“Triste surpresa”: peixes da Amazônia estão contaminados por partículas de plástico

Cientistas descobrem a primeira evidência de poluição plástica em peixes de água doce da bacia amazônica

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A piranha-de-barriga-vermelha (Pygocentrus nattereri) é uma espécie do rio Xingu que foi contaminada por plásticos. Foto: Thomas Males / Alamy Foto De Stock

Por Ian Sample, editor de Ciências do “The Guardian”  [1]

Pesquisadores descobriram a primeira evidência de contaminação de plástico em peixes de água doce na Amazônia, destacando a extensão em que sacos, garrafas e outros resíduos despejados nos rios estão afetando a vida selvagem do mundo.

Testes no conteúdo estomacal de peixes no Rio Xingu, no Brasil, um dos principais afluentes do Rio Amazonas, revelaram partículas de plástico em mais de 80% das espécies examinadas, incluindo o onívoro pacu papagaio, o herbívoro  RedHook Silver Dollar e a carnívora piranha de barriga vermelha

Os pesquisadores se concentraram em peixes no Xingu por causa de sua rica diversidade e amplitude de hábitos alimentares. Os peixes variavam de 4 cm a quase 30 cm de comprimento e pesavam  de 2 gramas a cerca de um quilo.

A análise do conteúdo estomacal dos peixes identificou uma dúzia de polímeros distintos usados para fabricar itens plásticos, incluindo bolsas, garrafas e equipamentos de pesca. A maioria das peças era preta, vermelha, azul, branca ou translúcida e variava de partículas de 1 mm para flocos com 15 mm de largura.

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Resíduos plásticos de estômagos de peixes Serrasalmidae do rio Xingu. Foto: Environmental Pollution

“Foi uma triste surpresa porque no estágio inicial de nossa pesquisa o objetivo principal era entender a ecologia alimentar do peixe, mas quando começamos a analisar o conteúdo do estômago encontramos o plástico”, disse Tommaso Giarrizzo, que estuda ecologia aquática na Universidade Federal do Pará . “É alarmante porque essa poluição está espalhada por toda a bacia amazônica.”

Os cientistas escolheram o conteúdo estomacal de 172 peixes pertencentes a 16 espécies. Escrevendo na revista Environmental Pollution, os cientistas descrevem como 13 das espécies haviam consumido plásticos, independentemente de serem herbívoros que se alimentavam de plantas fluviais, carnívoros que sobreviviam principalmente de outros peixes, ou onívoros. Os herbívoros podem confundir pedaços de plástico por sementes, frutas e folhas, enquanto os onívoros provavelmente ingerem plásticos capturados em  macrófitas que compõem boa parte de sua dieta. Enquanto isso, os carnívoros, como a piranha, provavelmente consomem plásticos quando comem presas contaminadas.

Marcelo Andrade, também da Universidade Federal do Pará, disse: “É horrível saber que os detritos plásticos são ingeridos por 80% das espécies de peixes analisadas, e que muitas delas são consumidas por humanos na Amazônia. A poluição plástica é uma ameaça real para os seres humanos em todo o mundo. ”

No total, 96 peças de plástico foram recuperadas de estômagos de 46 peixes. Os testes mostraram que mais de um quarto eram de polietileno, um material usado em artes de pesca que muitas vezes é descartado em rios e oceanos. Outros foram identificados como PVC, poliamida, polipropileno, rayon e outros polímeros usados para fazer sacos, garrafas, embalagens de alimentos e muito mais.

Os rios são responsáveis por até um quinto dos resíduos plásticos encontrados nos oceanos. Grande parte da poluição é causada pela má gestão de resíduos ou pelo lixo sendo despejado intencionalmente nos cursos de água. Mais de 90% dos detritos plásticos que chegam a águas abertas vêm de 10 rios, oito na Ásia e dois na África.

Giarrizzo disse que mais pesquisas são necessárias para entender a origem do plástico nos rios da Amazônia e avaliar o impacto que ele pode ter na saúde humana. Uma preocupação, segundo ele, é que substâncias químicas perigosas possam se ligar aos plásticos encontrados em peixes, e assim comê-los pode levar a um acúmulo de substâncias químicas perigosas no corpo.

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O conteúdo estomacal dos peixes do rio Xingu revelou partículas de plástico. Foto: Mario Tama / Getty Images

“Embora os efeitos do consumo humano de microplásticos sejam amplamente desconhecidos, nossos resultados são uma preocupação de saúde pública, já que a Amazônia tem o maior consumo per capita de peixes do mundo”, disse ele.

O professor Steve Ormerod, co-diretor do Instituto de Pesquisa da Água da Universidade de Cardiff, disse: “Embora grande parte da publicidade e ênfase na poluição plástica tenha se concentrado nos oceanos do mundo, este artigo acrescenta evidências crescentes de que os plásticos também representam um risco potencial para a poluição. ecossistemas fluviais do mundo.

“Em alguns aspectos, esses resultados não surpreendem porque a Amazônia carrega cerca de 60.000 toneladas de lixo plástico todo ano no Atlântico, e amostras para esse trabalho no afluente do Xingu foram coletadas perto de Altamira – uma cidade de mais de 100.000 habitantes. pessoas. No entanto, com peixes individuais neste estudo, em média, com 22% -37% de seu conteúdo intestinal absorvido pelo plástico, certamente existem preocupações sobre os efeitos físicos ou toxicológicos.

“Com um número crescente de estudos que agora registram o plástico dentro de animais aquáticos, acho que agora temos que ir além desta fase descritiva em investigações das principais fontes de material plástico em rios, qual é o destino desse material em teias alimentares e, mais importante ainda, quais são os efeitos nos organismos e ecossistemas. Esta é toda a informação crítica se quisermos administrar o problema de plástico de uma forma baseada em evidências. ”


Texto publicado originalmente em inglês [1]

Antas contaminadas alertam para uso de agrotóxicos proibidos no Brasil

Por Fábio Gallacci, Terra da Gente

Sentinelas: saúde comprometida das antas evidencia contaminação — Foto: Divulgação IPÊ

Sentinelas: saúde comprometida das antas evidencia contaminação — Foto: Divulgação IPÊ

O Brasil tem usado em suas áreas agrícolas agentes químicos e agrotóxicos que foram banidos em outros países há três décadas. São materiais que oferecem riscos à saúde humana e também aos animais que circulam por essas regiões.

A comprovação veio de uma pesquisa inédita realizada pela Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (Incab), grupo ligado ao Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). De acordo com um levantamento feito entre 2015 e 2017, no Mato Grosso do Sul, as antas do Cerrado, bioma que fica no epicentro do desenvolvimento agrícola do país, estão com a saúde altamente comprometida pela exposição a esses produtos.

