Dos guardanapos em Paris ao bife de ouro em Nova York: a persistência da elite fluminense desconectada dos pobres

Guardanapos na cabeça em Paris, bifes cobertos de ouro em Nova York: mudam os personagens e os cenários, mas permanece a mesma cultura política de ostentação e intimidade entre poder econômico e poder estatal


O contraste entre a chamada “farra dos guardanapos”, eternizada nas imagens de Sérgio Cabral e sua corte política em um restaurante de luxo em Paris, e as recentes revelações sobre os jantares milionários de Daniel Vorcaro com Cláudio Castro não é apenas uma coincidência histórica. Trata-se, na verdade, da manifestação contínua de uma mesma cultura política que parece atravessar diferentes governos e personagens do Rio de Janeiro: a naturalização do luxo obsceno em meio à deterioração das condições de vida da maioria da população fluminense.

Quando as fotografias da “farra dos guardanapos” vieram a público, elas causaram indignação porque simbolizavam algo maior do que uma simples festa. O episódio expunha um grupo de autoridades, empresários e operadores políticos celebrando em Paris enquanto o Rio de Janeiro já acumulava problemas estruturais em áreas fundamentais como saúde, educação, segurança pública e saneamento. Aquelas imagens acabaram se tornando um símbolo da distância que separava os ocupantes do poder da população que sofria os efeitos de uma gestão pública marcada por desperdícios, corrupção e prioridades invertidas.

Mais de uma década depois, o roteiro parece se repetir. Agora, o cenário não é um restaurante parisiense, mas encontros realizados em Nova York, marcados por degustações de uísque avaliadas em milhões de reais, vinhos que custam milhares de reais a garrafa e refeições que incluem os famosos bifes cobertos por folhas de ouro. Segundo as investigações em curso, esses encontros ocorreram em um contexto marcado por negociações envolvendo aportes do Rioprevidência no Banco Master, instituição ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. As mensagens obtidas pelos investigadores indicam uma relação de proximidade que ultrapassava em muito os limites esperados entre um governador e um empresário beneficiado por decisões do poder público.

Há ainda um aspecto simbólico que torna a comparação entre os dois episódios ainda mais contundente. Assim como a famosa “farra dos guardanapos” ocorreu em Paris, as revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro apontam para encontros cercados por luxo extravagante em Nova York. Não se trata de um detalhe irrelevante. Em ambos os casos, membros das elites políticas e econômicas fluminenses demonstram uma particular predileção por celebrar seus privilégios em cenários internacionais de altíssimo padrão, longe da realidade cotidiana da população que vive no Brasil. Enquanto servidores públicos enfrentam perdas salariais acumuladas, aposentados e pensionistas convivem com a insegurança quanto ao futuro do Rioprevidência e milhões de fluminenses lidam diariamente com problemas de transporte, saúde, educação e segurança pública, seus governantes e aliados empresariais brindam em mesas sofisticadas de Paris ou Nova York. O recado transmitido por essas imagens é devastador: para uma parcela da elite dirigente, o Rio de Janeiro parece ser apenas o território de onde se extraem recursos e poder, enquanto os prazeres da vida são desfrutados em destinos exclusivos do exterior.

O aspecto mais perturbador não é apenas o valor extravagante dessas experiências de luxo. É a circunstância em que elas ocorrem. O Rio de Janeiro vive há anos uma situação de crise permanente. O estado acumula déficits fiscais, convive com hospitais sucateados, escolas sem infraestrutura adequada, servidores públicos submetidos a perdas salariais históricas e uma previdência social constantemente apresentada como ameaçada por desequilíbrios financeiros. Ao mesmo tempo, diversas regiões fluminenses enfrentam graves problemas ambientais, desde a contaminação industrial até a degradação de ecossistemas costeiros e urbanos.

Nesse contexto, a imagem de governantes degustando uísques milionários ou participando de banquetes extravagantes assume um significado político devastador. Não se trata apenas de ostentação. Trata-se da demonstração pública de que existe uma elite dirigente que parece acreditar estar completamente protegida das consequências de suas próprias decisões.

A “farra dos guardanapos” acabou se tornando um dos símbolos da derrocada política e judicial de Sérgio Cabral. O que as investigações posteriores mostraram foi que aquela celebração não representava um desvio isolado de comportamento, mas fazia parte de um ambiente onde a promiscuidade entre interesses públicos e privados havia se tornado regra. O episódio passou a ser visto como uma metáfora visual de um sistema de corrupção que drenava recursos públicos enquanto exibia riqueza e poder sem qualquer constrangimento.

As revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro produzem sensação semelhante porque reativam a memória coletiva de um estado que já experimentou os custos sociais dessa mistura entre luxo privado e gestão pública. A repetição dos símbolos  (jantares exclusivos, bebidas raríssimas, encontros reservados entre governantes e grandes empresários) sugere que, apesar das sucessivas operações policiais, prisões e escândalos, a cultura da impunidade continua profundamente enraizada.

Talvez o elemento mais grave seja justamente o contraste moral que emerge dessas situações. Enquanto aposentados e pensionistas convivem com incertezas sobre a sustentabilidade do Rioprevidência, enquanto servidores acumulam perdas inflacionárias e comunidades inteiras enfrentam carências básicas, parte das elites políticas e econômicas fluminenses parece viver em um universo paralelo, marcado por um consumo ostensivo que funciona quase como uma celebração da desigualdade.

O guardanapo amarrado na cabeça em Paris e o bife coberto de ouro servido em Nova York pertencem a épocas diferentes, mas expressam a mesma lógica política. Ambos se transformaram em símbolos de uma elite que parece incapaz de compreender os limites éticos entre a gestão da coisa pública e a busca incessante por privilégios privados. Mais do que demonstrações de riqueza, são retratos de um poder que se sente suficientemente protegido para ostentar luxo extremo enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades crescentes.

A repetição desse padrão sugere não apenas uma cultura de impunidade, mas também um profundo desprezo pelas condições concretas de vida da maioria dos cidadãos que sustentam, com seus impostos e trabalho, as estruturas do Estado. Em vez de aprender com os escândalos do passado, parte das elites fluminenses parece apenas trocar Paris por Nova York, os guardanapos pelos bifes de ouro e os personagens principais, preservando intacta a convicção de que os excessos continuarão sem consequências.

O caso torna-se ainda mais grave quando se observa que os episódios não envolvem apenas extravagâncias privadas. Eles aparecem associados a decisões que podem ter provocado impactos concretos sobre os cofres públicos e sobre o futuro de instituições fundamentais para milhares de famílias fluminenses. Quando governantes responsáveis pela gestão de recursos públicos aparecem desfrutando de luxos incompatíveis com a realidade da população que representam, em companhia de empresários potencialmente beneficiados por decisões estatais, o problema deixa de ser apenas moral e passa a ser político. Afinal, a mensagem transmitida é a de que há uma elite que governa para si mesma, protegida por relações de influência e convencida de que jamais precisará prestar contas de seus atos.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro segue convivendo com hospitais precários, escolas carentes de investimentos, servidores desvalorizados, aposentados inseguros e uma crise ambiental que avança sobre diferentes regiões do estado. O contraste entre essas dificuldades e os banquetes de Paris ou Nova York é tão chocante quanto revelador. Ele expõe um modelo de poder profundamente dissociado das necessidades coletivas e ajuda a explicar por que tantos cidadãos enxergam as instituições públicas com crescente desconfiança. Afinal, para quem observa de fora, parece difícil acreditar que aqueles que brindam com uísques milionários e bifes cobertos de ouro estejam verdadeiramente preocupados com os problemas enfrentados pela população comum.

Whisky milionário, carne coberta de ouro e bilhões do Rioprevidência: o cerco se fecha sobre Cláudio Castro

Novas revelações da Polícia Federal aprofundam as suspeitas sobre a relação entre o ex-governador do Rio de Janeiro e o banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto aposentados e pensionistas seguem arcando com os riscos de investimentos controversos realizados com recursos previdenciários

As novas revelações da Polícia Federal sobre os aportes bilionários do Rioprevidência em ativos ligados ao Banco Master aprofundam ainda mais as suspeitas que cercam a gestão do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Segundo informações encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal, a PF identificou que mudanças promovidas por Castro na cúpula do Rioprevidência antecederam investimentos que, ao longo do tempo, alcançaram aproximadamente R$ 3 bilhões em operações vinculadas ao banco controlado por Daniel Vorcaro.

De acordo com as investigações, a substituição de dirigentes teria facilitado o credenciamento do Banco Master e acelerado a realização dos aportes, contornando mecanismos de controle e avaliação técnica que deveriam existir para proteger os recursos dos servidores públicos estaduais. O caso ganha contornos particularmente graves porque envolve dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões de milhares de trabalhadores que dedicaram suas vidas ao serviço público fluminense.

As investigações apontam que os investimentos foram realizados mesmo diante de questionamentos sobre os riscos envolvidos e sobre a elevada concentração de recursos em uma única instituição financeira. O resultado é que o Rioprevidência, que já enfrenta desafios históricos para garantir sua sustentabilidade financeira, passou a carregar uma exposição significativa a ativos cuja qualidade e liquidez são agora objeto de intenso escrutínio por parte dos órgãos de controle.

