Hidrovias na Amazônia: encontro abre diálogo entre comunidades, ministérios e órgãos de controle sobre planejamento de transporte fluvial na região

Após quase um ano desde o envio de carta cobrando diálogo sobre o modelo de hidrovias na Amazônia, encontro aproxima órgãos públicos e sociedade civil para discutir planejamento, licenciamento e direitos das populações afetadas.

Representantes de comunidades e movimentos sociais das bacias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins, organizações da sociedade civil, pesquisadores e órgãos do governo federal e de controle participaram, na última sexta-feira (11), de uma videoconferência organizada pelo Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) para discutir caminhos para fortalecer as políticas públicas voltadas à infraestrutura de transportes na Amazônia.

Entre os principais temas discutidos no encontro estiveram:

  • Participação das comunidades nas decisões sobre infraestrutura de transportes, com destaque para a necessidade de ampliar a presença de povos indígenas e comunidades tradicionais nos processos de planejamento, bem como respeitar o direito à Consulta livre, prévia e informada;
  • Planejamento integrado das hidrovias, considerando a relação entre rios, portos, rodovias e ferrovias e os efeitos dos empreendimentos sobre os corredores logísticos, incluindo o desafio de equilibrar o transporte de grandes volumes de commodities com as necessidades de mobilidade, abastecimento e produção das comunidades locais;
  • Infraestrutura de transporte para as populações amazônicas, com discussão sobre a falta de portos, entrepostos, energia e conexões intermodais adequadas às comunidades e às cadeias da sociobiodiversidade;
  • Avaliação de impactos cumulativos e sinérgicos, incluindo os efeitos combinados de diferentes obras e intervenções existentes e planejadas nas bacias hidrográficas;
  • Limitações do atual modelo de licenciamento ambiental, incluindo a necessidade de avaliar os impactos da operação das hidrovias em toda a sua extensão, e não apenas de intervenções isoladas;
  • Continuidade do diálogo entre governo e sociedade civil, com propostas para ampliar a participação social na elaboração dos planos setoriais de transporte no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT).

A videoconferência foi um desdobramento da carta enviada em outubro de 2025 por organizações sociais das três bacias, junto ao Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra), ao Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR) e outros órgãos federais. O documento propôs a construção de um diálogo estruturado entre governo e sociedade civil para enfrentar os conflitos associados ao atual modelo de hidrovias e buscar alternativas, começando pela realização de um encontro presencial. A proposta, no entanto, não teve retorno na época.

Nos meses seguintes, os conflitos se intensificaram, especialmente na bacia do Tapajós. No início de 2026, povos indígenas realizaram protestos contra as dragagens previstas para o rio e contra o Decreto nº 12.600/2025, que havia incluído trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Em fevereiro, o processo de contratação das dragagens no Tapajós foi suspenso. As intervenções voltaram ao centro do debate em julho, quando um novo plano de dragagem avançou após a dispensa de licenciamento ambiental concedida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas-PA). No mesmo mês, lideranças indígenas do Tapajós levaram suas reivindicações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião no Palácio do Planalto.

Foi nesse contexto que o MPOR retomou a interlocução com o GT Infra, abrindo caminho para esta videoconferência. O encontro marcou um primeiro passo na construção de um diálogo mais amplo entre sociedade civil e instituições públicas envolvidas no planejamento, licenciamento e concessão de hidrovias na Amazônia. . Participaram representantes do MPOR, da Controladoria-Geral da União (CGU), do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público Federal (MPF), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), entre outros órgãos. O Ministério dos Transportes também foi convidado, mas não participou da videoconferência.

Durante uma primeira mesa sobre impactos socioambientais do atual modelo de hidrovias na Amazônia e a infraestrutura que queremos, representantes das três bacias mostraram como diferentes projetos de infraestrutura têm produzido problemas semelhantes. No rio Madeira, Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo (IMV), chamou atenção para os efeitos da expansão dos corredores de transporte de grãos e defendeu que a infraestrutura amazônica seja discutida a partir das necessidades de quem vive nos rios e deles depende. No Tapajós, Johnson Portela, do Movimento Tapajós Vivo (MTV), destacou que os impactos da hidrovia se somam às pressões já existentes do agronegócio e da expansão portuária e afetam atividades como pesca, transporte local e turismo.

