Promessas climáticas favorecem a remoção de carbono em terra, uma meta irrealista que ignora as florestas

Por Sofia Murphy para IATP 

Esta semana, a Universidade de Melbourne lançou a segunda edição do Relatório sobre a Lacuna de Terras (The Land Gap Report ), que analisa detalhadamente os compromissos climáticos dos países e suas implicações para a forma como a terra deve ser usada — e como as florestas precisam ser protegidas — para atingir essas metas.

O Relatório sobre a Lacuna de Terras é um relato aprofundado e especializado de como concepções errôneas sobre o uso da terra e a importância subestimada das florestas se combinam com promessas climáticas governamentais fracas e irrealistas para agravar a crise climática. Eu escrevi o capítulo sete, que se concentrou no comércio de commodities agrícolas e nas cadeias de valor globais.

O lançamento do relatório foi programado para coincidir com o debate na COP30, o fórum intergovernamental anual da ONU sobre como evitar a catástrofe climática. Um evento paralelo para discutir as conclusões do relatório ocorreu no dia 20 de novembro em Belém.

No novo relatório, avaliamos os compromissos governamentais mais recentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (em planos conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDCs) e constatamos que os países não apenas aumentaram sua dependência da Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) em terra, exigindo um total combinado de 1,01 bilhão de hectares, como também estão muito distantes das trajetórias que poderiam alcançar seu compromisso de deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Pior ainda, como aponta o relatório, não há terra suficiente no mundo para concretizar esses planos. A CDR é uma parte racional de uma resposta abrangente à emergência climática, mas quanto mais adiarmos a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e de outros grandes poluidores climáticos, maior será o aumento esperado das temperaturas médias e maior a probabilidade de incêndios florestais, secas, inundações e outros desastres.   

O relatório deixa claro que o problema com os compromissos florestais e climáticos não é a falta de vontade política e de recursos financeiros, embora ambos sejam importantes. O financiamento privado e o comércio de carbono também não resolverão o problema. Em vez disso, os capítulos defendem uma transformação nos setores florestal e fundiário. Isso seria alcançado se os governos identificassem e desmantelassem os mecanismos e políticas estruturais inter-relacionados que mantêm a extração em vigor, incluindo mudanças na dívida, na política fiscal, na tributação e na legislação comercial. 

O Relatório sobre a Lacuna de Terras oferece soluções climáticas muito mais ambiciosas — e muito mais eficazes — do que os planos de ação propostos pelos governos. As recomendações focam na proteção das florestas existentes, na eliminação gradual do uso de combustíveis fósseis e em reformas profundas nos subsídios públicos, incentivos fiscais e regras de comércio e investimento internacionais. O relatório insta os governos a pararem de permitir a externalização dos custos da poluição na contabilidade econômica. O agronegócio precisa começar a arcar com os custos reais de seus modelos de produção extrativistas. 

Que papel desempenham o comércio e a agricultura num relatório sobre o uso da terra e o clima?

Escrevi o sétimo capítulo do relatório: “ Reforma da política comercial para a proteção florestal e a soberania alimentar ”. Nesse capítulo, analiso o comércio internacional, as commodities agrícolas e a soberania alimentar, argumentando que mudanças políticas eficazes para desacelerar o desmatamento e a degradação florestal só podem ser feitas com uma compreensão clara e matizada das forças que impulsionam o comércio de commodities.

Por que um relatório sobre desmatamento e mudanças climáticas inclui um capítulo sobre comércio e agricultura? Porque a agricultura é o principal fator de mudança no uso da terra que polui o clima, incluindo o desmatamento. Vinte e seis por cento da perda global de cobertura arbórea no período de 2001 a 2015 é atribuída à expansão da produção de sete commodities agrícolas (gado, óleo de palma, soja, cacau, borracha, café e fibra de madeira de plantações), todas elas intensamente comercializadas. Ao mesmo tempo, a agricultura é uma das atividades econômicas mais afetadas pelas mudanças climáticas e pela perda de biodiversidade. As florestas são essenciais não apenas para as comunidades e a biodiversidade que as habitam, mas também para os ciclos climáticos e hídricos em todo o planeta. Precisamos proteger os sistemas alimentares e agrícolas que protegem as florestas se quisermos sobreviver.

A ação climática e florestal tem sido impulsionada, há duas décadas, pela constatação de que um pequeno grupo de agronegócios globais domina as sete commodities que são desproporcionalmente responsáveis ​​pelo desmatamento. Essa constatação foi combinada com a crença de que essas empresas poderiam ser persuadidas a melhorar suas práticas, resultando em uma estratégia focada em ações voluntárias e mesas-redondas que incluíram agronegócios, organizações da sociedade civil e representantes governamentais. O objetivo, refletido em resultados como a Moratória da Soja no Brasil , era elevar os padrões de produção e aprimorar a sustentabilidade das cadeias de valor. 

Apesar de alguns pequenos sucessos, os níveis devastadores de desmatamento persistem. Precisamos alinhar os incentivos econômicos e ecológicos. O Acordo sobre Agricultura da OMC é a estrutura que rege a maioria das regras do comércio agrícola internacional. O acordo foi concebido para limitar o papel do Estado na gestão dos mercados agrícolas e para facilitar o acesso às importações, com pouca ou nenhuma consideração por objetivos de políticas internas, como sistemas de produção limpos e justos. O acordo ignora o poder de mercado concentrado nas mãos dos comerciantes de commodities e como esse poder distorce os preços e desequilibra a distribuição dos benefícios que a teoria do comércio prevê para os produtores eficientes. Na prática, os pontos nos sistemas de distribuição agrícola onde a concorrência é fraca — incluindo o acesso a transporte, armazenamento e capacidade de processamento — criam assimetrias de preços que prejudicam os produtores locais e, muitas vezes, os orçamentos públicos do país produtor. Práticas como a precificação de transferência permitem que as empresas ocultem seus lucros onde a carga tributária é menor (geralmente pequenos estados sem florestas tropicais para proteger, mas com grande número de empresas bancárias privadas). 

O que deve vir a seguir?

É impossível prever o que a COP30 nos reserva. Havia grandes expectativas, durante anos, de que esta COP obtivesse resultados melhores do que as dos últimos anos, em que as COPs foram sediadas por países produtores de petróleo, ávidos por evitar a redução do uso de combustíveis fósseis. O Brasil é um país extenso e florestal, cujo governo, sob o primeiro mandato de Lula, conquistou uma reputação positiva por seus eficazes programas de combate à fome e cuja atual liderança pressiona por financiamento significativo para a proteção florestal. Mas, uma semana após o início das negociações, os problemas e as divergências intransponíveis entre os Estados-membros são desanimadores.

Então, o que os governos poderiam fazer? A ação contra as mudanças climáticas exigirá a participação de todos os níveis de governo, e há muito a ser feito enquanto o multilateralismo estiver paralisado. Os países têm a obrigação de cumprir o direito humano universal à alimentação — um direito que depende da proteção dos recursos naturais e dos ecossistemas nos quais uma diversidade de alimentos prosperará. Esse sistema alimentar precisa ser soberano, o que não significa que seja separado de outros sistemas, mas sim que as pessoas precisam ter controle sobre as decisões que afetam sua capacidade de produzir e acessar alimentos.

A produção em massa de produtos agrícolas em escala industrial para cadeias de valor globais não deve ser confundida com segurança alimentar; elas exigem regulamentações e controles diferentes. As regras comerciais devem ser reformadas para distinguir essas diferentes formas de agricultura, como muitos países em desenvolvimento vêm defendendo há anos em sua solicitação por proteções adicionais contra importações a preços de dumping. 

Os mecanismos comerciais também precisam se conectar com as comunidades locais. Por exemplo, o Regulamento da UE sobre Desflorestamento visa as empresas na cadeia de valor, responsabilizando-as por suas práticas de fornecimento de matérias-primas. Isso é positivo, mas não há nenhum mecanismo previsto para envolver as pessoas que vivem e trabalham na floresta. Precisamos de mais camadas no comércio e na gestão florestal para desmantelar os incentivos perversos e míopes que encorajam a destruição de nossas florestas.

Em última análise, precisamos de um novo sistema econômico que valorize a Terra e seus recursos. Como os povos indígenas bem sabem, a proteção ambiental não é uma opção: sem a natureza, não podemos ter atividade econômica.


Fonte: IATP

Desmatamento reduz 74% das chuvas e aumenta em 16% a temperatura na Amazônia em época de seca

Pesquisa liderada por cientistas da USP quantifica, pela primeira vez, impactos da perda da floresta e das mudanças climáticas globais no bioma 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO) e de metano (CH) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH.


Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.


Fonte: Agência Fapesp

“Um clima de malevolência sem precedentes”: estamos a caminho da sexta grande extinção em massa?

A libertação de grandes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera ao ritmo que estamos a fazer poderá levar o planeta a outra Grande Morte

A climate of unparalleled malevolence': are we on our way to the sixth  major mass extinction? | Greenhouse gas emissions | The Guardian

Por Peter Brennen para  o “The Guardian”

Daniel Rothman trabalha no último andar do prédio que abriga o Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um grande dominó de concreto com vista para o Rio Charles, em Cambridge, Massachusetts. Rothman é um matemático interessado no comportamento de sistemas complexos e, na Terra, encontrou um tema valioso. Especificamente, Rothman estuda o comportamento do ciclo de carbono do planeta no passado remoto da Terra, especialmente nos raros momentos em que ele foi empurrado para além de um limite e saiu do controle, recuperando seu equilíbrio somente após centenas de milhares de anos. Considerando que toda a vida aqui na Terra é baseada em carbono, essas perturbações extremas no ciclo de carbono se expressam como, e são mais conhecidas como, “extinções em massa”.