Neste contexto, a recente decisão de Cláudio Castro de desistir de sua candidatura ao Senado, alegando a necessidade de dedicar-se à própria defesa, parece menos um gesto de desprendimento político e mais o reconhecimento de que as evidências reunidas pelos investigadores atingiram um patamar difícil de ignorar. Em poucas semanas, o ex-governador viu seu nome associado a diferentes frentes de investigação da Polícia Federal, tornando praticamente inviável a manutenção de suas pretensões eleitorais.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a trajetória política de Cláudio Castro. Durante anos, ele figurou como um dos mais importantes aliados da família Bolsonaro no cenário nacional. Sua ascensão política ocorreu no interior do campo bolsonarista, que construiu parte significativa de seu discurso em torno do combate à corrupção, da moralidade administrativa e da defesa de uma suposta “nova política”. As investigações envolvendo o Rioprevidência e o Banco Master lançam dúvidas profundas sobre a coerência entre esse discurso e as práticas adotadas nos bastidores do poder.

Mas talvez nenhum aspecto deste caso simbolize tão bem a distância entre governantes e governados quanto as revelações envolvendo a relação pessoal entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Reportagens publicadas nos últimos meses revelaram que ambos participaram, em Nova York, de eventos marcados pela ostentação, incluindo degustações de whiskies raros avaliados em centenas de milhares de dólares e refeições em restaurantes de luxo onde eram servidos cortes de carne cobertos por folhas de ouro. Embora a participação em eventos dessa natureza não constitua irregularidade por si só, a proximidade entre o governador e o banqueiro ganha outro significado quando analisada à luz dos bilhões de reais que posteriormente foram direcionados ao Banco Master por um fundo previdenciário estatal.

O contraste é inevitável. Enquanto integrantes da elite política e financeira desfrutavam de experiências reservadas a um grupo extremamente seleto de milionários, milhares de aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro continuavam convivendo com incertezas sobre o futuro de suas aposentadorias. Muitos desses beneficiários dependem exclusivamente dos pagamentos realizados pelo Rioprevidência para garantir condições mínimas de sobrevivência em um cenário de inflação persistente, aumento do custo de vida e crescente deterioração dos serviços públicos. A imagem de governantes brindando com whiskies raríssimos ao lado de banqueiros favorecidos por investimentos públicos bilionários contrasta de forma brutal com a realidade vivida pela maioria dos segurados do sistema previdenciário estadual.

Mais do que uma investigação sobre operações financeiras questionáveis, o caso expõe um problema estrutural da política fluminense: a utilização recorrente de instituições públicas estratégicas para atender interesses privados e redes de influência política. O Rioprevidência, responsável pela segurança financeira de milhares de aposentados e pensionistas, não pode ser tratado como instrumento para operações de alto risco nem como mecanismo de aproximação entre agentes públicos e grupos econômicos privilegiados.

À medida que avançam as investigações, torna-se cada vez mais difícil sustentar a narrativa de que tudo não passa de coincidências administrativas ou de decisões técnicas equivocadas. A sucessão de mudanças na direção do fundo, os aportes bilionários, a proximidade com Daniel Vorcaro e a crescente quantidade de elementos reunidos pela Polícia Federal apontam para um enredo que exige esclarecimentos profundos e responsabilização, caso as suspeitas sejam confirmadas.

Se as investigações comprovarem as irregularidades apontadas pela Polícia Federal, o escândalo do Banco Master poderá entrar para a história do Rio de Janeiro não apenas como mais um episódio de gestão temerária de recursos públicos, mas como um símbolo da distância abissal que separa a vida dos detentores do poder da realidade enfrentada pelos aposentados e pensionistas cujas economias foram colocadas em risco. Entre taças de whisky milionário, carnes cobertas de ouro e operações financeiras cercadas de suspeitas, o que estava em jogo eram recursos destinados a garantir uma velhice digna para milhares de servidores públicos fluminenses.

Entre a “austeridade” dos salários e a farra financeira do Rioprevidência: o duplo padrão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro

Enquanto servidores estaduais acumulam perdas salariais e incertezas sobre aposentadorias e pensões, o governo Cláudio Castro mergulha em investigações sobre aplicações bilionárias e saques sucessivos no Rioprevidência, aprofundando a percepção de que a corrida ao Senado pode servir mais como escudo político do que como compromisso com o futuro do Rio de Janeiro

Uma nova operação da Polícia Federal envolvendo aportes da Rioprevidência no Banco Master recoloca o governador Cláudio Castro no centro de um escândalo que mistura risco financeiro extremo, gestão temerária de recursos previdenciários e interesses políticos. Segundo reportagem do jornalista Fábio Serapião publicada no UOL Notícias, a PF investiga operações que expuseram quase R$ 1 bilhão do fundo previdenciário dos servidores estaduais a aplicações consideradas incompatíveis com a natureza conservadora que deveria orientar recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.

