Agrotóxicos chegam às bacias de abastecimento público. Entrevista especial com Denise Piccirillo Barbosa da Veiga

assoreamento rio claro

Por Patricia Fachin para o IHUOnline

A combinação entre o uso intensivo de agrotóxicos em culturas agrícolas e a escassa cobertura vegetal de matas ciliares próximo a bacias de abastecimento público tem favorecido o escoamento de agrotóxicos para mananciais e pode contaminar a água, diz a geógrafa Denise Piccirillo Barbosa da Veiga, autora da pesquisaO impacto do uso do solo na contaminação por agrotóxicos das águas superficiais de abastecimento público”.

Em 2015, Denise monitorou duas bacias de abastecimento público em municípios paulistas onde há cultivo de cana-de-açúcar e de verduras e legumes. O monitoramento, informa, “apontou a presença de até seis agrotóxicos diferentes em ambos os mananciais ao longo do ano monitorado, as amostras foram coletadas em água bruta (anterior ao tratamento para consumo humano), e todas as ocorrências estiveram abaixo dos padrões estipulados pela Portaria de Potabilidade da Água quando da água tratada”. Apesar da água analisada não estar contamina por agrotóxicosDenise menciona que “a pesquisa apontou áreas com maior escoamento superficial e ausência ou deficiência das Áreas de Proteção Permanente ao longo dos mananciais”. A falta de matas ciliares no entorno das bacias, explica, contribui para o escoamento de agrotóxicos para os rios. “As matas ciliares funcionam como filtros que retêm parte dos poluentes utilizados pelas atividades antrópicas, de modo que a preservação ambiental é de extrema importância para a proteção dos mananciais”, diz.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, a pesquisadora afirma que “a melhor medida para evitar a contaminação da água por agrotóxicos é a redução ou a eliminação do seu uso em bacias que apresentem mananciais destinados ao abastecimento público, incentivando modos de produção mais seguros e sustentáveis”.

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga é graduada em Geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade São Paulo – USP, mestra e doutoranda em Ciências pelo programa de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi feita a sua pesquisa intitulada “O impacto do uso do solo na contaminação por agrotóxicos das águas superficiais de abastecimento público”?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – A minha pesquisa de mestrado foi um desdobramento do Projeto FAPESP/PPSUS 50016-3 intitulado “Avaliação dos resíduos de pesticidas e protozoários patogênicos em água de abastecimento público do Estado de São Paulo”, conjuntamente entre o Centro de Vigilância Sanitária da SES/SP e a Faculdade de Saúde Pública — USP que monitoraram a quantidade de agrotóxicos e patógenos na água em 26 municípios paulistas no período de dezembro de 2014 a novembro de 2015.

Para a pesquisa escolhemos os dois pontos de captação que apresentaram a maior variedade de agrotóxicos na água. Dessa forma, foi realizada a delimitação da área de recarga do ponto de captação e o mapeamento do uso do solo nessas bacias. Posteriormente, foi realizada uma modelagem hidrológica para identificar as áreas de maior escoamento superficial que são consideradas áreas que podem estar contribuindo para o carreamento de agrotóxicos e outros contaminantes na água.

Para maiores detalhes da metodologia utilizada, acessar a dissertação disponível aqui

IHU On-Line – Quais bacias de mananciais de abastecimento público você analisou? Pode nos descrever a situação ambiental dessas bacias?

Denise Piccirillo  Barbosa da Veiga – Foram analisadas duas bacias de abastecimento público, uma no município de Santa Cruz das Palmeiras – SP, ocupada predominantemente por cana-de-açúcar, e outra no município de Piedade – SP, com produção predominante de verduras e legumes.

IHU On-Line – A sua pesquisa identificou áreas vulneráveis e contaminadas por agrotóxicos nessas bacias?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – A pesquisa apontou áreas com maior escoamento superficial e ausência ou deficiência das Áreas de Proteção Permanente ao longo dos mananciais. A supressão da mata ciliar contribui para o escoamento de agrotóxicos para os rios, e as áreas com maior ocupação agrícola apresentaram os maiores valores para escoamento superficial. Consideramos que essas áreas devam ser prioritárias para ações de fiscalização agrícola bem como de educação ambiental e de monitoramento da água.

