Por que o pacto da COP28 não será suficiente para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas

A conferência da ONU sobre o clima (COP28) no Dubai chegou a acordo sobre um plano para manter o aquecimento global a 1,5 graus C e atingir emissões líquidas zero até 2050. Mas os investigadores alertam que estas promessas não se baseiam em ciência sólida e não conseguirão prevenir os piores impactos do clima.

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Derretimento do gelo marinho no Ártico em julho de 2022. KEREM YÜCEL/AFP VIA GETTY IMAGES

Por Fred Pearce para a Yale Environment 360 

Os negociadores climáticos reunidos no Dubai no mês passado comprometeram-se a traçar um rumo para a estabilização do sistema climático recorrendo à boa ciência. Mas muitos cientistas dizem que estas promessas são, na melhor das hipóteses, mal definidas e, na pior, uma paródia da boa ciência – vagas e cheias de lacunas.

A conferência da ONU sobre o clima, no Dubai, acordou num plano de acção para dois objectivos principais: manter o mundo no caminho certo para limitar o aquecimento global a 1,5 graus C (2,7 graus F) e permanecer abaixo deste limiar, alcançando emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa. até 2050. Os negociadores  prometeram que ambos os objectivos seriam prosseguidos “de acordo com a ciência”.

Mas nenhum dos objectivos tem definições acordadas que permitam avaliar se foram alcançados. Dois estudos publicados durante o evento do Dubai expuseram o problema e revelaram grandes lacunas entre as metas de 1,5 graus e de zero emissões líquidas, expondo as tensões entre a conveniência política e a probidade científica.

Relativamente ao objectivo de 1,5 graus, meteorologistas britânicos  relataram  na revista  Nature que a falta de acordo sobre como medir as temperaturas médias globais poderá atrasar o reconhecimento formal de que o limite foi excedido em até uma década. O resultado, alerta o principal autor Richard Betts, do Hadley Centre do Met Office do Reino Unido, será “distração e atraso justamente no ponto em que a ação climática é mais urgente”, resultando em “ultrapassagem” de temperatura e na necessidade de soluções altamente caras – e não comprovadas –. ações posteriores para reverter o aquecimento.

Entretanto, um  estudo  liderado por Matthew Gidden, modelador climático do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) na Áustria, descobriu que as regras que regem a forma como os países podem declarar que atingiram emissões líquidas zero são fixadas para que os governos possam afirmar conformidade anos antes da realidade científica.

Estas questões técnicas críticas têm estado em grande parte fora do radar até agora – em parte, dizem os investigadores preocupados, porque os cientistas não quiseram confundir ou negar os decisores políticos que procuram obter apoio público para a acção climática. Mas as discrepâncias levantam sérias questões sobre se os governos estão realmente empenhados em respeitar a ciência. “Os políticos estão a tentar encontrar uma forma fácil de cumprir as suas promessas”, disse o ecologista florestal do IIASA, Dmitry Shchepashchenko.

No entanto, a urgência em resolver as incertezas está a aumentar. O ano passado viu o sistema climático entrar no que os investigadores chamam de  “território desconhecido”. Cerca de um terço dos dias em 2023 ultrapassaram o limite de 1,5 graus e setembro foi 1,8 graus mais quente do que nos tempos pré-industriais. As estatísticas brutas traduziram-se em incêndios florestais recordes no Canadá e na perda de gelo marinho em torno da Antártida, ondas de calor de verão sem precedentes do Arizona ao sul da China e inundações extremas em regiões normalmente desérticas do Norte de África.

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus C acima dos níveis pré-industriais entrou pela primeira vez na elaboração de políticas climáticas internacionais através do inovador Acordo de Paris de 2015. Como parte do acordo, os governos prometeram manter o aquecimento “bem abaixo dos 2 graus”, ao mesmo tempo que “prosseguiram esforços” para limitá-lo a 1,5 graus.

Desde então, os cientistas alertaram que qualquer aquecimento sustentado acima de 1,5 graus corre o risco de agravar o clima perigoso e causar mudanças fundamentais e irreversíveis no sistema climático. Assim, na conferência do Dubai, esse objectivo tornou-se inequívoco.

Mas como saberemos se nos mantivemos abaixo ou ultrapassamos?

A Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas calcula que há dois terços de hipóteses de um único ano exceder o limiar até 2027. Tal situação única não violaria, por si só, o objectivo acordado, que se refere às temperaturas médias a longo prazo. Mas nem o Acordo de Paris nem os seus sucessores estabeleceram como essa média de longo prazo deveria ser calculada.

Os cientistas do clima têm tradicionalmente avaliado as tendências de temperatura médias ao longo das três décadas anteriores. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que avalia a ciência climática para a comunidade internacional, favorece agora duas décadas. Mas, em qualquer dos casos, os cálculos baseados em temperaturas passadas recentes significam que a média estará sempre aquém da realidade, mantida baixa pelos primeiros anos mais frios do período. Os resultados não refletirão a situação atual, afirma Betts no  artigo da Nature  publicado durante a conferência de Dubai.

Na prática, uma média de 20 anos refletirá as temperaturas no meio desse período, diz Betts. “O aquecimento de 1,5 seria confirmado… uma década depois de ultrapassar o nível de 1,5 graus C.”

Assim, se o aquecimento médio atingir 1,5 graus em 2030, os registos só serão alcançados no final do período de 20 anos em que 2030 foi o ponto médio – 2040, por outras palavras. Nos anos seguintes, diz Betts, haveria “uma década ou mais” de reivindicações e reconvenções, com os cientistas climáticos dizendo que o mundo quase certamente ultrapassou o limiar, mas os políticos seriam capazes de negar isso e alegar que têm mais tempo para reduzir as emissões. .

Este ritual de negação já estava em evidência no Dubai, segundo Piers Forster, da Universidade de Leeds, principal autor de vários relatórios do IPCC. Ele salienta que o acordo de balanço global da conferência, que resumiu os planos de acção para cumprir os compromissos de Paris, afirmou que houve até agora 1,1 graus de aquecimento, com base numa média retrospectiva, enquanto a média real actual é de cerca de 1,3 graus. Os governos estão “jogando um jogo político para fazer com que 1,5 pareça mais viável”, disse Forster à  Yale Environment 360 .