Ainda que Cláudio Castro não apareça formalmente como alvo direto das primeiras fases da operação, é impossível dissociar o funcionamento da Rioprevidência das decisões políticas tomadas por seu governo. Afinal, a autarquia é subordinada ao Executivo estadual, e os dirigentes investigados foram nomeados dentro da estrutura política do Palácio Guanabara. O próprio ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acabou preso preventivamente pela PF sob suspeitas de ocultação de provas e obstrução das investigações.

O caso é ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado por  Cláudio Castro aos servidores públicos estaduais. Enquanto bilhões eram movimentados em operações financeiras de altíssimo risco, o seu  governo  se recusava a garantir integralmente a recomposição das perdas inflacionárias do funcionalismo, mesmo após aprovação legislativa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, o discurso de austeridade aplicado aos salários coexistia com uma política de extrema permissividade na gestão dos recursos previdenciários.

A contradição é brutal. Para professores, enfermeiros, policiais, técnicos administrativos e demais categorias do funcionalismo, prevaleceu a lógica do “não há recursos”. Já para operações financeiras envolvendo o Banco Master, marcado por suspeitas crescentes no mercado, houve espaço para aplicações bilionárias que hoje estão sob investigação criminal.

Há ainda um elemento particularmente explosivo nessa trajetória: o uso sistemático dos recursos da Rioprevidência para amortizar parcelas da dívida do estado do Rio de Janeiro com o governo federal. Sob autorização da Alerj, a gestão Castro promoveu retiradas bilionárias do fundo previdenciário, comprometendo a sustentabilidade futura do sistema. Na prática, utilizou-se dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões para aliviar pressões fiscais imediatas do governo estadual.

O resultado dessa política pode ser devastador no médio prazo. O Rioprevidência já carrega histórico de fragilidade estrutural, agravado por décadas de antecipação de receitas petrolíferas e sucessivas manobras financeiras. Ao combinar saques bilionários para pagamento da dívida estadual com investimentos arriscados em instituições hoje investigadas, o governo Castro aprofundou a insegurança de centenas de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.

O episódio também lança sombras pesadas sobre o futuro político do governador. A expectativa de aliados de que uma candidatura ao Senado funcionasse como rota de blindagem institucional tende agora a encontrar maiores obstáculos. Afinal, a sucessão de investigações envolvendo o Rioprevidência, o Banco Master e operadores ligados ao governo estadual reforça a percepção pública de que a disputa eleitoral pode estar menos relacionada a um projeto para o Rio de Janeiro e mais à busca de proteção política diante do avanço das investigações.

Num estado marcado por sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, afastados ou investigados, o aprofundamento das suspeitas contra a gestão de Cláudio Castro amplia o desgaste de uma elite política que parece tratar a máquina pública — e até mesmo os recursos previdenciários dos servidores — como instrumentos de sobrevivência política e financeira. O problema é que, enquanto os responsáveis disputam narrativas e espaços de poder, quem permanece exposto ao risco concreto são justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano do estado: os servidores públicos fluminenses e suas famílias.

Rio de Janeiro em chamas: a política como método de colapso

A inelegibilidade de Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral não encerra um ciclo. Ao contrário: ela o confirma. O Rio de Janeiro não vive uma crise política — vive um padrão político. A tentativa de renúncia de Castro, às vésperas do julgamento, foi menos uma estratégia jurídica do que um gesto revelador: a crença de que o poder ainda pode negociar com as regras, contorná-las, suspender suas consequências. Não pôde. A decisão do TSE não apenas o tornou inelegível, como reafirmou um diagnóstico incômodo — o de que o uso da máquina pública como instrumento eleitoral permanece não como exceção, mas como prática.

O dado mais grave, no entanto, não está na queda de um governador.  Está no fato de que ela não veio sozinha. A inelegibilidade também alcança Rodrigo Bacellar, figura central do Legislativo fluminense. Executivo e Legislativo, simultaneamente atingidos por uma mesma lógica de poder. Não se trata mais de desvios individuais, mas de um arranjo institucional que parece operar segundo uma racionalidade própria — uma racionalidade que dissolve as fronteiras entre governar e capturar o Estado. O resultado é uma cena quase alegórica: um governo que desmorona por dentro, deixando como herança não um vazio de poder, mas um excesso de crise. A sucessão improvisada, a instabilidade institucional e a incerteza política não são efeitos colaterais — são sintomas. E talvez seja esse o ponto central que o episódio expõe. 

O Rio de Janeiro tornou-se um laboratório extremo de um fenômeno mais amplo: a normalização da exceção. Governadores que caem, assembleias comprometidas, alianças que operam na fronteira da legalidade — tudo isso deixou de ser ruptura para se tornar rotina. A crise, nesse sentido, não interrompe o sistema. Ela é o sistema.

