Ciência brasileira na fogueira: “despetização” chega à concessão de bolsas de pós-graduação no exterior

giordano bruno

Gravura reconstruindo a morte por fogo do frade dominicano italiano Giordano Bruno, que foi uma mente brilhante, capaz de desafiar os dogmas da igreja do seu tempo, sendo um exemplo da “despetização” promovida pela Inquisição na Itália.

Enquanto uma reportagem assinada pela jornalista Talita Fernandes e publicada pelo jornal “Folha de São Paulo” mostrava que a “despetização” promovida pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni [1], causou uma completa desarticulação de todo o corpo técnico daquela pasta, atrasando processos importantes para o próprio governo, uma nota na coluna do jornalista Lauro Jardim denunciava que este processo de caça ideológica chegou ao sistema nacional de ciência e tecnologia (ver imagem abaixo).

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A primeira coisa que precisa ser dita é que nos últimos anos o  Brasil, graças ao amadurecimento de seu próprio sistema nacional de pós-graduação, passou a tornar rara a conessão de bolsas de pós-graduação no exterior.  Tal redução teve como consequência o aumento exponencial da dificuldade de se obter este tipo de investimento estatal no que deveriam ser nossas melhores esperanças de futuros líderes da pesquisa nacional.

Além disso, é preciso que se diga que o próprio de concessão de bolsas passa por crivos altamente rígidos nas agências de fomento, sendo as principais o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Nestas agências o processo de concessão passa por uma sequência de análises técnicas e de mérito científico, tornando menos provável que o apadrinhamento político ocorra (ainda que não seja impossível).

Assim, o que está por detrás do anúncio feito por Lauro Jardim em sua coluna é mais um dos muitos movimentos que estão sendo feitos para abafar a produção de conhecimento científico autônomo no  Brasil.  E é preciso que esse movimento que está sendo feito faz sentido para aqueles que querem impor uma forma de capitalismo ainda mais dependente e excludente em nosso país. É que produção científica que mereça essa denominação não serve aos interesses dos esbirros que, por algum desastre do destino político de uma dada nação, acabam por se assenhorar das estruturas de poder em uma determinada conjuntura histórica. A ciência deve servir sempre aos interesses estratégicos do desenvolvimento nacional e não a esses eventuais senhores da máquina de Estado.

Um elemento colateral, mas que deve ser ressaltado, é sobre quem seriam os “premiados” com bolsas no exterior depois da caça aos intelectuais petistas. Como alguém que obteve uma bolsas de doutorado do CNPq no início da década de 1990 e pode obter com ela um título de doutor numa boa universidade estadunidense, sou testemunha de que apadrinhamento ideológico é a última coisa que conta para quem recebe nossos bolsistas. O que conta é  capacidade de postulante ao título de responder aos rígidos padrões de cobrança acadêmica que são aplicados nas melhores universidades do mundo.  Das duas uma: ou os candidatos que passarem pelo exame ideológico são exemplares ofuscados da capacidade intelectual da direita brasileira ou os que forem aquinhoados não serão enviados para universidades consideradas de excelência.

Inobstante aos critérios de pureza ideológica (de direita) que venham a ser aplicados para “despetizar” o sistema de concessão de bolsas de pós-graduação no exterior, é essencial que as sociedades científicas (a começar pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)) comecem um vigoroso processo para repelir qualquer tentativa de diminuir a autonomia das agência de fomento de selecionar os melhores candidatos, independente de sua orientação ideológica e objeto de estudo. Caberá ainda aos pesquisadores já estabelecidos organizar a resistência pela base dentro de suas instituições de ensino e pesquisa. Sem isto, estaremos fadados a um profundo retrocesso nos parcos progressos que foram alcançados no sentido do acesso à pós-graduação no Brasil.

Há que se lembrar  aindaque enquanto se promove uma tentativa de “McCarthyzação” [2] da ciência brasileira, os chineses (que há poucas décadas estavam atrás do Brasil em termos de sistema nacional de pós-graduação) depois de se tornaram os líderes mundiais de produção de artigos cientícos, acabam de lograr o feito de pousar de forma intacta uma sonda no lado escuro da Lua.

Por fim, se confirmada mais essa estripulia de início de governo, o que certamente teremos é a migração de nossos melhores e mais promissores quadros acadêmicos para outros países onde a capacidade de produção de conhecimento não se mede pelo metro ideológico.  Aliás, quem visitar as bibliotecas das melhores universidades estadunidenses poderá constatar que Karl Marx e Paulo Freire estão entre os autores mais acessados pelos estudantes de lá. É que, ao contrário do que está acontecendo aqui, esses dois autores são considerados por quem está no poder como essenciais à construção de novos paradigmas no conhecimento.

