O agro é tóxico, com STF, com tudo

A maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de dar um gordo presente de Natal aos fabricantes e grandes usuários de agrotóxicos ao julgar improcedentes as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 5553 7755, que questionavam benefícios fiscais concedidos à comercialização de agrotóxicos.   

Com isso, como já mostrado aqui no Blog do Pedlowski, continuaremos sendo vítimas de uma combinação mortífera entre farra fiscal e envenenamento por agrotóxicos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

O ministro Nunes Marques, último a votar, coroou o julgamento ao destacar que “desonerações a insumos agrícolas são prática comum em outros países para garantir competitividade internacional e que o ordenamento jurídico brasileiro tem mecanismos adequados de controle dessas políticas”.  O curioso é que enquanto boa parte dos países da Europa estão não apenas restringindo, mas objetivamente diminuindo o uso de agrotóxicos, o Brasil não apenas se tornou o epicentro mundial do consumo de agrotóxicos altamente perigosos, mas também faz isso concedendo isenções mais do que generosas para empresas multicionais virem aqui para despejar substâncias que ninguém mais que usar.

Há ainda que se notar que enquanto se permite a continuidade dessa farra fiscal que gera adoecimento em massa, temos, por outro lado, o encurtamento das verbas para a saúde. Assim, enquanto se multiplicam casos de câncer e de outras doenças causadas pelo contato direto e indireto com esses venenos agrícolas, a maioria da população fica sem ter como cuidar daquilo que resulta do uso excessivo e abusivo de agrotóxicos.

Há ainda que se ressaltar que perto de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são para as monoculturas de exportação, o que beneficia os grandes latifundiários brasileiros. Esse é um tipo explícito de injustiça tributária, na medida em que o Brasil possui uma lógica tributária regressiva onde os mais pobres são os que mais pagam impostos.  Por outro lado, os latifundiários ainda possuem outras vantagens para aumentarem suas fortunas, como é o caso da Lei Kandir que os isenta de pagar o Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) para aquilo que é exportado.

Como já escrevi em outras ocasiões, a questão do combate aos agrotóxicos deveria ser uma das pautas fundamentais para quem se dizer da esquerda no Brasil. É que não há nada mais aviltante para a classe trabalhadora do que ter que ter de suar sangue por salários miseráveis e ainda ser contaminado por venenos podersos via a ingestão de alimentos e água que estão contaminados por agrotóxicos.

Finalmente, para aqueles que depositam suas esperanças no poder moderador do STF, fica evidente com esse julgamento o erro desse tipo de aposta. É que a despeito de votações aqui e acolá, esse é um tribunal conservador e alinhado com as forças agrárias que estão hoje na raiz da destruição dos biomas florestais e da contaminação ambiental que estão transformando o Brasil em uma imensa lixeira química de agrotóxicos indesejados em outras partes do mundo.

Exploração de lítio amplia contaminação do solo e da água em Minas Gerais

Pesquisadores alertam para o risco de consumo excessivo de alumínio entre os moradores do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Mina de extração de lítio operada pela Sigma Lithium, próxima à comunidade Piauí Poço Dantas, em Itinga (MG). Rebeca Binda 

Por Enrico Di Gregorio para “Revista Pesquisa Fapesp”

Os municípios de Araçuaí, com 35 mil habitantes, e Itinga, com 15 mil, ambos no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, vivem a perspectiva de aumento de empregos e de renda, mas também de contaminação do solo e da água. Tanto o desenvolvimento econômico quanto os problemas ambientais estão associados à exploração do lítio, elemento químico estratégico para a produção de baterias e para a transição energética (ver Pesquisa FAPESP nº 285).

Em 2023, o governo de Minas Gerais lançou o programa Vale do Lítio, para promover a exploração do mineral. Até aquele ano, uma empresa privada nacional, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), era a única a operar na região. Depois, a mineradora canadense Sigma Lithium iniciou a produção. A também canadense Lithium Ionic, a norte-americana Atlas Lithium, a australiana Latin Resources e a chinesa BYD adquiriram áreas para pesquisa mineral na região.

No Brasil, o lítio é extraído principalmente do espodumênio, mineral encontrado em rochas chamadas pegmatitos. O problema é que a exploração química e mecânica das rochas e minerais para a retirada do lítio libera nanopartículas minerais com alumínio, elemento químico potencialmente tóxico que compõe o espodumênio.

“Os resíduos descartados contendo alumínio ficam empilhados em montes de rejeitos a céu aberto e, quando chove, são levados pela água superficial e se infiltram no solo”, conta o engenheiro-agrônomo Alexandre Sylvio Costa, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Com seus colegas da universidade, ele percorreu a região e buscou formas de resolver o problema.

O grupo da UFVJM examinou as possibilidades de uso do silicato de alumínio, resíduo gerado após o espodumênio passar por um aquecimento a altas temperaturas, a chamada calcinação, e por uma solução com ácido sulfúrico, formando sulfato de lítio. Em parceria com a CBL, os pesquisadores desenvolveram um silicato de alumínio não reativo, que, por causa de suas propriedades iônicas, atrai partículas dispersas na água, em um processo chamado floculação, ajudando a purificá-la, como detalhado em um estudo publicado em outubro no International Journal of Geoscience, Engineering and Technology.

A mineração do lítio amplia a liberação de elementos químicos e, portanto, os riscos de contaminação ambiental”, reforça o geólogo Edson Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele e o geólogo Cássio Silva, da Companhia de Recursos em Pesquisas Minerais (CRPM), coletaram amostras de solo, vegetais e água nos arredores das cidades de Araçuaí e Itinga em 2008 e 2009 e, em todas, identificaram teores de alumínio acima do recomendado.

Os resultados das amostras próximas à mina apresentaram valores de alumínio similares aos regionais. Em pouco mais da metade (60%) das amostras coletadas, a concentração média era de 30,7 miligramas (mg) de alumínio por quilograma (kg) no solo, quase o dobro dos 17,7 mg por kg de áreas sem exploração de lítio. Na água, a média é de 0,405 mg por litro (L), bem acima dos limites de 0,05 mg/L a 0,2 mg/L de água potável recomendados pelo Ministério da Saúde, como detalhado em um artigo publicado em agosto de 2025 na Journal of Geological Survey.

Pegmatito, rocha da qual é extraído o mineral que contém lítioLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Silva estimou que cerca de 50 mil moradores da região estão expostos ao risco de contaminação por alumínio, cujo excesso prejudica o funcionamento dos ossos, músculos e do sistema nervoso central. Preocupado com a situação, ele enviou os resultados para as empresas e órgãos públicos de Minas Gerais. As prefeituras de Araçuaí e Itinga e a Sigma não responderam às reiteradas solicitações de entrevistas de Pesquisa FAPESP.

Outras áreas do Vale do Jequitinhonha também apresentam sinais de impacto social e ambiental. Em novembro de 2024, ao percorrer o Vale do Jequitinhonha, a socióloga brasileira Elaine Santos, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em Portugal, também deu razão aos protestos dos moradores, expressos em uma reportagem da Agência Brasil, de outubro de 2025. “Nas paredes das casas, vi rachaduras que os moradores diziam ser causadas pelas explosões das mineradoras”, afirma. “Eles relatavam que, o tempo todo, havia poeira e barulhos de máquinas.”

Na província de Yichun, na China, a maior produtora mundial de lítio, além da contaminação da água, a mineração aumentou a concentração de partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros na atmosfera para mais que o dobro dos níveis recomendados naquele país, concluíram pesquisadores do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). As análises foram detalhadas em um artigo publicado em abril de 2025 na revista EixosTech.

Problemas semelhantes inquietam os habitantes no noroeste da Argentina. Nessa região, o problema é a retirada de grandes quantidades de água, reduzindo o fluxo dos aquíferos subterrâneos que abastecem os moradores, alertaram pesquisadores das universidades nacionais de Salta (UNSa) e de La Plata (UNLP) em um artigo publicado em fevereiro de 2025 na revista Heliyon. De acordo com esse trabalho, uma das minas, na província de Jujuy, consome cerca de 51 metros cúbicos (m³) de água por tonelada de carbonato de lítio. Esse volume corresponde a 30% da água doce do complexo de salinas conhecido como Salar de Olaroz-Cauchari, de onde se extrai o lítio.

O que fazer?
“Simplesmente parar de usar lítio não é uma opção”, antecipa Santos. A partir de 2011, a extração do mineral ganhou importância em todo o mundo ao ser amplamente usado em baterias que duram mais tempo e em fontes renováveis de energia. Para ela, não se deveria criar grandes empreendimentos sem investir em serviços de saúde e agentes de fiscalização: “É preciso desenvolver uma infraestrutura que possa suportar as consequências da mineração”.

Mello, da UFRJ, ressalta a necessidade de mais transparência, audiências públicas, estudos de impacto ambiental e acompanhamento da mineração. “Precisamos mostrar claramente os riscos ao ambiente e aos moradores, que raramente são ouvidos”, diz. “Os estudos geológicos prévios também precisam ser debatidos com as comunidades para que possamos ter uma mineração com o mínimo possível de impactos ambientais.”

