Sulfoxaflor,fipronil, acefato e malationa são as “estrelas” do último pacote letal do governo Bolsonaro

agrotóxicos 1Com 290 agrotóxicos aprovados apenas em 7 meses, governo Bolsonaro se torna o mais pró-veneno da história.

Por estar atarefado demorei um pouco mais para introduzir na base de dados que comecei a construir em janeiro para documentar o avanço da liberação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, mas hoje finalmente consegui concluir a tarefa de juntar os 51 agrotóxicos liberados no dia 18 de junho e publicados no Diário Oficial da União apenas no dia 22 de julho de 2019.

E os dados mostram que as abelhas que polinizam os campos brasileiros estão agora sob um risco ainda maior, pois apenas do composto Sulfoxaflor foram aprovados 6 produtos, todos produzidas pela multinacional estadunidense Dow Chemical Company. Mas se ainda sobrar abelhas depois do envenenamento por Sulfoxaflor, as sobreviventes ainda terão de se defrontar com um produto que contém outro inimigo poderoso, o Fipronil, esse fabricado pela brasileira Iharabras S.A. Indústrias Químicas.

abelhas-mortas2Uso de agrotóxicos como o Sulfoxaflor e o Fipronil estão sendo associados ao extermínio de quase 1 bilhão de abelhas no Brasil apenas em 2019.

Mas para os humanos também sobraram produtos como o Acefato que é banido pela União Europeia por suas conhecidas relações com a infertilidade, danos genéticos e, é claro, o câncer.  De quebra, ainda foram aprovadas formulações contendo a Ametrina e a Atrazina, produtos ativos também banidos pela União Europeia, e que também têm sido associados a enfermidades graves em seres humanos.

Outro produto aprovado que embora ainda seja vendido legalmente na União Europeia foi a Malationa, um inseticida e acaracida organofosforado, que é conhecida por causar danos irreversíveis na vida aquática. 

A nova lista de aprovações traz 14 produtos que são totalmente ou parcialmente compostas por princípios ativos banidos pela União Europeia, elevando o total dentro das 290 substâncias liberadas pelo governo Bolsonaro com essa “peculiaridade” para 95 (o equivalente 33% do total). Tal fato quando conhecido pelos importadores europeus tenderá a aumentar a pressão sobre as commodities agrícolas brasileiras, dado o exemplo já conhecido da rede sueca Paradiset que baniu todos os produtos não orgânicos brasileiros quando o total de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro era ainda menor. 

De toda forma, essa marcha do veneno que não perdoa nem abelhas ou humanos é um sinal de completo atraso de mentalidade dos ruralistas que hoje efetivamente controlam o Ministério da Agricultura sob o comando da “princesa do veneno” Tereza Cristina (DEM/ES). Reagir a essa tsunami de venenos agrícolas está se tornando cada vez mais um das questões centrais da democracia brasileira. Afinal, a maioria dos brasileiros e de nossos ecossistemas naturais não podem ser sacrificados em nome do aumento da taxa de lucros de uma minoria que está pouco se lixando para as consequências de um modelo agrícola totalmente ancorado no veneno e no desmatamento.

Quem tiver interesse em conhecer todos os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Vivemos ode à ignorância- Entrevista ao Programa Faixa Livre sobre a aprovação de mais 51 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro

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Ontem concedi uma entrevista ao Programa Faixa Livre onde pude oferecer minhas opiniões sobre a última rodada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, no que se constitui em uma verdadeira ode à ignorância e ao atraso em nome dos lucros já abusivos do latifúndio agro-exportador,

Como ainda não dispunha da informação de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu rebaixar ainda mais os critérios para avaliação e classificação de toxicidade dos agrotóxicos que podem ser vendidos no Brasil, considero que parte da minha entrevista oferece uma visão subestimada dos riscos que estão sendo criados pelo governo Bolsonaro na área da saúde humana e da contaminação de ecossistemas naturais.  Mas ainda assim que considero que a entrevista traz alertas importantes para o verdadeiro “Armagedon socioambiental” que o governo Bolsonaro está criando no Brasil com sua política “fast track” de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Quem deseja ouvir a íntegra desta entrevista, basta clicar abaixo:

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A praga dos agrotóxicos: concentrando lucro e distribuindo prejuízos

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A ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES) é uma negacionista convicta dos efeitos devastadores que o uso intensivo de agrotóxicos está causando no meio ambiente (solos, águas e animais vivos) e sobre a saúde pública no Brasil.  Isso fica evidente pelas declarações que ela deu na  na 41ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura da FAO que acaba de ocorrer em Roma.