A espécie pode ser considerada uma “sentinela”, que utiliza áreas de monocultura como passagem e tem contato com esses materiais com frequência. Isso mostra que o cenário de contaminação também afeta, consequentemente, as pessoas ao redor.

Os inseticidas foram os produtos mais constatados no organismo das antas  — Foto: Divulgação IPÊ

Os inseticidas foram os produtos mais constatados no organismo das antas — Foto: Divulgação IPÊ

No período do estudo, pesquisadores coletaram centenas de amostras biológicas de 116 antas capturadas em armadilhas – em uma ação que serviu para a colocação de colares de telemetria por satélite para monitoramento – ou de carcaças de antas mortas por atropelamento em rodovias de sete municípios do MS. As amostras foram avaliadas no Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox), da Unesp de Botucatu (SP), que é referência nacional para esse tipo de estudo.

O resultado foi que mais de 40% das amostras avaliadas estavam contaminadas com resíduos de produtos tóxicos, incluindo inseticidas organofosforados, piretróides, carbamatos e quatro diferentes tipos de metais pesados.

13 agentes químicos foram encontrados em 116 indivíduos  — Foto: Divulgação IPÊ

13 agentes químicos foram encontrados em 116 indivíduos — Foto: Divulgação IPÊ

“Encontramos um carbamato chamado Aldicarb, que é de uso proibido aqui no Brasil. Ele foi encontrado em conteúdo estomacal de algumas das antas analisadas. Isso comprova uma irregularidade na fiscalização e chama a atenção para a necessidade de medidas mais efetivas sobre o uso e o comércio desse agrotóxicos pelos órgãos competentes”, explica a pesquisadora Patrícia Medici, que se preocupa com a dificuldade em descobrir a origem do uso irregular.

“O problema é que a questão dos agrotóxicos é muito difusa. Nós jamais saberemos exatamente quem são os responsáveis pela aplicação dos produtos já que, no ponto onde fizemos o levantamento, são quase 3 mil quilômetros quadrados de área com um mosaico de diferentes usos da terra. O que temos é que foram 13 diferentes agentes químicos encontrados em 116 indivíduos, fato que serve de alerta para que a situação seja enfrentada”, diz.

“Temos que encarar essa problemática de uma forma diferente, oferecer as nossas informações e mostrar que a anta é uma sentinela que acusa o problema.”

AGENTE QUÍMICO

O Aldicarb é um agrotóxico de alta toxicidade, praguicida, também usado ilegalmente para a produção de raticida – conhecido como chumbinho. Ele é responsável por milhares de envenenamentos e mortes de pessoas, especialmente crianças, e de animais domésticos e silvestres, além da contaminação do solo, de alimentos, rios e lençóis freáticos.

Esse agente químico já é proibido em diversos países, como Alemanha e Suécia, desde 1990. Outros países europeus como Portugal, França, Itália, Reino Unido, Espanha, Grécia e Holanda deixaram de utilizar o produto em 2007. No Brasil, o Aldicarb é proibido desde 2012. Estimativas do governo, na época, apontavam que o produto seria responsável por quase 60% dos 8 mil casos de intoxicação relacionados a chumbinho no país, todos os anos.

Um único grama do veneno pode matar uma pessoa de até 60 quilos em meia hora. Se inalado, o produto percorre a corrente sanguínea e também pode levar rapidamente à morte. Nos animais, o efeito é bem semelhante, atingindo principalmente pulmões, fígado e rins.

Os indivíduos apresentaram lesões de fígado e rins — Foto: Divulgação IPÊ

Os indivíduos apresentaram lesões de fígado e rins — Foto: Divulgação IPÊ

“Verificamos que os 116 indivíduos amostrados estavam contaminados, a maioria deles por mais de um agente químico. Muitas lesões de fígado e rins. Isso pode levar os animais à morte, redução da longevidade e até mesmo influência em sua capacidade reprodutiva”, aponta Patrícia.

A pesquisa mostra ainda que as antas estão expostas a essas substâncias no ambiente que habitam por contato direto com as plantas, solo e água contaminados. A análise estomacal demonstrou exposição pela ingestão de plantas nativas contaminadas e de itens das culturas agrícolas eventualmente utilizados como recurso alimentar.

PULVERIZAÇÃO

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox), ocorre no Brasil uma média de 3.125 casos de intoxicação por agrotóxico de uso agrícola ao ano, ou oito intoxicações diárias. O Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acreditam que, para cada caso notificado, existem outros 50 não notificados, o que aumentaria significativamente essa estatística, reforça a pesquisa.

Patrícia ressalta que o país tem um histórico de pulverização indiscriminada, sendo que em alguns estados não há nem protocolos estabelecidos para essa atividade. “Mesmo nas regiões onde há critérios, de maneira geral , eles não são respeitados”, diz a pesquisadora.

“No caso dos agrotóxicos, aqui no Brasil, não é mais uma questão de exposição, mas imposição. Isso está no nosso ambiente, na nossa água, na comida fresca, nos grãos, no leite materno, enfim, está em tudo.”

No mesmo período da coleta de amostras com as antas, a equipe da Incab realizou um levantamento de dados sobre o uso de agrotóxicos no estado do Mato Grosso do Sul, buscando dados e informações de inserções de imprensa, registros junto à Polícia Militar Ambiental e Tribunal de Justiça do MS.

Segundo as informações encontradas, a pulverização aérea é a forma de aplicação de agrotóxicos mais utilizada no estado, sendo ainda o método mais relacionado à ocorrência de contaminação do meio ambiente, especialmente por influência do vento e deriva do produto para áreas indesejadas.

No Mato Grosso do Sul, os inseticidas – principal grupo de agrotóxicos constatado no organismo das antas – são as substâncias responsáveis por mais de 70% dos casos de intoxicação aguda em humanos.

Substâncias autorizadas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países — Foto: Arte/TG

Substâncias autorizadas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países — Foto: Arte/TG

Mas se engana quem pensa que esse é um problema restrito ao Centro-Oeste. “Certamente, esse cenário de contaminação está sendo repetido em todas as outras regiões do país onde agrotóxicos são utilizados em larga escala. É um problema amplo, que afeta o meio ambiente e as pessoas. O Brasil, de maneira geral, pega muito leve em relação às restrições”, comenta Patrícia, dando um exemplo alarmante em relação à água.

“A grande maioria dos países da União Europeia aceita, no máximo, 0,5 micrograma de quaisquer agrotóxico ou metal pesado na água que é consumida pela população. Aqui, em alguma regiões, aceitamos até 5 mil microgramas desses produtos. É bastante chocante a leveza com a qual o nosso país leva essa problemática e a leveza com que deixam passar diversas oportunidades de criar critérios mais fortes para proteger a população”, lamenta.