Não por acaso, o discurso público tende a individualizar responsabilidades. Fala-se em erros, abusos, ilegalidades. Tudo certo — e, ao mesmo tempo, insuficiente. Porque o problema não é apenas o que os atores fazem, mas o tipo de estrutura que continuamente os produz e os recompensa, até que se tornem descartáveis.

A trajetória recente do estado é eloquente. O Rio de Janeiro não acumula apenas escândalos; acumula padrões. E padrões, ao contrário dos escândalos, não desaparecem com julgamentos. A decisão do TSE pode afastar nomes. Mas não altera, por si só, o modo de funcionamento que os tornou possíveis. Por isso, a pergunta que permanece não é quem será o próximo a cair. Mas o que, de fato, ainda está de pé.

Salários corroídos, dívida elevada e risco de cassação: a crise do governo Castro

O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), enfrenta o claro risco de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão de um processo que investiga irregularidades ocorridas durante a campanha eleitoral de 2022, na qual foi reeleito. A ação examina a hipótese de que tenha havido abuso de poder político e econômico por meio do uso da estrutura administrativa do governo estadual para favorecer sua candidatura.

O ponto central das acusações envolve contratações em grande escala realizadas por órgãos vinculados ao governo do estado, especialmente a Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro). Segundo as investigações, programas administrados pela fundação teriam promovido a contratação de um número muito elevado de pessoas durante o período eleitoral. Parte dessas admissões teria ocorrido por meio de procedimentos pouco transparentes e, em alguns casos, com pagamentos realizados em espécie, circunstância que levantou suspeitas de que os recursos públicos estariam sendo utilizados para sustentar uma rede informal de apoiadores políticos e cabos eleitorais.

A acusação sustenta que essas contratações teriam servido não apenas para executar projetos administrativos, mas também para mobilizar apoio eleitoral à candidatura do governador, configurando uma utilização indevida da máquina pública. Na legislação eleitoral brasileira, o uso de recursos estatais ou da estrutura administrativa para beneficiar candidatos constitui uma forma de abuso de poder, capaz de comprometer a igualdade de condições entre os concorrentes e, por isso, pode levar à cassação do mandato obtido nas urnas.

A ação judicial que levou o caso ao TSE foi proposta por adversários políticos, entre eles o então candidato ao governo do estado Marcelo Freixo. O processo já havia sido analisado pela Justiça Eleitoral regional, mas acabou chegando ao tribunal superior por meio de recursos. No TSE, o julgamento ganhou grande repercussão política, pois envolve o chefe do Executivo de um dos principais estados do país.

Durante a análise do caso, a relatora do processo, Maria Isabel Gallotti, apresentou voto no sentido de reconhecer a ocorrência de abuso de poder político e econômico, defendendo a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade do governador por oito anos. Outros ministros começaram a apresentar seus votos, e o julgamento passou a ser acompanhado com atenção por observadores políticos e jurídicos, uma vez que sua conclusão poderá produzir efeitos relevantes na política fluminense.

Caso o tribunal forme maioria pela condenação, o governador poderá perder o mandato e ficar impedido de disputar eleições por um período determinado pela legislação. Dependendo da interpretação jurídica aplicada ao caso e do momento em que a decisão se tornar definitiva, o resultado também poderá implicar a realização de novas eleições para o governo do estado. Dessa forma, o processo em curso no Tribunal Superior Eleitoral tornou-se um dos episódios judiciais mais relevantes da política recente do Rio de Janeiro, ao colocar sob exame a legalidade das práticas administrativas adotadas durante o período eleitoral.

A situação política enfrentada por Cláudio Castro ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade fiscal do estado do Rio de Janeiro, cuja dívida pública continua entre as mais elevadas do país. Nas últimas décadas, o estado acumulou um pesado passivo financeiro, resultado de sucessivas crises fiscais, queda de receitas em determinados períodos e compromissos estruturais de gasto. A gestão atual frequentemente justifica a contenção de despesas com pessoal como parte de uma estratégia de ajuste fiscal e de cumprimento de compromissos assumidos em acordos de recuperação das contas públicas firmados com a União.  

Essa postura, porém, é alvo de críticas cada vez mais duras por parte de servidores e analistas das finanças públicas. Para esses setores, a recusa em conceder sequer a reposição inflacionária equivale, na prática, a impor uma política deliberada de corrosão salarial ao funcionalismo estadual, transferindo para os trabalhadores do serviço público o custo do ajuste fiscal. Na visão desses críticos, o argumento da austeridade perde força quando confrontado com episódios que sugerem uso pouco criterioso de recursos públicos e expansão de estruturas administrativas marcadas por baixa transparência. Nesse contexto, o processo que envolve o governador no Tribunal Superior Eleitoral acaba reforçando a percepção de um contraste incômodo: enquanto o governo invoca limites fiscais para negar recomposição salarial a professores, policiais e outros servidores, a gestão pública permanece cercada por controvérsias que colocam em dúvida as prioridades efetivas da administração estadual liderada por Cláudio Castro. e que, em última instância, poderão resultar em sua cassação pelo TSE.

