A Europa vende o veneno, mas não quer comprar a comida contaminada

Relatório da Comissão Europeia expõe o risco de agrotóxicos proibidos no bloco europeu se transformarem em uma nova barreira às exportações agrícolas brasileiras

Um novo relatório produzido pelo Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia deveria ser lido com atenção em Brasília e pelos setores do agronegócio brasileiro. O documento mostra que continuar utilizando substâncias consideradas perigosas demais para uso na União Europeia pode se transformar em uma ameaça concreta ao acesso dos produtos agrícolas brasileiros a um dos mercados mais importantes do mundo.

O estudo, assinado por Jesus Barreiro-Hurle, Caetano Beber, Estefania Vázquez-Torres, Daniele Bertolozzi-Caredio, Francisco J. Areal e Thomas Fellmann, analisa os efeitos potenciais de reduzir ao limite de quantificação os resíduos permitidos de 18 ingredientes ativos considerados entre os mais perigosos e já proibidos no bloco. Essas substâncias aparecem associadas a 235 produtos agrícolas exportados por 86 países. O princípio europeu é simples: agrotóxicos proibidos por razões ambientais ou sanitárias não deveriam retornar ao continente por meio de alimentos importados.

Para o Brasil, o alerta é importante já que o relatório identifica cinco ingredientes ativos — mancozebe, tiofanato-metílico, glufosinato, benomil e carbendazim — associados a conjuntos de produtos cujas vendas brasileiras ao mercado europeu variam entre aproximadamente US$ 634 milhões e US$ 1,21 bilhão. Dependendo da substância, entre 51% e 66% das exportações brasileiras desses produtos têm como destino a União Europeia. O caso do ciproconazol torna o problema ainda mais concreto. Esse fungicida, proibido na União Europeia e classificado como tóxico para a reprodução, apareceu no monitoramento de importações procedentes do Brasil. O JRC encontrou resíduos em 13% das amostras de café brasileiro e em 6% das de soja analisadas, e o Brasil aparece como fornecedor dominante desses dois produtos entre os países considerados.

Não se trata, portanto, apenas de uma discussão toxicológica, mas de uma possível barreira comercial produzida pelo próprio modelo agrícola brasileiro. Se a União Europeia endurecer os limites, exportadores poderão ter de substituir agrotóxicos, segregar cadeias produtivas destinadas ao mercado europeu ou redirecionar mercadorias para outros compradores. O próprio JRC trabalha com custos adicionais de adaptação entre 5% e 20% e considera que, para café e soja brasileiros, a substituição do ciproconazol pode apresentar custos acima da média.

A cadeia da soja também pode sentir os efeitos. Em um dos cenários intermediários, as exportações brasileiras de farelo de soja para a União Europeia caem 14%. O aumento das vendas de soja em grão não compensa totalmente essa perda, o que mostra como uma mudança nos limites de resíduos pode repercutir sobre toda uma cadeia produtiva.

A contradição europeia, porém, é difícil de ignorar. Enquanto o bloco se prepara para restringir a entrada de alimentos contendo resíduos de determinados agrotóxicos, empresas sediadas na própria Europa continuam participando do comércio internacional dessas substâncias. Investigações recentes mostraram que países europeus continuam autorizando a exportação de agrotóxicos proibidos para uso interno, e o Brasil figura entre os principais destinos. O glufosinato sintetiza bem essa contradição. A União Europeia proibiu seu uso por razões toxicológicas, mas empresas europeias continuaram produzindo a substância para exportação. Agora o relatório do JRC identifica justamente o glufosinato entre os ingredientes ativos capazes de expor centenas de milhões de dólares das exportações brasileiras ao mercado europeu.

Uma cadeia bastante peculiar é formada: a Europa considera determinada substância perigosa demais para seus agricultores, empresas europeias continuam podendo vendê-la para outros países, agricultores brasileiros utilizam esses produtos e, depois, a própria Europa pode recusar os alimentos que retornem contendo seus resíduos. O custo sanitário, ambiental e potencialmente econômico fica concentrado principalmente nos países que recebem esses produtos.

Entretanto,  seria um erro usar essa contradição como justificativa para manter o atual padrão brasileiro de uso de agrotóxicos. O relatório aponta justamente na direção oposta. Se substâncias como mancozebe, glufosinato, carbendazim, benomil e ciproconazol já enfrentam restrições severas em mercados importantes, persistir nessa dependência pode significar produzir hoje uma barreira comercial para amanhã.

Durante décadas, parte do discurso do agronegócio brasileiro sustentou que restringir agrotóxicos reduziria nossa competitividade. O relatório do JRC sugere o contrário: a dependência de agrotóxicos altamente tóxicos pode se tornar uma ameaça à competitividade futura da agricultura brasileira. O Brasil corre o risco de descobrir pela via comercial aquilo que deveria ter aprendido pela via da saúde pública e da proteção ambiental.

Peixes revelam sinais preocupantes sobre a saúde dos rios no Oeste do Paraná

Alterações em órgãos, danos genéticos e indicadores de estresse apontam impactos associados à degradação ambiental e à presença de contaminantes

Com relevância ambiental, econômica e social para o Oeste do Paraná, os rios estudados abastecem atividades essenciais como irrigação agrícola, abastecimento rural e industrial, pesca e manutenção dos ecossistemas aquáticos. Fotos: Denis Ferreira Netto/Acervo Pessoal

Por Jéssica Tokarski para “Ciência UFPR” 

Lesões em brânquias, danos no fígado e alterações genéticas encontradas em peixes acenderam um alerta sobre a situação dos rios do Oeste do Paraná. A baixa qualidade da água nos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro revela sinais de degradação ambiental associados à ação humana na região.

O cenário, identificado em pesquisa da Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental (PPGETA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pode comprometer a saúde dos ecossistemas aquáticos, reduzir a biodiversidade, favorecer desequilíbrios ecológicos e limitar os múltiplos usos da água, como o abastecimento, a irrigação, a piscicultura e a garantia de água potável para os animais.

Para avaliar esses parâmetros, Fernando Garrido de Oliveira, orientado pela professora Lilian Dena dos Santos, utilizou, em sua tese de doutorado, métodos de monitoramento, biomonitoramento e ferramentas geotecnológicas.

As análises identificaram aumento de nutrientes, maior turbidez da água, excesso de sedimentos e presença de metais, indicadores associados ao processo de degradação ambiental e relacionados principalmente à atividade agrícola, uso de fertilizantes e agrotóxicos, urbanização e lançamento inadequado de efluentes não tratados.

Pesquisa buscou identificar “sinais invisíveis” de contaminação

Os biomarcadores avaliados funcionam como uma espécie de “termômetro” da saúde dos rios, pois permitem detectar os efeitos da contaminação diretamente nos organismos que vivem nos rios ao longo do tempo, diferentemente das análises químicas, que registram a presença de substâncias em um momento específico da coleta.

Mapas com resultados finais da pesquisa, incluindo as duas estações nas quais foram realizadas coletas de água

Uma das coordenadoras do Laboratório de Qualidade de Água e Limnologia da UFPR Palotina, Lilian dos Santos explica que as alterações fisiológicas, bioquímicas, histológicas e genéticas identificadas nos organismos aquáticos refletem condições ambientais que podem comprometer a sobrevivência, o crescimento e a reprodução das espécies.

“Quando esses efeitos ocorrem de forma contínua, há maior risco de redução das populações, diminuição da diversidade biológica e desaparecimento de espécies mais sensíveis à contaminação. Como consequência, os ecossistemas tendem a se tornar mais simples e menos resilientes, favorecendo a predominância de organismos mais tolerantes à poluição e reduzindo o equilíbrio ecológico dos ambientes aquáticos”, disse à Ciência UFPR.