“Não tem nenhum ser humano que não esteja contaminado por agrotóxicos e, quando se fala em Brasil, as áreas do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são onde existem as condições mais sérias.”

Muitas das substâncias autorizadas para uso nestas culturas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países. Existem 504 ingredientes ativos com registro autorizado e uso permitido no Brasil. Destes, 149 (30%) são proibidos na União Europeia.

Em casos de intoxicação crônica os efeitos podem incluir malformações congênitas e câncer  — Foto: Arte/TG

Em casos de intoxicação crônica os efeitos podem incluir malformações congênitas e câncer — Foto: Arte/TG

A dimensão atual do uso de agrotóxicos no Brasil tem gerado um indiscutível impacto sobre a saúde da população humana, sobretudo de trabalhadores rurais. Entretanto, o problema não atinge somente áreas rurais e pequenas cidades, tendo relevância também em grandes centros urbanos, especialmente por conta da potência e do uso indiscriminado de agrotóxicos pelo país.

Além disso, o aumento na incidência de câncer entre trabalhadores rurais e pessoas envolvidas nas campanhas sanitárias, no final da década de 80, levou ao estudo mais detalhado sobre a interação dos agrotóxicos com o organismo no surgimento desses tumores, entre outras disfunções de base celular.

Uma série de pesquisas atuais correlaciona a maior incidência de câncer em determinadas regiões do país com a exposição prolongada à agrotóxicos. Entre 1980 e 2011, houve aumento das taxas de mortalidade por câncer de próstata em todas as regiões brasileiras, sendo que a região Centro-Oeste apresentou tendência crescente, assim como a expansão da atividade agropecuária.

Dados sugerem períodos de maiores níveis de contaminação ambiental — Foto: Arte/TG

Dados sugerem períodos de maiores níveis de contaminação ambiental — Foto: Arte/TG

A larga utilização de agrotóxicos no processo de produção agropecuária tem implicações importantes para o ambiente. A contaminação ambiental e acúmulo destas substâncias na água, ar, solo e sedimentos pode causar consequências significativas para as comunidades de seres vivos que compõem o ecossistema.

Poucos estudos avaliaram as consequências da contaminação ambiental por agrotóxicos em espécies da fauna. Todavia, efeitos adversos já são comprovados em populações de anfíbios e peixes de várias espécies.

Uma preocupação inerente à contaminação de recursos naturais é a dispersão de contaminantes para fora das áreas consideradas fonte, atingindo não somente comunidades do entorno das áreas de uso e aplicação de agrotóxicos, como também comunidades afastadas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2018/10/29/antas-contaminadas-alertam-uso-de-agrotoxicos-proibidos-no-brasil.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar&fbclid=IwAR3Lfr_PNEY4heK9HpF6Gg9YGoqmRFFnKqwYXVHeefzl0wWYP7by0-Ml-Fc

Brasileiros não sabem se tem agrotóxicos na água que bebem

O sistema nacional de monitoramento de água potável é vergonhosamente inadequado para detectar a ameaça de substâncias nocivas

Por RICHARD PEARSHOUSE E JOÃO GUILHERME BIEBER*

 AGROTOXICOS

 

No mês passado, visitamos uma pequena comunidade rural no norte do Brasil para ver como os agrotóxicos afetam as pessoas no campo. O Brasil, uma potência em agricultura industrial, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Culturas como a de soja, de milho, de algodão e de cana-de-açúcar são cultivadas com enormes quantidades de agrotóxicos: cerca de 400 mil toneladas por ano. Dos 10 agrotóxicos mais utilizados no Brasil, 4 são proibidos na Europa, indicando quão prejudiciais são considerados para alguns padrões.

Moradores que conhecemos temem os danos que podem decorrer dos agrotóxicos e a retaliação que podem sofrer caso denunciem essa situação. Pediram-nos inclusive para não publicar o nome da comunidade – disseram que um fazendeiro, dono da plantação nas redondezas, havia ameaçado um membro da comunidade por organizar um abaixo-assinado pela redução da pulverização de agrotóxicos. A plantação do fazendeiro alcança casas, seus pequenos jardins e um pequeno campo de futebol; e a área termina a apenas cinco metros do poço utilizado pela comunidade para obter água potável.

O responsável por manter o poço nos contou que estava preocupado com a possibilidade de que os agrotóxicos pulverizados nas plantações de soja afetem o abastecimento de água da comunidade. Ele não sabe se sua preocupação é fundada, porque o governo não fez testes com a água desde que o poço foi instalado há três anos. “Estamos preocupados com a pulverização de agrotóxicos, mas também nos preocupamos com as ameaças, por isso não queremos falar muito sobre isso”, ele disse com um riso sem jeito. “Isso é o que enfrentamos aqui”.

Hoje é o Dia Mundial da Água. Água potável segura é um direito humano, incluindo o direito das pessoas saberem o que tem na água que estão bebendo. Sabemos que os resíduos de agrotóxicos podem escoar com a água da chuva pela superfície e atingir aquíferos que são muitas vezes fonte de água potável.

Alguns países testam regularmente o abastecimento de água potável para verificar a presença de agrotóxicos e disponibilizam os resultados para a população. No Brasil, na prática, isso não ocorre. Fizemos um pedido com base na lei de acesso à informação para obter os resultados dos testes nacionais de resíduos de agrotóxicos na água potável realizados entre 2014 a 2017. Descobrimos que, apesar das obrigações legais, sistemas de abastecimento de água raramente são testados.

Por lei, os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas de água que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal. Mas, a cada ano, uma média de 67% dos municípios em todo o país não envia nenhuma informação ao governo federal – e isso em um país que é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. O governo federal não tem ideia de quão contaminada pode estar a água potável no Brasil, ou mesmo sobre os males que pode estar causando a sua população.

Mesmo nos municípios que enviam as informações, a maioria dos testes está incompleta. Dos resultados apresentados em 2014, apenas 18% refletiam testes completos, realizados duas vezes por ano para detectar todos os 27 agrotóxicos, conforme exigido por lei.

Simplificando: o sistema brasileiro de monitoramento de água potável é vergonhosamente inadequado para detectar a ameaça de perigosos agrotóxicos.

Mesmo com este sistema mal estruturado, as autoridades brasileiras conseguem identificar alguns municípios onde a água potável contém resíduos de agrotóxicos acima dos limites legais. Na verdade, 15% do pequeno número de municípios que apresentaram os resultados dos testes durante este período de quatro anos encontraram pelo menos uma substância acima do limite legal.

Que tipo de substâncias são encontradas? Os agrotóxicos mais comuns não têm nomes muito conhecidos – aldrin, dieldrina, clordano e endrina –, mas todos são danosos à saúde humana. Essa vasta gama de inseticidas foi banida no Brasil na década de 1990, mas são tão persistentes que aparecem na água potável mesmo depois de décadas.

