O neoliberalismo de esquerda e o preço ecológico da conciliação de classes

O artigo “As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro”, publicado no portal A Terra é Redonda, oferece uma interpretação provocativa sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua chegada ao governo federal em 2003. O argumento central produzido pelo  seu autor,  Eduardo Luiz Zen, é que, longe de representar uma ruptura com o neoliberalismo consolidado nos anos 1990, os governos petistas construíram uma modalidade própria de gestão do capitalismo brasileiro, combinando políticas redistributivas e de inclusão social com a preservação dos pilares do modelo econômico baseado na financeirização, na exportação de commodities e na conciliação com as frações dominantes do capital.

Há, entretanto, uma dimensão que merece ser ainda mais enfatizada: a ecológica. Se existe um “neoliberalismo vermelho”, uma de suas expressões mais evidentes é aquilo que se poderia chamar de negacionismo ecológico sutil. Não se trata da negação explícita das mudanças climáticas ou da destruição ambiental, como ocorreu em outros governos. Pelo contrário, o discurso oficial frequentemente incorpora a linguagem da sustentabilidade, da transição energética e da proteção dos biomas. O problema reside justamente na distância crescente entre esse discurso e a continuidade de um modelo de desenvolvimento assentado na expansão do agronegócio exportador, da mineração em larga escala e das grandes obras de infraestrutura voltadas para a integração do Brasil aos mercados globais de commodities.

Desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio, em 2003, consolidou-se uma estratégia de convivência e acomodação com os interesses do latifúndio agroexportador. Esse movimento ocorreu paralelamente à ampliação das exportações agrícolas e ao fortalecimento político das grandes entidades representativas do agronegócio, sem que fossem enfrentadas questões estruturais como a concentração fundiária, a reforma agrária ou os impactos socioambientais da agricultura intensiva. Diversos estudos científicos apontam que essa orientação representou uma continuidade importante da inserção primário-exportadora da economia brasileira, ainda que acompanhada de políticas sociais redistributivas.

O mesmo padrão pode ser observado na mineração. Grandes empreendimentos minerais continuaram sendo tratados como vetores privilegiados do crescimento econômico, frequentemente recebendo apoio institucional e financeiro do Estado, enquanto conflitos territoriais envolvendo comunidades tradicionais, povos indígenas e populações atingidas permaneceram em segundo plano. A lógica predominante foi a da expansão da fronteira extrativa, compatível com a crescente demanda internacional por minério de ferro, ouro, bauxita e, mais recentemente, minerais estratégicos para a chamada transição energética.

No caso da agricultura, essa opção política possui consequências que hoje se tornam cada vez mais difíceis de ignorar. O avanço contínuo da monocultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos e sementes geneticamente modificadas vem produzindo impactos expressivos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos, a qualidade dos solos e a saúde pública. Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agropecuária permanece como um dos principais vetores de desmatamento, degradação florestal e emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Ainda assim, essas contradições raramente aparecem como elementos centrais da estratégia de desenvolvimento defendida pelo governo.

É justamente aí que se manifesta esse negacionismo ecológico de baixa intensidade: reconhece-se a existência da crise climática, mas evita-se questionar o modelo econômico que a alimenta. Celebram-se metas ambientais em fóruns internacionais enquanto, internamente, preserva-se uma aliança política que impede mudanças mais profundas na organização da produção agrícola e mineral. Em vez de enfrentar os fatores estruturais da degradação ambiental, privilegia-se uma narrativa segundo a qual seria possível compatibilizar indefinidamente a expansão do extrativismo com a sustentabilidade.

Essa escolha política ajuda a explicar por que o Brasil continua apresentando enorme dificuldade para construir uma estratégia efetivamente pós-extrativista. Enquanto persistir a dependência das exportações de commodities agrícolas e minerais como principal eixo da inserção internacional do país, os conflitos ambientais tenderão a se aprofundar. O verdadeiro desafio, portanto, não consiste apenas em combater o negacionismo climático explícito, mas também em superar esse negacionismo mais sofisticado, que reconhece a emergência ecológica em seu discurso, ao mesmo tempo em que preserva as bases econômicas responsáveis por sua permanente reprodução.

Elites brasileiras estão jogando gasolina no incêndio e podem sair tostadas

A aprovação pela Câmara Federal de uma lei que permitirá a ampliação da terceirização em todos os setores do mercado de trabalho brasileiro se deu em meio a uma pressa desenfreada que impediu a tomada de consciência da maioria dos afetados do que vem por aí. E o que vem por aí é uma mistura impressionante de prejuízos aos trabalhadores que incluem a redução de salários, perda de direitos como férias e 13o. salário, e também dos recursos do FGTS.

Se não bastasse isso, ainda temos na mesa a “reforma da previdência” que ampliará o tempo de contribuição e a idade mínima para que o trabalhador brasileiro possa pleitear o pagamento de algum tipo de aposentadoria. 

Na prática, quando essas duas ações forem combinadas, o trabalhador brasileiro será jogado num cenário onde ele terá de trabalhar mais tempo em troca de salários menores, e sem a perspectiva de receber uma aposentadoria enquanto estiver vivo.

Essa poção de maldades implica numa regressão brutal na condição do trabalho e na condição da maioria dos brasileiros de aspirarem um mínimo de qualidade de vida, pois esta diretamente ligada a outros elementos para os quais o Estado brasileiro pretende, sob o comando do governo “de facto” de Michel Temer, investir cada vez menos. Falo aqui dos serviços de saúde, educação, transporte e habitação.

Mas apesar disso tudo, ainda não se viu qualquer tipo de reação por parte da classe trabalhadora, suas organizações sindicais e partidos que se apresentam como defensores de agendas com perfil progressivo no que tange aos direitos sociais. Isso gera, inclusive, um sentimento de que as elites venceram e que não há qualquer saída à vista para o Brasil e para a maioria do seu povo. Aliás, há sim, a volta de Lula ao posto de presidente da república, o que efetivamente não será permitido com facilidade por parte das elites brasileiras que são quem efetivamente estão conduzindo este festival de horrores em Brasília.

Como eu já escrevi aqui neste blog, o que me parece estar em curso, ainda que por debaixo da superfície dos fatos, é o fim da perspectiva de vivermos numa sociedade onde em troca de algumas migalhas para os pobres, governos de conciliação puderam continuar tornando os ricos mais ricos. A crise sistêmica do Capitalismo tratou de inviabilizar este tipo de arranjo, e agora as elites querem tirar tudo o que puderem para que eles entreguem a maioria das riquezas brasileiras às corporações multinacionais para que possam elas viver suas vidas de garbo e fausto.

O problema é que ao fazerem isso, as elites estão fazendo um jogo muito perigoso já que tanta regressão social tem tudo para recolocar formas bastante explosivas de ação da classe trabalhadora nas ruas. A impaciência certamente vai crescer entre os trabalhadores quando o conjunto desses ataques ficar mais claro, e menos comida ainda chegar à mesa de milhões de famílias que já vivem dificuldades graves por causa da recessão prolongada em que fomos colocados pelo governo “de facto” de Michel Temer. A questão é saber apenas quando ocorrerá o primeiro caso concreto de uma convulsão social que me parece cada veza mais provável.

E quando isso acontecer, as elites brasileiras vão poder repetir uma frase que teria sido pronunciada pelo ex (des) governador Sérgio Cabral após ser denunciado em mais de 700 crimes: eu acho que exagerei. Mas reconhecer exagero certamente não vai ser suficiente para conter a revolta. Daí será a minha vez de dizer: quem mandou jogarem gasolina na fogueira, acabaram tostados!