“Parece que estamos falando do mesmo rio”, resumiu Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria (IZM). Segundo ela, problemas encontrados no Madeira, Tapajós e Tocantins se repetem, entre eles o fracionamento dos empreendimentos e de seus processos de licenciamento, dificuldades relacionadas à consulta prévia e a falta de informações acessíveis às comunidades sobre a dimensão das intervenções previstas. No Tocantins, ela lembrou ainda que populações afetadas pela hidrovia convivem com impactos acumulados de outras grandes obras, como a hidrelétrica de Tucuruí e a Transamazônica.

A necessidade de participação dos povos desde as primeiras etapas dos projetos também foi ressaltada pelo cacique Manoel Munduruku, do planalto santareno, região cercada pela monocultura de soja. “Temos que ser consultados antes do projeto ser colocado no papel”, afirmou. Para ele, realizar a consulta quando as principais definições sobre um empreendimento já foram tomadas limita a possibilidade de participação efetiva dos povos afetados.

Planejamento bem antes das obras

Durante o encontro, representantes de organizações da sociedade civil também apontaram que parte dos conflitos relacionados às hidrovias poderia ser enfrentada ainda na etapa de planejamento setorial de transportes, antes da definição de obras e da abertura dos processos de licenciamento.

André Luis Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), defendeu que os planos setoriais de transporte sejam construídos de forma integrada, com a análise comparativa entre corredores de transporte que tipicamente envolvem modais interconectados (rodovias, hidrovias, ferrovias), considerando riscos socioambientais e questões de viabilidade econômica. Ele lembrou ainda que uma hidrovia não funciona de forma isolada: depende de portos, rodovias e outras estruturas. Por isso, seus efeitos precisam ser analisados no contexto dos corredores logísticos, considerando impactos cumulativos e sinérgicos desde o início do planejamento. Ainda segundo ele, várias infraestruturas propostas no PNL 2050, têm como motivação principal resolver o mesmo problema logísticos, especialmente no que se refere a milho e soja. Ao que parece, será necessário avaliar a real necessidade das de todas infraestruturas planejadas e avaliar alternativas com menores riscos sociais e ambientais.

A assessora técnica do GT Infra, Renata Utsunomiya, apresentou exemplos das hidrovias do Madeira, Tapajós e Tocantins para mostrar limitações do atual modelo de licenciamento ambiental. No Madeira, por exemplo, ela apontou a existência de intervenções próximas a Terras Indígenas e Unidades de Conservação e questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada. No Tapajós, destacou que quatro dos sete pontos previstos no plano de dragagem de 2026 não haviam sido dragados anteriormente, questionando sua classificação como meras dragagens de manutenção.

Outro ponto levantado foi a necessidade de avaliar os impactos da operação ao longo das hidrovias, e não apenas das intervenções em trechos específicos dos rios, o que se intensifica com o fatiamento do licenciamento ambiental. As projeções indicam forte crescimento da movimentação de cargas no Tapajós e no Tocantins até 2035, o que reforça, segundo Renata, a necessidade de modelar esses fluxos para compreender a frequência do tráfego e os riscos associados, como o aumento do desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia.

Infraestrutura para quem vive nos territórios

Além de mudanças no planejamento de grandes empreendimentos, o debate colocou em pauta a infraestrutura de transporte fluvial necessária para atender às próprias populações amazônicas.

Andressa Neves, do WWF Brasil e do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade, destacou que comunidades tradicionais e cadeias produtivas que dependem dos rios ainda são pouco consideradas no planejamento e enfrentam carências de estruturas como portos, trapiches, entrepostos, energia e conexões intermodais.

Para ela, a infraestrutura de transportes fluvial e terrestre pode contribuir para reduzir desigualdades se também estiver voltada às economias locais e às cadeias com impacto socioambiental positivo, em vez de ser planejada quase exclusivamente para o transporte de cargas do agronegócio e da mineração, como ocorre atualmente.