(Clique para ampliar | Baixe em pdf)

O pesquisador Fernando de Oliveira alerta que, embora os principais impactos da degradação ambiental sejam inicialmente observados nos ecossistemas aquáticos, eles também podem representar riscos indiretos à saúde humana.

“A presença de contaminantes em rios e córregos pode comprometer a qualidade da água utilizada para abastecimento, irrigação, atividades produtivas e recreação. Além disso, substâncias como agrotóxicos, metais e outros poluentes podem se acumular nos organismos aquáticos e ser transferidas ao longo da cadeia alimentar, aumentando a exposição de animais e seres humanos. A degradação da qualidade da água também está associada ao aumento do risco de doenças relacionadas à contaminação hídrica e à proliferação de organismos patogênicos”, salienta.

Como o uso do solo influencia os rios

Segundo o estudo, o modelo agrícola predominante no Oeste do Paraná, baseado na sucessão soja-milho e na alta intensidade produtiva, exerce forte influência sobre a qualidade dos recursos hídricos da região.

“A expansão e o manejo dessas culturas estão associados à redução da vegetação ciliar, ao aumento dos processos erosivos e ao assoreamento dos cursos d’água. Além disso, o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos favorece o transporte de nutrientes, sedimentos e contaminantes para os rios por meio do escoamento superficial. Esse aporte contínuo de poluentes contribui para alterações físico-químicas na água, para processos de eutrofização e para a degradação dos habitats aquáticos”, revelam os pesquisadores.

Os resultados evidenciam a necessidade da adoção de estratégias de manejo sustentável para garantir o desenvolvimento da piscicultura sem comprometer a integridade dos ecossistemas aquáticos.

“A melhoria da qualidade dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro depende de ações integradas voltadas à conservação dos recursos hídricos e ao uso sustentável do solo”, pontua Lilian.

Entre as medidas consideradas prioritárias estão a recuperação e a preservação das matas ciliares (fundamentais para reduzir a erosão) e a adoção de métodos para o tratamento dos efluentes oriundos da piscicultura.  Também são essenciais o controle dos processos erosivos e do assoreamento, a ampliação e a eficiência dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto e a adoção de práticas agrícolas que reduzam o uso inadequado de fertilizantes e agrotóxicos.

“No setor aquícola, o fortalecimento de estratégias de manejo sustentável pode minimizar o aporte excessivo de nutrientes e de matéria orgânica aos ambientes aquáticos. Além disso, o monitoramento contínuo da qualidade da água, aliado à avaliação de biomarcadores em organismos aquáticos, permite detectar precocemente impactos ambientais”, comenta Oliveira.

O estudo, fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Araucária, foi indicado como a melhor tese de doutorado de 2025 pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental. Um artigo derivado da pesquisa também recebeu prêmio no eixo Saúde e Meio Ambiente do VI Congresso da Sociedade de Análise de Risco Latino-Americana.

➕ Leia a tese Análise integrada da qualidade e saúde dos ecossistemas aquáticos de três rios do oeste paranaense, apresentada ao curso de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental da UFPR Palotina e disponibilizada no Acervo Digital da UFPR; e o artigo Environmental assessment of three southern Brazilian rivers using an integrated biomarker response index in Hypostomus ancistroides applied to GIS, publicado no periódico Environmental Research (acesso aberto; em inglês)


FONTE: CIÊNCIA UFPR

Agrotóxicos: entre o que se aplica, o que chega à cultura e o que efetivamente alcança o alvo

Quase três décadas de avanços tecnológicos tornaram a pulverização mais precisa, mas não eliminaram as perdas para outros compartimentos ambientais nem resolveram a enorme distância entre a quantidade aplicada e aquela que efetivamente alcança o organismo-alvo

Quando David Pimentel e Lois Levitan publicaram, em 1986, o artigo Pesticides: Amounts Applied and Amounts Reaching Pests, chamaram atenção para uma característica desconcertante do modelo de controle químico de pragas: frequentemente, menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados às culturas alcançava efetivamente as pragas-alvo. A eficiência, entretanto, variava muito conforme o tipo de aplicação. O problema levantado pelos autores era justamente a enorme distância existente entre a quantidade lançada no ambiente e aquela que efetivamente cumpria a finalidade para a qual havia sido aplicada.

Vinte e oito anos depois, Peter Kryger Jensen e Merete Halkjær Olesen abordaram o problema por outro ângulo. Em uma revisão publicada na revista Crop Protection, os pesquisadores analisaram estudos de balanço de massa das pulverizações, procurando determinar quanto do produto aplicado ficava depositado sobre a cultura, quanto chegava ao solo e quanto era transportado para fora da área tratada por deriva.

A comparação entre os dois trabalhos exige uma distinção fundamental. Chegar à cultura não significa chegar à praga. Pimentel e Levitan estavam interessados principalmente na parcela que efetivamente alcançava o organismo que se pretendia controlar. Jensen e Olesen analisaram sobretudo a eficiência física da pulverização. Assim, uma aplicação pode apresentar elevada deposição sobre folhas e frutos e, ainda assim, apenas uma pequena parcela da dose original alcançar o inseto, patógeno ou planta daninha que justificou sua utilização.

A tecnologia avançou, mas as perdas permaneceram

Entre os dois estudos ocorreu um importante desenvolvimento tecnológico. Melhorias nos bicos, controle do tamanho das gotas, assistência de ar, sistemas de reciclagem e equipamentos como os tunnel sprayers aumentaram substancialmente a capacidade de colocar o produto sobre a vegetação e reduzir determinadas formas de perda.  Jensen e Olesen encontraram situações em que a deposição sobre a cultura ultrapassava 70% ou mesmo 80%, mas também demonstraram enorme variação conforme cultura, estágio de desenvolvimento e tecnologia utilizada. Em videiras, por exemplo, pulverizadores convencionais apresentaram frações não contabilizadas entre aproximadamente 10,8% e 25,7%, enquanto nos sistemas em túnel esses valores ficaram entre 0% e 7,3%.

Isso demonstra um ganho tecnológico real. Mas não significa que o problema ambiental tenha desaparecido.  O fato é que em aplicações convencionais sobre macieiras, 20% a 40% da quantidade aplicada não foi recuperada nas plantas ou no solo. Em outros sistemas de fruticultura, a fração não contabilizada alcançou 38,2% na laranja, 50,4% no pêssego e 61,8% na tangerina. Além disso, as condições meteorológicas alteraram radicalmente os resultados: em um experimento com macieiras, a recuperação da dose caiu de 91% pela manhã para apenas 68% ao meio-dia, sob temperatura mais elevada e menor umidade relativa.

O paradoxo da eficiência

Há, entretanto, uma segunda dimensão que precisa ser incorporada a essa discussão. Enquanto aperfeiçoamos as tecnologias de aplicação, ampliamos enormemente a escala em que os agrotóxicos são utilizados pela agricultura. E isso significa que o problema não pode ser analisado apenas em termos percentuais.   Mas uma redução relativa das perdas não implica necessariamente redução da quantidade absoluta de substâncias químicas transferidas para o ambiente.  É que se a quantidade total aplicada aumenta, mesmo uma porcentagem menor de perda pode representar uma massa considerável de agrotóxicos alcançando lugares que nunca foram seus alvos.

E aquilo que não chega ao alvo não simplesmente desaparece. Jensen e Olesen lembram que as perdas durante a aplicação são inevitáveis e que a deposição no solo constitui uma fonte potencial de lixiviação e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Os autores também chamam atenção para a deriva aérea, cuja quantificação continua metodologicamente difícil e que pode representar uma fração significativa do produto aplicado.