(Foto: EcoBrasil)

 

IHU On-Line – O uso de agrotóxicos tem contaminado, além do solo, a água usada para abastecimento público? Pode nos explicar como se dá essa contaminação da água?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – O uso intensivo de agrotóxicos, combinado com escassa cobertura vegetal e ausência da mata ciliar em bacias de ocupação agrícola, é um cenário propício para o escoamento de agrotóxicos para os mananciais. Os agrotóxicos aplicados nas culturas agrícolas podem atingir os mananciais dependendo do volume aplicado, a forma de aplicação e as condições climáticas nos dias de aplicação. A lavagem inadequada dos equipamentos utilizados bem como o descarte irregular das embalagens utilizadas também pode contribuir para esse escoamento.

IHU On-Line – O que a pesquisa demonstrou sobre a qualidade da água? Que percentual de agrotóxicos foi encontrado na água analisada?

Denise Piccirillo  Barbosa da Veiga – O monitoramento realizado em 2015 apontou a presença de até seis agrotóxicos diferentes em ambos os mananciais ao longo do ano monitorado, as amostras foram coletadas em água bruta (anterior ao tratamento para consumo humano), e todas as ocorrências estiveram abaixo dos padrões estipulados pela Portaria de Potabilidade da Água quando da água tratada.

 

IHU On-Line – Quais são os riscos da contaminação da água por agrotóxicos?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – A presença de agrotóxicos em mananciais de abastecimento público deve ser analisada com atenção e cautela para que estejam sempre abaixo dos parâmetros preconizados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, que estipula valores baseando-se na proteção da vida aquática.

Mesmo esses valores estando abaixo, é importante o acompanhamento contínuo para identificar possíveis riscos tanto à biodiversidade quanto à saúde humana. O consumo de resíduo de agrotóxico apresenta riscos à saúde a depender das propriedades toxicológicas de cada substância [1], das formas de exposição e do prolongamento dessa exposição.

IHU On-Line – Como é feito o monitoramento da qualidade da água nos municípios brasileiros? Que ações preventivas e de vigilância da qualidade da água são feitas nos municípios?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – No Brasil, o monitoramento de agrotóxicos em água de consumo humano é determinado pelo Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017, que determina o monitoramento de 27 agrotóxicos ao menos duas vezes no ano. Essas análises devem ser feitas pelos sistemas de abastecimento de água e informadas às Vigilâncias Sanitárias Municipais. Esse monitoramento deve considerar as culturas agrícolas presentes na bacia de modo que a coleta da água seja determinada de acordo com o calendário agrícola da região. Se necessário, os sistemas podem monitorar outros agrotóxicos para além dos 27.

IHU On-Line – O que pode ser feito para evitar a contaminação da água por esse tipo de substância?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – A melhor medida para evitarcontaminação da água por agrotóxicos é a redução ou a eliminação do seu uso em bacias que apresentem mananciais destinados ao abastecimento público, incentivando modos de produção mais seguros e sustentáveis.

IHU On-Line – Como a prevenção dos mananciais pode contribuir para garantir a qualidade da água?

Denise Piccirillo Barbosa da Veiga – As matas ciliares funcionam como filtros que retêm parte dos poluentes utilizados pelas atividades antrópicas, de modo que a preservação ambiental (manutenção das Áreas de Preservação Permanentes – APPs) é de extrema importância para a proteção dos mananciais. A restrição de uso de agrotóxicos em áreas próximas aos rios ou de alta declividade contribui para a redução de contaminantes tanto no solo como na água. A restrição da pulverização aérea também é uma forma de diminuir a contaminação dos mananciais e do ar.

A escolha de produtos de baixa toxicidade e baixa periculosidade ambiental em detrimento daqueles mais tóxicos também é uma medida que pode proteger a saúde do meio ambiente e humana.

Nota:

[1] A Faculdade de Saúde Pública de São Paulo elaborou o portal Ariadne – Sistema de Informações sobre Agrotóxicos para avaliar a toxicidade dos agrotóxicos mais comercializados no Estado de São Paulo, bem como o mapeamento das pulverizações aéreas. O site pode ser acessado aqui. (Nota da IHU On-Line)

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Esta entrevista foi publicada originalmente pelo Instituto Humanitas da Unisinos [Aqui!]