Mas definitivamente Tereza Cristina não nega os múltiplos males trazidos pelos agrotóxicos  por falta de conhecimento científico ou de uma farta documentação sobre os diferentes ângulos que o uso dos mais de 2.000 agrotóxicos disponíveis no mercado brasileiro, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

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Um exemplo de um documento acadêmico com farta documentação sobre as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre a saúde dos brasileiros é o chamadoDossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” que foi publicado em 2015 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

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Este dossiê traz uma série de relatos e estudos que apresentam dados sobre contaminação de águas e alimentos, bem como de diversos casos de exposição direta de populações inteiras a venenos potentes, os quais causaram efeitos imediatos sobre a saúde dos atingidos. Mas mais do que trazer dados científicos e relatos, o que o Dossiê da Abrasco faz é apresentar um diagnóstico compreensivo dos graves problemas causados pelo vício em agrotóxicos em que a agricultura corporativa brasileira está baseada; além de apontar subsídios para a superação deste modelo ambiental, social e economicamente insustentável. 

E é preciso que se precise que a partir de 2015 não apenas apareceram mais evidências sobre os danos em curso por causa do uso de uma multitude de venenos agrícolas, a Abrasco continuou a sua compilação de evidências materiais. Assim, as negativas e a tentativa marota da ministra da Agricultura para desacreditar as evidências de que a agricultura brasileira está afundando no veneno não são resultado de falta de conhecimento científico, mas de desprezo pelo que já rigorosamente documentado pela comunidade de pesquisadores brasileiros.

A verdade é que esse modelo ancorado no veneno só é viável com uma série de benefícios econômicos que aparecem na forma de isenções fiscais, crédito subsidiado e um pesado esforço para apoiar a movimentação da produção oriunda dos grandes latifúndios. Em alguns casos, vendedores de veneno são também fazendeiros (um exemplo recente é o do deputado Luiz Nishimori (PL/PR) que chegou a ocupar a posição de relator do Projeto de Lei 6299 (o famigerado Pacote do Veneno).

É imperioso romper com esse ciclo de benesses que premia um pequeno grupo de pessoas em detrimento do direito da maioria dos brasileiros de consumirem alimentos e água sem venenos, bem como de exercer atividades agrícolas dentro de um modelo que seja sustentável.

 

Brasileiros estão comendo alimentos contaminados por agrotóxicos em um voo cego

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Uso intensivo, e muitas vezes abusivo, de agrotóxicos contamina principais alimentos consumidos pelos brasileiros.

Em meio à enxurrada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, os brasileiros estão totalmente desinformados sobre o montante de resíduos que estão sendo consumidos a partir da ingestão de alimentos produzidos no território nacional. É que desde 2016 está suspensa a divulgação de resultados do chamado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) que era feita regularmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em seu último relatório, o PARA nos ofereceu dados assombrosos sobre a contaminação de alimentos que os brasileiros colocam diariamente em suas mesas, incluindo alface, pimentão, repolho, tomate, cebola, mamão e morango, apenas para citar os que apresentaram índices mais significativos de contaminação, e também pela multiplicidade de resíduos de diferentes tipos de agrotóxicos.

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Dentre as razões citadas no relatório do PARA que deveriam estar gerando grande alarme nos consumidores brasileiros estão a presença de agrotóxicos que já foram diagnosticados como causadores como doenças graves, o uso incorreto de produtos em relação ao que foi aprovado pelos órgãos reguladores, e ainda a aplicação de dosagens que extrapolam os limites de risco. Quando colocados juntos, todos esses fatores explicam a presença de vários agrotóxicos em uma mesmo alimento e com limites excedendo o estabelecido na legislação.

O fato é que o povo brasileiro está ingerindo alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos de uma forma que equivale a voar em um avião desprovido de aparelhos de navegação. E, pior, por causa da suspensão do PARA, sequer sabemos qual é o nível de contaminação dos itens que são consumidos de forma mais rotineira. Ou seja, estamos nos alimentando como se estivéssemos em um voo cego.  Desta forma, toda a cantilena que os pais usam para convencer seus filhos a consumirem salada pode não ser apenas propaganda enganosa, mas também uma fonte de envenenamento crônico para nossas crianças.

