O Porto do Açu costuma ser apresentado como uma vitrine de investimentos, mas os documentos que sustentam seu funcionamento levantam perguntas sobre os custos socioambientais desse empreendimento. A outorga OUT nº IN010339, concedida pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) à Águas Industriais do Açu S/A, autoriza a retirada de até 1,9 milhão de litros de água subterrânea por dia em um único poço, o T2-5, instalado no complexo portuário. No limite autorizado, são 57 milhões de litros mensais, destinados a atividades como resfriamento, aspersão de cargas, construção civil, limpeza e fornecimento a embarcações, além de consumo e higiene humana, sujeitos às restrições do documento.
Essa autorização não constitui um cheque em branco. O bombeamento está limitado a 95 mil litros por hora, durante 20 horas diárias, e deve ser acompanhado por medições e controle da qualidade da água. A outorga também proíbe a comercialização da água extraída e exige avaliação prévia do INEA para alterações nos usos autorizados. Cabe, portanto, esclarecer como ocorre o fornecimento a terceiros e se sua execução respeita essa proibição, sem presumir uma irregularidade que o termo, sozinho, não demonstra.
A condição ambiental mais sensível determina que, ocorrendo entrada de água salgada no aquífero, a extração seja suspensa, o INEA seja informado e seja solicitado o tamponamento do poço. A cláusula reconhece um risco central da exploração de aquíferos costeiros: o bombeamento precisa permanecer compatível com a prevenção da salinização. A existência de uma vazão autorizada não dispensa o monitoramento de seus efeitos reais, especialmente em períodos de menor recarga e diante da soma das captações do complexo.
Para a população do V Distrito de São João da Barra, a questão é saber se essa exploração interfere nas fontes utilizadas pelas comunidades. Caso exista conexão hidráulica entre o aquífero captado e os poços dos moradores, o bombeamento pode contribuir para o rebaixamento dos níveis, a redução da disponibilidade e alterações de salinidade. O termo não comprova esses impactos, mas tampouco comprova sua ausência. A resposta depende dos estudos hidrogeológicos, dos registros de extração e do acompanhamento dos poços industriais e comunitários, considerando os efeitos cumulativos.
Há uma razão imediata para cobrar essas informações: a validade expressa da outorga se esgota no próximo dia 8 de outubro de 2026. Agora resta saber se estão reunidas as condições para sua renovação e se elas serão devidamente escrutinadas pelo INEA. O pedido deveria ter sido apresentado até 10 de junho, respeitando a antecedência mínima de 120 dias. Um requerimento tempestivo pode manter os efeitos da autorização durante a análise, mas isso não equivale à aprovação da renovação nem substitui a verificação do cumprimento das condições impostas.
O INEA precisa demonstrar quanto foi efetivamente retirado, como o aquífero respondeu e se há sinais de salinização ou interferência sobre outras fontes. Esses dados devem ser confrontados com as necessidades da população, lembrando que a legislação dá prioridade ao consumo humano e à dessedentação animal em situações de escassez. O pagamento pelo uso da água não transforma um recurso público em propriedade empresarial, nem assegura precedência absoluta às operações industriais.
O vencimento da outorga oferece uma oportunidade concreta para exigir transparência e fiscalização. A renovação precisa estar apoiada em evidências de sustentabilidade da captação e de proteção dos usos coletivos. Afinal, a propaganda do desenvolvimento perde credibilidade quando a segurança hídrica das empresas recebe garantias e a das comunidades permanece cercada de perguntas.
Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território
A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.
O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.
A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.
Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.
O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.
Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.
E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?
Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.
É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.
No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.
Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.
O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?
Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.
Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos
A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.
Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?
O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.
As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.
A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.
Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.
O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.
O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.
A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.
O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.
O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.
Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.
Uma análise da LSE destaca litígios relacionados a fontes de energia, consumo de água e poluição do ar
Um centro de dados do Google em Santiago, Chile, onde um projeto foi interrompido com sucesso em 2020 por motivos climáticos. Fotografia: Luis Bustamante/The Guardian
Por Isabella Kaminski
Um relatório constatou que a proliferação de centros de dados e inteligência artificial está cada vez mais na vanguarda dos litígios ambientais em todo o mundo, dos EUA e Reino Unido ao Chile e à Irlanda .
Em uma análise de cerca de 3.600 ações judiciais relacionadas ao clima, ajuizadas desde 2015, amais recente revisão anual de litígios climáticosrealizada pela London School of Economics (LSE) constatou um número crescente de casos que questionam as fontes de energia, o consumo de água e a poluição do ar dos centros de dados, todos com implicações climáticas relacionadas.
Um dos primeiros casos foi registrado em 2020na capital do Chile, Santiago, onde o Google planejava construir um enorme centro de dados na região de Cerrillos. Um grupo de moradores e a prefeitura local contestaram as licenças concedidas ao Google, levantando preocupações sobre o impacto do empreendimento noabastecimento de água da cidade, que já sofre com a crise climática .
Em dezembro, a Comissão Irlandesa para a Regulação dos Serviços Públicos (CRU) afirmou que os “grandes consumidores de energia”, como centros de dados, teriam permissão para operar com combustíveis fósseis pelos próximos seis anos, após os quais deveriam utilizar pelo menos 80% de energias renováveis.
As organizações Amigos do Meio Ambiente Irlandês (FIE), Amigos da Terra Irlanda e ClientEarth estão buscando uma revisão judicial da decisão, argumentando que ela prenderá a Irlanda ao gás fóssil, uma fonte de altas emissões e alto custo, por muitos anos.
A FIE apresentou várias outras queixas relacionadas a centros de dados na Irlanda, incluindo umacontra a Agência de Proteção Ambiental devido à aprovação de um projeto no sul de Dublin.
Nos EUA, também há uma crescente reação legal contra os centros de dados. Na Califórnia, a cidade de Pittsburgh agoraexige que um centro de dados utilize energia renovável para geração de energia e água reciclada para resfriar seus servidores. NaGeórgiae naPensilvânia , há processos judiciais em andamento contra órgãos reguladores estaduais pela aprovação de novas infraestruturas de combustíveis fósseis vinculadas a centros de dados.
Outro caso no Mississippi alega quea xAI, de Elon Musk, está violando a Lei do Ar Limpo ao operar geradores portáteis de gás metano sem as licenças necessárias. O processo, movido pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), afirma que esses geradores representam sérios riscos à saúde pública para as comunidades negras e minoritárias próximas. O Departamento de Justiça dos EUA está tentando bloquear o processo , alegando que o trabalho da empresa é essencial para a economia.