É preocupante que, nas últimas décadas, os geólogos tenham descoberto que muitas, se não a maioria, das extinções em massa da história da Terra — incluindo as piores de todos os tempos — foram causadas não por asteroides, como eles esperavam, mas por erupções vulcânicas que atingiram continentes e injetaram quantidades catastróficas de CO2 no ar e nos oceanos.

Introduza CO2 suficiente no sistema de uma só vez e empurre o ciclo de carbono, que sustenta a vida, para longe do equilíbrio, e ele poderá entrar em uma espécie de modo de falha planetária, onde processos intrínsecos à própria Terra assumem o controle, atuando como feedback positivo para liberar dramaticamente mais carbono no sistema. Essa liberação subsequente de carbono lançaria o planeta em uma excursão devastadora de 100 milênios antes de recuperar sua compostura. E não importaria se o CO2 estivesse mais alto ou mais baixo do que é hoje, ou se a Terra ficaria mais quente ou mais fria como resultado. É a taxa de variação do CO2 que nos leva ao Armagedom.

Isso ocorre porque o ciclo do carbono se adapta facilmente ao fluxo constante de CO2 que sai dos vulcões ao longo de milhões de anos, à medida que se move entre o ar e os oceanos, é reciclado pela biosfera e, por fim, retorna à geologia. Na verdade, este é o ciclo do carbono. Mas, se causarmos um curto-circuito nesse processo planetário, sobrecarregando-o com uma quantidade realmente enorme de CO2 em um período geologicamente breve, além do que a Terra pode acomodar, pode ser possível desencadear uma resposta descontrolada que se mostre muito mais devastadora do que qualquer catástrofe que tenha desencadeado todo o episódio em primeiro lugar. Pode haver um limiar que separa os episódios comuns de aquecimento na história da Terra – episódios que a vida, no entanto, absorve com bom humor – daqueles que se projetam incontrolavelmente em direção à extinção em massa.

Embora já tenham se passado mais de 60 milhões de anos desde que o planeta ultrapassou esse limite, pelos cálculos de Rothman, estamos prestes a colocar o planeta em uma trajetória tão antiga e ameaçadora, uma trajetória que pode levar milênios para finalmente chegar ao destino da extinção em massa, mas que pode ser quase inevitável quando nos afastarmos da costa.

Acontece que existem apenas algumas maneiras conhecidas, demonstradas em toda a história geológica da Terra, de liberar gigatoneladas de carbono da crosta planetária para a atmosfera. Por um lado, há os espasmos de vulcanismo em grandes províncias ígneas, que ocorrem a cada 50 milhões de anos, e, por outro, o capitalismo industrial, que, até onde sabemos, só aconteceu uma vez.

Extinções em massa não são apenas coisas muito ruins. Elas não são pandemias que paralisam civilizações, como a Covid-19, que matam muito menos de 1% de uma única espécie de primata. Extinções em massa não são o que acontece quando o mundo perde um quarto de sua vegetação e um terço da América do Norte é esterilizado, como aconteceu há apenas 20.000 anos, quando camadas de gelo de uma milha de espessura cobriram o Canadá. Elas não são supererupções de Yellowstone , três das quais detonaram em pouco mais de 2 milhões de anos – cada uma das quais teria devastado a agricultura moderna e a civilização industrial, mas nenhuma das quais teve qualquer efeito na biodiversidade global. Isso faz parte do acordo de viver na Terra. A vida não teria chegado tão longe se fosse vulnerável aos tipos de indigestão rotineira que fazem parte da operação cotidiana de um planeta vulcânico.

Mas, embora o nosso seja um planeta robusto, resiliente a todos os tipos de agressões impensáveis às quais é regularmente submetido, a cada 50-100 milhões de anos, algo realmente muito, muito ruim acontece. Trata-se das grandes extinções em massa, quando as condições na superfície da Terra conspiram para se tornarem tão precárias em todos os lugares que excedem a capacidade adaptativa de quase toda a vida complexa.

Uma área em chamas na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil.

Uma área em chamas na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza/AFP/Getty Images

Em cinco dessas ocasiões na história da vida animal, essa devastação atingiu (e em um caso excedeu em muito ) o limite um tanto arbitrário de exterminar 75% das espécies da Terra, conquistando assim o status de “grande extinção em massa”. Essas extinções em massa são conhecidas na comunidade paleontológica como as cinco grandes (embora dezenas de outras extinções em massa menores, de gravidade variável, também apareçam no registro fóssil). A mais recente das cinco grandes ocorreu há 66 milhões de anos, uma catástrofe global suficiente para encerrar a era dos dinossauros gigantes.

Deixou para trás uma cratera de 177 Km , descoberta em 1978 sob a Península de Yucatán, no México, por geofísicos que trabalhavam para a estatal petrolífera mexicana Pemex. O tamanho e o formato da cratera indicavam que um asteroide de 9,6 quilômetros de largura abriu instantaneamente um buraco de 32 quilômetros de profundidade no solo, seguido, três minutos depois, por uma cadeia de montanhas (extremamente temporária) de granito derretido com 16 quilômetros de altura – 76% das espécies animais foram exterminadas no turbilhão.

Em comparação, a devastação causada pelos humanos no resto do mundo vivo é relativamente branda, talvez chegando a menos de 10%. Bem, pelo menos por enquanto. De acordo com um influente estudo de 2011 da Nature , do paleobiólogo Anthony Barnosky, se mantivermos a taxa atual de extinções, poderemos saltar da nossa (ainda assustadora) posição de extinção em massa menor para a sexta maior, em qualquer lugar entre três séculos e 11.330 anos a partir de agora, indistinguível para futuros geólogos de um impacto de asteroide. Pior ainda, podem surgir pontos de inflexão ao longo do caminho, nos quais as espécies restantes do mundo desaparecerão quase todas de uma só vez, como os nós de uma rede elétrica falhando em conjunto durante um colapso.

Considerando o quão catastrófico o impacto dos humanos na biosfera já foi, é assustador pensar que o clímax da nossa extinção em massa ainda pode estar à nossa frente.

EUNa história do nosso planeta, um período de tempo se destaca como singularmente instrutivo – singularmente infeliz, volátil e mortal – quando se trata de overdoses de CO2. Trezentos milhões de anos atrás, o planeta perdeu repetidamente o controle de seu ciclo de carbono e sofreu 90 milhões de anos de extinções em massa, incluindo duas das maiores catástrofes globais de todos os tempos – ambas pesadelos causados pelo CO2. Em um caso, quase morreu. Foi derrubado, nas palavras do paleontólogo Paul Wignall, por “um clima de malevolência sem paralelo”. No final do período Permiano (252 milhões de anos atrás), lava suficiente irrompeu da Sibéria e se intrometeu na crosta, a ponto de cobrir os 48 estados mais ao sul dos EUA a um quilômetro de profundidade.

Um quilômetro de profundidade.

As rochas deixadas por esses antigos fluxos de lava são conhecidas como Armadilhas Siberianas. Hoje, as Armadilhas produzem desfiladeiros fluviais espetaculares e planaltos de rocha negra no meio do nada boreal da Rússia. As erupções que as produziram, e que outrora cobriram a Sibéria com 5,2 milhões de quilômetros quadrados de basalto fumegante, pertencem a uma rara classe de gigantes chamada Grandes Províncias Ígneas (Lábios).

Os lábios são de longe a coisa mais perigosa na história da Terra, com um histórico muito mais catastrófico do que o de asteroides. Esses vulcões, outrora destruidores de planetas, são de uma espécie completamente diferente dos comuns Tambora , Monte Rainier, Krakatoa ou mesmo Yellowstone. Imagine se o Havaí tivesse sido criado não ao longo de dezenas de milhões de anos e espalhado pelo Pacífico, mas em breves pulsos em menos de 1 milhão de anos, e tudo em uma única área (e às vezes emergindo pelos centros dos continentes). Os lábios são a maneira da Terra de nos lembrar rudemente que nossa fina superfície rochosa, e o fino esmalte de gosma verde que a reveste, repousa sobre um drama planetário turbulento e totalmente indiferente. É um drama planetário em que correntes titânicas de rocha arrastam placas oceânicas inteiras para o centro do mundo para serem destruídas e renascerem. Quando esse processo sofre um contratempo, os Lips jorram da crosta como uma indigestão tectônica, deixando gigantescas extensões da Terra soterradas por rochas vulcânicas. Dependendo do ritmo e do tamanho dessas erupções, se forem grandes e rápidas o suficiente, podem destruir o mundo.

No final do Permiano, na maior extinção em massa de todos os tempos, essas erupções teriam apresentado explosões aterrorizantes, sem dúvida induzindo breves invernos vulcânicos e chuva ácida. Houve também envenenamento generalizado por mercúrio e gases tóxicos de flúor e cloro, que teriam sido familiares aos soldados sufocados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Mais importante – e mais lamentável para a vida – o que saiu da Terra na maior catástrofe da história foi uma quantidade de dióxido de carbono alarmante.

O planalto de Putorana, formado há cerca de 250 milhões de anos, no Krai de Krasnoyarsk, norte da Rússia.
O planalto de Putorana, formado há cerca de 250 milhões de anos, no Krai de Krasnoyarsk, norte da Rússia. Fotografia: Amazing Aerial/Alamy

Curiosamente, à medida que a lava siberiana tem sido datada cada vez com mais precisão, verifica-se que só 300.000 anos após o início das erupções – e depois de dois terços dessa lava já terem entrado em erupção, inundando o extremo norte da Pangeia em rochas fumegantes com quilômetros de espessura – é que a pior extinção em massa de todos os tempos de fato começou. Isso é estranho. Esses vulcões teriam expelido todo o material de pesadelo de sempre durante todo esse tempo, envergonhando os poluidores industriais – e fazendo isso por centenas de milênios antes do início da extinção em massa. Teriam ocorrido erupções incontáveis e inimaginavelmente violentas, além de tempestades nocivas de chuva ácida. Mas a biosfera é resistente. E por pior que tenha sido, transformando um terço da Rússia em um inferno vulcânico, isso não explica por que, depois de todos aqueles incontáveis séculos de miséria, a vida subitamente desapareceu em massa, mesmo no fundo do oceano, do outro lado do planeta.