Agrotóxicos: crime e castigo

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Abaixo uma interessante entrevista realizada pelo jornalista Bob Fernandes com a geógrafa e professora da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Miers Bombardi, sobre a grave ameaça que paira hoje sobre todos os brasileiros em função do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

Depois de assistir este vídeo, tenho certeza que a maioria das pessoas irá começar a entender os problemas que hoje são causados por um modelo de exportação viciado no uso de agrotóxicos em larga escala.

Agrotóxicos na água: a ponta do iceberg

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Abaixo posto uma apresentação bastante pedagógica preparada pela “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida”  que mostra alguns dados impressionantes sobre a situação dos agrotóxicos no Brasil, bem como sobre o processo de contaminação das águas por resíduos desses produtos.

A apresentação mostra ainda que dos 27 agrotóxicos analisados nas águas que chegam em nossas

Água de córrego no norte da Bélgica está tão poluída que poder ser usada como agrotóxico

Cientistas dizem que o córrego chamado de “mais poluído na Europa” é um lembrete dos efeitos da agricultura intensiva

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O córrego na Flandres Ocidental (Bélgica) que é considerado o mais poluído da Europa. Foto: /

Por Daniel Boffey em Bruxelas para o “The Guardian”.

Entre os prados verdejantes da zona rural da Flandres ocidental, região localizada no norte da Bélgica, o riacho Wulfdambeek é lembrado com carinho como um lugar onde os garotos locais enchiam suas garrafas de água antes dos jogos de futebol.

Mas uma pesquisa da Universidade de Exeter ofereceu uma forte lembrança de como os métodos agrícolas intensivos estão mudando a face do interior do norte da Europa de maneiras que os cientistas afirmam não estar sendo adequadamente compreendidos.

O pequeno afluente pitoresco nos arredores da vila de Ledegem, a cerca de 24 quilômetros a leste de Ypres, foi descrito pela mídia belga esta semana como a mais poluída da Europa, segundo um relatório publicado na revista Science of The Total Environment.

Em uma pesquisa com 29 pequenos corpos aquáticos em 10 países europeus, uma amostra de Wulfdambeek contém 70 agrotóxicos perigosos – 38 herbicidas, 10 inseticidas, 21 fungicidas, um protetor contra herbicidas e resíduos de ácido acetilsalicílico, uma aspirina usada em Medicina veterinária.

Tão variados foram os poluentes no córrego, e sua concentração alta, que a própria água provavelmente funcionaria como um agrotóxico, disse o pesquisador Jorge Casado, do Greenpeace Research Laboratories da Universidade de Exeter.

“É incrível”, disse Casado. “A coisa mais importante a destacar é que há uma falta de maneiras de avaliar como essa mistura de materiais perigosos está afetando o ecossistema”.

O prefeito da cidade, Bart Dochy, disse que ficou chocado com os resultados, até porque havia evidências de que os peixes usavam o córrego. “Temos armadilhas no riacho para pegar ratos. Apenas mais acima no córrego de onde a amostra foi tirada, pegamos um pique em uma semana passada ”, disse ele. “Tinha 50cm de comprimento. Ok, não é água para beber. Mas está limpa o suficiente para ter peixe nela.

Dochy disse que estaria encomendando testes na água para ver se ele poderia descobrir de onde os poluentes estavam vindo.

“Esta é uma área bonita – a terra ao redor é principalmente agrícola. Cultivamos vegetais – alho-poró, couve-flor e couve de Bruxelas ”, disse ele. “A amostra foi tirada quando houve uma seca e não muita água no córrego. É possível que possa ter influenciado isso ”.

Jarmo Cluyse, de 21 anos, disse ao jornal Het Nieuwsblad que ele costumava beber água do riacho quando era jovem. “Os ratos estão aqui, eu sei disso, mas também patos”, disse ele. “Na verdade, não nos incomodamos com esse fluxo. Você vê, eu ainda estou vivo.

Os agrotóxicos acabam em córregos devido à deriva da pulverização ou devido à lixiviação das plantas e do solo, ou o escoamento da água da chuva. Os córregos no estudo foram escolhidos para amostragem no último verão devido à alta densidade de gado em fazendas corporativas e produção agrícola ​​dentro de suas áreas de captação.