No Reino Unido, ativistas entraram com uma ação judicial contra a decisão do governo de aprovar a construção de um centro de dados “hiperescala” em Buckinghamshire. A Foxglove, uma organização sem fins lucrativos de justiça tecnológica, e a Global Action Plan, uma organização ambientalista, representadas pelo escritório de advocacia Leigh Day, afirmaram que a decisão ignorou as demandas de eletricidade e água do projeto e não considerou adequadamente seus impactos climáticos.
O relatório da LSE afirmou que casos nos EUA e no Reino Unido demonstraram como os litígios “podem impulsionar mudanças na tomada de decisões relacionadas ao clima, mesmo na ausência de julgamentos favoráveis”. Isso poderia melhorar a transparência, como no caso do centro de dados de Buckinghamshire, onde a dimensão total dos impactos ambientais “não teria vindo à tona”.
A coautora do relatório, Joana Setzer, professora associada da LSE, afirmou que esses casos não visavam necessariamente impedir o desenvolvimento, mas sim evitar uma maior dependência de combustíveis fósseis. “É uma oportunidade para que esses empreendimentos de alto consumo energético sejam abastecidos por energias renováveis neste momento em que isso é possível”, disse ela.
Relatório da Universidade das Nações Unidas alerta que a expansão acelerada da IA depende de enormes volumes de água para resfriar centros de dados e produzir eletricidade, expondo um custo ambiental praticamente ausente do debate público sobre o futuro da tecnologia
Antes de mais nada, é preciso desfazer uma das ilusões mais difundidas sobre a inteligência artificial: a de que ela pertence a um universo puramente digital, etéreo e praticamente sem impactos materiais. A popularização de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e análises complexas em questão de segundos criou a percepção de que estamos diante de uma tecnologia “limpa”, cuja principal matéria-prima seria apenas informação. Entretanto, um relatório recentemente publicado pelo United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), intitulado The Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints, demonstra que essa percepção está profundamente equivocada. Por trás da aparente simplicidade de uma pergunta feita a um chatbot existe uma infraestrutura gigantesca composta por centros de dados, redes elétricas, sistemas de refrigeração, cadeias globais de mineração e uma crescente demanda por terras e recursos naturais.
O relatório chega em um momento particularmente oportuno, quando governos e grandes empresas anunciam investimentos bilionários em inteligência artificial como se esta fosse a solução para praticamente todos os desafios contemporâneos. A narrativa dominante enfatiza ganhos de produtividade, inovação e crescimento econômico, mas dedica pouca atenção aos custos ambientais associados a essa expansão acelerada. Ao contrário do discurso corporativo, os pesquisadores da Universidade das Nações Unidas lembram que a inteligência artificial possui uma materialidade muito concreta: ela consome eletricidade, utiliza enormes volumes de água para resfriar servidores, depende da extração de minerais estratégicos e ocupa áreas cada vez maiores destinadas à construção de centros de processamento de dados.
Uma das principais contribuições do estudo é justamente ampliar o conceito de impacto ambiental. Em vez de limitar a discussão às emissões de carbono, o relatório demonstra que cada unidade de energia consumida pela inteligência artificial produz simultaneamente três tipos de pegadas ecológicas: a pegada de carbono, associada às emissões de gases de efeito estufa; a pegada hídrica, relacionada ao consumo direto e indireto de água; e a pegada territorial, que corresponde à ocupação de áreas necessárias para geração de energia, construção de infraestrutura e extração de matérias-primas. Essa abordagem integrada revela que uma fonte energética considerada “limpa” do ponto de vista climático pode continuar exercendo enorme pressão sobre recursos hídricos ou sobre a disponibilidade de terras, mostrando que a simples substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis está longe de resolver todos os problemas.
Os números apresentados pelo relatório impressionam. Mantido o ritmo atual de expansão, os centros de dados dedicados à inteligência artificial poderão consumir cerca de 945 terawatts-hora de eletricidade por ano até 2030, valor equivalente ao consumo anual de diversos países industrializados. Trata-se de uma demanda energética colossal, impulsionada não apenas pelo treinamento de grandes modelos de linguagem, mas principalmente pela utilização cotidiana dessas ferramentas por centenas de milhões de pessoas. Cada consulta aparentemente trivial realizada em um sistema de IA representa um pequeno consumo de energia que, multiplicado bilhões de vezes diariamente, transforma-se em um dos mais importantes vetores de crescimento da demanda mundial por eletricidade.
Ainda mais preocupante é a questão da água, frequentemente ignorada nas discussões sobre tecnologia digital. Os supercomputadores responsáveis pelo funcionamento dos modelos de inteligência artificial produzem enormes quantidades de calor e necessitam de sofisticados sistemas de refrigeração, muitos deles baseados em água. Além disso, a própria geração da eletricidade utilizada por esses centros de dados também depende, em grande medida, de recursos hídricos. O relatório estima que, até o final da década, a infraestrutura global de inteligência artificial poderá consumir um volume de água suficiente para atender aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas por um ano inteiro. Em um contexto marcado pela intensificação das mudanças climáticas, pela ocorrência de secas prolongadas e pelo aumento dos conflitos em torno da disponibilidade hídrica, esse dado assume proporções alarmantes.
Outro aspecto importante destacado pelos autores é a crescente demanda por minerais estratégicos necessários à fabricação de processadores de alto desempenho. A expansão da inteligência artificial significa também uma expansão da mineração de lítio, cobalto, níquel e terras raras, atividades frequentemente associadas a elevados impactos ambientais e sociais. Mais uma vez, observa-se uma divisão internacional dos custos e benefícios: enquanto os ganhos econômicos da revolução digital tendem a se concentrar nos grandes centros tecnológicos e financeiros, a degradação ambiental, a contaminação de ecossistemas e os conflitos sociais decorrentes da mineração recaem, em grande medida, sobre países periféricos da África, América Latina e Ásia.
Essa constatação conduz talvez à reflexão mais importante do relatório: a inteligência artificial também deve ser analisada sob a perspectiva da justiça ambiental. Os benefícios produzidos pela nova economia digital são distribuídos globalmente entre grandes empresas, investidores e consumidores de alta renda, mas seus impactos recaem de maneira desigual sobre comunidades locais que enfrentam aumento da demanda por água, pressão sobre sistemas elétricos, expansão da mineração, geração crescente de resíduos eletrônicos e ocupação intensiva do território. Em outras palavras, a inteligência artificial reproduz um padrão já conhecido de outras cadeias produtivas globais, no qual a riqueza é apropriada por poucos enquanto os passivos ambientais são socializados.
No caso brasileiro, as implicações desse cenário merecem atenção especial. O país reúne algumas das condições consideradas ideais para a instalação de grandes centros de dados, como relativa disponibilidade de energia renovável, abundância hídrica em determinadas regiões e potencial para expansão da infraestrutura elétrica. Ao mesmo tempo, é um dos principais fornecedores mundiais de minerais estratégicos e abriga biomas extremamente sensíveis, como a Amazônia e o Cerrado, que já sofrem forte pressão decorrente da mineração, do desmatamento e da expansão do agronegócio. Sem mecanismos robustos de regulação ambiental e planejamento territorial, a corrida global pela inteligência artificial pode aprofundar processos históricos de exploração de recursos naturais, concentrando benefícios econômicos e distribuindo impactos ambientais sobre populações vulneráveis.