Assim, o que aparece como “perda” do ponto de vista agronômico deve ser entendido ambientalmente como transferência. O produto pode chegar ao solo, às águas superficiais e subterrâneas e à atmosfera e, por essas diferentes rotas, criar condições de exposição de organismos não alvo. É nesse contexto mais amplo que precisam ser considerados os impactos sobre plantas, microrganismos, insetos, polinizadores, organismos aquáticos, aves e também seres humanos. A extensão concreta desses efeitos, entretanto, precisa ser estabelecida por estudos toxicológicos e ambientais específicos, pois não foi objeto da revisão de Jensen e Olesen.

Mais precisão não resolve uma questão de escala

Colocados lado a lado, os dois estudos revelam uma contradição importante. Em 28 anos, aperfeiçoamos consideravelmente a capacidade de entregar o agrotóxico à cultura, mas não eliminamos sua transferência para compartimentos que não constituíam o alvo. Tampouco Jensen e Olesen oferecem evidências de que essa melhoria na deposição tenha produzido um aumento equivalente na fração da dose original que efetivamente alcança o organismo que se pretende controlar.

Por isso, o valor de menos de 0,1% apresentado por Pimentel e Levitan não deve ser simplesmente transportado para os dias atuais como se décadas de inovação tecnológica não tivessem ocorrido. Mas também não há nesses trabalhos evidência de que o problema fundamental identificado em 1986 tenha sido resolvido. Talvez esteja aí o aspecto mais inquietante dessa comparação.  A melhoria tecnológica tornou mais eficiente o processo de pulverização, mas simultaneamente aumentamos a escala na qual pulverizamos. Quando essas duas tendências são combinadas, ganhos relativos de eficiência podem ser anulados pelo crescimento absoluto da quantidade utilizada, mantendo ou mesmo ampliando a pressão química exercida sobre os sistemas ambientais.

A pergunta relevante, portanto, não deveria ser apenas quanto do agrotóxico conseguimos colocar sobre uma lavoura. Deveríamos perguntar quanto efetivamente chega ao organismo-alvo, quanto é necessário aplicar para produzir esse resultado e onde termina todo o restante. Afinal, aperfeiçoar a entrega é importante. Mas, diante da expansão do uso dessas substâncias, a questão ambiental fundamental continua sendo outra: quanto mais agrotóxico colocamos em circulação, maior é a importância de saber quanto dele vai parar justamente onde nunca deveria ter chegado.

Países da UE não chegam a um acordo sobre novas regras para regular agrotóxicos

Provavelmente caberá à Irlanda, que assumirá a Presidência do Conselho, encontrar um consensoBrasil – Agricultura – Plantações de soja pulverizadas com pesticida

Plantações de soja são pulverizadas com agrotóxicos em uma fazenda no Brasil. (Foto de Paulo Fridman/Corbis via Getty Images) 

Por Euractiv 

A proposta de Chipre sobre novas regras para agrotóxicos não obteve a aprovação dos embaixadores da UE na sexta-feira.

O pacote, apresentado pela Comissão em dezembro, inclui medidas para acelerar a adoção de agrotóxicos biológicos pelos agricultores e conceder aprovações ilimitadas para substâncias  sintéticas. Inclui também medidas rigorosas contra resíduos de produtos químicos proibidos na  União Europeia (UE) em alimentos importados.

Após semanas de negociações técnicas, Chipre, que detém a presidência rotativa do Conselho, acreditava ter chegado a uma versão final de compromisso equilibrada . No entanto, não conseguiu alcançar a maioria necessária para iniciar as negociações com o Parlamento.

Uma dúzia de países, incluindo Alemanha, Itália e Espanha, não endossaram o texto, disseram dois diplomatas à Euractiv .

A proposta de restringir as importações que contenham vestígios de certos agrotóxicos proibidos na UE, para proteger os agricultores europeus da concorrência desleal de países terceiros, tem sido um dos pontos mais controversos desde o início das negociações.

A medida gerou críticas dos parceiros comerciais da UE, bem como de Estados-membros como a Dinamarca e a Alemanha, devido ao seu potencial impacto no comércio.

Em contrapartida, países como a França e a Polônia, que estão em conflito com o acordo UE-Mercosul devido a supostos padrões mais baixos nas importações provenientes dos países do Mercosul, defenderam a inclusão da disposição. Ambos os governos também tomaram medidas para propor uma proibição nacional de certos resíduos de agrotóxicos nas importações, a fim de pressionar Bruxelas.

O texto de compromisso tentou conciliar ambos os lados, introduzindo a exigência de avaliações de impacto caso a caso da proibição de resíduos para cada substância, com foco nas implicações comerciais. Embora tenha conseguido convencer alguns países que inicialmente se opunham, como a Finlândia, isso não foi suficiente.

Mas não convenceu a Dinamarca, por exemplo, disse um diplomata dinamarquês. O país também se opôs ao apoio do texto à proposta da Comissão de duplicar o período de tolerância para substâncias proibidas.

As organizações de agricultores também se opuseram ao texto. “O texto de compromisso mais recente da Presidência continua insuficiente para proporcionar o nível de melhoria regulamentar necessário aos agricultores europeus”, afirmou a Copa-Cogeca, sindicato agrícola da UE , após a reunião dos embaixadores.

O processo voltará agora às negociações em nível técnico no grupo Antici, e muito provavelmente caberá à Irlanda, como futura Presidência do Conselho, encontrar um consenso.

Sofia Sanchez Manzanaro contribuiu para a reportagem.


Fonte: Euractiv

Milhares de poços artesianos em São Paulo operam sob risco de contaminação tóxica, alerta estudo

Dois terços dos 14 mil poços privados existentes na Região Metropolitana não estão formalmente cadastrados e muitos foram perfurados em antigas zonas industriais em processo de reconversão imobiliária

Entre os principais contaminantes destacam-se o percloroetileno e o tricloroetileno, utilizados como desengraxantes industriais, na limpeza de peças metálicas (imagem: Wirestock/Magnific)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

Com cerca de 22 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) consome em média 61,6 metros cúbicos (ou 61.600 litros) de água por segundo. Embora quase todo o abastecimento público provenha de mananciais superficiais, estima-se que aproximadamente 18% do consumo total dependa de aquíferos, por meio de cerca de 14 mil poços privados. O aporte dos aquíferos é de aproximadamente 347 milhões de metros cúbicos por ano.

Mas dois terços desses poços não estão formalmente cadastrados. E muitos deles foram perfurados em antigas zonas industriais, hoje desindustrializadas e em processo de reconversão imobiliária. A contaminação dessas áreas por resíduos industriais, principalmente solventes clorados utilizados na limpeza de máquinas, constitui um risco para o consumo de águas subterrâneas, considerando-se a dificuldade de gerir esse passivo ambiental em escala compatível com a da demanda de recursos hídricos.

Esse é o principal alerta de artigo publicado na revista científica Environmental Earth Sciences. O trabalho, apoiado pela FAPESP e assinado por Daphne Silva Pino e colaboradores, examina o quadro brasileiro, com foco especial na RMSP. “Chamamos a atenção para os riscos potenciais associados ao uso de aquíferos em áreas industriais antigas ou em reurbanização, em um contexto de monitoramento ainda fragmentado”, diz Pino.

Ela é pós-doutoranda no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP). Seu supervisor, Reginaldo Antonio Bertolo, também assina o artigo.

Bertolo sintetiza a situação: “Para cada três poços que são construídos, dois são irregulares, no sentido de que o poder público não tem ciência da existência deles nem consegue avaliar se a água utilizada oferece risco ao usuário”. Segundo o pesquisador, clubes, condomínios, indústrias e hospitais figuram entre os principais consumidores do recurso subterrâneo.