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O interessante é que neste momento, a União Europeia está negociando um amplo comercial com o Mercosul, do qual o Brasil é o principal membro em termos de exportação de alimentos para os países europeus.  O curioso é que na Europa, não apenas os níveis aceitáveis de resíduos de agrotóxicos são muito mais rígidos no que se refere ao que pode ser aplicado pelos agricultores europeus, mas também no que pode ser detetado nos alimentos.  

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Até agora a União Europeia passou ao largo do problema da contaminação da produção brasileira por agrotóxicos ao não permitir a alimentação direta a humanos, permitindo apenas o uso como ração. Mas com o aumento acelerado da aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, muitos deles já banidos na União Europeia, fica a dúvida de até quando essa permissão continuará.

Para complicar a situação ainda há a campanha de boicote iniciada pela rede sueca Paradiset contra alimentos produzidos no Brasil por causa da aprovação desenfreada de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro (197 apenas nos primeiros 5 meses de 2019) parece estar se disseminando para fora da Suécia, apesar dos apelos em contrário da embaixada brasileira em Estocolmo. Se mais redes de outros países europeus aderirem ao boicote, é bem possível que haja mais pressão por mais transparência sobre o nível de contaminação dos alimentos que os próprios brasileiros estão ingerindo todos os dias.

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset é o principal incentivador do boicote a alimentos produzidos no Brasil por causa da contaminação com agrotóxicos.

Mas o fato é que o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos não pode ser mais ignorado, pois efetivamente já se tornou um grave problema de saúde coletiva no Brasil.  A primeira demanda que devemos fazer neste momento é pela retomada da divulgação dos relatórios do PARA, pois é um direito de todos os brasileiros quais alimentos estão contaminados e por quais tipos de agrotóxicos. Ignorar o problema da contaminação dos nossos alimentos não é uma opção aceitável. Simples assim!

Agrotóxicos deixam um rastro de doenças e mortes pelo Brasil

Diversos agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo, inclusive países de origem dos fabricantes, foram liberados pelo governo Bolsonaro. Pesquisas apontam que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes.

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Imagem por Agência Brasil

Por  Frederico Rochaferreira para o LeMonde Diplomatique Brasil

O governo Bolsonaro liberou 197 agrotóxicos em cinco meses. Neste pacote estão produtos considerados cancerígenos, como o paraquat, da Syngenta (nome comercial Gramoxone 200) e o glifosato, da Monsanto/Bayer.

O paraquat – proibido em mais de 50 países e em todo território europeu desde 2007, inclusive em seu país de origem, a Suíça –  é um agrotóxico associado não só a casos de câncer, mas também ao mal de Parkinson, fibrose pulmonar e danos genéticos, sendo um dos agentes químicos mais vendidos no Brasil.

Em setembro de 2017, a Anvisa proibiu o uso do paraquat. Mas, dois meses depois, voltou atrás, ante a pressão dos ruralistas e do lobby da fabricante Syngenta. A empresa levou políticos para uma viagem à Suíça para “conhecer aspectos da capacidade de inovação suíça” e fazer uma visita à multinacional. Uma das  convidadas da empresa foi a então deputada Teresa Cristina, hoje ministra da Agricultura.

O veneno suíço continua liberado por aqui, contaminando o arroz, a banana, a batata, o café, a cana-de-açúcar, o feijão, a maçã, o milho, a soja, a maçã e o trigo, para citar alguns. Mas a Syngenta não é a única fabricante de agrotóxico que tem seu produto proibido à venda no próprio país. Nesse rol, encontra-se também a norte-americana FMC Corp., a dinamarquesa Cheminova A/S e a Helm AG, da Alemanha, cujos agentes químicos não são permitidos em seus mercados domésticos, mas são livremente comercializados no Brasil.

Outro produto utilizado em larga escala pela indústria agrícola brasileira é o glifosato, um composto químico desenvolvido pela Monsanto, também, considerado cancerígeno. Recentemente a Bayer, que absorveu a Monsanto, sofreu uma pesada derrota na justiça federal dos EUA, em um processo envolvendo a utilização do glifosato. O fato abriu precedente para milhares de processos semelhantes de pessoas que alegam que o uso do herbicida lhes causou câncer. No total, são 11.200 ações em todo o país.

