Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

‘Produção de alimentos e combustíveis fósseis causam danos ambientais de 5 bilhões de dólares por hora’, aponta relatório da ONU

Um relatório do Escritório Geológico da ONU afirma que acabar com esse dano é fundamental para a transformação global e precisa ser feito “antes que o colapso se torne inevitável”

Um trabalhador rural ara os campos com vista para a refinaria e planta petroquímica de Grangemouth, na Escócia.

Um trabalhador rural ara os campos com vista para a refinaria e planta petroquímica de Grangemouth, na Escócia. Fotografia: Murdo MacLeod/The Guardian

Por Damian Carrington para “The Guardian” 

De acordo com um importante relatório da ONU, a produção insustentável de alimentos e combustíveis fósseis causa danos ambientais de US$ 5 bilhões (R$ 21,8 bilhões) por hora.

Acabar com esse dano é uma parte fundamental da transformação global da governança, da economia e das finanças, necessária “antes que o colapso se torne inevitável”, disseram os especialistas.

relatório Global Environment Outlook (GEO) , produzido por 200 pesquisadores para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirmou que a crise climática, a destruição da natureza e a poluição não podem mais ser vistas simplesmente como crises ambientais.

“Todos esses problemas prejudicam nossa economia, segurança alimentar, segurança hídrica, saúde humana e também representam questões de segurança [nacional], levando a conflitos em muitas partes do mundo”, disse o professor Robert Watson, co-presidente da avaliação.

Todas as crises ambientais estavam se agravando à medida que a população global crescia e exigia mais alimentos e energia, a maior parte dos quais era produzida de maneiras que poluem o planeta e destroem o mundo natural, disseram os especialistas. Um mundo sustentável era possível, afirmaram, mas exigia coragem política.

“Este é um apelo urgente para transformarmos nossos sistemas humanos agora, antes que o colapso se torne inevitável”, disse o professor Edgar Gutiérrez-Espeleta, outro co-presidente e ex-ministro do Meio Ambiente da Costa Rica.

“A ciência é boa. As soluções são conhecidas. O que é necessário é a coragem para agir na escala e na velocidade que a história exige”, disse ele, acrescentando que a janela de oportunidade para agir está “se fechando rapidamente”.

Os especialistas reconheceram que a situação geopolítica atual é difícil, com os EUA sob a liderança de Donald Trump, alguns outros países e interesses corporativos trabalhando para bloquear ou reverter ações ambientais. Watson, ex-presidente de importantes grupos internacionais de ciência climática e biodiversidade, afirmou: “O público precisa exigir um futuro sustentável para seus filhos e netos. A maioria dos governos tenta atender a essa demanda.”

O relatório GEO é abrangente – 1.100 páginas este ano – e geralmente é acompanhado por um resumo para formuladores de políticas, que é acordado por todos os países do mundo. No entanto, fortes objeções de países como Arábia Saudita, Irã, Rússia, Turquia e Argentina a referências a combustíveis fósseis, plásticos, redução do consumo de carne e outras questões impediram que um acordo fosse alcançado desta vez.

Uma declaração emitida pelo Reino Unido em nome de 28 países afirmou: “Testemunhamos tentativas de desviar a atenção para questionar a natureza científica deste processo. Nossas delegações respeitam plenamente o direito de cada Estado de salvaguardar os interesses e direitos nacionais de seu país, mas a ciência não é negociável.”

O relatório da GEO enfatizou que os custos da ação são muito menores do que os custos da inação a longo prazo e estimou que os benefícios da ação climática, por si só, valeriam US$ 20 trilhões por ano até 2070 e US$ 100 trilhões até 2100. “Precisamos de países visionários e empresas do setor privado que reconheçam que obterão mais lucro abordando essas questões em vez de ignorá-las”, disse Watson.

O relatório continha diversas “verdades cruciais”, disse Gutiérrez-Espeleta: as crises ambientais eram emergências políticas e de segurança, ameaçando os laços sociais que mantinham as sociedades unidas. Os governos e sistemas econômicos atuais estavam falhando com a humanidade e a reforma financeira era a pedra angular da transformação, afirmou: “A política ambiental deve se tornar a espinha dorsal da segurança nacional, da justiça social e da estratégia econômica”.

