El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

A Amazônia está secando: o desmatamento empurra a floresta para o ponto de ruptura

Novo estudo publicado na Nature revela que a destruição da floresta reduz a reciclagem de umidade, intensifica secas e pode provocar um colapso climático em larga escala ainda neste século

A Amazônia está mais perto do ponto de ruptura do que imaginávamos.  Um novo estudo publicado na revista científica Nature alerta que o desmatamento está reduzindo drasticamente a capacidade da floresta de produzir sua própria chuva — e isso pode empurrar o maior bioma tropical do planeta para uma transição ecológica irreversível ainda neste século.

Segundo os pesquisadores, o problema não é apenas o aquecimento global isoladamente. O verdadeiro perigo surge da combinação entre mudanças climáticas, secas extremas e avanço do desmatamento. Juntos, esses fatores enfraquecem o mecanismo que mantém a floresta viva: a reciclagem de umidade atmosférica.

A floresta que fabrica chuva

A Amazônia funciona como uma gigantesca bomba de umidade. As árvores absorvem água do solo e a devolvem à atmosfera por meio da transpiração. Esse vapor forma nuvens e gera novas chuvas, criando um ciclo essencial para a própria sobrevivência da floresta.

Os cientistas estimam que até metade da chuva que cai sobre a Amazônia é produzida pela própria floresta. Sem essa reciclagem, o sistema perde estabilidade.

E há um detalhe decisivo: o desmatamento rompe justamente esse mecanismo.

Quando áreas florestais são derrubadas, menos água evapora para a atmosfera. O ar se torna mais seco, as estações secas ficam mais longas e a floresta remanescente passa a sofrer um estresse hídrico crescente. O resultado é um efeito dominó: regiões desmatadas reduzem as chuvas em áreas vizinhas, que também começam a secar.

O risco das “transições em cascata”

O estudo mostra que o maior perigo não está apenas na perda local da vegetação, mas nas chamadas “transições em cascata”.

Na prática, isso significa que o colapso de uma área pode desencadear o colapso de outras regiões a centenas ou até milhares de quilômetros de distância. Como a umidade circula pela atmosfera, a degradação da floresta se espalha pela rede climática amazônica.

Os pesquisadores descobriram que essas cascatas respondem pela imensa maioria das transições simuladas.

Ou seja: a Amazônia não entra em colapso apenas porque fica mais quente. Ela entra em colapso porque deixa de conseguir produzir e distribuir chuva para si mesma.

Um limite perigoso já pode estar próximo

Sem considerar o desmatamento, o estudo estima que a Amazônia enfrentaria um risco crítico de instabilidade em níveis de aquecimento global entre 3,7 °C e 4 °C.

Mas quando o desmatamento entra na conta, o cenário muda radicalmente.

Os pesquisadores concluíram que uma transição sistêmica pode ocorrer com um aquecimento muito menor — entre 1,5 °C e 1,9 °C — combinado a níveis de desmatamento entre 22% e 28% da floresta.

Hoje, o desmatamento acumulado da Amazônia já ultrapassa 15% do bioma.

Isso significa que o sistema pode estar perigosamente próximo de um limiar crítico.

O oeste amazônico pode ser o mais vulnerável

Um dos resultados mais preocupantes do estudo é a identificação das regiões oeste e sudoeste da Amazônia como particularmente vulneráveis.

Essas áreas dependem fortemente da umidade transportada por outras partes da floresta. Quando o desmatamento avança no sul e no leste — especialmente no chamado “arco do desmatamento” — a umidade deixa de chegar às regiões interiores.

A consequência pode ser devastadora: secas mais intensas, aumento de incêndios, perda de biodiversidade e transformação gradual da floresta em ecossistemas degradados, mais semelhantes a savanas secas.

Impactos muito além da Amazônia

Os efeitos não ficariam restritos ao Norte do Brasil.

A Amazônia influencia diretamente os chamados “rios voadores”, correntes atmosféricas que transportam umidade para outras regiões da América do Sul. O enfraquecimento desse sistema ameaça a disponibilidade hídrica e a produtividade agrícola em áreas fundamentais para a economia continental.

Os pesquisadores alertam que regiões agrícolas do sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e da bacia do Rio da Prata podem sofrer impactos severos.

Isso significa risco para a produção de alimentos, geração de energia hidrelétrica e abastecimento urbano.

Um alerta global

O estudo reforça algo que cientistas vêm dizendo há décadas: proteger a Amazônia não é apenas uma questão ambiental regional. Trata-se de um tema central para a estabilidade climática do planeta.

A floresta amazônica é um dos maiores reguladores climáticos da Terra e desempenha papel decisivo no armazenamento de carbono, na circulação atmosférica e no equilíbrio hidrológico sul-americano.

