Commodities e desmatamento: como o Reino Unido pretende virar esse jogo e os impactos para o Brasil?

stolen goods graphic

Por Lucas Mastellaro Baruzzi*, Jeferson Manhae** e Thiago Munhoz Agostinho***

Na esteira das iniciativas do Pacto Ecológico Europeu lançadas pela União Europeia para conter as mudanças climáticas e conservar os recursos naturais, o Reino Unido anuncia uma força tarefa para implementar 14 ações prioritárias para conter o desmatamento ilegal a nível global. Com isso, visa contribuir para alcançar sua meta de neutralidade de emissões de CO2 até 2050. A principal é implementar um sistema de verificação para impedir a comercialização de commodities agrícolas provenientes de áreas de desflorestamento ilegal – as chamadas “forest risk commodities”.

A iniciativa deve ser interpretada tendo em vista o novo protagonismo que o Reino Unido pretende exercer externamente: efetivado o Brexit, o país volta a ser independente na definição de suas políticas públicas internas e a disputar influência global de temas como meio ambiente, segurança e comércio exterior. O Reino Unido terá, já no curtíssimo prazo, duas oportunidades para essa diplomacia pós-Brexit: em maio de 2021, participará da Convenção da Diversidade Biológica (a COP15, em Kunning, na China); e, em novembro do mesmo ano, será anfitrião da COP26 na cidade de Glasgow (a próxima conferência da ONU para a Convenção do Clima).

nz_supermarket_250834Os supermercados britânicos serão proibidos de vender carne, soja e outras commodities importantes provenientes de terras desmatadas ilegalmente, de acordo com novos planos do governo.  FOTO: REUTERS

Internamente, o pontapé para ações concretas foi dado: encontra-se em consulta pública uma proposta para obrigar que empresas adotem um sistema de controle de origem de produtos agrícolas que distribuem ou comercializam, sob pena de multa e sanções civis. A consulta é promovida pelo Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (ou DEFRA, na sigla em inglês).

Faz parte da tradição política e jurídica britânica se apoiar na capacidade e liberdade privadas para implementar as ações necessárias, cabendo ao Estado definir e fiscalizar os standards a serem observados. Precedente semelhante é a legislação sobre a cadeia de produtos madeireiros, que proíbe a colocação no mercado de produtos cuja origem seja de extração ilegal (o Forest Law Enforcement, Governance and Trade – FLEGT).

A proposta em consulta pública tornaria ilegal a utilização, por empresas, de commodities agrícolas por que não foram produzidas de acordo com a legislação do seu local. Para garantir a origem legal de tais commodities, as empresas seriam obrigadas a conduzir due diligences (ou seja, verificações conjuntas) junto aos seus fornecedores para garantir que o produto não seja proveniente de área de desmatamento ilegal. As commodities agrícolas alvo são aquelas que o Reino Unido mais consome: proteína animal, couro, cacau, óleo de palma, papel e celulose, madeira, borracha e soja.

Outra característica importante da legislação em estudo é a definição abrangente do que se entende por commodity agrícola, bastando que tenha sido colocada no mercado Britânico pela empresa – quer o produto esteja in natura (grãos, carnes), quer incorporado a algum produto final (por exemplo óleos vegetais, estofados de couro em veículos, cosméticos, alimentos).

O Reino Unido sabe que essas commodities agrícolas fazem parte de cadeias globais de produção e que, para banir de seu mercado interno a chegada de produtos que tenham uma origem ilegal, precisará alcançar os países fornecedores. Portais de grande audiência (The Independent, Bloomberg) e iniciativas especializadas (sites de monitoramento de produtos agrícolas) repercutiram a abrangência da iniciativa, chamando-a de uma repressão contra atividades ilegais em cadeias globais.

Parliament resolves to tackle EU's role in driving illegal deforestation  through imports of agro-commodities | Earthsight

Em que pese a iniciativa britânica se tratar ainda de uma consulta inicial, reflexos possivelmente serão sentidos no Brasil e empresas terão que se adaptar para continuar integradas ao comércio internacional com o Reino Unido. Ilustrativo desse desafio é o estudo recém-publicado na revista Science, segundo o qual aproximadamente 20% das exportações brasileiras de proteína e soja são provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.

As contribuições recebidas, no âmbito da consulta pública em andamento, irão influenciar a visão do DEFRA sobre o assunto, que, posteriormente, poderá propor uma legislação específica.

Embora ainda não se conheça as contribuições enviadas até aqui, algumas questões centrais podem ser antecipadas: o perfil das empresas obrigadas a conduzir as verificações a periodicidade e forma com que as informações deverão ser prestadas, bem como seu grau de acesso público; delimitação da extensão das due diligences a serem conduzidas na cadeia; o rol de leis locais abrangidas; a adoção ou não de uma lista de produtos que possuem commodities agrícolas incorporados; a definição de outras sanções civis a serem estabelecidas.

