General Mourão adota saída “a la Leão da Montanha” para escapar de responsabilidades na devastação da Amazônia

vice_presidente_mourao-19083985Confrontado com a crise política causada pela devastação acelerada da Amazônia, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tenta uma saída “a la Leão da Montanha”

Li em um informe do “ClimaInfo” que o vice-presidente da república, general Hamilton Mourão, teria se manifestado em uma uma videoconferência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, no sentido de  que “crimes ambientais deixam o Brasil “vulnerável a campanhas difamatórias” que permitem a imposição de barreiras comerciais “injustificáveis” contra os produtos brasileiros no exterior, especialmente aqueles do agronegócio; refutou o papel de “vilão” ambiental que, segundo ele, alguns países querem impor ao Brasil, “em um mundo onde grande parte do hemisfério norte queima petróleo e carvão e quer nos culpar pela poluição atmosférica”.

Tirando em miúdos tudo o que general vice-presidente disse, podemos inferir que os dados de desmatamento não são tão ruins que não possamos lembrar que as economias centrais são dependentes do consumo dos combustíveis fósseis.  Essa é uma daquelas saídas “a la Leão da Montanha” (no caso do general Mourão a saída é obviamente pela direita), pois lembrar do erro alheio jamais poderia servir como desculpa para alguém deixe de explicar seus próprios erros.

Outra coisa que o vice-presidente teria dito é que o desmatamento na Amazônia estaria em ascensão desde 2012, o que de fato estava ocorrendo. Entretanto, isto não anula que sob o governo Bolsonaro o que está ocorrendo é um aumento para além da média histórica (ver figura abaixo).  Tal constatação é básica, mas anula facilmente os argumentos leoninos montanheses do vice-presidente.

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Mas superada a análise numérica, é preciso analisar o argumento de que existem em curso campanhas difamatórias contra o Brasil por causa de, nas palavras do vice-presidente, de criminosos ambientais.  Se verificarmos o sentido jurídico da palavra difamação veremos que isto implica em uma “imputação ofensiva de fato(s) que atenta(m) contra a honra e a reputação de alguém, com a intenção de torná-lo passível de descrédito na opinião pública”.

Pois bem, se alguém tem realizado uma campanha difamatória contra o Brasil, esse alguém é o próprio governo Bolsonaro que em pouco mais de 19 meses de duração já comprometeu gravemente a governança ambiental construída a duras penas a partir de 1973, ano de criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), e praticamente desmantelou as estruturas de comando e controle que impediam a ação desenfreada de predadores da Amazônia que em sua maioria agem na completa ilegalidade.

Mas em vez de abandonar o percurso adotado até aqui, o vice-presidente Mourão, enquanto presidente do chamado Conselho da Amazônia optou por  dar assento a 15 coronéis, sendo 12 do Exército e três da Aeronáutica, um general, dois majores-brigadeiros e um brigadeiro. Para completar essa militarização da gestão ambiental da Amazônia, deixou de fora do conselho os representantes de povos indígenas, quilombolas, pescadores ou outras comunidades tradicionais da região, bem como ignorou a necessidade de dar assento para órgãos chaves como o Ibama e a Funai.

O problema é que em breve a comunidade científica adicionará ainda mais más notícias para o governo Bolsonaro, pois certamente neste momento diversas publicações estão no prelo de revistas internacionais de peso, como a Science e a Nature, para mostrar novos ângulos da devastação em curso na Amazônia. E quando isso acontecer, e deve acontecer em breve, a repercussão será muito mais forte do que já está sendo, pois um dos mitos que devem ser incinerados é aquele que apregoa que a Amazônia brasileira ainda possui em torno de 80% de florestas intactas.

Essa falácia que  o rede BBC  rotulou em artigo bastante  denso de “a grande mentira verde” tem sido o último refúgio dos governantes incautos e irresponsáveis, mas não deverá sobreviver por muito mais tempo. E quando isso acontecer, o vice-presidente Mourão vai aprender que discursos “a la leão da Montanha” não irão resolver os problemas que foram ampliados pelo estilo “passa boiada e de baciada” preconizado pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.  

Aliás, como o vice-presidente certamente assistiu aos episódios do Leão da Montanha, ele deve saber que o simpático leão cor de rosa sempre estava metido em alguma confusão, mesmo sempre tentando ficar longe delas com seu estilo altamente refinado (para os saudosos como eu, posto o clip abaixo com o simpático leão dando uma saída pela direita).