Presidente do CNPq denuncia riscos criados pelos cortes orçamentários sobre a ciência brasileira

cnpq

CARTA ABERTA DO PRESIDENTE DO CNPQ

“A Ciência Brasileira está em Risco

A Ciência, Tecnologia e Inovação são ferramentas fundamentais para o país e o impulso a esses setores é firme alavanca para o desenvolvimento sustentável com lastro: cada real que se destina à pesquisa científica e cada minuto que se permite à inteligência e criatividade brasileiras exercitarem a busca por soluções, nos mais diferentes campos, vão sempre render frutos e benefícios para o País. 

A história comprova isso: nações que se desenvolveram efetivamente, que deram salto em busca de se tornarem mais prósperas e justas, valeram-se intensamente dos benefícios proporcionados pela pesquisa científica. 

Hoje o Brasil tem investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento da ordem de 1,2% do seu Produto Interno Bruto, o que compreende os dispêndios privados e públicos para – é muito pouco. Para que possa alcançar novos potenciais e realizar diferentes objetivos, o Brasil precisa ampliar esse percentual para ao menos 2% de seu PIB. 

Neste contexto, e do ponto de vista público, como órgão gestor de projetos científicos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq alerta para as limitações orçamentárias impostas ao órgão para o exercício de 2019, a serem mantidos os valores previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual para o próximo ano. 

Se, em 2018, o CNPq pôde contar com recursos da ordem de R$ 1,2 bilhão, em 2019 a previsão de R$ 800 milhões poderá limitar ações diversas como o lançamento de editais de pesquisa, contratações de novos projetos e outras iniciativas. Uma perda da ordem de R$ 400 milhões. 

É preciso destacar o esforço empreendido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações nesses últimos anos pela recomposição orçamentária quanto a cortes promovidos, bem como os esforços para que o CNPq pudesse honrar o pagamento de bolsas a pesquisadores. Também é preciso destacar o papel do Ministério na máxima execução orçamentária de recursos disponibilizados pela equipe econômica do Governo Federal. 

Ainda que não se vislumbrem riscos a pagamentos de bolsas de pesquisa com os valores previstos para o ano de 2019, o CNPq destaca que o “encolhimento” dos recursos disponíveis afeta o sistema brasileiro de pesquisa científica e reafirma a importância do envolvimento da sociedade no debate sobre a importância da Ciência, Tecnologia e Inovação. O CNPq ressalta, por fim, a necessidade de recursos e apoio para que esses setores se desenvolvam de forma adequada fortalecendo o avanço do País rumo a se tornar uma grande nação. 

Prof. Mario Neto Borges, PhD
Presidente do CNPq”

FONTE: http://www.cnpq.br/documents/10157/6234432/CARTA+ABERTA_FINAL.pdf/ff79fc6d-14f6-40fc-8b60-d6b1f1fb26c7

CNPq, mais uma vítima da política de destruição do futuro imposta pelo governo Temer

Às ruas, cientistas!

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No mesmo dia em que o Brasil acorda sabendo que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se concederam um aumento de 16,38% em seus salários que atualmente são de “módicos” R$ 33,7 mil mensais, criando um efeito cascata que deverá gerar um custo adicional de R$ 4 bilhões para os cofres públicos, o jornalista Herton Escobar nos traz a informação de que o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também levou uma tesourada brutal pelo governo “de facto” de Michel Temer, o implicará na ausência de financiamento para projetos de pesquisa em 2019 [1 & 2].
Como de forma geral não há um entendimento imediato do que significa desprover a ciência brasileira de novos investimentos, é preciso lembrar que serão interrompidas e/ou perdidas pesquisas estratégicas em várias áreas sensíveis, começando, por exemplo, pela saúde, onde certamente serão interrompidas pesquisas sobre, por exemplo, doenças tropicais como a malária e a dengue. Mas ainda na área da saúde serão devastados grupos de pesquisa que estudam doenças como o câncer.
Apenas à guisa de comparação com os custos gerados pelo auto aumento concedido pelos ministros do STF que vão onerar os cofres públicos em R$ 3 bilhões, Herton Escobar nos informa que o orçamento do CNPq irá cair de R$ 1,2 bilhão para R$ 800 milhões em 2019, sendo que só as bolsas providas pela agência já custam por volta de R$ 900 milhões!
Apenas para parafrasear uma declaração do ministro Celso de Mello durante a sessão em que a maioria dos ministros do STF decidiram aumentar seus salários e mandar a conta para a víuva, , “estamos aqui em face daquelas escolhas trágicas”. A questão é que a tragédia que está se desenhando com a liquidação do ainda incipiente sistema brasileiro de ciência e tecnologia extrapola o destino de quem insiste em praticar ciência no Brasil. Com a liquidação da CAPES e do CNPq, o que está se fazendo a partir de escolhas que só são trágicas para que não está encastelado na alta burocracia do estado e para os segmentos da sociedade que se beneficiam do rentismo que sufoca a economia brasileira. O problema é que os excluídos dessas benesses representam quase a totalidade da população brasileira.
É por isso que eu repito que a comunidade científica precisa sair da sua letargia e tomar as ruas para pressionar o governo Temer para que estes cortes absurdos sejam revistos. Do contrário, estaremos diante do abismo de onde será difícil sair se os atuais cenários de asfixia orçamentária foram concretizados.
Às ruas, cientistas!