O procurador da República Gabriel de Amorim, do Ministério Público Federal (MPF), defendeu maior protagonismo dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre as hidrovias e alertou para a necessidade de não repetir erros de grandes projetos de infraestrutura implantados anteriormente na Amazônia. Segundo ele, a garantia do direito à consulta livre, prévia e informada junto aos povos afetados deve fazer parte de um modelo de governança que considere os rios e seus diferentes usos de forma integrada.

Gabriel também criticou o fracionamento dos processos de licenciamento, que, segundo ele, impede conhecer a totalidade dos custos e impactos do modelo hidroviário. O procurador defendeu que a análise das hidrovias considere impactos acumulados de empreendimentos já existentes, como hidrelétricas, e apontou a necessidade de fortalecer a gestão das bacias hidrográficas, com participação dos povos tradicionais.

Diálogo deve continuar

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que a secretaria tem buscado ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade e reconheceu a percepção de que a atuação do poder público no setor hidroviário muitas vezes está associada prioritariamente ao transporte de cargas de grandes grupos econômicos, menosprezando as necessidades de comunidades locais. Segundo ele, o desafio é equilibrar a matriz logística brasileira e construir políticas que promovam desenvolvimento sustentável com inclusão social. O secretário também propôs o alinhamento de próximos passos para a continuidade das discussões.

Ao final, os participantes apontaram a reunião como um primeiro passo para a construção de uma agenda permanente de diálogo. Entre os próximos passos e propostas discutidos estão a continuidade da interlocução entre instituições e organizações, o aprimoramento dos mecanismos de consulta livre, prévia e informada, a incorporação das necessidades das comunidades no debate sobre infraestrutura e a ampliação da participação social na fase de elaboração dos planos setoriais de transporte, no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Também foi apontada a necessidade de realização de um encontro presencial, logo após o período eleitoral, para aprofundar os debates e a definição de encaminhamentos.

 

A Amazônia não precisa de novos donos

O mundo descobriu uma nova maneira de lucrar com a Amazônia viva. Mas, a menos que o poder acompanhe o dinheiro, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem se ver servindo a outra economia construída em torno de sua floresta, em vez de moldar uma economia própria

Floresta Amazônica, Rio Amazonas, Brasil. Crédito: Dennis Schmelz/Alamy

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Aconteceu algo bastante estranho na forma como falamos sobre os povos da Amazônia. 

O conhecimento antes visto como primitivo, atrasado, até mesmo um obstáculo ao progresso, agora está sendo considerado um ativo da bioeconomia e parte da solução para as crises climáticas e da biodiversidade. Dizem-lhes agora que seu conhecimento pode ser a chave para o futuro.

As comunidades indígenas e tradicionais sabem o que cresce em cada lugar, quando as frutas estão seguras, maduras e prontas para o consumo, como uma planta pode ser usada e o que acontece quando um rio é perturbado a montante. Grande parte desse conhecimento foi transmitido através de famílias e comunidades por muitas gerações.

Agora tem outro nome: inovação. E há muito dinheiro nisso.

A bioeconomia da Amazônia está atraindo muitos governos, bancos, empresas, organizações ambientais, entidades filantrópicas e investidores com uma proposta convincente: o desenvolvimento econômico não precisa ocorrer às custas da floresta.

Desejamos muito que isso seja verdade. A Amazônia precisa desesperadamente de um futuro que não dependa de sua destruição.

Valor

A coisa fica bem mais interessante e menos confortável quando você acompanha um produto amazônico desde a floresta até o consumidor.

Uma comunidade pode possuir gerações de conhecimento sobre uma determinada planta: onde ela cresce, como é colhida sem prejudicar a produção futura e como pode ser utilizada. Mas, uma vez que a planta entra em uma cadeia comercial, o equilíbrio muda completamente.

O processamento pode ocorrer em outros locais, juntamente com a pesquisa, o desenvolvimento do produto, o patenteamento, a criação da marca e a distribuição.

Um ingrediente comprado por um preço relativamente baixo em sua origem pode eventualmente estar presente em um produto cosmético, alimentício ou farmacêutico caro, vendido em São Paulo, Londres, Paris, Berlim ou Nova York.

Em algum ponto dessa jornada, o valor aumenta enormemente. Aqueles que forneceram a matéria-prima e o conhecimento que tornaram o produto possível podem permanecer na base da cadeia.