No Brasil não há um estudo definitivo que aponte para o número de doenças e mortes em função do consumo de alimentos contaminados. Temos conhecimento de que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano  e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes. Além disso, pesquisas como as desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Fundação Oswaldo Cruz relacionam diversas doenças com o consumo de agrotóxicos. Entre elas, o mal de Parkinson, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, má formação fetal, aborto, endometriose e câncer de diversos tipos, além de estatística de mortes em uma determinada região.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o câncer passou a ser a primeira causa de morte em 140 municípios. Isso ocorreu logo depois que as lavouras do Estado receberam cerca de 100 mil toneladas de veneno, entre os anos de 2012 e 2014. Na região Noroeste do país, a média é de dez agricultores diagnosticados com câncer por dia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 80% dos casos de câncer no mundo, vem da exposição aos agentes químicos. Por outro lado, a intoxicação pelo uso de agrotóxicos no território brasileiro tem dados consistentes, como é possível ver nos mapas produzidos pela pesquisadora da USP, Larissa Mies Bombardi.

Em uma sequência cartográfica, Larissa Mies mostra que mais de 25 mil intoxicações causadas por agrotóxicos foram registradas no período de 2007 a 2014. O que dá 3.125 casos de intoxicações por ano ou oito casos por dia, com 1.186 mortes, sendo 343 bebês. Isto é, uma morte a cada dois dias e meio. Contudo, os números podem ser bem maiores. Segundo pesquisadores, para cada caso registrado,  outros 50 não são notificados, mesmo entendimento de especialistas em saúde pública, que aponta ser o número de mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos maior que o registrado, em função do rastreamento ser incompleto.

A dura realidade é que o Brasil se tornou o celeiro de pesticidas proibidos ou eliminados em países desenvolvidos  e de forma irresponsável, vem permitindo sua utilização e o envenenamento da agricultura, do trabalhador rural em particular e da população.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Universidade cria técnica que identifica uso de agrotóxicos em frutas

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Por Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil

Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Goiás (UFG) possibilitará, a produtores e autoridades sanitárias, identificar e mensurar o uso de agroquímicos – em especial pesticidas e fungicidas – nas frutas e legumes consumidos no país.

Segundo pesquisadores, a técnica poderá ser usada também para checar se os produtos enviados ao exterior estão em conformidade com a legislação estrangeira no que se refere a agrotóxicos.

O orientador da tese, professor do Instituto de Química da UFG, Boniek Gontijo, explica que a técnica permite, também, evitar “as discrepâncias entre a quantidade sugerida nos rótulos de agrotóxicos e a quantidade suficiente para que o agroquímico exerça sua função. Em geral, eles sugerem uma quantidade maior do que a necessária, com o objetivo de aumentar seus lucros”, justificou o professor.

Desenvolvida em parceria com a Louisiana State University (EUA), a técnica foi usada, inicialmente, para identificar o nível de penetração do fungicida imazalil em maçãs.

“Constatamos que a substância penetra além da casca da fruta, atingindo em pouco tempo suas estruturas internas, o que pode prejudicar a saúde do consumidor, mesmo que a casca seja lavada”, disse à Agência Brasil o orientador do estudo.

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Molécula não é degradada pela luz

“Ao contrário do que é dito nas especificações do fungicida, sua molécula não é degradada pela luz e, com isso, acaba penetrando na fruta”, acrescentou, referindo-se especificamente ao imazalil, utilizado para inibir o desenvolvimento de fungos, postergando o apodrecimento do produto.

Contatada pela Agência Brasil, a Associação Brasileira dos Produtores de Maça (ABPM) informou que este fungicida não é usado nos produtos nacionais.

“O ingrediente ativo Imazalil, apesar de estar registrado para uso em pós-colheita, não é utilizado na cultura da maçã no Brasil. Ademais, segundo relatório da Anvisa, publicado em 2016, de 764 amostras enviadas para análise de resíduos, apenas 0,65% ou 5 amostras detectaram a presença de resíduos de Imazali”, explica o diretor executivo da ABPM, Moisés Lopes de Albuquerque.