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/08/08/stf-aprova-reajuste-de-16-para-ministros-da-corte-a-partir-de-2019.htm
[2] https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cnpq-diz-que-so-tera-verba-para-bolsas-em-2019,70002438970

O novo velho projeto de Brasil é temeroso

TemerAtoCruz

Por Paulo Artaxo*

As prioridades do nosso país mudaram. O congelamento e a redução dos orçamentos associados a políticas sociais, em áreas estratégicas, como saúde e educação, não deixam dúvidas de que estamos andando para trás. Se, entre 2003 e meados de 2013, tínhamos investimentos crescentes de apoio à pesquisa, novas universidades sendo construídas, aumento significativo do acesso à educação em todos os níveis, a ciência brasileira brilhando internacionalmente e milhares de doutores sendo formados no Brasil e no exterior, hoje, o cenário que se avizinha é sombrio.

O valor do orçamento que deve constar na Proposta de Lei Orçamentária (PLOA) para 2019 ainda não foi definido, mas o Ministério do Planejamento já sinalizou o forte corte de 11% para o Ministério da Educação (MEC), o que, por sua vez, representa cortes adicionais de R$ 580 milhões no orçamento da CAPES. Nessa hipótese, 93 mil bolsistas de doutorado no Brasil e exterior teriam as suas pesquisas interrompidas a partir de agosto do próximo ano. Apesar de o MEC ter assegurado a manutenção dos recursos para as bolsas –  após o alerta do Conselho da CAPES, diga-se – tudo pode mudar até o dia 14 de agosto, data da temerosa sanção da LDO para 2019.

Importante salientar que cerca de 80% da pesquisa no Brasil estão relacionados a programas de Pós-Graduação. Se o suporte a estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado diminuir ou cessar, grande parte da ciência do país pode entrar em colapso. Os valores das bolsas estão congelados desde 2013 e são extremamente baixos. Nas agências nacionais, o valor da bolsa de mestrado é de R$ 1.500,00 e da de doutorado, R$ 2.200,00, e com a obrigação de dedicação exclusiva. Estudantes trabalham pela vocação e pelo desejo de crescer profissionalmente, vivendo no limite com remuneração insuficiente.

Não podemos esquecer que também estão ameaçados importantes programas de formação de docentes, como o Pibid (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) e o Parfor (Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica). Ações que têm possibilitado capacitação de professores nas mais diversas regiões do país e que são estratégicas para a educação brasileira como um todo. Há cerca de dois anos observamos que todo o nosso sistema de educação e C&T está em decadência, como vêm continuamente alertando a SBPC, a ABC e demais sociedades científicas.

O mais triste a constatar é que não se trata de falta de recursos. O Brasil investe apenas 1% de seu orçamento em ciência e tecnologia, um valor muito abaixo de nações com desenvolvimento similar ao brasileiro. E a “crise” não é só da CAPES. Agências de fomento como CNPq, FAPS estaduais (com poucas exceções), FNDCT estão com orçamentos corroídos. O CNPq não paga integralmente projetos de pesquisas aprovados e contratados. A FINEP também tem uma longa lista de projetos contratados para os quais não são liberados recursos.

