A retomada que não funcionou: um alerta nos números da segunda onda de COVID-19

Análise estatística de pesquisadores da Rede ModInterv sustenta que reaceleração da curva de mortalidade é mais intensa onde ela havia sido “achatada”, traduzindo em números o choque vivenciado em países como a Alemanha. O Brasil também enfrenta segunda onda, mas em situação diferente: “não teve como piorar”

UFPR 1Com o início da “segunda onda” de COVID-19, verificada nos gráficos ModInterv no fim de outubro, a Alemanha adotou lockdown em novembro, que persiste até hoje. Foto: Mega Merkel/Flickr, 2020

Por Camille Bropp

O relaxamento de medidas sanitárias nos países que haviam alcançado o “achatamento da curva” da mortalidade por COVID-19 conduziu a uma segunda onda da doença ainda mais grave, sugerem pesquisadores da Rede Cooperativa de Pesquisa em Modelagem da Epidemia de COVID-19 e Intervenções não Farmacológicas (Modinterv). O estudo “Standard and anomalous second waves in the COVID-19 pandemic, publicado na plataforma de pré-prints medRxiv e submetido ao periódico Scientific Reports, considerou o cenário de dez países, incluindo o Brasil, em seis continentes. A constatação é de que metade dos países analisados haviam controlado a doença, mas registraram até 13 vezes mais mortes na segunda onda na comparação com a primeira.

Com base em parâmetros do modelo matemático, o estudo apresenta um índice que foi descrito pelos pesquisadores de “número de mortes que poderiam ter sido poupadas se o país tivesse conseguido evitar uma segunda onda de covid-19”. A situação foi verificada em Marrocos, Austrália, Áustria, Alemanha e Sérvia. Todos são países que tinham alcançado o platô da curva de mortalidade por COVID-19 — que, no gráfico que considera número de mortes acumuladas e dias desde a primeira morte, significa ausência de mortes —, e viram a retomada da curva chegar a níveis ainda mais altos na segunda onda. Nesse cenário, os casos mais graves dentre os países considerados no estudo são os do Marrocos (12,7 vezes mais mortes), do Irã (8,7 vezes) e da Alemanha (8,4).

O estudo dá números à sensação de “péssima escolha” que governos de países com medidas de contenção bem-sucedidas vivenciaram na sequência das tentativas de retomada do cotidiano ainda sem a existência de uma vacina contra a doença.

“A mensagem do trabalho é que não devemos baixar a guarda pelo fato de a epidemia ter sido ‘controlada’ pela adoção de medidas de controle em um primeiro momento. Quem se ‘arriscou’ e descuidou demais, pagou um preço alto”, avalia Giovani Vasconcelos, professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador da rede ModInterv. Também fazem parte da rede pesquisadores das universidades federais de Pernambuco (UFPE) e Sergipe (UFS).

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Os outros países que tiveram retrocessos com essa dinâmica foram Austrália, Japão, Itália e Sérvia. Segundo um dos conceitos inaugurados pelo estudo, esses países apresentaram uma “segunda onda padrão” da doença, em que a retomada da curva de mortalidade é visível porque houve em algum momento um achatamento dela. Ou seja, a sensação de regressão no combate à doença foi perceptível, ganhando muitas vezes repercussão mundial, porque as populações já haviam experimentado uma época de controle.

Outro caso não mencionado no estudo, mas também considerado pelos pesquisadores como de “segunda onda padrão”, é o da Suíça. “No ajuste da curva de óbitos desse país se vê claramente que a segunda onda é enorme, com cerca de cinco vezes a amplitude da primeira, quando medida em termos dos platôs da curva acumulada”, avalia Vasconcelos.

O risco de “segunda onda” já havia sido registrado em outro estudo da rede, “Power law behaviour in the saturation regime of fatality curves of the COVID-19 pandemic, publicado no final de julho no medRxiv e nesta quinta-feira (25), revisado por pares, no Scientific Reports. Nele, os cientistas aplicam o modelo matemático para medir o comportamento das curvas de mortalidade e concluíram que o achatamento dessa curva precisa ser alcançado rapidamente — por meio de medidas rígidas e por tempo prolongado — não só para evitar mortes, mas para impedir que a doença ressurja. Já nesse estudo, os cientistas notaram a “reaceleração das curvas de fatalidade” em alguns países.

Países como o Brasil, com cenário de mortes constantes, tiveram “segunda onda anômala”

No artigo mais recente, em contraponto à “segunda onda padrão”, os pesquisadores construíram o conceito de “segunda onda anômala” para definir a condição de países que experimentaram uma nova onda da doença sem nunca terem contido as mortes. Nesse quadro estão Brasil, Irã e Estados Unidos.

Segundo Vasconcelos, os conceitos foram inaugurados para distinguir os dois tipos de ondas. “Na Física, existem processos que dão origem a ‘ondas anômalas’. Embora os processos sejam bem diferentes, fizemos uma analogia com esses fenômenos físicos para introduzir o conceito de ‘segunda onda anômala’ no contexto de epidemias”, explica.

No caso dos países com “segunda onda anômala”, a constância do alto número de mortes diárias causadas pela covid-19 já na primeira onda fez com que essa se estendesse por longo período e já fosse significativa em número de mortes, portanto difícil de ser superada. Ainda assim, a curva de mortalidade mostra uma acentuação no número de mortes em algum momento da pandemia.