A pesquisa encontrou mais de 100 agrotóxicos e 21 medicamentos, dos quais um quarto é proibido na União Europeia. Metade dos riachos analisados ​​- na Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia, Espanha e Reino Unido – continha pelo menos um agrotóxico acima dos níveis legalmente permitidos.

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Este artigo foi produzido originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian”  [Aqui!]

Comida envenenada! Resíduos de agrotóxicos são encontrados em 70% dos produtos vendidos nos EUA, mesmo após lavados

Morangos, espinafre e couve estão entre os que possuem mais resíduos de agrotóxicos. A couve cultivada convencionalmente pode conter até 18 agrotóxicos.

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Alexis Temkin, do Environmental Working Group, disse: “O Guia para Produzir do Comprador está baseado em evidências que mostram que misturas de agrotóxicos podem ter efeitos adversos”. Foto: Dave Martin / AP

Por Emily Holden para o jornal “The Guardian”

Cerca de 70% dos produtos frescos vendidos nos EUA contêm resíduos de agrotóxicos, mesmo depois de lavados, de acordo com um grupo de defesa da saúde.

De acordo com a análise anual do Environmental Working Group dos dados do Departamento de Agricultura dos EUA, morangos, espinafre e couve estão entre os produtos contendo mais agrotóxicos, enquanto o abacate, o milho doce e o abacaxi tiveram o menor nível de resíduos.

Mais de 92% da couve testada continha dois ou mais resíduos de agrotóxicos, de acordo com a análise, e uma única amostra de couve convencionalmente cultivada pode conter até 18 pesticidas agrotóxicos.

Dacthal – o agrotóxicos mais comumente encontrado, que foi detectado em quase 60% das amostras de couve, é proibido na Europa e classificado como um possível carcinógeno humano nos EUA.

“Definitivamente, reconhecemos e apoiamos que todos devem comer frutas e vegetais saudáveis ​​como parte de sua dieta, independentemente de serem convencionais ou orgânicos”, disse Alexis Temkin, um toxicologista que trabalha com o EWG.

“Mas o que tentamos destacar com o Guia para Produtores é baseado em evidências que mostram que misturas de agrotóxicos podem ter efeitos adversos.”

Outros alimentos da lista de “dúzia suja” do grupo incluem uvas, cerejas, maçãs, tomates e batatas. Em contraste, sua lista “limpa” inclui abacates, cebola e couve-flor.

Leonardo Trasande, especialista em medicina ambiental na escola de medicina da Universidade de Nova York, chamou o relatório do EWG de “amplamente respeitado” e disse que pode informar os consumidores que desejam comprar frutas e vegetais orgânicos, mas gostariam de saber quais poderiam priorizar.

Apesar de um crescente corpo de literatura, os cientistas dizem que é difícil identificar quantos agrotóxicos as pessoas estão expostas em suas vidas diárias e em que quantidade. E também é difícil dizer como esses produtos químicos em combinação afetam o corpo.

Um recente estudo francês descobriu que as pessoas que comem alimentos orgânicos tinham um risco significativamente menor de desenvolver câncer, embora sugerisse que, se esses resultados fossem confirmados, os fatores subjacentes exigiriam mais pesquisas. Especialistas em nutrição da Universidade de Harvard alertaram que esse estudo não analisou os níveis de resíduos nos corpos dos participantes para confirmar os níveis de exposição.

Enquanto 90% dos americanos têm níveis detectáveis ​​de pesticidas na urina e no sangue, “as consequências para a saúde de consumir resíduos de agrotóxicos de alimentos cultivados convencionalmente são desconhecidas, assim como os efeitos da escolha de alimentos orgânicos ou alimentos cultivados convencionalmente conhecidos por terem menos resíduos de pesticidas” eles disseram.

Um estudo separado de Harvard descobriu que, para mulheres submetidas a tratamento de fertilidade, aqueles que comiam frutas e vegetais com alto teor de agrotóxicos eram menos propensos a ter um nascimento vivo.

O CDC explica que “uma ampla gama de efeitos à saúde, agudos e crônicos, está associada à exposição a alguns agrotóxicos”, incluindo impactos no sistema nervoso, irritação da pele e dos olhos, câncer e distúrbios endócrinos.