Um dos maiores problemas apontados foi o prejuízo ambiental de US$ 45 trilhões por ano causado pela queima de carvão, petróleo e gás, além da poluição e destruição da natureza provocadas pela agricultura industrial, segundo o relatório. O sistema alimentar representou a maior parte dos custos, com US$ 20 trilhões, seguido pelo transporte, com US$ 13 trilhões, e pela geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis, com US$ 12 trilhões.

Esses custos – chamados de externalidades pelos economistas – devem ser incorporados aos preços da energia e dos alimentos para refletir seu valor real e incentivar os consumidores a optarem por escolhas mais ecológicas, disse Watson: “Portanto, precisamos de redes de proteção social. Precisamos garantir que os mais pobres da sociedade não sejam prejudicados por um aumento nos custos.”

O relatório sugere medidas como uma renda básica universal , impostos sobre a carne e subsídios para alimentos saudáveis ​​à base de plantas.

O relatório também apontou a existência de cerca de US$ 1,5 trilhão em subsídios prejudiciais ao meio ambiente para combustíveis fósseis , alimentos e mineração. Esses subsídios precisam ser eliminados ou redirecionados, acrescentou o documento. Watson observou que a energia eólica e solar são mais baratas em muitos lugares, mas seu desenvolvimento é prejudicado por interesses ligados aos combustíveis fósseis.

A crise climática pode ser ainda pior do que se pensava, afirmou: “É provável que estejamos subestimando a magnitude das mudanças climáticas”, com o aquecimento global provavelmente atingindo o limite superior das projeções feitas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

O relatório afirma que a eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis poderia reduzir as emissões em um terço.

Este artigo foi alterado em 9 de dezembro de 2025. Uma versão anterior afirmava que o relatório da GEO estimava que os benefícios da ação climática, por si só, valeriam “US$ 100 bilhões” até 2100; o correto seria US$ 100 trilhões.


Fonte:  The Guardian

Decisões meia-boca mostram fracasso da COP30 e aumentam a demanda por novos mecanismos de combate contra o colapso climático

Mais da metade da COP30 já passou, e o sábado foi marcado por avanços  diplomáticos, mobilizações populares e uma expectativa crescente por  resultados concretos - TV Pampa

Em março deste ano, escrevi um texto em que anunciei que a COP30 seria um fracasso.  O texto escrito para o jornal Nova Democracia. Afora meus apontamentos das muitas contradições entre discurso e prática no âmbito do governo Lula, eu indicava as limitações óbvias do próprio mecanismo das COPs que têm sido dominadas pelos lobbistas que representam os interesses dos grandes poluidores que estão na raiz da crise climática que nos envolve e ameaça colapsar partes inteiras do planeta.

A divulgação dos termos gerais do que foi acordado em Belém não só confirmam minhas análises, como jogam as soluções necessárias para um futuro que parece próximo, mas que é completamente distante do que precisamos para impedir o agravamento da crise climática.

Essa distância aparece nos principais compromissos que foram conseguidos após o risco de que nada poderia ser acordado por causa das resistência dos petroestados arábes e do seu patrono ausente, o governo Trump.

Pelo que pude ler, os representantes dos 194 estados presentes na COP30 concordaram em triplicar o financiamento para adaptação – um dinheiro que deverá ser fornecido pelas nações ricas e que é mais do que necessário para que os países vulneráveis ​​protejam suas populações . No entanto,  a meta de aproximadamente US$ 120 bilhões anuais foi adiada para 2035, restando saber quanto efetivamente será entregue até que se chegue a 2035.

Por outro lado, a questão fundamental da diminuição no uso dos combustíveis fósseis foi eliminada da declaração final da COP30, muito em função da resistência dos petroestados, a começar pela Arábia Saudita;  Desta forma, qualquer compromisso com um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis não fez parte do acordo formal em Belém, o que objetivamente abrirá mais espaço ainda para que se acelere a exploração e consumo dos derivados do petróleo.

Além disso, a COP30 termina sem qualquer mecanismo para acabar como  desmatamento nas florestas tropciais. A medida anunciada pelo Brasi, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFTS), foi mantido fora da declaração final, o que enfraquece a sua implementação já que os países ricos ficarão dispensados de entegarem as somas pretendidas pelo Brasil. De quebra, o uso de mecanismos de mercado para angariar recursos para o FFTS, o que sabemos implicar em práticas que inibirão as medidas que são efetivamente necessárias para combater o processo desmatamento.