Betts quer que o IPCC acabe com o subterfúgio adoptando um “indicador mais instantâneo”. Seu artigo sugere o cálculo da temperatura média combinando 10 anos de temperaturas históricas com 10 anos de previsões de modelos de temperaturas futuras. Isso seria controverso. Mas, por enquanto,  diz ele , “sem uma métrica acordada, não pode haver consenso sobre quando o nível de 1,5ºC foi alcançado”.

O segundo desafio à integridade científica das negociações climáticas da ONU é como avaliar o progresso nas promessas feitas pelos governos de alcançar zero emissões líquidas até 2050. Os compromissos exigem que quaisquer emissões contínuas de gases com efeito de estufa sejam compensadas até essa data por ações humanas. para capturar quantidades equivalentes, nas florestas ou em outros lugares. Mas existe uma grande preocupação entre os cientistas de que o sistema acordado pelos negociadores para calcular estas “compensações” seja contraditório e amplamente aberto a abusos.

A  meta líquida zero  foi proposta pela primeira vez pelo IPCC. Foi amplamente adoptado há dois anos na conferência climática de Glasgow, quando 74 nações se comprometeram a alcançá-lo, e consagrado no acordo do Dubai como objectivo principal da política climática. Mas existem duas metodologias muito diferentes em utilização para calcular o zero líquido: um método científico utilizado pelos cientistas do IPCC para medir o carbono no mundo real, e um método muito mais flexível, adoptado pelos negociadores e agora incorporado nos acordos climáticos da ONU.

Gidden e outros cientistas climáticos alertam que esta fórmula flexível da ONU para calcular as compensações não conseguirá travar o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa, levando ao aumento contínuo das temperaturas.

A maioria das compensações consideradas pelos governos envolve a gestão florestal – muitas vezes apelidada de soluções baseadas na natureza para as alterações climáticas. Mas decidir que absorção de carbono nas florestas é antropogénica – e, portanto, potencialmente qualificada como uma compensação contra as emissões – e que absorção é natureza é difícil, porque o carbono é constantemente capturado e libertado naturalmente pelas florestas.

Cientistas e negociadores da ONU concordam que apenas as florestas geridas diretamente devem ser qualificadas como potenciais compensações. Mas além disso, há desacordo.

De acordo com a abordagem do IPCC, apenas o carbono capturado por ações humanas diretas em florestas manejadas, como o plantio de árvores ou a redução da exploração madeireira, deveria ser qualificado. O carbono capturado no interior de florestas geridas como resultado de processos naturais não deve ser contabilizado, uma vez que faz simplesmente parte do ciclo natural do carbono entre os ecossistemas e a atmosfera.

Mas os negociadores do clima adoptaram uma abordagem diferente. Dizem que à escala local pode ser quase impossível distinguir claramente entre o que é natural e o que é antropogénico. Assim, resolveram o problema ao permitir que todo o carbono capturado dentro das florestas geridas se qualificasse para compensação de emissões.

Os resultados das duas abordagens podem ser muito diferentes, concluiu o estudo de Gidden. Muitas das grandes florestas do mundo estão actualmente a capturar carbono em grande escala, através de um crescimento adicional impulsionado por condições mais quentes e húmidas e pelo efeito fertilizante do dióxido de carbono extra na atmosfera. De acordo com as regras da ONU, esta absorção natural aumenta a quantidade de carbono que os países podem compensar com as suas emissões, o que acelera o seu caminho para poderem afirmar ter alcançado o zero líquido.

O estudo de Gidden concluiu que as regras da ONU permitem que os governos compensem colectivamente entre 4 e 7 mil milhões de toneladas de CO2 anualmente provenientes de processos naturais que não se enquadram na abordagem do IPCC. Isto representa entre 10 e 18 por cento do total atual de emissões de combustíveis fósseis, um número que ele espera que aumente ainda mais até 2050.

É justo, alguns podem dizer. Se a captura de carbono for real, não importa se os processos por detrás da captura são naturais ou antropogénicos. “A atmosfera não se importa de onde vem o dióxido de carbono”, concorda Giacomo Grassi, investigador do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e co-autor do artigo de Gidden. Mas, acrescenta, “a forma como o afundamento de terras é contabilizado como antropogénico ou natural ainda é importante para avaliar o progresso [político]”.

Também é importante porque a tarefa de reduzir as emissões deve ser partilhada de forma justa, em vez de dar uma oportunidade a alguns países com boas florestas. E porque, argumenta Grassi, os processos naturais de captura de carbono são quase sempre temporários e passíveis de retrocesso, especialmente à medida que as alterações climáticas continuam a acelerar.

As alterações climáticas podem actualmente estar a impulsionar a captura em muitos locais, mas as secas, as altas temperaturas e os incêndios poderão em breve transformar estes sumidouros de carbono novamente em fontes de carbono. Na verdade, dizem os cientistas, isso é extremamente provável. Gidden espera que, depois de meados do século, as florestas que atualmente capturam carbono comecem a libertá-lo novamente em grandes quantidades, criando um enorme défice no cumprimento do carbono zero.

O impacto global das regras flexíveis da ONU permitirá à ONU “declarar que as emissões líquidas zero globais foram alcançadas vários anos antes do que seria o caso de acordo com a definição do IPCC”, diz Chris Jones, analista do ciclo do carbono no UK Met Office, que revisou o artigo de Gidden. Pior ainda, podem declarar sucesso e nunca atingir o verdadeiro zero líquido.

Outros especialistas no ciclo do carbono vão mais longe, dizendo que a metodologia da ONU é uma bola de demolição que destruirá as esperanças de alcançar um verdadeiro zero líquido. Trata-se “essencialmente de preencher um cheque em branco para os países com florestas que pretendem continuar a queimar combustíveis fósseis”,  diz  Wolfgang Knorr, ecologista da Universidade de Lund, na Suécia. Ele chama-lhe um “truque contabilístico [que] acabará por aparecer como dióxido de carbono adicional na atmosfera e aquecimento adicional. Mas quando todos perceberem isso, nenhum dos responsáveis ​​agora estará no cargo.”

