Virgínia mostra o caminho: por que o Brasil precisa estudar antes de entregar sua água aos data centers

Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos

A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.

Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?

O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.

As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.

A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.

Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.

O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.

O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.

A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.

O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.

O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.

Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.

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