O mérito do relatório do United Nations University Institute for Water, Environment and Health está justamente em retirar a inteligência artificial do campo da abstração tecnológica e recolocá-la no mundo material. Por trás de cada resposta produzida por um algoritmo existem cabos, concreto, aço, cobre, água, eletricidade, mineração, transporte e ocupação do território. Em um momento em que a inovação tecnológica é frequentemente apresentada como sinônimo automático de sustentabilidade, esse documento lembra que nenhuma revolução digital é capaz de escapar das leis da física nem das limitações ecológicas do planeta. A verdadeira discussão sobre inteligência artificial, portanto, não deve restringir-se à velocidade dos algoritmos ou aos ganhos de produtividade, mas precisa incorporar uma pergunta muito mais fundamental: quem suporta os custos ambientais dessa transformação e quem efetivamente se beneficia dela? Essa é uma questão que não pode continuar ausente do debate público, especialmente em países como o Brasil, onde a exploração intensiva dos recursos naturais já produz profundas desigualdades sociais e territoriais.
Informação está em protocolo de intenções obtido com exclusividade pela Ambiental. Documento fala em licenças “no menor tempo possível”, mas técnicos, ambientalistas e autoridades veem risco elevado
O terreno onde será construído o mega data center Scala AI City reúne qualidades raras em Eldorado do Sul: fica no único local do município que não foi atingido pelas enchentes de 2024 e é cortado por uma linha de transmissão de alta tensão. Foto: Alass Derivas
Por Nara Hofmeister e Alass Derivas (Fotos) para Matinal
Esta reportagem foi produzida pela Ambiental Media em parceria com a rede Environmental Reporting Collective. Você também pode ler a reportagem no site da Ambiental neste link.
Ogoverno do Rio Grande do Sul prometeu licenciamento ambiental simplificado para instalar o maior data center do continente no estado. O empreendimento será construído em Eldorado do Sul, município localizado a 16 km de Porto Alegre, na margem oposta do Lago Guaíba, que banha a capital. A confirmação, obtida com exclusividade pela Ambiental, está registrada em umprotocolo de intenções assinado pelo governador Eduardo Leite(PSD, eleito pelo PSDB), quatro secretários de estado e a empresa Scala Data Centers, de São Paulo, que vai construir e operar a estrutura.
O licenciamento simplificado tem tramitação mais veloz e dispensa a realização do Estudo de Impacto Ambiental, um levantamento amplo, desenhado para avaliar as consequências detalhadas do empreendimento. É a primeira vez que essa informação vem à tona, e contraria o discurso oficial de que este é um investimento alinhado à nova economia verde do Rio Grande do Sul.
O data center será dedicado ao treinamento de modelos de inteligência artificial. Nesses sistemas, enormes volumes de dados são usados para treinar modelos matemáticos capazes de identificar padrões de linguagem e gerar respostas com base nesses padrões, como ocorre em ferramentas como o ChatGPT. “São empreendimentos gigantescos”, classificou o representante da Associação Brasileira de Data Centers em uma audiência pública no Senado Federal em 2025. Não à toa, ganhou o nome de Scala AI City, ou “cidade da inteligência artificial”.
Esta modalidade de data center consome grandes quantidades de energia, o que pode trazer riscos para a estabilidade do sistema em geral, segundo o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). “Data centers têm sido associados a impactos como diminuição da qualidade da água e do acesso a ela, problemas no fornecimento e alto custo da energia nas comunidades locais”, observa um estudo publicado no ano passado pela entidade.
O protocolo de intenções assinado com a empresa estabelece que o governo do Rio Grande do Sul deveria “apoiar” a obtenção da autorização do Ministério de Minas e Energia para conexão do empreendimento na rede nacional de energia, “um dos pontos-chave para a implantação da Scala AI City”, segundo o documento.
A carga necessária será de 5 GW quando o empreendimento estiver operando em sua capacidade máxima, o que só deve ocorrer depois de 2035. Essa quantidade representa mais do que o estado inteiro do Rio Grande do Sul consome, atualmente, de energia elétrica. Não à toa, uma portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) limitou o acesso do empreendedor a 1,8 GW neste primeiro momento.
“A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao MME, já desenvolve estudos para viabilizar o atendimento à totalidade da carga prospectiva de 5 GW, demonstrando o compromisso do setor com a expansão necessária”, revela a pasta em nota enviada à Ambiental.
Os 1,8 GW assegurados até o momento representam carga 40% superior à demanda média residencial atual do estado, segundo o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL). O dado é um dos achados do relatório de uma subcomissão parlamentar que ele preside, encarregada de analisar a chegada dos data centers ao Rio Grande do Sul. “É mais do que todas as residências consomem, é uma quantidade muito grande de eletricidade”, conclui.
Questionado sobre o tema, o governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (Sedec), assegura que “não haverá antecipação de etapas nem flexibilização de exigências legais”. Já a Scala informa que “o licenciamento será conduzido de forma integrada, compatível com a escala e a complexidade do empreendimento”. Mas, como o projeto ainda está em etapa de planejamento, não houve protocolo de documentos para obtenção de licença até agora.
Os danos causados pelas enchentes de 2024 ainda são visíveis em Eldorado do Sul. A cidade foi a mais afetada do Rio Grande do Sul, e estudos demonstram a ligação entre o evento extremo e as mudanças climáticas. Foto: Alass Derivas
Conta de luz mais cara
O estudo da Empresa de Pesquisa Energética — agência ligada ao Ministério de Minas e Energia — deve estar pronto no segundo semestre. Vai identificar as obras necessárias para que a carga de 5 GW seja disponibilizada ao empreendedor. “Uma demanda superior a 1,8 GW provoca restrições na rede de transmissão”, justifica a EPE, em nota.
“É natural que o sistema exija reforços e expansões para acomodar tal volume de energia”, complementa o MME.
Esse ponto não é trivial, observa o coordenador de energia do Idec, Lourenço Henrique Moretto. “O investimento público feito para qualificar a rede é repassado a todos os consumidores por meio de suas contas de luz”, afirma.
Segundo Matheus Gomes, a Subcomissão Parlamentar apurou que mesmo uma carga de 1,8 GW vai demandar melhorias na rede de distribuição da região, podendo também gerar custos aos consumidores. “O licenciamento precisa ser rigoroso. Do ponto de vista ambiental, há no mínimo cinco pontos que merecem análise atenta de impactos: água, energia, resíduos, poluição sonora e atmosférica e mineração”.