Desengraxantes industriais

Entre os principais contaminantes, englobados na categoria “solventes clorados”, destacam-se o percloroetileno (CCl) e tricloroetileno (CHCl), utilizados como desengraxantes industriais. “Essas substâncias, bastante empregadas na limpeza de peças metálicas, são altamente tóxicas”, afirma Pino. Ela lembra que o percloroetileno também foi utilizado durante décadas em lavanderias para lavagem a seco e que a atual legislação brasileira ainda permite o uso, apesar de impor diversas restrições e exigências. “Diminuiu bastante o uso, mas esses solventes continuam presentes em ambientes industriais”, pontua.

Embora esses produtos sejam controlados no âmbito industrial, informações públicas sobre quem os utiliza e em que quantidades ainda são escassas. Além disso, há lacunas regulatórias sobre descarte e reciclagem desses solventes.

Do ponto de vista hidrogeológico, o risco não se resume à toxicidade. Bertolo observa que hidrocarbonetos vazados por postos de gasolina tendem a se degradar com maior rapidez. Já os solventes clorados apresentam comportamento mais persistente. “Quando a degradação acontece, formam-se compostos ‘filhos’ que podem ser ainda mais tóxicos do que o composto original”, afirma. Pino acrescenta que, se há poços bombeando em profundidade, isso cria um gradiente hidráulico descendente que facilita o aporte desses contaminantes para níveis mais profundos do aquífero.

Uma das contribuições centrais do estudo é o cruzamento cartográfico entre três camadas de informação: zonas industriais, áreas oficialmente contaminadas por solventes clorados e poços de abastecimento. A análise mostra que, em São Paulo, essas três dimensões frequentemente se sobrepõem.


Área do bairro da Mooca, uma das regiões desindustrializadas da cidade de São Paulo (imagem: Daphne S.Pino)

Pino descreve uma das figuras produzidas pelo estudo, que corresponde a uma área do bairro da Mooca, uma das regiões da cidade de São Paulo que passaram por importante processo de desindustrialização: “Os pontos azuis representam poços de abastecimento conhecidos; os vermelhos, áreas contaminadas; e os polígonos verdes indicam áreas onde não deveria haver captação. O que chama atenção é a proximidade e até mesmo a sobreposição entre poços registrados e áreas contaminadas. O problema torna-se ainda mais grave se considerarmos a predominância de poços irregulares, que, obviamente, não aparecem na figura”.

O que acontece na Mooca ocorre também em outras áreas desindustrializadas da cidade de São Paulo. O processo de desindustrialização, iniciado ainda no final dos anos 1970, consolidou-se a partir da década seguinte e acentuou-se cada vez mais desde então. Por causa dos custos urbanos elevados, muitas empresas transferiram suas fábricas para municípios da Região Metropolitana, para o interior paulista ou até mesmo para outros Estados.

O processo deixou atrás de si um rastro de galpões abandonados e subsolo contaminado. Quando não simplesmente arruinados, antigos distritos fabris passaram a abrigar atividades de serviços, comércio e empreendimentos imobiliários em territórios não preparados para essa reconfiguração econômico-social. Com base na legislação paulista, se existir uma área contaminada em um raio de 500 metros de um poço, o responsável deve apresentar relatórios de qualidade da água ao órgão ambiental. Ao aplicar esse critério aos mapas produzidos no estudo, os autores identificaram 17 aglomerações de áreas contaminadas e poços cujos raios se sobrepõem: em regiões como Jurubatuba, Jaguaré, Mooca e Vila Prudente, na capital; e Diadema, Mauá e Osasco, na RMSP.

“Muitas dessas áreas funcionam como fontes multiponto de contaminação, com plumas que se interceptam. E há poços profundos usados para ingestão humana dentro desses cinturões”, enfatiza Pino. O estudo aponta que a gestão de áreas contaminadas costuma ser conduzida no limite de cada propriedade, enquanto a água subterrânea ignora fronteiras imobiliárias. “Remove-se solo superficial para controlar o risco imediato, impedindo, por exemplo, que vapores tóxicos entrem em edificações. Mas grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua sendo transportada pela água subterrânea”, descreve Bertolo.

Reabilitação lenta

Até 2020, apenas 18,6% dos locais contaminados por solventes clorados haviam sido classificados como “reabilitados para o uso declarado”. Essa categoria não implica na eliminação completa da massa contaminante, mas em sua redução a níveis considerados aceitáveis do ponto de vista de risco. Ao analisar o cadastro paulista, os pesquisadores identificaram 596 áreas com histórico de solventes clorados. Mais da metade ainda estava em fase de remediação, enquanto 26% permaneciam em investigação.

Bertolo afirma que a contaminação tende a se concentrar nos primeiros metros do aquífero. “Mas, quando se bombeia a 100 metros de profundidade, cria-se um gradiente descendente que faz com que a água contaminada da zona rasa migre lentamente para baixo”, explica. Ele ressalta que camadas geológicas menos permeáveis podem atuar como filtro natural, mas reconhece incertezas importantes sobre a eficácia desse mecanismo ao longo de décadas. A toxicidade dos solventes agrava o quadro. “O limite de potabilidade é da ordem de partes por bilhão”, destaca o pesquisador. “Uma quantidade mínima dissolvida já é suficiente para comprometer volumes enormes de água.”

Jurubatuba, na zona sul paulistana, aparece no artigo como a área mais estudada da RMSP. Ainda assim, três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais. Metade corresponde a instalações industriais com histórico documentado de uso de solventes clorados. Bertolo vê no monitoramento da região um ensaio do que poderia ser feito em escala maior, alcançando outras manchas industriais, como partes do ABCD paulista, com atuação coordenada entre a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas).

“Hoje, o cenário exige uma ação estratégica, que ultrapasse o caso a caso e direcione a política pública para impedir o uso da água subterrânea em áreas mais amplas. Quando se olha o aquífero, delimitações geométricas rígidas em torno de um imóvel não fazem sentido. É preciso tratar essas regiões como sistemas hidrogeológicos integrados”, acrescenta Pino.

O artigo conclui com um chamado por bases de dados mais robustas, equipes técnicas multidisciplinares e diagnósticos regionais sistemáticos, capazes de dimensionar a extensão real do problema e orientar políticas de longo prazo.

Procurada pela Agência FAPESP, a SP Águas afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, em linha com iniciativas de analisar o território de forma mais ampla e integrada – principalmente relacionando o binômio “águas subterrâneas e áreas contaminadas”, promoveu novos estudos hidrogeológicos para a região de Jurubatuba, por meio da Fundação Agência de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. “O principal objetivo desse trabalho foi aperfeiçoar o modelo de gestão existente na região, propondo o aprimoramento da integração entre os órgãos gestores e ampliando o entendimento sobre o comportamento da água subterrânea e o transporte de contaminantes”, diz a nota. “Como resultado, além da indicação de áreas com maior ou menor restrição de uso das águas, o estudo sinalizou que o modelo de gestão existente deve estabelecer, entre outras medidas, maior integração entre as Políticas Estaduais de Recursos Hídricos e de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, especialmente diante da relação de causa e efeito já mencionada no trabalho de Pino”, complementa.

Ainda segundo a SP Águas, nesse contexto, para o sucesso da aplicação do modelo de gestão das águas subterrâneas proposto em Jurubatuba, os órgãos gestores devem considerar, entre outras medidas, a possibilidade de unificação de seus bancos de dados; uma gestão adaptativa que consiga ser aprimorada à medida que resultados de monitoramentos e outros trabalhos técnicos sejam produzidos; e o estabelecimento de comunicação simplificada com a população, visando que a complexidade da região seja traduzida em orientações explicitas e acessíveis ao público.