Encerrada a consulta pública, caso o governo decida prosseguir, uma proposta de lei será apresentada, estabelecendo as obrigações legais e quais empresas estarão obrigadas a atendê-las. Posteriormente, uma norma regulamentadora deve definir os detalhes necessários para a implementação da lei.

Em que pese os movimentos do Reino Unido e da União Europeia terem como pano de fundo as mudanças climáticas, um novo padrão de normas socioambientais está sendo definido para reformular o comércio internacional. Outros países desenvolvidos podem acabar seguindo caminho semelhante, como Canadá, Japão e Coreia do Sul, cabendo ao Brasil retomar e repactuar com urgência a concepção de uma agenda propositiva de políticas públicas, sob pena de não voltar a participar e influenciar as esferas internacionais de negociação.

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*Lucas Mastellaro Baruzzi é mestrando em Políticas Públicas (King’s College London) pesquisador em Londres, mestre em Direito (USP), advogado (PUC-SP) e cientista político (USP). Atua com políticas públicas e relações governamentais. Sócio do escritório Barros Filho & Almeida Prado Advogados.

**Jeferson Manhaes é especialista na intersecção entre Inovação e Sustentabilidade, mestre em Relações Internacionais (Sorbonne), mestrando em Ecoinovação (Paris-Saclay), possui longa experiência internacional, atuando atualmente na co-criação de soluções que impactam tecnologia e meio ambiente.

***Thiago Munhoz Agostinho é advogado (PUC-SP), especialista em Direito Tributário (FDUSP), sócio de Buccioli | Braz de Oliveira | Agostinho Advogados Associados. Atua em temas regulatórios, assessorando empresas, principalmente italianas, de grande, médio e pequeno porte.

O arroz e o feijão são inimigos mais perigosos para Jair Bolsonaro do que toda a a oposição junta

arroz patriota

Pode-se dizer o que se quiser da Agricultura ministra Tereza Cristina, a eterna “musa do veneno”, mas não que ela não tenha inteligência política. É que ela hoje está presente nos principais veículos da mídia corporativa tentando apagar o incêndio causado pelo aumento explosivo dos preços do arroz (mas só sobre esse, pois os acontecendo na Amazônia e no Pantanal parecem não causar nenhum arranhão de preocupação na política eleita justamente pelo Mato Grosso do Sul onde as labaredas ardem alto). 

terezaA ministra Tereza Cristina farejou o risco que corre por causa da alta dos preços do arroz e saiu a campo para criar uma cortina de fumaça. Melhor seria se agisse para mudar a política agrícola que está na raiz do problema

Diferente de Jair Bolsonaro e Paulo que tenderam a dar de ombros para os riscos políticos associados à incapacidade crescente dos pobres brasileiros de colocarem arroz na mesa de todos os dias, Tereza Cristina apresentou duas linhas de argumentação. A primeira diz que o problema do arroz não seria isso tudo, e que tem gente querendo criar “uma guerra política” por causa da carestia no preço de um dos itens mais básicos da dieta dos brasileiros. Por outro lado, ela tentou acalmar os brasileiros afirmando que a questão dos preços do arroz voltará a “se equilibrar” (seja isso lá o que for) quando começar a próxima safra em janeiro de 2021.

Mas ao invés de apresentar as causas do problema que foi a adoção de uma política que causa o descontrole total nos estoques internos, Tereza Cristina resolveu insistir nos argumentos surrados de que a culpa pela alta dos preços seria a concessão do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso Nacional, e a mudança dos hábitos dos brasileiros, que passaram a se alimentar mais em casa por causa da pandemia da COVID-19. Em outras palavras, a culpa não é do governo Bolsonaro que desprotegeu o consumo interno, mas dos brasileiros pobres que passaram a comer mais com os fantásticos R$ 600,00 liberados para aliviar os graves prejuízos econômicos trazidos pela pandemia, especialmente para os segmentos mais pobres da população brasileira.

Como bem lembrou o ex-ministro Aloizio Mercadante, 90% da área plantada hoje no Brasil é de soja e milho, o que terminar por “esmagar a agricultura familiar na produção de itens que são essenciais, como arroz e feijão”.  Mercadante disse ainda que “a preocupação é apenas em atender o mercado externo, não existe nenhum plano de atender o consumo interno e matar a fome do povo”. Além disso, Mercadante acrescentou que o governo Bolsonaro ao deixar com o mercado “a regulamentação do preço da cesta básica”, deixou a maioria da população “entre o pescoço e a guilhotina”, pois as pessoas são obrigadas a comer e não tem oferta, volume, estoque ou importação desses alimentos”. 