Qual foi o mecanismo responsável pela extinção em massa? “Pode-se descartar a lava”, diz Seth Burgess, geólogo do Serviço Geológico dos EUA. Mas algo nesses vulcões siberianos deve ter mudado drasticamente depois de 300.000 anos, quando o mundo se desintegrou rapidamente. Então, o que foi?

O planeta começou a queimar combustíveis fósseis.

O resultado foi um fluxo de carbono no sistema tão grande que sobrecarregou a capacidade do planeta de se autorregular e tirou o mundo do equilíbrio.

Por si só, os vulcões emitem muito CO2: até 40% do gás de um vulcão em erupção pode ser dióxido de carbono. Mas depois que a Sibéria ardeu na superfície por incontáveis gerações, algo muito mais ameaçador começou a se preparar abaixo. Camadas colossais de magma com 300 metros de espessura, bloqueadas em sua ascensão à superfície, começaram a se espalhar lateralmente na rocha, bem no subsolo, como rizomas incandescentes, queimando o submundo. Foi então que tudo foi por água abaixo.

Essas enormes raízes de magma queimavam uma antiga camada de rocha russa com 13 quilômetros de espessura. A pilha de estratos, acumulada ao longo de um quarto de bilhão de anos, havia se acumulado na vasta bacia de Tunguska: os remanescentes de antigas salinas e arenitos, mas, mais catastroficamente, depósitos de calcário e gás natural ricos em carbono de mares antigos e carvões de eras passadas. O magma cozinhou todos esses combustíveis fósseis e a rocha subterrânea rica em carbono ao entrar em contato, e detonou espetaculares explosões de gás que estilhaçaram a rocha bem acima, irrompendo na superfície como crateras de 800 metros que expeliram dióxido de carbono e metano para o ar em gigatoneladas.

Após centenas de milhares de anos de erupções superficiais conhecidas, os vulcões subitamente começaram a queimar o mundo subterrâneo em grande escala e a agir como enormes usinas termelétricas a carvão, usinas de gás natural e fábricas de cimento. “A queima de carvão”, escreve um cientista sobre a extinção do fim do Permiano, “teria representado uma liberação descontrolada e catastrófica de energia da célula de combustível planetária da Terra”. As Traps Siberianas subitamente começaram a emitir CO2 em excesso, e rápido demais para que o mundo da superfície pudesse acomodá-lo.

Há uma sequência plausível de eventos no final do Permiano. Primeiro, e mais simples: o excesso de CO2 aprisionou mais energia do Sol na superfície do nosso planeta – um processo físico simples que foi descoberto por físicos há mais de 150 anos. E assim o mundo aqueceu irremediavelmente – modelos e proxies apontam para cerca de 10°C de aquecimento ao longo de milhares de anos – levando a fisiologia animal e vegetal aos seus limites. Também é um fato físico simples sobre o nosso mundo que, para cada grau de aquecimento, a atmosfera pode reter cerca de 7% a mais de água; portanto, à medida que a temperatura subia e o ciclo da água se acelerava, as tempestades começaram a assumir uma intensidade ameaçadora e sufocante. À medida que o oceano também aquece, ele retém menos oxigênio.

Infelizmente, viver em águas quentes exige muito trabalho, então os infelizes animais que nela viviam precisavam de mais oxigênio para sobreviver, e não menos. Assim, à medida que o oceano ficava mais quente e estagnado, as criaturas que nele viviam começaram a desaparecer e os mares começaram a se esvaziar. Para piorar a situação, o dióxido de carbono presente no ar se difundiu nesses mares agitados como ácido carbônico (H2CO3). Como resultado, todo o oceano global se tornou mais ácido, e a água foi privada do carbonato calcário dissolvido nela, que os animais usavam para construir suas conchas. Nesses mares ácidos, as criaturas se tornaram quebradiças e doentes, ou até mesmo deixaram de formar conchas.

À medida que essa vida marinha era dizimada, a cadeia alimentar marinha global começou a oscilar e entrar em colapso. Enquanto isso, o ecossistema terrestre era destruído por incêndios florestais (que lançavam ainda mais CO2 no ar) e fustigado por tempestades violentas. Destroços terrestres eram levados para o oceano, inundando os mares costeiros com vegetação em decomposição e minerais erodidos da terra, como o fósforo, que atuava como alimento para as plantas, alimentando enormes florações de algas no mar. Os oceanos, já carentes de oxigênio devido ao calor, começaram a sufocar de verdade, à medida que as florações de algas morriam e se decompunham. 

Tengiz, um dos maiores campos de petróleo do mundo, na costa nordeste do Mar Cáspio, Cazaquistão.
Tengiz, um dos maiores campos de petróleo do mundo, na costa nordeste do Mar Cáspio, Cazaquistão. Fotografia: Reza/Getty Images

À medida que o CO2 continuava a ser liberado das Armadilhas Siberianas em jatos maciços e implacáveis, o planeta se tornava ainda mais quente, e os oceanos não tinham a mínima chance. O CO2 agora empurrava o planeta para além dos limites da vida complexa. E assim que esses mares quentes, anóxicos e sem vida começaram a se espalhar, um espectro do passado ancestral da Terra se renovou neste planeta moribundo.

Ao contrário da maioria das formas de vida na Terra com as quais estamos familiarizados, as bactérias anaeróbicas primitivas, tendo evoluído há eras em um mundo quase sem respiração, não precisam de oxigênio para queimar seu alimento. Para algumas, o sulfato resolverá o problema. E neste mundo em decomposição e sufocante, essa vida microbiana tornou-se ameaçadoramente ascendente, exalando sulfeto de hidrogênio (H2S) como exaustão. Infelizmente, o sulfeto de hidrogênio é impiedosamente tóxico, matando instantaneamente humanos (e criaturas como nós), como às vezes acontece hoje em fossas de esterco ou ao redor de plataformas de petróleo como as da bacia do Permiano, no Texas. E assim essa nuvem escura de vida primitiva espalhou-se insidiosamente pelas profundezas e até mesmo pelas águas rasas. O mundo agora estava muito, muito quente, muito tempestuoso, quase totalmente desprovido de vegetação, com oceanos acidificantes e anóxicos que expeliam gases impiedosamente venenosos de um antigo metabolismo microbiano que matava qualquer coisa que se aproximasse.

Do outro lado do planeta, em relação às erupções, a outrora florestada África do Sul polar tornou-se tão desprovida de vida que rios que antes se curvavam e serpenteavam alegremente – com suas margens ancoradas por raízes de plantas vivas – agora corriam direto sobre a paisagem devastada em arroios entrelaçados e extensos. Estações sobrenaturais quentes e secas devastaram as florestas com fogo, alternando-se com supertempestades apocalípticas que as destruíram por completo. Os animais que povoaram as florestas agora desaparecidas por milhões de anos também desapareceram. Nas rochas, esporos de fungos aparecem estranhamente no registro fóssil em todo o mundo, anunciando o colapso da biosfera. Até mesmo os insetos, cuja grande quantidade geralmente os protege contra a morte em massa, lutaram para sobreviver.

Enquanto o calor devastava a vida nos polos, a região central escaldante da Terra tornara-se claramente sobrenatural. À medida que o CO2 elevava as temperaturas globais, o oceano nos trópicos tornava-se tão quente quanto uma “sopa muito quente”, talvez até suficientemente quente para alimentar “hipercanas” de 800 km/h que teriam devastado as costas. No interior dos continentes, a temperatura teria disparado ainda mais. No momento mais miserável do planeta, grande parte de sua superfície passou a se assemelhar menos à Terra como a conhecemos do que à alimentação de uma sonda em algum posto avançado exoplanetário árido e sem esperança. A Terra, em seu momento mais sombrio, estava perdendo sua terrenalidade. De fato, o oceano pós-apocalíptico estava tão vazio que recifes de carbonato em todo o mundo voltaram a ser reconstruídos na recuperação, não por animais como os corais arcaicos e as conchas de lâmpada que foram extintos, mas por montes calcificados de lodo bacteriano.

Em todos os lugares. Mesmo uma curta caminhada do meu apartamento em Boulder, Colorado, me coloca cara a cara com esta rocha estromatólita do fim do mundo, deixada para trás por tapetes microbianos fétidos. Na Cordilheira Frontal do Colorado, onde a história da Terra foi retirada do solo, inclinada para o lado e ornamentada com pinheiro ponderosa, encontra-se esta rocha vermelha e irregular depositada, camada por camada, por micróbios em um mar mortal há 252 milhões de anos. Ela está encravada entre arenitos mais prosaicos do Carbonífero antes dela, e as areias de praia pisoteadas por dinossauros do Mesozóico depois dela, cujos resquícios assomam como um anteparo atrás de Denver – a geologia de tempos mais felizes. Mas as implicações desta breve cunha de rocha bacteriana e de um oceano global momentaneamente dominado por montes de lodo calcificado são verdadeiramente assustadoras.