Por último, a COP30 termina sem que haja qualquer acordo concreto para garantir a diminuição das emissões de gases estufa, algo imprescindível para manter o objetivo de aumento  da temperatura global no limite máximo de 1,5°C. A promessa de um programa para diminuir as emissões na COP31 equivale a mais uma promessa vaga que não possui qualquer garantia de que será adotada.

Como eu escrevi em março, é chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível. E os resultados de mais esta COP, mostra que precisamos de mecanismos de mobilização social que extrapolem o limiar dessas conferências controladas pelos que causam a crise climática para começo de conversa. O que se viu mesmo em Belém, especialmente nos enfrentamentos realizados para que os povos originários tivessem pelo menos acesso aos espaços de decisão, mostra que toda a energia social existente em relação à luta por uma adaptação climática justa precisa ser canalizada para espaços em que possam florescer em vez de serem domesticadas.

As metas climáticas estão desaparecendo e emissões estagnam em níveis altos

A primeira semana da COP 30 em Belém está chegando ao fim. Poucos resultados tangíveis são visíveis, mas um grande número de lobistas está presente

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O planeta está em chamas, e os países ricos têm uma parcela desproporcional da culpa (grandes incêndios na Espanha em agosto). 

Por Wolfgang Pomrehn para “JungeWelt”

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) está chegando ao fim em Belém, Brasil . Os resultados não são esperados antes da próxima sexta-feira e provavelmente não serão muito melhores do que os dos últimos 30 anos. Isso se deve, em grande parte, aos cerca de 1.600 lobistas registrados da indústria de petróleo e gás – o maior contingente desse tipo em tempos recentes. Quase 600 deles são membros de delegações nacionais e, portanto, têm acesso às negociações a portas fechadas. Essa é a conclusão de uma análise publicada na sexta-feira pela aliança “Kick Big Polluters Out”, que reúne mais de 450 organizações ambientais e de justiça climática de todo o mundo.

Entretanto, as emissões de gases de efeito estufa estagnaram em níveis recordes. De acordo com o Global Carbon Project (GCP), as emissões de CO2 na América do Norte e na Europa voltaram a aumentar recentemente, enquanto o aumento na Índia e na China diminuiu significativamente. Além disso, houve uma ligeira redução na liberação de gases de efeito estufa devido ao desmatamento e outras mudanças no uso da terra. No total, as emissões somaram aproximadamente 42,2 bilhões de toneladas de CO2. Consequentemente, a concentração de CO2 na atmosfera também está aumentando, intensificando ainda mais o efeito estufa. Nos últimos anos, o aumento foi o mais expressivo em pelo menos 70 anos, período que se iniciou desde as primeiras medições representativas de CO2. Os cientistas do GCP estimam que 8% do aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera durante esse período foi consequência dos efeitos já em curso das mudanças climáticas. Em outras palavras, um ciclo de retroalimentação foi iniciado, exacerbando os problemas.

No entanto, os compromissos voluntários apresentados pelos Estados para as negociações estão muito aquém dessa realidade: de acordo com diversas análises do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do recém-publicado Relatório de Ação Climática, eles são insuficientes para limitar o aquecimento global a 2,3 ou 2,5 graus Celsius, talvez até mesmo a apenas 2,6 graus Celsius, acima dos níveis pré-industriais. Além disso, não há nenhuma garantia de que todas as metas estabelecidas serão de fato atingidas. O plano do governo alemão, adotado na noite de quinta-feira, de construir novas usinas termelétricas a gás subsidiadas, por exemplo, contradiz diretamente essa situação.

Talvez devêssemos falar com mais precisão em aquecimento global, visto que o Acordo de Paris, firmado há dez anos, estipulou que o aquecimento deveria ser mantido “bem abaixo de dois graus” e, se possível, não ultrapassar 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. Ultrapassando esse limite de 1,5 grau — e a ciência climática concorda amplamente com isso —, cada vez mais subsistemas do clima planetário sofrerão alterações e entrarão em um modo diferente por um período muito, muito longo. Por exemplo, já existem sinais crescentes de que a Corrente do Golfo está enfraquecendo e, para os recifes de coral, qualquer ajuda parece tardia; eles estão começando a morrer em todo o mundo. Assim, nações insulares estão perdendo a proteção vital contra as ondas, milhões de pessoas perdem sua renda da pesca e do turismo, e a humanidade, uma importante fonte de proteína.