Se a floresta perder sua capacidade de se autorregular, o mundo inteiro sentirá as consequências.

Ainda há tempo — mas a janela está se fechando

Apesar do cenário alarmante, os pesquisadores afirmam que a transição não é inevitável.

O estudo aponta que interromper o desmatamento e restaurar áreas degradadas pode fortalecer novamente a reciclagem de umidade e aumentar a resiliência da floresta.

Projetos de restauração ecológica, especialmente nas áreas mais degradadas do arco do desmatamento, podem funcionar como barreiras contra o avanço do colapso climático.

Mas o tempo é curto.

Cada hectare derrubado não representa apenas a perda de árvores. Representa também menos chuva, mais calor, mais seca e uma floresta progressivamente incapaz de sustentar a si mesma.

A Amazônia não está apenas sendo destruída. Ela está sendo desconectada do sistema climático que a mantém viva.

Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

Liderados por cientistas do Inpe, estudos recém-publicados indicam prolongamento de quatro para até seis meses da estação seca, com aumento de déficit hídrico em mais de 150 milímetros; trabalhos são alerta para 2026 e 2027, quando há previsão de “super El Niño”

Por Luciana Constantino para Agência FAPESP 

A Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas, apontam dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas.

Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um “super El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo.

outro trabalho, que está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño. Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção.

“Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, complementa Anderson, que lidera o laboratório TREES (sigla para TRopical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Construindo modelos

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas.

O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento.

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas.

Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Costurando ciência e iniciativas práticas

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa. Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional “State of Wildfires 2024-2025”.

Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026. “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora.

Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos – 21/04019-4, 20/08916-8, 25/28244-8 e 25/07124-4, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

Os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development podem ser lidos, respectivamente, em: rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331 e sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064426000295.


Fonte: Agência Fapesp
 

Rio de Janeiro será sede de encontro anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios

Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios

Local: Rua da Lapa, 107 (Partisan)

Programação:

20/11

10h – Marcha da Periferia no viaduto Negrão de Lima (Madureira)

18h- Mesa 1: Abertura

Cyro Garcia (PSTU), Renato Cinco (GEEM), Pedro Aranha (Coalizão pelo Clima), Bruno Cruz (Marx Carioca), Plinio de Arruda Sampaio Jr (Contrapoder), Leandro Lanfredi (MRT), José Dalmo (Emancipação Socialista), Babá (CST), Alexandre Samis (IEL) Matilde Alvim (Climáximo), Aline Castro (PCBR), Leonardo Kaplan (Asduerj), Júlio Santos (MFSR)

21/ 11

9h – Mesa 2:  Genocídios Capitalistas: da Palestina às Favelas

Osmarino Amâncio (seringueiro), José Gomes Hata (Movimento 3a Divisão – Angola), Rita Passos (IPPUR/UFRJ), Julio Condaque (Quilombo Raça e Classe)

14h- Mesa 3:  Movimentos populares e luta ambiental

Avabrum (Brumadinho), Campanha do Caô Climático, Rio sem Óleo, Jovens Defensores Populares pelo Clima na Baixada, FormigAção-ATB.

Mediação: Flavia Braga Vieira (UFRRJ)

18h –  Mesa 4:  O Colapso ambiental e a crise do capital: um diagnóstico

Luis Marques (Unicamp), Erica Andreassy (Ilaese), Marcelo Lopes de Souza (UFRJ), Rhian de Medeiros Vieira Soares (PCBR)

22/11

9h – Mesa 5:  Capitalismo Verde e negacionismo sutil

Leonardo Kaplan (Asduerj), Ivan Targino (Sindicato Metabase Inconfidentes), Renato Cinco (GEEM), Bárbara Sinedino (CST).

Mediação: Pedro Aranha

14h mesa 6: Lançamento de livros

Julio Condaque (Os Territórios Indígenas e Quilombolas na zona Matopiba), Luiz Marques (Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida), Eduardo Sá Barreto (Pequeno guia para a crítica ecossocialista do capitalismo), Sinan Eden (Uma Teoria Revolucionária para Interromper o Colapso Climático) Carta de Direitos Climáticos Rebio do Tinguá

19h Mesa 7:  A classe trabalhadora e o colapso ambiental: um programa anticapitalista

Eduardo Sá Barreto (UFF), Plinio de Arruda Jr (Unicamp), Jefferson Choma (Canal Ecologia e Política Marxista), Matilde Alvim (Climáximo),

Mediação: Ana Lídia

23/11

14h Marcha anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios

Concentração na praia de Copacabana em frente a rua Prado Junior

O clima ameaça uma ‘cascata de pontos de inflexão’

Líderes mundiais devem tomar “medidas imediatas e sem precedentes” para evitar pontos de inflexão climáticos devastadores, dizem especialistas

“Os recifes de corais tropicais ultrapassaram seu ponto crítico”. Imagem: mariejirousek .

