Jessé de Souza e o racismo brasileiro: quando a classe média vira explicação para o que deveria ser explicado

A recente exposição das ideias do sociólogo Jessé de Souza sobre racismo e classe média trouxe novamente ao debate público algumas das teses que ele vem desenvolvendo sobre a estrutura social brasileira. Entre suas afirmações mais provocativas está a caracterização da classe média branca como uma espécie de “reservatório seminal” do racismo brasileiro. Essa interpretação aparece associada a uma determinada leitura da imigração europeia ocorrida principalmente entre 1880 e 1930: milhões de italianos, alemães, portugueses, espanhóis e outros europeus teriam se estabelecido sobretudo em São Paulo e no Sul, prosperado economicamente e construído uma identidade separada da maioria negra e mestiça do país. Na formulação de Jessé, esse processo teria contribuído para produzir uma população que continuaria a se imaginar como uma espécie de comunidade europeia inserida num país majoritariamente mestiço, utilizando essa suposta superioridade racial e cultural para legitimar privilégios e a exclusão das classes populares.

Há aspectos importantes nessa interpretação, especialmente quando ela chama atenção para o papel desempenhado pelo branqueamento e pelas representações de São Paulo e de partes da região Sul como espaços da modernidade, do trabalho e da racionalidade em oposição a um Brasil apresentado como atrasado, negro e mestiço. Também não há razão para minimizar o papel desempenhado por setores das classes médias na reprodução cotidiana do racismo, especialmente porque seus integrantes ocupam posições estratégicas nas escolas, universidades, empresas, meios de comunicação, burocracias públicas, profissões liberais e no sistema de Justiça. O problema começa quando essas observações, em si mesmas relevantes, são transformadas numa explicação mais geral para a persistência histórica do racismo brasileiro.

O primeiro obstáculo está no próprio conceito de classe média. Afinal, estamos falando de uma posição definida pela renda, pela propriedade, pela escolaridade, pela ocupação, pelos padrões de consumo ou pela posição nas relações de produção? Quando essas dimensões são comprimidas numa categoria aparentemente homogênea, a classe média corre o risco de funcionar mais como personagem sociológico do que como conceito capaz de explicar a complexidade das relações raciais brasileiras. Reconhecer que determinados setores da classe média reproduzem e institucionalizam práticas racistas é uma coisa; transformá-los no principal reservatório histórico do racismo brasileiro é algo inteiramente diferente.

O racismo brasileiro chegou muito antes dos imigrantes europeus

É justamente quando colocamos a cronologia no centro da análise que a explicação de Jessé começa a apresentar sua maior fragilidade. A escravização de africanos no Brasil começou ainda no século XVI e foi organizada durante mais de três séculos pelo sistema colonial português. A Coroa portuguesa, os comerciantes envolvidos no tráfico transatlântico, os grandes proprietários e, posteriormente, o próprio Estado imperial brasileiro construíram, administraram e protegeram uma ordem econômica e social baseada na transformação de seres humanos africanos e seus descendentes em propriedade. Não estamos falando de um elemento periférico da formação brasileira, mas de uma instituição que organizou durante séculos a produção, a propriedade, o trabalho, a riqueza e o poder.

Quando os grandes contingentes de imigrantes europeus chegaram ao Brasil no final do século XIX, portanto, encontraram uma sociedade que possuía mais de três séculos de experiência na produção institucional de hierarquias raciais. Mais do que isso, chegaram justamente quando as elites brasileiras enfrentavam um problema fundamental: como reorganizar uma sociedade profundamente racializada diante da crise e posterior abolição da escravidão? A imigração europeia não criou esse problema. Ela foi, em parte, uma das respostas encontradas pelas elites brasileiras para enfrentá-lo.

Esse ponto inverte significativamente a causalidade sugerida pela interpretação de Jessé. Os imigrantes europeus certamente puderam incorporar o racismo brasileiro, reproduzi-lo e posteriormente beneficiar-se dele. Mas a política de atração desses trabalhadores já estava inserida num projeto de reorganização racial da sociedade brasileira. As ideologias do branqueamento e as políticas que favoreceram a entrada de trabalhadores europeus no mercado de trabalho não nasceram espontaneamente das comunidades de imigrantes. Foram formuladas e implementadas por elites e instituições de um país cuja população negra saía de séculos de escravização sem terra, sem reparação e sem mecanismos capazes de garantir sua integração econômica em condições minimamente igualitárias.

