A ocupação do MST tira o véu das dívidas milionárias da Usina Sapucaia e reforça urgência da reforma agrária

A reforma agrária continua sendo o único mecanismo capaz de trazer paz e justiça no campo

A rápida reação do chamado setor (im) produtivo combinada com uma rara unanimidade na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes (ver imagens abaixo) tem como objetivo ocultar um fato que a ocupação liderada pelo MST deixa escancarado: as dívidas milionárias que a Usina Sapucaia possui com o governo federal e com os seus antigos trabalhadores.

A ação do governo de Cláudio Castro para forçar a retirada dos trabalhadores sem terra da Fazenda Santa Luzia, que pertence à massa falida da Usina Sapucaia, é uma espécie de coroamento de uma aliança anti-reforma agrária. Tal aliança nada santa busca apenas impedir que seja feita justiça com centenas de famílias que vivem na mais completa miséria, enquanto dívidas milionárias continuam, como diria Bob Dylan, “blowing in the wind“.

Grande efetivo da Polícia Militar está impedindo entrada de água e alimentos no acampamento de trabalhadores rurais sem terra na Fazenda Santa Luzia

É importante lembrar aos vereadores que assinaram a nota de repúdio à ocupação da Fazenda Santa Luzia que a única forma de garantir um efetivo compromisso com o desenvolvimento sustentável, defender o direito dos trabalhadores e manter a legalidade seria cobrar do governo Lula a rápida desapropriação das terras da Fazenda Santa Luzia e sua transformação em uma assentamento de reforma agrária.

O resto, me perdoem, é tampar o sol com a peneira.  Fato que nessa planície tão ensolarado é um grande nada.

Deputada Marina do MST denuncia ação ilegal contra ocupantes da Fazenda Santa Luzia

A deputada estadual Marina do MST (PT/RJ)denuncia o bloqueio feito contra 400 famílias que ocupam fazenda em Campos dos Goytacazes. Segundo Marina, este bloqueio está impedindo a chegada água, comida e solidariedade ao acampamento montado na Fazenda Santa Luzia.

Ainda segundo a deputada, a Polícia Militar teria recebido “ordens superiores” do governador Claúdio Castro para despejar à força quem luta por terra e dignidade. Segundo ela, isso configura repressão e injustiça!

Marina aponta que, enquanto a Usina Sapucaia deve 200 milhões à União, famílias sem terra são tratadas como criminosas.  Segundo a deputada, a reforma agrária é um direito, não um favor!

É importante afirmar a solidariedade com essas 400 famílias e denunciar a tentativa de criminalizar quem luta pela reforma agrária.

Veja a declaração completa da deputada Marina do MST no vídeo abaixo.

A peculiar decisão judicial sobre supostas “invasões” de terra e as perguntas que ainda não foram feitas

Russian-Matroshka_no_bg

A mídia corporativa campista está divulgando de forma acrítica (qual é a novidade aqui?), a decisão do juiz Marcio Roberto da Costa da Comarca do Rio de Janeiro em prol da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) que pediu uma espécie de livre conduto para terras que teria arrendado da falida Usina Cupim em 2018.

A cobertura inicial já mostrava que esse é um assunto maltratado por uma péssima cobertura jornalística, na medida em que se atribuiu ao MST a organização de uma ocupção de terra (que a mídia corporativa chama de “invasão”) que o próprio movimento disse desconhecer. Além disso, foi no minimo curiosa a rápida mobilização (por terra e pelo ar) de tropas da Polícia Militar, apenas a partir de uma “dica” que teria sido oferecida sobre uma ocupação no mínimo misteriosa.

Também considero curioso o fato de que a liminar em prol da Coagro tenha sido proferida na Comarca do Rio de Janeiro e não na de Campos dos Goytacazes como seria o mais lógica. Afinal, se as terras da Usina Cupim estão localizadas em nosso município, por que recorrer a um meritíssimo assentado na Comarca do Rio de Janeiro?

O que a imprensa corporativa campista deveria ter apurado e não apurou é sobre esse aludido estoque de terras da Usina Cupim que teria sido arrendado desde 2018 pela Coagro. Afinal, essas terras supostamente arrendadas estão sendo usadas para o aludido intento de plantar cana-de-açúcar? E de quantos hectares se trataria esse arrendamento? E quem seriam dessas terras arrendadas e qual seria a relação deles com a Coagro?

Todas essas perguntas poderiam ser seguidas sobre o estoque de dívidas da Usina Cupim com a União e com os seus antigos empregados, na medida em que estando em recuperação judicial, há que se ter uma ideia de quais são as tratativas acordadas para o pagamento do que é devido.