Por Brendan Montague para o “The Ecologist”

Especialistas em pontos de inflexão ecológicos alertaram que bilhões de pessoas estão em risco, já que o aquecimento global deve ultrapassar 1,5°C dentro de alguns anos.

Uma Conferência Global Tipping Points em Exeter, com quase 200 delegados neste mês, endossou uma declaração pedindo ação dos formuladores de políticas — especialmente dos líderes reunidos na cúpula climática COP30 no Brasil ainda este ano.

Eles afirmam: “Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto crítico e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles.”

Crítico

E alertam que uma série de outros pontos de inflexão – incluindo o colapso de correntes oceânicas cruciais e a extinção da floresta amazônica – pode se seguir. Cada fração de grau acima de 1,5°C importa. E cada ano de “excesso” também importa.

A presidência brasileira da COP30 destacou repetidamente os pontos de inflexão em suas comunicações , e a nova declaração se junta aos organizadores da COP no apelo aos governos para que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas sociedades e economias.

Ao fazer isso, eles podem reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa e proteger e restaurar os ecossistemas que fornecem sistemas essenciais de suporte à vida.

Acionamento

O professor Tim Lenton, do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter, disse: “Precisamos de políticas decisivas e de ações da sociedade civil – isso é fundamental para os direitos humanos e a saúde planetária e, em última análise, é uma questão de sobrevivência”.

Mike Barrett, Conselheiro Científico Chefe do WWF, afirmou: “Os riscos de pontos de inflexão globais são reais e as consequências, catastróficas. E se esperarmos até sentirmos os impactos, saberemos também que já é tarde demais para agir.” 

Para minimizar a ultrapassagem, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação aos níveis de 2010.

A boa notícia é que sabemos o que fazer para evitar isso – principalmente restaurando a natureza e fazendo a transição dos sistemas energético e alimentar. Mas a hora de agir é agora. Mais tarde já é tarde demais.

Governos e empresas devem alinhar rapidamente suas políticas e fluxos financeiros para limitar o aquecimento global e interromper a destruição da natureza, minimizando o risco de desencadear novos pontos de inflexão perigosos. Em vez disso, devemos catalisar pontos de inflexão positivos, especialmente na restauração da natureza, que é uma das nossas principais aliadas no combate às mudanças climáticas. 

A declaração completa

A previsão é de que o aquecimento global exceda 1,5°C dentro de alguns anos, colocando a humanidade na zona de perigo, onde vários pontos de inflexão climática representam riscos catastróficos para bilhões de pessoas. 

Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto de inflexão e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando a subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles. O aquecimento atual ativou essas mudanças irreversíveis, e cada fração de aquecimento adicional aumenta drasticamente o risco de desencadear novos pontos de inflexão prejudiciais.

Isso inclui um colapso da formação de águas profundas nos mares de Labrador-Irminger, desencadeando mudanças climáticas abruptas que reduzem a segurança alimentar e hídrica no noroeste da Europa e na África Ocidental. 

Particularmente alarmante é o risco de colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), que mergulharia o noroeste da Europa em invernos rigorosos e prolongados, ao mesmo tempo em que comprometeria radicalmente a segurança alimentar e hídrica global. A floresta amazônica também corre o risco de uma morte generalizada devido aos efeitos combinados das mudanças climáticas e do desmatamento.

A janela para evitar essas dinâmicas climáticas em cascata está se fechando rapidamente, exigindo ações imediatas e sem precedentes dos formuladores de políticas em todo o mundo, especialmente dos líderes na COP30. Este é um imperativo de direitos humanos e saúde planetária e, em última análise, uma questão de sobrevivência.

Tecnologias

Fundamental para prevenir pontos de inflexão climática é minimizar tanto a magnitude quanto a duração do excesso de temperatura acima de 1,5 °C. Cada ano e cada fração de grau acima de 1,5 °C são importantes. 

Para minimizar o excesso de emissões, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2010, exigindo uma aceleração sem precedentes na descarbonização. Só assim o mundo poderá atingir emissões líquidas zero a tempo de atingir o pico de temperaturas globais bem abaixo de 2°C e começar a retornar a 1,5°C, e depois abaixo dele. Isso também exigirá o aumento da escala da remoção sustentável de carbono da atmosfera.

As atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e as metas vinculativas de longo prazo limitarão o aquecimento global apenas a cerca de 2,1°C. Portanto, apelamos a todas as nações que atualizam suas NDCs para o prazo de setembro de 2025 para que estabeleçam metas consistentes com a minimização da ultrapassagem de 1,5°C.

Para atingir essas metas, unimo-nos à Presidência da COP30 no apelo aos governos para que implementem políticas que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas economias e sociedades, gerando mudanças autopropulsoras em tecnologias e comportamentos rumo à emissão zero. Também apoiamos a iniciativa Mutirão Global para catalisar a ação coletiva da sociedade civil e ajudar a desencadear pontos de inflexão positivos para alcançar objetivos climáticos comuns.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar 75% das emissões de gases de efeito estufa vinculadas ao sistema energético e a fazer a transição dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa, apelamos aos formuladores de políticas para adotar (e aplicar) mandatos políticos ambiciosos para introduzir gradualmente tecnologias limpas e eliminar gradualmente as tecnologias movidas a combustíveis fósseis. 

Trajetória

Isso inclui proibições à venda futura de carros a gasolina/diesel, caminhões a diesel e caldeiras a gás. Para tecnologias menos maduras, como hidrogênio verde, amônia verde e aço verde, pedimos maior investimento em pesquisa, desenvolvimento e implantação.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar os 25% das emissões de gases de efeito estufa associadas à alimentação, agricultura e desmatamento, apelamos aos formuladores de políticas para que adotem políticas comerciais que catalisem a produção sustentável de commodities e transfiram recursos públicos do setor pecuário para proteínas de origem vegetal. Isso também ajudará a limitar o risco de pontos de inflexão na biosfera – incluindo a morte da floresta amazônica – e poderá liberar terras para a regeneração da natureza.

Para desencadear pontos de inflexão positivos de regeneração da natureza que ampliem a remoção sustentável de CO2 da atmosfera, pedimos ações políticas e da sociedade civil para proteger os direitos indígenas, apoiar iniciativas de conservação lideradas pela comunidade e garantir a valorização justa e transparente da natureza. 

Isso ajudará a atingir as metas do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal de restaurar 30% dos ecossistemas degradados e conservar 30% das terras, águas e mares. É essencial para limitar a ultrapassagem de 1,5°C.

Somente com políticas tão decisivas e ações da sociedade civil o mundo poderá mudar sua trajetória, deixando de enfrentar riscos climáticos incontroláveis e passando a aproveitar oportunidades positivas.


Fonte: The Ecologist

Congresso brasileiro assassina a proteção climática

Parlamento brasileiro aprova projeto de lei que acelera destruição de biomas elementares. Presidente Lula é instado a vetar medida

A nova lei abre caminho para mais desmatamento no Brasil (Porto Velho, 6 de fevereiro de 2025)

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Poucas semanas antes da primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas na Amazônia (a COP 30), o Congresso brasileiro ignora a proteção do clima e das florestas tropicais. Após o Senado Federal, em Brasília, aprovar o projeto de lei conhecido como “PL 2159/2021” em junho, 267 parlamentares federais votaram a favor da “Lei da Devastação”, que foi fortemente contestada por cientistas e ambientalistas, na noite de quarta para quinta-feira. Apenas 116 parlamentares votaram contra, o que efetivamente enfraquece as normas nacionais de proteção ambiental.

Agora, não é só a Amazônia que está ameaçada de colapso. As leis que protegem a Mata Atlântica, de extrema biodiversidade, e todos os outros biomas brasileiros também estão sendo enfraquecidas. Toda a esperança agora está no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só ele pode impedir a lei com seu veto.

O projeto de lei prevê um processo de autoaprovação para projetos de estradas e mineração que possam causar desastres ambientais graves, alertou Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, antes da votação. Sob o argumento da desburocratização, todos os procedimentos de aprovação ambiental para projetos com impactos “baixos ou médios” seriam abolidos. A exploração de depósitos de petróleo no estuário amazônico, planejada pela Petrobras e apoiada pelo presidente Lula da Silva, por exemplo, se enquadra nessa categoria. “Este projeto apresenta o risco de poluição incontrolável por óleo devido à profundidade da água e às complexas correntes oceânicas na área”, disse Fearnside. Além disso, investimentos em projetos petrolíferos são geralmente incompatíveis com a proteção climática pretendida.

O PL 2159/2021 também abre caminho para a restauração e pavimentação da rodovia BR-319, de Manaus a Porto Velho, também defendida pelo governo Lula da Silva. Pesquisadores de clima e ecossistemas como Fearnside temem que este projeto de construção de estrada, juntamente com outras estradas secundárias planejadas, exponha vastas áreas de floresta tropical ainda intacta no coração da Amazônia ao desmatamento, podendo levar ao colapso da maior região de floresta tropical do planeta.