A pergunta sociologicamente mais interessante, portanto, não é simplesmente por que os imigrantes europeus e seus descendentes passaram a se considerar superiores aos negros e mestiços. É necessário perguntar que estrutura histórica tornou socialmente possível, economicamente vantajoso e politicamente funcional que a branquitude fosse associada à superioridade e a negritude à inferioridade. Quando o problema é formulado dessa maneira, os imigrantes deixam de aparecer como causa primordial do racismo e passam a integrar um processo muito mais amplo de reorganização de uma estrutura racial que antecedia em séculos a sua chegada.

Frantz Fanon e a inversão da causalidade

É justamente nesse ponto que Frantz Fanon oferece uma chave particularmente poderosa para testar a explicação de Jessé de Souza. Em textos como Pele negra, máscaras brancas e “Racismo e cultura”, Fanon recusou compreender o racismo simplesmente como preconceito, ignorância ou falha psicológica de determinados indivíduos. Para ele, a inferiorização racial precisa ser compreendida no interior de uma estrutura colonial de dominação na qual exploração econômica, violência política, cultura e produção de subjetividades se articulam.

Essa perspectiva permite perceber um problema fundamental na explicação que localiza o racismo primordialmente na mentalidade de descendentes de europeus que passaram a imaginar-se superiores à população negra e mestiça. Frantz Fanon não negaria a existência dessa consciência de superioridade; pelo contrário, dedicou boa parte de sua obra a demonstrar como a ordem colonial produz subjetividades racializadas. O ponto decisivo é outro: a sensação de superioridade do branco não constitui a causa original da estrutura racial, mas é também um dos seus produtos históricos. Uma ordem baseada na dominação e na exploração produz representações que naturalizam essa própria ordem, fazendo a posição dominante aparecer como expressão de mérito, civilização, inteligência ou superioridade cultural.

A crítica a Jessé pode então ser formulada de maneira mais precisa.  A fraqueza do argumento de Jessé não está em reconhecer a capacidade da classe média branca de reproduzir o racismo, mas em correr o risco de transformar um agente historicamente situado da reprodução do racismo numa explicação para sua própria existência. O descendente de europeu que se imagina culturalmente superior ao negro ou ao mestiço constitui certamente um fenômeno sociológico relevante, mas sua existência exige uma explicação anterior: por que a branquitude se tornou uma posição socialmente valorizada e por que a negritude foi historicamente associada ao trabalho compulsório, à pobreza e à inferioridade?

É aí que Fanon ajuda a inverter a cadeia causal. Não foi uma suposta superioridade cultural dos descendentes de europeus que produziu originalmente a hierarquia racial brasileira.  Uma sociedade constituída pela escravidão, pelo colonialismo e pela exploração racializada do trabalho é que tornou a branquitude uma posição socialmente valorizada e permitiu posteriormente que determinados grupos convertessem essa posição em sentimento de superioridade. A ideologia racial não antecede simplesmente a estrutura de dominação: ela é produzida por essa estrutura, naturaliza-a e, uma vez constituída, passa também a contribuir decisivamente para reproduzi-la.

Adolph Reed e o perigo de transformar raça em classe

A contribuição de Adolph Reed Jr. permite acrescentar outra dimensão crítica à formulação de Jessé. Reed parte de uma tradição materialista que recusa tratar “raça” como uma entidade dotada de capacidade explicativa independente das relações históricas que a produziram. Para ele, raça deve ser compreendida como uma forma historicamente específica de ideologia de hierarquia atributiva: uma maneira de transformar desigualdades produzidas social e politicamente em características aparentemente naturais dos grupos humanos. Em sociedades capitalistas, essa naturalização pode contribuir para obscurecer as relações concretas de classe que produzem e reproduzem desigualdades.

A objeção de Reed atingiria um ponto particularmente vulnerável da interpretação de Jessé. Ao aproximar descendência europeia, branquitude, prosperidade e pertencimento à classe média, Jessé corre o risco de fazer uma categoria racial ou étnica desempenhar o trabalho analítico que deveria caber à investigação da estrutura de classes. A pergunta deixa de ser como determinados trabalhadores europeus e seus descendentes ocuparam posições distintas numa economia capitalista em transformação e passa a sugerir uma trajetória quase contínua entre imigrante europeu, branco, ascensão econômica e classe média.

Mas essas categorias não são equivalentes. Branco não é sinônimo de classe média, assim como negro não é sinônimo de classe trabalhadora ou pobre. Reed insiste precisamente na necessidade de reconhecer diferenciações de classe existentes no interior dos próprios grupos racialmente definidos. A população negra, por exemplo, não possui interesses econômicos homogêneos simplesmente porque compartilha uma classificação racial. Empresários negros, profissionais negros de classe média e trabalhadores negros podem experimentar formas de discriminação racial e simultaneamente ocupar posições radicalmente diferentes na estrutura de classes, com interesses materiais que podem inclusive entrar em conflito.