Em pouco tempo, quase todos os seres vivos do planeta estavam mortos. O interior dos continentes estava silencioso, exceto pelos ventos quentes e uivantes que varriam as terras devastadas – uma desolação seca que se alternava com tempestades punitivas e sobrenaturais que cheiravam a morte. Os oceanos, cujos mares abertos outrora brilhavam iridescentes com cardumes de espirais e tentáculos flutuantes, e cujos recifes costeiros outrora eram salpicados de vermelho-bombeiro a ultravioleta pela vida, estavam agora pútridos, asfixiantes, vazios e cobertos de lodo. Cada engrenagem da grandiosa e intrincada maquinaria biogeoquímica deste planeta ficou emperrada, desacoplada ou irremediavelmente descontrolada. A vida complexa, como um subconjunto dessa agitação geoquímica global, também se desfez. Tudo por causa da adição excessiva de CO2. Se existe um precedente geológico para o que a civilização industrial tem feito nos últimos séculos, é algo como os vulcões da extinção em massa do fim do Permiano.

Agora, vamos recuar da beira do abismo. Por mais semelhante que nosso experimento moderno no planeta possa parecer a esta era, vale a pena reconhecer, até mesmo enfatizar, que a catástrofe climática do fim do Permiano foi verdadeiramente, extraordinariamente ruim. E em uma escala que dificilmente será igualada pelos humanos. Estimativas mais altas para a quantidade de dióxido de carbono que as Traps Siberianas, que queimam combustíveis fósseis, expeliram, variando até 120.000 gigatoneladas, desafiam a crença. Estimativas ainda mais baixas, de digamos 30.000 gigatoneladas, constituem volumes de CO2 tão completamente ridículos que igualá-los exigiria que os humanos não apenas queimassem todas as reservas de combustíveis fósseis do mundo, mas continuassem a lançar cada vez mais carbono na atmosfera por milhares de anos. Talvez queimando calcário por diversão em escala industrial por gerações, mesmo enquanto a biosfera se desintegra. Do jeito que está, a civilização industrial poderia teoricamente gerar cerca de 18.000 gigatoneladas de CO2 se o mundo inteiro se unisse em um esforço niilista, multicentenário e internacional para queimar todos os combustíveis fósseis acessíveis na Terra.

Mas, embora o volume de CO2 gerado pelas Traps Siberianas supere nossa produção atual e futura, esse total foi alcançado ao longo de dezenas de milênios. O que é alarmante, e por que vale a pena falar sobre as Traps Siberianas no mesmo fôlego que a civilização industrial, é que, mesmo em comparação com aquelas antigas erupções que se espalharam por continentes, o que estamos fazendo agora parece ser único. Acontece que o esforço focado e altamente tecnológico para encontrar, extrair e queimar o máximo possível do reservatório de combustível fóssil do mundo quanto for economicamente viável, o mais rápido possível, tem sido extremamente prodigioso na remoção de carbono da crosta – mesmo em comparação com os maiores Lips da história da Terra. De fato, a melhor estimativa é que estamos emitindo carbono talvez 10 vezes mais rápido do que até mesmo os vulcões siberianos irracionais e sem direção que causaram a pior extinção em massa de todos os tempos.

Isso importa porque é tudo uma questão de taxa. Quase não há quantidade de carbono que você possa bombear para a atmosfera contra a qual, com tempo suficiente, a Terra não consiga se proteger. O CO2 vulcânico supostamente entra no sistema. Sem ele, nada disso funciona: o clima não seria habitável, a vida ficaria sem matéria-prima e o oxigênio acabaria. Mas tudo com moderação. Para manter sua homeostase, o planeta remove continuamente o CO2 da atmosfera e dos oceanos para que ele não se acumule e cozinhe o planeta. Mas esse processo é muito lento em uma escala de tempo humana. Ele enterra esse CO2 em carvão, depósitos de petróleo e gás e, mais importante, sedimentos oceânicos que se transformam em rochas carbonáticas ao longo de milhões de anos. Quando erupções de tamanho mais modesto injetam uma enorme quantidade de CO2 na atmosfera, ameaçando sobrecarregar esse processo, a Terra tem vários freios de mão de emergência.

Os oceanos absorvem o excesso de dióxido de carbono, tornando-se mais ácidos, mas em sua reviravolta milenar, trazem essas águas superficiais mais ácidas para o fundo do mar, na corrente descendente das grandes correntes oceânicas do planeta. Lá, eles dissolvem os sedimentos carbonáticos do fundo do mar – o enorme carpete de minúsculas conchas no fundo do oceano, depositado pela vida ao longo de milhões de anos – e tamponam os mares exatamente da mesma forma que um Tums acalma um estômago ácido e irritado. Esta é a primeira linha de defesa no ciclo do carbono e atua para restaurar a química do oceano ao longo de milhares de anos. Eventualmente, essas forças atuam para restaurar o ciclo do carbono e persuadir a Terra a recuar do abismo. Em um mundo sem humanos ou Lips especialmente catastróficos, esses feedbacks geralmente são suficientes para salvar o planeta. O excesso de CO2 é removido e transmutado em rocha; a temperatura eventualmente cai; e o pH do oceano é restaurado ao longo de centenas de milênios.

Portanto, não é apenas a quantidade de CO2 que entra no sistema que importa, mas também o fluxo. Aplique muito CO2 ao longo de um período muito longo e o planeta consegue lidar com isso. Mas aplique mais do que isso em um período de tempo suficientemente curto e você pode causar um curto-circuito na biosfera.

Infelizmente, a taxa com que os humanos estão injetando CO2 nos oceanos e na atmosfera ultrapassa em muito a capacidade do planeta de acompanhar o ritmo. Estamos agora nos estágios iniciais de uma falha sistêmica. Se continuarmos assim por muito mais tempo, poderemos ver o que uma falha real realmente significa.

Se quisermos sobrecarregar o sistema em um prazo mais curto e desequilibrar perigosamente o ciclo do carbono, precisamos de uma infusão muito mais intensa de CO2 nos oceanos e na atmosfera – mais rápido do que a biologia ou o intemperismo podem nos salvar. O esforço industrial global moderno para encontrar, recuperar e queimar o máximo possível de carbono antigo enterrado na crosta terrestre em questão de meros séculos pode ser suficiente.

Adaptado de “A História do CO2 é a História de Tudo: Um Experimento Planetário”, publicado pela Allen Lane em 26 de agosto. Para apoiar o The Guardian, encomende um exemplar na livraria . Sujeito a taxas de entrega.


Fonte: The Guardian

A meta de mudança climática de 2°C está “morta”, diz renomado cientista climático

A meta de mudança climática de 2°C está “morta”, diz renomado cientista climático

A chaminé de um navio emitindo fumaça preta

A análise concluiu que os cortes recentes na poluição do transporte marítimo que bloqueia o sol aumentaram as temperaturas mais do que o esperado. Fotografia: scphoto/Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O professor James Hansen diz que o ritmo do aquecimento global foi significativamente subestimado, embora outros cientistas discordem

O ritmo do aquecimento global foi significativamente subestimado, de acordo com o renomado cientista climático Prof. James Hansen , que disse que a meta internacional de 2°C está “morta”.

Uma nova análise feita por Hansen e colegas conclui que tanto o impacto dos recentes cortes na poluição causada pelo sol nos navios, que elevou as temperaturas, quanto a sensibilidade do clima ao aumento das emissões de combustíveis fósseis são maiores do que se pensava.

Os resultados do grupo estão no limite superior das estimativas da ciência climática convencional, mas não podem ser descartados, disseram especialistas independentes. Se estiverem corretos, eles significam que condições climáticas extremas ainda piores virão mais cedo e há um risco maior de passar por pontos de inflexão globais, como o colapso das correntes críticas do oceano Atlântico.

Hansen, da Universidade de Columbia, nos EUA, alertou o público em geral sobre o colapso climático em depoimento que prestou a um comitê do Congresso da ONU em 1988.

“O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC) definiu um cenário que dá 50% de chance de manter o aquecimento abaixo de 2C – esse cenário agora é impossível”, ele disse. “A meta de 2C está morta, porque o uso global de energia está aumentando, e continuará aumentando.”

A nova análise disse que o aquecimento global provavelmente atingirá 2°C até 2045, a menos que a geoengenharia solar seja implantada.

As nações do mundo se comprometeram em Paris em 2015 a manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitá-lo a 1,5°C. A crise climática já sobrecarregou o clima extremo em todo o mundo com apenas 1,3°C de aquecimento em média nos últimos anos destruindo vidas e meios de subsistência – 2°C seria muito pior.

O professor Jeffrey Sachs, também da Universidade de Columbia, disse: “Um aumento chocante do aquecimento foi exposto, ironicamente, por uma redução de poluentes, mas agora temos uma nova linha de base e trajetória para onde estamos.”

O cientista climático Dr. Zeke Hausfather , que não fez parte do estudo, disse que foi uma contribuição útil. “É importante enfatizar que ambas as questões – [cortes de poluição] e sensibilidade climática – são áreas de profunda incerteza científica”, disse ele.

“Embora Hansen et al estejam no limite superior das estimativas disponíveis, não podemos dizer com certeza que estejam erradas, mas sim que representam algo mais próximo do pior resultado possível.”

No novo estudo, publicado no periódico Environment: Science and Policy for Sustainable Development , a equipe de Hansen disse: “Não ser realista na avaliação climática e não denunciar a ineficácia das políticas atuais para conter o aquecimento global não é útil para os jovens”.

Eles disseram que a análise do IPCC dependia fortemente de modelos de computador e que a abordagem complementar que eles adotaram de fazer mais uso de observações e análogos climáticos do passado distante era necessária.

O mundo viu temperaturas extraordinárias nos últimos dois anos . A causa primária é o aumento implacável nas emissões de CO 2 da queima de combustíveis fósseis. O pico do ciclo climático El Niño em 2024 adicionou um aumento extra de temperatura.