O mesmo sentimento é compartilhado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada em Recife. “O projeto de lei ignora descaradamente a emergência climática que a humanidade enfrenta e o fato de que quatro biomas brasileiros — a Floresta Amazônica, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga — estão muito próximos do chamado ponto sem retorno”, afirmou a SBPC. Esses biomas estão agora ameaçados de colapso ecológico.

Diante dessas potenciais consequências, a Academia de Ciências do Rio de Janeiro também solicitou, sem sucesso, ao Senado Federal em Brasília a suspensão da votação. “A aprovação precipitada de um projeto de lei com implicações tão significativas, sem debate adequado com a sociedade e a comunidade científica, coloca em risco o futuro do país”, disse sua presidente, Helena Bonciani Nader. Isso enfraquece “instrumentos essenciais de proteção ambiental sob a falsa promessa de eficiência, ignorando evidências dos riscos da degradação ambiental para os biomas, a segurança pública e o desenvolvimento sustentável”. É “inaceitável que sejam apresentadas propostas que desvalorizem compromissos ambientais internacionalmente reconhecidos e enfraqueçam marcos legais fundamentais”, criticou Nader, visando a COP 30.

Já em 1º de junho, grupos ambientalistas e movimentos sociais em todo o Brasil convocaram manifestações contra o projeto de lei, mas essas manifestações receberam pouca atenção da mídia e do público em geral. “É profundamente lamentável que o Congresso tenha ignorado os alertas da ciência e as demandas da sociedade civil. Agora cabe ao Presidente Lula assumir sua responsabilidade, demonstrar seu compromisso com o clima, as pessoas e o meio ambiente e bloquear todo o texto”, comentou a organização internacional de conservação WWF sobre a votação. “Ainda é possível evitar uma tragédia de proporções sem precedentes.”


Fonte: JungeWelt

Divulgação: Encontro anticapitalista pelo clima e pelo fim dos genocídios

O colapso ambiental produzido desde a Revolução Industrial pelo capitalismo já é uma realidade e as populações do planeta já sentem seus efeitos, especialmente os mais vulneráveis.

O capitalismo, por sua natureza necessariamente expansiva, é insustentável, incapaz sequer de reduzir a aceleração da destruição. Com a ascensão de Trump à presidência dos EUA, foram escancaradas políticas imperialistas de aumentar a destruição e saque dos bens naturais comuns em todo o globo e uma ruptura com o discurso de capitalismo verde.

O contraponto empresarial e de governos capitalistas a Trump é a verdadeira lenga-lenga ambiental. Estão mais preocupados em salvar o capitalismo do que as pessoas, a fauna e a flora. As empresas e as instituições burguesas, incluindo a ONU e suas COPs, investem em falsas soluções e na ilusão da possibilidade de um capitalismo verde e sustentável.

No Brasil, Lula e a esquerda da ordem, incapazes de qualquer vislumbre de superação do capitalismo, cumprem o destino de todos os reformistas diante do colapso ambiental e praticam o negacionismo sutil. Não negam que existe uma questão ambiental, mas relutam em falar em colapso e seus discursos não encontram eco na realidade das “políticas de desenvolvimento” apoiadas pelo governo.

Empenhado em favorecer o agronegócio latifundiário e a mineração, Lula viaja pelo mundo buscando acordos que permitam a expansão da exportação de grãos, gado e minério.

Para viabilizar tal expansão, investem em projetos altamente destrutivos – as “Rotas de Integração Sul-Americana”, que incluem a pavimentação da BR-319, a Ferrogrão e a hidrovia transpantaneira; a expansão da produção de petróleo, inclusive na Amazônia; a construção de novas hidrelétricas e de “fazendas” eólicas e solares.

Recentemente assistimos estarrecidos à aprovação pelo Senado da Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que tem como objetivo destruir qualquer freio aos projetos do capital. Na contramão de proteger o meio ambiente, o Congresso está às vésperas de liberar a devastação. A destruição da legislação ambiental que agora se discute em âmbito federal já é realidade em muitos estados, inclusive estados governados por petistas há muitos anos, como Bahia e Piauí.

Diante deste cenário, a classe trabalhadora precisa entrar em campo com seu próprio programa pela sobrevivência, em defesa da vida e contra a desigualdade.

Por isso, no mês de novembro, em contraponto à COP 30 e suas falsas soluções, ocorrerá, na cidade do Rio de Janeiro, o Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios, com os seguintes objetivos:

1-  Denunciar o caráter insustentável do capitalismo, a impossibilidade de um capitalismo verde e sequer da redução do ritmo de destruição sem a superação deste modo de produção.