Aplicada à população branca, a mesma lógica torna ainda mais problemática a generalização sobre os descendentes dos imigrantes europeus. Italianos, portugueses, espanhóis, alemães, poloneses e outros grupos chegaram ao Brasil em condições profundamente diferentes e experimentaram trajetórias igualmente diversas. Alguns conseguiram acumular propriedade e ascender socialmente; outros permaneceram trabalhadores assalariados, pequenos agricultores, trabalhadores rurais ou integrantes dos setores populares urbanos. Transformar a ascendência europeia numa espécie de antecâmara sociológica da classe média significa apagar justamente essas diferenciações.

Aqui surge uma ironia importante na própria construção teórica de Jessé. Se uma parcela dos descendentes desses europeus permanece nos estratos populares e poderia ser incluída naquilo que ele próprio denominou “ralé brasileira”, então sua ascendência europeia evidentemente não explica sua posição de classe. E se existe, simultaneamente, um componente negro crescente dentro das classes médias brasileiras, a correspondência entre raça, origem étnica e classe torna-se ainda menos sustentável. O problema não é negar que a branquitude possa proporcionar vantagens numa sociedade racializada, mas reconhecer que vantagem racial e posição de classe são dimensões distintas da realidade social, ainda que possam historicamente combinar-se e reforçar-se.

Uma experiência familiar que escapa ao esquema

Minha própria história familiar oferece um pequeno contraponto empírico a essa generalização. Como descendente de poloneses, vivenciei pessoalmente como a inserção historicamente subordinada de parte dessa comunidade deixou marcas que atravessaram gerações, mantendo muitos de seus descendentes fora daquilo que Jessé denomina classe média. Ser socialmente identificado como branco podia proporcionar vantagens evidentes numa sociedade racializada, mas jamais significou pertencimento automático à classe média, muito menos aos seus estratos superiores.

É justamente aqui que Reed acrescenta precisão ao argumento. A questão não consiste em negar o significado social da branquitude, mas em recusar que dela sejam deduzidas automaticamente posição econômica, consciência política e interesses de classe. Um trabalhador rural branco descendente de poloneses ou italianos podia ocupar uma posição profundamente subordinada na estrutura econômica e, ao mesmo tempo, beneficiar-se de uma hierarquia racial que colocava o trabalhador negro numa posição ainda mais vulnerável. Não há qualquer contradição nisso. O que existe são determinações diferentes que precisam ser reconstruídas historicamente, em vez de fundidas numa categoria social aparentemente homogênea.

Florestan Fernandes fez uma pergunta mais difícil

É precisamente aqui que a tentativa de escapar das interpretações clássicas sobre as relações raciais brasileiras parece conduzir Jessé a uma explicação menos sofisticada do que aquela apresentada há mais de seis décadas por Florestan Fernandes. Em A integração do negro na sociedade de classes, Florestan não procurou simplesmente identificar quem era racista ou em qual grupo social o preconceito aparecia com maior intensidade. Sua pergunta era muito mais difícil: o que acontece com uma população escravizada quando a escravidão é juridicamente abolida sem que desapareçam as estruturas econômicas e sociais responsáveis por sua subalternização?

A Abolição de 1888 libertou juridicamente os escravizados, mas não distribuiu terras, não democratizou a propriedade, não criou mecanismos de reparação e tampouco garantiu condições materiais que permitissem à população negra ingressar em igualdade de condições na nova ordem econômica. O antigo escravizado foi formalmente transformado em trabalhador livre sem receber os meios necessários para competir numa sociedade de classes que começava a se consolidar justamente no momento em que o Estado e as elites incentivavam a chegada de trabalhadores europeus.

A diferença teórica é enorme. Enquanto uma explicação centrada na classe média procura localizar o racismo nas disposições culturais de determinado grupo social, Florestan nos obriga a perguntar como o racismo foi incorporado às estruturas da sociedade de classes. A questão deixa de ser apenas quem possui preconceitos contra negros e passa a ser como propriedade, educação, mercado de trabalho, habitação, renda e poder foram organizados de maneira a reproduzir desigualdades racialmente constituídas.

Fanon, Reed e Florestan aproximam-se aqui por caminhos distintos. Fanon permite compreender como relações de dominação racial produzem subjetividades que posteriormente ajudam a legitimá-las; Florestan permite acompanhar como desigualdades constituídas no escravismo atravessam a Abolição e são reorganizadas dentro da sociedade capitalista brasileira; e Reed acrescenta uma advertência indispensável: não transformar os próprios grupos racialmente constituídos em sujeitos homogêneos, apagando as diferenciações de classe existentes dentro deles.