As resoluções nº 001/1986 e nº 237/1997 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definem a participação popular no licenciamento ambiental de atividades de mineração como princípio fundamental e instrumento jurídico obrigatório. O artigo da EixosTech, porém, observa que a escassez de fiscais e de recursos da Agência Nacional de Mineração (ANM) dificulta a implementação dessas leis.

Em setembro de 2025, o procurador Helder Magno da Silva, do Ministério Público Federal (MPF), recomendou formalmente à ANM a suspensão e revisão de todas as autorizações de pesquisa e extração de lítio no Vale do Jequitinhonha e solicitou “uma consulta prévia, livre, informada e de boa-fé” das populações locais antes de qualquer nova concessão para exploração de lítio.

Artigos científicos


ANDRADE, G. S. et alImpactos da mineração de lítio: Análise comparativa entre Vale do Jequitinhonha e YichunEixosTech. v. 12, n. 2. abr-jun. 2025.

HERON, T. et alValuation of lithium mining waste for water treatment: An experimental study and broader implications of residual aluminum silicate (Al2SiO5) as an artificial zeolite. International Journal of Geoscience, Engineering and Technology. v. 12, n. 1. 31 out. 2025.
PAZ, W. F. D. et alThe water footprint of lithium extraction technologies: Insights from environmental impact reports in Argentina’s salt flatsHeliyon. v. 11, n. 4. 28 fev. 2025.
SILVA, C. et al. Exposure of aluminum in the Araçuaí-Itinga Lithium Pegmatite District, Minas Gerais, Brazil: Contaminant and toxicological effects on populations established nearby mining activities. Journal of Geological Survey. v. 8, n. 2. 7 mar. 2025.


Fonte:  Revista Pesquisa Fapesp

Proibidos há anos, agrotóxicos perigosos persistem na agricultura nigeriana

Por Samuel Ogunsona para “Mongabay” 

O sol nasce sobre os campos verdejantes nos arredores de Lagos. Há mais de 20 anos, um agricultor chamado Joe cultiva a terra, dando origem à vida e colhendo fartas safras. Mas aqui, sob a superfície dessa cena idílica, esconde-se uma complexa teia de desafios — principalmente a ameaça implacável de pragas. A história de Joe é uma história de tentativas e erros, de desespero e perdas, e das consequências inesperadas da dependência de agrotóxicos químicos.

“Plantei manjericão africano na minha fazenda, ele começou a germinar, foi o começo, a primeira vez que plantei mudas assim, então não sabia o quão difícil seria”, relembra Joe, com a voz carregada de frustração e resignação ao falar com a Mongabay. Ele menciona a abundância de pulgões e lagartas em suas plantas, o que representa um desafio constante.

“Certa manhã, cheguei à minha fazenda e vi muitos insetos voando por toda parte”, conta ele. “Eles haviam infestado minha plantação de folhas aromáticas . Esse incidente resultou na perda total do meu investimento, pois ninguém conseguia comprar o produto.”

Essa experiência marcou uma virada em sua carreira na agricultura. Desesperado para proteger seu sustento, Joe recorreu aos agrotóxicos químicos, convencido de que eles eram a chave para salvaguardar suas plantações.

Mas os agrotóxicos que prometiam salvar as plantações de Joe se tornaram uma faca de dois gumes para ele. As substâncias que ele usou são chamadas de agrotóxicos organoclorados , que têm sido associadas à degradação do solo, ao declínio de animais benéficos ao solo e até mesmo à distorção da formação do solo . Esses produtos químicos, projetados para matar pragas, também podem prejudicar humanos e animais selvagens, contaminando fontes de água e cadeias alimentares.

Joe balança a cabeça, lembrando-se de um dia desastroso. “Eu tinha um lote de folhas de manjericão pronto para vender, e um cliente prometeu comprar tudo no dia seguinte. Na minha empolgação, decidi dar um cuidado extra a elas, aplicando uma dose forte de agrotóxicos  para afastar as pragas. Pensei que seria um herói, mas acabou sendo um cálice envenenado. Os produtos químicos queimaram toda a minha plantação de manjericão. Perdi todo o meu mercado e fiquei endividado.”

Fazenda de vegetais do fazendeiro Joe nos arredores de Lagos.
Fazenda de vegetais do fazendeiro Joe nos arredores de Lagos. Foto de Samuel Ogunsona.

Ao ser questionado sobre o que poderia ter causado o dano, Joe responde com um sorriso irônico: “Uso excessivo de agrotóxicos , sem medidas precisas. Eu só queria dar um sinal às pragas, mas parece que o sinal foi mais como uma sentença de morte para meus vegetais.”

Joe conta ao Mongabay que usa Gammalin, um pesticida que contém lindano e está proibido na Nigéria há anos devido à sua alta toxicidade e aos riscos ambientais que representa. Ele admite que esses pesticidas podem ter efeitos significativos na saúde.

“São substâncias químicas potentes — precisamos nos proteger 100% para evitar o contato da pele com elas; o cheiro dessas substâncias também é tóxico”, reconhece Joe.

A fazenda, que se estende por vários hectares, é uma importante fornecedora de vegetais para mercados locais populares, com produtos que variam de manjericão-africano ( Ocimum gratissimum ) a diversas verduras. Joe confirma que é comum os agricultores locais usarem agrotóxicos químicos em suas plantações, que são então vendidas em grandes quantidades para mercados em toda a cidade. No entanto, Joe não revela onde compra os agrotóxicos organoclorados, que, segundo ele, ele e outros agricultores da região usam em suas plantações.

A história de Joe ilustra um problema generalizado de saúde pública, já que agrotóxicos considerados inseguros em muitos países continuam a aparecer em fazendas por toda a África — e na Nigéria , em particular. Pesquisas recentes apontam para a necessidade de maior educação entre os agricultores nigerianos, pois muitos estão fazendo uso indevido de agrotóxicos (incluindo produtos químicos proibidos), aplicando-os sem equipamentos de proteção e sofrendo efeitos na saúde devido à exposição a essas substâncias.

A experiência de Joe motivou nossa investigação sobre a qualidade do solo e os potenciais riscos de contaminação associados ao uso prolongado de pesticidas organoclorados. Nossa reportagem inclui a análise de amostras de solo, animais do solo e vegetação da propriedade agrícola de Joe, que possui ampla extensão. Os resultados confirmam a presença de diversos pesticidas proibidos há 17 anos na Nigéria — incluindo o lindano, substância utilizada por Joe. Embora encontrados em quantidades “insignificantes” nas amostras de solo analisadas, esses resultados levantam questões sobre o uso de pesticidas na região — e sobre a saúde e a segurança dos agricultores, do meio ambiente e dos produtos que as pessoas consomem.

Fazendeiro Joe.
Fazendeiro Joe. Imagem de Samuel Ogunsona

Legados tóxicos

“A história da vida na Terra tem sido uma história de interação entre os seres vivos e o ambiente ao seu redor. … Se vamos viver tão intimamente com essas substâncias químicas, ingerindo-as e absorvendo-as até a medula dos nossos ossos, é melhor sabermos algo sobre a sua natureza e o seu poder.” — Rachel Carson, Primavera Silenciosa.

Muito trabalho já foi feito sobre o uso de pesticidas e seus efeitos no meio ambiente, grande parte inspirado pelo alerta do livro inovador de Rachel Carson, Primavera Silenciosa . Carson documentou os danos ambientais causados ​​pelo uso indiscriminado de DDT , um tipo de pesticida organoclorado amplamente utilizado durante a Segunda Guerra Mundial. Ela acusou a indústria química de disseminar desinformação e as autoridades públicas de aceitarem suas alegações sem questionamento, chamando a atenção para a necessidade do uso responsável de pesticidas.

O trabalho de Carson foi fundamental para aumentar a conscientização pública sobre os perigos dos pesticidas e impulsionar um movimento ambientalista. Seu livro levou à proibição nacional do DDT para uso agrícola nos EUA e abriu caminho para a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Desde então, inúmeros estudos se basearam no trabalho de Carson, destacando ainda mais os riscos associados ao uso de pesticidas e a importância de práticas sustentáveis.

No entanto, atualmente, a contaminação por agrotóxicos perigosos ainda persiste em muitas regiões — incluindo a Nigéria.

Para determinar a extensão da contaminação por agrotóxicos na fazenda de Joe, a Mongabay contratou os serviços de Onafowokan Olayinka Kehinde, cientista de laboratório da Universidade Estadual de Lagos, e de Patrick Onianwa, técnico do Laboratório Analítico ISI em Surulere, Lagos, onde as amostras são analisadas.

Kehinde coletou solo, animais do solo (minhocas, Lumbricus terrestris ) e hortaliças folhosas ( Celosia argentea ) da fazenda, seguindo protocolos padrão (com a presença de Mongabay). As amostras foram coletadas por volta das 8h do dia 28 de agosto, colocadas em recipientes estéreis, etiquetadas e armazenadas em uma caixa térmica com gelo para manter uma temperatura de aproximadamente 4° Celsius (39° Fahrenheit). As amostras foram então transportadas para a ISI Analytical em até duas horas após a coleta.