“Os riscos para a saúde decorrentes da exposição a agrotóxicos dependem da toxicidade dos pesticidas, da quantidade a que uma pessoa está exposta e da duração e da via de exposição”, diz o CDC, observando evidências de que crianças correm maior risco.

A Agência de Proteção Ambiental estabelece regras sobre como os agrotóxicos são usados, mas essas regras não impedem necessariamente a exposição cumulativa na dieta de uma pessoa.

A agência está lutando contra uma ordem judicial para proibir o clorpirifós, um agrotóxico que está associado a deficiências de desenvolvimento em crianças.

A EPA também reduziu os tipos de exposição que levará em consideração ao avaliar os riscos para a saúde humana. E o presidente Trump nomeou um ex-executivo do grupo de lobby da indústria, o Conselho Americano de Química, Nancy Beck, como chefe de sua unidade de produtos químicos tóxicos.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

Agrotóxicos contaminam água da chuva e de poços artesianos no Mato Grosso

Pesquisa da Universidade Federal do MT realizada em Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio encontrou substâncias altamente tóxicas em poços localizados em escolas do campo e da cidade

Por Cida de Oliveira para a Rede Brasil Atual

 

REPRODUÇÃO/YOUTUBE

rio juruena no rastro dos agrotóxicosEm 2012, o Brasil despejou sobre suas lavouras 1,05 bilhão de litros de herbicidas, inseticidas e fungicidas. Só em Mato Grosso foram 140 milhões de litros, segundo o relatório de consumo de agrotóxicos em Mato Grosso.

 

São Paulo – Agrotóxicos considerados altamente tóxicos, como a trifluralina, e cancerígenos, como a atrazina, metolacloro e metribuzim, contaminam a água da chuva e de poços artesianos de escolasrurais e urbanas nos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio, na bacia do rio Juruena, no Mato Grosso.

Em quatro de seis amostras de poços foram detectados resíduos dos herbicidas atrazina e metolacloro. Mais da metade (55%) das amostras de chuva continham resíduos de pelo menos um tipo de agrotóxico entre os detectados (metolacloro, atrazina, trifluralina, malationa e metribuzim). O metolacloro foi o mais frequente, detectado em 86% das amostras contaminadas.

A conclusão é de uma pesquisa conduzida por Lucimara Beserra para seu mestrado em saúde coletiva, sob orientação de Wanderlei Antonio Pignati, professor e pesquisador do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Alunos e professores de três escolas rurais e três urbanas desses municípios participaram do estudo, coletando amostras da água da chuva e do poço em cada unidade escolar, como mostra o vídeo no final desta reportagem.

Exceto o poço da escola urbana de Sapezal, localizada no meio da cidade, os demais tinham no entorno plantações de soja, milho, algodão e girassol, em um raio de distância variando de 50 a 1.000 metros. 

A maioria de todas essas amostras contaminadas foi coletada em maio de 2015 e fevereiro de 2016, meses do período chuvoso, que favorece a infiltração de diversas substâncias no solo e nos lençóis freáticos. Maio coincide com o fim da safra agrícola de milho e de algodão, na qual ainda há pulverização de diversos agrotóxicos.

E fevereiro, com o início da colheita da soja e o plantio/colheita da safra de milho e o plantio de algodão, com intensas pulverizações de agrotóxicos. Agosto corresponde à entressafra da soja, período entre uma safra e outra, com descanso e preparação do solo, com pouca ou nenhuma pulverização. E a localização dos poços artesianos foi escolhida próxima a áreas de lavouras com uso desses produtos.

O estado é o maior consumidor brasileiro de agrotóxicos, e o Brasil, o maior consumidor mundial. Em  2012, o Brasil despejou sobre suas lavouras 1,05 bilhão de litros de herbicidas, inseticidas e fungicidas. Só em Mato Grosso foram 140 milhões de litros, segundo o relatório de consumo de agrotóxicos em Mato Grosso, de 2005 a 2012, do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) de Mato Grosso. 

Nuvem

Ao comparar a contaminação conforme a localização das áreas, Lucimara Beserra constatou que a escola rural de Campo Novo do Parecis apresentou um número maior de amostras contaminadas (76,9%) em relação as demais escolas.