Escravidão, racismo e capitalismo mundial

Há ainda uma dimensão mais ampla que praticamente desaparece quando a explicação se concentra na identidade cultural de descendentes de imigrantes europeus. A escravidão brasileira nunca foi apenas um fenômeno brasileiro. Açúcar, algodão, café, ouro e outras mercadorias produzidas por diferentes formas de trabalho compulsório estavam profundamente integrados aos circuitos internacionais de comércio e acumulação. A exploração extrema dos trabalhadores escravizados nas Américas participou da expansão comercial europeia e das transformações históricas que acompanharam a formação do capitalismo industrial.

É nesse ponto que as contribuições de Eric Williams e Ruy Mauro Marini permitem ampliar decisivamente a escala da análise. Williams demonstrou a relação histórica entre escravidão, comércio atlântico e desenvolvimento do capitalismo britânico, enquanto Marini, em sua clássica Dialética da dependência, procurou demonstrar como a inserção subordinada da América Latina na economia mundial contribuiu para sustentar processos de acumulação nos países capitalistas centrais. A articulação dessas perspectivas permite perceber que a escravização de africanos não pode ser compreendida apenas como resultado de preconceitos culturais: ela constituiu um mecanismo extraordinariamente eficiente de organização da exploração do trabalho e da produção de riqueza no processo histórico de expansão do capitalismo.

Fanon acrescenta a esse quadro a compreensão de como relações de dominação produzem também um universo simbólico capaz de naturalizá-las. Reed, por sua vez, introduz uma cautela adicional: denominar essas relações de “racistas” não pode substituir a identificação dos mecanismos concretos pelos quais elas funcionam. Em sua crítica ao reducionismo racial, Reed insiste que constatar uma disparidade entre grupos não equivale a explicar sua produção. É necessário investigar instituições, relações de trabalho, políticas estatais, propriedade, distribuição de recursos e conflitos de classe. Caso contrário, “racismo” pode terminar funcionando como um nome atribuído ao fenômeno que deveria ser explicado.

Essa advertência é particularmente importante porque também impede que a crítica a Jessé caia no extremo oposto. Não basta substituir a afirmação de que “a classe média branca é racista” pela afirmação de que “o racismo brasileiro é estrutural”. Qual estrutura? Quais instituições? Quais relações de propriedade? Quais mecanismos do mercado de trabalho? Quais políticas estatais? Quem obtém vantagens materiais e quem suporta os custos? Sem responder a essas perguntas, a palavra “estrutural” corre o risco de adquirir a mesma função retórica que estamos criticando na categoria excessivamente genérica de classe média.

Duas reduções que precisam ser evitadas

A combinação entre Fanon e Reed permite, portanto, uma crítica particularmente produtiva à formulação de Jessé. Fanon impede que transformemos a consciência de superioridade branca na causa original da ordem racial, mostrando que essa subjetividade também precisa ser explicada como produto de relações históricas de dominação. Reed, por outro lado, impede que a crítica do racismo transforme raça numa explicação totalizante capaz de substituir a análise das relações de classe.

Isso significa que o problema não pode ser resolvido escolhendo simplesmente entre raça e classe. A questão é reconstruir historicamente como relações de classe e classificações raciais se combinaram em circunstâncias determinadas, sem pressupor que uma pessoa branca pertença necessariamente às classes dominantes ou médias e sem imaginar que negros constituam um bloco social economicamente homogêneo.

É justamente por isso que a presença simultânea de milhões de brancos pobres e de uma crescente classe média negra representa um problema importante para o esquema de Jessé. Ela não demonstra que o racismo desapareceu, mas mostra que as posições raciais e de classe não coincidem perfeitamente. Uma pessoa negra pode ascender socialmente e continuar enfrentando discriminação racial; um trabalhador branco pode beneficiar-se relativamente de sua classificação racial e continuar submetido à exploração econômica. Uma análise materialista precisa ser capaz de compreender simultaneamente essas duas realidades.

De “europeus na África” a uma questão mais incômoda

A imagem de descendentes de europeus imaginando-se como “europeus vivendo num contexto africano” é sociologicamente sugestiva porque captura uma forma possível de consciência racial e regional. Mas ela descreve melhor uma ideologia de legitimação do que a estrutura histórica que tornou essa ideologia possível. Dizer que determinados setores paulistas ou sulistas passaram a imaginar seus espaços como uma espécie de Europa moderna cercada por um Brasil atrasado pode ajudar a compreender determinadas formas de regionalismo e manifestações de superioridade diante do Brasil negro, mestiço e nordestino. Não explica, entretanto, por que negros já ocupavam posições subalternas muito antes que milhões de italianos, espanhóis, alemães ou poloneses desembarcassem no país.