Onafowokan Olayinka Kehinde utiliza uma sonda de solo para coletar amostras de solo e de animais do solo para análise laboratorial. Imagem de Samuel Ogunsona

Dos 24 compostos de agrotóxicos analisados, as amostras de minhoca revelaram a presença de 11, as amostras de solo apresentaram 11 e as amostras de vegetais indicaram a presença de quatro.

Lindano, heptacloro e aldrina foram encontrados em todas as amostras testadas (solo, animal e vegetal), enquanto endossulfan I, endossulfan II e endrina também foram encontrados em algumas das amostras. Todas essas substâncias são organoclorados, que pesquisas associam à ” alta toxicidade, lenta degradação e bioacumulação “. Todas essas substâncias são proibidas para uso agrícola na Nigéria. Elas também são proibidas, amplamente restritas ou estão programadas para eliminação nos EUA, na UE, no Japão e em outras regiões devido à sua persistência ambiental e aos potenciais riscos à saúde.

Segundo Victor Kusemiju, professor sênior de zoologia e biologia ambiental na Universidade Estadual de Lagos, “Os pesticidas organoclorados persistem no meio ambiente por muito tempo, permanecendo eficazes por anos após a aplicação. Ao contrário de outros pesticidas, eles se decompõem lentamente. Além disso, não são seletivos, matando uma ampla gama de pragas e organismos não-alvo, incluindo peixes, animais selvagens — e potencialmente seres humanos, se os níveis de exposição forem suficientemente altos.”

30 agrotóxicos foram proibidos na Nigéria — mas alguns ainda são usados

Em 2008, a Agência Nacional para Administração e Controle de Alimentos e Medicamentos da Nigéria ( NAFDAC ) divulgou uma lista oficial de 30 agrtotóxicos proibidos , incluindo os cinco especificados acima. De acordo com relatos locais , as proibições faziam parte de um esforço mais amplo para coibir substâncias perigosas associadas a problemas de saúde, incluindo mortes por intoxicação alimentar.

Nossa investigação esclarece os motivos pelos quais esses compostos ainda aparecem no meio ambiente. Outro agricultor que trabalha em campos próximos aos de Joe disse ao Mongabay que usa pesticidas à base de Gammalin, mas que não tinha conhecimento prévio da proibição. O agricultor deseja permanecer anônimo por motivos de segurança, mas sua história nos leva a investigar mais a fundo, indo a três mercados locais onde encontramos Gammalin à venda — incluindo um mercado onde o produto estava à vista na prateleira.

Esse vendedor em particular disse que desconhecia a proibição do Gammalin e que o produto está escasso no mercado, o que elevou seu preço. Uma garrafa de 1 litro (0,3 galão) costumava ser vendida por 4.000 nairas (US$ 2,75), mas o preço subiu para 10.000 nairas (US$ 6,90) e foi reduzido para 9.000 nairas (US$ 6,20) após negociação.

Gammalin à venda junto com outros pesticidas e inseticidas em um mercado local. Imagem de Samuel Ogunsona.

A acessibilidade desses produtos químicos nos mercados locais permite que os agricultores encontrem maneiras de adquiri-los e introduzi-los no meio ambiente, prejudicando os esforços para proteger a saúde pública e os ecossistemas.

A presença contínua dessas substâncias no meio ambiente — e no mercado — também levanta questões sobre a eficácia das proibições de agrotóxicos na Nigéria.

A Mongabay entrou em contato com a NAFDAC diversas vezes por e-mail, buscando informações sobre a eficácia da proibição do lindano e seu status atual de vendas, mas não recebemos resposta até o momento da publicação.

Ogunlade Olamide Martins, diretor associado de clima e meio ambiente da Corporate Accountability and Public Participation Africa, fala ao Mongabay sobre alguns dos principais fatores que contribuem para a persistência dessas substâncias. “Agrotóxicos proibidos continuam chegando aos mercados locais devido à porosidade de nossas fronteiras e às estratégias de fiscalização deficientes”, afirma Olamide. Ele também observa “a ausência de diálogo entre os formuladores de políticas e os atores envolvidos, onde uma estratégia progressiva de eliminação gradual e a sinergia entre as principais partes interessadas no monitoramento teriam sido exaustivamente discutidas”.

Olamide afirma que tudo isso reflete “a ausência de vontade política e as limitações da agência responsável para cumprir seu mandato de fiscalização, seja por incapacidade técnica ou por entraves burocráticos. […] Também não se pode descartar completamente a provável influência de entidades importadoras de pesticidas no atraso da fiscalização”, acrescenta. “Para melhorar a conformidade, o governo deve criar uma força-tarefa especial composta por membros das agências de segurança relevantes para iniciar e manter investigações coordenadas, com agentes treinados em melhores práticas e procedimentos operacionais padrão.”

Joyce Brown, diretora de programas da Health of Mother Earth Foundation, responde com urgência. “O governo precisa implementar políticas e fiscalização rigorosas para retirar imediatamente os agrotóxicos proibidos do mercado”, disse ela em entrevista à Mongabay. “Não há espaço para uma eliminação gradual de produtos químicos altamente perigosos – eles devem ser retirados de circulação agora.”

Perigos ocultos

O lindano foi classificado como “cancerígeno para humanos” pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde , com evidências que o associam ao linfoma não Hodgkin. A IARC observa que a exposição atual da população em geral ao lindano ocorre principalmente por meio da dieta ou quando usado como tratamento para sarna ou piolhos.

Kusemiju, professor sênior da LASU, levanta outra questão sobre essas substâncias: “Um dos aspectos mais preocupantes dos pesticidas organoclorados é a sua capacidade de prejudicar organismos não-alvo que desempenham papéis cruciais na manutenção do equilíbrio ecológico”, afirma. “Por exemplo, as minhocas são vitais para a saúde do solo, pois contribuem para a formação do solo, aeração e ciclagem de nutrientes.

“Além disso, quando ocorrem chuvas fortes logo após a aplicação desses pesticidas, os produtos químicos podem ser lavados e transportados para corpos d’água próximos, como rios, lagos ou oceanos. Se a concentração do pesticida for alta o suficiente, pode ser tóxica para os organismos aquáticos, levando a efeitos indesejados e potencialmente devastadores nos ecossistemas aquáticos”, afirma.

Ikechi Agbugba , um distinto cientista agrícola e empresário com experiência em gestão de agronegócio, educação agrícola e desenvolvimento sustentável, reforça as preocupações de Kusemiju. Ele fornece ao Mongabay uma lista de problemas relacionados aos pesticidas organoclorados: “Degradação da estrutura do solo: os OCPs reduzem a agregação do solo; perturbação das comunidades microbianas do solo: altos níveis de OCPs são tóxicos para os microrganismos benéficos do solo; redução da atividade enzimática: os OCPs podem inibir essas enzimas (como desidrogenase, urease, fosfatase e celulase), levando a uma decomposição mais lenta da matéria orgânica e à redução da disponibilidade de nutrientes para as plantas.”

Ele afirma que os agrotóxicos organoclorados podem ter efeitos devastadores nas populações da fauna do solo, levando a uma “decomposição mais lenta, redução das interações microbianas, estrutura deficiente do solo [e] ruptura das cadeias alimentares”.

Ele enfatiza particularmente a importância das minhocas. “Elas fazem parte do ecossistema do solo.” Os animais do solo, de modo geral, desempenham um papel crucial na manutenção da saúde do solo por meio da decomposição, ciclagem de nutrientes e formação da estrutura do solo, afirma. “Minhocas, nematóides, ácaros, colêmbolos, formigas e besouros são essenciais para a manutenção de solos saudáveis”, diz Agbugba. “Eles são frequentemente chamados de engenheiros do ecossistema devido aos papéis fundamentais que desempenham na decomposição, ciclagem de nutrientes, formação da estrutura do solo e até mesmo na saúde das plantas.”

Enquanto isso, Ogunrinde, agricultor e especialista em agroquímicos da Ogunrinde Agrochemical, aponta para outro problema: “O maior problema é que nosso ambiente mudou, o clima alterou muitas coisas e o tipo de sementes que plantamos hoje também é diferente daquelas plantadas há 50 anos”, afirma. “A maioria das nossas sementes hoje em dia são transgênicas, sementes inorgânicas. São sementes produzidas em laboratório e são suscetíveis a pragas, ao contrário das sementes naturais”, explica ele ao Mongabay por áudio.

Ele observa que os agrotóxicos são frequentemente a maneira mais eficaz de controlar essas pragas, mas reconhece os riscos associados ao seu uso. Ele sugere uma possível solução para ajudar a reduzir o uso de pesticidas: produzir sementes resistentes a pragas. “Acredito que seja possível produzir sementes das quais as pragas possam se manter afastadas”, afirma.