Cerca de 80% da pesquisa no Brasil estão relacionados a programas de Pós-Graduação. Se o suporte a estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado diminuir ou cessar, grande parte da ciência do país pode entrar em colapso

Na mesma trilha do governo federal, os Estados retrocedem. Várias FAPs, como a FAPEAM, que representou um divisor de águas na área de C&T no Amazonas, e a FAPERJ, ou interromperam programas, ou deixaram de pagar projetos aprovados. O país perde muito com essa desorganização do sistema nacional de ciência e tecnologia. E está claro que a “crise” não está afetando igualmente todos os setores do Brasil – vide os auxílios moradias a parlamentares e juízes, vejam os programas de subsídios à indústria, dentre outras benesses – mas a C&T e o ensino superior estão sendo dizimados lenta e progressivamente.

Na sociedade global do conhecimento, desenvolvimento científico é estratégico. Vejamos o exemplo da EMBRAPA, EMBRAER, PETROBRAS e muitas pequenas companhias start-ups encubadas nas Universidades, e seu papel no desenvolvimento econômico do país. Queremos o futuro do Brasil somente como exportador de produtos primários como minério, soja, carne e outros? E quanto aos necessários engenheiros, economistas, arquitetos? De onde virão, no futuro? O Brasil vai importá-los do Paraguai, Bolívia ou outros países? Como será a formação desses profissionais?

É fundamental que tenhamos uma estratégia de futuro para o país com suporte da população como um todo. No complexo mundo de hoje, uma nação à deriva, como estamos, perde espaço e competitividade. Será muito custoso retomar o espaço que tínhamos conquistado até três, quatro anos atrás, quando a percepção internacional do Brasil era totalmente positiva. Hoje, o quadro em relação ao país é desolador dentro e fora de suas fronteiras. E, repito, não dá para dizer que a culpa é “da crise econômica”, mas sim do novo modelo de “desenvolvimento” sendo implantado pelo atual governo.

A razão para esse cenário tenebroso é a retomada de um velho projeto de Brasil. Um projeto no qual claramente ciência e educação não têm prioridade. E nosso futuro como nação soberana está comprometido justamente na era da informação e do conhecimento. Como diz Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), parece até que é uma guerra, que um país nos invadiu e quer nos destruir, mas são setores da nossa sociedade, são brasileiros que estão fazendo isso. Temeroso.

Há uma maneira de redirecionar o Brasil: nas urnas. Temos eleições este ano, talvez a oportunidade de tentar sair do precipício em que estamos. Eleger um congresso que seja efetivamente representativo da sociedade brasileira. Eleger um poder executivo que tenha um novo projeto para o Brasil com amplo apoio da população. Não será uma retomada fácil, pois descemos muito a ladeira. Recuperar o orgulho nacional é um desafio que irá requerer uma clara visão de futuro para o Brasil. Vamos lutar por esta nova direção, na qual ciência, tecnologia e ensino superior sejam instrumentos de transformação e para a construção de uma sociedade mais justa, com menos desigualdades sociais.

Paulo Artaxo é professor do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo (USP) e é m dos pesquisadores mais citados no Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).

FONTE: https://jornal.usp.br/artigos/o-novo-velho-projeto-de-brasil-e-temeroso/

O oráculo de Tuffani: reagir ou perecer

No dia 21 de Novembro de 2017, a Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) realizou um debate intitulado “O Futuro da Ciência no Brasil em Debate”, e que contou com a presença do professor e pesquisador do Instituto de Biofísica da UFRJ,  Jean Remy Davée Guimarães , e do jornalista Maurício Tuffani, do Direto da Ciência.

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Note-se que o evento era promovido pelo sindicato dos docentes e não pela reitoria da Uenf que à primeira vista deveria estar liderando as reflexões que ocorreram naquele dia em face dos crescentes ataques que estavam sendo realizados contra as universidades públicas e, por extensão, ao sistema nacional de ciência e tecnologia.

Uma das passagens mais memoráveis daquele encontro entre dois grandes conhecedores do funcionamento da ciência brasileira foi quando Maurício Tuffani revelou sua incredulidade com a condição de passividade que parecia dominar  as instituições públicas de ensino superior.  Para Tuffani, tal passividade era difícil de entender dada envergadura do retrocesso que estava sendo arquitetado a partir de Brasília, mais precisamente do interior do governo “de facto” de Michel Temer. E nessa condição ele ainda vaticinou que se a pasmaceira não fosse quebrada, coisas ainda piores poderiam acontecer.

