há espaço para neutralidade ou espera. É urgente intensificar o apoio à luta salarial nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e ampliar a solidariedade à greve na Uerj, que não é apenas legítima — é necessária. No caso da Uenf, o momento exige fortalecer a mobilização em curso, elevando o nível de pressão até que o governo estadual seja efetivamente constrangido a negociar. Isso implica não apenas recompor perdas acumuladas, mas também destravar, sem mais protelações, o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e encaminhá-lo à Assembleia Legislativa.

A situação deixou de ser apenas preocupante — tornou-se vexatória. E, pior, tende a se agravar se não houver resposta à altura. O que está em jogo não é apenas o salário de uma categoria, mas o futuro das universidades públicas estaduais e o papel que o Rio de Janeiro pretende — ou abdica — de desempenhar no cenário científico e educacional brasileiro.

Em 10 anos, Brasil perde força em pesquisa na área quântica, tema chave para soberania nacional

bori quanticoChina e Estados Unidos estão no topo das pesquisas na área quântica, concentrando cerca de metade da produção mundial

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O Brasil corre o risco de ficar para trás em uma das fronteiras da ciência global, as tecnologias quânticas, se não tratar o tema como uma prioridade estratégica nos próximos anos. É o que mostra o levantamento “A produção científica mundial em ciência e tecnologia quânticas e a participação brasileira – 2014-2023, da Agência Bori e da Elsevier, publicado nesta quinta (19).

Os dados revelam uma queda na participação brasileira no cenário mundial na pesquisa em ciência e tecnologia quânticas: o país, que ocupava a 19a posição no mundo em 2014, caiu para o 21o lugar em 2023. Considerando todas as áreas do conhecimento, o Brasil estava em 14o lugar mundial em termos de produção científica em 2023. A produção científica na área quântica está, portanto, abaixo da média nacional.

O levantamento da Bori-Elsevier analisou a produção científica dos 24 países que mais publicaram estudos em ciência e tecnologia quânticas no mundo, entre eles o Brasil, no período de 2014 a 2023. Foram considerados todos os tipos de publicações científicas, incluindo artigos, editoriais, revisões e outros.

Para a análise, foi usada a ferramenta analítica SciVal da Elsevier, que facilita o acesso aos dados da base de dados Scopus, cobrindo mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de sete mil editoras científicas no mundo. Este é o sexto relatório da parceria entre a Elsevier e a Bori que se baseia nessa ferramenta.

“A perda de posições no ranking e o posicionamento atual abaixo do nosso ranking geral em pesquisas nos sinaliza que o Brasil deve reforçar a prioridade sobre pesquisas em áreas com poder de permitir ao país não ficar dependente de outros em tecnologias consideradas essenciais para o futuro, como IA e tecnologias quânticas”, diz Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da América Latina da editora Elsevier.

O relatório vem à tona alguns dias depois de o Google ter anunciado um chip quântico — ainda experimental — que, segundo a empresa, leva cinco minutos para resolver um problema que os supercomputadores atuais levariam septilhões de anos para processar (impossível, portanto).
No topo das pesquisas na área quântica, mostram os dados da Bori-Elsevier, estão China e Estados Unidos. Juntos, os dois países concentram metade da produção de conhecimento nessa área em 2023. China e EUA também lideram a ciência mundial em todas as áreas do conhecimento.

“O aumento da distância que separa o Brasil dos países líderes em pesquisa quântica, nos últimos dez anos, não apenas acende um alerta, mas soa o alarme de que precisamos, como país, ter ações imediatas e coordenadas: é preciso intensificar o investimento em infraestrutura, promover políticas de incentivo ao desenvolvimento tecnológico e estreitar parcerias internacionais. Somente assim o Brasil poderá fortalecer sua soberania científica e se posicionar de forma competitiva frente às inovações disruptivas que moldarão o futuro”, explica Estevão Gamba, cientista de dados da Bori.

“Nesse sentido, a Bori tem um papel de catalisar essa transformação ao promover uma aproximação entre academia, setor privado e governos, estabelecendo espaços de discussão e facilitando a circulação de ideias, a definição de agendas estratégicas e a identificação de oportunidades de cooperação”, diz.

Quântica no Brasil

Ao todo, 121 instituições brasileiras tiveram publicações na área no período de 2014 a 2023, com liderança da USP, da Unicamp e da UFRJ. Além disso, os dados mostram que 115 patentes em tecnologia quântica mundo afora citam 51 publicações de autores brasileiros na área.

“Cinco países possuem mais patentes citando pesquisas brasileiras que o próprio Brasil. Isto indica que podemos aprimorar a aplicação prática das pesquisas aqui realizadas”, destaca Cid, da Elsevier.

Olhar para a ciência quântica é importante. Apesar de as possibilidades de aplicação ainda estarem ainda em fase embrionária, há expectativas de uso na segurança e na soberania dos países, que dependem da inviolabilidade de suas informações criptografadas. Na prática, o modo como processamos e analisamos problemas complexos ou como protegemos informação crítica podem ser completamente transformados quando computadores quânticos estiverem disponíveis.

O tema deve ser central na área acadêmica em 2025, com a proclamação, pela ONU, do Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (IYQ). No ano que vem completam-se 100 anos do estabelecimento da mecânica quântica como área de conhecimento científico.


Fonte: Agência Bori

Sai pesquisador, entra empresário bolsonarista: troca na presidência da Faperj causa repentino e amargo acordar na comunidade científica fluminense

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O futuro presidente da Faperj, Alexandre Valle,  desfilando em carro aberto em companhia do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2024

Estou vendo uma série de manifestações e mobilizações em torno da demissão do Professor Jerson Lima do cargo de presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e sua substituição pelo empresário do ramo de seguros, Alexandre Valle, que também é ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Educação. De quebra, Valle foi recentemente derrotado como candidato a prefeito de Itaguaí, apesar do apoio explícito do ex-presidente Jair Bolsonaro de quem é aliado.

Ainda que eu entenda e apoie as demandas para a permanência de um pesquisador à frente da Faperj (afinal faz sentido que um pesquisador dirija uma fundação de amparo à pesquisa), eu não vejo nenhuma surpresa nessa substituição. 

Além disso, considero essa troca menos grave do que ter desde junho como secretário de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes, que em 2021 propôs a extinção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sob a alegação de que a instituição era muito cara para os cofres do Rio de Janeiro.

Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação, o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj.

O que me ocorre é que enquanto o cargo de secretário de Ciência e Tecnologia há muito tempo é daqueles que sobra para quem não quer efetivamente sentar na cadeira, a presidência da Faperj possui uma capacidade de alavancagem  política que é dada pela sua capacidade de financiamento. Mas se esse movimento tivesse ocorrido quando a nomeação de Moraes ocorreu, é muito provável que Cláudio Castro teria pensado melhor antes de mexer na Faperj.

A minha expectativa é que essa troca na Faperj sirva como alerta para os problemas que existem no tratamento da ciência e tecnologia no estado do Rio de Janeiro sob a égide de um governo claramente de direita, e sem quaisquer compromissos com o desenvolvimento científico e tecnológico.

Afinal, como se pode esperar mar de almirante com uma figura como Cláudio Castro sentada na cadeira de governador? A mim me parece que sempre estaremos mais para mar revolto. Que essa troca esdrúxula no comando da Faperj sirva para acordar quem ainda conseguia dormir em berço esplêndido. Afinal,  o cenário me parece claro: a Faperj corre grave risco sob a mãos de um empresário/político com laços claros