Por isso, perguntar simplesmente se as comunidades estão lucrando com a bioeconomia nos diz muito pouco. Elas podem ganhar muito mais e ainda assim ter muito pouco controle sobre os negócios construídos ao seu redor.

Uma comunidade pode receber renda de um projeto e ainda assim perder parte da autonomia sobre seu território, tornar-se dependente de um único comprador ou até mesmo alterar suas práticas tradicionais para atender às demandas de um mercado externo.

E o conhecimento não é apenas mais uma matéria-prima.

Como atribuir a propriedade de algo desenvolvido coletivamente e transmitido entre gerações? O que acontece quando o conhecimento e o território entram em sistemas construídos em torno do registro, da propriedade intelectual e da propriedade comercial?

O reconhecimento do conhecimento tradicional deve ser celebrado, mas não deve se tornar uma oportunidade para se apropriar dele.

Convidado em

Atualmente, há muitas fotografias de povos indígenas em conferências sobre o clima. Eles aparecem em relatórios de sustentabilidade corporativa, em eventos internacionais e em apresentações sobre conservação florestal. Eles também se tornaram políticos.

A visibilidade melhorou significativamente. Mas a potência é algo completamente diferente.

Muitas das decisões importantes relativas a um projeto podem ser tomadas anos antes de a comunidade ser formalmente consultada.

Frequentemente, essas comunidades aparecem nesses projetos como parceiras, beneficiárias ou guardiãs da floresta, enquanto as decisões estratégicas relativas ao financiamento, ao desenho do programa, aos critérios de sucesso e à distribuição de recursos são tomadas em outro lugar.

A consulta gratuita, prévia e informada visa precisamente evitar isso. “Prévia” não pode significar depois que as decisões importantes já foram tomadas. “Informada” não pode significar entregar às comunidades documentos que elas não tiveram tempo nem aconselhamento independente para avaliar adequadamente.

Existe um enorme desequilíbrio quando as instituições passam anos desenvolvendo um projeto e espera-se que as comunidades tomem decisões em semanas, ou até mesmo em dias.

Eles precisam de seus próprios advogados e consultores independentes quando necessário, e de tempo para conversar entre si, inclusive com anciãos e organizações em que confiam. Também precisam saber quem lucrará com o projeto, e não apenas o que lhes foi prometido.

Acima de tudo, eles precisam poder dizer não. O consentimento não deve ser um cheque em branco assinado no início de um projeto.

As condições podem mudar; os impactos podem ser diferentes dos previstos e novos investidores podem entrar no projeto. O uso de dados ou recursos naturais também pode se expandir.

Deverá haver pontos de revisão formais ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, com mecanismos claros para renegociação, reclamações e reparação.

O dinheiro chega com condições

Não há dúvida de que a Amazônia precisa de investimentos. Quem romantiza a pobreza em nome da proteção da floresta não está fazendo nenhum favor às pessoas que vivem lá. Pequenas empresas e cooperativas lutam para obter apoio.

O financiamento misto surgiu em parte como resposta a esses problemas. O dinheiro público e filantrópico pode assumir parte do risco que os investidores privados não estão dispostos a assumir, tornando os projetos mais atraentes para o capital comercial.

Mas se o dinheiro público torna o risco aceitável, enquanto grande parte do retorno é privado, devemos saber como os benefícios estão sendo distribuídos. Mais importante ainda, devemos analisar que tipo de projetos o sistema favorece.

Investidores gostam de coisas que podem ser medidas, reproduzidas e escaladas com um retorno rápido. A floresta é bem menos organizada.

Uma comunidade pode ter uma forma excepcional de gerir um ecossistema específico, desenvolvida em função das condições e da cultura locais, mas essa forma pode nunca se tornar um modelo capaz de ser expandido para milhares de hectares. Um projeto maior e padronizado, com métricas já conhecidas, pode ser muito mais fácil de financiar.

Lentamente, a pergunta pode mudar. Em vez de perguntarmos que tipo de financiamento funciona para a Amazônia, começamos a perguntar que tipo de Amazônia funciona para o setor financeiro.