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Agora que a vaca parece estar sendo solenemente para o brejo com os anunciados cortes orçamentários que afetarão gravemente o sistema nacional de ciência e tecnologia, ainda não vejo o tipo de reação que foi demandada por Maurício Tuffani quase um ano depois do evento promovido pela Aduenf.

Aparentemente  há um dissintonia cognitiva dentro das universidades públicas entre a realidade que se imagina dentro dos muros e aquilo que está efetivamente ocorrendo no mundo externo.  Lamento ter que fazer esta constatação, mas me parece que ainda não há um entendimento do projeto estratégico que se está executando no Brasil,  especialmente no tocante ao fato de que esse projeto dispensa totalmente a existência de centros de excelência como os hoje existentes em dezenas de universidades e institutos de pesquisa públicos. 

E, pior, não vejo as reitorias da maioria das universidades tomando para si o papel estratégico de combater o desmanche que está se avizinhando. São raros os reitores e demais dirigentes universitários que aceitam cumprir o papel de denunciar publicamente o amplo alcance das medidas de desconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia. A maioria dos reitores tem preferido utilizar a tática do avestruz, enterrando a cabeça na areia em nome de procedimentos mais pragmáticos para barganhar migalhas.

Desta forma, que ninguém que se surpreenda se virem os sindicatos representativos de professores, servidores e estudantes liderando o processo de resistência ao que o pesquisador Miguel Nicolelis denominou de “dia do juízo final das universidades brasileiras”. É que até agora é por aí que a resistência tem passado, e não vejo nada que indique que algo novo vá acontecer.

Por ora, a comunidade científica continua devendo a Maurício Tuffani e à maioria da população brasileira o tipo de reação que se espera dela em face dos graves riscos que estão aparecendo todos os dias no horizonte da ciência brasileira. Esperemos que o “wake up call” de Tuffani seja ouvido antes que estejam sob os escombros daquilo que ainda não foi destruído pelo governo Temer.

 

 

O governo Temer e o extermínio do futuro

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Após a divulgação da nota da Capes alertando para a virtual paralisação dos financiamentos de bolsas acadêmicas e projetos de pesquisa repentinamente disparou a consciência acerca do virtual extermínio da ciência brasileira.  Mas eu diria que o alarme que parece estar tomando conta das pessoas já deveria ter sido acionado quando outros tantos ataques foram cometidos pelo governo “de facto” de Michel Temer contra outros segmentos da população brasileira.

Um exemplo disso foi a atitude de inércia que grassou nas universidades públicas com as repetidas operações da Polícia Federal contra reitores e demais dirigentes universitários que teve no suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier. 

Tampouco se ouviu falar de ações mais robustas dentro da comunidade científica quando Michel Temer garantiu a aprovação da chamada PEC do Teto, a qual está na base dos cortes avassaladores que estão sendo realizados não apenas na Capes e no CNPq, mas também nos orçamentos de todas as universidades federais e institutos federais de ensino ou pesquisa.

Agora defrontados com a possibilidade real de que todo o sistema nacional de ciência e tecnologia seja reduzido a escombros, e com ele qualquer chance de futuro enquanto nação soberana, vemos, finalmente, algum processo de mobilização, mesmo que ainda restrito às redes sociais.

A verdade nua e crua é que, como já alertou o neurocientista, Miguel Nicolelis, o governo Temer já marcou o dia do juízo final da ciência brasileira. Resta saber se haverá quem queira se mobilizar para evitar isso. E quanto mais rápido, melhor. Afinal, é o futuro do Brasil que está em jogo.

Levantamento mostra quem financia a pesquisa no Brasil e na USP

Estudos patrocinados por subsídios alcançaram impacto, em termos de classificação de periódicos e contagem de citações

Por  – Editorias: CiênciasUniversidade

O texto a seguir integra uma série de quatro artigos produzidos pelo Sistema Integrado de Bibliotecas (Sibi) da USP  sobre a produção científica da USP. Para ler o texto completo, com as citações, acesse este link.

Levantamento realizado na Plataforma InCites revela 1.032 entidades de financiamento ativas no mundo – Foto: Pixabay – CC

Estudo realizado a partir de dados obtidos na Plataforma InCites (Thomson Reuters/Clarivate Analytics) revela quais são as entidades de financiamento que mais investem na pesquisa brasileira e na USP. O levantamento foi feito entre os dias 3 e 19 de julho, a partir de conteúdos da Web of Science indexados até 29 de abril e dados atualizados no InCites em 16 de junho.