A intenção do governador Eduardo Leite de facilitar o licenciamento vem a público em um momento em que data centers em outras partes do mundo se tornam alvo de denúncias e até revezes judiciais por ignorarem consequências ambientais. Na Inglaterra, por exemplo, o governo do estado de Buckinghamshire admitiu recentemente que a autorização para a construção de um data center sem a exigência de um estudo de impacto ambiental havia sido um erro e deveria ser anulada. Na França e na Espanha, as comunidades estão se organizando parabarrar esses empreendimentos na justiça devido ao elevado risco de interferência no abastecimento de água e energia das populações vizinhas. Nos Estados Unidos, pelo menos 25 projetos de data centers foram cancelados em 2025 depois de pressão de populações locais.
A rede elétrica local tem cortes de luz frequentes, segundo os moradores. “A energia cai o tempo todo, liga e desliga várias vezes ao longo do dia”, reclama Úrsula Silva Pedroso, de 48 anos, habitante da área central da cidade. Foto: Alass Derivas
Mudanças climáticas ignoradas
De acordo com orelatório de sustentabilidade de 2024 da Scala, todas as operações da empresa são abastecidas por energia 100% renovável certificada “desde o primeiro dia”. Mas, segundo o Idec, a cifra é enganosa.
“Ainda que a empresa assine contratos com usinas solares ou eólicas, como está conectada na rede nacional, ela recebe a energia disponível naquele momento”, observa Julia Catão Dias, coordenadora do Programa de Consumo Responsável e Sustentável do Idec. Isso quer dizer que, quando as usinas termoelétricas a carvão brasileiras estiverem ativadas, essa energia também chegará aos servidores da Scala em Eldorado do Sul.
O carvão é um dos vilões da crise climática global. No Rio Grande do Sul, é a segunda fonte de eletricidade, responsável por 22% da geração e atrás apenas da energia hidrelétrica, com 48%. Ainda que fosse possível assegurar o funcionamento apenas com energia solar, por exemplo, seria necessáriauma fazenda com 100 km2 de placas solares para suprir a demanda de 5 GW – uma área maior que a da capital do Espírito Santo, Vitória. Ou seja, o impacto vai ser significativo de qualquer jeito.
“O licenciamento precisa analisar quais serão as fontes de energia do empreendimento e calcular o seu impacto”, observa a bióloga Anita Macedo, que trabalha com licenciamento energético no estadoe é diretora de um sindicato de servidores do Estado do Rio Grande do Sul, o Semapi.
Além disso, devido à dimensão do empreendimento, é possível esperar maior pressão sobre o sistema de geração elétrica, impulsionando justamente a ativação das termoelétricas, considerada a energia mais estável do sistema. “Isso acontecer justo em um momento em que estamos discutindo como fechar as usinas térmicas seria muito ruim”, observa o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda.
Durante a enchente, o município ficou semanas sem luz, situação que, se repetida com o data center já instalado, obrigaria a empresa a ligar os geradores de energia, abastecidos com óleo diesel, outro combustível fóssil. Em 2024, a Scala – que tem 11 data centers em operação no Brasil, um no México e um no Chile– consumiu mais de um milhão de litros de diesel em geradores “que são essenciais para manter a disponibilidade durante desastres naturais e outros eventos críticos”, segundo seurelatório de sustentabilidade.
Mas, liberando o empreendimento da realização de Estudo de Impacto Ambiental, o estado está também abrindo mão do estudo de componente climático como requisito do licenciamento, realizado apenas nos licenciamentos mais complexos, alerta o deputado Matheus Gomes: “É uma questão que nos preocupa”.
Em nota enviada à reportagem, a Scala assegura que seu projeto “foi elaborado para maximizar eficiência energética e eliminar impactos sobre recursos hídricos”. “Essa arquitetura reflete uma abordagem de sustentabilidade aplicada à engenharia, e não apenas ao discurso”, completa.
A aldeia do cacique Estevan Garai, indígena guarani, fica a 2,5 km do empreendimento, mas ele diz desconhecer o projeto. “Data center? Não estava sabendo”. Foto: Alass Derivas
Sem audiência pública
Em Eldorado do Sul, onde o empreendimento está projetado para ser construído, a população está preocupada com o volume de energia requerido. Inúmeros relatos colhidos pela reportagemapontam instabilidade na rede elétrica local, com cortes de luz frequentes, segundo os moradores.
“A energia cai o tempo todo, liga e desliga várias vezes ao longo do dia”, reclama Úrsula Silva Pedroso, habitante da área central da cidade. Na zona rural, a impressão é a mesma. O loteamento Guaíba City, que fica a quatro quilômetros de distância do terreno do Scala AI City, os moradores organizaram um protesto de 14 dias, bloqueando uma estrada para pressionar as autoridades públicas a agir contra os cortes regulares de energia.
Em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os agricultores já estão se organizando para construir sua própria usina de energia solar, já que o cultivo de arroz depende fortemente de bombas de irrigação movidas a eletricidade. “Se vier um empreendimento com esse gasto de energia, do jeito que a nossa luz está hoje, vai ficar muito problemático”, alerta o assentado João Francisco Morais Cardozo, conhecido na região como Tigre.
O problema é que pelo rito do licenciamento ambiental simplificado, não há previsão de realização de audiências públicas, que são obrigatórias quando é feito o Estudo de Impacto Ambiental. “É muito ruim do ponto de vista da participação social”, lamenta o deputado Matheus Gomes. “A população tem o direito de entender a dimensão desse investimento e também seus impactos, e então, escolher”, defende o parlamentar.
A Scala e o governo do Estado negam que haverá impactos sobre a população. “O empreendimento não competirá com usos domésticos, agrícolas ou industriais”, assegura a Scala. O data center está “em total consonância com a evolução da demanda [energética] e com os parâmetros estabelecidos pelos órgãos reguladores e operadores do sistema elétrico, assegurando que não haja sobrecarga ou supressão de qualquer atributo do sistema energético do Estado ou da União”, complementa o governo do Estado.
Outro desdobramento de um licenciamento simplificado é a questão indígena, normalmente endereçada nos Estudos de Impacto Ambiental. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, há diversas comunidades guarani na área de influência direta do empreendimento. A aldeia Tekoa Pekuruty, por exemplo, fica a 2,5 quilômetros do terreno da Scala em Eldorado. Apesar disso, o cacique Estevan Garai diz desconhecer o projeto. “Data center? Não estava sabendo”, disse à reportagem em uma manhã de fevereiro. Nem a Scala nem o governo do Estado comentaram sobre os indígenas.