Fanon permitiria interpretar essa fantasia de superioridade como produto de uma ordem racial. Reed acrescentaria uma pergunta incômoda: quais interesses e relações materiais essa representação ajuda a naturalizar? Afinal, para Reed, uma das funções históricas das ideologias raciais consiste justamente em fazer hierarquias socialmente produzidas aparecerem como consequência de atributos naturais ou culturais dos próprios grupos que ocupam posições diferentes.

A causalidade precisa, portanto, ser invertida. Não foram primordialmente os imigrantes europeus que produziram uma sociedade na qual ser branco representava uma vantagem. Eles chegaram a uma sociedade que já havia produzido historicamente a branquitude como posição privilegiada em relação à população negra escravizada. Parte deles e de seus descendentes conseguiu posteriormente converter essa vantagem racial relativa em mobilidade econômica, educacional e social. Outros permaneceram pobres. O fato decisivo é que ambas as trajetórias foram produzidas dentro de uma estrutura que antecedia sua chegada.

Onde está, afinal, o “reservatório” do racismo brasileiro?

Se quisermos preservar a metáfora utilizada por Jessé, talvez seja necessário deslocar radicalmente a localização desse “reservatório”. Ele dificilmente pode ser encontrado numa classe média descendente dos imigrantes europeus chegados ao Brasil no final do século XIX, pois começou a ser construído séculos antes. Seu conteúdo histórico está na escravização de africanos e seus descendentes, na concentração da propriedade da terra, na ausência de reparação após a Abolição, na formação racializada do mercado de trabalho, na segregação das cidades, nas desigualdades educacionais, na violência estatal e nos mecanismos pelos quais propriedade, riqueza, pobreza e oportunidades são transmitidas entre gerações.

Mas Reed obriga a acrescentar uma qualificação importante a essa formulação. Não basta declarar que tudo isso constitui manifestação de um “racismo estrutural” abstrato e autônomo. É necessário mostrar concretamente como essas desigualdades foram produzidas e transformadas, quais relações econômicas as sustentam e como políticas aparentemente universais podem beneficiar ou prejudicar diferencialmente grupos historicamente constituídos. Para Reed, tratar racismo como uma força independente da economia política pode terminar desistoricizando aquilo que uma análise materialista deveria justamente explicar historicamente.

Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe

Talvez Reed permita identificar de maneira ainda mais precisa o paradoxo central da explicação de Jessé de Souza. Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe. A classe média aparece progressivamente como branca; sua branquitude é relacionada à descendência europeia; essa descendência é associada à prosperidade; e dessa combinação é deduzida uma consciência de superioridade que explicaria sua disposição racista.

Mas uma análise materialista precisaria percorrer quase exatamente o caminho inverso. Seria necessário investigar como propriedade, trabalho, educação, políticas migratórias, acesso à terra, Estado e mercado produziram trajetórias diferenciadas entre negros, imigrantes europeus e seus descendentes e, somente então, analisar como classificações raciais interferiram nesses processos e ajudaram a legitimá-los.

É justamente nesse ponto que a combinação de Fanon, Reed, Florestan Fernandes, Eric Williams e Ruy Mauro Marini oferece uma alternativa teoricamente mais poderosa. Williams permite situar a escravidão atlântica nos processos de acumulação associados à expansão do capitalismo; Fanon mostra como colonialismo e exploração produzem hierarquias raciais e subjetividades capazes de naturalizá-las; Florestan acompanha a reorganização dessas desigualdades na passagem brasileira do escravismo para a sociedade de classes; Marini recoloca essa sociedade dentro de uma economia mundial hierarquizada e dependente; e Reed impede que, depois de reconstruirmos toda essa história, voltemos a transformar raça numa entidade autônoma ou grupos racialmente definidos em sujeitos de classe homogêneos.

Essas perspectivas não são idênticas e existem tensões importantes entre elas, especialmente porque Reed provavelmente seria mais crítico do que Fanon e Florestan em relação a certas utilizações contemporâneas do conceito de racismo estrutural. Essa tensão, entretanto, fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo, pois obriga a análise a especificar mecanismos e relações causais em vez de simplesmente substituir uma palavra totalizante por outra.