2- Denunciar as instituições capitalistas, empresas, Estados e organismos internacionais (ONU, COPs, G20 etc.) e suas falsas soluções.

3- Denunciar o negacionismo e o caráter destrutivo da política ambiental do Estado brasileiro, incluindo o governo Lula.

4- Promover o debate sobre o significado da ruptura com o capitalismo, bem como o programa, as táticas e as estratégias necessárias para este objetivo.

5- Colaborar para a articulação das lutas ambientais concretas travadas pelos trabalhadores e o povo.

6- Contribuir no desenvolvimento das lutas contra o imperialismo e na denúncia de todos os genocídios em curso, em particular apoiando a luta do povo palestino contra o estado colonialista e racista de Israel.

O encontro da militância e das organizações que não se iludem com o capitalismo, suas empresas e instituições é fundamental diante da necessidade de atuarmos concretamente pela superação deste modo de produção como condição para que a humanidade possa começar a responder adequadamente ao colapso ambiental.

Nossa iniciativa é ousada e está apenas começando a ser construída. Em busca de ampliar as adesões, a Comissão Organizadora está convocando uma plenária de apresentação para outros coletivos, organizações e militantes no dia 2 de julho às 18 horas na UERJ Maracanã (RAV 122).

Comissão Organizadora – MRT, Emancipação Socialista, PSTU, Coalizão pelo Clima, Marx Comenta, Geem e Cecip

O escurecimento dos oceanos do planeta representa uma ameaça à vida marinha, dizem cientistas

A faixa de água onde a vida marinha pode sobreviver diminuiu em mais de um quinto do oceano global entre 2003 e 2022

As mudanças nas zonas fóticas globais entre 2003 e 2022 são mostradas com áreas vermelhas para indicar o escurecimento do oceano e o clareamento do azul. Ilustração: Thomas Davies/Universidade de Plymouth

Por Ian Sample para o “The Guardian”

Grandes áreas dos oceanos do planeta ficaram mais escuras nas últimas duas décadas, de acordo com pesquisadores que temem que essa tendência tenha um impacto severo na vida marinha ao redor do mundo.

Dados de satélite e modelagem numérica revelaram que mais de um quinto do oceano global escureceu entre 2003 e 2022, reduzindo a faixa de água na qual a vida dependente da luz solar e da luz lunar pode prosperar.

O efeito é evidente em 75 milhões de quilômetros quadrados de oceano, o equivalente à área terrestre da Europa, África, China e América do Norte juntas, e perturba a camada superior da água, onde vivem 90% das espécies marinhas.

O Dr. Thomas Davies, conservacionista marinho da Universidade de Plymouth, disse que as descobertas eram um “motivo genuíno de preocupação”, com implicações potencialmente graves para os ecossistemas marinhos, as pescarias globais e a rotatividade crítica de carbono e nutrientes nos oceanos.

A maior parte da vida marinha prospera nas zonas fóticas dos oceanos do mundo, as camadas superficiais que permitem a passagem de luz suficiente para os organismos explorarem. Embora a luz solar possa atingir um quilômetro abaixo das ondas, na prática, há pouco menos de 200 metros.

Essa faixa superior de água é onde organismos microscópicos semelhantes a plantas, chamados fitoplâncton, realizam a fotossíntese. Esses organismos sustentam praticamente todas as teias alimentares marinhas e geram quase metade do oxigênio do planeta. Muitos peixes, mamíferos marinhos e outras criaturas caçam, se alimentam e se reproduzem nas águas mais quentes das zonas fóticas, onde o alimento é mais abundante.

Davies e seus colegas utilizaram dados de satélite e um algoritmo usado para medir a luz na água do mar para calcular a profundidade das zonas fóticas ao redor do mundo. O escurecimento afetou 21% do oceano global nos 20 anos até 2022. Em 9% do oceano, isso fez com que as zonas fóticas ficassem 50 metros mais rasas, enquanto em 2,6% do oceano, as zonas ficaram 100 metros mais rasas. Detalhes deste estudo aparecem na Global Change Biology .

Os oceanos escurecem quando a luz tem mais dificuldade para penetrar na água. Isso é frequentemente observado ao longo do litoral, onde ressurgências de água fria e rica em nutrientes sobem à superfície e onde a chuva arrasta nutrientes e sedimentos da terra para a água.

Os fatores que contribuem para o escurecimento em áreas distantes da costa são menos claros, mas acredita-se que o aquecimento global e as mudanças nas correntes oceânicas estejam envolvidos. “As áreas onde há grandes mudanças na circulação oceânica, ou aquecimento oceânico causado pelas mudanças climáticas, parecem estar escurecendo, como o Oceano Antártico e a Corrente do Golfo, passando pela Groenlândia”, disse Davies.

