Resiliência climática deve orientar o desenvolvimento urbano, defende novo relatório

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Em novo relatório do Climate Crisis Advisory Group (CCAG) lançado nesta quarta (20), especialistas globais em mudança climática argumentam que a resiliência climática deve ser adotada como um princípio orientador em todo o desenvolvimento urbano, dada a exposição extrema das cidades ao risco climático.

O estudo vem à tona na semana em que o Brasil enfrenta recordes históricos de temperaturas durante o inverno, com termômetros passando de 40o graus na maior parte do país — com exceção da região Sul, que sofre com chuvas e enchentes.

O Climate Crisis Advisory Group (CCAG) identifica três vertentes da resiliência climática e as principais áreas de foco da resiliência para ambos governos locais e nacionais: pessoas e meios de subsistência, economia e custos e cadeias de abastecimentos globais. Com relação às pessoas, o foco da resiliência estará nas localizações costeiras das cidades, na migração climática e no aumento da população urbana vulnerável em países mais pobres. Segundo o documento, a grande prioridade das estratégias de resiliência das cidades será proteger pessoas e meios de subsistência, com envolvimento da comunidade local.

Neste cenário, o custo econômico será superior a tudo o que foi experimentado até agora, com sobrecarga de estruturas existentes. Aumentar a resiliência e prevenir perdas econômicas deve guiar o planejamento e desenvolvimento urbano em cidades mais ricas. O foco da resiliência, em terceiro lugar, deve estar nas cadeias de abastecimento globais que, no momento, são frágeis. Diante de eventos climáticos extremos múltiplos, em várias regiões do globo, será preciso fortalecer essa cadeia para evitar a escassez de produtos e alimentos em todo o mundo.

O relatório também aponta que, embora as cidades “antigas” e “novas” enfrentem frequentemente riscos climáticos semelhantes, suas preocupações diferem. As cidades antigas, muitas vezes na Europa ou na América do Norte, visam proteger o que já existe de estrutura, com perdas econômicas e danos como sua principal preocupação. Em contraste, em novos centros urbanos, em rápida expansão, em países em desenvolvimento da Ásia, como Dhaka, em Bangladesh, muitas infraestruturas necessárias para a resiliência climática ainda precisam ser construídas. Assim, essas cidades enfrentam desafios mais dinâmicos e difíceis de navegar.

Neste contexto, as cidades brasileiras também precisam criar suas próprias estratégias de resiliência. “As mudanças climáticas estão intensificando o risco de inundações, secas e deslizamentos de terra, que terão efeitos devastadores em todo o Brasil. De acordo com o Banco Mundial, estes choques poderão levar até 3 milhões de pessoas à pobreza extrema já em 2030. No entanto, o processo de reforço da resiliência climática e de preservação do crescimento econômico deve ser equitativo e justo”, comenta o pesquisador Gustavo Alves Luedemann, membro do CCAG.

A maioria da população mundial vive em cidades – e, apesar de ocupar apenas 2% da superfície mundial, os centros urbanos representam mais de dois terços do consumo global de energia. O relatório argumenta que focar na redução de emissões de gases de efeito estufa nas cidades pode mudar a trajetória das emissões globais e evitar o pior cenário de aumento de temperatura. Ele cita três grandes pontos para chegar a uma cidade resiliente, com baixa emissão de carbono: finanças, coordenação e planejamento.

Os especialistas apontam a existência de uma lacuna atual no financiamento climático que se estima ser superior a 630 mil milhões de dólares por ano. O financiamento privado tem um papel claro a desempenhar na condução da mudança nas cidades para emissões líquidas zero, à medida que provavelmente proporcionará entre 80 a 90% do investimento total na transição nas próximas décadas. Apesar disso, o documento salienta que a maior parte do investimento privado continua a fluir para ativos com alto teor de carbono. Falhas de regulação e de mercado também fazem com que exista um desalinhamento de interesses entre financiadores, governos e sociedade com relação ao enfrentamento da crise climática. É preciso reverter esse processo e promover o investimento em cidades habitáveis com emissões líquidas zero.

Para isso, será preciso uma forte integração entre as múltiplas partes interessadas, com consistência e coerência na formulação de políticas, planos e regulamentos. Essa coordenação, segundo o relatório, está lado a lado com um planejamento de longo prazo, com regulamentos de construção de resiliência climática em cidades e orientações específicas.