É perfeitamente legítimo investigar como setores brancos das classes médias reproduzem o racismo, transformam privilégios históricos em virtudes imaginárias e utilizam instituições para conservar posições sociais. O problema surge quando essa constatação é elevada à condição de explicação histórica geral. Nesse movimento, aquilo que deveria ser explicado — como determinados descendentes de imigrantes puderam converter uma posição racial relativamente privilegiada em vantagens sociais numa sociedade pós-escravista, enquanto outros descendentes dos mesmos fluxos migratórios permaneceram entre os trabalhadores pobres — acaba sendo apresentado como a própria causa do racismo.

Talvez seja esse o limite mais importante do esquema de Jessé de Souza. Ao procurar explicar o racismo brasileiro pela classe média branca e sua genealogia imigrante, ele concentra a análise num dos espaços contemporâneos de sua reprodução e perde de vista as relações históricas que produziram tanto as classificações raciais quanto as próprias posições de classe que pretende explicar. Fanon mostra por que a superioridade branca precisa ser explicada historicamente; Reed mostra por que branquitude não pode ser convertida em posição de classe; Florestan demonstra como as desigualdades raciais foram reorganizadas depois da escravidão; Williams conecta a exploração escravista aos circuitos internacionais de acumulação; e Marini situa essa formação social dentro da reprodução desigual e dependente do capitalismo mundial.

Ao tentar escapar das interpretações clássicas sobre a questão racial brasileira, Jessé termina, assim, oferecendo uma explicação que começa tarde demais na história e homogeneíza excessivamente os sujeitos que pretende explicar. O problema não está em reconhecer o racismo da classe média branca. Está em confundir um possível agente contemporâneo de sua reprodução com a estrutura histórica que tornou esse racismo possível.

Viva Paulo Freire!

paulo freire!

O educador Paulo Freire cujo método pedagógico já livrou milhões do analfabetismo foi um dos pensadores atacados ontem nas manifestações (ou sei lá) que ocorreram no Brasil, como bem mostra a imagem acima, onde a faixa diz “chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”.

Esse tipo de ataque aos ensinamentos de Paulo Freire contraditoriamente ocorre num momento em que a ideologia do mercado é que impulsiona a maioria dos materiais pedagógicos, os quais são regiamente pagos com dinheiro público, como é o caso aqui na cidade de Campos dos Goytacazes.

O peculiar é que Paulo Freire hoje não é apenas celebrado mundialmente, como mostra a citação abaixo, mas também avidamente lido nos países centrais do capitalismo, justamente pela eficácia do seu método que explora elementos mais contundentes da realidade para gerar conhecimento crítico. Por essas e outras é que o Brasil é obrigado a ficar para trás na corrida do conhecimento.  É que enquanto aqui ele é hostilizado pela classe média branca, nos EUA, por exemplo, ele é estudado para melhorar o desempenho escolar das crianças.

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O Globo: Humoristas e blogueiros ironizam declaração de Eike sobre classe média

Sátiras associam a imagem do empresário com ícones populares como copos de requeijão e pacote de férias parcelado

POR EMILIANO URBIM

RIO – De sétima fortuna do mundo a maior meme do Brasil. Parece que esse é um caminho só de ida para Eike Batista — pelo menos nas redes sociais. Assim que anunciou, com pesar, sua “volta à classe média”, o empresário voltou a jato (sem jatinho) para a classe AAA das sátiras que associam sua imagem a ícones populares como copos de requeijão, cupons de desconto e pacotes de férias da CVC — fenômeno que teve uma primeira leva quando foi anunciada a desvalorização de seu patrimônio. Depois de 450 dias sumido do Twitter, ele apelou aos 140 caracteres para tentar se explicar. Em vão. A efervescência de piadistas virtuais, reais e profissionais mostra uma tendência que veio para ficar: cada vez mais, a classe média ri de si mesma.

Seja por não ter acesso a símbolos da classe A (o que faria parecer mais rica), seja por ver a classe C adotar os seus (o que a faz parecer mais pobre), a classe média sofre. A expressão, inclusive, batiza um tumblr que captou essa luta de classes em seu início. Em 2011, inspirados no site americano White Whine (que se autodefine como “uma coleção de problemas de primeiro mundo”), o escritor carioca Alex Castro e amigos criaram o classemediasofre.tumblr.com.

— Claro que a gente é de classe média; se a gente não fosse, seria uma coisa horrível, miserável — diz Alex.

A fórmula: colher nas redes sociais lamentos do tipo “aeroporto virou rodoviária” e temperar com um comentário ironicamente indignado. Sobre a queda de Eike Batista, escreveram: “Olha, já estava difícil de aturar a fila na churrascaria rodízio por causa dessa gentalha vinda de baixo. Se começar a cair gente de cima, não vai sobrar perfume Polo pra ninguém.’’