A diferença entre os dois métodos de contabilização do carbono é enorme em alguns países. A Rússia, que abriga mais de um quinto das árvores do mundo, está actualmente a assistir a um rápido crescimento florestal como resultado de temperaturas mais altas. A maioria dos conservacionistas afirma que as suas vastas florestas em toda a Sibéria estão próximas do seu estado natural. Eles argumentam, como diz Shchepashchenko, que nesses locais “os processos naturais não podem ser considerados como resultado do manejo florestal”.

Mas Moscovo vê as coisas de forma diferente. Declarou que a maior parte destas florestas remotas são “geridas” e, portanto, que a sua acumulação de carbono é válida para compensar as emissões de carbono do país. A mais recente declaração da Rússia publicada pela ONU   sobre emissões subtrai um sumidouro de carbono florestal de 540 milhões de toneladas das emissões globais do país de 2,12 mil milhões de toneladas, reduzindo as suas emissões “líquidas” declaradas em um quarto. Os ministros falaram do desejo de alargar ainda mais a definição de florestas geridas para “maximizar” a sua contribuição para a compensação de emissões.

Os EUA não são tão diferentes. Algumas florestas orientais, especialmente nos Apalaches, estão a absorver carbono a um ritmo rápido, através de uma combinação de regeneração natural após desflorestação histórica e do efeito de fertilização do aumento de CO2 na atmosfera. Aproveitando isto, as submissões da Agência de Protecção Ambiental à ONU compensaram 11,9 por cento das emissões de gases com efeito de estufa do país contra a absorção de carbono nas florestas e outras terras geridas. Mas um estudo do ano passado realizado por William Anderegg, da Universidade de Utah e colegas, destacou uma “impressionante incerteza” sobre como este número poderá mudar no futuro devido às alterações climáticas, incluindo “riscos substanciais de perdas de carbono… em regiões onde os projectos de compensação de carbono florestal são atualmente localizado.”

Os modeladores de carbono e os negociadores climáticos estão aparentemente em desacordo. Apesar da sua evidente importância, Gidden afirma que “o impacto desta discrepância nos parâmetros de referência de mitigação nacionais e globais ainda não é bem compreendido”. Mas precisa de ser resolvido, diz ele, para que o zero líquido seja realmente alcançado “de acordo com a ciência”. E assim por diante.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Yale Environment 360 [Aqui!].

Última tentativa de produzir um novo acordo na COP28 após original ser rejeitado

O Sultão Al Jaber, o presidente da Cop, envolveu-se na diplomacia de transporte além do prazo para finalizar o texto sobre combustíveis fósseis

COP 28

Ativistas climáticos protestam para exigir a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no dia 12 da Cop28 em Dubai, na terça-feira. Fotografia: Sean Gallup/Getty Images

Por Fiona Harvey e Nina Lakhani, em Dubai, para o “The Guardian”

Os anfitriões da Conferência Climática COP28 farão uma última tentativa na quarta-feira para forjar um novo acordo sobre o futuro do clima, depois da sua tentativa original ter sido redondamente rejeitada pelos países ricos e por muitos países pobres .

Um novo texto que estabelece um potencial acordo sobre combustíveis fósseis estava em preparação há mais de 24 horas, enquanto as negociações de quinze dias se estendiam quase um dia após o prazo oficial, que era a manhã desta terça-feira, em Dubai.

O sultão Al Jaber, presidente das conversações em nome dos Emirados Árabes Unidos, envolveu-se numa intensa ronda de diplomacia ao longo de hoje e teve reuniões com chefes de delegação individualmente e em grupos planeados até às 3h de quarta-feira.

As nações ainda estavam profundamente divididas sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, depois de um texto inicial ter proposto “reduzir a produção e o consumo de combustíveis fósseis”. Contudo, isto foi apresentado apenas como uma lista de opções sobre as quais os países “poderiam” agir, o que era inaceitavelmente fraco para muitos países vulneráveis. Um grupo de países descreveu o texto como “uma sentença de morte” para pequenos estados insulares.

O governo do Reino Unido foi duramente criticado por activistas e algumas delegações na terça-feira, quando o The Guardian revelou que o ministro do clima, Graham Stuart, tinha sido chamado de volta a Londres para a votação sobre Ruanda . Após indignação generalizada, Rishi Sunak ordenou que ele voltasse a Dubai para as últimas horas.

Os países ricos não conseguiram demonstrar a liderança necessária para resolver a crise climática, e muitos estão demasiado atolados na sua própria hipocrisia em relação aos combustíveis fósseis para quebrar o impasse na Cop28 , disseram os defensores da justiça climática ao Guardian.

A Arábia Saudita e alguns países aliados constituem uma pequena minoria que levantou publicamente fortes objecções à inclusão de qualquer referência à redução da produção e do consumo de combustíveis fósseis no texto de um potencial acordo.

Muitos países desenvolvidos estão publicamente a exercer forte pressão no sentido da eliminação progressiva do carvão, do petróleo e do gás – mas com ressalvas como “inabalável” ou apenas carvão, no caso dos EUA.

Em contraste, muitos no mundo em desenvolvimento – apesar do seu desejo de ver as temperaturas globais limitadas a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais – dizem que qualquer compromisso para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis deve ser “justo, financiado e rápido”, com os países ricos poluidores fazendo a transição primeiro.

Alguns, como o grupo africano, ficariam contentes em ver os elementos-chave do projecto actual, com apenas acções opcionais incluídas e sem eliminação ou redução progressiva dos combustíveis fósseis. “O resultado do GST [balanço global] deve garantir que a transição energética será justa, equitativa e ordenada, como tal, a transição deve basear-se em caminhos diferenciados para o carbono zero e a redução progressiva dos combustíveis fósseis”, disse Collins Nzovu, o grupo africano cadeira.

Mohamed Adow, diretor do grupo de reflexão sobre energia e clima, Power Shift Africa, com sede em Nairobi, disse que o dinheiro era fundamental. “Os países ricos dizem que querem uma eliminação progressiva global dos combustíveis fósseis, mas recusam-se a financiá-la. Simplesmente não há suficiente no texto atual para que os países em desenvolvimento acreditem que haverá financiamento para os ajudar a descarbonizar.”

Ele disse que os países africanos estariam dispostos a ficar do lado do mundo rico, mas apenas se recebessem garantias de que a sua transição para as energias renováveis ​​seria totalmente financiada e se houvesse uma linguagem clara para diferenciar entre as datas de eliminação progressiva para os países ricos e pobres.