Apesar do escurecimento geral, cerca de 10% do oceano, ou 37 milhões de km², ficaram mais claros nos últimos 20 anos, segundo o estudo. Ao largo da costa oeste da Irlanda, por exemplo, uma área muito grande do oceano ficou mais clara, mas mais distante escureceu.

“Os organismos marinhos usam a luz para uma variedade de propósitos. Eles a usam para caçar, para acasalar, para cronometrar eventos reprodutivos. Eles a usam para basicamente todas as partes da sua biologia”, disse Davies. “Com o escurecimento do oceano, eles precisam subir na coluna d’água, e há menos espaço, todos sendo espremidos em direção à superfície.”

O professor Oliver Zielinski, diretor do Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico, na Alemanha, disse que o escurecimento de vastas áreas oceânicas era uma “tendência preocupante”.

“Tais mudanças podem perturbar as cadeias alimentares marinhas, alterar a distribuição de espécies e enfraquecer a capacidade do oceano de sustentar a biodiversidade e regular o clima”, afirmou. “Os mares costeiros, por serem os mais próximos da atividade humana, são particularmente vulneráveis, e sua resiliência é crucial tanto para a saúde ecológica quanto para o bem-estar humano.”


Fonte: The Guardian

Uma corrente ocêanica em perigo: a corrente Circumpolar da Antártica pode desacelerar, com consequências drásticas

O derretimento do gelo enfraquece as correntes oceânicas ao redor da Antártica. Foto: iStock/ad_foto
Por Bárbara Barkhausen para o Neues Deutschland 

Para muitos, a Antártica é um continente quase mítico: distante de tudo e – pelo menos para a maioria de nós – não muito acessível ou tangível. Mas o continente, que é composto de 98% de gelo, é de grande importância para a ciência devido ao seu profundo impacto no clima e nos oceanos da Terra. “Enclausurado na camada de gelo de  4 km de espessura está um arquivo único do clima do nosso planeta nos últimos milhões de anos”, diz o British Antarctic Survey , não sem razão .

A poderosa  Corrente Circumpolar Antártica  (CCA) se move pelas águas que cercam esta região inóspita. A CCA é cinco vezes mais forte que a Corrente do Golfo e faz parte da correia transportadora oceânica global que conecta os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. O sistema regula o clima da Terra e bombeia água, calor e nutrientes ao redor do globo.

Durante anos, pesquisadores alertaram repetidamente que a água doce e fria do derretimento do gelo da Antártica está diluindo a água salgada do oceano e potencialmente interrompendo correntes oceânicas vitais. Agora, uma equipe da Universidade de Melbourne e do centro de pesquisa norueguês Norce mostra que, em um cenário com altas emissões de dióxido de carbono, o fluxo provavelmente diminuirá em cerca de 20% até 2050.

“O oceano é extremamente complexo e finamente equilibrado”, disse Bishakhdatta Gayen, da Universidade de Melbourne, um dos autores do estudo publicado na revista Environmental Research Letters . Se seu motor atual entrasse em colapso, isso poderia ter consequências de longo alcance para a vida na Terra: o clima poderia flutuar mais no futuro, com eventos climáticos mais extremos em certas regiões. Além disso, o aquecimento global poderia progredir ainda mais rápido porque os oceanos seriam menos capazes de absorver CO2 e, portanto, agiriam menos como sumidouros de carbono.

Em um artigo científico sobre o assunto, os pesquisadores também comparam a Corrente Circumpolar Antártica “a uma trincheira ao redor do continente gelado”. “A corrente ajuda a manter a água quente do lado de fora, protegendo assim as frágeis superfícies de gelo”, escrevem Gayen e seu colega Taimoor Sohail. Ele também atua como uma barreira contra espécies invasoras e desempenha um papel importante na regulação do clima da Terra. Avanços na modelagem oceânica e o acesso ao maior supercomputador da Austrália, o “ Gadi “, agora permitiram uma investigação completa de possíveis mudanças. Quando a água fria e doce do degelo da Antártica migra para o norte, prevê-se que isso levará a mudanças significativas na estrutura de densidade do oceano. Se as correntes enfraquecerem, como mostra a modelagem, isso poderá afetar a biodiversidade e a pesca, das quais muitas comunidades costeiras dependem. Além disso, espécies invasoras, como a alga marinha gigante do sul, podem invadir a Antártida e perturbar os ecossistemas e as cadeias alimentares locais.