Quem se preocupa com o que está na água conta com poucas opções. Sem um sistema de teste abrangente, a melhor informação vem de estudos acadêmicos. Em 2016, pesquisadores publicaram o primeiro levantamento nacional brasileiro de contaminantes emergentes na água potável. Depois de cafeína – substância que indica a existência de esgoto não tratado –, o segundo contaminante mais comumente encontrado na água foi o herbicida atrazina, presente em 75% das amostras de todo o país.

A atrazina é legalmente permitida no Brasil. Seus níveis residuais na água estavam bem abaixo do limite legal, mas estudos recentes em animais mostram que, mesmo em baixas doses durante longos períodos, a atrazina pode ser um disruptor endócrino, interferindo nas funções reprodutiva, neural e de imunidade.

Pesquisadores detectaram a atrazina acima do limite permitido na água potável em dois municípios rurais no estado de Mato Grosso – Lucas do Rio Verde e Campo Verde. E o carbofurano, outro componente químico perigoso para a saúde humana, foi encontrado acima dos níveis permitidos em amostras de poços de água em Quitéria, uma área rural perto de Rio Grande, uma cidade no sul do país.

O que tudo isso significa? O Brasil usa grandes quantidades de agrotóxicos que comprometem o meio ambiente de seus cidadãos, e as autoridades têm fracassado em garantir que o abastecimento de água potável não esteja contaminado com níveis prejudiciais desses agrotóxicos. E isso é perigoso. O Brasil precisa adotar um sistema de monitoramento eficaz de água potável para garantir que seu abastecimento seja devidamente testado contra agrotóxicos e que os resultados sejam disponibilizados ao público.

 * Richard Pearshouse é diretor-adjunto para a divisão de meio ambiente e direitos humanos da Human Rights Watch. João Guilherme Bieber é consultor da Human Rights Watch.

 FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/22/opinion/1521719118_790598.html

Estudo mostra contaminação de água mineral por micro-plásticos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que irá realizar uma revisão nos riscos potenciais colocados pela contaminação por micro-plásticos [1] na água consumida pelas pessoas após os resultados de um estudo encomendando pela Orb Media e realizado pela Universidade do Estado de Nova York[2]. Nesse estudo foram amostras de água mineral de 9 países e de 11 diferentes marcas (Aqua (Danone), Aquafina (PepsiCo), Bisleri (Bisleri International), Dasani (Coca-Cola), Epura (PepsiCo), Evian (Danone), Gerolsteiner (Gerolsteiner Brunnen), Minalba (Grupo Edson Queiroz), Nestlé Pure Life (Nestlé), San Pellegrino (Nestlé) and Wahaha (Hangzhou Wahaha Group).

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O estudo revelou que as amostras de água mineral analisadas possuíam duas vezes mais micro-plásticos do que o encontrado em água de torneira, revelando que, ao menos no nível da poluição por micro-plásticos, a noção de que água engarrafada é mais segura não passa de um mito bem construído pela indústria que hoje controle um mercado avaliado em torno de 147 bilhões de dólares.

Algumas das amostras analisadas possuíam tantas partículas de micro-plásticos que a equipe de pesquisadores convocou um astrofísico com experiência na contagem de estrelas no universo para auxiliar no processo de quantificação (ver imagem abaixo de uma das lâminas de contagem.

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A substância mais comumente encontrada foi o polipropileno que é mais comumente presente nas tampas das garrafas.

Como sempre ocorre em ocasiões em que a ciência quebra mitos de segurança impostos pela indústria, a Danone e a Coca Cola já saíram rapidamente a campo para questionar a metodologia utilizada, enquanto que a Nestlé escolheu não se manifestar.

Há que se lembrar que a contaminação dos oceanos por micro-plásticos já está razoavelmente documentada. Somando-se agora a da água mineral e a de torneiras fica evidente que o problema da poluição por micro-plásticos poderá alcançar proporções ainda mais drásticas, com sérias repercussões para a saúde humana.

 


[1] https://www.ecycle.com.br/component/content/article/35/1267-microplasticos-um-dos-principais-poluentes-dos-oceanos.html

[2] https://orbmedia.org/stories/plus-plastic

Contaminação por resíduos químicos chega ao fundo dos oceanos

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A contaminação produzida pelo ser humano alcança o fundo dos oceanos, revelou um estudo publicado nesta segunda-feira que detalha o achado de componentes químicos proibidos em amostras de anfípodes, pequenos crustáceos que residem nas zonas abissais.

“As zonas abissais são vistas ainda como reinos distantes e imaculados, preservadas da ação humana, mas nosso trabalho mostra que, infelizmente, essa ideia está longe de ser verdade”, destaca Alan Jamieson, pesquisador da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, e coautor deste estudo, publicado na revista “Nature Ecology & Evolution”.

Para examinar os crustáceos, um dos poucos organismos capazes de sobreviver a tais profundidades e níveis de pressão, os pesquisadores usaram ferramentas especiais capazes de chegar a duas enormes fossas do Pacífico: a das Marianas, a mais profunda conhecida (cerca de 11 km), perto da ilha de Guam, e a fossa de Kermadec (mais de 10 km), ao Norte da Nova Zelândia.

O que descobriram foi que, inclusive no mais profundo da crosta terrestre, os anfípodes apresentam níveis “extraordinários” de contaminação química. Os cientistas puderam testar a presença de PCB (bifenilos policlorados), proibidos há 40 anos, e de PBDE (éteres difenílicos polibromados), utilizados durante muito tempo para tornar materiais têxteis e plásticos resistentes ao fogo. Ambos componentes estavam presentes em todas as amostras recolhidas nas zonas abissais em diferentes profundidades.

“Encontrar estas substâncias contaminantes em um dos locais mais escondidos e inacessíveis da Terra nos faz perceber o impacto devastador a longo prazo do ser humano sobre o planeta”, considera Jamieson.

Entre os anos 1930 e 1970 foram produzidas 1,3 milhão de toneladas de PCB no mundo. Desde então, em torno de 35% acabaram chegando ao oceano e aos sedimentos terrestres.

Fonte: O Globo, via AFP

FONTE: http://www.ecoguia.net/noticias/contaminacao-por-residuos-quimicos-chega-ao-fundo-dos-oceanos/

 

‘Água que bebemos é de baixa qualidade. Nossos parâmetros estão ultrapassados’

Fernando Spilki: "Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Marco Weissheimer

Como ocorre em outros grandes centros urbanos do país, a população que vive na Região Metropolitana de Porto Alegre está consumindo uma água de baixa qualidade. Dos dez rios brasileiros mais contaminados, três estão localizados nesta região e desembocam no Guaíba: Sinos, Jacuí e Caí – todos eles fortemente impactados, especialmente por esgoto doméstico. Essa água atende os parâmetros previstos na legislação brasileira, mas estes se tornaram insuficientes para da conta dos desafios do presente, como estamos vendo agora com a situação da água de Porto Alegre. A avaliação é do professor Fernando Spilki, pesquisador do laboratório de microbiologia molecular da Feevale e responsável por um recente estudo encomendado pela Associated Press sobre a qualidade da água da Bacia da Guanabara.