“A segunda onda começou a partir de um patamar alto de óbitos diários e, portanto, bem antes de a primeira onda ter sido ‘achatada’, por isso dizemos que foi um efeito ‘anômalo’. A segunda onda existe, mas o pico dela mostrou-se menor que o primeiro. É possível que, nesses casos, o ‘sofrimento’ mais prolongado tenha deixado a situação tão ruim que não teve muito como piorar”, avalia o professor Antônio Macêdo do Departamento de Física da UFPE, um dos autores do trabalho.

Ainda assim, o estudo sustenta que esses países tiveram uma segunda onda. No Brasil, ela se apresenta graficamente no dia 26 de outubro. É possível notá-la porque o país, mesmo em meio a uma situação preocupante, apresentou leve queda no número de mortes a partir de um pico, em junho, mas em outubro essa tendência se inverteu e o número diário de mortes voltou a crescer, iniciando assim a segunda onda. Até o último dia, 24 de fevereiro, o país registrava mais de 248,5 mil mortes por covid-19, das quais 62% ocorridas até 19 de outubro.

A situação é oposta à de países que experimentaram a “segunda onda padrão”. Pelas medições da ModInterv, a segunda onda alemã, por exemplo, começou em 17 de outubro, após um verão marcado por reabertura de bares e de festas. O país adotou o lockdown (protocolo de isolamento) em novembro, o que não havia feito antes — o sucesso da contenção se baseava na testagem em massa e no monitoramento de infectados pelo vírus Sars-Cov-2. Depois de um Natal com restrições às reuniões familiares, o governo alemão prorrogou o protocolo três vezes, sendo a última delas para 7 de março. Até o último dia 24, o país registrava quase 68,8 mil mortes por covid-19 e apenas 14% delas ocorreram antes de meados de outubro.

Gráficos matemáticos detectaram países em “terceira onda” de covid-19

Por meio da abordagem dos estudos da ModInterv, que usam modelos matemáticos, já se verificam países em “terceira onda” de COVID-19. No universo dessas projeções, cada onda equivale a uma re-aceleração da curva de mortalidade por motivos variados, desde que não sejam atribuídos à flutuação estatística — isto é, se apresentam como tendências, não casuísticas.

ufpr 3Entre os países do estudo que haviam “achatado” a curva de mortalidade de COVID-19, o Marrocos tem o caso mais preocupante: foram 12,7 vezes mais mortes na segunda onda em relação à primeira. Na foto, a cidade de Rabat. Foto: Lisa Ferdinando/DoD/Fotos Públicas

“Matematicamente falando, podemos definir uma ‘onda epidêmica ‘ como um regime de forte aceleração no crescimento dos números de casos e óbitos, que se mantém por um período prolongado, digamos semanas. Ou seja, houve de fato uma mudança na dinâmica da epidemia e nos respectivos parâmetros epidemiológicos. Essa re-aceleração é um sinal claro do início de uma onda epidêmica”, argumenta Vasconcelos.

Uma reaceleração culmina em um pico e pode ser seguida de uma desaceleração, em uma dinâmica com possibilidade de se repetir em diversos momentos. De acordo com o modelo da ModInterv, vários países já exibem uma terceira onda, entre eles Sérvia, Estados Unidos e Japão. “É possível ainda que alguns venham a exibir ainda uma quarta onda, até que a epidemia seja controlada pela vacina”, avalia o coordenador da rede.

Projeções da Modinterv estão disponíveis em aplicativo para celular

O sistema ModInterv se baseia em um modelo matemático descrito em um artigo científico publicado em junho na revista PeerJ, focada em ciências da vida e ambientais. A inovação do modelo é a capacidade de adaptação da sua fórmula, que permite fazer projeções em diferentes cenários e localidades, desde que a hipótese de um tratamento farmacológico específico para a doença esteja fora da equação. A nova versão do aplicativo já incorpora o modelo com segunda onda e permite identificar se a mesma está presente em uma dada localidade.

O ModInterv pode ser acessado por meio de aplicativo para navegadores de internet e celulares, batizado com o nome da rede. Tanto na ferramenta on-line como na versão para celular, o aplicativo permite escolher curva (contágio ou óbitos) e localidade (cidade, estado ou país). Há ainda a opção de gerar imagens dos gráficos para download.

O aplicativo foi desenvolvido pelo doutorando Arthur Brum, do programa de Física da UFPE, e pelo professor Gerson Duarte, do Departamento de Física da UFS, sob coordenação de Vasconcelos e participação dos demais pesquisadores da Rede ModInterv. Está disponível para uso pela internet e para download na Google Play Store (baixe neste link).

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Este texto foi originalmente publicado pela Universidade Federal do Paraná [Aqui!].

Um debate urgente: o papel dos frigoríficos na persistência da COVID-19 no Brasil

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Postei hoje mais uma notícia vinda da China sobre a descoberta de carregamentos de carne bovina vinda do Brasil contaminados pelo Sars-Cov-2, o vetor causador da pandemia da COVID-19.  Ao mesmo tempo, se olharmos para informações acerca do comportamento econômico dos maiores frigoríficos brasileiros vamos ver que, ao contrário da maioria dos setores de economia, eles estão surfando na onda da pandemia. O caso do segundo frigorífico brasileiro, o  Marfrig, é uma confirmação direta disso, na medida em que o grupo acaba de divulgar lucros milionários, com vendas turbinadas para os mercados globais.  Os ganhos do Marfrig em um ano de pandemia mortal são estonteantes, representando um ganho 6 vezes maior para o terceiro trimestre de 2020 em relação ao ano anterior.