Utilizando o módulo Funding Agencies, do InCites, foi possível levantar por localização geográfica e por nome da organização os dados de financiamento coletados da seção de agradecimentos ou rodapé dos artigos publicados e indexados na base Web of Science (veja aqui um exemplo).

Ainda que as atribuições de concessão com base em texto apresentem falsos positivos e falsos negativos – a taxa de atribuições imprecisas é de pelo menos 25% – e que as atribuições imprecisas possam ter, elas próprias, vieses de redação e interpretação, insights significativos podem ser obtidos a partir da análise desses dados. Os resultados aqui apresentados não têm a pretensão de serem exaustivos. Buscam apenas evidenciar o potencial de uso da Plataforma InCites.

A maior produtividade está associada às áreas de Ciências Naturais, Engenharias e Tecnologias, e Ciências Médicas. Há indícios também da presença de múltiplos fundos correlacionando-os positivamente com o desempenho geral de citações. Publicações de projetos financiados por órgãos internacionais alcançaram desempenho superior em termos de coautorias internacionais e percentual de documentos citados.

Em geral, solicitar financiamento a órgãos externos ao País aumenta as chances de ser citado e de publicar em revistas científicas de prestígio e alto impacto. Isso significa também que é necessário associar-se a equipes científicas destacadas e grandes grupos de pesquisa, além de manter-se conectado a pesquisadores produtivos, para produzir mais e melhor.

A proporção de publicações em acesso aberto ainda é pequena em relação ao total de publicações associadas a projetos financiados com recursos públicos, mas vem aumentando nos últimos anos.

Quem financia a pesquisa no mundo?

Um dos trabalhos mais abrangentes em termos de identificação digital de financiadores de pesquisa tem sido realizado pela Crossref, agência internacional conhecida pela atribuição do Digital Object Identifier (DOI) a documentos. O banco de dados de registro de financiadores mantido pela Crossref – FundRefcongrega, atualmente, 18.067 entidades ativas de financiamento da pesquisa conectadas a 2.188.220 trabalhos publicados.

É possível buscar informações sobre financiadores e publicações na plataforma por meio do link. O objetivo é fornecer informações claras, transparentes e mensuráveis ​​sobre quem financiou a pesquisa e onde ela foi publicada, ligando os financiamentos aos documentos e conteúdos produzidos.

Muito dinheiro tem sido aplicado na chamada Big Science (grande ciência), fenômeno da ciência da segunda metade do século 20 relacionado a projetos de grande porte, geralmente, financiados por governos ou grupos governamentais, algumas vezes, em detrimento da Small Science.

O projeto de 100.000 Genomas vai ter custado 300 milhões de libras quando os pesquisadores, que sequenciam o projeto genético de muitos seres humanos, tiverem concluído seus estudos. Estima-se que o Bóson de Higgs (física de partículas), ligado ao Cern (em inglês, European Organization for Nuclear Research), já tenha custado oito bilhões de libras.

O International Fusion Experiment (Iter) é outro projeto mundial orçado em 12,8 bilhões de dólares. A iniciativa European Spallation Source (ESS) está avaliada em 1.843 milhões de euros. À medida que a Big Science se torna ainda maior, sua escala reflete-se nas imensas listas de autores em artigos científicos e aportes financeiros gigantescos.

Em termos mundiais, o levantamento realizado na Plataforma InCites revela 1.032 entidades de financiamento ativas no mundo (2011-2018), mencionadas nos textos dos documentos indexados na base Web of Science.

A maior agência de financiamento de pesquisa é a National Natural Science Foundation of China (NSFC), entidade destacada pela produtividade. No momento analisado é a entidade com maior número de trabalhos publicados e indexados na base Web of Science: foram 1.201.687 documentos produzidos a partir de projetos financiados entre 2011 e 2018.

Em seguida, vem o National Institutes of Health (NIH) com 588.762 documentos eNational Science Foundation (NSF), com 387.801 documentos produzidos no período. A figura abaixo apresenta os dez maiores financiadores de pesquisa no mundo por número de documentos publicados (2011-2018).

Top 10 financiadores da pesquisa mundial por número de documentos (2011-2018)

A seguir,  os principais financiadores por número de citações e documentos (2011-2018). Os resultados indicam uma correlação positiva entre financiamento e impacto. Todavia, é preciso ter cautela com análises superficiais, porque podem levar a equívocos.

Principais financiadores mundiais por número de citações e documentos (2011-2018)  

Quem financia a pesquisa brasileira?