Mas isso não quer dizer que a área rural seja a mais contaminada. Uma nuvem de chuva pode ser deslocada pelo vento do seu local inicial de formação, e os agrotóxicos depois de suspensos no ar também podem sofrer deslocamento pelo vento, podendo contaminar outros lugares nos quais não houve a utilização desses produtos. Há pesquisas mostrando, por exemplo, contaminação por agrotóxicos em regiões do Ártico e da Antártica – onde não há atividade agrícola.

Independente do local, a contaminação depende da persistência de cada agrotóxico. O herbicida metolacloro, princípio ativo que teve maior frequência de detecção nas amostras de chuva, também encontrado nas amostras de água de poços artesianos, é uma substância de alta persistência, além de ser considerado muito perigoso ao ambiente (risco ambiental II).

O tempo de meia-vida do metolacloro na água é de 365 dias e no solo, 90 dias. Tais características, somadas ao alto consumo de agrotóxicos nos municípios, indica os motivos da detecção das substâncias nas três amostras do poço da escola urbana de Campo Novo do Parecis e na alta frequência de detecção nas amostras de chuva contaminadas dos três municípios.

A persistência da atrazina no ambiente é menor, bem como seu índice de solubilidade e volatilidade são menores se comparados ao metolacloro. Entretanto ainda possui potencial de contaminação de águas subterrâneas e chuva, sendo encontrado na água de quatro poços artesianos. Foi o segundo agrotóxico mais detectado nas amostras de chuva. O inseticida malationa, que teve maior concentração detectada nas amostras de chuva, também possui alta volatilidade e é considerado perigoso ao ambiente (risco ambiental III).

O projeto de pesquisa integrado sobre agrotóxicos, saúde, trabalho e ambiente na bacia do rio Juruena foi realizado em parceria com pesquisadores do Departamento de Química e da Faculdade de Nutrição da UFMT, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com apoio financeiro do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso (MPT-MT), por meio da Procuradoria Regional da 23ª Região.

A pesquisa atende assim à demanda do MPT por uma avaliação dos impactos do uso desses produtos à saúde e ambiente nessa região de alto número de ocorrências de violações aos direitos trabalhistas relacionadas ao agronegócio e agrotóxicos.

Para Lucimara Beserra, a contaminação da água da chuva e de poços artesianos expõem relações e processos que tornam a população e o meio ambiente vulneráveis, o que exige atenção e atuação da Vigilância em Saúde nesses territórios.


Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!]

“Triste surpresa”: peixes da Amazônia estão contaminados por partículas de plástico

Cientistas descobrem a primeira evidência de poluição plástica em peixes de água doce da bacia amazônica

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A piranha-de-barriga-vermelha (Pygocentrus nattereri) é uma espécie do rio Xingu que foi contaminada por plásticos. Foto: Thomas Males / Alamy Foto De Stock

Por Ian Sample, editor de Ciências do “The Guardian”  [1]

Pesquisadores descobriram a primeira evidência de contaminação de plástico em peixes de água doce na Amazônia, destacando a extensão em que sacos, garrafas e outros resíduos despejados nos rios estão afetando a vida selvagem do mundo.

Testes no conteúdo estomacal de peixes no Rio Xingu, no Brasil, um dos principais afluentes do Rio Amazonas, revelaram partículas de plástico em mais de 80% das espécies examinadas, incluindo o onívoro pacu papagaio, o herbívoro  RedHook Silver Dollar e a carnívora piranha de barriga vermelha

Os pesquisadores se concentraram em peixes no Xingu por causa de sua rica diversidade e amplitude de hábitos alimentares. Os peixes variavam de 4 cm a quase 30 cm de comprimento e pesavam  de 2 gramas a cerca de um quilo.

A análise do conteúdo estomacal dos peixes identificou uma dúzia de polímeros distintos usados para fabricar itens plásticos, incluindo bolsas, garrafas e equipamentos de pesca. A maioria das peças era preta, vermelha, azul, branca ou translúcida e variava de partículas de 1 mm para flocos com 15 mm de largura.