Pois bem, uma mente minimamente inquieta poderia se perguntar sobre como andam os níveis de contaminação dos trabalhadores de setor da carne animal em meio a esta pandemia letal. Aí eu indico que os interessados façam uma busca no Google usando as seguintes palavras “pandemia, coronavírus, contaminação e frigoríficos”.   Para quem não estiver interessado em Googlar, mas quer saber o que anda saindo na imprensa empresarial e na alternativa sobre o assunto, eu posso resumir dizendo que o grau de contaminação por coronavírus continua forte nos frigoríficos, que vem optando por não reforçar as medidas de segurança dos seus empregados. Um exemplo de matéria que fala sobre o assunto foi publicada pelo jornal El País com a manchete que diz “Como frigoríficos propagaram o coronavírus em pequenas cidades do país“.  Um aspecto particularmente importante que a jornalista Rute Pina mostra nessa matéria de jornalismo investigativo é o papel que os frigoríficos tiveram no processo de interiorização da pandemia da COVID-19. 

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Um dos aspectos chaves do papel ocupado pelos frigoríficos na difusão acelerada do coronavírus é o fato quem em suas plantas normalmente estão empregados habitantes de diferentes municípios localizados nas regiões de entorno das plantas de abate de animais. Ao serem infectados no ambiente de trabalho, os trabalhadores voltam para as suas cidades onde jogam o papel involuntário de propagadores do coronavírus. Isso ocorre porque a maioria dos frigoríficos não faz o nível de testagem que seria necessário e, tampouco, disponibiliza os equipamentos de proteção individual que permitiriam aos trabalhadores realizarem suas tarefas com uma condição mínima de segurança. Em outras palavras, os lucros fabulosos do Grupo Marfrig acontecem às custas da saúde de seus trabalhadores e das áreas onde eles vivem. 

Desta forma, os frigoríficos funcionam como “super spreaders” de coronavírus ao facilitar a contaminação de seus empregados que se tornam dispersores de uma doença mortal. 

Mas para conseguirem fazer o que estão fazendo, os frigoríficos estão contando com ajuda célere do governo Bolsonaro, principalmente por meio da inação dos ministérios da Saúde e da Agricultura. Esses dois ministérios deveriam estar fiscalizando de forma próxima o que está acontecendo dentro das plantas industriais. Mas em vez de garantir a sanidade do ambiente de trabalho, o que se vê é uma forma objetiva de “licença para contaminar”.  Em julho, apesar das informações em contrário, representantes do Ministério da Agricultura rejeitaram a pressão vinda da China por testagem da produção de carne animal sob o pretexto de “não existir embasamento científico para o risco de contaminação  nesse tipo de ambiente.

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Por outro lado, há que se notar o papel majoritariamente “passa pano” da mídia corporativa que aborda de forma frouxa o papel dos grandes conglomerados de carne animal na persistência da pandemia no Brasil. A cobertura que ainda ocorre é cada vez mais exígua dando a entender que o problema da contaminação dos trabalhadores nas plantas de abate de animais em todos os cantos do território brasileiro. 

Um aspecto que me parece curioso com a detecção continuada do coronavírus nas cargas exportadas nos países receptores é que não se tem notícia que algo similar esteja sendo feito nos estados que importam a carne produzida principalmente na Amazônia e na região sul do Brasil. Aí o consumidor que vai aos grandes estabelecimentos varejistas é até obrigado a usar máscaras quando está comprando, mas sem qualquer garantia de que não está adquirindo produtos que contenham o coronavírus.  O fato é que está mais do que provado que se a testagem for ampliada, o mais provável é que encontremos mais evidências da presença do Sars-Cov-2 no que estamos trazendo para dentro de casa, sem sequer levarmos em conta a possibilidade de que o produto esteja contaminado.

A verdade é que com a chegada da segunda onda da pandemia da COVID-19, vamos ter que ampliar todos os cuidados para não estarmos nos contaminando de forma inadvertida.  Isso quase certamente passará por cobrar mais controle sobre a gravidade com que a pandemia está ocorrendo dentro das plantas de produção de carne animal.

Brasil envenenado: relatório da Anvisa revela alimentos campeões de contaminação por agrotóxicos

Laranja, pimentão e goiaba: alimentos campeões de agrotóxicos acima do limite

Saiba quais são os alimentos com mais agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido e aqueles que oferecem risco imediato à saúde do consumidor. Cálculo de intoxicação da Anvisa ignora crianças com menos de 10 anos

agrotox 1A cada 14 laranjas, uma tinha agrotóxico suficiente para causar uma intoxicação aguda (Foto: Aturkus/Flickr)

Por Por Pedro Grigori e Bruno Fonseca para o ” Por trás do Alimento”

A Anvisa usou tom otimista na publicação do relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos com resultados de testes feitos em frutas e legumes entre 2017 e 2018 . Mas o documento não colocou de forma clara informações de alto interesse público que foram destaque na divulgação de relatórios anteriores. Por exemplo, quais são os alimentos em que mais foram detectados agrotóxicos em doses problemáticas? A Agência Pública e a Repórter Brasil analisaram os dados brutos do relatório em busca dessa e de outras respostas. 