O que o dinheiro não vê

Os mercados são particularmente ruins em enxergar coisas que não geram receita.

Não há valor comercial óbvio ou retorno financeiro em permitir que uma espécie ameaçada de extinção continue existindo, em limpar o mercúrio de um rio, em proteger uma bacia hidrográfica remota ou em preservar uma relação ecológica que os cientistas mal compreendem. Essas ações podem ser essenciais sem que se produza nada que possa ser vendido.

A natureza não opera segundo o calendário de um fundo de investimento. Um ecossistema danificado pode precisar de décadas para se recuperar.

O carbono ofereceu uma resposta para parte desse problema ao criar algo mensurável que pudesse ser comercializado.

Como resultado, houve um fluxo de dinheiro para projetos florestais, incluindo verbas que, de outra forma, talvez nunca tivessem chegado à conservação.

Mas os mercados voluntários de carbono também expuseram a dificuldade de tentar integrar uma floresta viva em um sistema de contabilidade.

Em muitos projetos florestais, os créditos dependem de uma projeção do que supostamente teria acontecido com aquela floresta se o projeto não tivesse existido. Quanto maior a projeção de desmatamento nesse cenário hipotético, maior o volume potencial de créditos gerados.

Isso cria um sério conflito de incentivos. Se você exagerar o risco futuro de desmatamento, poderá gerar mais créditos. E esses créditos têm valor financeiro.

Além disso, existem outros problemas, como o “vazamento”: você protege uma área específica, mas o desmatamento simplesmente se desloca para outro lugar.

Há também a questão da permanência. Uma floresta que gerou créditos de carbono hoje pode ser destruída por um incêndio, degradada ou desmatada daqui a alguns anos. No entanto, esses créditos podem já ter sido vendidos e utilizados por uma empresa para compensar suas emissões.

Isso evidencia o quão difícil é transformar algo tão complexo e dinâmico como uma floresta em uma unidade financeira perfeitamente mensurável.

Talvez a questão mais preocupante seja esta: uma empresa pode comprar créditos de carbono e alegar ter compensado suas emissões sem necessariamente reduzir a poluição na fonte.

Isso pode criar uma espécie de licença moral para continuar emitindo: continuo queimando combustíveis fósseis aqui enquanto pago alguém para preservar uma floresta do outro lado do mundo. Mas uma coisa não anula necessariamente a outra.

Por isso, é perigoso acreditar que o mercado sozinho resolverá a crise climática.

Existe uma enorme diferença entre pagar pessoas para proteger uma floresta e pagar pessoas para proteger uma floresta para que outra pessoa possa alegar ter eliminado a poluição.

Certificações ecológicas

A nova economia criou algumas alianças muito incomuns.

Empresas dos setores de petróleo e gás, mineração e agronegócio agora atuam ao lado de governos e organizações ambientais em iniciativas de conservação. Algumas financiam programas de restauração e biodiversidade.

Esse dinheiro pode alcançar algo útil. Rejeitar uma floresta restaurada por causa da identidade do financiador não faria sentido.

O que faz menos sentido é analisar a restauração sem analisar a empresa.

Se uma empresa investe milhões em conservação, como isso se compara ao que ela gasta expandindo as atividades responsáveis ​​por seu impacto ambiental? Quais são suas emissões?

Que danos estão associados às suas operações? O que permanece sem solução? Qual a proporção entre o que é destinado à conservação e o que continua a ser destinado às atividades responsáveis ​​pelo problema?

Esses não são argumentos contra o financiamento ambiental corporativo. São questões básicas de proporcionalidade.

A sustentabilidade também se tornou valiosa para as empresas. Ela afeta sua reputação, o relacionamento com os investidores e a licença social para operar. Uma empresa agora pode se associar a um problema ambiental e financiar parte da solução proposta simultaneamente.

O financiamento para a conservação está transformando os modelos de negócio dessas empresas ou está ajudando-as a continuar operando sem uma transformação proporcional de seus modelos de negócio?

Memórias antigas

Há motivos para sermos céticos em relação às grandes promessas econômicas nesta região do Brasil.