Desde o primeiro post, os autores dos comentários colhidos na web têm foto e nome apagados. Para Alex, a identidade protegida fez o público se identificar — o protesto lido poderia ser o do leitor. Os fãs mais empolgados, que contribuíam enviando exemplos, foram recrutados como editores, e o site ganhou vida própria, com centenas na criação (ainda que não-intencional) e uma dúzia filtrando conteúdo.

— Só trabalhei no primeiro dia — brinca Alex.

O site inspirou homenagens: um rap com seu nome, composto por Cauê Moura, com clipe estrelado pelo CQC Murilo Couto, já soma milhões de acessos. Um dos testes mais populares do famoso site de listas Buzzfeed é “Quão ‘classe média sofre’ você é?”. Por fim, a consagração: a expressão entrou para léxico digital nacional. Nas redes, muitos conscientemente encerram suas queixas pequeno-burguesas com a hashtag #classemediasofre.

— Tenho um certo orgulhinho do site porque vejo muita gente se autocensurando — diz Alex. — Quando penso em tudo que as pessoas deixaram de falar, acho que é uma contribuição mínima para o mundo.

O humor mais ferino também tem público, como comprova a viralização de “O perfeito idiota de classe média brasileiro”, que o jornalista e empresário Adriano Silva publicou em seu blog Manual de Ingenuidades: “O perfeito idiota de classe média brasileiro é, sobretudo, um cara cafona. Usa roupas de polo sem saber o lado por onde se monta num cavalo. Nem sabe que aquelas roupas são de polo. Ou que polo é um esporte”, escreve Adriano. O sucesso do post surpreendeu o autor e rendeu uma continuação também muito compartilhada.

— É um comportamento que localizei na classe média, me referindo na verdade à classe média alta, mas que pode ser visto em qualquer classe social. O perfeito idiota brasileiro para em vaga de deficiente ou de idoso no shopping. Não está nem aí para ninguém. Falsifica carteirinha de estudante pelo prazer do pequeno desvio. Somos um país de cleptomaníacos.

Como mostram os gráficos do IBGE, o Brasil é também um país em transformação, onde os cercadinhos que separavam as classes média baixa, média e alta se misturaram. A antiga pirâmide social, onde cada andar era menor que o anterior, virou um losango, com a maioria da população localizada no miolo.

Para o autor, ator e diretor Miguel Falabella, o que importa é não perder o humor. O intérprete do personagem Caco Antibes, um falido que tinha ódio de pobre no extinto seriado “Sai de baixo’’, diz que ri muito com a classe média:

— É uma forma do inconsciente coletivo digerir esse mundo absurdo. Eu adoro essas piadas, está no nosso DNA. A comédia é o melhor jeito de dizer a verdade, melhor até do que carta anônima. Não me sinto ofendido quando fazem piada comigo e acho que o Eike também não deveria se ofender. Aliás, acho que ele nem se ofende mais.

Aliás, na mais recente delas, uma montagem com Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Regina Casé, o empresário aparece com uma cara ótima.

FONTE:  http://oglobo.globo.com/economia/humoristas-blogueiros-ironizam-declaracao-de-eike-sobre-classe-media-14072160#ixzz3Ed7QmKed

É muito dura a vida “classe média” de Eike Batista: voos na primeira classe, viagens de helicóptero e hotéis cinco estrelas

Como é a vida do “classe média”  Eike Batista

Mesmo em tempos bicudos, o empresário se hospeda em hotel cinco estrelas em Nova York e não abre mão de usar o helicóptero para ir a Angra dos Reis

Malu Gaspar
Empresário Eike Batista

Empresário Eike Batista (Marcos D’Paula/AE/VEJA)

Eike Batista emergiu na semana passada de um ano de raro e absoluto silêncio. Acusado de manipulação de mercado e uso de informação privilegiada – crimes financeiros para os quais as penas podem chegar a cinco e oito anos de prisão, respectivamente –  ele saiu da toca depois de uma decisão judicial que arrestou os bens de sua família até o limite de 1,5 bilhão de dólares.  Seguindo uma estratégia desenhada por seus advogados, ele chamou quatro veículos de comunicação (entre os quais a VEJA) para deixar bem claro que não tem esse dinheiro.  Como não conseguiu pagar as dívidas que acumulou enquanto seu império esteve no auge (cerca de 15 bilhões de dólares em 2012), o empresário é hoje um homem de menos  1 bilhão de dólares.  “É um baque gigantesco voltar à classe média”, afirmou à Folha de S. Paulo na primeira das quatro conversas. Trata-se, é claro, de um tipo sui generis de classe média, uma vez que seu salário é 15 267 vezes a renda média de um cidadão dessa classe social.  Na sexta à noite, ele se corrigiu no twitter:  “Esclarecendo: a menção à classe média referia-se à sua capacidade (da classe média)  de adaptar-se a situações adversas!”