Este é, na verdade, um ponto que levanta a questão da compensação. De fato, essa questão é levantada repetidamente por muitos representantes do Sul Global, tanto governos quanto organizações da sociedade civil. No entanto, os países ricos, responsáveis ​​pela grande maioria dos gases de efeito estufa acumulados na atmosfera, resistem veementemente a isso. Aliás, a Alemanha ocupa o sexto lugar entre os países com as maiores emissões acumuladas, atrás de países que têm populações consideravelmente maiores. Pelo menos os países ricos agora se comprometeram contratualmente a fornecer assistência financeira aos países mais pobres para adaptação às mudanças climáticas e desenvolvimento de tecnologias amigas do clima. Como e em que medida essa assistência deve ser fornecida é, como nos anos anteriores, objeto de intenso debate em Belém.


Fonte: JungeWelt

Em pleno colapso climático: Brasil, Argentina e México estão expandindo suas reservas de petróleo e gás

Em preparação para a COP30, a Urgewald apresenta novos dados sobre seus projetos. 41% do financiamento planejado para o mundo todo está destinado à América Latina

Protesto contra leilão de petróleo em frente a uma plataforma petrolífera no Rio de Janeiro
Por Nina Glatzer para “Amerika21”

Berlim/Belém. Pouco antes da COP30, a Conferência Mundial do Clima, a organização ambiental alemã Urgewald apresentou, na semana passada, suas bases de dados globais atualizadas sobre a indústria de combustíveis fósseis. Trata-se da Lista Global de Desativação do Carvão (GCEL 2025) e da Lista Global de Desativação do Petróleo e Gás (GOGEL 2025). A COP30 começa hoje em Belém, Brasil.

Embora a China, a Índia e os EUA liderem a expansão global dos combustíveis fósseis, os bancos de dados mostram que a América Latina também desempenha um papel central na expansão da produção de carvão, petróleo e gás – desde o gás de xisto na Argentina até a perfuração em alto-mar na costa brasileira.

Segundo o relatório GOGEL 2025, 30 empresas de energia estão a desenvolver projetos de expansão da produção a curto prazo na América Latina, cuja concretização é previsível, uma vez que já foram aprovados ou estão em construção. Em conjunto, estes projetos têm um volume de produção planeado de aproximadamente 30 554.8 milhões de barris de óleo equivalente (mmboe)*. Isto significa que quase 11.3 % da produção mundial total planeada de petróleo e gás, estimada em 270 708.8 mmboe, é atribuível à América Latina. A região não só está, portanto, envolvida, como é um dos principais polos de expansão global dos combustíveis fósseis.”

Os maiores volumes adicionais de produção provêm do Brasil, Argentina e México, seguidos pela Venezuela e Colômbia. No Brasil, diversos novos projetos em águas profundas estão atualmente em desenvolvimento na chamada região do pré-sal, incluindo campos como Búzios e Mero, operados pela Petrobras. Na Argentina, a expansão concentra-se na produção de gás de xisto em Vaca Muerta, um dos maiores depósitos de fraturamento hidráulico do mundo. O México contribui tanto com projetos offshore no Golfo do México quanto com perfuração em terra.

A expansão da produção de combustíveis fósseis é frequentemente acompanhada por novos oleodutos, terminais de GNL e usinas termelétricas a gás. De acordo com o relatório “The Money Trail: Behind Fossil Fuel Expansion in Latin America and the Caribbean” (O Rastro do Dinheiro: Por Trás da Expansão dos Combustíveis Fósseis na América Latina e no Caribe), da Urgewald e organizações parceiras como FARN, Arayara e Amazon Watch, uma onda de novas infraestruturas de petróleo e gás está sendo construída na região, abrangendo mais de 8.800 quilômetros de novos oleodutos e gasodutos, 19 terminais de exportação de GNL planejados e mais de 54.000 megawatts de capacidade adicional de usinas termelétricas a gás. Esses projetos são concebidos para uma vida útil de 30 a 50 anos e criam efeitos de dependência de combustíveis fósseis a longo prazo.