Cláudio Castro, o RioPrevidência e a política da cara dura

Há alguns anos tive o azar de chegar atrasado para uma conexão no aeroporto internacional de Madri e, junto com a minha família, incluindo um filho pequeno, fui literalmente abandonado para vagar pelos corredores vazios do Barajas. Depois de finalmente sermos descobertos pela equipe de terra da Iberia, fomos encaminhados a um ponto onde outros passageiros aguardavam solução para o mesmo problema: conseguir um voo que nos levasse ao destino final.

O caos era total, pois havia mais gente do que atendentes. Foi então que apareceu um cidadão espanhol que pegou todos os tipos de senha disponíveis e, em um passe de mágica, foi atendido antes de todos que aguardavam pacientemente a sua vez. Como brasileiro em terra estrangeira, observei a cena com um misto de revolta e curiosidade.

A situação esquentou quando outro espanhol, mais jovem que o primeiro, dirigiu-se ao fura-fila e disse, em tom alto e tenso: tu eres un cara dura — algo que interpretei, em português, como “cara de pau”.

Pois bem. Ontem, o ainda governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), esteve em Campos dos Goytacazes para, na prática, realizar um ato de campanha antecipada sob o disfarce de anunciar obras e realizações na cidade.

Sabendo da presença de Castro, um grupo de servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi ao local cobrar o envio da proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da instituição para análise da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo fui informado, a resposta do governador foi repetir a velha cantilena: não há dinheiro para pagar um novo PCV da Uenf.

É aqui que entra a explicação do porquê Cláudio Castro pode ser chamado de cara dura. Primeiro, porque a Uenf possui — e o governador sabe disso — orçamento alocado para pagar os salários previstos no novo PCV.

Mas há um segundo elemento que não pode ser esquecido. Cláudio Castro está enrolado até o pescoço no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A partir de 2023, o governador retirou mais de R$ 1 bilhão do fundo próprio dos servidores públicos estaduais, o RioPrevidência, e aplicou esses recursos em fundos podres ligados ao Master.

Agora, com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro, Castro aparece na lista de governantes que pegaram dinheiro que não lhes pertencia — no caso, dos aposentados e pensionistas do RioPrevidência — e o aplicaram em ativos virtualmente inexistentes.

Ainda assim, em meio a essa situação melindrosa, Cláudio Castro vem a Campos prometer um novo batalhão de polícia e a criação de uma escola cívico-militar dentro dessa suposta unidade policial. E, em mais uma demonstração de cara-durice, sabe perfeitamente que seu sucessor — seja ele quem for — poderá ignorar essa promessa com a mesma desenvoltura.

Mais curioso ainda foi ver políticos locais oferecendo palanque a um personagem envolvido em uma situação que ameaça atingir gente graúda em diferentes esferas do Estado brasileiro, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Moral da história: é muita cara dura em um estado só.

RioPrevidência: Audiência pública na Alerj vai discutir rombo causado pelo Banco Master

BANCO MASTER E RIOPREVIDÊNCIA | Precisamos enfrentar quem atacou a aposentadoria dos servidores

Audiência Pública, sexta, 5/12, às 10h, na Alerj.

O rombo causado pelos investimentos no Banco Master, liquidado por fraudes bilionárias, colocou em risco o futuro de servidores, aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro.

Não dá para naturalizar esse ataque, foi dinheiro da aposentadoria colocado em operações de altíssimo risco, ignorando alertas técnicos e abrindo brecha para prejuízos que podem afetar toda a categoria.

Por isso, pela Comissão de Servidores da Alerj convocamos uma audiência pública para debater os impactos e riscos das transações entre o RioPrevidência e o Banco Master. Chamamos autoridades, órgãos de controle e especialistas e vamos cobrar respostas.

Não aceitaremos que o RioPrevidência vire alvo de aventureiros financeiros. Vamos defender mecanismos reais de proteção ao fundo e lutar para responsabilizar quem colocou a aposentadoria dos servidores em risco.

Sua presença é fundamental. É hora de mostrar força e exigir transparência.

📍Sexta, dia 5 | 10h | Assembleia Legislativa do Rio (Alerj)

#AudiênciaPública #Servidores #Alerj

Flávio Serafini quer instalação de CPI para investigar perdas do RioPrevidência no Banco Master

O investimento bilionário do RioPrevidência, fundo estadual de aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, no Banco Master pode virar objeto de uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).  É que o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Servidores da Alerj, protocolou projeto de resolução para instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar esses aportes e também os realizados por outras instituições públicas, a começar pela Cedae. 