Agbugba, por sua vez, recomenda uma abordagem mais holística, sugerindo que os agricultores adotem o manejo integrado de pragas (MIP), que combina ferramentas biológicas, culturais, físicas e químicas para controlar as pragas. Segundo ele, os agricultores podem adotar uma variedade de práticas, incluindo o controle biológico (utilizando inimigos naturais das pragas, como predadores, parasitas ou patógenos), a diversificação e a rotação de culturas (a rotação de culturas interrompe os ciclos de vida das pragas e reduz o acúmulo de doenças transmitidas pelo solo).

A educação dos agricultores também é fundamental. “Antigamente”, diz Kusemiju, representantes do governo nigeriano instruíam os agricultores, dizendo-lhes “que tipo de agrotóxico  usar, qual a concentração ideal e também quando aplicá-los”. Mas agora, afirma ele, “isso não acontece mais”.

Amostra de vegetal coletada para testes e análises laboratoriais. Imagem de Samuel Ogunsona.

Sustentabilidade e segurança alimentar

Especialistas concordam que práticas agrícolas sustentáveis ​​são cruciais para garantir a segurança alimentar. “Os formuladores de políticas devem fortalecer a agricultura resiliente ao clima”, afirma Agbugba, promovendo práticas agroecológicas e regenerativas, como o plantio direto e o aumento da cobertura morta, para ajudar a restaurar a saúde do solo, melhorar a biodiversidade e reduzir o uso de pesticidas sintéticos. Outras ideias incluem tecnologias adaptadas ao clima, como culturas resistentes à seca, irrigação de precisão e sistemas de alerta precoce para condições climáticas adversas e surtos de pragas.

Agbugba destaca o cultivo sem solo como uma opção sustentável para a produção de alimentos com menor impacto ambiental. “Sistemas sem solo podem ser instalados em áreas urbanas, telhados ou ambientes internos, dispensando a necessidade de terras férteis”, afirma, acrescentando que os formuladores de políticas públicas devem investir em sistemas alimentares “do campo ao prato” e implementar regulamentações que “protejam os recursos naturais e a saúde humana”.

A lista de possíveis soluções é longa.

No entanto, as experiências preocupantes de Joe com agrotóxicos organoclorados — incluindo a perda devastadora de suas plantações de folhas aromáticas devido ao uso excessivo e à aplicação inadequada — indicam o quanto ainda precisa ser feito.

Imagem de destaque: Mulheres e crianças retornam de suas terras agrícolas após um dia de trabalho no centro-norte da Nigéria. Milhões de nigerianos enfrentam a fome. Além dos conflitos e das mudanças climáticas, pesquisas mostram que o abastecimento de alimentos da Nigéria enfrenta ameaças de pragas e do uso indevido de pesticidas. Foto: AP Photo/Chinedu Asadu.

Citações

Jayaraj, R., Megha, P., & Sreedev, P. (2016). Artigo de revisão. Pesticidas organoclorados, seus efeitos tóxicos em organismos vivos e seu destino no meio ambiente. Toxicologia Interdisciplinar , 9 (3-4), 90-100. doi: 10.1515/intox-2016-0012

Zhou, W., Li, M., & Achal, V. (2025). Uma revisão abrangente sobre os impactos ambientais e na saúde humana do uso de pesticidas químicos. Emerging Contaminants , 11 (1), 100410. doi: 10.1016/j.emcon.2024.100410

Taiwo F. Akinyanju, Fidelia Osuala, Abiodun Onadeko, Nnamdi H. Amaeze e Olukunle S. Fagbenro. (2025). Práticas de aplicação de pesticidas e implicações ambientais: percepções de agricultores no estado de Lagos, Nigéria. Dutse Journal of Pure and Applied Sciences , 11 (3c), 64-79. doi: 10.4314/dujopas.v11i3c.7

Okewole, SA, Rafiu, RA, & Amusat, MA (2023). Visão geral do uso e mau uso de pesticidas e seu impacto na degradação ambiental nos estados do sudoeste e em algumas partes dos estados do norte da Nigéria. Pesticide Science and Pest Control , 2 (1). doi: 10.58489/2833-0943/013


Fonte: Mongabay

Rio Morto: Elementos potencialmente tóxicos acumulados em bananas cultivadas em solo com rejeitos de minério do desastre de Mariana excedem valores-limite da FAO

Chumbo presente na fruta é o principal motivo; trabalho também avaliou os riscos do consumo de cacau e mandioca plantados em Linhares (ES), área impactada pelo rompimento da barragem de Fundão (MG), há dez anos

Grupo de pesquisa alerta que o consumo contínuo de alimentos cultivados em solos contaminados pode significar risco carcinogênico pela acumulação a longo prazo no organismo de elementos potencialmente tóxicos (montagem de imagens de Pixabay e Wikimedia Commons)

Karina Ninni | Agência FAPESP  

Cientistas das áreas de geoquímica de solos, engenharia ambiental e saúde ligados à Universidade de São Paulo (USP), à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e à Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) avaliaram os riscos de consumo de banana, mandioca e polpa de cacau plantados em solos impactados pelos rejeitos de mineração de ferro no estuário do rio Doce, em Linhares (ES). A região vem recebendo o material desde o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão (MG), em novembro de 2015.

Nos solos, as concentrações de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo ocorrem associadas ao principal constituinte do rejeito – óxidos de ferro. A equipe também descobriu que há um possível risco à saúde associado ao consumo, por crianças de seis anos ou menos, das bananas plantadas em solos impactados pelos rejeitos. 

“Nosso grupo vem estudando os impactos do rompimento da barragem há anos. Obtivemos a primeira amostragem sete dias após o acidente e, imediatamente, compreendemos que existia um risco iminente de contaminação de plantas, solo, água e peixes. Mas persistia a pergunta: essa contaminação traz risco para a saúde humana?”, lembra Tiago Osório, agrônomo e professor no departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

Em artigo publicado na Environmental Geochemistry and Health, o grupo se dedica a responder a essa pergunta, revelando como as plantas acessam os elementos potencialmente tóxicos (EPTs) associados ao rejeito, acumulando-os em suas partes comestíveis, e de que maneira esse material chega à cadeia trófica. O artigo é parte do doutorado de Amanda Duim pela Esalq. Além de já ter rendido sete publicações em revistas internacionais, a tese de Duim ganhou dois prêmios em 2025: o Prêmio USP de Tese, na área de Sustentabilidade, e o Prêmio Capes de Tese. Ela recebeu apoio da FAPESP por meio de bolsa de doutorado.

O suporte da FAPESP aos trabalhos do grupo estende-se a duas bolsas de pós-doutorado (20/12823-5 e 21/00221-3); dois auxílios à pesquisa (23/01493-2 e 22/12966-6); uma bolsa do programa de fixação de jovens doutores e uma bolsa de iniciação científica.

Concentração alta

Segundo Duim, primeira autora do artigo, o diferencial do trabalho é que a equipe correlacionou o risco à saúde humana com a transferência dos EPTs do solo para a planta. “O teor dos óxidos de ferro no solo, que são os principais constituintes do rejeito, está correlacionado ao teor deles na planta. Estudamos a passagem de constituintes do rejeito do solo para a água e da água para a planta, incluindo suas folhas e frutos.”

“Primeiro, é preciso saber quais elementos estão ali e em que quantidade, para entender a dinâmica bioquímica de sua liberação”, explica Osório.

Duim começou o doutorado em 2019 trabalhando com plantas de regiões alagadas para remediação de ambientes contaminados. “Avaliamos espécies cultivadas e nativas. No caso das últimas, queríamos saber como afetam a dissolução do óxido de ferro e, nesse processo, tentar entender se os EPTs associados a esse rejeito vão para dentro da planta, e de que maneira, já que diferentes espécies têm formas diversas de acumular EPTs”, detalha a pesquisadora. “A ideia era descobrir quais seriam as melhores nativas para remediação de ambientes contaminados e chegamos a mais de uma espécie que pode cumprir essa função, com resultados já publicados inclusive. No caso das espécies cultivadas, queríamos saber se os EPTs seriam transferidos para os frutos e partes comestíveis das plantas”, explica.

“Coletamos o solo e a planta, lavamos a planta, pesamos a biomassa fresca, secamos a planta, pesamos a biomassa seca e trituramos separadamente raízes, caule, folhas e frutos sem a casca. Só então analisamos todas as partes para saber o que havia em cada uma. Dissolvemos o ‘pó de planta’, transformando-o em solução com o uso de vários ácidos, e determinamos a concentração na solução. Convertemos o cálculo da concentração de material na solução e comparamos com o peso do material que foi diluído, conseguindo, assim, obter a concentração do EPT em miligramas por quilo de biomassa seca”, descreve Duim.

Na banana e na mandioca, todos os EPTs (exceto cromo) se acumularam mais nas partes subterrâneas, como raízes e tubérculos, do que nas partes aéreas. Já o cacau apresentou alto acúmulo de EPTs nas partes acima do solo (caules, folhas e frutos). Além disso, as concentrações de cobre e chumbo na polpa do fruto excederam os valores-limite estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Quando a equipe viu que havia nas plantas cultivadas uma concentração de EPTs acima do indicado, inclusive nas partes comestíveis, decidiu fazer uma análise de risco nos frutos e tubérculos.