O banco de dados de carvão da Urgewald, GCEL 2025, também aponta para a continuidade da atividade de combustíveis fósseis na região. O banco de dados lista 27 empresas com sede na América Latina. Destas, 20 são empresas matrizes independentes e sete são subsidiárias de corporações internacionais. Juntas, elas operam aproximadamente 12,5 gigawatts de usinas termelétricas a carvão e extraem cerca de 87 milhões de toneladas de carvão anualmente, principalmente da Colômbia e do Brasil. Isso representa apenas 1% da produção global. Mesmo assim, a região tem uma importância acima da média nas exportações. A Colômbia, em particular, está entre os cinco maiores exportadores de carvão do mundo, exportando mais de 90% de sua produção. Isso significa que a Colômbia fornece 5,4% do volume de carvão comercializado globalmente. Embora o uso de carvão esteja estagnado em muitos países, a Colômbia permanece uma exceção como nação exportadora – novas áreas de mineração continuam sendo desenvolvidas no país, às vezes com investimento estrangeiro, como o Grupo Yildirim da Turquia ou a Ronin Resources da Austrália.

Com esses novos bancos de dados, as organizações ambientais pretendem deixar claro: a América Latina não é uma região periférica da indústria de combustíveis fósseis, mas sim uma área central de sua expansão global. Em vez de se afastar dos combustíveis fósseis, a região está passando por um processo de “diversificação fóssil”.

* Nota metodológica: O cálculo do volume de produção planejado baseia-se em uma estimativa: como as empresas individuais no banco de dados GOGEL gerenciam projetos em vários países, o volume relatado foi distribuído uniformemente entre todos os países listados na coluna “Países de expansão”. 


Fonte: Amerika21

Campos dos Goytacazes: um massacre da serra elétrica em uma cidade despreparada para o colapso climático. Isso não é nada bom!

Melting In The Heat – Free Clipart #2556379 | Clipart Library

Vivo em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e sofro, como a maioria das pessoas, com as temperaturas esturricantes de boa parte do ano. Por isso, desde minha chegada fico impressionado com a falta de arborização na maioria das ruas, onde existem pouquíssimas exceções de boa cobertura vegetal em áreas públicas.  Uma das poucas áreas que tinham árvores suficientes para criar uma espécie de microclima mais suave era até dois dias atrás, a esquina entre as avenidas Felipe Uébe e 28 de março (ver imagem abaixo).

No entanto, aquele verde todo agora é passado. É que, provavelmente para dar maior visibilidade à nova filial da rede local de supermercados Superbom, um verdadeiro massacre da serra elétrica foi promovido em via pública, causando um misto de poda drástica com a remoção total de alguns indivíduos (ver vídeo abaixo).

O mais incrível é que presenciei o uso extensivo de servidores da Guarda Civil Municipal para orientar o trânsito enquanto a Filipe Uébe permaneceu fechada para que a operação das motosserras fizesse o trabalho de remover árvores que proviam abrigo para pássaros e amenizavam as temperaturas naquela região da cidade.

Quem não estava aparente na cena era algum servidor da recém-criada Secretaria Municipal de Meio Ambiente, órgão da administração direta municipal que deveria zelar pela pouca arborização de rua existente nesta cidade calorenta.  Entretanto, talvez para alegar desconhecimento, ninguém da SEMMA parecia estar por lá. Digo isso porque passei várias vezes pela área durante o abate das árvores, seja como motorista, seja como usuário da ciclovia.  Aliás, espero sinceramente que as poucas árvores existentes na ciclovia não se tornem alvo da sanha de abate que vitimou as figueiras da calçada em frente.

Uma coisa não posso dizer que me surpreende: a falta de compromisso com a qualidade climática da nossa cidade, seja por empresários ou pelos governantes.  Como venho orientando estudos sobre a questão da adaptação climática em nível municipal, sei que aqui perdura uma visão negacionista da gravidade do problema.

Isso não quer dizer que não se pode notar o descalabro que é ter árvores removidas das vias públicas para que uma determinada empresa tenha sua marca mais visível, como se isso fosse garantia de bons negócios.

 

O colapso climático e o dilema dos onivoros: mudar a dieta ou perecer

Por Sonia Corina Hess*

No Brasil, historicamente, as principais fontes de emissão de gases do efeito estufa (GEEs) são a mudança no uso da terra e florestas e a agropecuária, que originaram, respectivamente, 25,0% e 38,0% do total das emissões de 2023. Somadas, resultaram em 63,0% do total de GEEs emitidos no país naquele ano. As mudanças no uso da terra foram ocasionadas, principalmente, pelo desmatamento para a expansão de plantações de soja e milho e de pastagens. Além disso, 57% dos agrotóxicos aplicados no Brasil em 2021 foram utilizados em plantações de soja e 10% em plantações de milho.