A Amazônia foi repetidamente reorganizada em torno de coisas que pessoas de fora decidiram que eram valiosas. A borracha teve seu momento, assim como a madeira, o ouro, os minerais e a terra. Riquezas foram geradas, muitas vezes muito longe das comunidades que ficaram para trás, sofrendo as consequências.

Hoje, as coisas valiosas têm nomes diferentes: carbono, biodiversidade, informação genética e conhecimento tradicional.

Esse valor pode ser gerado enquanto a floresta permanece de pé? Se sim, o valor ainda pode sair da Amazônia mesmo quando as árvores não estiverem mais lá.

Um recurso genético pode se tornar propriedade intelectual em outro lugar. Uma floresta pode gerar um ativo financeiro negociado longe do território. O conhecimento tradicional pode ajudar a criar um produto lucrativo, enquanto as pessoas que desenvolveram esse conhecimento permanecem fornecedoras em vez de proprietárias.

Devemos ter cuidado para não confundir uma mudança no que é extraído com uma mudança em quem detém o poder.

Mais do que beneficiários

O investimento público pode apoiar causas importantes, mesmo que elas nunca gerem um retorno comercial atrativo.

Mais importante ainda, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem ser tratados como atores políticos e econômicos com autoridade sobre seus territórios, e não como beneficiários vinculados a um projeto de terceiros.

Por gerações, essas comunidades protegeram grande parte daquilo que o resto do mundo descobriu repentinamente ser valioso. Fizeram isso muito antes de o carbono ter um preço e a biodiversidade aparecer em apresentações de investimento, frequentemente enfrentando violência, invasões de terras e políticas destinadas a marginalizá-las.

Agora todos querem algo deles e da floresta viva.

Antes de celebrarmos a quantidade de dinheiro que entra na Amazônia, precisamos perguntar:

Que tipo de Amazon queremos deixar para trás depois que todo esse dinheiro tiver passado por ela?

Porque os investimentos vêm e vão. Os governos vêm e vão. As empresas vêm e vão. Os políticos vêm e vão. Mas a floresta tem de permanecer.

Poluição sonora de turismo e embarcações afeta a comunicação de peixes em recifes, mostra estudo

O ruído produzido pelo turismo e por embarcações como lanchas e jet skis pode interferir diretamente na comunicação entre os peixes recifais, afetando atividades fundamentais para a sobrevivência dessas espécies, como reprodução, alimentação e defesa de território. Isso ocorre porque a poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes, já que os ruídos ocupam a mesma faixa de frequência sonora que os animais utilizam para interações biológicas. As conclusões são de artigo publicado na segunda (20) na revista científica Neotropical Ichthyology por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em duas praias pernambucanas. Alef Morais/Unsplash

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em pontos com diferentes tipos de exposição a atividades humanas em duas localidades turísticas no litoral de Pernambuco – a Praia dos Carneiros, que recebe turistas o ano todo, e Praia de Tamandaré, que tem pico de visitantes no verão. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023. Os pesquisadores instalaram nesses pontos um sistema de gravação subaquática para captar de forma contínua todos os sons do ambiente.  Simultaneamente, um membro da equipe acompanhava na superfície todas as atividades humanas geradoras de ruído, enquanto mergulhadores realizavam censos visuais para verificar a composição da comunidade de peixes nesses locais.

O estudo identificou cinco tipos de poluição sonora nos locais amostrados – jet skis, lanchas, barcos de pesca, parapente motorizado e presença de banhistas, além de nove diferentes tipos de sons de peixes. Três desses sons emitidos pelos animais deixaram de ser registrados em locais expostos ao movimento humano. Ambientes mais ruidosos também tiveram redução de sua complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.

Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do artigo, explica que a poluição sonora pode impactar comportamentos importantes das espécies, como a atração de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e outras interações sociais, comprometendo a estrutura das comunidades a longo prazo.

O censo visual registrou de 18 a 23 espécies diferentes em cada ponto de amostragem, sendo a família das donzelinhas a mais abundante. Xavier ressalta que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, contribuindo para processos como a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilibro das cadeias alimentares. “Esses recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. Portanto, quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, detalha o pesquisador.