Riscos à saúde

Os cientistas estimaram os riscos do consumo de frutos de banana, rizoma da mandioca e da polpa de cacau calculando o Quociente de Risco (QR), o Índice de Risco (IR) e o Índice de Risco Total (IRT) para crianças (menores de 6 anos) e adultos (maiores de 18 anos). O QR é a razão entre a ingestão média diária de uma substância química e sua dose de referência correspondente. Já o IRT é uma métrica fundamental para avaliar os potenciais riscos não cancerígenos à saúde ligados à exposição aos EPTs (para indicar baixa existência de risco, ele deve ser menor que 1).

“Esses elementos existem naturalmente no ambiente, estamos expostos a eles em uma concentração menor, mas no caso de um desastre como o de Mariana, quando se espera que a exposição aumente, é preciso redobrar a atenção”, conta Tamires Cherubin, doutora em ciências da saúde e também autora do trabalho. A metodologia geralmente utilizada é a de calcular o risco da biodisponibilidade desses elementos, tendo em vista que a exposição a determinadas concentrações pode causar danos importantes à saúde, como problemas renais, cardíacos, desconfortos gastrointestinais, danos pulmonares, quando a exposição é respiratória, e outros riscos mais agudos, como problemas na pele ou irritações na visão.

No cálculo da análise de risco entram fatores como o consumo das plantas cultivadas localmente pela população. Os pesquisadores inclusive estimaram quanto da alimentação das populações locais vinha de fora e quanto ingeriam dos alimentos ali cultivados, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros fatores são a duração da exposição (por quantos anos a pessoa consome o produto), o teor de consumo em relação à massa corporal do adulto e da criança e o tempo que leva para que o consumo resulte em algum efeito deletério.

“De acordo com as doses de referência de ingestão diária dos contaminantes chanceladas pela literatura, consideramos os limites de 0,05 mg/kg-1 para a presença de cádmio nas frutas e 0,1 mg/kg-1 nos tubérculos, 0,5 – 1,0 mg/kg-1 para a presença de cromo, 20,0 mg/kg-1 para cobre, 0,5 – 1,0 mg/kg-1 para níquel, 0,8 – 2,3 mg/kg-1 para chumbo e 50,0 mg/kg-1 para zinco”, detalha Cherubin.

Embora os IRTs para a maioria dos elementos analisados tenham ficado abaixo do nível de risco (menor que 1), indicando que o consumo desses alimentos cultivados no estuário do rio Doce não apresentava ameaça significativa para os adultos, o resultado para a banana em crianças excedeu o limiar 1, sugerindo potenciais impactos à saúde. O principal fator de risco foi a maior concentração de chumbo presente no fruto, que também apresentou teor de cádmio superior ao preconizado pela FAO. Segundo os cientistas, a exposição prolongada ao chumbo, mesmo em baixas doses, está associada a danos irreversíveis no desenvolvimento neurológico, incluindo reduções no QI, déficits de atenção e distúrbios comportamentais.

O grupo alerta que, a longo prazo, o consumo contínuo de alimentos cultivados em solos contaminados pode, em alguns casos, significar riscos cumulativos. “Com o passar do tempo de exposição, considerando a expectativa de vida do Brasil, de mais ou menos 75 anos, pode surgir o risco carcinogênico, uma vez que existe a possibilidade de ocorrerem danos diretos e indiretos ao DNA”, diz Cherubin. Essas mutações têm o potencial de resultar em maior incidência de cânceres de diversos tipos como os que afetam o sistema nervoso central, o trato gastrointestinal e o sistema hematológico. “Tudo depende da capacidade do organismo humano de absorver e metabolizar esses elementos que estão disponíveis no ambiente”, afirma a pesquisadora.

O artigo From tailings to tables: risk assessment of potentially toxic elements in edible crops cultivated in mine tailing impacted soils pode ser lido em: https://doi.org/10.1007/s10653-025-02770-9.


Fonte: Agência Fapesp

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais agrotóxicos proibidos na Europa para abastecer o latifúndio agro-exportador

Warning Signs: How Pesticides Harm the Young Brain - Cornucopia Institute

Enquanto a região do sul do Brasil se prepara para mais uma situação de evento meterológico extremo e tem-se a confirmação de que estamos vivendo um período de aquecimento agravado da atmosfera da Terra, o governo Lula continua tocando o barco e liberando mais agrotóxicos para venda e consumo em território nacional. É que hoje o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato Nº 58, de 3 de dezembro de 2025, liberando mais 22 agrotóxicos do tipo “produto técnico” que são a versão concentrada que antecede a formulação dos produtos que serão vendidos. 

Uma primeira análise da lista de 22 agrotóxicos, um padrão comum em todo o ciclo de autorizações que o Blog do Pedlowski acompanha desde 2019 se confirma: 19 desses produtos são fabricado na China, o que mantém o principal comprador das commodities brasileiras na posição de maior fornecedor de venenos agrícolas.

Outro elemento comum que já mostrado em outras publicações neste blog é que a maioria dos produtos liberados (pelo menos 14) são de produtos que foram proibidos ou sequer autorizados para uso pela União Europeia (UE).  No caso do herbicida Clorfenapir a proibição na UE se deu em 2001 em função dos problemas ambientais e para a saúde humana, sendo que para outro herbicida, o Ciproconazol, a proibição é de 2004.  E não podemos esquecer do Imazetapir, herbicida que foi proibido na UE em 2002 por causa da sua toxicidade para o desenvolvimento ou reprodutiva, carcinogenicidade, etc.), e por sua alta persistência ambiental e periculosidade. Outros dois herbicidas, Diclosulam e Fomesafen, sequer chegaram a ser autorizados para uso na UE, mas estão sendo liberados para venda e consumo no Brasil.

O moral da história é o seguinte: por detrás dos discursos de responsabilidade e de compromisso com a agroecologia, o que temos na prática é uma enxurrada de aprovações que aumentam a exposição dos brasileiros a poderosos venenos agrícolas que adoecem os brasileiros via contato direto, consumo de alimentos e ingestão de água contaminados por um complexo coquetel de substâncias químicas banidas em outras partes do planeta.

Dirty Dozen: Um coquetel de agrotóxicos contamina a mesa dos britânicos

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de pesticidas, que agora cobre apenas culturas como grãos

Download the Dirty Dozen shopping list

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Milhões de compradores no Reino Unido adquirem alimentos básicos do dia a dia, incluindo pão, frutas, vegetais, toda semana, confiando que são seguros para consumo.

Mas análises e estudos recentes sugerem que muitos desses produtos contêm múltiplos resíduos de agrotóxicos cujos efeitos a longo prazo na saúde humana permanecem pouco compreendidos.

LEIA: O relatório Dirty Dozen.

De acordo com uma nova análise da Pesticide Action Network UK (PAN UK), três quartos das frutas e um quarto dos vegetais testados pelo governo britânico contêm um coquetel de agrotóxicos.

Produtos químicos

Os cientistas detectaram 123 agrotóxicos diferentes em apenas 17 tipos diferentes de produtos examinados. Entre eles estão substâncias químicas ligadas ao câncer, e outras conhecidas por desestabilizar os hormônios humanos, os sistemas que moldam a fertilidade e o desenvolvimento saudável.

As uvas surgiram como um dos alimentos mais contaminados, com uma única amostra contendo resíduos de 16 agrotóxicos diferentes.

Os consumidores frequentemente ouvem dizer que resíduos químicos permanecem “dentro dos limites seguros”. Os reguladores afirmam que permanecer abaixo dos níveis máximos de resíduos (MRLs) é considerado seguro.

As regras foram criadas em torno de produtos químicos isolados, assumindo que cada um provavelmente não causaria danos se aplicado corretamente – mesmo que raramente comamos apenas um.

Muitos cientistas e ativistas argumentam que esse sistema não leva em conta os efeitos combinados de múltiplos produtos químicos tóxicos consumidos ao longo dos anos, ou mesmo décadas.

Coquetel

Nick Mole, que liderou a análise para a PAN UK, alerta que esse ponto cego na regulamentação nos deixa perigosamente expostos.

“Os limites de segurança são definidos para um agrotóxico por vez, ignorando completamente o fato de que é muito comum a comida conter múltiplos produtos químicos.

“A verdade é que sabemos muito pouco sobre como esses produtos químicos interagem entre si, ou o que essa exposição a centenas de agrotóxicos diferentes está fazendo com nossa saúde a longo prazo.

“Sabemos que agrotóxicos podem se tornar mais tóxicos quando combinados, um fenômeno conhecido comoefeito coquetel.”

Ele concluiu: “Dado o quão alto é o risco, o governo deveria fazer tudo o que puder para eliminar agrotóxicos dos nossos alimentos.”

Toxina

Uma nova lista de ‘dúzia suja’ revela os produtos com maior probabilidade de conter múltiplos produtos químicos. Toranja vem primeiro, seguida pelas uvas e limas. Cada um deles aparece regularmente em promoções de supermercados celebrando frescor e bem-estar – mas por trás do marketing, a contaminação é generalizada.