Em maio do ano passado, o Ministério Público Federal abriu um procedimento para apurar possíveis impactos negativos em comunidades indígenas próximas à Scala AI City. A procuradoria quer entender “se está sendo garantido o direito à vontade livre, prévia e esclarecida dos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho” e, em resposta à reportagem, informou que “a análise da obrigatoriedade do Estudo de Impacto Ambiental é um dos pontos a serem discutidos”.
O assentado João Francisco Morais Cardozo diz que a comunidade já se prepara para construir uma usina de energia própria – o cultivo de arroz depende fortemente de bombas de irrigação movidas a eletricidade. Foto: Alass Derivas
Pioneirismo no licenciamento
Ainda não há uma matriz de impactos de data centers definida no Brasil e muitos estados estão debatendo como avaliar as consequências socioambientais deste tipo de empreendimento. O Rio Grande do Sul, entretanto, foi pioneiro ao aprovar, em maio de 2025, regras específicas de licenciamento para data centers, algo então inédito no Brasil.
“O Rio Grande do Sul está na vanguarda, pois a maioria dos estados ainda está na fase de criar grupos de trabalho para debater o tema”, diz Ricardo Soares, servidor do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro e coordenador do mestrado em ciência do meio ambiente da Universidade de Veiga de Almeida.
Segundo Soares, um empreendimento da dimensão do data center de Eldorado “dificilmente seria licenciado” sem a realização de um Estudo de Impacto Ambiental no estado do Rio de Janeiro, onde há uma tabela que cruza informações como o potencial poluidor e o porte do empreendimento para determinar, por uma pontuação, se é o caso de um rito simplificado ou mais complexo de licenciamento.
No Rio Grande do Sul, o órgão licenciador é a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam), mas a instituição não possui uma tabela como a do Rio, que trata de forma transparente a questão, e a decisão sobre o rito a ser seguido é dos técnicos. “É a equipe técnica quem define quais estudos ambientais serão solicitados durante o licenciamento”, explica Anita Macedo, do sindicato Semapi.
Não há, na Fepam, técnicos de licenciamento comissionados, todo o quadro é concursado, assevera Macedo. “É muito complicado o governo do Estado assinar um protocolo de intenções como este, pois essa deve ser uma decisão embasada nos impactos ambientais””
A Ambiental solicitou uma entrevista formal ao diretor-presidente da entidade, um servidor de carreira, mas a assessoria de imprensa negou, dizendo que quem “tem respondido sobre o tema em nome do Estado” é a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Mas salientou que “a Fepam é o órgão responsável pelo licenciamento ambiental e conduz as análises técnicas conforme os procedimentos e a legislação ambiental vigente. Qualquer empreendimento que solicite licenciamento ambiental junto à Fundação será analisado seguindo os ritos técnicos”.
Esta reportagem foi elaborada pela Ambiental Media em parceria com a rede Environmental Reporting Collective (ERC) e é parte de uma série colaborativa entre repórteres internacionais que investiga impactos humanos e ambientais dos data centers. Leia a série completa em www.dirtydata.earth
Documentos de planejamento mostram impacto da unidade de ‘hiperescala’ de Thurrock enquanto o Reino Unido tenta aumentar a capacidade de IA
O Google se recusou a comentar sobre seu pedido de planejamento para o local de Thurrock. Fotografia: Jeff Chiu/AP
Por Robert Booth para o “The Guardian”
Um novo datacenter do Google em Essex deve emitir mais de meio milhão de toneladas de dióxido de carbono por ano, o equivalente a cerca de 500 voos de curta distância por semana, mostram documentos de planejamento.
Distribuído em 52 hectares, o “datacenter de hiperescala” de Thurrock fará parte de uma onda de gigantescas usinas de energia computacional e de IA se obtiver autorização de planejamento.
Os planos foram apresentados por uma subsidiária da Alphabet , empresa controladora do Google , e o impacto do carbono surgiu antes de um esforço conjunto da Casa Branca de Donald Trump e de Downing Street para aumentar a capacidade de IA no Reino Unido. Acordos de investimento multibilionários com algumas das maiores empresas de tecnologia do Vale do Silício devem ser anunciados durante a visita de Estado do presidente dos EUA ao Reino Unido, que começa na terça-feira.
O governo de Keir Starmer previu um aumento de 13 vezes na quantidade de poder de processamento de computadores que a IA usará até 2035 e está se esforçando para fornecer os data centers necessários para atender a essa demanda, na esperança de que a tecnologia impulsione a insípida produtividade econômica do Reino Unido. Acordos envolvendo a Nvidia, a maior fabricante mundial de chips de IA, e a OpenAI, a empresa por trás do assistente de IA ChatGPT, são esperados.
Mas os ativistas disseram que uma onda de novos e enormes armazéns de computadores aumentará as emissões de gases de efeito estufa da Grã-Bretanha e pressionará os recursos finitos deenergiaeágua .
Se autorizado, o complexo de Thurrock incluirá até quatro data centers em terrenos do “cinturão cinza”, parcialmente ocupados por um antigo autódromo e pista de stock car. Isso “levará a um aumento líquido nas emissões de GEE [gases de efeito estufa] de 568.727 toneladas de CO₂е [dióxido de carbono equivalente] por ano durante a fase operacional”, mostramdocumentos de planejamento examinados pelo Guardian.
“A instalação planejada do Google em Essex produzirá emissões de carbono várias vezes maiores do que as de um aeroporto internacional”, disse um porta-voz da Foxglove, um grupo de campanha por uma tecnologia mais justa. “Mas este é apenas um dos muitos data centers ‘hiperescaláveis’ que as grandes empresas de tecnologia dos EUA querem impor ao Reino Unido – em busca de seus próprios lucros e independentemente do custo para o meio ambiente.”
“O governo de Starmer precisa parar de se curvar à agenda de Trump e das grandes empresas de tecnologia e começar a defender os interesses do público do Reino Unido. Caso contrário, todos nós pagaremos pelos data centers dos gigantes da tecnologia, seja em termos de contas de energia cada vez maiores, diminuição do abastecimento de água ou aquecimento do planeta.”
O governo britânico não acredita que os data centers terão um impacto significativo no orçamento de carbono do Reino Unido devido às suas metas ambiciosas de descarbonização da rede elétrica. Em vez disso, teme que, sem um investimento maciço em novos data centers, o Reino Unido fique atrás de rivais internacionais, incluindo a França, resultando em uma “lacuna computacional” que “corre o risco de comprometer a segurança nacional, o crescimento econômico e a ambição do Reino Unido de liderar em IA”, de acordo com um artigo de pesquisa de julho do Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia.
Outros projetos importantes de data center incluem um projeto de £ 10 bilhões no local de uma antiga usina termelétrica a carvão perto de Blyth, em Northumberland, que recebeu autorização de planejamento em março. Ele deve estar no centro de um acordo entre o Reino Unido e os EUA envolvendo a Nvidia e a OpenAI. Também foi noticiado no fim de semana que o Google está em negociações iniciais para a construção de um data center gigantesco em Teesside.