Os ativistas também sublinharam a necessidade de os países ricos reconhecerem a sua maior responsabilidade pelas emissões. Meena Raman, especialista em política climática na sua 16ª edição da Rede do Terceiro Mundo, disse: “O balanço global tem estado cheio de desonestidade e hipocrisia por parte do norte global, especialmente dos EUA e do grupo guarda-chuva de países, que subitamente afirmam ser campeões climáticos falando sobre a estrela norte de 1,5°C, enquanto se recusam a falar sobre as suas emissões históricas e responsabilidade histórica.

“Esta é uma linha supervermelha para os Estados Unidos. Não querem falar de equidade e insistem que o texto se refira a todos as partes sem qualquer diferenciação.

“Eles estão a preparar os países em desenvolvimento para o fracasso, para que possam culpar e mostrarem-se como defensores do clima, ao mesmo tempo que expandem a produção e o consumo de combustíveis fósseis… Isto é hipocrisia, é colonialismo climático e injustiça climática.”

As ações dos países ricos na busca pelos combustíveis fósseis cheiravam a hipocrisia, acrescentou Adow. Os EUA são o maior produtor de petróleo e gás do mundo; o Reino Unido prometeu “maximizar” o Mar do Norte e está construindo uma nova mina de carvão; a União Europeia está adquirindo fornecimentos adicionais de gás em todo o mundo.

“Sabemos que estas são lágrimas de crocodilo do Reino Unido e dos EUA sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis”, disse Adow. “Os EUA são o petroestado definitivo. Se eles se opunham tanto aos combustíveis fósseis, por que parecem amá-los tanto?”

Asad Rehman, o fundador da Campanha Global pela Justiça Climática, disse: “A hipocrisia dos países ricos alegando que é uma sentença de morte para pequenas ilhas, enquanto passam as últimas décadas recusando-se a reduzir as suas emissões e anunciando uma enorme expansão fóssil é a verdadeira sentença de morte. . É um círculo tóxico: falta de ambição e anos dizendo uma coisa e obstruindo a portas fechadas.”

Brandon Wu, diretor de política da ActionAid EUA, disse que os países ricos devem cumprir as suas promessas: “É compreensivelmente muito difícil para os países em desenvolvimento comprometerem-se com a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis quando simplesmente não têm motivos para acreditar que o apoio internacional estará próximo. . Os países ricos têm de reconstruir a confiança, dando sinais muito mais claros de que o financiamento e a transferência de tecnologia virão.”

Rebecca Newsom, chefe de política do Greenpeace no Reino Unido, disse que “não é de admirar” que muitos países africanos se sintam assim. “Países como o Reino Unido continuam a entrar num frenesi de exploração de novo petróleo, gás e carvão , e os países ricos historicamente poluidores têm consistentemente falhado no cumprimento – ou bloqueado o progresso – no novo financiamento público urgentemente necessário para apoiar os países em desenvolvimento na acção climática, ” ela disse.

De acordo com a análise da Rede de Acção Climática das Ilhas do Pacífico e da Oil Change International , 127 países presentes nas conversações apelaram ou endossaram a decisão de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis na COP28, contra 80 países apenas um ano antes.

Newsom disse que ainda há uma oportunidade para os países ricos tomarem uma direção diferente. Ela disse: “O que esta dinâmica deixa claro é que, para realmente desbloquear as negociações em Dubai, países como o Reino Unido, os EUA, a UE, o Japão, o Canadá e a Austrália precisam urgentemente de colocar a sua própria casa em ordem e aumentar significativamente o financiamento público necessário. para entregar o pacote genuinamente justo e ambicioso que o mundo quer e precisa.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Dubai e a COP das extravagâncias

A atenção crescente à questão climática transformou as COPs em eventos dignos dos maiores festivais do planeta, capazes de receber mais de 100 mil pessoas. Mas será que o caminho para um processo decisório mais participativo passa por COPs anabolizadas? 

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Por Bruno Toledo Hisamoto para o ClimaInfo*

A COP28 já está marcada como a Conferência dos excessos. Tudo parece demais. Muita gente, muitos itens de negociação, muitas salas, muitos pavilhões… muito muito! 

Para você ter uma ideia, o complexo do Expo City Dubai que recebe a COP tem mais de 3 km2 de espaço, duas vezes o tamanho do parque do Ibirapuera em São Paulo. Nele, circulam cerca de 100 mil pessoas, entre negociadores, observadores, ativistas, lobistas, funcionários, etc. É a maior COP já realizada em termos de participantes e de dimensão do espaço. 

Diferentemente de Sharm el-Sheikh no ano passado, tudo é organizado. Os ambientes, os fluxos de pessoas, a infraestrutura para alimentação, a conexão wi-fi. Os pavilhões nacionais, que costumam ser estandes clássicos de eventos, estão alocados em prédios específicos para cada país, com salas, banheiros e outras comodidades próprias. 

Além da organização, a opulência também chama a atenção. O espaço da COP tem diversos restaurantes, desde opções mais básicas de alimentação até a culinária mais refinada – e com preços bem mais salgados. Para facilitar a locomoção, os organizadores disponibilizaram carrinhos de golfe para que as pessoas cheguem aos espaços procurados sem se desmanchar em suor. O ar-condicionado, item essencial em um país de clima desértico, também é potente. 

Tudo isso é bom, mas o crescimento das COPs nos últimos anos está nos levando a um cenário insustentável. Poucos países, mesmo entre aqueles mais ricos, têm condições financeiras e de infraestrutura para organizar algo dessa magnitude. É um custo muito alto para um evento com possibilidades restritas de retorno, do qual dificilmente os organizadores sairão com as contas no azul. 

Foi por isso que a Alemanha deixou claro que não está disposta a receber a COP29 em 2024. Essa era uma possibilidade caso os países do Leste Europeu não chegassem a um acordo sobre o anfitrião da próxima Conferência – ao final, o Azerbaijão se viabilizou como sede.  Pelas regras da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC), quando não há acordo sobre o anfitrião, a COP acaba sendo realizada na sede de seu Secretariado, na cidade alemã de Bonn. O próprio governo alemão entende não ter condições financeiras para organizar o evento na magnitude que ele adquiriu nos últimos anos, alegando problemas fiscais.