Ele acrescenta que, para fazer o levantamento, a Anvisa coleta amostras na gôndolas de supermercados, o que inclui maçãs nacionais e importadas. “Portanto, relacionamos a detecção da substância em 5 amostras à fruta importada”, afirmou. Segundo Moisés Albuquerque, de cada 10 maçãs consumidas no Brasil, 9 foram produzidas em solo brasileiro.

maça 2Pesquisa da UFG concluiu que agrotóxico penetra além da casca da maçã — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

A Agência Brasil confirmou que as maçãs usadas no estudo da UFG não foram produzidas no Brasil. “Usamos, no estudo em parceria com a universidade norte-americana, maças comercializadas naquele país para avaliar como se dá a penetração de pesticidas em frutas. Trata-se de um estudo piloto no sentido de identificarmos maneiras mais fáceis de avaliar a penetração de fungicidas em frutas e legumes”, disse Boniek Gontijo.

“Apesar de o Brasil não fazer uso deste fungicida, a técnica desenvolvida permite desenvolvermos métodos sobre a aplicação de outros pesticidas, fungicidas ou agroquímicos em outros hortifrutis. Inclusive, já estamos trabalhando com tomate em uma abordagem similar”, acrescentou.

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Esta matéria foi inicialmente publicada pela Agência Brasil [Aqui!].

Explicando os agrotóxicos: os produtos presentes em 70% daquilo que os habitantes dos EUA comem

Estudos têm ligado questões de saúde a longo prazo ao consumo de agrotóxicos, enquanto técnicos de governos insistem que violações de limites seguros são raras

comida agrotóxico450 milhões de Kg  agrotóxicos convencionais são usados anualmente nos EUA, de acordo com os dados mais recentes da EPA. Foto: Andy Paradise / The Independent / REX

Por Lauren Zanolli   para o jornal “The Guardian”

O que são agrotóxicos?

A Environmental Protection Agency (EPA) define agrotóxico como qualquer substância química usada para regular, prevenir ou destruir plantas ou pragas – geralmente insetos, roedores ou microorganismos, como fungos e bactérias – ou que atua como um estabilizador de nitrogênio no solo.

Cerca de 450 milhões de kilos de agrotóxicos convencionais são usados ​​anualmente nos EUA, de acordo com os dados mais recentes da EPA. A Food and Drug Administration (FDA), que monitora resíduos em alimentos, descobriu que as amostras testadas raramente excederam os limites de agrotóxicos e outros produtos químicos, que a EPA diz que são calculados com base na “certeza razoável de nenhum dano”.

Os resíduos estão em até 70% dos produtos vendidos nos EUA, de acordo com a última análise anual dos dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) pelo Environmental Working Group, grupo de defesa da saúde.

Descobriu-se que alguns agrotóxicos persistentes concentram-se no leite e na carne de animais de criação através da alimentação animal contaminada, descobriram vários pesquisadores em todo o mundo, bem como em peixes em águas contaminadas. Um estudo de 20 anos do US Geological Survey, por exemplo, encontrou agrotóxicos em níveis potencialmente prejudiciais à vida aquática em 60% dos rios e córregos do país em áreas agrícolas (esse número salta para 90% nas áreas urbanas).

Até 50 milhões de americanos poderiam estar bebendo de águas subterrâneas potencialmente contaminadas com agrotóxicos, de acordo com um estudo de 2000 do USDA. Os agrotóxicos também foram encontrados em xampus, materiais de construção e fundos de barcos.

Os agrotóxicos podem causar danos?

Um número crescente de estudos ligou os agrotóxicos a vários efeitos sobre a saúde humana, embora estes ainda sejam muito debatidos. Uma revisão de 2004, de coautoria do Instituto Nacional do Câncer, concluiu que “as evidências epidemiológicas sugerem claramente que, atualmente, os agrotóxicos afetam adversamente a saúde humana”. Alguns agrotóxicos também são conhecidos por perturbar a função endócrina ou hormonal, pesquisa revisada pela EPA e publicada em um manual de toxicologia. Um relatório de 2013 encomendado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos analisou 600 estudos de investigação sobre agrotóxicos e encontrou as associações mais fortes com certos cancros, asma, leucemia infantil e doença de Parkinson, mas não conseguiu tirar conclusões sólidas. Uma resposta a esse relatório apontou limitações dos dados e recomendou novas abordagens para o uso de dados epidemiológicos nas avaliações de risco. Os agrotóxicos são “intrinsecamente tóxicos”, diz a Organização Mundial de Saúde.

