Quando a colmeia já não consegue se proteger: abelhas-rainhas transferem agrotóxicos para seus ovos

Pesquisa publicada na Current Biology mostra que a organização social das abelhas funciona como uma rede coletiva de proteção química, mas essa defesa pode entrar em colapso sob exposição crônica

Um novo estudo científico oferece uma perspectiva ao mesmo tempo fascinante e perturbadora sobre os efeitos dos agrotóxicos nas colônias de abelhas. Em vez de analisar apenas a toxicidade sofrida por indivíduos isolados, os pesquisadores acompanharam o caminho percorrido por um agrotóxico através de toda a estrutura social da colmeia: da alimentação às operárias, das operárias à rainha e, finalmente, da rainha aos ovos.

O trabalho, intitulado Queen bees offload pesticide burden to eggs when social buffering is overwhelmed, foi realizado por Angela M. Encerrado-Manriquez, Julia D. Fine, Eliza Litsey, David Baliu-Rodriguez, Sean Patrick Leonard, Bruce A. Buchholz e Sascha C. T. Nicklisch e publicado em 2026 na revista científica Current Biology, editada pela Cell Press.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que uma colônia de abelhas não pode ser entendida simplesmente como uma reunião de indivíduos expostos separadamente a substâncias tóxicas. A colmeia funciona como uma espécie de rede coletiva de desintoxicação, na qual diferentes castas e estruturas cumprem papéis específicos na filtragem, retenção e redistribuição dos contaminantes.

Para acompanhar esse processo, os pesquisadores utilizaram uma técnica extremamente sensível, capaz de rastrear quantidades minúsculas de uma substância marcada radioativamente. Como modelo experimental, utilizaram o metil paration, um agrotóxico organofosforado neurotóxico, acompanhando seu deslocamento durante dez dias através de pequenas colônias mantidas em laboratório.

Os resultados mostram que as abelhas operárias constituem a primeira barreira contra a contaminação. Ao manipular, processar e armazenar o alimento, elas reduziram inicialmente em 95% a concentração do agrotóxico antes que ele alcançasse as partes mais protegidas da colmeia. Após dez dias de exposição contínua, porém, essa eficiência caiu para 86%, enquanto a contaminação aumentou no alimento armazenado. Ao final do experimento, as operárias apresentavam uma carga corporal do agrotóxico cerca de 55 vezes maior que a observada nas rainhas.

Esse resultado revela uma dimensão pouco discutida da organização social das abelhas. Diante da contaminação química, as operárias funcionam como uma espécie de linha de sacrifício toxicológico, absorvendo grande parte da carga de contaminantes que entra na colmeia. Mas essa capacidade de proteção não é ilimitada e começa a falhar sob exposição crônica.

É nesse ponto que surge a descoberta mais inquietante do estudo. Embora mantenha concentrações corporais muito inferiores às das operárias, a rainha transfere parte do agrotóxico que chega ao seu organismo para os tecidos reprodutivos e, principalmente, para os ovos. Ao décimo dia do experimento, os ovos apresentavam concentrações entre 81 e 141 partes por bilhão, valores entre cinco e dez vezes superiores à carga corporal observada nas próprias rainhas.

Os autores chamam esse fenômeno de maternal offloading, ou transferência materna de contaminantes. A rainha parece proteger o próprio organismo transferindo parte da carga química para a geração seguinte. Sob uma perspectiva evolutiva, preservar a rainha, único núcleo reprodutivo da colônia, pode representar uma estratégia de sobrevivência coletiva. Mas essa estratégia contém uma contradição devastadora: quando as operárias já não conseguem filtrar adequadamente a contaminação, a colônia passa a proteger a rainha transferindo a carga química para o seu componente mais vulnerável, os embriões que formarão as futuras gerações de abelhas.

A descoberta também expõe uma limitação importante dos testes toxicológicos convencionais. Grande parte desses estudos observa abelhas operárias adultas isoladamente e por períodos relativamente curtos. O novo trabalho mostra que uma colônia pode parecer inicialmente resistente justamente porque suas defesas sociais ainda estão funcionando. As operárias filtram o alimento, absorvem parte da contaminação e protegem a rainha. Sob exposição prolongada, porém, essas barreiras começam a falhar e a carga química alcança os ovos.

O estudo possui limitações que os próprios autores reconhecem. O experimento foi realizado em nano-colônias de laboratório, o número de rainhas analisadas foi pequeno e não se acompanhou o destino posterior dos ovos contaminados. Ainda assim, os resultados levantam uma questão urgente sobre o que pode ocorrer em colônias reais expostas, durante longos períodos, a misturas de diferentes agrotóxicos.