O financiamento da pesquisa no Brasil se dá por meio de diferentes sistemas e instituições de fomento, que estão ligadas direta ou indiretamente aos ministérios brasileiros e são: CNPq, Finep, Capes, FNDCT, BNDES, além das agências estaduais que constituem as FAPs – Fundações Estaduais de Amparo a Pesquisa agrupadas no Confap. Há também leis de incentivo fiscal e fomento à inovação, financiamentos empresariais e institucionais. Saiba mais consultando a página de Agências e Oportunidades de Financiamento no website Apoio ao Pesquisador.

Em meio à crise econômica, muitos entendem que o pesquisador brasileiro deve preparar-se melhor para pleitear insumos financeiros internacionais e deve ser mais competitivo, para atenuar o impacto dos cortes do orçamento governamental. Nesse sentido, conhecer a situação atual de financiamento no Brasil do ponto de vista dos financiadores é importante. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) apresenta dados de recursos investidos na pesquisa no Brasil e algumas informações chegam aos pesquisadores e instituições por meio de divulgação à imprensa ou websites.

As principais agências de financiamento da pesquisa – CNPq e Capes – enfrentam problemas com a redução de orçamento. A escassez de recursos afetou o CNPq, órgão vinculado ao MCTIC, em todas as metas na concessão de bolsas e apoios, como demonstra o gráfico a seguir:

Painel de investimentos do CNPq (2001-2018) 

A Capes também foi afetada pelos recentes cortes. Vinculada ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), de 2015 a 2017 teve uma perda anual de R$ 1 bilhão. A última atualização do painel de investimentos da Capes sobre concessão de bolsas mostra uma diminuição desde 2014, quando existiam 105.791 beneficiários nas pós-graduações pelo País.

Em 2016, o número baixou para 100.433, um corte de 5,3 mil. Em julho de 2018, o MEC anunciou a liberação de R$ 160 milhões para a Capes. Os recursos destinam-se ao pagamento de bolsas, auxílios e fomento às ações de graduação, pós-graduação, ensino, pesquisa e extensão.

O levantamento realizado na Plataforma InCites revela como está o financiamento da pesquisa nos Estados brasileiros, contabilizada a partir do número de documentos publicados. O Estado brasileiro com maior produtividade e financiamento é São Paulo, seguido do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná.

Veja a seguir a distribuição percentual de documentos financiados por Estado. Note-se que é possível haver sobreposições de dados em decorrência das coautorias entre pesquisadores de diferentes Estados:

Distribuição percentual de documentos publicados por estado de projetos financiados (2011-2018)

Os três órgãos que mais financiaram pesquisa no Brasil de 2011 a 2018, de acordo com o número de documentos publicados, foram o CNPq (122.967), Capes (70.048) e Fapesp (56.667).

A figura a seguir apresenta o ranking de financiadores da pesquisa brasileira por número de documentos (2011-2018):

Ranking de financiadores da pesquisa brasileira por nº de documentos (2011-2018)

Percentual de documentos citados também variou de acordo com o órgão financiador, como demonstra o gráfico a seguir. Embora os números sejam positivos, observa-se que artigos de projetos subsidiados por entidades estrangeiras apresentaram maior percentual de citação.

Percentual de documentos citados de acordo com o financiador (2011-2018)

O financiamento também varia de área para área de pesquisa. Utilizando os campos de conhecimento das revistas científicas como um intermediário das áreas de pesquisa, é possível observar que certas áreas se destacam mais que outras.

Considerando as vinte principais entidades financiadoras da pesquisa no Brasil, no período de 2011 a 2018, as áreas de mais destaque são Biologia Molecular e Bioquímica (8.873 documentos), Ciências das Plantas/Biologia Vegetal (6.444 documentos), Ciência dos Materiais (6.259), Farmácia e Farmacologia (6.201 documentos).

A figura abaixo exibe o mapa com as vinte principais áreas de pesquisa (classificação Web of Science) financiadas e respectivo número de documentos produzidos no período.

Top 20 principais áreas de pesquisa financiadas no Brasil por nº de documentos (2011-2018)

Os gráficos a seguir apresentam o número de documentos de projetos financiados pelo CNPq e Capes no período de 2011 a 2018 por área de pesquisa (classificação FOS).

dataset referente a esses dados pode ser consultado no Repositório Zenodo.

Número de documentos de projetos financiados pela Capes e CNPq (2011-2018) por área

Financiamento da pesquisa na USP

A USP é uma instituição pública de ensino superior e de pesquisa que, desde sua fundação, mantém um papel de liderança na produção científica e acadêmica brasileira. Seus 270 programas de pós-graduação atraem estudantes de diferentes partes do Brasil, da América Latina e de mais de 50 países ao redor do mundo.