A agência divulgou que, no geral, 23% dos alimentos testados tinham agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido. Mas esse quadro é ainda mais preocupante quando se olha alguns alimentos específicos.

Como ocorreu em anos anteriores, o pimentão foi o campeão de problemas. Em cada 10, oito tinham agrotóxicos proibidos ou acima do permitido. A novidade nesta edição do relatório foi o segundo lugar para a goiaba, que teve 42% das amostras testadas com doses acima do recomendado ou agrotóxicos proibidos. Em seguida ficaram a cenoura com 39% de desconformidade,  e o tomate com 35%.

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Além desses alimentos, também fazem parte da análise amostras de abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, chuchu, laranja, manga e uva (confira os resultados sobre cada um deles na arte acima). As coletas foram realizadas entre agosto de 2017 e junho de 2018 pelas Vigilâncias Sanitárias Estaduais e Municipais em todos os estados — apenas o Paraná ficou de fora. 

É a Anvisa que determina qual agrotóxico pode ser usado e qual a quantidade máxima de resíduo que pode ficar em cada alimento, o chamado Limite Máximo de Resíduos (LMR). De acordo com a agência, a detecção de agrotóxico acima do LMR não significa necessariamente risco à saúde do consumidor. Nesses casos, segundo a Anvisa, é necessário fazer outra avaliação específica sobre os riscos. 

“Se foi detectado acima do limite é porque ocorreu um uso desnecessário, o agricultor usou mais agrotóxico do que precisava, seja por não seguir a bula, por não ter sido orientado ou porque a praga não estava morrendo”, explica a toxicologista e pesquisadora da Fiocruz Karen Friedrich. 

Laranja pode intoxicar consumidor

Nas avaliações específicas para identificar a quantidade de agrotóxico que pode gerar problemas à saúde de quem come o alimento, a Anvisa criou um novo método para avaliar o risco agudo (a curto prazo) e crônico (a longo prazo). Para isso, a agência usou dados sobre quanto os brasileiros consomem em média de cada alimento e o peso corpóreo dos consumidores a partir de 10 anos de idade. 

Ou seja, a Anvisa ignora o risco para crianças de zero a 10 anos, grupo cuja saúde é ainda mais suscetível à intoxicação porque tem peso inferior ao dos adultos. Questionada pela reportagem, a agência confirmou a informação e atribuiu a falha à limitação  da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, usada como base para a avaliação de risco.

A partir deste cálculo, a agência concluiu que não há casos de risco crônico nos alimentos analisados e apenas 41 frutas e legumes tem potencial de risco agudo. Desses, 27 eram laranjas. Ou seja, a cada 14 laranjas vendidas nos mercados, uma tinha agrotóxico suficiente para causar uma intoxicação imediata em quem consumiu – um cenário preocupante para um país onde a fruta é consumida com frequência. 

“O risco agudo inclui uma gama de sintomas como enjoo, dor de cabeça, alteração do ritmo cardíaco e respiratório, em alguns casos podendo levar a pessoa a ser hospitalizada”, explica Karen, da Fiocruz. 

Cinco laranjas analisadas apresentaram mais de cinco vezes o limite de segurança de exposição, todas para o agrotóxico carbofurano, um inseticida proibido no Brasil desde 2017 devido aos efeitos neurotóxico. Este produto pode afetar o desenvolvimento, incluindo efeitos nos fetos, funcionais e comportamentais.

cinco laranjasLaranjas apresentam riscos para intoxicação aguda no consumidor em decorrência da presença de agrotóxico

Especialistas alertam que o problema pode não estar apenas na laranja.  A pesquisadora da Fiocruz faz críticas ao método de avaliação para risco à saúde humana, apontando que uma das falhas é a análise isolada dos agrotóxicos. “Os resultados mostram que a mistura é frequente. Interações entre os agrotóxicos podem gerar efeitos aditivos e sinérgicos que necessariamente impactam o cálculo”, explica Karen. 

Outra crítica é em relação ao cálculo de quanto o brasileiro consome. Segundo o relatório, a abordagem da Anvisa “parte do princípio de que é improvável que um indivíduo consuma grande porção de dois ou mais alimentos diferentes, em um curto período, contendo resíduos do mesmo agrotóxico nas maiores concentrações detectadas”.

Para Karen, o relatório erra ao não considerar que “a pessoa come diferentes alimentos por dia, que podem conter resíduos de diversos agrotóxicos com efeitos danosos para a saúde”. 

21 agrotóxicos no mesmo alimento

agrotox 2Oito a cada dez pimentões vendidos em mercados e feiras tinham agrotóxico proibido ou acima do permitido (Foto: Droberson/Pixabay)

Segundo análise independente deste mesmo relatório conduzida pelo Grupo de Trabalho de Agrotóxicos da Fiocruz, em 34% das amostras foram identificadas misturas de agrotóxicos, variando de dois a 21 tipos diferentes de ingredientes ativos. Os produtos que apresentaram maior percentual de mistura de agrotóxicos foram o pimentão (95%), cenoura (73%) e tomate (68%).