Em outras palavras, além de apostar na transformação do Brasil em uma espécie de “fazendão” para a produção de commodities agrícolas que servirão para produzir ração animal fora do Brasil,  o governo Bolsonaro vem executando políticas de financiamento agrícola que estão sufocando a produção da agricultura familiar e, por consequencia, dos produtos essenciais que ela coloca na mesa dos brasileiros.

O que Tereza Cristina parece estar desprezando é a impaciência de amplos segmentos da população que está passando fome no Brasil neste exato momento. Esperar que as pessoas famintas esperem até janeiro para poder comprar arroz a preços menos exorbitantes é quase tão ruim quanto a sugestão feita pela  Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que sugeriu a substituição deste gênero pelo macarrão. Essa sugestão que remonta a uma que teria sido feita pela imperatriz francesa Maria Antonieta pouco antes de ser guilhotinada, a clássica frase do ” se não tem pão que comam brioches”.

As cenas abaixo de um caminhão carregado de carne que tombou na Rodovia Régis Bittencourt em uma área da Grande São Paulo já deveria ter acendido o alerta no governo Bolsonaro, mas parece que não. Aliás, pelo contrário, o que parece continuar sendo a proposição de que o “livre mercado” vai dar conta da alta dos preços dos principais itens da cesta básica.

Essa situação que mistura a crença cega na “mão invisível do mercado” com o crescimento da fome no Brasil promete ser muito mais perigosa para a sobrevivência do governo Bolsonaro do que a soma da ação de todos os partidos de oposição juntos. E quanto mais demorarem a mudar o curso das políticas agrícolas, maior será o risco para Jair Bolsonaro. A ver!

Escrevam o que eu digo: política biocida do governo Bolsonaro ainda vai causar um boicote global às commodities brasileiras

O escritor Paulo Coelho está sob fogo direto dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro por ter publicado (e apagado) um tweet onde ele indicava o boicote às commodities brasileiras por causa do caos ambiental instalado no Brasil pelo governo Bolsonaro (ver reprodução abaixo).

boicote paulo coelho

Eu diria que o problemas brasileiros e um iminente boicote aos produtos brasileiros por causa da destruição das florestas amazônicas e do Pantanal para ampliar as áreas destinadas à pecuária e o plantio de grandes monoculturas, tendo a soja à frente, independe da vontade individual de Paulo Coelho, e se tornou uma questão de tempo até que grandes parceiros comerciais como a União Europeia adotem essa medida.

Se isso realmente acontecer, os principais culpados pelo agravamento da crise econômica e social que um boicote às commodities brasileiras inevitavelmente causará será o próprio governo Bolsonaro e suas práticas biocidas.  As cenas de áreas florestadas queimando e engolindo no caminho aldeias indígenas inteiras (ver cenas abaixo do fogo consumindo o Polo Diauarum na Terra Indígena do Xingu).

A questão do boicote aos produtos brasileiros por causa das políticas anti-ambientais está se movendo rapidamente do terreno do “se vai acontecer” para “quando vai acontecer”. E de nada adiantará Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão, Ricardo Salles e Tereza Cristina se desentendidos quando o boicote começar. Afinal, é esse governo que dá o principal combustível para o boicote acontecer.

Campanha “Boicote Bolsonaro” pressiona grandes redes alemãs a parar de comprar produtos agrícolas brasileiros

bolsonaro

Uma campanha de boicote foi lançada na Alemanha, mas abrangendo todos os países membros da União Européia, para que as grandes redes de supermercados alemãs (que possuem filiais em toda a Europa) parem de comprar produtos brasileiros por causa do aumento do desmatamento na Amazônia.

boicote bolsonaro

A chamada para adesão argumenta que “o lobby agrícola está queimando a floresta amazônica – tão impiedosamente quanto em dez anos”. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, agora quer aumentar ainda mais o desmatamento e, posteriormente, legalizar a apropriação de terras por grandes proprietários“.

Além disso, os idealizadores da campanha acreditam (corretamente, diga-se de passagem) que ” apenas a pressão econômica ajuda: os supermercados precisam proibir em suas as prateleiras os produtos do lobby agrícola brasileiro“.  

A pressão no caso está sendo feita contra as redes Aldi Nord, Edeka e Lidl que certamente passarão a receber muita pressão já que essa campanha deverá ganhar mais tração após o início da temporada  de queimadas na Amazônia que em 2020 deverá ser, digamos, prolífica.

Em tempo: a campanha que busca obter 100 mil assinaturas, em menos de 24 horas já ultrapassou 120 mil, e agora se colocou como novo objetivo alcançar 150 mil aderentes. O blog vai acompanhar o andamento da campanha e oferecer números atualizados de aderentes ao longo da sua duração. Uma coisa é certa: a pressão sobre as cadeias de supermercados alemãs para que boicotem os produtos brasileiros vai aumentar bastante.  