Além disso, é bom ressaltar, a maior parte dessa expansão nas estruturas da COPs não aconteceu por conta de uma maior participação de governos ou da sociedade civil, mas sim de empresas e, como bem sabemos agora, lobistas da indústria dos combustíveis fósseis e do agronegócio internacional. O avanço corporativo sobre a COP transformou o evento em uma grande feira empresarial, uma ocasião para buscar novos negócios, verdes ou tingidos de verde. 

Na prática, os limites tradicionais entre os espaços de negociação (blue zone, no linguajar da ONU) e os de discussão pública (green zone) estão superados. A blue zone anabolizada está concentrando a massa de pessoas que participam da COP, enquanto a green zone esvaziada se transforma em um parque com pouca atenção do público. 

Da forma como está, as COPs estão se tornando eventos cada vez mais complexos e custosos, com poucos países capazes de absorver o impacto. Isso certamente é uma preocupação para o Brasil, que receberá a COP30 em 2025. É muito difícil pensar em algo da magnitude desta COP28 acontecendo em Belém do Pará, mesmo com os dois anos de preparação. 

Ao mesmo tempo, precisamos discutir até que ponto essas conferências enormes são úteis para o enfrentamento à crise climática. Será que essas COPs a la Copa do Mundo não são too much? Será que, ao invés de ampliar a participação e a representatividade da sociedade global nas negociações, não estamos dando espaço para empresas e lobistas fazerem a festa? 

Dubai nos mostra que podemos estar chegando a um limite para as COPs. 

* Bruno Toledo Hisamoto é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), professor de política e economia internacional e especialista em negociações climáticas do Instituto ClimaInfo. 

ClimaInfo, 11 de dezembro de 2023.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Encarregados de combater o desmatamento na Amazônia, agentes ambientais brasileiros protestam contra condições de trabalho sob Lula

torasAgente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA) inspeciona árvore extraída da floresta amazônica, em uma serraria durante operação de combate ao desmatamento, em Placas, Pará, Brasil, 20 de janeiro de 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino//Arquivo Foto Adquire Direitos de Licenciamento

Por Jake Spring para a Reuters

DUBAI (Reuters) – Mais de 1.500 trabalhadores das agências federais  que atuam contra o desmatamento no Brasil estão exigindo melhores salários e condições de trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com uma carta que assinaram e que foi revisada pela Reuters na quarta-feira.

Os agentes ambientais foram encarregados de executar a postura mais dura de Lula em relação ao desmatamento, um elemento-chave de sua campanha para restabelecer o Brasil como líder em mudanças climáticas, através da emissão de multas por infrações ambientais, entre outros meios.

As taxas de desmatamento na floresta amazônica brasileira caíram 50% nos primeiros 10 meses da presidência de Lula, mas os trabalhadores dizem que continuam mal pagos e sobrecarregados de trabalho enquanto Lula apregoa o seu sucesso na Conferência Climática COP28 da ONU, em Dubai.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter as alterações climáticas porque absorve grandes quantidades de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global.

Os trabalhadores do IBAMA, órgão federal de fiscalização ambiental, e do  ICMBIO, agência encarregada de proteger as unidades de conservação,  acusaram Lula de “deslealdade” e disseram que suas condições de trabalho ameaçavam o combate ao desmatamento.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, nomeado por Lula, disse que os servidores tinham razão. “Boa parte dos resultados do desmatamento foram frutos do seu trabalho”, disse Agostinho à Reuters à margem da COP28.

“É uma afirmação justa da parte deles, mas trabalhamos com limitações”.

Agostinho disse que espera poder contratar mais trabalhadores no próximo ano e culpou o Congresso por atrasar as aprovações orçamentais.

O gabinete de Lula, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não responderam imediatamente a um pedido de comentário.

As taxas de desmatamento dispararam sob o governo do antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, que procurou abrir mais áreas da Amazônia à agricultura e à mineração, argumentando que isso tiraria a região da pobreza.

Jair Bolsonaro enfraqueceu os órgãos ambientais e os criticou abertamente por emitirem multas ambientais.

Reportagem de Jake Spring; edição por Miral Fahmy


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

O desmatamento impulsionado por commodities e a perda de turfeiras emitem mais carbono do que a Alemanha

Enquanto todos os olhares se voltam para as negociações sobre o clima na COP28, Trase quantifica as emissões de gases com efeito de estufa causadas pela desflorestação e pela degradação das turfeiras ligadas à produção e consumo de carne bovina, soja, óleo de palma e outras mercadorias pelos países

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Por Carina Mueller e André Vasconcelos para a Trase

Os líderes mundiais estão a reunir-se na cimeira climática COP28, nos Emirados Árabes Unidos, para fazer um balanço do progresso no sentido de reduzir as emissões de carbono para zero emissões líquidas até 2050. Embora muito debate se concentre no sector da energia, não há caminho para zero emissões líquidas sem combater o desmatamento.

Se o desmatamento fosse um país, seria o terceiro maior emissor do mundo . Na COP26, em Glasgow, 145 países, representando 91% das florestas do mundo, comprometeram-se a travar e reverter a perda florestal e a degradação dos solos até 2030. Mas os compromissos precisam urgentemente de ser traduzidos em ações. A última Avaliação da Declaração Florestal mostra que não estamos no caminho certo para travar o desmatamento e a degradação florestal até 2030.

Globalmente, quase todo o desmatamento tropical está direta ou indiretamente ligado à expansão agrícola . Pesquisas anteriores estimam que o comércio e o consumo internacionais de produtos agrícolas e florestais são responsáveis ​​por aproximadamente um quarto da perda florestal nas áreas tropicais e por cerca de um terço das emissões de carbono relacionadas com a desflorestação tropical . As emissões resultam quando florestas ricas em carbono, savanas arborizadas, turfeiras e outros ecossistemas naturais são desmatados para a criação de gado e o cultivo de culturas e madeira.

A Trase quantificou as emissões provenientes do desmatamento e da degradação das turfeiras ligadas às cinco commodities agrícolas comercializadas globalmente com maior impacto nas florestas produzidas em seis países principais: carne bovina do Brasil; soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia; cacau da Costa do Marfim; e óleo de palma e polpa de madeira da Indonésia.