Foram pesquisados até 270 agrotóxicos diferentes no total, 16% a mais do que na edição anterior do relatório. No geral, o agrotóxico mais encontrado foi o imidacloprido, que apareceu em 16% dos casos. O inseticida é o oitavo agrotóxico mais vendido no Brasil, com 10 mil toneladas comercializadas em 2018, segundo o Ibama. Ele é um neonicotinoide, derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Ou seja, descascar o alimento ou lavá-lo não é suficiente para retirar todos resíduos. Ele também é fatal para polinizadores como a abelha.

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Logo depois, aparecem os fungicidas tebuconazol e o carbendazim — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar mutação nos genes e problemas reprodutivos.

Mas o agrotóxico que mais preocupou a Anvisa no relatório é o acefato, quinto mais vendido no Brasil, com 24,6 mil toneladas por ano. Ele é o sétimo mais encontrado e é o que mais apareceu em alimentos para os quais não é permitido, em 314 casos.

O acefato foi destaque em levantamento publicado pela Agência Pública e a Repórter Brasil sobre casos de depressão e suicídio envolvendo agrotóxicos. Ele faz parte dos organofosforados, uma classe de agrotóxicos comprovadamente neurotóxicos que podem desenvolver alterações no sistema nervoso do seres humanos, causando, entre outros problemas, casos severos de depressão. 

O potencial neurotóxico é um dos motivos que fez a União Europeia banir o acefato. No Brasil, ele passou por reavaliação, e em 2013 a Anvisa decidiu mantê-lo no mercado, mas com restrições. Entre elas, a proibição nas culturas de tomate e pimentão e fumo, entre outros que não são alimentos. 

Mesmo proibido para essas culturas, o acefato foi identificado em 41% dos pimentões e 21% dos tomates. 

No relatório, a Anvisa destaca a situação deste agrotóxico como preocupante e diz que as ações de mitigação não foram suficientes para redução significativa das irregularidades, que podem ter impacto sobre a saúde do trabalhador. “Por isso, recomenda-se avaliar a efetividade das medidas já adotadas e verificar a necessidade de propor novas ações ou ampliar as restrições regulatórias”, diz. 

De acordo com a assessoria de imprensa da Anvisa, os resultados não indicaram situações de risco ao consumidor, mas sim ao trabalhador rural. A agência informou que colocará nova regulamentação sobre o acefato em consulta pública. 

A Anvisa ainda não tem previsão de quando vai divulgar a próxima avaliação sobre agrotóxicos na comida, com análises feitas entre 2018 e 2019. De acordo com a Anvisa, “após a publicação da última edição, as Vigilâncias Sanitárias dos Estados e Municípios notificaram os pontos varejistas sobre os resultados dos seus estabelecimentos para que eles possam tomar as medidas necessárias junto aos seus fornecedores”. 

As secretarias de Agricultura também foram informadas, para que possam orientar os profissionais envolvidos no processo produtivo do setor primário. Confira a íntegra da resposta da Anvisa

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Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. Clique para ler a cobertura completa no site do projeto   [Aqui!] e [Aqui!].

Monsanto foi condenada definitivamente em caso de envenenamento de um agricultor francês

Esta decisão abre caminho para um epílogo na maratona legal que começou em 2007 e durante a qual Paul François, produtor de cereais do departamento de Charente, teve três triunfos nos tribunais, a última vez em abril de 2019 em Lyon.

monsantoO herbicida Lasso da Monsanto foi proibido na França desde novembro de 2007, mas foi proibido no Canadá em 1985, depois na Bélgica e no Reino Unido em 1992. JOHN THYS / AFP

Pelo Le Monde em colaboração com a AFP

O Tribunal de Cassação rejeitou, quarta-feira, 21 de outubro, o recurso interposto pela Monsanto, subsidiária do grupo alemão Bayer, o que finaliza a sua condenação no processo movido pelo agricultor Paul François, que foi envenenado após inalar vapores do herbicida Lasso. Esta decisão abre caminho para um epílogo nesta maratona judicial que começou em 2007 e durante a qual Paul François, agricultor de grãos do departamento de Charente (localizado no sudoeste da França), ganhou seu caso três vezes nos tribunais, a última vez em abril de 2019 em Lyon.

Paul François foi envenenado em abril de 2004 após inalar vapores do produto comercializado pela Monsanto. Depois de várias doenças, ficou muito tempo hospitalizado e continuou sob o risco de morte. Ele afirma sofrer de graves distúrbios neurológicos.  O seu problema não foi reconhecido como uma doença ocupacional, e então ele embarcou em uma luta judicial para que a responsabilidade da Monsanto pela sua intoxicação fosse reconhecida pela justiça, onde pediu mais de um milhão de euros de indenização.

A justiça decidiu a seu favor em primeira instância em 2012 , depois em recurso em 2015 , mas a Monsanto recorreu pela primeira vez à cassação e o caso foi encaminhado para o Tribunal de Recurso de Lyon.

Herbicida Lasso está proibido na França desde 2007

Em abril de 2019, a Monsanto foi novamente considerada responsável pelos danos causados ​​a Paul François, desta vez com base na “responsabilidade por produtos defeituosos”. A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, entrou com um segundo recurso no mais alto tribunal francês.

A Justiça francesa concluiu que a Monsanto deveria ter apontado o perigo específico do uso do Lasso em caso de trabalho em tanques, mas não se pronunciou sobre a própria toxicidade do Lasso.