Também procurada, a Cetesb não se manifestou até a publicação desta reportagem.

O artigo Overview of groundwater management at sites contaminated by chlorinated solvents in Brazil pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s12665-025-12727-x.


Fonte: Agência Fapesp

Abelhas nativas são as mais atingidas por agrotóxicos, mas legislações vigentes não consideram o grupo

Segundo especialistas, leis e políticas públicas vigentes foram baseadas em estudos de toxicidade aplicados unicamente em Apis mellifera – a mais usada na produção do mel –, ignorando o impacto desses produtos nas espécies sem ferrão, fundamentais para a polinização de lavouras e de ambientes naturais.

Por Carolina Fioratti para “Jornal da UNESP” 

As abelhas são a espécie mais importante do planeta Terra. Pelo menos, é o que diz o Earthwatch Institute, instituição ambientalista com mais de 50 anos de atuação. A distinção não é à toa: esses pequenos insetos desempenham serviços ambientais fundamentais à produção agrícola, trabalhando arduamente para transferir os grãos de pólen de uma flor para outra e, dessa forma, aumentar a produtividade das plantações. 

Apesar dessa reconhecida importância, durante a polinização, as abelhas frequentemente ficam expostas a agrotóxicos que são aplicados nas lavouras para combater pragas. Em contato com esses produtos químicos, as abelhas acabam levando esses produtos tóxicos para dentro dos favos, o que pode causar a mortandade de colmeias inteiras.

No Brasil, as abelhas Apis mellifera (produto de um cruzamento entre espécies europeias e africanas) são resguardadas pela legislação vigente, ou seja, há regras sobre a aplicação de agrotóxicos que protegem a espécie e minimizam os efeitos nocivos destes produtos sobre elas. No entanto, as abelhas sem ferrão (meliponíneos), que são nativas, não possuem proteção direta e, infelizmente, são as principais afetadas pelos agrotóxicos. 

Tal afirmação é apoiada por estudo publicado no início deste ano no periódico Pesticide Biochemistry and Physiology. Nele, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, no câmpus de Botucatu, em conjunto com cientistas da Universidade Southern Cross, na Austrália, revisaram 115 experimentos de toxicidade envolvendo abelhas sem ferrão e extraíram que, em 72% dos ensaios, as abelhas sem ferrão apresentaram uma maior sensibilidade aos agrotóxicos. A conclusão serve como alerta e reforça que medidas legislativas não devem ser tomadas unicamente com base em Apis mellifera. 

Em entrevista ao Jornal da Unesp, Isabella Lippi, autora principal do artigo, explicou que o grupo de pesquisa não é contra o uso dos pesticidas e reconhece sua importância para a produtividade agrícola. Por meio de seus estudos, os pesquisadores buscam, na verdade, alertar quanto à aplicação racional desses produtos, tentando reduzir ao máximo os efeitos nocivos aos polinizadores. O efeito desses insumos químicos nas abelhas foi objeto do doutorado da pesquisadora realizado na Unesp. Em 2025, o trabalho recebeu menção honrosa no prêmio Capes de Tese e, atualmente, Isabella realiza uma estágio de pós-doutorado na Universidade Southern Cross. 

Favo de Apis mellifera, grandes produtoras de mel, com cria e operárias jovens responsáveis por alimentar as larvas e a rainha com geleia real. (Créditos: Fototeca Cristiano Menezes, FCM)

Efeitos nocivos dos agrotóxicos nas abelhas

As abelhas Apis mellifera são conhecidas, além da polinização, pela capacidade de produzir mel em grande quantidade. A apicultura apresenta vantagens ao pequeno produtor, que consegue obter alguma renda mesmo a partir de uma pequena caixa repleta de insetos. O investimento e o trabalho são muito menores quando comparados, por exemplo, aos custos e ao esforço despendido na produção pecuária. Entretanto, ainda que rentável, essa é uma produção frágil: o contato desses insetos com os agrotóxicos pode matar colmeias inteiras, prejudicando o ecossistema e também a economia.

As abelhas sem ferrão também produzem mel, porém em muito menor quantidade quando comparadas à versão introduzida no país. Por conta disso, sua produção melífera é considerada rara e costuma chegar ao consumidor por um preço mais caro, uma característica que pode ser de grande valia para os produtores de abelhas nativas. Para além da questão econômica, as polinizadoras locais se destacam pelo trabalho exercido em culturas menores e cultivadas em estufas, como é o caso do pimentão, tomate e morango. Outra característica importante é a sua disposição em polinizar as plantas nativas, o que as torna essenciais para a manutenção da biodiversidade local.

Esse vínculo estabelecido com espécies vegetais nativas faz com que esses insetos voadores também sejam utilizados em projetos de regeneração florestal em áreas danificadas. “Há alguns programas de reflorestamento em áreas devastadas que visam a recuperação local a partir da inserção de vegetação nativa e, algumas vezes, ocorre esse mix de polinização entre abelhas sem ferrão e Apis mellifera”, explica Lippi. Segundo a pesquisadora, iniciativas desse tipo podem ser observadas em algumas áreas de mineração que ficam ativas por décadas e, quando são desativadas, precisam passar por processos de reflorestamento.

Ao entrar em contato com agrotóxicos aplicados na lavoura, entretanto, as abelhas podem se intoxicar e colocar todos esses serviços ambientais em risco. Essa intoxicação pode ocorrer por ingestão ou pelo contato direto com o produto e, uma vez que os insetos retornam para as colmeias, elas acabam espalhando o veneno por meio de interações sociais como limpeza mútua, trofalaxia (processo de alimentação) ou pelo contato com a cera (substância secretada pelas abelhas operárias para construir favos). 

O estudo publicado por Isabella reforça que os agrotóxicos atingem as Apis mellifera e as abelhas sem ferrão de maneiras diferentes, já que as espécies possuem tamanho corporal, atividades de voo e comportamentos sazonais diferentes. As abelhas sem ferrão coletam, por exemplo, folhas e lama para construir seus ninhos, enquanto a Apis mellifera produz favos de mel na colmeia. Por isso, alertam os pesquisadores, é preciso olhar também para as rotas de exposição das abelhas ao discutir os riscos de contaminação por agrotóxicos. “Quando pensamos na abelha sem ferrão, temos que pensar na terra que está ali perto e pode ficar contaminada. O inseto pode acabar coletando a resina de uma árvore que ficou perto ou então suas folhas, sendo necessário ampliar o leque de avaliação de risco antes de aplicar o pesticida”, exemplifica Lippi.

Vale atentar para o fato de que o estudo publicado pelos pesquisadores da Unesp e da Austrália considera apenas 24 espécies de abelhas nativas, sendo que há mais de 300 delas no Brasil. Além disso, ele faz uma revisão sistemática, não tendo sido feitos experimentos extras de toxicidade que demonstrem os efeitos negativos de agrotóxicos em abelhas sem ferrão. Na visão dos autores, o trabalho é um pontapé inicial para que mais pesquisas sejam feitas considerando essas espécies ainda não contempladas nas regras ambientais vigentes.

Legislação não considerou abelhas sem ferrão

Desde 2017, as empresas produtoras de agrotóxicos devem seguir no Brasil a Instrução Normativa (IN) do Ibama nº 2. O documento estabelece diretrizes, requisitos e procedimentos para a avaliação de riscos dos ativos de agrotóxicos para insetos polinizadores. 

Para que isso fosse possível, pesquisadores tiveram que realizar procedimentos padronizados que comprovassem os riscos de contaminação para a Apis mellifera, exclusivamente. A abelha foi escolhida como modelo por ser endêmica de diferentes partes do globo e, consequentemente, permitir uma padronização dos estudos. Os protocolos apresentados pelos cientistas são aprovados ou reprovados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – fórum internacional que reúne 38 países e apoia os governos na avaliação e mitigação dos riscos dos pesticidas agrícolas.