Quem quiser se informar mais sobre a campanha “Boicote Bolsonaro”, basta clicar [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia: o castigo vem a cavalo

União Europeia avança em iniciativa que penaliza comércio com países desmatadores

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Enquanto o governo brasileiro avança na flexibilização de sua legislação ambiental, o que pode intensificar o desmatamento, a União Europeia está preparando uma nova iniciativa que visa restringir a importação de produtos que tenham relação com devastação florestal.

A Comissão Europeia, órgão executivo da UE, está elaborando um plano para conservação florestal com o objetivo de incentivar o consumo de commodities de cadeias de abastecimento livres de desmatamento, combatendo assim o chamado “desmatamento importado”. Ao mesmo tempo em que informa os consumidores sobre o dano causado por determinado produto para o meio ambiente, os importadores seriam responsabilizados por apoiar cadeias produtivas que causam desmatamento.

Como informa o Valor, as principais commodities que devem ser enquadradas no risco de contribuição para o desmatamento de florestas tropicais são soja, gado (carne e couro), milho, café, cacau, óleo de palma e borracha.

Dentro do Parlamento Europeu, o plano é visto como uma pressão para que os acordos comerciais recentes assinados pelo bloco respeitem salvaguardas ambientais. Essa preocupação ganhou destaque no ano passado, depois da UE assinar o acordo de livre comércio com o Mercosul, que despertou críticas sobre a possibilidade do mercado europeu receber produtos com alto impacto ambiental – algo que incide diretamente no Brasil, com o desmatamento cada vez mais acentuado e que deve ser recorde neste ano.

Em tempo: A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura defendeu ontem que o Projeto de Lei (PL) 2.633 – que pode voltar à pauta da Câmara dos Deputados nesta semana – não seja votado pelo plenário e que seja discutido por uma Comissão Especial “com a devida validade e mandato, para reunir especialistas e elaborar estudos que possam embasar as propostas a serem debatidas”.

ClimaInfo, 26 de maio de 2020.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

ji trump

Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

Governo do Veneno: com mais 51 agrotóxicos liberados, o total liberado em 2019 chega a 290

agrotoxicos 1Com mais 51 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro agora totaliza 290 liberações apenas em 7 meses de mandato.

Em meio aos embates provocados pelo presidente Jair Bolsonaro com os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por causa dos dados de desmatamento, o Ministério da Agricultura aproveitou o barulho presidencial para publicação a liberação de mais 51 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado em 2019 a estratosféricos 290.

Esse ritmo de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por causarem danos à saúde humana e ao meio ambiente, é uma afronta aos brasileiros que sofrem com as doenças que são associadas a muitos desses produtos, e coloca em risco a exportação de commodities agrícolas para mercados importantes como a União Europeia.

Mas aparentemente, como no caso dos dados do desmatamento, os ministros do governo Bolsonaro contam com a apatia da população brasileira e com a cumplicidade dos governos que compram produtos contaminados com agrotóxicos que eles muitas vezes baniram para seus próprios agricultores.

Esse tipo de aposta é acima de tudo irresponsável em todos os sentidos. É que ao apostar em letargia e cumplicidade, os membros do governo Bolsonaro apostam que a contaminação de ecossistemas naturais, o adoecimento de populações expostas direta ou indiretamente aos venenos que estão sendo liberados em tempo recorde, bem como o desaparecimento de espécies de polinizadores valem o lucro que eles talvez não tenham a garantir para o latifúndio agro-exportador.

Como estou atualizando a base de dados que iniciei quando os primeiros 28 agrotóxicos tiveram sua aprovação publicada em janeiro, vou inserir os produtos aprovados hoje para identificar as variáveis que elenquei e que envolvem o solicitante do registro, o fabricante primário do produto autorizado, o país de origem da empresa que fabrica o produto, o nível de toxicidade humana e ambiental, bem como o status do produto na União Europeia. Após adicionar esses dados na base, vou postar outro artigo sobre as aprovações de hoje.

Entretanto, posso adiantar que o principio ativo Sulfoxaflor, conhecido por dizimar enxames de abelhas, está na lista de aprovados desta segunda-feira, aumentando ainda mais o número de produtos disponíveis no mercado brasileiro com essa mesma característica macabra.

E como já venho avisando desde que essa febre de aprovação de agrotóxicos começou em janeiro, que ninguém se surpreenda se começarem banimentos em escala de produtos que sejam flagrados com níveis acima dos tolerados em outras partes do mundo.  Isto sem falar na possibilidade de que o boicote iniciado na Suécia por Johannes Cullberg encontre rápida ressonância em outras partes da Europa, apenas para começo de conversa.

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

colheita soja

A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].