Commodities e países produtores em análise - carne bovina do Brasil, soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, celulose da Indonésia, cacau da Costa do Marfim

No geral, os resultados mostram que a desflorestação associada à expansão da produção destes produtos gera emissões equivalentes a 444 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões provenientes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 701 milhões de toneladas – mais do que as emissões anuais totais da Alemanha , o décimo maior emissor do mundo em 2020.

Limitando isto à percentagem de produtos exportados, a conversão de terras gera emissões equivalentes a 120 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões resultantes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 282 milhões de toneladas – o equivalente às emissões anuais totais de Espanha, o 29.º maior emissor do mundo em 2020.

A ação dos mercados consumidores é urgentemente necessária

A China é o país consumidor associado, de longe, à maior quantidade de desmatamento e de emissões relacionadas com a turfa, equivalente a 99,4 milhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões anuais totais da Roménia. As principais fontes de exposição da China são as importações de pasta de madeira (48,5 milhões de toneladas), carne bovina (27,4 milhões de toneladas), óleo de palma (20,5 milhões de toneladas) e soja (3 milhões de toneladas).

As importações dos países do Médio Oriente e Norte de África (MENA) estão associadas a emissões equivalentes a 25,3 milhões de toneladas de CO2 por ano – uma pegada de carbono maior do que a da Croácia. Isto deve-se principalmente à carne bovina (14,3 milhões de toneladas), ao óleo de palma (9,2 milhões de toneladas), à pasta de madeira (1,3 milhões de toneladas) e ao cacau (0,1 milhões de toneladas). As emissões associadas às importações da Índia são semelhantes em 24,8 milhões de toneladas de CO2 por ano, das quais o óleo de palma indonésio representa 90%.

As importações da UE estão associadas ao desmatamento e às emissões relacionadas com a turfa, equivalentes a 24,2 milhões de toneladas de CO2. As principais fontes de exposição são o óleo de palma indonésio (16 milhões de toneladas), o cacau da Costa do Marfim (5,2 milhões de toneladas), a carne bovina brasileira (1,6 milhões de toneladas) e a soja (1,5 milhões de toneladas).

Exposição às emissões de carbono associadas às importações de commodities por mercado regional

Os países precisam urgentemente de tomar medidas em relação às emissões de gases com efeito de estufa associadas ao desmatamento e à degradação das turfeiras, impulsionadas pela sua crescente procura de produtos de base, especialmente a China. Os países poderiam contribuir significativamente para a redução das emissões globais, agindo nas suas cadeias de abastecimento em concertação com os esforços dos países produtores.

Rumo à colaboração internacional nas cadeias de abastecimento

Se for implementada de forma eficaz, a legislação que exige a devida diligência nas importações de mercadorias e nas suas ligações com o desmatamento, como o novo regulamento da UE sobre desflorestação , poderá ser um grande passo na direção certa. É provável que impulsione avanços nos sistemas de rastreabilidade, identificação e comunicação em muitos sectores produtores de mercadorias. Isto pode oferecer uma experiência útil para outros países importadores no desenvolvimento dos seus próprios quadros políticos.

No entanto, a dimensão limitada do mercado da UE deixa claro que são necessárias medidas num conjunto muito mais vasto de mercados importadores. Sinais recentes sugerem um interesse crescente por parte de alguns intervenientes chineses em abordar a questão do desmatamento importado. Em Novembro, a comercializadora estatal COFCO assinou um pedido de compra de soja do Brasil no valor de 30 milhões de dólares , que incorporou pela primeira vez uma cláusula de “livre de desmatamento e conversão”. São necessários quadros políticos mais claros para transformar tais iniciativas em ações sistemáticas.

Uma vez que os mercados importadores partilham uma exposição significativa aos mesmos produtos, países produtores e empresas comerciais, o campo está maduro para colaboração. Os governos podem convocar a cooperação nacional e internacional entre empresas importadoras para estabelecer estruturas partilhadas para um abastecimento livre de desmatamento. Os mercados importadores também podem agir em conjunto para fornecer financiamento e apoio técnico aos países produtores. Juntos, podem ajudar os países produtores a reforçar a implementação dos seus quadros de utilização dos solos, proporcionando incentivos adequados às partes interessadas e melhor monitorizando a proteção das florestas.

Para obter mais informações, visite o COP28 Hub da Global Canopy e o guia SEI para a COP 28


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Trase [Aqui!].

Brasil ganha antiprêmio “Fóssil do Dia” na COP28 pela adesão à Opep+ 

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A empolgação na COP do ano passado era palpável, com o Brasil de Lula prometendo ser um sopro de ar fresco na condição de campeão do clima. Mas, o Brasil é o vencedor do Prêmio Fóssil do Dia de hoje (4/12), na COP28, que acontece em Dubai, pois parece ter confundido a produção de petróleo com liderança climática.

O Ministro das Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, achou apropriado anunciar a adesão à Opep+ no primeiro dia da conferência. Seguindo essa lógica distorcida, serão leiloados 603 novos blocos de petróleo, em 13 de dezembro, apenas um dia depois do término da COP28. Isso não pode ser coincidência, certo? A corrida do Brasil pelo petróleo mina os esforços dos negociadores brasileiros que estão tentando quebrar impasses antigos e agir com senso de urgência.

De acordo com a Agência Pública, matéria publicada ontem, as emissões esperadas de uma das novas fronteiras de petróleo que o Brasil deseja abrir, a Margem Equatorial (que inclui blocos na foz do Rio Amazonas), anularão os cortes de emissões alcançados com o desmatamento zero até 2030. Contrariamente, ao que as empresas de petróleo declaram, não é possível compensar a destruição de todo um ecossistema com uma boa ação.

Brasil, não queremos um tour pelos campos de petróleo quando estivermos em Belém em 2025. E, se você apenas quer se juntar a um clube, podemos sugerir que siga o exemplo do seu vizinho mais próximo, a Colômbia, assinando o Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis em vez da Opep+.

“Ao reduzir o desmatamento em 22% em apenas 11 meses no cargo, o presidente Lula deu uma das contribuições mais significativas para mitigar o aquecimento global em 2023. Porém, com um grande poder vem uma grande responsabilidade. Não se pode liderar o Sul Global contra a crise climática investindo no produto que a causa.” Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.