Doutor em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Estadual de Campinas, Spilki aponta o anacronismo dos parâmetros que seguem sendo utilizados no Brasil para analisar a qualidade da água. “Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes. A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável”, afirma, em entrevista ao Sul21. Mas o problema, acrescenta, não se resume à baixa qualidade da água: “Nós fomos acabando com a região ribeirinha dos rios, acabando com as regiões de banhado e com a possibilidade de preservação de água. A qualquer momento em que falta chuva, nosso sistema de abastecimento vai para o buraco”.

O pesquisador alerta para a gravidade desse quadro e chama a atenção para o fato de o saneamento ter saído da agenda mais uma vez: “Todos somos culpados por essa situação: setor público, setor privado e a sociedade como um todo. Nós, brasileiros, aceitamos essa situação. Achamos que está tudo bem. Se tiver água, wi-fi e tv a cabo em casa, não interessa se não tem esgoto. Só interessa quando estoura uma bomba e falta água. Aí viramos todos ambientalistas”.

Sul21: Como iniciou esse trabalho de pesquisa com a microbiologia da água, associada a questões ambientais?

Fernando Spilki: Sou veterinário de formação e trabalho com virologia há 20 anos, desde o início da minha graduação. Eu trabalhava com virologia em animais e humanos. Quando vim para a Feevale, há sete anos, vim com o objetivo de trabalhar com questões ambientais associadas à virologia. Quando comecei a fazer isso, não havia mais do que quatro grupos no Brasil trabalhando com esse enfoque. Temos feito estudos tentando ver em que medida os marcadores que utilizamos para avaliar a qualidade da nossa água dão uma noção da realidade. Nós sabemos, na literatura científica, que o que utilizamos como marcação não está completo. Uma água pode atender quarenta parâmetros das normativas oficiais e ainda apresentar problemas.

"Os marcadores de coliformes fecais não dão mais conta de analisar o perfil microbiológico da água que a gente tem." (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Sul21: Quais são esses marcadores que utilizamos no Brasil?

Fernando Spilki: No âmbito da microbiologia, especificamente, nós trabalhamos com coliformes. Ainda se faz e ainda está previsto fazer análise de coliformes totais e, a partir daí, dar o veredito se a água está própria ou não para consumo pela análise de uma fração dela. Mas, lamentavelmente, esses marcadores de coliformes fecais foram criados e desenvolvidos em um tempo em que a preocupação no Ocidente era com doenças como febre tifoide e cólera, doenças que hoje estão praticamente erradicadas, ocorrendo muito esporadicamente em condições sanitárias muito baixas. Esses marcadores de coliformes fecais não dão mais conta de analisar o perfil microbiológico da água que a gente tem.

De certo modo, o que acontece é que já se desenvolveu toda uma tecnologia nos anos 30 40 para eliminá-los da água. Hoje, se capta a água, elimina-se os coliformes e a gente diz que a água está saudável. É como se tivéssemos inventado o termômetro e seguíssemos analisando tudo pela temperatura. Não é assim. Em medicina, às vezes, a gente tem uma doença crônica e não sabe, o que obriga o médico a realizar outros tipos de exames para descobrir que doença é essa. O mesmo se aplica ao meio ambiente. Nós temos o desenvolvimento de novas técnicas e parâmetros de análise que não são acompanhadas pela legislação. Os setores público e privado, que precisam lidar com essa situação, procuram manter os parâmetros vigentes, o que faz com que toda essa nova tecnologia esteja associada fundamentalmente a um marcador que já não dá conta da situação relacionada à qualidade da água.

O mesmo se aplica ao tratamento de esgoto. A gente mede por um marcador e diz que está tudo bem. Mas não está tudo bem. Já sabemos que, fora desse marcador (dos coliformes fecais), vai passar vírus, protozoário e um monte de bactérias que os coliformes fecais não vão marcar. Essa é a situação que vivemos hoje.

Sul21: Além dos coliformes fecais, quais seriam outros marcadores que deveriam estar sendo levados em conta na análise da qualidade da água?

Fernando Spilki: Em nosso trabalho, nós vemos muitas amostras de água potável e de água bruta de rios, poços e outras fontes onde nós não temos mais coliformes fecais, mas temos vírus causadores de diarreia, criptosporidium (protozoário causador de doenças gastrointestinais) e outros microorganismos que a gente não buscou pelos marcadores vigentes. Temos milhares de exemplos. Isso não vai acontecer só em microbiologia, mas também com contaminantes químicos. Analisa-se um conjunto de contaminantes químicos, previstos na legislação, mas vai passar ao largo um monte de contaminantes diferentes. Esse sistema não é robusto o suficiente para dar garantias quando acontece algo que não se consegue explicar por esses marcadores.

"É sempre o mesmo discurso. O gestor público diz: pelos atuais parâmetros previstos na legislação, está tudo bem". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Sul21: Como está acontecendo com Porto Alegre agora…

Fernando Spilki: Sim, como o que está acontecendo agora em Porto Alegre. A gente começa a investigar e até procura um marcador novo. Você acha e coloca a culpa nele, mas não há garantia que seja de fato ele, pois não se tem um histórico do mesmo. Podem ser múltiplas causas, fontes diversas de contaminação. O problema não é falta de metodologia. Hoje, tanto na microbiologia como na química, há metodologia capaz de apontar o problema para além dos marcadores vigentes hoje. Só que isso não é feito por um motivo muito simples: não está previsto na legislação. É sempre o mesmo discurso. O gestor público diz: pelos atuais parâmetros previstos na legislação, está tudo bem.

É como um médico dizer para um paciente. Meus parâmetros para dizer se você está doente são febre, coriza e tosse. Se você não tem nenhum dos três, está tudo bem. Não é assim que as coisas funcionam, mas no meio ambiente é isso o que vem acontecendo. Há uma determinada lista de parâmetros que é seguida e pronto. Isso até pode servir para o café pequeno do dia-a-dia, quando está indo tudo bem. O dia que acontece algo diferente, me ralei.