,A VEJA, ele se referiu a si próprio como um “assalariado” – ou melhor, um “assalariado com potencial de levar uma participação nesses ativos que sobraram aí”.  Eike não disse, mas o pro-labore em questão é de 5 milhões de dólares por ano, quantia que lhe prometeu o fundo soberano de Abu Dabui, o Mubadala, seu maior credor,  para o ano que vem, caso ele cumpra algumas condições estabelecidas no acordo pelo qual entregou quase todos os  bens aos árabes. Na quarta-feira, depois de uma tarde inteira repetindo a mesma coisa,  com ar cansado e os olhos caídos,  o “classe média” Eike entrou em sua caminhonete Hilux blindada e foi para casa – uma mansão de 3 500 metros quadrados fincada num terreno com vinte vezes esse tamanho,  aos pés do Cristo Redentor e com vista para os mais belos cartões postais do Rio de Janeiro. Seguiam-no quatro seguranças.

Na semana anterior, ele havia transitado entre Doha, a capital do Catar, e Nova York, resolvendo pendências financeiras.  Fechou a venda da mineradora de ouro AUX por 400 milhões de dólares (o dinheiro foi todo para os credores) para os emires do país árabe e  seguiu para reuniões com um grupo de coreanos que ele diz estar tentando atrair para o porto do Açu, no norte fluminense, em que ainda tem 10% das ações.  Não usou o jato Gulfstream  de 40 milhões de dólares que era a joia de sua frota de quatro aviões e dois helicópteros e que ainda é dele. Preferiu economizar  tomando um vôo de carreira.  Na primeira classe, é claro, que ninguém é de ferro. Em Manhattan,  hospedou-se no mesmo hotel de sempre, um cinco estrelas na avenida  Madison,  e circulou de van ou de limusine com o mesmo motorista que o atende há anos.

Praia

Mesmo em tempos bicudos, Eike também não abre mão de usar o helicóptero Agusta – o outro remanescente de sua frota —  nas idas frequentes a Angra dos Reis, onde ainda mantém uma mansão de dois andares na Baía de Vila Velha.  Assim como a do Jardim Botânico, a “casa de praia” não está mais em nome dele. Em julho, no auge da crise da petroleira OGX, que arrastou seu império para o buraco,  ele transferiu os imóveis aos filhos Thor, 22 anos,  e Olin, 18 anos,  e ainda comprou uma cobertura de 5,3 milhões de reais  em Ipanema para a namorada, Flávia Sampaio, que é mãe do caçula de Eike, Balder, de 1 ano. Por causa dessas doações, está sendo acusado pelos procuradores da República de fraude a credor – algo que ele repele, dizendo que foi tudo feito às claras e declarado à Receita Federal. Uma vez no litoral, Eike ainda dispõe do super iate de 115 pés que comprou em 2009 por 80 milhões de reais. Na embarcação, circula entre as ilhas do balneário com o comandante e dois auxiliares. 

E como é que uma pessoa que deve 1 bilhão de dólares na praça ainda consegue desfrutar de todo esse conforto? A resposta  tem a ver com um ditado bastante repetido no mercado financeiro:  se você deve 100 dólares aos bancos, o problema é seu. Mas, se deve 100 milhões, o problema  é deles.  Aos bancos a quem Eike deve dinheiro (Itaú e Bradesco, principalmente) não interessa tomar os bens que restam e registrar em seus balanços prejuízos de centenas de milhões de dólares. Mais inteligente, do ponto de vista contábil, é mantê-lo respirando e negociar os pagamentos aos poucos, em suaves prestações. Assim, apesar de carregar uma dívida impensável para a imensa maioria dos mortais, Eike segue mantendo seu padrão de vida quase intacto, com algumas poucas alterações.  É o famoso “devo, não nego, pago quando puder”, transposto ao universo dos ex-bilionários. Talvez esteja aí  um ponto de contato entre a vida de Eike e a de boa parte da classe média. Segundo a estatística oficial,  metade dos brasileiros dessa classe social está endividada. 

FONTE: http://veja.abril.com.br/noticia/economia/a-vida-do-classe-media-eike-batista