Para a equipe, os dados do estudo reforçam a importância de englobar a poluição sonora como um dos fatores de planejamento e de gestão das áreas marinhas protegidas. “Como identificamos quais atividades geram maior interferência acústica e quais áreas são mais vulneráveis ao ruído, esses dados podem ajudar gestores na definição de estratégias como o ordenamento do tráfego de embarcações, a criação de áreas de menor velocidade para barcos, a delimitação de zonas mais sensíveis à atividade humana e até a definição de horários de uso turístico em períodos biologicamente importantes para os peixes”, explica Xavier.

O pesquisador aponta que, além de contribuírem para a geração de conhecimento científico, os resultados do trabalho vêm sendo compartilhados com gestores e comunidades locais. E com o intuito de dar continuidade ao monitoramento do impacto dos ruídos, os pesquisadores já atuam em um projeto de longo prazo em uma escala espacial maior na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. “Nosso objetivo é que esse conhecimento possa contribuir para políticas públicas e estratégias de manejo que conciliem o uso turístico da região com a conservação da biodiversidade e da paisagem sonora dos recifes”, finaliza Xavier.

Quem desejar ter acesso ao artigo publicado na Neotropical Ichthyology  , basta clicar [Aqui!].


Fonte: Agência Bori

Relatório documenta os impactos socioambientais da implantação do mineroduto Minas-Rio e do Porto do Açu sob o ponto de vista dos atingidos

Relatório Minas Rio

Um conjunto de grupos de pesquisas e de organizações sociais se uniu para produzir um importante relatório que documenta os impactos socioambientais causados pela implantação do mineroduto Minas-Rio e do Porto do Açu. Esse relatório é um dos documentos mais amplos já preparados com a participação direta das comunidades e grupos sociais atingidos pelas remoções, desapropriações e alterações ambientais causadas por esses mega-empreendimentos.

O documento intitulado “O Projeto Minas-Rio e seus impactos  socioambientais: olhares desde a perspectiva dos atingidos” traz uma série de dados, mapas e depoimentos que certamente serão úteis aos que se interessarem em conhecer o “outro lado” desses projetos que normalmente só recebem loas da imprensa corporativa.

Quem quiser acessar e baixar este relatório é só clicar (Aqui!)

Comunidades socialmente atingidas pelo mineroduto Minas-Rio da Anglo American lançam carta aberta à sociedade brasileira

As comunidades do entorno do projeto Minas-Rio (mineradora Anglo American), em Conceição do Mato e Alvorada de Minas, reuniram-se no último dia 22 de fevereiro de 2014, para discutir o agravamento dos problemas a que estão submetidas. No encontro,  deliberou-se publicar a carta-denúncia, em anexo e a seguir apresentada.

Desde o início do processo de licenciamento ambiental do empreendimento Minas-Rio (mina e mineroduto), os conflitos gerados pelas pressões e abusos para sua implantação  permanecem sem adequado tratamento e vigilância das autoridades públicas. A situação das comunidades atingidas configura-se pelo alto grau de precarização das condições de vida, devido à degradação das condições ambientais, sociais e econômicas nos respectivos territórios.

 Ao longo dos últimos anos a mobilização dos atingidos se fortaleceu com a participação em diferentes processos de discussão, negociação, acompanhamento socioambiental e culminou com seu reconhecimento como“comunidades socialmente atingidas”.

Apesar de todas as denúncias, audiências públicas e da exposição da violação dos direitos humanos e ambientais, tais comunidades permanecem, entretanto, invisíveis perante as autoridades do Estado – políticos, governantes, Justiça. A impunidade dos agentes responsáveis por tal situação incentiva a perpetuação de práticas desrespeitosas e criminosas por parte da empresa Anglo American e de procedimentos viciados e imorais por parte de servidores públicos.

 Entidades sociais, ambientalistas e  grupos de pesquisa se unem às comunidades social e ambientalmente atingidas para contribuir com a compreensão do conluio e promiscuidade nas relações entre representantes do segmento minerador, da Anglo American e, particularmente, do governo de Minas Gerais, associados na consolidação dos cenários de degradação desta digna região de Minas.

É nesse sentido que divulgamos à sociedade a Carta Aberta das COMUNIDADES ATINGIDAS pelo Projeto Minas-Rio (Anglo American – Governo de Minas).