Considerando que mais de 90% da soja e mais de 80% do milho produzidos no Brasil são direcionados à alimentação de animais no país ou no exterior, a pecuária é o principal fator gerador dos GEEs e do uso de agrotóxicos no país. Mas ninguém fala sobre isso. Há muitos discursos inflamados defendendo a minimização da emissão de GEEs e do uso de agrotóxicos, mas não se ouve falar na necessidade diminuir-se o consumo de produtos de origem animal para que tais metas sejam alcançadas.

A ONU enfatizou a necessidade dessa medida em documento publicado em 2015, mas não se fala mais nisso. Na COP-30, que vai acontecer em novembro em Belém-PA, certamente nenhum líder mundial tampouco vai falar sobre isso, porque seria constrangedor para um onívoro ser flagrado em contradição ao observar-se as suas refeições.

Mas quem tem a sincera intenção de ajudar a minimizar os sofrimentos ocasionados pelas mudanças climáticas e pelo uso de agrotóxicos, deve refletir sobre isso e mudar a sua dieta. Em troca, vai perceber uma acentuada melhora na sua saúde física e mental, e uma boa sensação de estar evitando muito sofrimento também para os animais.

*Sonia Corina Hess é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Na crise climática, o primeiro colapso é dos pobres: as cenas aterradoras de Petrópolis deixam isso claro

As chuvas que se abateram sobre o território fluminense de forma rápida e intensa geraram imagens aterradoras que explicitaram o significado mais cruel da crise climática sobre os segmentos mais pobres da população. Uma cena que pessoalmente impactou veio de uma comunidade pobre que se viu na eminência de ser engolida por uma gigantesca cachoeira que se formou a partir da tempestade que se abateu sobre aquela parte da região Serrana do Rio de Janeiro (ver vídeo abaixo).

O mais cruel dessa situação é que apesar das catástrofes recentes em Petrópolis (a mais recente em 2022 quando ocorreu a tragédia do Oficina), quase nada foi feito para que haja alguma coisa que se pareça com o que se denomina de “adaptação climática”.

O fato é que a maioria dos governantes – desde a esfera federal até a municipal- continua operando no mais estrito “business as usual“, como se não estivéssemos enfrentando os primeiros atos de um processo irrefreável de condições climáticas extremas que vão afetar primeiro os pobres, mas depois deverão alcançar todos os segmentos econômicos da população.

É urgente que se entenda que a crise climática está nos conduzindo a um colapso civilizacional e não há muito tempo para que comecemos a nos preparar para um clima tão hostil que a própria existência humana estará sob risco.

Quanto antes melhor começarmos a agir de forma prática para fazer um processo de adaptação climático justo, melhor.

Com a COP30 se encaminhando para ser um fracasso completo, o que fazer?

Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução

O governador do Pará Helder Barbalho (à esquerda) e Lula, em Belém. Foto: Daleth Oliveira/Revista Cenarium

A realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém tem sido apresentada como uma espécie de chance do Brasil se posicionar como um dos líderes da necessária transição para um novo modelo de relação societária com os ecossistemas naturais da Terra. 

Pois bem, o problema é que a propaganda em torno da COP30 não resiste a um mínimo de escrutínio em função das opções dominantes do governo Lula para iniciar qualquer coisa que se assemelhe à transição energética necessária para se arrefecer ou, pelo menos, retardar o colapso climático que se desenha em um horizonte cada vez mais carregado e próximo.

A primeira e talvez maior demonstração do descompromisso em nos preparar para o colapso que se avizinha é a insistência em abrir uma nova fronteira de exploração de petróleo e gás na foz do Rio Amazonas, convenientemente rebatizada de Margem Equatorial. A sugestão de que a renda petrolífera que venha a ser eventualmente obtida com as atividades petrolíferas na foz do Amazonas será em parte utilizada para acelerar a transição energética brasileira equivale à conversa de um bêbado que propõe ingerir mais vodca para alcançar a sobriedade. Basta olhar para o que está acontecendo em outra foz, a do Níger, para entender que a exploração do petróleo raramente traz outra coisa que não seja muita poluição e piora das condições socioambientais em que trabalhadores e camponeses precisam buscar seus meios de sobrevivência.