O financiamento, o planejamento e a coordenação devem apontar todos na mesma direção: promover o clima resiliência nas cidades, reduzindo as emissões nas construções de prédios e estabelecendo políticas verdes de transporte público e tráfego. “Os governos também devem estabelecer caminhos e códigos obrigatórios para alcançar carbono zero para edifícios novos e antigos o mais rápido possível possível”, orientam os especialistas.

O relatório faz parte de uma série de análises feitas de forma independente pelo CCAG – e divulgadas, em primeira mão, para jornalistas brasileiros pela Agência Bori (veja relatórios anteriores aqui e aqui). O CCAG reúne 15 especialistas do clima de 10 países diferentes, com a missão de impactar na tomada de decisão sobre a crise climática.

Crise de confiança e promessas quebradas impedem progresso da COP26, alerta novo relatório

boris red

  • CCAG alerta que a quebra de confiança entre as nações está colocando em risco a meta do Acordo de Paris de 1,5°C após a COP26
  • Promessas quebradas continuam a atrapalhar as negociações, já que os países desenvolvidos não conseguem cumprir acordos financeiros prometidos em Copenhague 
  • Cooperação e colaboração em larga escala são necessárias para responsabilizar todas as nações de forma justa 

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O último relatório publicado hoje pelo Climate Crisis Advisory Group (CCAG) adverte que, ao fragmentar a confiança no sistema internacional, os países correm o risco de minar os esforços para resolver a crise climática após a COP26. O fracasso na entrega de fundos para ajudar nações em desenvolvimento a lidar com os impactos da crise e em compensar perdas e danos sofridos pelos países mais pobres são algumas das razões apontadas pelo grupo para essa quebra de confiança.

O Pacto de Glasgow, produzido como resultado da COP26, seguiu os passos do Acordo de Paris de 2015 e deu início a avanços reais na busca de limitar o aquecimento a 1,5°C. Adaptação, mitigação e financiamento receberam um impulso, e as regras sobre os mercados de carbono foram aprovadas. A importância da proteção, conservação e restauração da natureza e dos ecossistemas foi oficialmente reconhecida, e a “redução gradual” do carvão foi acordada.

Embora não haja mais ambigüidade em torno do caminho para resolver a crise climática, ainda permanecem dúvidas: atingiremos a velocidade de progresso necessária para garantir um futuro gerenciável para a humanidade? Por isso, o relatório do CCAG discute a velocidade com que as nações devem agir, refletindo sobre os obstáculos que continuam a prejudicar o progresso na COP26.

Os fundos prometidos até 2020 em Copenhague para ajudar países pobres a lidar com impactos da crise climática, da ordem de 100 bilhões de dólares, nunca se materializaram e dificilmente serão liberados até 2023. Segundo os pesquisadores do CCAG, esse é um golpe desastroso para a confiança entre as nações e cria uma noção predominante de países desenvolvidos propositalmente não agindo de boa fé.

Outro fator que contribui para a quebra de confiança entre nações é a falha em compensar perdas e danos de países pobres, enquanto a população de nações mais ricas pouco muda seu padrão de vida. “Embora o Pacto de Glasgow tenha estabelecido um cronograma para um diálogo futuro sobre recompensa pelas perdas e danos ocorridos nestes países e tenha garantido a inclusão do tema na agenda da próxima COP, o fracasso em fornecer um caminho imediato para os países necessitados diminui a confiança entre nações ricas e pobres”, alerta o CCAG.

Na avaliação de Mercedes Bustamante, pesquisadora da UnB e membro brasileira do CCAG, “o balanço na COP26 indica alguns avanços muito importantes como a definição de regras para o mercado de carbono, os acordos para conservação de florestas e redução de emissões de metano e a desaceleração no uso do carvão. Ela deixa, no entanto, questões cruciais ainda sem encaminhamentos, como as questões de justiça climática frente às desigualdades entre os países desenvolvidos, maiores emissores, e o países menos desenvolvidos e que já sofrem os maiores impactos da mudança do clima”.

Bustamante acredita que a COP26 pode ser base para mais iniciativas de enfrentamento à crise climática envolvendo outros atores, como empresas, bandos de desenvolvimento e organizações da sociedade civil e, ainda, faz uma avaliação sobre o papel do Brasil neste cenário. “Há muitas oportunidades para o Brasil desde que o país avance no campo das ações para o cumprimento das promessas e compromissos”, finaliza.

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Este texto foi produzido pela Agência Bori [Aqui!].