Está em desenvolvimento, no Brasil, um protocolo para aplicação de uma nova legislação que inclui as abelhas sem ferrão. No entanto, o projeto está parado devido a dificuldade em executar o ring test, procedimento em que vários laboratórios ao redor do globo realizam o mesmo ensaio de toxicidade para identificar o problema e, dessa forma, é possível chegar a uma conclusão padronizada. “Entre o protocolo existir e a gente padronizar e registrar na OCDE levam anos. Para registrar, é preciso ter vários países com o mesmo interesse, e nisso há o empecilho dessas espécies estarem presentes principalmente no hemisfério sul, mas não em outros locais do mapa”, explica Roberta Nocelli, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no câmpus de Araras. 

As abelhas sem ferrão são mantidas em potes para controle durante testes de toxicidade de agrotóxico. (Créditos: Roberta Nocelli)

Nocelli, que participa da elaboração do novo protocolo, cita ainda uma segunda problemática que tem prejudicado não só a biodiversidade, mas também a saúde da população pelo uso inadequado de agrotóxicos no Brasil. Trata-se do PL 1459/2022, aprovado em 2023, que reduziu as competências de órgãos fiscalizadores e flexibilizou o registro desses produtos. 

“Antigamente, para que um agrotóxico fosse registrado, era necessário o aval de três órgãos federais: o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para analisar a eficácia agronômica, a Anvisa, através do Ministério da Saúde, para avaliar a segurança para a saúde humana, e o Ibama, pelo Ministério do Meio Ambiente, que olhava para a segurança ambiental”, explica a pesquisadora. “Hoje, os órgãos fazem a avaliação, mas não tem poder de veto. Eles entregam os dados ao Ministério da Agricultura, que decide sozinho sobre a aprovação.”

Nocelli trabalha em parceria com Osmar Malaspina, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro. Malaspina investiga o impacto dos agrotóxicos sobre as populações de abelhas desde meados de 2000, tendo já embasado a criação de políticas públicas sobre o tema. Por meio de seus projetos de pesquisa, os cientistas tiveram influência em debates sobre o uso do fipronil em plantações. Esse é um pesticida altamente tóxico para o meio ambiente e que promove alterações no sistema nervoso central dos insetos. 

Em 2024, o Ibama suspendeu, como medida cautelar, a aplicação do fipronil por pulverização foliar em área total, ou seja, não dirigida ao solo ou às plantas. Outros países como Colômbia, Uruguai, Costa Rica, Vietnã, África do Sul e toda a União Europeia já proíbem o uso do agrotóxico em seus territórios. Apesar da conquista, os pesquisadores destacam que é importante encarar essa medida como um pequeno passo para a resolução de um enorme problema, afinal suspensão não é o mesmo que proibição. Além disso, ele é facilmente encontrado em casas de produtos agrícolas, podendo ser utilizado em fazendas ou mesmo dentro de casa sem restrições.  

Malaspina, no entanto, acredita que o atual cenário de mortalidade das abelhas e os esforços de conscientização por parte de pesquisadores já estão provocando mudanças no setor. Diversas companhias estão produzindo bioinsumos – produtos que utilizam organismos ou extratos naturais para o combate a pragas, doenças e plantas daninhas. “As empresas perceberam que, se continuarem usando inseticidas, pagarão um preço muito grande lá na frente”, afirma o docente.

E os esforços não devem parar: Malaspina e Nocelli integram agora o PollinERA, um projeto internacional financiado pela União Europeia cujo objetivo é realizar o maior levantamento de sensibilidade a agrotóxicos de insetos polinizadores (não exclusivo com abelhas). Os trabalhos do grupo devem gerar desde artigos científicos, contribuindo para o conhecimento na área, até novos protocolos para a European Food Safety Agency (EFSA). A expectativa é que surjam sempre novos estudos na área, em âmbito nacional e internacional, para embasar políticas públicas e defender as abelhas e toda a biodiversidade. “Apesar de termos dado um passo para trás na questão de legislação, temos dado muitos passos para frente na questão de produção de conhecimento”, avalia Nocelli. 

Imagem acima: abelhas uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) abrigadas em uma colmeia (Crédito: Roberta Nocelli)


Fonte: Jornal da UNESP

Anvisa revela alimentos campeões de agrotóxicos, mas deixa pimentão de fora das análises

Anvisa divulgou nesta quarta os novos resultados do programa que monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos; mais de 20% das amostras em 2024 continham agrotóxicos acima do limite permitido ou substâncias não autorizadas

Laranja, pepino e couve foram os alimentos que apresentaram mais irregularidades (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Por Diego Junqueira para “Repórter Brasil” 

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou na última quarta-feira (17) os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, com dados coletados em 2024. 

Segundo a agência, pepino, laranja e couve são os itens com maior proporção de amostras com resíduos de pesticidas acima do limite permitido ou de substâncias não autorizadas.

No balanço geral de 2024, foram avaliadas 3.084 amostras de 14 alimentos, das quais 636 foram classificadas como insatisfatórias. Isso representa 20,6% das amostras analisadas, o menor percentual desde 2017. 

Entre os problemas identificados, 12% do total de amostras tinham resíduos de agrotóxicos não permitidos para a cultura analisada; 5,6% apresentaram resíduos acima do limite permitido; e 0,1% continham substâncias proibidas no Brasil. As demais amostras foram consideradas satisfatórias: em 26% não houve detecção de resíduos e, em 54%, foram encontrados agrotóxicos nos alimentos, mas dentro dos limites permitidos.

Agrotóxicos com percentual de detecções acima de 1% no ciclo 2024, destacando-se o
percentual relativo à conformidade da detecção

Os maiores índices de amostras insatisfatórias apareceram no pepino, com 46% de irregularidades entre 217 amostras analisadas. Na sequência vieram a laranja, com 39% de amostras insatisfatórias em um total de 240, e a couve, com 35% em 204 amostras. 

Também apresentaram percentuais acima da média geral a uva (28%), a maçã (27%), a abobrinha (26%) e o mamão (21%). Abaixo da média apareceram aveia (18%), cebola (13%), banana (12%), soja (8%), pera (7%), milho (3%) e farinha de trigo (2%). O pimentão, que liderou algumas das análises anteriores, não foi avaliado neste ciclo.

Gráfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil e superior do formulário

Programa já monitorou mais de 45 mil amostras desde 2001

O PARA monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos com o objetivo de mitigar riscos à saúde. Desde 2001, mais de 45 mil amostras foram analisadas. O programa é realizado em parceria com órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios de saúde pública. Os resultados completos de 2024 estãoneste link.

A meta do programa é investigar periodicamente 36 alimentos que, segundo o IBGE, representam 80% dos itens de origem vegetal consumidos pela população brasileira.

As coletas em 2024 englobaram 14 produtos e foram feitas por equipes de vigilância sanitária em supermercados e sacolões de 88 municípios.

Durante apresentação dos dados na manhã de hoje, Adriana Torres, gerente de Monitoramento e Avaliação de Risco da Anvisa, afirmou que o fato de uma amostra ser considerada “insatisfatória” não significa automaticamente risco ao consumidor. Segundo ela, para determinar se há perigo à saúde, é necessário realizar uma avaliação de risco, considerando o nível de resíduo encontrado e o padrão de consumo do alimento. 

De acordo com a análise da Anvisa, 12 amostras (0,39% do total) representaram “risco agudo” à saúde do consumidor — caso uma grande porção do alimento seja consumida em um único dia. Os 12 casos incluem seis amostras de uva, cinco de laranja e uma de abobrinha. Por outro lado, nenhuma amostra representava “risco crônico”, manifestado a longo prazo.