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Resíduos plásticos de estômagos de peixes Serrasalmidae do rio Xingu. Foto: Environmental Pollution

“Foi uma triste surpresa porque no estágio inicial de nossa pesquisa o objetivo principal era entender a ecologia alimentar do peixe, mas quando começamos a analisar o conteúdo do estômago encontramos o plástico”, disse Tommaso Giarrizzo, que estuda ecologia aquática na Universidade Federal do Pará . “É alarmante porque essa poluição está espalhada por toda a bacia amazônica.”

Os cientistas escolheram o conteúdo estomacal de 172 peixes pertencentes a 16 espécies. Escrevendo na revista Environmental Pollution, os cientistas descrevem como 13 das espécies haviam consumido plásticos, independentemente de serem herbívoros que se alimentavam de plantas fluviais, carnívoros que sobreviviam principalmente de outros peixes, ou onívoros. Os herbívoros podem confundir pedaços de plástico por sementes, frutas e folhas, enquanto os onívoros provavelmente ingerem plásticos capturados em  macrófitas que compõem boa parte de sua dieta. Enquanto isso, os carnívoros, como a piranha, provavelmente consomem plásticos quando comem presas contaminadas.

Marcelo Andrade, também da Universidade Federal do Pará, disse: “É horrível saber que os detritos plásticos são ingeridos por 80% das espécies de peixes analisadas, e que muitas delas são consumidas por humanos na Amazônia. A poluição plástica é uma ameaça real para os seres humanos em todo o mundo. ”

No total, 96 peças de plástico foram recuperadas de estômagos de 46 peixes. Os testes mostraram que mais de um quarto eram de polietileno, um material usado em artes de pesca que muitas vezes é descartado em rios e oceanos. Outros foram identificados como PVC, poliamida, polipropileno, rayon e outros polímeros usados para fazer sacos, garrafas, embalagens de alimentos e muito mais.

Os rios são responsáveis por até um quinto dos resíduos plásticos encontrados nos oceanos. Grande parte da poluição é causada pela má gestão de resíduos ou pelo lixo sendo despejado intencionalmente nos cursos de água. Mais de 90% dos detritos plásticos que chegam a águas abertas vêm de 10 rios, oito na Ásia e dois na África.

Giarrizzo disse que mais pesquisas são necessárias para entender a origem do plástico nos rios da Amazônia e avaliar o impacto que ele pode ter na saúde humana. Uma preocupação, segundo ele, é que substâncias químicas perigosas possam se ligar aos plásticos encontrados em peixes, e assim comê-los pode levar a um acúmulo de substâncias químicas perigosas no corpo.

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O conteúdo estomacal dos peixes do rio Xingu revelou partículas de plástico. Foto: Mario Tama / Getty Images

“Embora os efeitos do consumo humano de microplásticos sejam amplamente desconhecidos, nossos resultados são uma preocupação de saúde pública, já que a Amazônia tem o maior consumo per capita de peixes do mundo”, disse ele.

O professor Steve Ormerod, co-diretor do Instituto de Pesquisa da Água da Universidade de Cardiff, disse: “Embora grande parte da publicidade e ênfase na poluição plástica tenha se concentrado nos oceanos do mundo, este artigo acrescenta evidências crescentes de que os plásticos também representam um risco potencial para a poluição. ecossistemas fluviais do mundo.

“Em alguns aspectos, esses resultados não surpreendem porque a Amazônia carrega cerca de 60.000 toneladas de lixo plástico todo ano no Atlântico, e amostras para esse trabalho no afluente do Xingu foram coletadas perto de Altamira – uma cidade de mais de 100.000 habitantes. pessoas. No entanto, com peixes individuais neste estudo, em média, com 22% -37% de seu conteúdo intestinal absorvido pelo plástico, certamente existem preocupações sobre os efeitos físicos ou toxicológicos.

“Com um número crescente de estudos que agora registram o plástico dentro de animais aquáticos, acho que agora temos que ir além desta fase descritiva em investigações das principais fontes de material plástico em rios, qual é o destino desse material em teias alimentares e, mais importante ainda, quais são os efeitos nos organismos e ecossistemas. Esta é toda a informação crítica se quisermos administrar o problema de plástico de uma forma baseada em evidências. ”


Texto publicado originalmente em inglês [1]