A PAN UK analisou os resultados dos testes para descobrir quais Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) apareceram mais em nossas frutas e vegetais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas. 

Dois fungicidas lideraram a lista: imazalil e tiabendazol. Eles foram encontrados em cerca de 9% das amostras, principalmente em frutas como bananas, toranja e melões.

Eles são usados para impedir o crescimento de mofo durante o armazenamento e transporte, mas há sérias preocupações quanto à sua segurança. Ambos são suspeitos de prejudicar hormônios e podem até estar ligados ao câncer.

Até mesmo a comida da qual dependemos mais do que de qualquer outra, nosso pão diário, é afetada. Os testes do governo descobriram que quase todos os pães continham clormequat, uma toxina para o desenvolvimento que os cientistas alertam que pode prejudicar nossos bebês e crianças.

Fazendas

Mais de 25% das amostras de pão continha glifosato, o herbicida mais utilizado no Reino Unido, repetidamente associado a cânceres e outras doenças crônicas.

Quase 50% do pão testado continha vários produtos químicos. Até mesmo a torrada da nação se tornou fonte de exposição química.

Embora os órgãos reguladores argumentem que os níveis de exposição detectados no pão estão bem abaixo dos limiares considerados perigosos, a ausência de estudos abrangentes sobre toxicidade da mistura faz com que a incerteza permaneça.

A exposição crônica e de baixa dose ao longo de décadas, essencialmente uma vida inteira de consumo diário, não foi estudada a fundo.

Um detalhe particularmente preocupante está mais escondido nos dados: quase um terço dos pesticidas detectados não são aprovados para uso em fazendas britânicas.

Trading

Culturas cultivadas no exterior usando produtos químicos proibidos no Reino Unido ainda podem ser importadas e vendidas nas prateleiras britânicas. Os próprios órgãos consultivos do governo alertaram que isso prejudica injustamente os agricultores locais que trabalham sob regras mais rígidas e, pior ainda, expõe os consumidores a riscos que os reguladores já reconhecem serem grandes demais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas.

A Grã-Bretanha corre o risco de importar produtos contendo altos níveis de pesticidas, incluindo Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) já proibidos no país. Por exemplo, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e metade deles são HHPs.

Ainda assim, o ministro britânico do comércio, Sir Chris Bryant, que se descreve como um “latinófilo apaixonado”, disse ao Politico que o acordo Reino Unido-Mercosul (bloco comercial sul-americano incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) é uma escolha óbvia.

Bryant comentou: “Tive conversas muito positivas na Argentina e com o Brasil, mas ainda não tive conversas com o Uruguai e o Paraguai.”

Arável

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de agrotóxicos, que agora cobre apenas culturas como grãos.

Argumenta que frutas e vegetais – os alimentos que nós e nossos filhos mais comemos, e onde os resíduos químicos costumam ser mais altos – devem ser incluídos se o plano quiser realmente proteger as pessoas e o meio ambiente.

A organização também está pedindo apoio para ajudar os agricultores a fazer a transição para métodos mais seguros e para eliminar e banir os HHPs conhecidos por prejudicar a saúde humana.

Mole enfatiza que o sistema atual não pode realisticamente nos proteger da exposição.

Ele disse: “Agrotóxicos aparecem em milhões de combinações diferentes e concentrações variadas em nossos alimentos, então é simplesmente impossível projetar um sistema sofisticado o suficiente para nos proteger desses coquetéis químicos. A única solução é reduzir significativamente nosso uso geral de pesticidas.

“Este ano, o governo introduziu uma meta para reduzir agrotóxicos no setor arável. Mas esses dados mais recentes dos testes revelam que – pelo bem da nossa saúde – precisamos urgentemente expandir a meta para abranger também frutas e vegetais.”

Radical

Isso não é uma preocupação ambiental distante; É uma questão de saúde pública que estamos em nossas agendas.

A maioria das famílias não tem o luxo de encher suas cestas com alternativas orgânicas. Os pais não deveriam precisar analisar planilhas de substâncias químicas ao fazer as compras semanais.

E os agricultores frequentemente dizem que não têm realmente escolha – o sistema os pressiona a usar produtos químicos, ao mesmo tempo em que dificulta que ganhem a vida de forma justa e se mantenham competitivos.

A comida deve nutrir, não prejudicar nosso corpo. Querer comida que não venha acompanhada de produtos químicos não deve ser visto como radical, é uma expectativa básica de que o que alimentamos nossas famílias não as prejudicará, e que as pessoas que cultivam também não corram risco.


Fonte: The Ecologist

China barra 69 toneladas de soja brasileira por contaminação com agrotóxicos proibidos

China bans 69 tons of soybeans from Brazil, finds wheat contaminated with a  banned pesticide, and

O jornal Folha de São Paulo está noticiando que a China bloqueou a entrada de 69 mil toneladas de soja brasileira após encontrar trigo contaminado com agrotóxicos no porão do navio onde parte da carga estava sendo transportada.

Segundo reportagem da Folha, as exportações de duas fábricas da Cargill, bem como de outras controladas pela Louis Dreyfus, CHS Agronegocio e 3Tentos serão suspensas a partir de hoje em decorrência do incidente.

Segundo o relatório da agência sanitária chinesa teriam encontradas aproximadamente dez toneladas de trigo com agrotóxicos proibidos no mercado chinês dentro do navio que transportava a carga de soja.

A avaliação chinesa concluiu que o revestimento químico utilizado no grão é tóxico e destinado exclusivamente ao plantio, não ao consumo humano ou animal. Por isso, foi classificado como um risco sanitário inaceitável. Além disso, o trigo brasileiro não está habilitado para exportação à China, o que reforçou a violação das regras comerciais e sanitárias locais.

Em carta enviada à Embaixada do Brasil em Pequim, a qual a reportagem da Folha de São Paulo teve acesso, a GACC afirma que sua decisão tem “o objetivo de proteger a saúde dos consumidores chineses e garantir a segurança da soja importada” pelo país asiático.

A Folha informou ainda que a Administração Geral de Alfândegas da China comunicou às autoridades brasileiras que o ocorrido representa uma “violação grave” das normas chinesas de segurança alimentar.

Nessa situação uma curiosidade: o Brasil é o maior exportador de soja para a China, e o país asiático é o principal fornecedor de agrotóxicos para o mercado brasileiro, inclusive de muitas substâncias que são proibidas por lá em função de sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.

Desta forma, aqueles que ficam passando o pano e autorizando a comercialização dessas substâncias altamente perigosas deveriam se perguntar o porquê da China ter agido tão firmemente em um caso que reflete bem a postura de governantes que zelam pelos interesses de seus cidadãos, enquanto por aqui tudo é permitido em nome do sucesso da balança comercial.

Agrotóxicos escapam de estações de tratamento de água e chegam às casas, mostra estudo

pesticidas Costa Rica

[IGUALA DA INDEPENDÊNCIA, MÉXICO, SciDev.Net] A poluição da água por agrotóxicos é geralmente associada a áreas agrícolas, mas um estudo na Costa Rica sugere que as cidades latino-americanas enfrentam um desafio pouco discutido: suas águas residuais tratadas também podem estar carregando essas substâncias em níveis tóxicos.

Pesquisadores do Centro de Pesquisa sobre Contaminação Ambiental (CICA) da Universidade da Costa Rica e do Instituto de Aquedutos e Esgotos confirmaram a presença de 29 compostos que fazem parte de fórmulas utilizadas diariamente em residências, empresas e indústrias.

Esses contaminantes foram encontrados tanto nas entradas quanto nas saídas de água de quatro estações de tratamento no Vale Central, região que abriga a maior parte da população do país e onde está localizada a capital.

“As estações de tratamento são projetadas para águas residuais ‘comuns’, não para produtos químicos derivados de agrotóxicos.”

Rosalía Cruz, pesquisadora do Departamento de Recursos da Terra da Universidade Autônoma Metropolitana, México.

Os cinco ingredientes ativos mais preocupantes encontrados foram cipermetrina, diazinon, cinerina II, diuron e terbutrina. Em todas as detecções, esses agrotóxicos excederam os limites de segurança para a vida aquática, sugerindo um perigo contínuo nos corpos d’água que recebem os efluentes.

Além disso, a presença dessas substâncias tem implicações para a saúde humana , uma vez que pertencem a famílias químicas que têm sido associadas na literatura científica a danos ao sistema nervoso e alterações nos processos hormonais.

Outra descoberta relevante foi que cinco dos pesticidas detectados (cinerina II, flubendiamida, diclorano, bifenil e 1,4-dimetilnaftaleno) nunca haviam sido relatados anteriormente em águas residuais urbanas.

Víctor Castro Gutiérrez, um dos autores da pesquisa, explicou ao SciDev.Net que “o uso urbano da cinerina II corresponde a inseticidas naturais para jardins e pomares urbanos, bem como para o controle de mosquitos, moscas e baratas em nível doméstico. A flubendiamida também é usada como inseticida, e sua presença em águas residuais urbanas pode estar associada ao uso ornamental”.