Enfrentamos dois problemas graves em nossa regulamentação ambiental. O primeiro, gravíssimo, é como são calculados os índices máximos permitidos desses parâmetros. O mundo inteiro funcionava assim até o momento. Não é, portanto, um pecado exclusivamente nosso. Isso ocorre da seguinte forma: para calcular os índices máximos permitidos, monta-se uma comissão tripartite, reunindo representantes da academia, do órgão responsável pela produção de água e do órgão regulador. Esses representantes se reúnem e, para cada um deles, pergunta-se quanto pode ser permitido para o elemento “x”. O representante da academia avalia que até pode não ser possível, mas o ideal seria ser zero. A companhia de água diz que se for zero o trabalho dela vai ficar muito difícil e propõe que seja 2,5. Aí vem o órgão regulador e diz: vamos colocar 5 porque menos que isso não teremos condições de detectar.

O processo que a gente vê acontecer em países mais desenvolvidos nesta área é algo assim: nós realizamos um estudo ao longo do tempo usando esse parâmetro e verificamos que, quando chega a 1,2, estoura o número de atendimentos no sistema de saúde, por uma doença ligada a esse parâmetro; então, vamos fixar esse índice em 1. Ou seja, a definição é feita a partir do risco. Aqui no Brasil, nós não definimos esses índices a partir do risco, mas sim a partir do que é possível conseguir e do que é possível detectar.

Sul21: No caso do Brasil, essa escolha não passa também pela questão do custo?

"A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

 Fernando Spilki: Essa questão do custo é uma discussão muito interessante. Temos uma riqueza importante neste processo que é a competência da maioria dos indivíduos que trabalham na parte técnica nas companhias de água e de esgoto e também nas agências. O pessoal técnico é excelente. Quando fazemos esse debate aparece o tema do custo. Alguém sustenta que detectar um determinado agente é muito caro. Aí vamos visitar o laboratório com o qual essa pessoa trabalha e descobre que, para outros agentes, eles têm um equipamento que é sete ou oito vezes o preço do equipamento que seria necessário para analisar o agente em questão. Além disso, a técnica que utilizam também é cinco ou seis vezes mais cara. O que falta aí é treinamento e vontade de fazer. Às vezes, não é exatamente a área com que aquele laboratório trabalha.

Outra coisa que acontece, aí no âmbito da gestão, é afirmar que não existe um parâmetro definido para determinada questão ou dizer que nenhum país usa ou só um país utiliza como desculpa para não fazer alguma coisa. Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes. A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável. Ela permite muito mais do que encontramos em legislações de outros países e não estou falando só de Europa. Se compararmos com as legislações de balneabilidade e de potabilidade da água de países como Uruguai, Argentina e Colômbia os nossos parâmetros são assustadoramente altos. Além disso, o que está contido lá dentro não dá mais conta dos desafios emergentes que temos diante de nós neste século.

Há coisas quase tradicionais que já são usadas há pelo menos 20 anos em outros países, baseadas em técnicas fáceis de fazer, com outras bactérias, que nós simplesmente não adotamos em nossa legislação a não ser em momentos excepcionais como agora nos Jogos Olímpicos, quando resolveram adotar enterococcus como parâmetro de avaliação. Esse parâmetro é padrão de balneabilidade nos Estados Unidos. Eles nem usam mais coliformes fecais para analisar a água do mar, só para citar um exemplo. Os parâmetros que adotamos, repito, não dão mais conta da realidade que enfrentamos. O número de surtos de diarreia, que é uma condição endêmica no Brasil, principalmente entre as crianças, é um exemplo disso. É um dos maiores índices de atendimento nas Américas.

Outra coisa que demonstra que esses parâmetros não dão mais conta é que, não raro, encontramos esse tipo de situação que está acontecendo agora em Porto Alegre. De repente, surge um problema que não conseguimos resolver pelos parâmetros normais. Tenho acompanhado as análises que a Fepam vem divulgando. Segundo os atuais parâmetros legais, está tudo ok, tudo dentro do tradicional. Não há nenhuma mudança significativa em relação ao histórico que se tem.

05/08/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Professor de Microrganismos, Fernando Spilki da Feevale. Foto: Maia Rubim/Sul21

Sul21: Esses parâmetros previstos na legislação brasileira se aplicam integralmente a todos os estados e municípios ou estes têm autonomia para introduzir mudanças?

Fernando Spilki: A legislação estadual pode se sobrepor à legislação federal, cobrando mais coisas ou baixando o limite de determinados parâmetros. Isso acontece. O Conselho Estadual do Meio Ambiente, por exemplo, tem algumas normas um pouco mais restritivas para alguns parâmetros. Mesmo assim, eu diria que, se formos analisar condições de saúde pelos parâmetros atuais, não temos uma situação ideal. As nossas regulamentações são anacrônicas e quando a gente acha que elas vão evoluir, elas acabam aumentando ainda mais os limites aceitos em função de um pedido das companhias ou algo do tipo. Causa-me muita estranheza, nestas discussões, quando alguém diz que não consegue alcançar determinado índice em alguma bacia do São Francisco, por exemplo. Aí, em função dessa dificuldade, se estabelece uma regulação para o Brasil inteiro. Em ambientes urbanos a situação tem se tornado muito difícil, como estamos vendo agora em Porto Alegre.

Sul21: Considerando a relação entre a contaminação causada por esgotos domésticos e a poluição industrial na Região Metropolitana de Porto Alegre, qual é o quadro atual?

Fernando Spilki: Nós fizemos um longo trabalho com a Corsan sobre o rio dos Sinos, onde nós analisamos a parte microbiológica e eles analisaram mais de 200 parâmetros, entre eles muito relacionados a efluentes industriais. No rio dos Sinos, que conhecemos bem, não dá para dizer que há mais nenhum impacto da indústria. Ele continua ocorrendo, mas não é mais tão importante quanto é hoje o impacto do esgoto doméstico no rio dos Sinos. E acredito que essa situação se repete no Caí, no Jacuí, no Gravataí…Esse é o quadro que temos na região metropolitana. No caso de Porto Alegre, o problema pode estar relacionado ao tratamento de rejeitos industriais que é realizado na região do bairro Navegantes, mas se olharmos para a lista do que é entregue para a empresa (Cettraliq) tratar, a gente nota que ali pode ter rejeitos que estejam contaminados com esgoto.

Não vou citar o nome da empresa, mas eu cheguei a ver casos de um conglomerado importante de tratamento de resíduos industriais da Região Metropolitana, que tinha todos os parâmetros para tratamento de rejeitos químicos dentro da unidade, mas o que estava saindo e causando problema eram coliformes fecais. O problema, neste caso, é que os banheiros dessa empresa estavam ligados a um sistema que não era adequado para tratar esgoto doméstico. Sabemos que muitos efluentes de aterros sanitários, usados inadequadamente para resíduos industriais aqui no Vale do Sinos, por exemplo, acabaram sendo levados para tratamento nesta empresa em Porto Alegre. A experiência que temos aqui com esses rejeitos é que eles têm contaminação por coliformes.