Sobre o Fóssil do Dia

A premiação foi apresentada pela primeira vez nas negociações climáticas em 1999, em Bonn. Durante as negociações das COPs, os membros da CAN (Climate Action Network) votam nos países que fizeram o ‘melhor’ para bloquear o progresso nas negociações nos últimos dias de conversas. O prêmio é oferecido diariamente e apresentado às 18:00 (horário do local da COP). Neste ano, a cerimônia do Fóssil ocorre na Action Zone 9, perto da entrada.

Adesão à OPEP ofusca papel de líder climático do Brasil na COP28

Às margens da Conferência do Clima, anúncio da entrada na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) é pedra no caminho de liderança climática que Brasil diz querer trilhar em Dubai

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Lula aproveita a viagem a Dubai para ter encontros bilaterais com vários líderes mundiais

Por Nádia Pontes para a Deutsche Welle Brasil 

Em sua volta às Conferências do Clima (COP) como presidente do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva
 pareceu disposto a ocupar a posição de liderança global climática que diz estar vazia. Numa provocação às nações mais ricas, o brasileiro disse que tem metas de corte de emissões de gases de efeito estufa mais ambiciosas do que aqueles que historicamente mais contribuíram com as mudanças climáticas.

O discurso parece unificado em parte do governo. Nesta sexta-feira (01/12), segundo dia de COP28, em Dubai, os ministros Marina Silva, do Meio Ambiente, e Fernando Haddad, da Fazenda, demonstraram sintonia ao apresentar novos planos para valorizar as florestas e transformar a economia.

Enquanto isso, Alexandre Silveira, da pasta de Minas e Energia, tratava na vizinha Abu Dhabi de temas ligados a investimentos um dia depois do anúncio de que o Brasil vai integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

A notícia já havia esfriado os ânimos dos participantes da conferência. “Entrar na Opep e liderar a agenda de clima são duas coisas que não cabem na mesma frase. O Brasil vai ter que se decidir. Quem está certo: é o discurso do presidente aqui ou é o discurso do ministro de Minas e Energia aplaudido de pé na Opep?”, questiona Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, em entrevista à DW.

Para Tzeporah Berman, presidente do Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis, muito antes de a COP30 desembarcar em Belém, em 2025, o Brasil tem que definir objetivamente de qual lado está.

É que o país, além de entrar para o clube mundial de petróleo, pode, em breve, explorar o combustível fóssil que mais contribui para as mudanças climáticas na região chamada de Foz do Amazonas. Rejeitado diversas vezes pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), um novo pedido de licença ambiental da Petrobras está sob análise.

“Lula afirma ser um líder climático internacional, mas ainda há muito a ser feito em casa em termos de políticas públicas nacionais para provar o seu compromisso com a ação climática. Isto deve incluir uma indicação clara para parar a expansão de projetos de combustíveis fósseis, especialmente em ecossistemas-chave como a Amazônia”, pontua Berman à DW. 


Lula fala em um púlpito em frente a uma bandeira da ONU e dos Emirados Áabes

Lula quer ser visto como líder climático mundial, mas primeiro precisa unificar discurso de seu governo. Foto: Peter Dejong/AP/picture alliance

Nova ideia para salvar as florestas

Num evento oficial concorrido, Marina Silva e Fernando Haddad apresentaram detalhes do projeto batizado como Florestas Tropicais para Sempre. A proposta é criar um instrumento financeiro para compensar quem preserva florestas em todo o mundo.

“É uma proposta bastante criativa. Queremos criar condições para que países desenvolvidos protejam a floresta sem ser doação. Eles terão retorno”, disse Silva.

A captação de recursos seria feita inicialmente de fundos soberanos, além de outros investidores – como da própria indústria do petróleo. A rentabilidade líquida seria a fonte de pagamento para países com florestas tropicais.

O mecanismo foi pensado para incentivar a preservação ao mesmo tempo em que desestimula o corte da floresta, explica Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas, que ajudou a elaborar a ideia.

“Para cada hectare preservado durante um ano, seria pago um valor. E para cada hectare desmatado, haveria um desconto de 100 vezes esse mesmo valor. Por exemplo: se for pago 30 dólares por hectare preservado, serão descontados 3.000 dólares por cada hectare desmatado”, detalha Azevedo.

Para o engenheiro florestal, calcular o valor que essa vegetação tem é extremamente complexo. “Não se trata só de carbono. As florestas tropicais prestam serviços essenciais, como fazer o resfriamento do planeta em 1°C”, menciona.

O mecanismo foi apresentado aos países que fazem parte do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), e agora será discutido em Dubai entre os demais detentores de florestas tropicais.

“Em geral, os países desenvolvidos vêm com ideias bastante boas, mas já prontas. E aí você tem que aderir. O Brasil apresenta uma ideia, desenvolve com os outros, e aí cria a estrutura definitiva”, comenta André Correa do Lago, diplomata e negociador-chefe do país. “Esperamos que o Fundo Florestas Tropicais para Sempre esteja em funcionamento até a COP30”.

A meta inicial do fundo é captar 250 bilhões de dólares. Estima-se atualmente que fundos soberanos disponham de 12 trilhões de dólares – a maior parte disso capitalizado pela venda de petróleo.

“Não há contradição”

Depois de discursar na plenária, o presidente Lula teve reuniões bilaterais com o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, com o secretário-geral da ONU, António Guterres, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Ele não falou com a imprensa.

Já Marina Silva e Fernando Haddad, logo após apresentarem o plano para as florestas tropicais, foram questionados por jornalistas sobre a notícia de adesão do país à Opep em plena conferência do clima.

Segundo Haddad, o Brasil terá até junho de 2024 para decidir se entra para o grupo. Marina Silva afirmou que o país seria um observador e que, ao exercer esse papel, poderia “ajudar o mundo a fazer a transição energética” necessária.

“Se for para levar o debate da economia verde, da necessidade de descarbonizar o planeta, não é uma contradição. É exatamente para levar o debate que precisa ser enfrentado no âmbito daqueles espaços que são os grandes produtores de combustíveis fósseis, que são os grandes responsáveis pelo aquecimento do planeta”, respondeu.