A grande lição oferecida pelo trabalho de Encerrado-Manriquez e seus colegas é que as abelhas precisam ser estudadas como organismos sociais integrados. A toxicologia centrada no indivíduo isolado corre o risco de não perceber que a própria estrutura social da colmeia participa da absorção e redistribuição dos contaminantes. Quando a exposição crônica ultrapassa a capacidade coletiva de defesa, as operárias absorvem a maior parte do veneno e a rainha permanece relativamente protegida, mas a conta não desaparece: ela é transferida para a geração seguinte.

Colmeias eliminadas por agrotóxicos são problema mundial

Por Redação, com ACS/MST – de São Paulo

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados

Os estudos com inseticidas do tipo neonicotinóides devem estar concluídos no primeiro semestre de 2015. Trata-se de um problema de escala mundial, presente, inclusive, em países do chamado primeiro mundo, e que traz como consequência grave ameaça aos seres vivos do planeta, inclusive o homem.

De acordo com o coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas e Produtos Perigosos do Ibama, Márcio Freitas, o órgão está reavaliando, desde 2010, vários produtos suspeitos de causar colapsos e distúrbios em colmeias paulistas e mineiras. Segundo Freitas, que integra o Comitê de Assessoramento da Iniciativa Brasileira para Conservação e Uso Sustentável dos Polinizadores, a intoxicação prejudica a comunicação entre as abelhas e isto impede que elas retornem às colmeias, levando ao extermínio dos enxames.

Proibição

Enquanto as análises dos produtos investigados não são concluídas, o órgão proibiu sua aplicação aérea (por avião) e na época da florada para não prejudicar a ação de insetos, aves e morcegos.

– Interessa ao Ibama conhecer o comportamento dos polinizadores, entender seu comportamento e estabelecer medidas de mitigação para protegê-los – explica Freitas.

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados de desaparecer em função do uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos na agricultura.

É claro que o balé harmônico de polinizadores como o beija-flor em volta das flores, à procura do néctar, encanta homens e mulheres de todas as idades. Mas a maioria desconhece como eles são essenciais à existência e manutenção da vida no planeta.

Dependência

Documentos divulgados em dezembro 2013, durante a reunião da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistêmicos (IPBES), em Antalya, Turquia, mostram que pelo menos três quarto (75%) das culturas do mundo dependem da polinização por abelhas e outros polinizadores para se desenvolver e gerar frutos. O evento contou com a participação de cerca de 400 delegados representantes de mais de 100 países.

Os participantes decidiram, para os próximos cinco anos, desenvolver um programa de trabalho visando preparar um conjunto de avaliações acerca da polinização e sua relação com a produção de alimentos, degradação da terra e espécies invasoras. O objetivo é fornecer aos formuladores de políticas as ferramentas destinadas a enfrentar a pressão decorrente dos desafios ambientais.

Intoxicação

Espera-se que a primeira avaliação esteja disponível em dezembro de 2015, e o foco será a polinização e a produção de alimentos. Pesquisadores vinculados à IPBES acreditam ser necessárias mais informações a fim de se compreender melhor como a polinização sustenta a produção de alimentos, e avaliar a eficácia das políticas atuais.

Cientistas de todos os continentes concordam que a intoxicação dos polinizadores por agrotóxicos representa uma grave ameaça inclusive à sobrevivência do ser humano, caso nenhuma medida seja adotada.

De acordo com a analista ambiental e doutoranda em ecologia e conservação de recursos naturais do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ceres Belchior, esses produtos podem provocar a morte de polinizadores e aves e sugere restringir sua aplicação pelo menos durante a florada.

Como o assunto integra as políticas e ações estruturantes do MMA, o secretário de Biodiversidade e Florestas, Roberto Cavalcanti, enumerou seis eixos temáticos a serem trabalhados sobre vários eixos.

Eles incluem as relações entre a polinização e a cultura agrícola; a política para apicultura no Distrito Federal, situado numa região que abriga mais de 500 espécies de abelhas nativas; a elaboração de um projeto de lei voltado ao pagamento por serviços ambientais com polinização; a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas naturais, que, no Cerrado, somam pelo menos 12 mil espécies de plantas lenhosas da preferência das variedades de abelhas; as avaliações da política de mudanças do clima e os impactos na polinização; e uma reavaliação do licenciamento de agrotóxicos e pesticidas.

Importância Econômica

A mortandade disseminada das abelhas devido ao uso de agrotóxicos foi tema de explanação de Cavalcanti, em audiência pública na Câmara dos Deputados. De acordo com o secretário, 87,5% das espécies de plantas com flores conhecidas no mundo dependem de polinizadores (insetos, aves, mamíferos) para gerarem frutos e sementes sadios.

Segundo Cavalcanti, os polinizadores são tão importantes que 75% da alimentação humana dependem, direta ou indiretamente, de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização.

E esclareceu: “Sem polinizadores, as plantas dependentes não se reproduzem e as populações que delas necessitam declinam e a abelha do mel (Apismellifera) é o polinizador de importância agrícola mais utilizado no mundo”.