No entanto, esses dois fatores não explicam completamente as temperaturas extremas, ou sua persistência após o fim do El Niño em meados de 2024. Isso deixou cientistas climáticos intrigados se perguntando se havia um novo fator preocupante não contabilizado anteriormente, ou se o calor extra era uma variação natural incomum, mas temporária.

Um foco importante tem sido nas emissões do transporte marítimo. Por décadas, as partículas de sulfato produzidas por navios queimando combustível bloquearam parte da luz solar de atingir a superfície da Terra, suprimindo as temperaturas.

Mas em 2020, novas regulamentações antipoluição entraram em vigor, cortando drasticamente o nível de partículas de aerossol. Isso levou a mais calor do sol atingindo a superfície , o que os cientistas medem como watts por metro quadrado (W/m2).

A estimativa da equipe de Hansen sobre o impacto disso – 0,5 W/m2 – é significativamente maior do que cinco outros estudos recentes, que variaram de 0,07 a 0,15 W/m2, mas explicaria o calor anômalo. A equipe de Hansen usou uma abordagem de cima para baixo, observando a mudança na refletividade sobre partes importantes do oceano e atribuindo isso às reduções nas emissões de transporte. Os outros estudos usaram abordagens de baixo para cima para estimar o aumento do calor.

“Ambas as abordagens são úteis e frequentemente complementares”, disse o Dr. Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa. “Mas acho que, neste caso, a abordagem de Hansen é muito simples e não leva em consideração as mudanças nas emissões chinesas ou a variabilidade interna.”

O novo estudo também argumenta que a sensibilidade climática do planeta ao aumento das emissões de carbono foi subestimada, em parte devido à subestimação do impacto da redução das emissões do transporte marítimo.

A sensibilidade climática é definida pelos cientistas como o aumento de temperatura que resultaria de uma duplicação dos níveis de CO 2 na atmosfera. Novamente, a equipe de Hansen usou um método diferente da maioria dos cientistas e chegou a uma estimativa mais alta.

O IPCC, uma colaboração de cientistas climáticos do mundo, descobriu que os modelos de computador que melhor reproduzem temperaturas passadas têm uma sensibilidade climática de 2,5 °C a 4 °C.

A equipe de Hansen adotou uma abordagem mais simples, calculando o intervalo potencial de aumento de temperatura para uma duplicação de CO 2 e, em seguida, usando dados sobre quanto calor a Terra reteve para estimar a sensibilidade climática mais provável. A estimativa deles é de 4,5 °C. A formação de nuvens , que é afetada pelo aquecimento global e pela poluição por aerossóis, é uma fonte importante das incertezas.

Temperaturas anormalmente altas continuaram em janeiro de 2025 , o que estabeleceu um novo recorde para o mês e confundiu as expectativas de que as temperaturas cairiam com a atual La Niña, a parte mais fria do ciclo El Niño. “Este recorde inesperado pode pressagiar temperaturas mais altas este ano do que muitos de nós pensávamos”, disse Hausfather.

O grupo de Hansen também argumenta que o aquecimento global acelerado que eles preveem aumentará o derretimento do gelo no Ártico.

“Como resultado, o fechamento da Circulação Meridional do Atlântico (Amoc) é provável dentro dos próximos 20-30 anos, a menos que ações sejam tomadas para reduzir o aquecimento global – em contradição com as conclusões do IPCC.

“Se a Amoc for autorizada a fechar, isso causará grandes problemas, incluindo o aumento do nível do mar em vários metros – portanto, descrevemos o fechamento da Amoc como o ‘ponto sem volta’.”

A estimativa central de outro estudo recente sobre o momento do colapso da Amoc foi 2050.

No entanto, Hansen disse que o ponto sem retorno poderia ser evitado, com base na crescente convicção dos jovens de que eles deveriam seguir a ciência. Ele pediu uma taxa de carbono e uma política de dividendos, onde todos os combustíveis fósseis são taxados e a receita retorna ao público.

“O problema básico é que os resíduos de combustíveis fósseis ainda são despejados no ar sem custo algum”, ele disse. Ele também apoiou o rápido desenvolvimento da energia nuclear.

Hansen também apoiou pesquisas sobre o resfriamento da Terra usando técnicas controversas de geoengenharia para bloquear a luz solar, o que ele prefere chamar de “resfriamento global proposital”.

Ele disse: “Não recomendamos a implementação de intervenções climáticas, mas sugerimos que os jovens não sejam impedidos de ter conhecimento do potencial e das limitações do resfriamento global proposital em sua caixa de ferramentas.”

Mudança política é necessária para atingir todas essas medidas, disse Hansen: “Interesses especiais assumiram poder demais em nossos sistemas políticos. Em países democráticos, o poder deve estar com o eleitor, não com as pessoas que têm dinheiro. Isso requer consertar algumas de nossas democracias, incluindo os EUA.”


Fonte: The Guardian

Parte do vasto sumidouro de carbono do Ártico virou fonte de emissões, revela estudo

Relatório mostra que estoques críticos de CO2 mantidos no permafrost estão sendo liberados à medida que a paisagem muda com o aquecimento global

Um rio e afluentes em pântanos inundados vistos do ar

Perto de Newtok, no Alasca, o derretimento do permafrost está fazendo com que o Rio Ninglick se alargue e eroda suas margens. Fotografia: Andrew Burton/Getty Images

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

Um terço da tundra, florestas e pântanos do Ártico se tornaram uma fonte de emissões de carbono, segundo um novo estudo , à medida que o aquecimento global acaba com milhares de anos de armazenamento de carbono em partes do norte congelado.

Por milênios, os ecossistemas terrestres do Ártico têm atuado como um congelamento profundo para o carbono do planeta, mantendo vastas quantidades de emissões potenciais no permafrost. Mas os ecossistemas na região estão se tornando cada vez mais um contribuinte para o aquecimento global , pois liberam mais CO 2 na atmosfera com o aumento das temperaturas, concluiu um novo estudo publicado na Nature Climate Change .

Mais de 30% da região era uma fonte líquida de CO2 , de acordo com a análise, aumentando para 40% quando as emissões de incêndios florestais foram incluídas. Ao usar dados de monitoramento de 200 locais de estudo entre 1990 e 2020, a pesquisa demonstra como as florestas boreais, pântanos e tundra do Ártico estão sendo transformadas pelo rápido aquecimento.

“É a primeira vez que vemos essa mudança em uma escala tão grande, cumulativamente em toda a tundra. Isso é algo muito grande”, disse Sue Natali, coautora e pesquisadora líder do estudo no Woodwell Climate Research Center.

A mudança está ocorrendo apesar do Ártico estar se tornando mais verde. “Um lugar onde trabalho no interior do Alasca, quando o permafrost derrete, as plantas crescem mais, então às vezes você pode ter um aumento no armazenamento de carbono”, disse Natali. “Mas o permafrost continua a derreter e os micróbios assumem o controle. Você tem esse reservatório realmente grande de carbono no solo e vê coisas como o colapso do solo . Você pode ver visualmente as mudanças na paisagem”, disse ela.

O estudo surge em meio à crescente preocupação dos cientistas sobre os processos naturais que regulam o clima da Terra, que estão sendo afetados pelo aumento das temperaturas. Juntos, os oceanos, florestas, solos e outros sumidouros naturais de carbono do planeta absorvem cerca de metade de todas as emissões humanas , mas há sinais de que esses sumidouros estão sob pressão.

O ecossistema do Ártico, que abrange a Sibéria, o Alasca, os países nórdicos e o Canadá, vem acumulando carbono há milhares de anos, ajudando a resfriar a atmosfera da Terra. Em um mundo em aquecimento, os pesquisadores dizem que o ciclo do carbono na região está começando a mudar e precisa de melhor monitoramento.

Anna Virkkala, a principal autora do estudo, disse: “Há uma carga de carbono nos solos do Ártico. É quase metade do reservatório de carbono do solo da Terra. Isso é muito mais do que há na atmosfera. Há um enorme reservatório potencial que deveria, idealmente, permanecer no solo.

“À medida que as temperaturas aumentam, os solos também aumentam. No permafrost, a maioria dos solos ficou completamente congelada durante o ano inteiro. Mas agora que as temperaturas estão mais altas, há mais matéria orgânica disponível para decomposição, e o carbono é liberado na atmosfera. Esse é o feedback permafrost-carbono, que é o principal impulsionador aqui.”


Fonte: The Guardian

Degradação florestal libera 5 vezes mais carbono da Amazônia do que desmatamento, diz estudo

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Por Justin Catanoso para a “Mongabay”

A degradação florestal – estradas de acesso, extração seletiva de madeira, incêndios, distúrbios naturais – está tendo um impacto muito maior na redução do armazenamento de carbono no sul da Amazônia brasileira do que o desmatamento, de acordo com um novo estudo que produziu algumas das descobertas mais precisas de mudanças nos estoques de carbono em uma região criticamente importante dos trópicos.

Em termos reais, a degradação florestal reduziu o armazenamento de carbono na área de estudo cinco vezes mais do que o desmatamento, um achado que não se reflete atualmente na contabilidade de emissões de carbono do Brasil.

“Quando os países relatam suas mudanças florestais e de carbono, eles dependem principalmente do desmatamento porque é muito mais fácil de ver e quantificar”, disse Ovidiu Csillik, principal autor do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no Instituto de Tecnologia da Califórnia, à Mongabay. “Mas descobrimos que a degradação florestal é realmente mais importante em termos de perda de carbono.”