O problema aí não é especificamente a contaminação por coliformes. Se está indo carga biológica em um montante alto para lá, isso pode ser um fator causador de crescimento de algas ou bactérias que vão produzir toxinas que podem ser responsáveis pelo problema do cheiro da água. Essa é uma hipótese, mas, repito, só com os parâmetros previstos na legislação atual não há como ter certeza disso.

"A experiência que temos aqui com esses rejeitos industriais é que, muitas vezes, eles têm contaminação por coliformes. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Além desse tipo de contaminação, nós temos outro problema que são as ligações clandestinas. Em 2011, nós fizemos um trabalho na região do Lami e de Ipanema, onde há uma contaminação bastante forte por vírus entéricos e coliformes. Sabemos que há um esforço do poder público para tratar o esgoto naquela região, lançando-o, tratado, mais adiante. Mas tem um probleminha que não conseguimos resolver, que são as ligações clandestinas das fossas sépticas das casas no sistema de esgotamento pluvial. Não estamos falando de um ou dois casos. As pessoas ligam a fossa séptica no sistema de esgotamento da chuva. Como é que se controla isso?

Estima-se que temos 30% de tratamento de esgoto no Brasil, que é um índice baixíssimo. No Rio de Janeiro, onde estão ocorrendo as Olimpíadas agora, a estimativa é de 50% de tratamento de esgoto. Aí vem uma ação de Polícia Federal e diz que esse número está errado e que é apenas 10% do esgoto que está sendo tratado. Além de termos número baixos, eles muitas vezes estão inflados. E temos fontes difusas de esgoto, não mapeáveis, que dificultam a análise. Voltamos à importância dos marcadores. Se tivéssemos uma análise mais ampla que buscasse, pelo menos em situações de emergência, avaliar outros parâmetros, ficaríamos mais seguros.

Sul21: Como você definiria, de modo geral, a qualidade da água que consumimos hoje?

Fernando Spilki: Eu diria que a água potável que sai da torneira ainda é a melhor água que temos disponível. Por incrível que pareça, a legislação para ela, por mais que seja flácida, é a mais restritiva. Ela não tem uma qualidade excelente, mas é uma água segura. O problema é o que pode estar passando, que a gente não tem conhecimento, e essas situações de crise como a vivida agora em Porto Alegre, quando ficamos sem ter uma noção dos riscos. Mas a água potável produzida pelas companhias é ainda a melhor água que temos disponível. Ela é muito mais segura, por exemplo, que a água de poço, que sofre uma contaminação crônica do lençol freático. O poço está exposto o tempo todo a essa contaminação. Temos centenas de amostras de água de poço, comparando com centenas de amostras de água de torneira, que atestam isso. A própria água mineral tem uma situação complicada.

Sul21: Mas parece haver uma desconfiança da população em relação à água da torneira. Quem tem condições econômicas, opta por alternativas como garrafões de água mineral, filtros de barro, entre outras. Você, por exemplo, consome que tipo de água em sua casa?

Fernando Spilki: Eu tomo água fervida. Nós fervemos diariamente uma quantidade de água para beber e para cozinhar. Nós recomendamos esse método em propriedades rurais aqui no Vale do Sinos, por exemplo, onde há muita contaminação da água. Alternativas como o filtro de barro, por exemplo, tem uma eficácia muito discutível, pois ele deixa passar a maioria dos patógenos. Carvão ativado também tem um efeito limitado. Um ozonizador que realmente funcione é muito caro. O ideal é ter bom senso e procurar associar tudo o que é possível

Outro problema que precisaremos enfrentar em um futuro próximo aqui no Brasil é a questão da caixa d’água. Nós já fizemos essa experiência de comparar uma água coletada numa vertente ou num poço com a de uma água que passa por uma caixa d’água. A contaminação na caixa d’água fica se acumulando ao longo do tempo. Alguns dos patógenos com que a gente trabalha duram meses, quiçá anos. É importante lembrar que utilizamos a caixa d’água pelo problema do desabastecimento. Ninguém pode garantir que, daqui a uma semana, não vai faltar água durante algumas horas ou mesmo dias no bairro onde mora. E, muitas vezes, não é por falta de água no rio, mas sim por que o sistema de distribuição não dá conta, pela falta de manutenção preventiva, entre outros problemas. Então, temos problemas estruturais graves não só no que diz respeito à qualidade da água, mas também à quantidade.

"A água mineral é retirada do subsolo e as águas subterrâneas brasileiras estão extremamente contaminadas". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

 Sul21: Você também colocou a água mineral na relação de alternativas problemáticas. Qual é o problema exatamente?

Fernando Spilki: A água mineral também enfrenta um problema de parametrização muito grande, pois ela tem uma legislação ainda mais flácida. Para você ter uma ideia, segundo essa legislação, uma em cada cinco garrafas de um lote pode conter alguma contagem de bactérias. É, portanto, um parâmetro muito menos restritivo do que aquele que vale para a água de torneira de uma cidade, onde o que é permitido é uma amostra com valor acima do permitido para cada 1.500 amostras. A água mineral é retirada do subsolo e as águas subterrâneas brasileiras estão extremamente contaminadas. Já mostrei dados de contaminação fecal em encontros que reuniram alguns dos principais geólogos brasileiros e eles me disseram: Qual a novidade? O que você esperava? Você já notou que na garrafinha de água mineral não aparece registro de nitrogênio e fósforo? Os marcadores químicos de contaminação fecal não aparecem no rótulo.

Não estou dizendo que não existam fontes muito menos contaminadas ou não contaminadas, mas o padrão não é esse. Esse é outro problema importante que precisaremos enfrentar. Estima-se que cerca de 60% do consumo de água no Brasil é de água mineral. Quando cito esse dado em algum fórum internacional, as pessoas ficam espantadas.

Sul21: Qual a dimensão do consumo de água via poços?

Fernando Spilki: É muito grande. Aqui na nossa região, por exemplo, há uma facilidade de perfurar poços e encontrar água a profundidades não muito grandes. Muitas prefeituras da Região Metropolitana estimulam que seja feito poço e que ele seja analisado a cada seis meses. Quando produzimos água a partir de um rio precisamos tomar algumas medidas a cada duas horas. É claro que, neste caso, estamos lidando com muito mais gente, mas quem está morando naquele condomínio que abriu um poço está muito mais exposto. O rio ainda é possível tratar, mas como é que você vai tratar uma água subterrânea? Na Inglaterra, as autoridades mapeiam os surtos de diarreia de uma maneira muito mais eficaz que nós, determinando o fechamento de poços quando um problema é detectado. Eles realizaram pesquisas que mostram que a maioria dos surtos de diarreia na região de Londres está associada à água de poço.

Sul21: Considerando o sistema de rios aqui na Região Metropolitana que acabam confluindo para o Guaíba, a situação da poluição melhorou ou piorou nos últimos anos?