O herbicida está proibido na França desde novembro de 2007, mas já tinha sido proibido no Canadá em 1985, e depois na Bélgica e no Reino Unido em 1992. Após o indeferimento do recurso, o caso chega à sua conclusão: em um procedimento separado , os tribunais devem agora decidir sobre o valor dos danos reclamados pelo agricultor.

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Intacta 2, a soja sob medida para suprir a China e para garantir os lucros fabulosos da Bayer

bayer intacta 2A multinacional alemã Bayer anuncia a aprovação pela China da soja Intacta 2 que é geneticamente modificada para tolerar os herbicidas Glifosato e Dicamba

A multinacional alemã Bayer (aquela vende desde veneno até remédio) acaba de anunciar que o “Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA) concedeu certificado de segurança para importação de soja Intacta 2 para uso em alimentos/ração”.  A Bayer acrescentou ainda que “a Intacta 2 passou por um longo processo de revisão e aprovação conduzido pelo governo Chinês e obter essa aprovação é muito importante para o lançamento da Plataforma Intacta 2 Xtend® no Brasil, previsto para a safra 2021/22″.

Pois bem, o que o anúncio da Bayer não trouxe foi a informação que a semente da soja Intacta 2 é tolerante aos herbicidas Glifosato e Dicamba, que obviamente a empresa produz em larga escala, e que estão passando por um processo de ampla restrição em outros países por seus efeitos danosos à saúde humana e ao meio ambiente.  Há que se lembrar que o Glifosato tem sido associado ao aparecimento do Linfoma Non-Hogdkin, enquanto que o Dicamba teve sua venda suspensa nos EUA por causa dos danos causados em outras culturas que estejam próximas dos cultivos de soja.

Com esse anúncio da Bayer também fica mais claro porque apenas em 2020, o Ministério da Agricultura comandado pela “Musa do Veneno”, Tereza Cristina (DEM/MS), aprovou quatro novos produtos contendo o Dicamba para serem vendidos no mercado brasileiro, sendo três deles fabricados primariamente por empresas sediadas na China. O interessante é que tudo isso acaba mostrando que a enxurrada de aprovação de agrotóxicos altamente perigosos que está sendo promovida pelo governo Bolsonaro visa garantir os lucros fabulosos de multinacionais como a Bayer do que uma suposta preocupação com a redução no nível de toxicidade e do custo dos agrotóxicos vendidos no Brasil.

Trocando em miúdos, com essa aprovação da Intacta 2, a China ganha dos dois lados: por um lado garante o suprimento de soja barata produzida no Brasil e, por outro lado, continua como a principal fonte de agrotóxicos altamente perigosos para abastecer o latifúndio agro-exportador brasileiro.  Já Bayer garante a manutenção de suas altíssimas taxas de lucro combinando a venda de uma semenda geneticamente modificada da qual detém os direitos de propriedade com o despejo no Brasil de agrotóxicos cuja venda está sendo restringida em outros países.

Enquanto isso no Brasil, o que teremos é o avanço do processo de envenenamento ambiental e da população brasileiro, bem como a expansão da franja de desmatamento em todos os nossos biomas florestais, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isto sem falar de produtores agrícolas que tenham o azar de cultivar outros tipos de semente de soja que sejam sensíveis ao Dicamba.

A síntese desse processo em que o Brasil internaliza todos os ônus sociais e ambientais já se tornou conhecida pela máxima de “passar a boiada”.

Primeiro resultado indica que Jair Bolsonaro estaria contaminado pelo Coronavírus

bolso corona 1O presidente Jair Bolsonaro teria testado positivo para coronavírus, e aguarda apenas o resultado da contra-prova para ter sua contaminação confirmada ou não.

Algo que já se especulava desde que o secretário de Comunicação Social da presidência da república, Fábio Wajngarten, apareceu infectado pelo coronavírus parece agora estar se confirmando. Falo aqui do resultado do exame feito no presidente Jair Bolsonaro que teria dado um resultado positivo para infecção pelo coronavírus (ver imagem abaixo).

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Se confirmada a infecção do presidente da república pelo coronavírus, as repercussões políticas, econômicas e ideológicas serão imensas. É que até onde se tem notícia, Jair Bolsonaro seria o primeiro chefe de executivo a ser declarado com a enfermidade em todo o planeta, o que, convenhamos, é uma honraria macabra.  

As consequências da confirmação da infecção por Jair Bolsonaro poderão trazer resultados devastadores sobre seu governo, na medida em que ficarão evidente os limites de uma variante ideológica que desdenha do conhecimento científico acumulado ao longo de quase 400 anos em prol de uma negação em regra da ciência, a começar pela questão das mudanças climáticas.

O interessante é ler a matéria escrita pelo jornalista Leandro Mazzini que aponta a mansão do presidente Donald Trump na Flórida como possível ponto de origem da contaminação não apenas de Fábio Wajngarten e  Jair Bolsonaro, mas de boa parte da delegação brasileira que acompanhava o presidente da república em seu tour pelos EUA.   Se isso for confirmado, é bem provável que também Donald Trump esteja contaminado pelo coronavírus, o que terá também efeitos devastadores para a sua campanha de reeleição.

Enfim, aguardemos o resultado da contra-prova para verificar se Jair Bolsonaro está mesmo com coronavírus, visto as repercussões que isso inevitavelmente trará para seu governo. A ver!