Analisando e comparando dados de 2016 e 2018 no chamado Arco do Desmatamento do Brasil e cobrindo 48.280 hectares (119.300 acres), uma equipe de especialistas internacionais dividiu a região em 99 transectos. Eles usaram sobrevoos repetidos de lidar aerotransportado, uma tecnologia de sensor remoto a laser que registra objetos em três dimensões e obtém dados detalhados, para produzir dois vastos conjuntos de dados, de acordo com o estudo publicado na revista PNAS da Academia Nacional de Ciências.

As florestas tropicais estão sujeitas a uma variedade de tipos de distúrbios ou degradação devido à mortalidade em pequena escala por processos naturais que afetam uma ou algumas árvores.
As florestas tropicais estão sujeitas a uma variedade de tipos de distúrbios ou degradação devido à mortalidade em pequena escala por processos naturais que afetam uma ou algumas árvores. Isso inclui incêndio, inundações, deslizamentos de terra, extração seletiva de madeira ou derrubada de árvores relacionada ao clima. Imagem cortesia de K.C. Cushman.

As descobertas de alta resolução são consideradas sem precedentes, oferecendo insights precisos sobre as principais mudanças no uso da terra que, em última análise, afetam as mudanças climáticas. Os dados do Lidar também permitem estimativas de armazenamento de carbono em biomassa e solos.

“Embora os efeitos do desmatamento na perda de carbono tenham sido exaustivamente pesquisados”, observa o estudo, “o impacto da degradação florestal no carbono não é bem compreendido e é difícil de quantificar com precisão em grande escala. A degradação é mais dispersa espacialmente do que o desmatamento, expandindo as fronteiras da perda florestal.”

Os pesquisadores observam que a degradação geralmente leva ao desmatamento, com quase metade das florestas tropicais desmatadas nos anos subsequentes, de acordo com o estudo. Embora a terra degradada tenha o potencial de ser restaurada ao longo do tempo, o desmatamento normalmente anuncia uma mudança permanente no uso da terra, como agricultura e pecuária.

As descobertas são significativas em vários níveis, de acordo com especialistas. A Amazônia, 64% da qual está no Brasil, é uma importante fonte de armazenamento de carbono e uma linha de frente de defesa contra a crescente taxa de aquecimento global. Mas as taxas dramáticas de desmatamento nas últimas cinco décadas estão diminuindo a capacidade da Amazônia de sequestrar e armazenar carbono. Entender com mais precisão o que está impulsionando essas mudanças pode levar a estratégias novas ou aprimoradas para reduzir a degradação florestal e o desmatamento, de acordo com os autores.

Também pode levar os países tropicais a relatar o sequestro e as emissões de carbono baseadas nas florestas com mais precisão, o que é essencial para estratégias e políticas eficazes de mitigação do clima.

“A vulnerabilidade das florestas tropicais às mudanças climáticas, incluindo secas mais frequentes e severas, bem como o aumento da suscetibilidade a incêndios, intensifica ainda mais a degradação dessas florestas, resultando em perdas aceleradas de carbono e perturbações do ecossistema”, escrevem os autores.

Este mapa, publicado com o estudo PNAS, ilustra os resultados detalhados do lidar que distinguem a degradação florestal do desmatamento em todo o Arco do Desmatamento no sul da Amazônia brasileira.
Este mapa, publicado com o estudo PNAS, ilustra os resultados detalhados do lidar que distinguem a degradação florestal do desmatamento em todo o Arco do Desmatamento no sul da Amazônia brasileira. Imagem cortesia de Ovidiu Csillik.
O desmatamento, ou extração de madeira rasa, é muito mais fácil de identificar na maioria dos sensoriamentos remotos
O desmatamento, ou extração de madeira rasa, é muito mais fácil de identificar a partir da maioria dos sensoriamentos remotos, mas não conta toda a história quando se trata de uma quantidade decrescente de capacidade de sequestro de carbono na Amazônia, de acordo com uma nova pesquisa da PNAS. Imagem de Marcos Longo.

Uma compreensão detalhada

Csillik, especialista em sensoriamento remoto, disse que os dados usados no estudo não foram analisados desde sua conclusão em 2016 e 2018. Ingressando no Laboratório de Propulsão a Jato em 2022, ele foi encarregado de comparar dois dos maiores conjuntos de dados de lidar aerotransportado intensivo em uma floresta tropical já compilados.

“Além de quantificar a dinâmica do carbono, ou perdas e ganhos, em uma resolução muito alta com lidar aéreo repetido, também levamos o estudo um pouco mais longe e apresentamos uma compreensão detalhada de quais são os fatores por trás dessas perdas de carbono”, disse ele.

Em terras degradadas, por exemplo, ocorrências naturais e causadas pelo homem, como deslizamentos de terra, inundações, derrubada de árvores relacionada ao vento, extração isolada de madeira e fragmentação florestal, se destacaram claramente nos dados do lidar como fontes de perda de carbono que antes passavam despercebidas ou não contabilizadas.

“A degradação florestal é muitas vezes difícil de quantificar e monitorar porque ocorre de maneiras sutis que não são facilmente detectáveis por meio de métodos convencionais de sensoriamento remoto e em locais onde o acesso no terreno pode ser controlado por proprietários de terras que realizam atividades ilegais ou irregulares”, observa o estudo.

Marcos Longo, coautor e cientista climático e de ecossistemas do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, disse à Mongabay que o estudo “é um retrato importante do que aconteceu no passado recente” no Brasil. Mas ele disse que uma compreensão ainda mais profunda das mudanças nas terras tropicais exigirá pesquisas novas e de longo prazo sobre sensoriamento remoto.

“Acho que com o desenvolvimento da tecnologia que temos agora, como o lidar na Estação Espacial Internacional, podemos começar a construir essa compreensão de longo prazo da degradação florestal em ecossistemas tropicais”, disse Longo. A Investigação da Dinâmica do Ecossistema Global da NASA, ou GEDI, está agora a bordo da estação espacial.

Ovidiu Csillik
Ovidiu Csillik, autor principal que anteriormente trabalha no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no Instituto de Tecnologia da Califórnia, agora é especialista em sensoriamento remoto na Wake Forest University, na Carolina do Norte. Imagem cortesia de Ovidiu Csillik.

Priorizando áreas indígenas e protegidas

A pesquisa também constatou que os territórios indígenas e as unidades de conservação foram eficazes na proteção da floresta contra a degradação antrópica, ecoando estudos anteriores. “Enquanto combinadas, elas ocupavam 47,5% da área [estudada], continham apenas 9,1% de desmatamento, 2,6% de exploração madeireira e 9,6% de incêndios”, observam os autores.

O professor de ecologia e biologia evolutiva Scott Saleska disse que o novo estudo revela dados únicos sobre os fatores de degradação florestal no sul da Amazônia brasileira. Em 2000, Saleska, professor da Universidade do Arizona, esteve envolvido em algumas das primeiras pesquisas lidar em pequena escala na Amazônia. Embora o Brasil faça parte de seu campo de estudo, ele não esteve envolvido no estudo da PNAS.

E embora seu próprio foco seja a pesquisa básica, ele disse que pode imaginar resultados práticos ou políticos decorrentes das descobertas, como maior aplicação dos regulamentos de proteção florestal existentes.

“A outra coisa que se destaca é a priorização da conservação e preservação”, disse Saleska à Mongabay. “Este estudo dá uma visão impressionante da eficácia das áreas de conservação e regiões indígenas para salvar florestas, porque essas áreas são claramente mostradas como tendo o menor impacto. Eles parecem eficazes na prevenção da extração de madeira e do fogo em uma escala impressionante.

Dado seu interesse nas questões e na Amazônia brasileira, Saleska acrescentou que o novo estudo “fornece um modelo, um modelo para levar esse tipo de pesquisa a uma escala maior. Temos muito mais ferramentas à nossa disposição para medir o CO2 na atmosfera para descobrir quais lugares na Amazônia, em amplas regiões, estão perdendo ou ganhando carbono.”

 

Imagem do banner: Incêndio em área recém-desmatada no Brasil. O fogo também contribui para a degradação florestal em todos os trópicos, especialmente na área de estudo do sul da Amazônia brasileira. Imagem © Christian Braga / Greenpeace.

Justin Catanoso é colaborador regular da Mongabay e professor de jornalismo na Wake Forest University, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Divulgação: o principal autor do estudo, Ovidiu Csillik, ingressou no corpo docente de ciências ambientais de Wake Forest em julho.


Fonte: Mongabay

A seca e o calor estão reduzindo a capacidade de absorção de carbono pelas florestas

Estudos recentes fornecem novos insights sobre esta relação observada durante a seca severa e a onda de calor de 2022 em grande parte da Europa. A renovação da gestão florestal é fundamental

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Os extremos climáticos e a gestão florestal obsoleta enfraquecem o sumidouro terrestre que nos dá mais oxigênio para viver

Por Reina Campos Cada para a MeteoRed

Os acontecimentos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, são prejudiciais para a sociedade e para o funcionamento dos ecossistemas terrestres. Como consequência, a produção de alimentos, a saúde humana e os recursos energéticos são afetados.

Embora as secas tenham ocorrido durante séculos, a Europa registou recentemente uma elevada incidência destes eventos extremos e as projeções mostram um aumento dos mesmos com o aquecimento global.

Sabemos que a ligação entre a seca e a redução da absorção de carbono está bem estabelecida, mas permanecem questões importantes sobre o impacto das secas recorrentes, a força dos efeitos de compensação sazonais e regionais, as reações terra-atmosfera que podem exacerbar as ondas de calor e as estratégias de gestão florestal numa mudança climática, menciona um estudo.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Nature Communications, salienta que esta situação é preocupante, porque a seca e o calor ameaçam a absorção de carbono pelos ecossistemas que atualmente atenuam o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, ao compensarem um terço das emissões antropogênicas de combustíveis fósseis.