Mas o discurso pró-ambiente do governo Lula não está patinando apenas na foz do Amazonas, mas em outra região crítica para a contenção da crise climática em que se encontra o último grande bloco de floresta amazônica ainda razoavelmente intacto. Naquela parte da Amazônia, o governo Lula insiste em atender as demandas de latifundiários e empresas multinacionais que controlam a produção de soja ao pavimentar a chamada BR-319, que liga Manaus, capital do estado do Amazonas, a Porto Velho, capital de Rondônia. Se esse projeto se consumar, e nada indica que não o será, o que se verá em poucos anos é a perda de uma grande área de florestas que guarnece um grande estoque de biodiversidade e um gigantesco estoque de água. Várias pesquisas feitas na região da BR-319 já mostram que, mesmo antes da sua pavimentação, há um aumento considerável de estradas ilegalmente construídas que abrem caminho para a exploração madeireira e o grande garimpo ilegal de ouro – mantido por latifundiários e grandes burgueses do ramo às custas do aliciamento de camponeses sem terra.

A realidade é que o presidente Lula nunca foi realmente muito comprometido com a preservação ambiental da Amazônia, em que pese a importância estratégica da região para o equilíbrio ambiental não apenas do Brasil, mas do planeta. Desde seu primeiro mandato como presidente, Lula fez a opção por reforçar o papel brasileiro de supridor de commodities agrícolas e minerais, seguindo uma lógica neocolonial. Discurso pró-ambiente, quando muito, só mesmo em dias de festa.  A verdade é que os compromissos reais sempre estiveram com os “campeões nacionais” como a JBS e a Vale, apenas para começo de conversa, os quais foram abastecidos com várias centenas de bilhões de reais, enquanto a reforma agrária nunca saiu do papel.

Diante desse quadro, o que fazer em face do avanço dos sinais de que estamos nos aproximando de um período de grandes dificuldades causadas pela transição para um clima mais hostil para os seres humanos, mas especialmente para os mais pobres?

A primeira coisa sensata a se fazer será não depositar um grão sequer de expectativa na capacidade da COP30 de gerar as propostas e projetos necessários para nos prepararmos para o que está se aproximando no horizonte.  É que esta será mais uma conferência cujos resultados serão parcos e dominados pelos interesses das grandes corporações multinacionais que são as causadoras primárias das emissões de gases estufa. Ir até Belém para a COP30 não será apenas absurdamente caro, como já se anuncia na elevação exponencial das diárias dos hotéis. Será acima de tudo um desperdício de um tempo que não temos para perder.

Mas negar a efetividade do tipo de arranjo que organiza as negociações das COPs não será suficiente. Há que começar a radicalizar a organização política dos trabalhadores em prol de uma transição não apenas de modelo de consumo, mas essencialmente de organização societária. É preciso que se dissemine o conhecimento sobre a ameaça existencial que se está colocando sobre toda a Humanidade a partir da aceleração do caráter destrutivo que as formas de produção e consumo que caracterizam o sistema capitalista. Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução.

É chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível. 


Fonte: Jornal A Nova Democracia

Aula inagural do Programa de Políticas Sociais terá discussão sobre o papel do Capitalismo no colapso climático, com Eduardo Sá Barreto

Para marcar em grande estilo o início do primeiro semestre letivo de 2025, o Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais trará ao campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) um dos principais intelectuais brasileiros que discute a relação entre o sistema capitalista e a crise climática em curso, o professor Eduardo Sá Barreto.

Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Flumiense em Niterói (RJ),  e um intelectual tão inquieto quanto prolífico, Eduardo Sá Barreto é autor de várias outras obras bastante instigantes, incluindo os livros “Ecologia Marxista para pessoas sem tempo” e “O CAPITAL NA ESTUFA: para a crítica da economia das mudanças climáticas“.

A presença de Eduardo Sá Barreto na Uenf será uma excelente oportunidade para se debater a gravidade da crise/colapso climático, bem como da urgência que se desenvolvam saídas para uma crise existencial que ameaça o futuro da Humanidade.

O acesso a essa atividade que ocorrerá no dia 19 de março, a partir das 14:30, na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem é gratuito.