Sulfoxaflor,fipronil, acefato e malationa são as “estrelas” do último pacote letal do governo Bolsonaro

agrotóxicos 1Com 290 agrotóxicos aprovados apenas em 7 meses, governo Bolsonaro se torna o mais pró-veneno da história.

Por estar atarefado demorei um pouco mais para introduzir na base de dados que comecei a construir em janeiro para documentar o avanço da liberação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, mas hoje finalmente consegui concluir a tarefa de juntar os 51 agrotóxicos liberados no dia 18 de junho e publicados no Diário Oficial da União apenas no dia 22 de julho de 2019.

E os dados mostram que as abelhas que polinizam os campos brasileiros estão agora sob um risco ainda maior, pois apenas do composto Sulfoxaflor foram aprovados 6 produtos, todos produzidas pela multinacional estadunidense Dow Chemical Company. Mas se ainda sobrar abelhas depois do envenenamento por Sulfoxaflor, as sobreviventes ainda terão de se defrontar com um produto que contém outro inimigo poderoso, o Fipronil, esse fabricado pela brasileira Iharabras S.A. Indústrias Químicas.

abelhas-mortas2Uso de agrotóxicos como o Sulfoxaflor e o Fipronil estão sendo associados ao extermínio de quase 1 bilhão de abelhas no Brasil apenas em 2019.

Mas para os humanos também sobraram produtos como o Acefato que é banido pela União Europeia por suas conhecidas relações com a infertilidade, danos genéticos e, é claro, o câncer.  De quebra, ainda foram aprovadas formulações contendo a Ametrina e a Atrazina, produtos ativos também banidos pela União Europeia, e que também têm sido associados a enfermidades graves em seres humanos.

Outro produto aprovado que embora ainda seja vendido legalmente na União Europeia foi a Malationa, um inseticida e acaracida organofosforado, que é conhecida por causar danos irreversíveis na vida aquática. 

A nova lista de aprovações traz 14 produtos que são totalmente ou parcialmente compostas por princípios ativos banidos pela União Europeia, elevando o total dentro das 290 substâncias liberadas pelo governo Bolsonaro com essa “peculiaridade” para 95 (o equivalente 33% do total). Tal fato quando conhecido pelos importadores europeus tenderá a aumentar a pressão sobre as commodities agrícolas brasileiras, dado o exemplo já conhecido da rede sueca Paradiset que baniu todos os produtos não orgânicos brasileiros quando o total de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro era ainda menor. 

De toda forma, essa marcha do veneno que não perdoa nem abelhas ou humanos é um sinal de completo atraso de mentalidade dos ruralistas que hoje efetivamente controlam o Ministério da Agricultura sob o comando da “princesa do veneno” Tereza Cristina (DEM/ES). Reagir a essa tsunami de venenos agrícolas está se tornando cada vez mais um das questões centrais da democracia brasileira. Afinal, a maioria dos brasileiros e de nossos ecossistemas naturais não podem ser sacrificados em nome do aumento da taxa de lucros de uma minoria que está pouco se lixando para as consequências de um modelo agrícola totalmente ancorado no veneno e no desmatamento.

Quem tiver interesse em conhecer todos os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Vivemos ode à ignorância- Entrevista ao Programa Faixa Livre sobre a aprovação de mais 51 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro

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Ontem concedi uma entrevista ao Programa Faixa Livre onde pude oferecer minhas opiniões sobre a última rodada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, no que se constitui em uma verdadeira ode à ignorância e ao atraso em nome dos lucros já abusivos do latifúndio agro-exportador,

Como ainda não dispunha da informação de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu rebaixar ainda mais os critérios para avaliação e classificação de toxicidade dos agrotóxicos que podem ser vendidos no Brasil, considero que parte da minha entrevista oferece uma visão subestimada dos riscos que estão sendo criados pelo governo Bolsonaro na área da saúde humana e da contaminação de ecossistemas naturais.  Mas ainda assim que considero que a entrevista traz alertas importantes para o verdadeiro “Armagedon socioambiental” que o governo Bolsonaro está criando no Brasil com sua política “fast track” de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Quem deseja ouvir a íntegra desta entrevista, basta clicar abaixo:

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A praga dos agrotóxicos: concentrando lucro e distribuindo prejuízos

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A ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES) é uma negacionista convicta dos efeitos devastadores que o uso intensivo de agrotóxicos está causando no meio ambiente (solos, águas e animais vivos) e sobre a saúde pública no Brasil.  Isso fica evidente pelas declarações que ela deu na  na 41ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura da FAO que acaba de ocorrer em Roma.

Mas definitivamente Tereza Cristina não nega os múltiplos males trazidos pelos agrotóxicos  por falta de conhecimento científico ou de uma farta documentação sobre os diferentes ângulos que o uso dos mais de 2.000 agrotóxicos disponíveis no mercado brasileiro, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

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Um exemplo de um documento acadêmico com farta documentação sobre as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre a saúde dos brasileiros é o chamadoDossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” que foi publicado em 2015 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

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Este dossiê traz uma série de relatos e estudos que apresentam dados sobre contaminação de águas e alimentos, bem como de diversos casos de exposição direta de populações inteiras a venenos potentes, os quais causaram efeitos imediatos sobre a saúde dos atingidos. Mas mais do que trazer dados científicos e relatos, o que o Dossiê da Abrasco faz é apresentar um diagnóstico compreensivo dos graves problemas causados pelo vício em agrotóxicos em que a agricultura corporativa brasileira está baseada; além de apontar subsídios para a superação deste modelo ambiental, social e economicamente insustentável. 