Solicitamos a todos que nos ajudem a denunciar as arbitrariedades cometidas e a dar visibilidade a aqueles que não têm merecido a atenção e respeito necessários dos poderes constituídos e de boa parte dos veículos de comunicação.

 Compartilhe nossa carta, manifeste sua posição aos amigos e grupos sociais a que estiver ligado.

 Abaixo, a íntegra do texto:

 

Carta Aberta das Comunidades Socialmente Atingidas 

pelo Empreendimento Minas-Rio à sociedade

As comunidades do Distrito de São Sebastião do Bom Sucesso, Sapo – Água Quente, Beco, Cabeceira do Turco, Ferrugem, Quatis, Turco, e de Córregos – Gondó e do Jassém se reconhecem como COMUNIDADES SOCIALMENTE ATINGIDAS pelo empreendimento Minas-Rio, na região de Conceição do Mato Dentro.

Nós, comunidades socialmente atingidas, vimos a público manifestar o nosso repúdio às práticas violadoras de direitos humanos e ambientais impostas pela empresa Anglo American com a conivência e omissão do poder público municipal, estadual, federal e todas as instâncias responsáveis pela fiscalização e promoção do bem comum.

Exigimos que as comunidades sejam esclarecidas sobre as condições reais a que estão e estarão submetidas e que sejam paralisadas as práticas desrespeitosas, excludentes e geradoras de conflitos sociais tais como:

•          Não reconhecimento dos atingidos;

•          Fragmentação das famílias e das relações entre os membros da comunidade e marginalização dos atingidos;

•          Desigualdade nos critérios de negociação com ausência de tratamento isonômico, conforme critérios transparentes e coletivamente acordados;

•          Não cumprimento das condicionantes, sobretudo às de reestruturação fundiária e produtiva;

•          Embaraços e impedimentos à liberdade de expressão, reunião e associação, além de ameaças veladas por meio de perseguição de pesquisadores, movimentos sociais e atingidos com carros de segurança da Anglo American;

•          Inviabilização do uso dos cursos d’água por degradação provocada pelo empreendimento;

•          Interrupção de caminhos e, consequentemente, do direito de ir e vir;

•          Desrespeito ao modo de vida tradicional, à preservação dos bens culturais e sua reprodução;

•          Utilização de mão de obra em condição análoga à de escravo e tráfico de pessoas;

•          Degradação das condições de saúde, violação aos direitos dos idosos, de grupos vulneráveis e que necessitam de proteção especial.

A par desses problemas, conclamamos a todos os cidadãos, movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos, sociais e ambientais a se unirem aos atingidos para denunciar as irregularidades do Projeto Minas-Rio da Anglo American e para exigir:

•          A fiscalização dos órgãos responsáveis pelo licenciamento ambiental – IBAMA, SEMAD, SUPRAM-Jequitinhonha, IGAM, CBH-Santo Antônio, com a participação dos atingidos e das instituições responsáveis pela fiscalização e promoção do bem comum – Ministério Público Federal e Estadual, Defensoria Pública, Polícia Ambiental.

•          A presença do Prefeito de Conceição do Mato Dentro em uma reunião com as comunidades socialmente atingidas para esclarecimentos sobre a postura da prefeitura em relação aos problemas, conflitos ambientais e o futuro das comunidades e distritos do entorno do empreendimento.

•          Audiência Pública da Câmara Municipal de Conceição do Mato Dentro como meio de dar visibilidade aos problemas e conflitos vivenciados pelas comunidades socialmente atingidas.

•          Audiência com o representante do Ministério Público Estadual para solicitar explicações e conhecer os encaminhamentos que foram realizados sobre as demandas apresentadas pelas comunidades durante as reuniões da REASA.

•          Que sejam cumpridas as definições do processo de trabalho da DIVERSUS, conforme metodologia aprovada na URC-Jequitinhonha, especificamente, no que se refere à realização da reunião geral com as comunidades para apresentação dos objetivos e critérios de ação.

•          Que seja respeitado o direito à melhoria contínua da vida.

São Sebastião do Bom Sucesso, 22 de fevereiro de 2014.

Comunidades Socialmente Atingidas.