Os dirigentes do RioPrevidência falam em cerca de um bilhão de reais investidos, mas o valor segundo técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode ter chegado a R$ 2,6 bilhões no Master e em fundos associados.

Flávio Serafini, deputado de oposição ao governo de Cláudio Castro (PL)  tem dito que os cofres estaduais do Rio de Janeiro tiveram um prejuízo bilionário e culpa o governador por essa situação escabrosa.  Para Serafini está evidente que houve um direcionamento para favorecer o Banco Master, o que agora  se mostra uma ação completamente irresponsável e que coloca em risco a saúde financeira do RioPrevidência.

É importante lembrar que Flávio Serafini presdiu a CPI do RioPrevidência entre 2019 e 2021, e sabe muito da situação financeira do fundo de previdência dos servidores estaduais fluminenses.

Justificando a morte : a cor e as ações de Cláudio Castro na Operação Contenção

Por Luciane Soares da Silva

Florestan Fernandes fez muito pelo Brasil. Além de uma obra fundamental para compreender o país, nos apresentou uma frase aparentemente fácil mas extremamente profunda; ‘o Brasil tem preconceito de ter preconceito”. Vários textos contemporâneos trataram a questão explicitando um país racista sem pessoas racistas. Não leremos em placas a proibição de entrada em uma barbearia, um shopping ou no Copacabana Palace. O professor Kabengele Munanga afirmava que nossa forma de resolver a questão racial, a engenharia de nosso racismo. era mais eficaz (e um tanto mais perversa) se comparada a outros países. E esta seria nossa marca, a  disseminação ideológica da impossibilidade de ser este um país racista uma vez que a miscigenação teria abarcado todas as relações sociais e íntimas. A acomodação dos opostos nas formas mais próximas de relação que se estabeleciam na Casa Grande. E eis aí uma das teses mais interessantes e controversas de Gilberto Freire: este encontro que antes de ser separação era concertação, afeto. Contribuição da cultura africana ao Brasil “amolengando” os conflitos nas formas de apadrinhamento e miscigenação populacional.

Mas nossa construção imagética sobre um país sem racistas nos apresenta com muita frequência imagens que fundem cor e violência. Joel Zito trabalha esta ideia em seu livro e depois documentário, A negação de negro na telenovela. Mas qual a importância das imagens?

Quem já pisou em um museu com quadros africanos ou instrumentos de tortura usados na escravidão deve ter recebido imediatamente um tipo de estímulo. De pavor, dor, lamento ou raiva. Quase todos que leem este texto devem ter crescido com as representações de corpos negros sujeitos a condição do escravo ou do subalterno, ladrão, alcóolatra, boêmio, sensual, mutilado física ou psicologicamente.

Antônio Sérgio Guimarães ao discutir classe e raça, no livro Classes, Raças e Democracia, observa que no Brasil se tivemos certa dificuldade no tratamento de nossa condição de operário, conhecemos desde sempre o tratamento dispensado aos escravizados. E minha interpretação seria de que esta lembrança nos diz algo sobre continuidades históricas (o pensamento social brasileiro sempre nos lembra de nossa ausência de um processo revolucionário ( e isto merece um texto único ).

Seguindo este raciocínio não é  estranha a afirmação da existência  desta longa duração do tratamento dispensado aos descendentes de escravos quando observamos o tratamento dispensado aos moradores de favela “quase todos pretos, ou quase pretos de tão pobres”. Seguimos um debate sobre classe e raça que tem rendido importantes contribuições teóricas. E possibilitado que se avance na política de ações afirmativas, por exemplo

Durante a pesquisa nas favelas da Maré era preciso combinar um dia para poder entrar no território. Crianças sem aula por 42 dias, pessoas buscando medicação e calmantes para sobreviver à experiência do “caveirão do ar” aterrorizando moradores  frequentemente, pessoas diariamente acossadas pelas forças policiais. Com medo contínuo e aquisição de trauma coletivo semelhante a populações expostas à guerra.

Os dados apresentados sobre aceitação da operação , dizem muitas coisas. Embora façam parte de um momento dramático e de alta pressão emocional, no passado recente já houve aceitação do uso de blindados, de outras operações como a do Jacarezinho. Trago uma única variável: a cor de quem é executado. E devemos observar ainda os casos de execuções com sinais de tortura. Seria errado dizer que é isto que a população fluminense está aprovando? Execuções com sinais de tortura de pessoas que sequer foram identificadas?