Ele se lembrou da importância econômica dos polinizadores, que movem economia mundial. Dados de 2007 mostram que verduras e frutas lideram as categorias de alimento que necessitam de insetos para a polinização, gerando riquezas em torno de R$ 160 bilhões (50 bilhões de euros) para cada uma dessas áreas.

Em 2009, o valor econômico anual total da polinização girou na cada dos R$ 489,6 bilhões (cerca de 153 bilhões de euros), o que representou 9,5% do valor da produção agrícola mundial para alimentação humana em 2005.

Frutas e verduras

A cada ano, os polinizadores naturais geram uma economia superior a R$ 483 bilhões, no caso das culturas beneficiadas pela polinização por insetos, e a quantia astronômica de R$ 2,435 trilhões quando se trata dos cultivos dependentes da ação dos polinizadores.

O alerta, repassado aos parlamentares, é de que o declínio da quantidade de polinizadores pode levar à redução da produção de frutas, verduras e estimulantes (como café) abaixo do necessário para o consumo atual global.

Insetos, aves e animais polinizadores, como o morcego, estão ameaçados por causa da fragmentação dos habitats naturais, do uso indiscriminado de pesticidas, pela falta de práticas agrícolas amigáveis à sua conservação; surgimento de doenças; e mudanças climáticas inesperadas.

A Iniciativa Internacional para Uso Sustentável dos Polinizadores (IPI, na sigla em inglês), criada no ano 2000 e articulada pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), está empenhada em monitorar o declínio de polinizadores, suas causas e seu impacto; resolver a falta de informações taxonômicas (que define os grupos de organismos biológicos) sobre polinizadores; medir o valor econômico da polinização; e promover a conservação, restauração e uso sustentável da diversidade de polinizadores na agricultura e em ecossistemas relacionados.

Falta pesquisa

Nos Estados Unidos, a desordem e a desorientação das abelhas melíferas provocaram a perda de 90% das colmeias. Na Alemanha, França, Suíça e Península Ibérica, o desaparecimento das abelhas foi relacionado ao uso de inseticidas.

O problema chegou ao Brasil e causou preocupação o extermínio de 5 mil colmeias de abelhas africanizadas no estado de São Paulo. A questão, segundo Roberto Cavalcanti, é que existem poucos estudos toxicológicos avaliando os efeitos dos pesticidas sobre outras espécies de abelhas, inclusive internamente.

No campo das políticas ambientais, o MMA está imerso em projetos e ações destinadas a evitar maiores prejuízos aos polinizadores. Nos próximos anos, os esforços também se destinam a apoiar estudos acadêmicos, como os inseridos no Projeto de Conservação e Manejo de Polinizadores para uma Agricultura Sustentável através de uma Abordagem Ecossistêmica, iniciado em 2009 e com previsão de término para 2014, mas foi prorrogado até o final de 2015.

O Projeto recebeu investimentos de R$ 67 milhões, executados pelo Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), tendo esses recursos destinados ao Brasil, Gana, Índia, Quênia, Nepal, Paquistão e África do Sul. O apoio também veio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), no valor de R$ 20,4 milhões.

Mais conhecimento

A iniciativa visa ampliar o conhecimento e oferecer ferramentas acessíveis aos profissionais que trabalham com a polinização; disponibilizar orientações e publicações sobre as limitações desta prática, manejo de serviços relacionados com agroecossistemas (que são a interpretação, avaliação e manejo do sistema agrícola, que permitem conduzir a produção com base nas inter-relações entre os elementos constitutivos desses sistemas, como homem e recursos naturais – solo, água, plantas e organismos e microrganismos – e entre outros sistemas externos, do ponto de vista econômico, social, cultural e ambiental), e valoração socioeconômica da polinização, além de fornecer ferramentas fáceis de serem utilizadas na identificação de polinizadores.

Uma das vertentes do projeto prevê a capacitação de agricultores para conservar e utilizar os serviços dos polinizadores silvestres, bem como melhorar a capacidade de pesquisa e construir ferramentas para desenvolvimento e manejo dos serviços de polinização.

Várias culturas já se beneficiam dos resultados desses esforços, como é o caso da produção de melão, maracujá, melancia, abóbora, caju, castanha do Brasil, maçã, canola, tomate e algodão, entre outras.

No caso do algodão, a Rede de Pesquisas dos Polinizadores do Algodoeiro no Brasil, realizou um estudo sobre a atuação das abelhas no incremento da produção nas áreas de Cerrado, no sul da região amazônica e na Caatinga.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmem Pires, apesar de o algodoeiro não necessitar de polinização para produzir, ficou demonstrado pela Rede de Pesquisas que as flores desta cultura que recebem a visita de abelhas apresentam um aumento de 12%.

FONTE: http://correiodobrasil.com.br/ultimas/colmeias-eliminadas-por-agrotoxicos-sao-problema-mundial/690035/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=b20140308