Últimos lugares em salários docentes não são acaso, mas resultado de uma política que fragiliza Uerj e Uenf e compromete o desenvolvimento científico
Quem observa à distância pode até supor que a realidade salarial dos professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro reflete um padrão nacional — especialmente quando se trata de estados que concentram o grosso da riqueza produzida no país. Essa leitura, no entanto, não resiste ao confronto com os dados.
Um levantamento recente da diretoria da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj) desmonta essa ilusão com contundência. No ranking dos salários iniciais para professores doutores em regime de Dedicação Exclusiva, o contraste é gritante: o Pará, apenas o 12º maior PIB estadual, lidera a remuneração, enquanto Rio de Janeiro e Minas Gerais — segunda e terceira maiores economias do país — amargam as últimas posições. Não se trata de uma distorção pontual, mas de um sintoma claro de uma política sistemática de desvalorização ( ver abaixo).
No caso do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. O salário inicial pago na Uerj é igual ao da Uenf, o que escancara uma dupla precarização dentro do próprio estado. Em termos concretos, isso significa que docentes altamente qualificados recebem menos do que seus pares em estados com economias significativamente menores — muitas vezes enfrentando, ainda, custos de vida mais elevados e piores condições de trabalho. É uma equação insustentável que empurra as universidades para um processo silencioso de esvaziamento.
Os dados não deixam margem para dúvidas: o que está em curso é um rebaixamento deliberado do investimento em ciência, tecnologia e formação de alto nível. O salário docente funciona, nesse sentido, como um verdadeiro “canário na mina” — um indicador sensível de um colapso mais amplo. Quando se avilta a remuneração dos professores, o que está sendo corroído é a própria capacidade do estado de produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento.
Diante desse quadro, não há espaço para neutralidade ou espera. É urgente intensificar o apoio à luta salarial nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e ampliar a solidariedade à greve na Uerj, que não é apenas legítima — é necessária. No caso da Uenf, o momento exige fortalecer a mobilização em curso, elevando o nível de pressão até que o governo estadual seja efetivamente constrangido a negociar. Isso implica não apenas recompor perdas acumuladas, mas também destravar, sem mais protelações, o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e encaminhá-lo à Assembleia Legislativa.
A situação deixou de ser apenas preocupante — tornou-se vexatória. E, pior, tende a se agravar se não houver resposta à altura. O que está em jogo não é apenas o salário de uma categoria, mas o futuro das universidades públicas estaduais e o papel que o Rio de Janeiro pretende — ou abdica — de desempenhar no cenário científico e educacional brasileiro.