Para fornecer respostas concretas, outro estudo publicado na mesma revista científica, aproveitou os dados disponíveis para mostrar que a seca severa (intensa e prolongada) e a onda de calor de 2022 reduziram a absorção de carbono florestal às escalas local, regional e continental.

Secas e ondas de calor em grande escala ocorrem a partir de padrões de alta pressão na circulação atmosférica que inibem a formação de nuvens e a precipitação, aumentando a energia disponível na superfície da Terra. O melhor feedback terra-atmosfera agrava ainda mais as condições extremamente secas e quentes, à medida que a água transpirada pelas plantas e evaporada dos solos é reduzida. Portanto, o resfriamento se torna menos eficiente e mais energia disponível aquece o ar.

Recomendações para o manejo florestal em nível nacional e internacional

Sugere-se que os governos considerem os graves impactos da seca no sumidouro de carbono florestal para atingir as metas de emissões líquidas zero. Além de reduzir a desflorestação, países tropicais como o Brasil e a Indonésia estão planejando mudanças substanciais no uso da terra para compensar as emissões de gases com efeito de estufa (GEE). “Na Europa, a área florestal tem vindo a aumentar há décadas (10% durante o período 1990-2020) e a mudança no uso do solo representa 1% da meta de redução para 2030”, observa o estudo.

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O stress hídrico evolui (da esquerda para a direita) de uma combinação de défice de precipitação e aumento de temperaturas. Fonte: Wolf e Paul-Limoges (2023).

Para garantir a resiliência do sumidouro de carbono florestal, as melhorias nas práticas de gestão atuais devem incluir mudanças no sentido de combinações de espécies que sejam mais bem adaptadas às condições climáticas futuras, preservando simultaneamente as espécies locais e a biodiversidade.

As estratégias de gestão florestal, em um clima em mudança, precisam combinar abordagens de adaptação e mitigação para permitir o armazenamento resiliente de carbono. Se for devidamente implementado, isto poderá garantir que a meta de emissões líquidas zero seja cumprida e tornar as futuras florestas mais resilientes a eventos extremos, como a seca e o calor de 2022.

O evento de 2023 também poderá rivalizar com os anos de 2018 e 2022 devido a uma combinação de impactos diretos nas regiões mais afetadas, à libertação de carbono de incêndios florestais generalizados no sul da Europa e aos efeitos relacionados na mortalidade de árvores devido a anos consecutivos de seca, indica o estudo.

Embora os impactos do evento de 2022 ainda estejam sendo investigados, a Europa está sofrendo mais um ano de temperaturas extremas e seca em 2023. Após um inverno quente e seco, a Península Ibérica, o sul de França e o noroeste de Itália foram afetados devido a uma grave seca em Primavera tardia. As condições de seca surgiram em grande parte do norte, centro e leste da Europa durante junho e julho, enquanto temperaturas recordes foram observadas juntamente com uma forte onda de calor que atingiu o pico no final de julho.

Por último, a redução na absorção de carbono florestal durante a seca e o calor de 2022 já não poderia ser excepcional em um clima mais quente, revelando a vulnerabilidade do sumidouro de carbono florestal a tais cenários climáticos.

Embora possa ser muito cedo para designar estas condições como o “novo normal”, há provas claras de que estes eventos têm aumentado em frequência e intensidade em grande parte da Europa. Está a tornar-se cada vez mais claro que secas e ondas de calor recorrentes desafiam as metas de emissões líquidas zero dos governos dependentes da silvicultura, e que a gestão florestal deve adaptar-se para reter o sumidouro de carbono nas florestas.


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Este texto foi originalmente publicado pela MeteoRed [Aqui!].

Compensações de carbono são insuficientes para a proteção das florestas tropicais, mostra estudo na Science

compensação carbono

Dos 18 projetos analisados ​​na África, na América Latina e no sudeste asiático, apenas o Peru registrou uma redução, ainda que modesta, do desmatamento de suas florestas tropicais em dez anos. Crédito da imagem: Serfor Perú, imagem no domínio público

Por Roberto González para a SciDev

[CIDADE DO MÉXICO]. Enquanto um estudo recente sugeriu revisar os métodos usados ​​para distribuir as compensações de carbono criadas para reduzir o desmatamento em países tropicais , devido ao seu escasso impacto, um grupo de comunidades indígenas no sul do México está obtendo bons resultados vendendo bônus de compensação de carbono utilizando metodologias mais rigorosas.

Apenas o 6º por cento dos créditos de carbono gerados por 18 projetos em países da América Latina, África e Sudeste Asiático estão associados a uma distribuição real de CO2 na atmosfera , segundo um estudo publicado na Science . Os autores sugerem revisar as metodologias que estão sendo aplicadas com a conclusão de que os projetos realmente cumprem os requisitos propostos.

Os mercados de carbono foram idealizados como uma medida de incentivo econômico às empresas e governos para reduzir suas emissões de gases de efeito invernal (GEI) que contribuem para o aquecimento global . A moeda de mudança neste mercado internacional são os créditos de carbono, cada um dos quais equivale a uma tonelada de CO2 .

Cada governo administra as empresas que operam em seu território uma quantidade de créditos de carbono para gastar. No entanto, se a indústria refinada for limitada, haverá a obrigação de comprar créditos para outras empresas, a fim de que elas sobren gracias a um gerenciamento mais eficiente do GEI que vierten.

Com o objetivo de evitar a degradação dos ecossistemas dos países em desenvolvimento, também foi considerada a possibilidade de gerar projetos que contribuam para evitar o desmatamento, financiados com bônus de carbono. Assim, cada tonelada de CO2 que não foi emitida para a atmosfera graças a uma determinada iniciativa se converte em um crédito de carbono que pode comprar alguma empresa que você precisa.

“Estamos vendendo bônus de carbono resultado do crescimento do bosque derivado das atividades que as comunidades realizam para o manejo florestal”.

Rosendo Pérez Antonio, Integradora de Comunidades Indígenas e Campesinas de Oaxaca no México (ICICO)

Esses projetos podem ser gerados por governos ou por particulares e podem ser denominados “ mercados voluntários ”. Dentro de cada parcela estão incluídos os locais para a redução de emissões devido ao desmatamento e degradação florestal analisados ​​pelo estúdio sob consulta.

Para saber quais são os benefícios do oferente, os desenvolvedores dos programas devem consultar as metodologias aprovadas pelo Padrão de Carbono Verificado . Isso consistia em realizar uma estimativa de como seria o avanço do desmatamento em uma área determinada, caso nenhuma intervenção fosse recebida; este cálculo é a chamada linha de base. Depois de gerar um cenário hipotético, isso contribuirá para o projeto para reduzir a degradação florestal. A diferença entre a linha de base e isso supõe que como resultado a quantidade de créditos de carbono gerados pelo projeto.

Para Thales West, engenheiro florestal e ecólogo que realizou a investigação publicada na Science , esses cálculos são baseados em suposições demais sem considerar variáveis ​​que afetam o desmatamento, como mudanças de governo ou políticas públicas.

Por outro lado, os modelos que usam são flexíveis: “Um bom modelador estadístico pode gerar qualquer tipo de linha de base que você deseja, ou pelo menos jogar com os dados para encontrar um que se ajuste bem ao projeto”, mensagem do SciDev.Net o investigador da Universidade de Amsterdã.

Ao usar metodologias rigorosas para calcular linhas de base mais realistas e observar quanto desmatamento foi realmente evitado, o equipamento encontrado que quase nenhum dos 18 projetos registrou uma redução significativa. Além disso, nenhum deles foi atingido pelo impacto projetado no início dos projetos.

Só no caso peruano houve uma redução de 686 hectares anuais no desmatamento (0,24%), em dez anos. Mas mesmo neste caso foi menor do que o inicialmente estimado, que era de 3.661 hectares ao ano. Por outro lado, a Colômbia conseguiu evitar o desmatamento de apenas 49 hectares anuais com a projeção de 2550.

Esta situação prejudica a credibilidade dos certificados de redução de emissões geradas por esses projetos, explica Verónica Gutman, economista ambiental argentina, que não fez parte da investigação.

“Por isso, cobre cada vez mais relevância os Sistemas de Pagamento por Resultados: se paga contra a verificação efetiva de quantas emissões de GEI se logrou reduzir o desmatamento evitado em relação a um nível de referência”. Isso implica que primeiro se implementou a iniciativa e depois que se calculou o desmatamento evitado com dados reais, e não com estimativas baseadas em supostos.

O caso de Oaxaca

Este é o caso da Integradora de Comunidades Indígenas e Campesinas de Oaxaca no México ( ICICO ), que agrupa 12 comunidades, e usa uma metodologia já existente, cuja aplicação é toda uma resposta porque implica uma inversão inicial forte e de muito risco, mas que viene gerando resultados promissores.

Atividades de reflorestamento realizadas em Maninaltpec, Oaxaca pelas comunidades de ICICO. Crédito da imagem: Cortesia de ICICO para SciDev.Net

“Estamos vendendo bônus de carbono resultado do crescimento do bosque derivado das atividades que as comunidades realizam para o manejo florestal ”, explica Rosendo Pérez Antonio um dos desenvolvedores do projeto.

Em 2013, a Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica realizada em Cancún, México, incluiu 163 bônus de carbono para a ICICO para compensar o CO 2 emitido no transporte para os assistentes de 43 países diferentes.

O projeto mais recente da ICICO abrange 27.711 hectares e produziu o ano passado aproximadamente US$ 4,2 milhões pela comercialização de bônus de carbono que foram pagos diretamente às comunidades participantes, informa Rosendo.

E explica que, se bem o projeto assesor às comunidades no uso do dinheiro, eles quiserem tomar a decisão final sobre a cantidad a inverter para continuar os projetos de manejo florestal e o que se destinará a satisfazer suas necessidades.

