A carne bovina brasileira no centro da máquina global do desmatamento

Novos dados mostram que a pecuária bovina brasileira respondeu sozinha por cerca de um quarto do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, desmontando também a ideia confortável de que a destruição das florestas brasileiras ocorre principalmente para alimentar consumidores estrangeiros.

Uma nova análise publicada pelo Our World in Data coloca números bastante incômodos sobre uma relação que há décadas é conhecida no Brasil: a expansão da pecuária bovina continua sendo um dos principais motores da conversão de florestas em áreas produtivas. O que chama atenção agora é a dimensão global do fenômeno, pois, segundo os dados compilados a partir do estudo de Chandrakant Singh e Martin Persson, a produção de carne bovina respondeu por 41% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, sendo que aproximadamente 63% desse desmatamento relacionado à carne ocorreu no Brasil. Em outras palavras, a carne bovina produzida no Brasil respondeu sozinha por cerca de 26% de todo o desmatamento mundial associado à produção agropecuária nesse período.

A figura produzida pelo Our World in Data torna essa desproporção particularmente evidente. Depois da carne bovina aparecem as oleaginosas, categoria que inclui soja e dendê, com 16%, seguidas pela produção florestal e pelos cereais, ambos com aproximadamente 12%. Nenhuma dessas atividades, entretanto, chega perto da participação da pecuária bovina, e dentro dos 41% atribuídos mundialmente à carne o Brasil ocupa uma posição absolutamente dominante, o que transforma a pecuária brasileira em um componente estrutural do processo global de destruição de florestas, particularmente grave porque essa transformação territorial avança sobre alguns dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, entre eles a Amazônia e o Cerrado.

O dado mais desconfortável talvez esteja dentro do Brasil

Há, entretanto, outro resultado apresentado pelo Our World in Data que merece tanta atenção quanto o primeiro. A narrativa predominante costuma associar o desmatamento brasileiro à demanda internacional por commodities, especialmente carne e soja, e essa relação existe e evidentemente não deve ser minimizada. Mas os dados sobre o comércio do desmatamento indicam que ela explica apenas uma parcela do problema, pois aproximadamente 85% do desmatamento brasileiro associado à demanda por produtos teria sido impulsionado pelo próprio mercado doméstico, enquanto apenas cerca de 15% estaria relacionado à demanda internacional.

Esse dado muda significativamente a maneira como o problema precisa ser discutido. Se a maior parte da pressão que produz desmatamento está relacionada ao mercado interno, não podemos simplesmente atribuir a destruição da Amazônia e do Cerrado aos consumidores chineses, europeus ou norte-americanos. Existe uma cadeia econômica e territorial profundamente enraizada dentro do próprio Brasil, envolvendo abertura de pastagens, apropriação e valorização fundiária, expansão da fronteira agropecuária, frigoríficos, sistemas de distribuição e consumo de carne. Nesse sentido, uma parte substancial do problema não começa no supermercado europeu, mas dentro do próprio território brasileiro e termina também no mercado brasileiro.

O problema da soja também não desaparece

Outro aspecto importante é evitar uma leitura excessivamente simplificada desses dados, pois o fato de a pecuária aparecer muito à frente das oleaginosas não significa que a expansão da soja tenha importância secundária na transformação territorial brasileira. O próprio Our World in Data lembra que grande parte da soja mundial não é consumida diretamente pelos seres humanos, já que mais de três quartos da produção global é destinada à alimentação animal, especialmente de aves e suínos.

Além disso, os efeitos territoriais podem ocorrer indiretamente. A expansão da agricultura mecanizada sobre áreas anteriormente ocupadas pela pecuária pode deslocar rebanhos e pressionar novas fronteiras de ocupação, tornando insuficiente olhar apenas para a atividade instalada imediatamente depois da derrubada da floresta. As cadeias da carne, da soja, da terra e da infraestrutura encontram-se territorialmente articuladas, e separar artificialmente esses componentes pode acabar ocultando os mecanismos pelos quais a fronteira agropecuária continua avançando.

Há ainda uma importante lição histórica, pois a Moratória da Soja mostrou que mecanismos de controle das cadeias produtivas podem funcionar. Depois de sua implementação na Amazônia, a participação direta da soja na conversão recente de florestas caiu fortemente, embora parte da pressão territorial possa simplesmente migrar para outras regiões, particularmente o Cerrado. Isso reforça a necessidade de políticas que não se limitem a commodities ou biomas isoladamente, mas alcancem o conjunto das cadeias responsáveis pela transformação do território.

A contradição entre potência agropecuária e potência ambiental

Os números também expõem uma contradição que o discurso oficial brasileiro frequentemente prefere contornar. O Brasil apresenta-se simultaneamente como potência agropecuária e potência ambiental, mas essas duas condições somente poderão coexistir se o aumento da produção deixar definitivamente de depender da incorporação contínua de novas terras e da conversão de vegetação nativa.

Não estamos falando de uma questão marginal. Segundo o levantamento utilizado pelo Our World in Data, desde o início deste século foi eliminada globalmente uma área de floresta equivalente a aproximadamente cinco vezes o território do Reino Unido para expansão de terras agrícolas, sendo que somente a produção de carne bovina teria provocado a destruição de uma área superior a duas vezes o tamanho daquele país. É nesse contexto que aparece o dado que deveria provocar particular desconforto no Brasil: aproximadamente uma em cada quatro unidades de área florestal eliminadas no planeta para expansão agropecuária entre 2001 e 2023 esteve associada à produção brasileira de carne bovina.

Essa constatação coloca em perspectiva determinadas narrativas triunfalistas sobre o agronegócio brasileiro. Não se trata de negar sua importância econômica, tampouco de transformar produtores rurais individualmente em responsáveis por um processo histórico muito mais complexo, mas de reconhecer que existe um modelo territorial no qual a expansão da produção continua vinculada à apropriação de novas áreas, à valorização da terra e à conversão da vegetação nativa. Enquanto essa ligação permanecer intacta, recordes de produção e exportação precisarão ser confrontados com os custos ambientais e climáticos que normalmente permanecem fora das contas apresentadas pelo setor.

Quando a floresta entra na conta, a carne deixa de ser barata

Talvez a principal contribuição dos dados apresentados pelo Our World in Data seja justamente retirar o debate do terreno das abstrações. O desmatamento não acontece simplesmente porque existe uma entidade genérica chamada “agronegócio”, mas porque determinadas cadeias produtivas demandam terra, infraestrutura e recursos naturais e porque existem incentivos econômicos, políticos e institucionais que permitem que essa expansão continue acontecendo. No caso brasileiro, os números apontam diretamente para a pecuária bovina e mostram que sua importância na transformação das paisagens ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais.

Quando 26% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária pode ser relacionado a uma única commodity produzida em um único país, já não estamos diante de uma externalidade ambiental secundária, mas de uma característica estrutural de determinado modelo de produção e ocupação territorial. Qualquer política brasileira séria de combate ao desmatamento terá, portanto, de enfrentar diretamente a cadeia da carne bovina, incluindo rastreabilidade dos animais, controle da origem dos rebanhos, desmatamento indireto, regularização fundiária, fiscalização ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Se o Brasil pretende reivindicar protagonismo mundial no enfrentamento da crise climática e na proteção da biodiversidade, essa é uma conta que não poderá continuar escondida atrás das estatísticas de produção e exportação. A figura publicada pelo Our World in Data praticamente dispensa metáforas, pois mostra que, quando o assunto é desmatamento global, o boi brasileiro ocupa um espaço grande demais no gráfico justamente porque vem ocupando um espaço grande demais sobre o território.

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