A Bain & Company, consultoria empresarial global, disse na segunda-feira que a IA e os data centers podem ser responsáveis por 2% das emissões globais e 17% das emissões industriais até 2035, com o impacto mais alto em países onde os combustíveis fósseis ainda dominam a geração de energia.
O Google se recusou a comentar sobre seu pedido de planejamento para o local de Thurrock. Em Teesside, afirmou: “Não comentamos rumores ou especulações.”
Amazon, Google e Microsoft estão construindo data centers em áreas com escassez hídrica em cinco continentes
Os três novos data centers propostos pela Amazon na região de Aragão, no norte da Espanha, estão licenciados para usar cerca de 755.720 metros cúbicos de água por ano, o suficiente para irrigar 233 hectares (576 acres) de milho, uma das principais culturas da região. Composição: The Guardian/Getty Images
Luke Barratt , Costanza Gambarini e gráficos de dados de Andrew Witherspoon e Aliya Uteuova para o The Guardian
Amazon , Microsoft e Google estão operando data centers que usam grandes quantidades de água em algumas das áreas mais secas do mundo e estão construindo muitos mais, segundo uma investigação da SourceMaterial e do Guardian.
Com Donald Trump prometendo apoiá-los, os três gigantes da tecnologia estão planejando centenas de data centers nos EUA e no mundo todo, com um impacto potencialmente enorme nas populações que já vivem com escassez de água.
“A questão da água se tornará crucial”, disse Lorena Jaume-Palasí, fundadora da Ethical Tech Society. “A resiliência, do ponto de vista dos recursos, será muito difícil para essas comunidades.”
Os esforços da Amazon , a maior varejista on-line do mundo, para mitigar seu uso de água geraram oposição dentro da empresa, descobriu a investigação da SourceMaterial, com um de seus próprios especialistas em sustentabilidade alertando que seus planos “não são éticos”.
Em resposta a perguntas do SourceMaterial e do Guardian, porta-vozes da Amazon e do Google defenderam seus projetos, afirmando que eles sempre levam em consideração a escassez de água. A Microsoft não quis comentar.
Data centers, grandes armazéns que contêm servidores em rede usados para armazenamento e processamento remoto de dados, bem como por empresas de tecnologia da informação para treinar modelos de IA como o ChatGPT , usam água para resfriamento. A análise da SourceMaterial identificou 38 data centers ativos pertencentes às três grandes empresas de tecnologia em partes do mundo que já enfrentam escassez de água, além de outros 24 em desenvolvimento.
A localização dos data centers costuma ser segredo do setor. Mas, usando notícias locais e fontes do setor como Baxtel e Data Center Map, a SourceMaterial compilou um mapa de 632 data centers – ativos ou em desenvolvimento – de propriedade da Amazon, Microsoft e Google .
Isso mostra que os planos dessas empresas envolvem um aumento de 78% no número de data centers que elas possuem no mundo todo, já que a computação em nuvem e a IA causam um aumento na demanda mundial por armazenamento, com construções planejadas na América do Norte, América do Sul, Europa , Ásia, África e Austrália.
Em partes do mundo onde a água é abundante, o alto consumo de água em data centers é menos problemático, mas em 2023 a Microsoft afirmouque 42% de sua água vinha de “áreas com estresse hídrico”, enquanto o Google afirmou que15% de seu consumo de água vinha de áreas com “alta escassez de água”. A Amazon não divulgou um número.
Agora, essas empresas planejam expandir suas atividades em algumas das regiões mais áridas do mundo, segundo a análise do SourceMaterial e do Guardian.
“Não é coincidência que eles estejam construindo em áreas secas”, já que os data centers precisam ser construídos no interior, onde a baixa umidade reduz o risco de corrosão do metal, enquanto a água do mar também causa corrosão se usada para resfriamento, disse Jaume-Palasí.
‘Sua nuvem está secando meu rio’
Os três novos data centers propostos pela Amazon na região de Aragão, no norte da Espanha — cada um próximo a um data center existente da Amazon — estão licenciados para usar cerca de 755.720 metros cúbicos de água por ano, aproximadamente o suficiente para irrigar 233 hectares (576 acres) de milho, uma das principais culturas da região.
Na prática, o uso de água será ainda maior, já que esse valor não leva em conta a água usada para gerar a eletricidade que alimentará as novas instalações, disse Aaron Wemhoff, especialista em eficiência energética da Universidade Villanova, na Pensilvânia.
Entre eles, prevê-se que os novos data centers da Amazon na região de Aragão consumirão mais eletricidade do que toda a região consome atualmente. Em dezembro, a Amazon solicitou ao governo regional permissão para aumentar em 48% o consumo de água em seus três data centers existentes.
Opositores acusaram a empresa de ser antidemocrática ao tentar apressar a aprovação do pedido durante o período de Natal. Mais água é necessária porque “as mudanças climáticas levarão ao aumento das temperaturas globais e à frequência de eventos climáticos extremos, incluindo ondas de calor”, escreveu a Amazon em seu pedido.
“Eles estão usando muita água. Estão usando muita energia”, disse Aurora Gómez, do grupo de campanha Tu Nube Seca Mi Río (em espanhol, “Sua nuvem está secando meu rio”), que pediu uma moratória sobre novos data centers na Espanha devido à escassez de água.
Um data center da Amazon em Stone Ridge, Virgínia. Fotografia: Nathan Howard/Bloomberg via Getty Images
A Espanha temregistradoum número crescente de mortes relacionadas ao calor em eventos climáticos extremos, associados por cientistas à crise climática. No mês passado, o governo de Aragão solicitou ajuda da UE para combater a seca.
O fazendeiro Chechu Sánchez disse que está preocupado que os data centers consumam a água necessária para suas plantações.
“Esses data centers usam água que vem do norte de Aragão, onde eu moro”, disse ele. “Eles consomem água – de onde a tiram? De vocês, é claro.”
Com 75% do país já em risco de desertificação, a combinação da crise climática e da expansão dos data centers está “levando a Espanha à beira do colapso ecológico”, disse Jaume-Palasí.
Questionado sobre a decisão de aprovar mais data centers, um porta-voz do governo aragonês disse que eles não comprometeriam os recursos hídricos da região porque seu impacto é “imperceptível”.
Compensação de água
A Amazon não divulga números totais sobre o consumo de água de seus data centers em todo o mundo. Mas afirma que atingirá o nível de “água positiva” até 2030, compensando seu consumo com o fornecimento de água para comunidades e ecossistemas em áreas de escassez em outros lugares.
A Amazon afirma que atualmente compensa 41% do seu consumo de água em áreas que considera insustentáveis. Mas essa abordagem já gerou polêmica dentro da empresa.