A EPA afirma que suas ações regulatórias e melhorias na ciência nos últimos anos levaram a “um aumento no uso de agrotóxicos menos tóxicos e mais seguros… [e] uma tendência geral de redução do risco de agrotóxicos”.

Em uma decisão histórica em agosto do ano passado, a Monsanto foi considerada responsável por causar o câncer de um zelador da escola por meio da exposição ao Roundup, principal pesticida da empresa. No início deste mês, em um caso posterior, a Monsanto foi condenada a pagar mais de US $ 2 bilhões para um casal que teve câncer depois de usar seu herbicida. O Roundup, um herbicida organofosforado à base de glifosato, é um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, se não o mais utilizado. Uma revisão formal do glifosato pela EPA e pela Agência para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR) divulgada este mês encontrou algumas ligações estatisticamente significativas com certos tipos de câncer, como o linfoma não-Hodgkin.

Os trabalhadores agrícolas enfrentam uma exposição significativamente maior do que a população geral. Os agrotóxicos têm sido associados a uma lista de problemas de saúde em longo prazo, incluindo: câncer de próstata, pulmão, tireóide e medula óssea; diabetes; Mal de Parkinson; asma e degeneração macular, de acordo com o Agricultural Health Study, um estudo de pesquisa financiado pelo governo que monitora quase 90.000 agricultores e seus cônjuges desde o início dos anos 90. Envenenamento por agrotóxicos pode causar, juntamente com efeitos de curto prazo, danos neurológicos em longo prazo, um manual da EPA para os profissionais de saúde adverte.

Os agrotóxicos organofosforados (OPs), que incluem o glifosato e o clorpirifos, têm sido alvo de alguns pesquisadores como especialmente prejudiciais. Pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram, em uma meta-revisão de 2018 sobre estudos de saúde em OP, “provas convincentes” de que a exposição pré-natal leva ao aumento do risco de distúrbios do neurodesenvolvimento e déficits cognitivos e comportamentais. Esses pesquisadores pediram aos governos em todo o mundo que eliminassem completamente os produtos químicos. A partir de abril, a EPA está sob ordem judicial para decidir se proíbe o clorpirifos, que a agência descobriu em 2017, para exceder os padrões seguros de resíduos de agrotóxicos em alimentos e água, até julho.

Como os consumidores podem limitar os riscos?

Os agrotóxicos podem entrar no corpo através da inalação, através da pele do solo ou água contaminados, ou através de alimentos contaminados.

Reduza sua exposição através da comida, descascando produtos e cortando a gordura da carne e do peixe (onde os agrotóxicos podem se acumular); lavar e esfregar frutas e vegetais sob água corrente (nem todos os agrotóxicos podem ser lavados, diz a EPA); e selecionando alimentos de diferentes fontes para evitar a exposição potencialmente alta a um único pesticida.

Compre  produtos orgânicos onde você puder. Mas não evite alimentos frescos se você não puder comprar orgânicos. Coma diferentes tipos de produtos para evitar uma exposição potencialmente alta a um único pesticida.

Faça compras no mercado de agricultores locais e pergunte sobre práticas de agrotóxicos diretamente da fonte, ou você pode ir ainda mais longe se tiver um jardim e cultivar o seu próprio.

Como os agrotóxicos são regulados?

A EPA supervisiona todos os agrotóxicos usados ​​ou produzidos nos EUA e estabelece certas normas de segurança para agrotóxicos usados ​​em alimentos na alimentação animal. A agência também regula os limites máximos de alguns agrotóxicos na água potável, mas muitos permanecem sem monitoramento. Embora os fabricantes devam registrar todos os agrotóxicos na EPA, os ingredientes inertes são considerados “segredos comerciais” e não precisam ser divulgados.

Os EUA continuam a usar vários agrotóxicos proibidos na UE ou em outros países, incluindo atrazina, glifosato, 1,3-D, paraquate e neonicotinóides. Todos estão ligados a sérios problemas de saúde ou ambientais. Por exemplo, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriram que a exposição ao Paraquate e outros dois pesticidas aumentaram em três vezes o risco para a doença de Parkinson, e a Comissão Européia restringiu severamente os neonicotinóides devido aos riscos para as abelhas.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]