Fernando Spilki: O que mais impacta esses rios é o esgoto doméstico. As bacias desses rios foram fortemente impactadas por um processo completamente desordenado de urbanização. A Agência Nacional de Águas e outras instituições estimam que nós estamos em uma das quatro regiões brasileiros com maior stress hídrico em termos de qualidade e de quantidade de água. Quando se fala em stress hídrico as pessoas costumam pensar muito em quantidade, mas nós temos um problema de qualidade da água gravíssimo. Estamos numa região onde pode faltar água, porque estamos muito suscetíveis às variáveis ambientais. Não estou falando que precisamos construir barragens, pois isso tem um custo social absurdo. O que estou dizendo é que nós fomos acabando com a região ribeirinha dos rios, acabando com as regiões de banhado e com a possibilidade de preservação de água. A qualquer momento em que falta chuva, nosso sistema de abastecimento vai para o buraco.

Mas como eu disse, o problema não é só quantidade. A qualidade da nossa água é muito baixa. Dos dez rios brasileiros mais contaminados, três estão nesta bacia da Região Metropolitana (Sinos, Jacuí e Caí). É uma situação muito preocupante. Agora está se falando em mudar o ponto de captação. No rio dos Sinos e no Caí, para falar de dois rios que conheço mais, há lugares com melhor qualidade de água para a captação. Tenho certeza que no Jacuí também há. Mas qualquer um desses rios, assim como o Lago Guaíba, estão sendo impactados de uma maneira muito intensa. O meu medo diante dessas notícias de mudança de ponto de captação é quanto ao futuro. O que vamos fazer? Vamos esperar a situação ficar insustentável de novo daqui 15 anos para daí tomar outra medida ou vamos começar a fazer algo?

Temos 4,5% de tratamento de esgoto na bacia do Sinos, para um milhão e meio de habitantes. Esse índice se resume, praticamente, a dois grandes condomínios aqui de Novo Hamburgo. O resto todo vai direto para o rio, a partir de uma fossa séptica que é drenada pela chuva ou é canalizado diretamente para dentro do rio. A se manter essa situação, não adianta mudar o ponto de captação. A perenidade dessa medida é muito discutível.

"Aqui no rio dos Sinos, oficialmente, há dois anos que a bacia não é fiscalizada e monitorada pelo órgão regulador. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Esse quadro tem uma razão histórica. O plano de saneamento elaborado nos anos 60 e 70 deu conta de tentar universalizar o tratamento e distribuição de água. Essa foi a ideologia imposta pelos militares. Mas eles esqueceram algo importante: que, para termos água para tratar, de qualidade adequada, precisamos tratar esgoto. Isso ficou para trás. Nos anos 2000, começou a se fazer algo nesta direção até que, entre 2011 e 2012, com a crise financeira, esse tema saiu da agenda. Hoje, o saneamento está fora da agenda.

Vejo cidades comemorando que vão evoluir de 27 para 40% de tratamento de esgoto. A gente bate palmas, mas, falando do ponto de vista acadêmico, enquanto a gente não passar de 80 ou 90% de saneamento, lamento dizer, é quase como se não tivesse sido feito nada. Eu sei que a academia às vezes é terrível, quer o melhor, mas não tem como oferecer a melhor concertação social para que isso ocorra. Tenho certeza disso. Mas nós conseguimos avaliar água de torneiro, ao longo do tempo ou em diferentes cidades como já fizemos aqui no Rio Grande do Sul, e relacionar o resultado com a taxa de tratamento de esgoto que tenho em uma determinada bacia. Antes de encostar em algo muito próximo de 80%, os resultados não variam muito. Todo esforço é meritório, mas é preciso ter em mente esse quadro.

A gente entende as dificuldades do poder público. O que não dá para entender é a inação, é ter o recurso e não fazer o mais rápido possível. E isso acontece com a iniciativa privada da mesma forma quando ela está nesta situação. A empresa vive para atender as metas e os números da legislação, para não perder a licença de operação. Todos somos culpados por essa situação: setor público, setor privado e a sociedade como um todo. Nós, brasileiros, aceitamos essa situação. Achamos que está tudo bem. Se tiver água, hi-fi e tv a cabo em casa, não interessa se não tem esgoto. Só interessa quando estoura uma bomba e falta água. Aí viramos todos ambientalistas.

Aqui no Sinos, oficialmente, há dois anos que a bacia não é fiscalizada e monitorada pelo órgão regulador (Fepam). Talvez seja até há mais tempo. Para não falar do que acontece nos meses de verão onde, pelo que sabemos, não há um monitoramento adequado há quase vinte anos. No Litoral, a situação ambiental é gravíssima. Não há estrutura adequada para atender a população que vive ali durante o ano. De repente, essas cidades explodem de gente, sem as mínimas condições de saneamento. A gente sabe que esses órgãos possuem técnicos muito qualificados tentando fazer o seu trabalho no dia-a-dia, mas com uma estrutura completamente sucateada. Nós temos um trabalho junto às lagoas do Litoral Norte. Como era de se esperar, a situação não é nada boa.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/agua-que-bebemos-e-de-baixa-qualidade-nossos-parametros-estao-ultrapassados/

Canal Univision produz matéria esclarecedora sobre as condições catastróficas em que se encontra a Baía da Guanabara às vésperas do Jogos Olímpicos

Há algumas semanas atrás fui convidado pelo jornalista Pablo Monzalvo do Canal Univision, principal canal de TV de língua espanhola que opera nos EUA, a falar sobre a condição crítica em que se encontra a Baía da Guanabara às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2016. 

Além de mim foi ouvido o pescador Alexandre Anderson (Aqui!), liderança dos pescadores artesanais que ainda teimam em retirar seu sustento das águas poluídas da Baia da Guanabara.  

Acima está o vídeo com esta reportagem para a qual eu chamo atenção para duas informações importantes. A primeira dada pelo Alexandre Anderson que apontou para o fato de que a condição poluída da Baía da Guanabara decorre de uma decisão racional de mantê-la poluída para impedir para usos comunitários como o representado pela pesca artesanal.

Já a segunda informação foi dada pelo próprio jornalista Pablo Monzalvo que repercutiu uma posicionamento oferecido pelo secretário estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, André Correa, que reconheceu que a meta de livrar a Baía da Guanabara de 80% da carga de poluição não é realista.  

Então, por que a Prefeitura do Rio de Janeiro, comandada por Eduardo PAes (PMDB) prometeu isso e o Comitê Olímpico (COI) aceitou? Provavelmente porque os ganhos que cada lado teve suplantarão, em muito qualquer veleidade com a recuperação ambiental de um ecossistema tão belo quanto fundamental como é a Baía da Guanabara.