“Eles vêm dos recursos que estão sendo roubados pela venda de benefícios como um incentivo para seguir realizando as atividades que vêm realizando desde há mais de 30 anos”, explica Pérez. “Os fatores para a conservação de esses bosques vão além dos recursos que você obtém. Ven al territorio como su casa, y como és su casa, la tienen que cuidar”, acrescenta.

No entanto, o retorno deste tipo de projeto é a inversão inicial, a venda dos certificados só pode ser levada a cabo após a implementação do projeto, explica Gutman. Sobre os mercados voluntários, concluímos que “certos aspectos podem ser aperfeiçoados […] são, em todo o caso, um dos instrumentos com os que se conhecem, mas por si só não conseguem alcançar a redução global de emissões que são necessárias para não superar os 2° de aumento de temperatura que estabelecem o Acuerdo de Paris”.

Acesse o resumo do estudo publicado pela Science


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net  e publicado [Aqui!].

REDD++: mais menos do que mais

Os projetos de proteção florestal compensam muito menos emissões do que declaram no comércio de certificados

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A compensação das emissões de CO2 através da proteção das florestas muitas vezes só funciona no papel. Foto: AFP/Patrick Fort
Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

O princípio parece simples: por um lado do planeta, uma empresa industrial ou um país industrializado emite dióxido de carbono e, assim, aquece o clima global. Para compensar, financia “voluntariamente” um projeto de proteção florestal ou de reflorestação noutra região do mundo através de créditos de emissões , a fim de retirar a mesma quantidade de CO 2 da atmosfera através do crescimento das plantas e, assim, contrariar o efeito de estufa ou prevenir desmatamento e a liberação associada de gases de efeito estufa. Mas este mecanismo foi desenvolvido como parte do acordo climático da ONU desde 2005 »Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas«, ou REDD+, parece, na prática, mais uma fachada do que uma verdadeira proteção climática.

“Acreditamos que a REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) pode fornecer os incentivos necessários para complementar os esforços existentes para proteger as florestas e a biodiversidade.  A REDD+ oferece muito mais do que apenas remuneração pela redução de emissões”, escreveu Gerd Müller, antigo Ministro Federal da Cooperação e Desenvolvimento Económico, no relatório “REDD+: Protegendo Florestas e Clima para o Desenvolvimento Sustentável” publicado pelo seu ministério em 2015. É também por isso que o BMZ financiou estes projetos de REDD+, principalmente nos trópicos, com mais de 700 milhões de euros entre 2008 e 2014. Segundo a Universidade de Bonn, os créditos de carbono atingiram um valor de mercado global de dois mil milhões de dólares no ano passado.

Avaliação de 26 projetos

Uma equipa internacional de oito cientistas de vários institutos de investigação já avaliou 26 projetos voluntários de REDD+ em seis países tropicais. No seu estudo, publicado na revista Science, chegaram à conclusão de que mais de 90 por cento dos créditos de carbono destes projectos na Colômbia, Peru, Camboja, Tanzânia, Zâmbia e República Democrática do Congo não compensam realmente os correspondentes emissão de gases de efeito estufa. E os projetos que reduziram o desmatamento superestimaram o seu impacto.

“A compensação de CO 2 dos projetos REDD+ é concedida com base numa comparação entre a cobertura florestal existente nas áreas dos projetos e os cenários de desflorestação que provavelmente teriam ocorrido sem REDD+”, escrevem os investigadores. Para avaliar os projetos, eles criaram cenários de referência baseados em taxas históricas de desmatamento e tendências de desmatamento nas regiões do que teria acontecido lá sem o programa REDD+ e os compararam com os cálculos e informações fornecidos pelos desenvolvedores do projeto.

Segundo o estudo, apenas oito dos 26 projetos examinados apresentaram alguma evidência de redução do desmatamento. Alguns locais de REDD+ no Peru, Colômbia e Camboja reduziram significativamente o desmatamento. Por outro lado, para os projetos REDD+ na República Democrática do Congo, Tanzânia e Zâmbia, os investigadores não encontraram provas de que a desflorestação tenha sido evitada. No geral, os projectos evitaram muito menos desflorestação do que os promotores do projeto tinham previsto. Apenas cerca de 6% das poupanças declaradas estão ligadas a reduções reais, fazendo com que os projectos REDD+ emitam mais créditos de carbono do que lhes é permitido.

Isso significa que os créditos de emissão são, em sua maioria, “ar quente”, segundo conclusão da equipe de pesquisa.

“Estamos a enganar-nos quando compramos estas compensações”, afirma o líder do estudo Thales AP West, do Instituto de Estudos Ambientais da Vrije Universiteit Amsterdam. “Indivíduos e organizações estão a gastar milhares de milhões de dólares numa estratégia de alterações climáticas que não está a funcionar, em vez de investirem esse dinheiro em algo que pode realmente fazer a diferença, como a energia limpa.”

Figuras refinadas

Como uma das razões para a imensa discrepância e ineficácia dos projectos examinados, os investigadores assumem que os promotores dos projetos selecionaram deliberadamente áreas onde a desflorestação pode ser evitada com especial facilidade ou que não são de todo afetadas. Há também uma tendência de maximização das receitas provenientes da venda de certificados. “É de se esperar que alguém que proteja uma área e queira ganhar dinheiro com isso apresente números particularmente elevados”, diz o coautor Jan Börner, do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Universidade de Bonn. Os seis países examinados não são casos excepcionais.

Já em 2020, o cientista de Bonn para uso sustentável da terra e bioeconomia e seu colega pesquisador West chegaram a uma conclusão semelhante ao analisar projetos no Brasil. Börner: »Os métodos e critérios utilizados atualmente não provaram ser eficazes. Algo tem que mudar no sistema, caso contrário será apenas uma venda de indulgências.«

Economicamente eficaz para o operador

“O estudo fornece exemplos concretos de como divergem os pressupostos sobre a quantidade de emissões evitadas através da proteção das florestas e os desenvolvimentos realmente mensuráveis”, afirma o cientista climático Hannes Böttcher, do Öko-Institut, avaliando o trabalho de investigação, no qual não esteve envolvido. E Michael Köhl, do Instituto de Ciência da Madeira da Universidade de Hamburgo, comenta:  “os projetos são ineficazes para a protecção do clima, mas economicamente eficazes para os operadores. Enquanto os operadores do projeto puderem escolher eles próprios as suas áreas de referência, nada mudará.”


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Emissões de carbono na Amazônia cresceram 122% em 2020 em relação à média de 2010 a 2018

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As emissões de gás carbônico (CO2) pela Amazônia aumentou em 122% e 89% nos anos de 2020 e 2019, respectivamente, em comparação com o período de 2010 a 2018. O crescimento representa a soma dos números do desmatamento e das queimadas na região, e está relacionado principalmente ao declínio na aplicação de leis ambientais. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições nacionais e estrangeiras publicado na quarta (23) na revista “Nature”.

A equipe comparou dados sobre o cumprimento das regulamentações ambientais aos eventos ocorridos na Amazônia durante o período de 2010 a 2018, já analisados em produções anteriores, e nos anos subsequentes, 2019 e 2020. Os pesquisadores coletaram amostras de CO2 em 742 voos realizados com uma pequena aeronave em quatro localidades da Amazônia e analisaram as amostras em laboratório do INPE.

O resultado das pesquisas foi compartilhado com técnicos do PRODES/DETER (INPE), que produziram mapas comparando a diferença do desmatamento em 2019 e 2020 com a média 2010-2018. Verificou-se que o aumento de desmatamento em 2019 foi de 82% e de 77% em 2020. Também houve aumento na área queimada de 14% em 2019 e de 42% em 2020. Já as multas reduziram 30% e 54%, e os pagamentos das multas reduziram em 74% e 89% em 2019 e 2020, respectivamente.  “O modelo econômico na Amazônia está por trás disso”, comenta Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e principal autora do artigo.

Os dados apontam ainda que o nível das emissões registradas entre 2019 e 2020 são comparáveis ao observado em 2015 e 2016, quando um evento climático extremo de grande escala atingiu a região – o El Niño. “Quando o El Niño aconteceu, as emissões de CO2 cresceram porque foi um período de extrema seca, com muitas queimadas e perda de parte da floresta”, explica a pesquisadora. Gatti reforça que 2019 e 2020 não contaram com razões climáticas que justifiquem o crescimento das emissões, o que aponta para a ação humana como explicação.

A pesquisa salienta que as ações de monitoramento e controle podem ser ainda mais importantes nos próximos anos, quando a previsão é de que a região amazônica enfrente desafios maiores, pois as previsões indicam que o próximo evento climático promete ser mais intenso que o último El Niño. “Os dados mostram claramente a importância de políticas de controle e combate ao desmatamento eficazes”, frisa Gatti.

O financiamento do governo é essencial para que as análises possam continuar sendo feitas. “O recurso financeiro usado para as pesquisas é cedido por agências de financiamento de ciência, mas, para que os dados possam estar disponíveis independentemente de publicações científicas, precisamos de financiamento por parte do Governo Federal”, explica a pesquisadora.

A pesquisa observa que a exportação de madeira na Amazônia aumentou quase 700% no período, assim como também cresceram a área plantada de soja (68%) e de milho (58%), além do rebanho bovino (14%) dentro da Amazônia. Daí a importância de políticas públicas apontando um modelo de economia com a floresta em pé, e mais eficazes para a preservação da floresta e a conservação da diversidade amazônica. “Estamos na batalha para o governo assumir a tarefa de zerar o desmatamento antes de 2030 e reflorestar uma parte nas regiões críticas para salvar a Amazônia do ponto de não retorno”, conclui Gatti.