Ele explicou que o diclorano é um fungicida usado para controlar o mofo em plantas de interior, enquanto o bifenil é usado como conservante em frutas cítricas. Por outro lado, o 1,4-dimetilnaftaleno é usado em desinfetantes em spray.

Para avaliar o impacto real desses resíduos, a equipe aplicou duas ferramentas complementares: um quociente de risco, que compara as concentrações encontradas com os níveis considerados seguros para a vida aquática, e experimentos de toxicidade em três organismos sentinela: a pulga-d’água Daphnia magna , a bactéria luminescente Aliivibrio fischeri e as sementes de alface Lactuca sativa .

A análise, publicada em 15 de novembro na versão impressa da revista Environmental Pollution , pesquisou 442 ingredientes ativos de agrotóxicos, uma metodologia nunca antes vista na América Latina.

Individualmente, 17 compostos apresentaram alto risco ambiental . No entanto, em nível de amostra, todos (tanto a água de entrada quanto a de saída) se enquadraram na mesma categoria devido ao efeito combinado da mistura de agrotóxicos.

“Este é o primeiro estudo a abordar este problema na região, com o objetivo de fornecer subsídios para futuras estratégias de mitigação do seu impacto”, comentou Castro Gutiérrez por e-mail.

Para Rosalía Cruz, pesquisadora do Departamento de Recursos Terrestres da Universidade Autônoma Metropolitana (México), que não participou do estudo, as conclusões transcendem a Costa Rica e confirmam que na América Latina existe uma limitação estrutural que não é devidamente abordada pelos órgãos governamentais.

Em entrevista à SciDev.Net, ele afirmou que “as estações de tratamento são projetadas para águas residuais ‘comuns’, não para produtos químicos derivados de agrotóxicos”, portanto não é surpreendente que os efluentes continuem a transportar esses tipos de contaminantes.

Jon Molinero — membro da ONG Yemanyá-Água e Conservação (Equador), que também não participou da pesquisa — concordou e alertou o SciDev.Net que “não existe uma única tecnologia capaz de eliminar misturas tão diversas; muitas substâncias passam sem se degradar”.

De acordo com a política nacional em vigor até 2045, menos de 15% da população da Costa Rica está conectada a estações de tratamento de esgoto. Em várias dessas instalações, Castro Gutiérrez e seus colegas notaram que a água que saía apresentava uma concentração maior de agrotóxicos, o que poderia ser devido à lixiviação desses produtos dos sólidos que chegam à estação ou à sua alteração durante o processo de tratamento.

Rosalía Cruz acredita que o desafio agora é ir além da análise. “O problema exige diálogo com aqueles que tomam as decisões sobre saneamento e planejamento urbano”, disse ela, observando que os sistemas de tratamento e a forma como as cidades são projetadas determinam o que acaba nos rios.

Para Jon Molinero, o desafio também é estrutural. A partir de seu trabalho no Equador, ele observa uma tendência que afeta a região: a rápida introdução de novas moléculas, decorrente da industrialização, em contraste com a lentidão com que elas são retiradas do mercado.

“A indústria está constantemente lançando novos compostos, e removê-los é muito difícil. Muitos são proibidos em países desenvolvidos, mas continuam sendo vendidos em nações com regulamentações mais brandas”, concluiu.


Fonte: SciDev

Por que 70% dos agrotóxicos largamente usados no Brasil foram banidos na União Europeia?

As autoridades de lá consideram alertas científicos da relação dessas substâncias com o câncer, malformações fetais, danos à reprodução, rins e fígado, autismo, Parkinson, Alzheimer, contaminação da água e muito mais

Tecnologia avançada para aplicar aqui venenos proibidos em outros países. Foto: ANAC

Cida de Oliveira* 

Atentas aos alertas da ciência sobre os riscos que os agrotóxicos representam para a saúde pública e o equilíbrio dos ecossistemas – e, claro, à pressão dos consumidores – autoridades da União Europeia já baniram 223 ingredientes ativos químicos desde 2001. Pesou na decisão a relação desses produtos com a alarmante lista do início desta reportagem, que vai bem além. Ou seja, foram proibidas as substâncias que foram utilizadas até que a efetividade e a segurança foram questionadas por estudos mais modernos e abrangentes. Portanto, deixaram de ser aceitáveis perante os novos conhecimentos científicos.

Já o Brasil, em sentido oposto, segue autorizando esses produtos por aqui. Tanto que esses 223 correspondem a 52% dos 429 ingredientes químicos permitidos no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São matérias primas usadas na formulação de uma infinidade de herbicidas, fungicidas, inseticidas, acaricidas e reguladores do crescimento das plantas, que compõem as milhares de toneladas vendidas todo ano no Brasil, o maior mercado consumidor desses venenos.

Para piorar, desses agentes banidos pelos europeus, 7 estão na lista dos 10 mais vendidos no Brasil em 2023, segundo dados do Ibama divulgados no início do ano. No final da reportagem, você poderá conferir um recorte a partir do parecer publicado nesta terça (28) aqui no Blog do Pedlowski. Trata-se de um documento produzido e divulgado de maneira voluntária pela professora juntamente com Leonardo Melgarejo, coordenador adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos, para respaldar organizações e setores do governo e legislativo na discussão de possibilidades relacionadas ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara).

 “São moléculas banidas há muito tempo porque são velhas, mais tóxicas. E aqui se usa já há muitos anos, desde 1985. Isso impede a entrada de outras mais novas, menos tóxicas e melhor testadas”, disse ao Blog a engenheira química Sonia Corina Hess, professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coautora de um parecer técnico detalhando dados sobre esses produtos banidos na União Europeia. “Não é por falta de opção que a gente está usando essas moléculas velhas. E sim porque são despejadas aqui devido ao preço mais baixo desse lixo em relação a moléculas novas. É por isso que entre os mais vendidos estão 7 banidos. A gente vai cumprindo assim esse papel de lixeira mesmo”.

De acordo com ela, que se dedica arduamente ao estudo desse caldeirão de venenos, a situação é bem complexa. Entre suas causas principais está o poder das transnacionais fabricantes, com seu lobby sobre os poderes da República. “A indústria química foca muito no Brasil porque é o maior mercado de agrotóxicos do mundo. Vale muito dinheiro. Há forte pressão até para impedir o banimento. Por isso a gente está com esse cenário tão trágico para o povo brasileiro, que praticamente não tem defesa diante desse poder das indústrias multinacionais”.

Regulação frágil

Esse lobby onipresente, aliás, explica em parte a fragilidade da regulação brasileira quando comparada à do bloco europeu. Lá o conjunto de países observa vários pontos no processo de análise de pedido de registro e de sua validade. “Na União Europeia a reavaliação dos produtos é periódica. Trata-se de um trabalho extenso, que pode levar 6 anos ou até mais; um processo bem bacana, em que um país assume a liderança desses estudos. Depois é feito um parecer que é apresentado para os demais países. Entra então em consulta pública. Se aparece algum ponto que pode sinalizar para o banimento, eles convocam a indústria para justificativas. É bem sério”, disse.

“Já no Brasil a validade é eterna, não tem prazo. Uma vez aprovado, não há regras definindo datas para reavaliação. Por isso a gente tem moléculas que são vendidas no Brasil desde 1985. Para conseguir banir é um processo muito complicado; é no varejo e não no atacado, como na Europa. Como lá cada substância tem uma validade e se naquele prazo não se justificar a manutenção, eles vão banir. Existe uma organização, uma sistemática de reavaliação que não tem no Brasil”, disse. “Isso é que falta aqui. E cada vez que tem reavaliação de agrotóxicos no Brasil é aquele drama, um ‘Deus nos acuda’, com o lobby todo contrário pressionando. E ninguém leva em consideração a saúde pública, o gasto no SUS, a tragédia que é o adoecimento das pessoas. Uma tragédia brasileira diante desse poderio das multinacionais.”

Sonia Hess lembra ainda o processo de enfraquecimento da legislação do setor. “A lei dos agrotóxicos, em vez de mais rigorosa, ficou mais branda, dificultando o banimento. Mas os números da saúde pública estão aí. A incidência de câncer em pessoas mais jovens está aumentando. Autismo, desregulação endócrina. São muitas doenças que provêm de contaminação ambiental e os agrotóxicos têm papel muito decisivo nisso”, disse a especialista, que se vê particularmente preocupada com a qualidade da água de abastecimento. “Cada vez que a gente analisa a água encontra uma série de substâncias perigosas, inclusive agrotóxicos.”

Interesses em conflito

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, com extenso currículo envolvendo o tema, acrescenta outro fator agravante: o poder do agro no poder, inclusive sobre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por trás da liberação dos agrotóxicos. “O MAPA afirma que precisamos usar no Brasil venenos desnecessários na União Europeia por conta de nosso clima tropical. Oculta com isso um fato simples: aqueles produtos hoje proibidos na União Europeia já foram utilizados lá; eram necessários para a agricultura até que se comprovaram perigosos demais para a saúde humana e ambiental. Mas como a agricultura européia se mantém, sem eles? Utilizando outras formulações”, apontou.