Um fato que toda pessoa com um conhecimento mínimo sobre a situação do estoque de terras associadas às usinas falidas em Campos dos Goytacazes é que boa parte das terras que elas e seus donos possuíam servem hoje como alavanca para um forte processo de especulação de terras em prol da expansão da franja urbana que se move em direção à baixada campista.  Assim, todo esse alarde em torno de uma suposta ocupação em Ururaí pode estar alinhado com o mesmo tipo de processo de especulação fundiária, ainda que em uma área que não está no foco principal do mercado imobiliário. Se essa for a ligação de fato, toda e qualquer conversa sobre uso agrícola será só uma mera distração.

Finalmente, o que me parece ainda mais peculiar é que a Coagro agora se tornou uma espécie de ferramenta anti-reforma agrária no município de Campos dos Goytacazes. É que agora bastará que todo latifundiário pego com terras improdutivas (e elas são abundantes por aqui) obtenha um contrato de arrendamento com a Coagro para obter o mesmo tipo de sentença concedida no Rio de Janeiro, sob a bandeira da jurisprudência. Eu diria que isso é muito melhor do que plantar cana ou qualquer outra cultura que seja.

Observatório dos agrotóxicos: denúncia de descarte ilegal de embalagens em vazias em fazenda já denunciada por prática de trabalho escravo

wp-1593176082650.jpg

Uma das questões que sempre repito quando abordo o processo de uso intensivo de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, é que se olharmos de perto veremos sempre a presença de relações com outras malignidades sociais e ambientais. Pois bem, hoje o blog recebeu uma denúncia de crime ambiental que teria sido praticado em uma propriedade rural que fica localizada em Guandu, bairro do Distrito de Travessão (ver mapa abaixo).

guandu 1

O crime ambiental em questão estaria caracterizado pelos despejo ilegal de embalagens vazias do herbicida Hexaron WG, fabricado pela Adama Brasil, em um corpo aquático localizado no interior da Fazenda Guandu que é usada primariamente para o monocultivo da cana, e que estaria neste momento arrendada para a Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro Ltda (Coagro) (ver imagens abaixo). 

Um primeiro detalhe sobre o Hexaron WG é que ele é indicado primariamente para a cultura da cana onde supostamente elimina uma série de pragas.  Por outro lado, o Hexaron WG é composto por dois princípios ativos: Diurom e Hexazinona que pertencem, respectivamente aos grupos químicos Uréia e Triazinona. Curiosamente, enquanto o Diurom tem sido uso permitido na União Europeia, a Hexazinona é proibida, o que revela uma dessas curiosidades que cercam os agrotóxicos liberados para comercialização no Brasil.

Apesar de toda a suavização na classificação de risco que foi realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Hexaron WG é considerado como sendo um produto muito perigoso para o meio ambiente, especialmente para corpos hídricos, sendo que este agrotóxico pode contaminar o lençol subterrâneo em função de sua mobilidade.  Tal característica torna ainda mais incompreensível o que se vê nas imagens que é o descarte de embalagens vazias dentro de um pequeno hídrico. Além disso, ressalte-se a relativa proximidade da propriedade com o bairro de Guandu, o que demandaria um cuidado que foi negligenciado por quem fez o descarte ilegal das embalagens vazias.  As imagens enviadas permitiram a contagem de pelo menos 10 embalagens vazias de 5 kg cada uma, o que sugere que pelo menos 50 kg de Hexaron WG foram aplicadas no local.

Mas agora vamos para um segundo elemento envolvendo a Fazenda Guandu de onde teriam vindo as imagens mostradas acima. É que em 2009 foi nessa mesma propriedade que o Grupo Especial de Fiscalização Móvel, composto por membros do Ministério Público do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Polícia Rodoviária Federal, detectou a prática de trabalho escravo, tendo rendido uma série dor de cabeça à mesma Coagro que até hoje arrendaria a propriedade do Grupo Othon. Em outras palavras, a mesma propriedade hoje estaria de descartando ilegalmente embalagens vazias de um agrotóxico altamente perigoso já foi palco da prática de trabalho escravo.

Como este blog é um espaço democrático, deixo aberto espaço aos dirigentes da Coagro quase queiram oferecer algum tipo de réplica ao que está sendo aqui mostrado.  Por outro lado, dos órgãos ambientais e judiciais fica a expectativa de que haja a devida apuração. É que, apesar de todas as boiadas sendo passadas no Brasil neste momento, descarte ilegal de embalagens vazias de agrotóxicos continua sendo crime.

Finlamente, como alguém que estuda de forma consistente o uso de agrotóxicos e seus impactos ambientais há quase duas décadas, eu ainda consigo me surpreender com o tipo de desleixo com ocorre en relação às regras estabelecidas para o uso dessas substâncias altamente perigosas.  É por isso que eu sempre digo que os agricultores familiares são como canários na mina de carvão, pois o que eles fazem eventualmente de errado em suas propriedades não passa de pequenas gotas em uma mega oceano de venenos agrícolas.