Segundo a agência, a higienização com hipoclorito ou água sanitária, prática comum para limpeza de alimentos, tem mais relação com a redução dos riscos microbiológicos, como bactérias, fungos ou parasitas. “Então não se aplica tanto para resíduos de agrotóxicos, mas complementa a questão da segurança do alimento”, afirmou Torres.

“É importante salientar que nesse ciclo de 2024 observamos uma melhora no índice de não conformidades. É o melhor índice desde 2017. Tivemos uma redução de 5% desse porcentual [na comparação com 2019, de 25,6% para 20,6%]”, afirmou.

A lista completa de 36 produtos monitorados  pelo PARA representam 80% dos alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira: arroz, milho, trigo, aveia, feijão, soja, amendoim, tomate, chuchu, pepino, pimentão, abobrinha, quiabo, alho, batata, batata doce, beterraba, cebola, cenoura, mandioca, repolho, alface, couve, brócolis, maçã, uva, goiaba, pera, morango, banana, laranja, mamão, abacaxi, manga, maracujá e café.

Mudanças de critérios dificultam dizer se riscos aumentaram ou caíram, diz pesquisadora

A toxicologista Karen Friedrich, do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), alerta que o PARA não permite uma comparação histórica consistente, porque nem todos os alimentos são analisados ano a ano e porque a lista de agrotóxicos pesquisados muda com frequência.

Além disso, ela aponta que, especialmente após 2016, houve flexibilização de normas, com agrotóxicos antes não permitidos passando a ser autorizados em certas culturas e, em alguns casos, com aumento de limites de resíduos.

Ela chama atenção ainda para a presença de substâncias proibidas em outros países e de compostos associados a câncer, doenças endócrinas e reprodutivas — como glifosato, 2,4-D e malationa. “Para agrotóxicos cancerígenos não existem limites seguros”, diz.

A pesquisadora avalia também que o método de risco agudo e crônico ignora possíveis “sinergias” entre diferentes agrotóxicos consumidos numa mesma refeição, o que reforçaria a importância de divulgar os resultados por amostra. “Em anos anteriores, houve hortaliças com 10 a 21 agrotóxicos identificados, diz.

“Outra fragilidade da avaliação de risco apresentada é que a Anvisa considera os dados de consumo para ‘pessoas acima de 10 anos’. Com isso, a segurança para bebês e crianças fica ainda mais comprometida. Nesse período da vida, os agrotóxicos encontrados sao ainda mais danosos”, completa Friedrich.


Fonte: Repórter Brasil

Agrotóxicos no seu prato – Novo estudo alerta para a necessidade de compreender melhor os efeitos na saúde

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Comer muitas frutas e vegetais é recomendado como essencial para uma dieta saudável, mas novas pesquisas ressaltam que o consumo de alimentos favoritos da família, como morangos, pêssegos, espinafre e couve, geralmente vem acompanhado de resíduos de agrotóxicos que podem prejudicar sua saúde.

Usando conjuntos de dados gerados por pesquisadores do governo dos EUA, uma equipe que inclui cientistas do Environmental Working Group (EWG) e da Brown University School of Public Health disse no estudo divulgado na quarta-feira que eles descobriram que os alimentos que tinham as maiores cargas de agrotóxicos incluíam espinafre, couve, morangos, batatas, nectarinas, pêssegos, maçãs e passas.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) afirmam que frutas e vegetais “fornecem vitaminas e minerais essenciais, fibras e outras substâncias importantes para uma boa saúde”.

“Comer frutas e vegetais como parte de um plano alimentar saudável pode reduzir o risco de alguns tipos de câncer e doenças crônicas”, afirma a agência em seu site .

Mas o novo estudo, publicado no International Journal of Hygiene and Environmental Health, analisou a relação entre o consumo de alimentos contaminados com agrotóxicos e os níveis de resíduos presentes na urina humana. O estudo alerta que o consumo de certos alimentos contaminados com agrotóxicos leva a níveis mais elevados de resíduos encontrados no soro humano. O estudo afirma que é necessário um melhor monitoramento dos potenciais impactos da exposição a agrotóxicos sobre a saúde.

“As descobertas reforçam que o que comemos afeta diretamente o nível de agrotóxicos em nossos corpos”,   disse Alexis Temkin, Ph.D. , vice-presidente de ciência do EWG e principal autor do estudo, em um comunicado à imprensa. “Comer vegetais é essencial para uma dieta saudável, mas também pode aumentar a exposição a agrotóxicos.”

O estudo cita pesquisas que relacionam a exposição a agrotóxicos a uma série de problemas de saúde, incluindo aumento do risco de câncer, resultados adversos no parto, danos neurológicos, toxicidade respiratória, toxicidade reprodutiva e função hormonal prejudicada.

“O biomonitoramento de  agrotóxicos é essencial para a proteção da saúde pública”, afirma o estudo. “O desenvolvimento de métodos analíticos para medir a exposição interna a uma gama mais ampla de agrotóxicos também ajudaria a compreender os efeitos na saúde associados a essas exposições.”

Os pesquisadores disseram que criaram um “índice de carga de agrotóxicos” para classificar produtos com base em dados nacionais de testes de resíduos coletados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), principalmente entre 2013 e 2018 para 44 tipos de produtos.

As pontuações de exposição alimentar a pesticidas para 1.837 indivíduos foram então calculadas com base em informações sobre o consumo de produtos agrícolas retiradas da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES) de 2015-2016 do CDC. Os índices de carga de agrotóxicos foram calculados com base na detecção de 178  produtos parentais únicos, ou 42 agrotóxicos parentais com biomarcadores urinários correspondentes na NHANES.

Os pesquisadores disseram que o estudo aumenta as dúvidas sobre a abordagem da Agência de Proteção Ambiental em relação aos resíduos de agrotóxicos em alimentos, já que a agência estabelece limites para substâncias individuais, mas não leva em conta o fato de que as pessoas normalmente consomem resíduos de uma série de substâncias que contaminam produtos alimentícios.

O Dr. Philip Landrigan, pediatra e especialista em toxinas ambientais e diretor do Observatório Global de Saúde Planetária do Boston College, disse que a exposição a agrotóxicos na dieta pode ser particularmente preocupante para crianças.

“Pode ser verdade que um baixo nível de uma determinada substância química não seja motivo de preocupação para um adulto. Mas tudo se complica quando se trata de crianças e bebês ainda não nascidos no útero”, disse ele.

“O monitoramento é muito importante. Como pediatra, sempre fico irritado quando pessoas que não estudaram medicina dizem que a presença de uma substância química tóxica no corpo humano não é motivo de preocupação”, disse Landrigan.

(Foto em destaque de  Engin Akyurt  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Flores (agro) tóxicas: sem limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e clientes

Produção de flores ornamentais não é monitorada quanto à aplicação correta de agrotóxicos e dispensa análise de resíduos químicos no produto final; falta de normas leva ao uso excessivo de pesticidas, segundo pesquisadores 

Mercado de flores ornamentais não passa por controle de resíduos de agrotóxicos no mercado, o que é visto como um risco à saúde (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil) young beautiful couple happy man and woman with bouquet of flowers smiling cheerfully embracing happy in love celebrating international women's day march 8 standing over orange background

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Quem visita uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos — responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a atividade. 

Em 2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21 bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas que as exigidas nas lavouras de alimentos. 

Órgãos competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas também a dos clientes. 

“Já tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos polos de produção no país, que prefere não se identificar. 

Aos 27 anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.

Com poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango, fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.

O fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”, descreve.

Ele aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma correta de uso do Verango.

“Eu aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o produtor. 