“O fato é que estas outras formulações são mais caras, enquanto o lixo tóxico, que não pode ser comercializado lá é desviado para cá, a preços baixos. Lixo tem preço baixo”, disse, fazendo coro a Sonia Hess. Na sua análise, trata-se tambem de uma questão de contabilidade, onde os gastos com saúde são desprezados por aqueles só enxergam os resultados da lavoura, a cada safra, desprezando o horizonte de uso de seus próprios territórios. “Estão acabando com a microvida e a fertilidade dos solos, envenenando a água, multiplicando tragédias familiares e justificam isso com base em argumentações falaciosas”, completou.

Após uma década de espera pelos movimentos e organizações da sociedade civil, em junho deste ano o governo federal instituiu, por decreto, o Pronara. A política visa a redução gradual e contínua do uso de agrotóxicos, principalmente os altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos para a saúde. 

Mensagem de repúdio ao Pacote do Veneno projetado em edifício. Foto @projetemos

atribui ao mesmo MAPA, entre outras coisas, priorizar o registro de agrotóxicos de baixa toxicidade e de bioinsumos. Ou seja, uma incumbência que destoa dos horizontes do poderoso comando da pasta. Para Melgarejo, o nó dessa improvável convergência de interesses só pode ser desatado pela sociedade. E isso quando estiver plenamente consciente da situação.

“As pessoas que residem nas ‘zonas de sacrifício’ não estão cientes de que seus parentes estão sofrendo doenças incuráveis que poderiam ser evitadas, que gestações estão sendo perdidas, que se multiplicam casos de oncologia infantil e distúrbios nos sistemas endócrinos, nervoso e reprodutivo porque a água está sendo envenenada. E se soubessem que isso tudo poderia ser evitado com mudanças nas regras de financiamento, isenção de impostos e autorização de uso, aqui, de venenos que são PROIBIDOS em outros países, não reagiriam?”, pondera, lembrando que “zonas de sacrifício” são áreas nas quais os índices de mortalidade, afecções cancerígenas, gestações perdidas e casos de autismo e infertilidade superam as médias nacionais.

 Nessa perspectiva, Melgarejo defende que a sociedade seja informada sobre a gravidade da situação em que vive. “As pessoas estão sendo enganada a respeito dos agrotóxicos. E o Pacote do Veneno é um instrumento criminoso a serviço de interesses econômicos, cego aos direitos humanos fundamentais, antiético e contrário à civilidade”, disse. “Os números e fatos relatados no parecer demonstram isso. A sociedade precisa ser informada para avaliar aqueles seus representantes que vêm sendo escolhidos para ocupar espaços no poder legislativo. A maioria deles, como demostram as decisões envolvendo o pacote do veneno e as dificuldades para discussão de um modelo de desenvolvimento amistoso à natureza, zombam da saúde de seus eleitores”, diz.

Ele defende também que esta disseminação de informações sobre o tema dê o devido espaço para os avanços das práticas agroecologias, “um sistema de produção mais coerente com as necessidades de soberania alimentar e de enfrentamento ao aquecimento global, está sendo bloqueado pelo estímulo ao uso de lixo tóxico entre nós”. “Precisamos de proteção para as regiões onde a agroecologia se expande, que sejam estabelecidas áreas livres de agrotóxicos e os avanços possam ser multiplicados.

Mas não é só. Como tudo isso depende de políticas públicas, a importância de esclarecimento da sociedade ganha ainda mais relevância. “Até mesmo para o ganho de força na correlação que levou o agro ecocida a dominar o estado”, diz Melgarejo. “Eles estão no legislativo e ocupam postos chave no executivo, em todos os governos. Ocuparam o estado, que precisa se aproximar mais das necessidades da população e se afastar dos mecanismos que nos subordinam a interesses ofensivos à saúde humana e ambiental.”

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Cida Oliveira é jornalista e colaboradora regularmente com o Blog do Pedlowski.

‘Eu estava contaminado’: estudo revela o quão difícil é evitar a exposição a agrotóxicos

Pulseiras de silicone usadas por voluntários na Holanda capturaram 173 substâncias em uma semana

O estudo descobriu que os agrotóxicosda pulverização de plantações podem acabar longe das áreas agrícolas. Fotografia: Dewald Kirsten/Shutterstock

Por Ajit Niranjan, correspondente ambiental da Europa, para o “The Guardian” 

Durante décadas, Khoji Wesselius notou o cheiro oleoso de agrotóxicos durante os períodos de pulverização, quando o vento soprava em sua pequena vila agrícola em um canto rural da Holanda.

Agora, depois de se voluntariar em um experimento para contar a quantas dessas substâncias as pessoas são submetidas, Wesselius e sua esposa estão um passo mais perto de entender as consequências de viver em campos de batata-semente, beterraba, trigo, centeio e cebola pulverizados com produtos químicos.

“Ficamos chocados”, disse Wesselius, um funcionário aposentado do governo provincial, que foi exposto a oito agrotóxicos diferentes através da pele, com ainda mais produtos químicos encontrados em exames de sangue, urina e fezes. “Fui contaminado por 11 tipos de agrotóxicos. Minha esposa, que é mais rigorosa com sua alimentação orgânica, tomou sete tipos de agrotóxicos.”

Os órgãos reguladores monitoram de perto a ingestão alimentar de pesticidas para decidir se eles são seguros o suficiente para o mercado, mas pouca atenção tem sido dada aos efeitos da inalação ou absorção pela pele. De acordo com um novo estudo , mesmo pessoas que vivem longe de fazendas estão expostas a diversos tipos de pesticidas de fontes não alimentares – incluindo substâncias proibidas.

“O mais surpreendente é que não podemos evitar a exposição a agrotóxicos: eles estão em nosso ambiente direto e nosso estudo indica contato direto”, disse Paul Scheepers, epidemiologista molecular da Universidade Radboud e coautor do estudo. “A verdadeira questão é quanto é absorvido [pelo corpo], e isso não é tão fácil de responder.”

Os pesquisadores fizeram com que 641 participantes em 10 países europeus usassem pulseiras de silicone continuamente por uma semana para registrar a exposição externa a 193 agrotóxicos. Em testes de laboratório, eles detectaram 173 das substâncias testadas, com agrotóxicos encontrados em todas as pulseiras e uma média de 20 substâncias para cada participante.

Agricultores não orgânicos apresentaram o maior número de agrotóxicos em suas pulseiras, com uma mediana de 36, seguidos por agricultores orgânicos e pessoas que moram perto de fazendas, como Wesselius e sua esposa. Consumidores que moram longe de fazendas apresentaram o menor número, com uma mediana de 17 agrotóxicos.

“Eu me perguntei se valia a pena saber de tudo isso”, disse Wesselius, que conta que alguns prestadores de serviços para os agricultores perto de sua aldeia parecem não levar em consideração a direção do vento ao aplicar agrotóxicoscomo glifosato e neonicotinoides. “Isso fica na minha cabeça. Toda vez que vejo um trator [com um sistema de pulverização], tenho uma sensação estranha de que estou sendo envenenado.”

Os agrotóxicos ajudaram o mundo a produzir mais alimentos em menos espaço – poluindo as regiões onde são pulverizados e reduzindo a área de terra que precisa ser explorada para produção de alimentos –, mas têm preocupado médicos que apontam para um crescente conjunto de evidências que os associam a doenças. A UE descartou uma meta proposta no ano passado para reduzir pela metade o uso e o risco de pesticidas até 2030, após pressão de lobbies agrícolas e de alguns Estados-membros, que argumentaram que os cortes eram muito profundos.

Bartosz Wielgomas, chefe do departamento de toxicologia da Universidade Médica de Gdansk, que não participou do estudo, disse que os resultados foram de “grande valor”, mas podem até subestimar a exposição a agrotóxicos. As pulseiras de silicone não absorvem todas as substâncias na mesma proporção, disse ele, e os pesquisadores testaram menos da metade dos agrotóxicos aprovados na UE.

“As conclusões deste estudo são altamente significativas: os agrotóxicos são onipresentes, não apenas em áreas agrícolas, mas também em ambientes distantes dos campos de cultivo”, disse ele.

Os pesquisadores descobriram que os participantes do estudo também foram expostos a agrotóxicos que foram retirados do mercado, com produtos de decomposição do DDT (diclorodifeniltricloroetano), proibido há décadas por questões de saúde, comumente encontrados nas pulseiras. Eles também detectaram alguns inseticidas proibidos, como dieldrin e propoxur.

Embora a presença de agrotóxicos nas pulseiras não indique efeitos diretos à saúde, os autores expressaram preocupação com a quantidade de diferentes tipos. Pesquisadores sugeriram que algumas misturas de diferentes produtos químicos amplificam seus efeitos no corpo humano além do que estudos de exposição isolada constataram.

Wesselius, cujos resultados o motivaram a consumir mais alimentos orgânicos, disse: “Não é algo agradável de se saber. Mas é ainda pior continuar com essa prática.”


Fonte: The Guardian