“Levantei a questão em todos os lugares certos de que isso não é ético”, disse Nathan Wangusi, ex-gerente de sustentabilidade hídrica da Amazon. “Eu discordava bastante desse princípio, vindo de uma formação puramente sustentável.”
A Microsoft e o Google também se comprometeram a se tornar “positivos em termos de água” até 2030 por meio da compensação de água, além de encontrar maneiras de usar a água de forma mais eficiente.
A compensação hídrica não funciona da mesma forma que a compensação de carbono, em que uma tonelada de poluentes removidos da atmosfera pode anular uma tonelada emitida em outro lugar, disse Wemhoff, especialista da Universidade Villanova. Melhorar o acesso à água em uma área não ajuda em nada a comunidade que perdeu o acesso a ela em uma área distante.
“O carbono é um problema global – a água é mais localizada”, disse ele.
A Amazon deveria buscar projetos de acessibilidade à água “porque é a coisa certa a fazer”, não para compensar o uso da empresa e fazer alegações de que é “positiva em termos de água”, disse Wangusi.
Em março, a Amazon anunciou que usaria IA para ajudar agricultores em Aragão a usar água de forma mais eficiente.
Mas essa é “uma estratégia deliberada de ofuscação” que desvia a atenção do pedido da empresa para aumentar o consumo de água, disse Gómez, o ativista.
A Amazon disse que sua abordagem não deve ser descrita como compensatória porque os projetos estão em comunidades onde a empresa opera.
“Sabemos que a água é um recurso precioso e estamos comprometidos em fazer a nossa parte para ajudar a resolver esse desafio”, disse Harry Staight, porta-voz da Amazon. “É importante lembrar que muitas de nossas instalações não exigem o uso contínuo de água para resfriar as operações.”
‘Seca extrema’
A Amazon é de longe a maior proprietária de data centers do mundo, graças à sua divisão de nuvem Amazon Web Services, mas o Google e a Microsoft estão se aproximando.
Nos EUA, que ostenta o maior número de data centers do mundo, o Google tem maior probabilidade de construir em áreas áridas, mostram dados da SourceMaterial. A empresa possui sete data centers ativos em regiões dos EUA que enfrentam escassez de água e está construindo mais seis.
Centros de dados em áreas com escassez de água aumentarão em um total de 63%
“Precisamos ser muito, muito cautelosos com o crescimento de grandes consumidores de água”, disse Jenn Duff, vereadora de Mesa, Arizona , um centro de data centers em rápido crescimento. Em janeiro, a Meta, dona do Facebook, WhatsApp e Instagram, inaugurou um data center de US$ 1 bilhão na cidade, e o Google está desenvolvendo mais dois.
O condado vizinho de Maricopa, onde a Microsoft também possui dois data centers ativos, está enfrentando uma “seca extrema”, de acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). Em junho de 2023, autoridades estaduais do Arizona revogaram as licenças de construção de algumas novas casas no local devido à falta de água subterrânea.
A seca não interrompeu os planos do Google para um segundo centro de dados em Mesa, enquanto seu primeiro centro tem uma licença para usar 5,5 milhões de metros cúbicos de água por ano — aproximadamente a mesma quantidade usada por 23.000 cidadãos comunsdo Arizona.
“O aumento da arrecadação tributária e o número relativamente pequeno de empregos valem a pena?”, questionou Kathryn Sorensen, professora da Universidade Estadual do Arizona e ex-diretora do departamento de águas de Mesa. “Cabe às câmaras municipais refletir com muito cuidado e analisar as compensações.”
O Google disse que não usará toda a quantidade de água em sua licença de Mesa, pois planeja usar um sistema de resfriamento de ar.
“Os sistemas de resfriamento são uma decisão hiperlocal, informada por nossa estratégia baseada em dados chamada ‘resfriamento consciente do clima’, que equilibra a disponibilidade de energia livre de carbono e água de origem responsável para minimizar o impacto climático hoje e no futuro”, disse o porta-voz do Google, Chris Mussett.
Portal Estelar
Em janeiro, na Casa Branca, Trump anunciou o “Projeto Stargate”, que ele chamou de “o maior projeto de infraestrutura de IA da história”.
Começando no Texas, a joint venture de US$ 500 bilhões entre a OpenAI, a empresa de software americana Oracle , a SoftBank sediada no Japão e a empresa de investimentos dos Emirados Árabes Unidos MGX financiará data centers nos EUA.
Um dia antes do anúncio do Stargate, data da posse de Trump, a empresa chinesa DeepSeek lançou seu próprio modelo de IA, alegando que ele havia usado muito menos poder de computação — e, portanto, menos água — do que seus rivais ocidentais.
Mais recentemente, a Bloomberg noticiouque a Microsoft está recuando em alguns de seus planos para novos data centers ao redor do mundo. A Microsoft também publicou planos para um data center “sem uso de água”, e o Google afirmou que incorporará resfriamento a ar para reduzir o consumo de água – embora ainda não esteja claro como seus sistemas funcionarão.
“Só acredito quando vejo”, disse Jaume-Palasí. “A maioria dos data centers está migrando do resfriamento a ar para o resfriamento a água porque o resfriamento a líquido é mais eficiente quando se tenta resfriar racks de alta densidade, que são os mais usados para IA.”
E embora o governo Trump tenha prometido acelerar novos projetos de energia para alimentar esses novos data centers, até agora não disse nada sobre a água que eles poderiam consumir.
“Nem pessoas nem dados podem viver sem água”, disse Gómez. “Mas a vida humana é essencial e os dados não.”
Segundo uma pesquisa, muitos europeus querem se tornar mais econômicos, mas não sabem exatamente como fazer isso
O maior consumo privado de água ocorre no banheiro e no jardim. Foto: IMAGO/Rolf Kosecki
Por Joaquim Wille para o Neues Deutschland
Campos secos, aumento da mortandade florestal, rios secos: a Alemanha e a Europa Central passaram por vários anos extremamente secos na última década, sendo os piores de 2018 a 2020 e 2022. Essa experiência aparentemente deixou uma impressão duradoura nas pessoas, como mostra uma pesquisa recente por ocasião do próximo Dia Mundial da Água.
Cerca de dois terços dos europeus preveem escassez de água num futuro próximo, e uma grande maioria de 87% considera importante usar água com moderação em suas casas. No entanto, mais de um terço ainda não instalou dispositivos de economia de água. O principal motivo é provavelmente que muitas pessoas subestimam o consumo real em suas casas. Embora muitos digam que economizar água é importante, de acordo com a pesquisa, 79% subestimam seu consumo real de água. Mais de um quinto (22%) acredita que o consumo per capita na Europa é de apenas um a dez litros por dia. Na realidade, a média é de 144 litros.