São quase seis mil docentes e cerca de 82 mil alunos.  Há muitos anos, ocupa posição de destaque nos principais rankings internacionais de universidadesAcademic Ranking of World Universities (ARWU) [151-200],Times Higher Education World University Rankings [251-300],QS World University Rankings [118]eWebometrics Ranking of World Universities [72].

Além dos órgãos de financiamento citados, na USP, dois órgãos institucionais estão relacionados ao financiamento: a Aucania (Agência de Cooperação Nacional e Internacional), que divulga oportunidades de intercâmbio e bolsas, e a Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), que apoia pesquisas, noticia editais e chamadas. As unidades e institutos também mantêm serviços que apoiam e divulgam oportunidades de financiamento.

A partir do levantamento realizado na plataforma InCites, foi possível ranquear os 20 principais financiadores de pesquisa da USP (2011-2018) a partir do número de documentos publicados no período de 2011 a 2018, conforme apresentado abaixo.

Observa-se uma correlação positiva entre financiamento estrangeiro e percentual de colaboração internacional, com respectiva elevação do impacto de citação normalizado pela categoria (Category Normalized Citation Impact) e percentual de documentos citados. No total, 518 entidades de financiamento concederam subsídios a pesquisadores da USP no período.

Top 20 financiadores da pesquisa USP por nº de documentos (2011-2018)

As três principais entidades financiadoras da pesquisa da USP nos períodos de 1980 a 1999, 2000 a 2010, e 2011 a 2018 foram Fapesp, CNPq e Capes, como demonstra o gráfico a seguir.

Observa-se que, ao longo das décadas, houve um significativo aumento do financiamento de pesquisas (ou das menções de financiamento) nos documentos indexados.

Top 3 financiadores da produção USP pelo número de documentos (1980-2018)

Relacionando os top 10 maiores financiadores de acordo com percentual de coautorias internacionais, observa-se que a pesquisa financiada por entidades externas ao País apresenta um nível mais elevado de percentual de colaborações internacionais, conforme apresentado na a seguir:

Top 10 financiadores da pesquisa USP e percentual de colaborações internacionais

Por meio do levantamento, foi possível determinar também o percentual de artigos publicados por autores USP e respectivos quartis das revistas: Q1, Q2, Q3 e Q4, com números positivos e consistentes.

A tabela a seguir mostra também como os artigos de projetos patrocinados apresentam significativos percentuais de alta citação (% Highly Cited Papers) e percentual de artigos “quentes” (% Hot Papers), índices que aumentam sempre quando há financiamento de entidades externas ao Brasil. Clique na figura para melhor visualização:

Top 20 principais financiadores pelo nº de documentos publicados de projetos financiados e respectivos indicadores de posicionamento nos quartis das revistas (2011-2018)

Com relação ao acesso aberto, o levantamento revelou que a proporção de documentos gerados a partir de projetos realizados com financiamento público, embora tenha evoluído ao longo das décadas, ainda é baixa. A figura abaixo apresenta esses dados a partir dos três maiores financiadores da pesquisa da USP: Capes, CNPq e Fapesp, de 1980 a 2018. Em azul estão representados os documentos publicados em acesso aberto. Clique na Figura para melhor visualização.

Considerações finais

Poucos estudos se concentram nos órgãos de financiamento como unidades de avaliação, mas isso pode mudar, à medida que os sistemas de informação se tornem mais integrados e as informações estejam mais acessíveis. Iniciativas como o FunRef da Crossref sinalizam avanços nesse sentido.

Não se ignoram as limitações associadas ao uso de dados de financiamento recuperados dos textos de agradecimentos ou de rodapés de artigos: podem produzir falsos positivos e falsos negativos, a taxa de atribuições imprecisas é pelo menos 25%, as atribuições imprecisas podem ter, elas próprias, vieses no nível de campo.

Maior transparência nas definições estratégicas de apoio à pesquisa e relatórios de recursos financeiros investidos, assim como estudos sobre o impacto social da pesquisa financiada podem reduzir gastos e aumentar a equidade e o acesso a financiamentos.

Elizabeth Dudziak / Sistema Integrado de Bibliotecas da USP

FONTE: https://jornal.usp.br/ciencias/levantamento-mostra-quem-financia-a-pesquisa-no-brasil-e-na-usp/