No entanto, de acordo com a equipe de pesquisa, uma corrente mais fraca também poderia levar mais água quente a se mover para o sul, o que agravaria ainda mais o derretimento das plataformas de gelo da Antártica e, assim, contribuiria para o aumento global do nível do mar. “Um derretimento mais rápido do gelo poderia levar a um enfraquecimento ainda maior da corrente”, explicam os cientistas. Um verdadeiro círculo vicioso.

A nova e sombria previsão para a Corrente Circumpolar Antártica é consistente com cenários traçados anteriormente. No entanto, os cientistas não querem pintar um quadro apocalíptico. O futuro não é predeterminado, enfatizam Sohail e Gayen. Esforços conjuntos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa podem limitar ainda mais o degelo ao redor da Antártida.


Fonte: Neues Deutschland

Conversão de florestas em pastos e cidades afeta o clima na Amazônia

Mudança de uso de solo e seca na Amazônia contribui para mudanças climáticas ameaça segurança alimentar e ecossistema 

Áreas da Floresta Amazônica convertidas em pastos e cidades têm maior amplitude térmica, menor umidade, maior reflexão da luz solar e perda de eficiência na regulação do clima. Essas são algumas das conclusões obtidas pelo estudo “Microclima no Cenário de Floresta, Pastagem e Cidade no Sudoeste da Amazônia”, publicado na “Revista Brasileira de Meteorologia”. O trabalho, realizado em colaboração entre o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), indica que é preciso equilibrar os efeitos das atividades humanas para reduzir os impactos negativos dessas transformações. 

Para avaliar se mudanças no uso e na cobertura do solo podem afetar as variáveis micrometeorológicas em florestas, os pesquisadores coletaram dados sobre temperatura, radiação solar, chuva e umidade do ar em três ambientes distintos: florestas, pastagens e cidades. As medições ocorreram em Rondônia, sudoeste da Amazônia, em 2017. Com base nas informações amostrais e em estudos anteriores, a equipe calculou possíveis diferenças nos parâmetros entre os tipos de cobertura e comparou os resultados por meio de análises estatísticas.

Entre os principais resultados, destacam-se a redução da umidade nos ambientes antropizados e uma diferença de 2°C na amplitude térmica diária, ou seja, na diferença entre as temperaturas máximas e mínimas do dia. Pastagens e cidades apresentaram uma variação térmica maior. “O processo de remoção das florestas em Rondônia vem sucedido por pastagens e cidades, que são paisagens homogêneas e modificam toda a dinâmica local; elas acabam contribuindo menos com a evapotranspiração e aquecendo mais, tornando o local mais seco e mais quente”, alerta Bárbara Antonucci, primeira autora do estudo. O conceito de evapotranspiração abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas

A conversão de florestas em pastagens e áreas urbanas também elevou a capacidade de reflexão da luz solar, um fenômeno conhecido como albedo. A maior variação foi observada na substituição da floresta pela cidade, resultando em um aumento de 264%. “O albedo indica o quanto de luz é refletida, como em um espelho”, diz a pesquisadora. Ela explica que, nas florestas, a luz solar é absorvida e utilizada, principalmente, em três processos: aquecimento do ar, fotossíntese e evapotranspiração. No entanto, nas áreas urbanas analisadas, apenas uma pequena fração é aproveitada na fotossíntese e o restante se converte em calor. “Vimos que as cidades e pastagens, superfícies com maior albedo, refletem mais luz, acumulam menos energia e tendem a ser mais quentes”, complementa.

Segundo Antonucci, além de alterar o microclima, as mudanças identificadas podem ter impactos importantes na biodiversidade local e nas atividades econômicas que dependem do clima e do solo, por exemplo. “A interrupção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas florestas, como evapotranspiração, regulação térmica e sombreamento, pode levar ao agravamento de extremos climáticos”, diz a autora. “Ainda, a maior vulnerabilidade dessas áreas pode comprometer a agricultura, tornando as atividades produtivas mais suscetíveis a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuvas, o que também afetaria a segurança alimentar e a economia local”, acrescenta.

Para ela, ações de mitigação e preparo são urgentes para lidar com os possíveis impactos da conversão florestal em ambientes antropizados. “Uma medida essencial é a adoção de estratégias para cidades mais resilientes, como a arborização, e o reconhecimento dos serviços ambientais prestados historicamente por populações tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e comunidades indígenas”, sugere Antonucci. 

A autora argumenta que políticas públicas devem priorizar incentivos à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais e defende que é imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os saberes locais. Nesse sentido, a equipe de pesquisadores visa, agora, aprofundar as análises micrometeorológicas da região, identificar padrões e tendências e integrar os estudos com as comunidades locais, visando contribuir para mudanças de paradigmas.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-778640230038


Fonte: Agência Bori