E é preciso que se precise que a partir de 2015 não apenas apareceram mais evidências sobre os danos em curso por causa do uso de uma multitude de venenos agrícolas, a Abrasco continuou a sua compilação de evidências materiais. Assim, as negativas e a tentativa marota da ministra da Agricultura para desacreditar as evidências de que a agricultura brasileira está afundando no veneno não são resultado de falta de conhecimento científico, mas de desprezo pelo que já rigorosamente documentado pela comunidade de pesquisadores brasileiros.

A verdade é que esse modelo ancorado no veneno só é viável com uma série de benefícios econômicos que aparecem na forma de isenções fiscais, crédito subsidiado e um pesado esforço para apoiar a movimentação da produção oriunda dos grandes latifúndios. Em alguns casos, vendedores de veneno são também fazendeiros (um exemplo recente é o do deputado Luiz Nishimori (PL/PR) que chegou a ocupar a posição de relator do Projeto de Lei 6299 (o famigerado Pacote do Veneno).

É imperioso romper com esse ciclo de benesses que premia um pequeno grupo de pessoas em detrimento do direito da maioria dos brasileiros de consumirem alimentos e água sem venenos, bem como de exercer atividades agrícolas dentro de um modelo que seja sustentável.

 

Brasileiros estão comendo alimentos contaminados por agrotóxicos em um voo cego

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Uso intensivo, e muitas vezes abusivo, de agrotóxicos contamina principais alimentos consumidos pelos brasileiros.

Em meio à enxurrada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, os brasileiros estão totalmente desinformados sobre o montante de resíduos que estão sendo consumidos a partir da ingestão de alimentos produzidos no território nacional. É que desde 2016 está suspensa a divulgação de resultados do chamado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) que era feita regularmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em seu último relatório, o PARA nos ofereceu dados assombrosos sobre a contaminação de alimentos que os brasileiros colocam diariamente em suas mesas, incluindo alface, pimentão, repolho, tomate, cebola, mamão e morango, apenas para citar os que apresentaram índices mais significativos de contaminação, e também pela multiplicidade de resíduos de diferentes tipos de agrotóxicos.

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Dentre as razões citadas no relatório do PARA que deveriam estar gerando grande alarme nos consumidores brasileiros estão a presença de agrotóxicos que já foram diagnosticados como causadores como doenças graves, o uso incorreto de produtos em relação ao que foi aprovado pelos órgãos reguladores, e ainda a aplicação de dosagens que extrapolam os limites de risco. Quando colocados juntos, todos esses fatores explicam a presença de vários agrotóxicos em uma mesmo alimento e com limites excedendo o estabelecido na legislação.

O fato é que o povo brasileiro está ingerindo alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos de uma forma que equivale a voar em um avião desprovido de aparelhos de navegação. E, pior, por causa da suspensão do PARA, sequer sabemos qual é o nível de contaminação dos itens que são consumidos de forma mais rotineira. Ou seja, estamos nos alimentando como se estivéssemos em um voo cego.  Desta forma, toda a cantilena que os pais usam para convencer seus filhos a consumirem salada pode não ser apenas propaganda enganosa, mas também uma fonte de envenenamento crônico para nossas crianças.

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O interessante é que neste momento, a União Europeia está negociando um amplo comercial com o Mercosul, do qual o Brasil é o principal membro em termos de exportação de alimentos para os países europeus.  O curioso é que na Europa, não apenas os níveis aceitáveis de resíduos de agrotóxicos são muito mais rígidos no que se refere ao que pode ser aplicado pelos agricultores europeus, mas também no que pode ser detetado nos alimentos.  

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Até agora a União Europeia passou ao largo do problema da contaminação da produção brasileira por agrotóxicos ao não permitir a alimentação direta a humanos, permitindo apenas o uso como ração. Mas com o aumento acelerado da aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, muitos deles já banidos na União Europeia, fica a dúvida de até quando essa permissão continuará.

Para complicar a situação ainda há a campanha de boicote iniciada pela rede sueca Paradiset contra alimentos produzidos no Brasil por causa da aprovação desenfreada de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro (197 apenas nos primeiros 5 meses de 2019) parece estar se disseminando para fora da Suécia, apesar dos apelos em contrário da embaixada brasileira em Estocolmo. Se mais redes de outros países europeus aderirem ao boicote, é bem possível que haja mais pressão por mais transparência sobre o nível de contaminação dos alimentos que os próprios brasileiros estão ingerindo todos os dias.

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset é o principal incentivador do boicote a alimentos produzidos no Brasil por causa da contaminação com agrotóxicos.

Mas o fato é que o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos não pode ser mais ignorado, pois efetivamente já se tornou um grave problema de saúde coletiva no Brasil.  A primeira demanda que devemos fazer neste momento é pela retomada da divulgação dos relatórios do PARA, pois é um direito de todos os brasileiros quais alimentos estão contaminados e por quais tipos de agrotóxicos. Ignorar o problema da contaminação dos nossos alimentos não é uma opção aceitável. Simples assim!