A bula do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado para plantas ornamentais.

A falta de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte. 

“As indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de segurança não foram testadas para a espécie.

O uso irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Os agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.

Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)
Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)

Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final

Apesar do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados pela Repórter Brasil. 

O setor deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).

Esse parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica Barizon. 

A falta de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.

“O produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.

A pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.

O estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.

Sobre o impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e inalatória”, diz o estudo. 

Para a pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta própria”, explica.

“É fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.

Um representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.

Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)
Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)

Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos

Um dos motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora nacional.

O mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com infertilidade e baixa qualidade do sêmen.

A abamectina já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e  2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso, endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”

O pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e podem ser usados”, afirma.

“O cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação] e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua Meireles. 

Outro aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói, pesquisador da Esalq/USP.

“Essa exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos, assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente sanguínea”, continua.

Mas os mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.

O que dizem Ibraflor e Anvisa?

Procurado pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.

A Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e, de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”

Ainda segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.


Fonte: Repórter Brasil

Aumento acentuado é detectado na exportação de agrotóxicos proibidos pela União Europeia, apesar das promessas em contrário

Bloco é instado a pôr fim ao “duplo padrão antiético” que permite a venda de produtos considerados muito perigosos para uso nas fazendas da UE

Um avião pulverizando pesticidas na Costa Rica, onde o Guardian já havia relatado os efeitos perigosos de produtos químicos importados da UE.

Um avião pulverizando agrotóxicos na Costa Rica, onde o jornal The Guardian já havia noticiado os efeitos perigosos de produtos químicos importados da UE. Fotografia: Adrian Hepworth/Alamy


Por Ajit Niranjan para o “The Guardian”

Uma investigação descobriu que empresas químicas europeias desenvolveram planos para exportar quantidades crescentes de agrotóxicos proibidos por terem sido considerados perigosos demais para serem pulverizados em fazendas da União Europeia (UE), apesar da promessa de acabar com a prática.

As exportações planejadas de agrotóxicos proibidos internamente aumentaram de 81.600 toneladas em 2018 para 122.000 toneladas em 2024, de acordo com notificações de exportação obtidas por meio de solicitações de liberdade de informação pela Unearthed, a sala de notícias investigativa do Greenpeace, e pela organização sem fins lucrativos suíça Public Eye.

Os números, que são derivados de documentos produzidos para garantir que a venda de produtos químicos perigosos tenha o “consentimento prévio informado” dos países importadores, não mostram a quantidade final que foi enviada, mas são o melhor registro disponível do comércio de agrotóxicos proibidos.

Angeliki Lysimachou, toxicologista da Pesticide Action Network Europe que não estava envolvida na pesquisa, disse que a Comissão Europeia cedeu aos interesses da indústria ao permitir que o “comércio tóxico” se expandisse em vez de acabar com ele como prometido.

“Cada atraso adicional não é apenas negligência, é uma traição aos direitos humanos e ambientais”, disse ela. “A comissão precisa agir urgentemente para pôr fim a esse duplo padrão antiético.”

A UE liderou o movimento global para restringir produtos químicos agrícolas perigosos devido aos danos que podem causar à saúde humana e ao meio ambiente, como a redução da fertilidade ou a morte de abelhas . A UE proibiu o uso doméstico de dezenas de agrotóxicos nos últimos anos, mesmo com reguladores em outras economias ricas continuando a permitir que agricultores os pulverizem em plantas e solos.

A comissão anunciou planos para interromper as exportações após uma investigação revelar a escala de suas vendas para países terceiros.  A estratégia da Comissão Europeia para produtos químicos de 2020 afirmou que “daria o exemplo e, em conformidade com os compromissos internacionais, garantiria que produtos químicos perigosos proibidos na UE não fossem produzidos para exportação”.

Mas, cinco anos depois, documentos mostram que a quantidade de agrotóxicos proibidos listados em notificações de exportação aumentou, em parte porque a lista de produtos químicos proibidos aumentou. As substâncias proibidas que estão sendo transportadas para todo o mundo incluem o herbicida glufosinato e o fungicida mancozeb, que os reguladores europeus consideram tóxicos para a reprodução.

O aumento nas exportações de agrotóxicos proibidos ocorre apesar da saída do Reino Unido da UE, visto que o país é um grande exportador de  agrotóxicos. O maior país exportador de agrotóxicos da UE em 2024 foi a Alemanha, seguida pela Bélgica, Espanha, Holanda e Bulgária, mostrou a análise.

A Bélgica juntou-se recentemente à França na proibição da prática, embora empresas francesas tenham continuado algumas exportações devido a uma brecha legal que de agrotóxicos pesticidas proibidos na UE.

A análise constatou que os agrotóxicos eram destinados principalmente a países de baixa e média renda, embora os EUA fossem o maior destinatário. Alguns dos produtos químicos nocivos podem ser importados de volta para a UE como alimentos.

O jornal The Guardian já havia noticiado os efeitos perigosos dos agrotóxicos exportados pela UE em países como o Brasil , onde foram pulverizados em fazendas de cana-de-açúcar que abasteciam a Nestlé e um importante fornecedor brasileiro de açúcar para a Europa, e a Costa Rica , onde as pessoas reclamaram de odores “insuportáveis” que acompanhavam uma série de problemas de saúde quando aviões pulverizavam pesticidas sobre plantações de banana e abacaxi do país. O Reino Unido também exportou agrotóxicos para o Brasil que considera impróprios para fazendas britânicas.

Um porta-voz da comissão afirmou que a comissão compartilhava preocupações e estava comprometida em abordá-las. Afirmou que lançou uma consulta pública e um estudo em 2023 e que uma avaliação informaria “possíveis próximos passos”.

“Garantir um alto nível de proteção para as pessoas e o meio ambiente, tanto na UE quanto globalmente, é fundamental”, disse o porta-voz. “A Comissão está explorando opções para garantir que os produtos químicos mais perigosos proibidos na UE não possam ser produzidos para exportação, inclusive alterando a legislação pertinente, se e conforme necessário.”

Um porta-voz da multinacional alemã farmacêutica e de biotecnologia Bayer se recusou a comentar sobre os volumes exportados, mas disse que todos os seus produtos eram seguros para humanos e o meio ambiente se aplicados de acordo com as instruções do rótulo.

“O simples fato de um produto fitofarmacêutico não ser autorizado ou proibido na UE não diz nada sobre sua segurança”, afirmaram. “Muitas outras agências reguladoras ao redor do mundo – incluindo EUA, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia – também possuem sistemas regulatórios muito confiáveis, robustos, que funcionam com cuidado e são sofisticados para proteger a saúde humana e o meio ambiente.”

Um porta-voz da Syngenta afirmou que todas as suas exportações estavam em conformidade com as regulamentações químicas europeias e que a empresa forneceu treinamento nos países importadores para garantir o uso seguro. “Bloquear o acesso a produtos autorizados e de alta qualidade corre o risco de incentivar alternativas falsificadas e ilegais – muitas vezes feitas com ingredientes não regulamentados e nocivos – o que pode colocar os agricultores e o meio ambiente em risco muito maior”, disse o porta-voz.

Três dos maiores exportadores de agrotóxicos proibidos identificados na análise – BASF, Teleos e Agria – não responderam a um pedido de comentário. A Corteva não quis comentar.

Lis Cunha, ativista do Greenpeace, disse que o aumento das exportações era “repreensível e profundamente hipócrita”. Ela pediu à comissão que cumprisse seu compromisso de proibir a produção em toda a UE. “É escandaloso que os lucros da indústria química europeia tenham precedência sobre a saúde e o meio ambiente das pessoas em países mais pobres”, disse ela.


Fonte: The Guardian