Mas gostaria de estabelecer aqui uma questão sobre metodologia de pesquisa (é o que fazemos, é o nosso ofício e isto não desqualifica pesquisadores em segurança pública). As pesquisas que sempre buscam seu grau de cientificidade em bases quantitativas sempre me lembram da limitação desta técnica. Especialmente com determinados grupos. Entre eles, os moradores de favela. Vamos fazer um exercício fácil. Mudar as questões e pensar em outros resultados. Se você perguntasse sobre o grau de confiança na polícia aos mesmos grupos pesquisados no dia 10 de outubro? Se você perguntasse sobre tapas na cara e outras formas de humilhação ? Se antes da operação, você perguntasse o que acham do governador ? E qual o peso das respostas de católicos e evangélicos ? E se você morasse em área de milícia, poderia responder o que pensa ? Já fiz entrevistas em favelas nas quais a pessoa só respondia com a cabeça porque ela sabia exatamente onde estavam as facções durante a UPP. Conclusão: você pode usar a estatística para obter resultados diferentes com o mesmo grupo. Depende de quando, como e o quê deseja obter como resposta.

Existem aqueles que se indignam com a injustiça representada pelas 121 mortes até aqui. E em minha trajetória como pesquisadora eu estaria neste grupo. Mas ao seguir metodologicamente o exercício de permanecer dentro das favelas e seguir cotidianamente aprofundando os diálogos, passei da relação formal de pesquisadora  à experiência de imersão cotidiana junto aos moradores. Então tenho meus afetos a defendo que esta não é a variável que diminui nossa objetividade no fazer científico. A postura que exigiram de minha geração sempre retomava o afastamento como técnica de pesquisa para que não fosse perdida a objetividade. Os moradores de favela que entram na Universidade e que pretendo formar não serão menos capazes de manter a objetividade. Seria impossível aceitar que além de corpos estraçalhados, este exercício de manutenção da objetividade nos demandasse esquecer cada luta desde o Brasil Colônia. Que não foi outra coisa se não uma luta contra o extermínio que segue historicamente o mesmo modus operandi.

Nosso sentimento, daqueles que estão lá, têm parentes, temem pela vida de policiais expostos a estes eventos passa por tristeza, indignação. Mas não perco a objetividade quando observo os olhos de uma mãe cujo filho foi desaparecido pelo Estado. Eu ouvi mais de 30 mulheres, ouvi longamente suas histórias de vida. E muito do que tinham em comum, era comum às suas mães e avós. Um século de subemprego, um século de ausência de direitos, um século de mortes.

Esta condição vergonhosa é nosso legado, nossa face global.  Nossa estatística diária de execuções e torturas. E acredito que ao fazer o registro deste cotidiano, ao ouvir estas histórias de vida, não deixamos de fazer uma ciência relevante. Que nunca permita o esquecimento da história. E que faça justiça aos mortos pelo Estado.


Luciane Soares da Silva é professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Governo Castro desdenhou parecer técnico do TCE e colocou +R$ 1 bilhão no Banco Master

Governador diz que recuperação fiscal do Rio está bem encaminhada | Agência  Brasil

Há algum tempo sabe-se que o Banco Master se equilibrava em meio a um mar de dificuldades criadas pela gestão imprudente (e agora se sabe criminosa) de grandes somas de recursos de um número ainda desconhecido de investidores.  Apesar da situação calamitosa em que se encontrava, o governador Cláudio Castro e sua equipe decidiram colocar no Master algo em torno de R$ 1 bilhão de recursos do fundo próprio de previdência dos servidores públicos estaduais do Rio de Janeiro, o RioPrevidência.

E é importante frisar que isso foi feito à revelia de pareceres técnicos emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/RJ) que apontavam para “graves irregularidades no processo de alocação de recursos do Rioprevidência” em letras financeiras do Master”. Apesar disso,  de acordo com os pareceres dos técnicos do TCE/RJ,  o volume de aportes entre 2024 e 2025 no grupo do Banco Master atingiu R$ 2,6 bilhões – de acordo com o TCE, o correspondente  a mais de 25% de todos os recursos aplicados pelo RioPrevidência.

Agora que a barca do Banco Master afundou fica provado que os técnicos do TCE/RJ estavam cobertos de razão em apontar para os problemas cercando os investimentos de recursos do RioPrevidência em uma instituição financeira que já exalava um forte cheiro de que iria ter um destino inglório.

Como objetivamente estamos diante de uma ação com graves e prolongados prejuízos para o RioPrevidência, ameaçando sim o pagamento de pensões e aposentadorias dos servidores públicos estaduais, há que se demandar que os culpados por essa alocação bilionária de recursos no Master sejam todos identificados e exemplarmente punidos dentro dos rigores da lei.

E agora vamos ver como se vira o governador Cláudio Castro sobre quem repousa a maior responsabilidade, já que é o chefe do executivo estadual, de ter colocado um dinheiro que pertence aos servidores públicos estaduais em uma instituição que colapsou.