De acordo com a Agência Federal do Meio Ambiente (UBA), na Alemanha, o país com a maior população da UE, o consumo de água potável em residências e pequenas empresas diminuiu durante um longo período de tempo nas últimas três décadas, de 144 litros per capita por dia em 1991 para 123 litros em 2016. No entanto, o consumo aumentou novamente durante os anos secos. No ano extremo de 2019, a média foi de 128 litros, e no ano também muito seco de 2022, foi de 126 litros. O motivo do aumento foi a maior demanda de água nos meses muito quentes e secos do verão, de acordo com a UBA.
Recentemente, a situação da água melhorou novamente devido a algumas chuvas fortes. Os solos, que às vezes secavam nos dois metros superiores em quase todo o país, se recuperaram em grande parte, como mostra o “Monitor de Secas” do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental em Leipzig. No entanto, há casos atípicos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Brandemburgo e Saxônia, onde regiões com “seca severa” e “seca extrema” são atualmente indicadas para o “solo total” até uma profundidade de cerca de 1,80 metros.
Cerca de dois terços dos europeus preveem escassez de água num futuro próximo.
Pesquisas climáticas prevêem que anos secos se tornarão mais frequentes no futuro devido ao avanço do aquecimento global.O Instituto de Tecnologia de Karlsruhe apresentou um estudo que mostra que os níveis das águas subterrâneas, especialmente no norte e leste da Alemanha, podem cair significativamente ao longo deste século, mesmo se o aquecimento global for mantido abaixo de dois graus. Especialistas estão até discutindo o fornecimento de energia de longo prazo para Berlim, com seus 3,9 milhões de habitantes, por meio de uma usina de dessalinização de água do mar na costa do Báltico e um gasoduto de 250 quilômetros de extensão.
Portanto: economizar água pode ajudar a mitigar tais cenários. A pesquisa apresentada agora fornece pistas sobre o motivo pelo qual muitas famílias ainda fazem muito pouco para garantir o uso eficiente da água. Os principais obstáculos citados por aqueles que não planejam mudar para torneiras economizadoras de água e outras soluções de eficiência são: medo dos altos custos dos dispositivos de economia de água (28%), falta de informação (25%) e falta de interesse (24%).
Aqueles que estão em um curso de poupança, por outro lado, esperam principalmente ganhos financeiros: 34% citaram “economizar dinheiro” como o principal motivo. Outras razões, como garantir recursos hídricos para as gerações futuras e proteger o meio ambiente (23% cada), vieram depois.
Como a maior parte do consumo de água em casa é para tomar banho, tomar banho e usar o vaso sanitário, acessórios economizadores de água podem dar uma contribuição importante para economizar água sem ter que sacrificar o conforto. Isso é enfatizado pelo fabricante Grohe, de Düsseldorf, que encomendou a pesquisa. A empresa anuncia grande potencial de economia financeira para seus clientes. Com a “tecnologia Ecojoy” que ele desenvolveu, o consumo de água pode ser reduzido em quase 50%. Isso também reduz os custos de preparação de água quente. A empresa calcula que uma família de quatro pessoas que usa um chuveiro econômico economiza até 47.000 litros de água e 573 euros por ano em custos de água e energia. O preço de compra da poupança poderia, portanto, ser amortizado em menos de um mês.
A pesquisa “Grohe Water Insights 2025” também abordou a situação nos EUA e no Oriente Médio. Não é de se espantar que países como Arábia Saudita e Marrocos estejam à frente das outras regiões em termos de conscientização sobre problemas e priorização pessoal. Com 60% das residências usando conexões economizadoras de água, o uso dessas conexões é um pouco mais difundido aqui.
Na Europa, o risco de escassez de água é considerado mais provável do que nos EUA. No entanto, embora a intenção de economizar água seja semelhante (69%), os acessórios de economia de água.
Na Europa, o risco de escassez de água é considerado mais provável do que nos EUA. No entanto, embora a intenção de economizar água seja semelhante (69%), os acessórios de economia de água são mais amplamente aceitos na Europa (57%) do que na América do Norte (47%).
A mídia corporativa campista noticiou na semana passada o fato do Porto do Açu ter conquistado o obscuro “Prêmio Mundial de Sustentabilidade” da igualmente obscura “Associação Internacional de Portos” (IAPH) no que poderia ser configurado como um prêmio entre parceiros.
Mas, afinal, qual tem sido a grande contribuição do Porto do Açu para a “sustentabilidade” que presumo ser ambiental? Se olharmos para o passivo sociambiental do empreedimento encontraremos de tudo um pouco, incluindo erosão costeira, salinização de águas continentais, áreas de exclusão para a pesca artesanal e expulsão da agricultura familiar de territórios onde esteve fincada por quase 200 anos.
Porém, uma área que é pouco tocada quando se fala da tal sustentabilidade ambiental do Porto do Açu que se refere ao consumo de água doce. Não sei quantos ainda lembram, mas o projeto original do Porto do Açu incluía a realização de um processo de transposição de águas do Rio Paraíba do Sul(ver imagens abaixo).
Pois bem, em 30 de julho de 2018, postei neste mesmo blog, um texto em que abordava exatamente as consequências do fracasso do projeto de transposição para o abastecimento de água potável no Porto do Açu. Tempo vem, tempo vai, a coisa mais recente que ouvi falar sobre o abastecimento de água no Porto do Açu foi via o canal do Portal Viu na rede social Youtube, em outubro de 2023, onde o vice-presidente do comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana, José Armando Falcão, sobre o uso do aquífero Emburê para abastecer todas as empresas localizadas no empreendimento (ver vídeo abaixo).
O interessante é que pouco depois dessa entrevista, emnovembro de 2023, eu republiquei um texto da Agência Públcia que colocaba o Porto do Açu estava entre os maiores consumidores hídricos do Brasil, com um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água. No entanto, não consegui localizar maiores informações sobre não só sobre o que foi informado naquela reunião pelos gestores do porto, nem sobre as medidas que já foram adotados para cobrar pelo uso de água retirada do aquifero Emburê.
Mas afora a questão econômica, fica a questão ambiental, visto que, como foi alertado pelo José Armando Falcão na conversa com o jornalista Roberto Barbosa, um dos riscos envolvidos no uso excessivo de água do Emburê poderia resultar na penetração de água salina, o que poderia piorar ainda mais o problema que já foi causado pela penetração de água salgada vinda dos aterrosque foram construídos no período de implantação do Porto do Açu.
Por essas e outras, que eu olho com muito ceticismo para a propalada sustentabilidade do Porto do Açu que está mais para inglês ver e dar prêmio para parceiros. E com toda justiça que só servem para fortalecer a impressão de que esses prêmios não passam de troféus de greenwashing corporativo. Acredita neles quem quer.