Para Paulo Artaxo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) que já integrou o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), a emergência climática testemunhada em várias partes do mundo não pode ser menosprezada em Dubai.

A COP28 teria que trazer o compromisso de acabar com a era do petróleo e iniciar a era da energia sustentável.

“O recado da ciência é claro: a janela de abertura para novos poços de petróleo já passou há décadas. O ministério da Fazenda e do Meio Ambiente estão alinhados com o futuro. O de Minas e Energia e a Petrobras estão alinhados com o passado. Este é o grande dilema que o Brasil tem que resolver”, analisa Artaxo.


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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

Greenwashing corporativo ou ação climática para valer na COP28?

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Por Ben Lilliston para o IATP 

Em Setembro, a Cimeira da ONU sobre Ambição Climática, em Nova Iorque, foi inundada com novos anúncios e iniciativas empresariais sobre o clima, muitos dos quais reflectiam flashes de marketing em vez de planos reais para reduzir as emissões. Na verdade, o greenwashing climático empresarial tornou-se tão descarado que o Secretário-Geral da ONU identificou-o como um grande impedimento à acção climática. A próxima 28ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), também conhecida como COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, é outra oportunidade para combater a lavagem verde corporativa. A boa notícia é que os países já estão a tomar medidas para limitar o greenwashing por parte de empresas e instituições financeiras. A COP28 apresenta uma oportunidade importante para os reguladores a nível nacional partilharem as melhores práticas e avançarem para regras fortes e juridicamente vinculativas que estabeleçam o que as empresas podem reivindicar como uma verdadeira ação climática.

A Cimeira do Clima da ONU incluiu um fluxo de trabalho centrado na “credibilidade” dos compromissos empresariais que explorou a operacionalização das recomendações de um Painel de Peritos de Alto Nível da ONU emitidas na COP27 no relatório Integrity Matters . Esse relatório destacou o efeito prejudicial da lavagem verde corporativa na ação climática e incluiu estas recomendações principais para futuros compromissos climáticos: 1) definir metas de curto prazo para 2025 e 2030 (não apenas 2040 ou 2050); 2) concentrar-se nas reduções reais de emissões – especialmente nos combustíveis fósseis; 3) incluir as emissões de âmbito 3 (cadeia de abastecimento completa) no cálculo da pegada climática; 4) não utilização de compensações de emissões no curto prazo, inclusive até 2030.

As recomendações em Integrity Matters tiveram um impacto imediato. Quando a Glasgow Financial Alliance for Net Zero , uma coligação de oito alianças do sector financeiro, se comprometeu a adoptar as recomendações do relatório, várias empresas financeiras e de seguros abandonaram a aliança. Embora as empresas tenham baseado a sua saída em preocupações sobre violações antitrust, também surgiram preocupações de responsabilidade sobre o cumprimento de normas mais rigorosas de emissões líquidas zero.

O desafio da “credibilidade” das reivindicações climáticas corporativas gerou várias ações por parte dos reguladores governamentais nos EUA e na Europa, que exigem mais detalhes das empresas sobre as suas emissões e planos climáticos e instalam barreiras de proteção para limitar o branqueamento verde generalizado.

Nos últimos anos, a IATP expôs a lavagem verde climática por parte de empresas de alimentos e agrícolas. Muitas vezes, a pesquisa da IATP descobriu que as reivindicações climáticas corporativas: 1) não refletem reduções mensuráveis ​​de emissões das operações atuais (não futuras) da empresa, incluindo cadeias de abastecimento; 2) reivindicar reduções de emissões que não sejam certificadas por terceiros independentes, transparentes e confiáveis, com monitoramento contínuo; 3) confiar em compensações ou remoções de carbono que não são cientificamente credíveis e carecem de integridade.

A perda de confiança nas reivindicações climáticas corporativas

Embora cada vez mais empresas utilizem termos de marketing climático como “neutro para o clima”, “carbono zero” e “inteligente para o clima”, há uma confusão e um ceticismo crescentes entre consumidores e investidores sobre o que exactamente esses termos significam – por uma boa razão. Uma análise recente de mais de 700 empresas que fizeram alegações de “net zero” concluiu que mais de dois terços não forneceram detalhes sobre como atingiriam esse objetivo. Uma análise da Carbon Market Watch concluiu que 24 das maiores empresas do mundo estavam a fazer greenwashing com os seus planos de emissões líquidas zero, ao mesmo tempo que continuavam, em grande parte, a fazer negócios como sempre. Poluidores globais como Shell, Chevron, BP e ExxonMobil vangloriam-se dos investimentos em energias renováveis, ao mesmo tempo que aumentam as emissões relacionadas com os combustíveis fósseis, descobriu outro grupo de investigadores .

Estão a ser feitas novas alegações relacionadas com o clima porque as empresas compreendem correctamente que os consumidores e os investidores se preocupam com a acção climática. Um inquérito do Conselho Internacional de Informação Alimentar concluiu que os consumidores estão preocupados com as alterações climáticas e que essa preocupação afecta as suas compras. Um estudo recente sobre consumidores realizado pela Universidade Johns Hopkins descobriu que os rótulos dos alimentos que indicam um elevado impacto climático dissuadem a compra dos consumidores. O North American Meat Institute concluiu, em um inquérito anual , que cerca de um terço dos consumidores que comem carne procuram alegações ambientais e uma parte pretende explicitamente uma menor pegada climática.

Mas vários inquéritos indicam que os consumidores estão cépticos em relação às alegações climáticas das empresas. Uma sondagem recente concluiu que a maioria dos americanos (64%) acredita que os compromissos empresariais sobre as alterações climáticas são apenas aparências e que as empresas não cumprirão as suas promessas. Uma pesquisa encomendada pela Changing Markets Foundation descobriu que mais de 50% dos entrevistados estavam preocupados com a lavagem verde corporativa na rotulagem de alimentos com termos como “neutro em carbono”, “positivo para o clima” e “zero líquido”. Um inquérito de 2022 para a Advertising Standards Authority no Reino Unido descobriu que os consumidores britânicos acreditavam que as alegações de “neutralidade em carbono” implicavam que tinha ocorrido uma redução absoluta nas emissões de carbono e sentiram-se enganados quando informados de que “compensações de carbono” foram usadas para atingir a meta.

A maioria das grandes empresas de carne utiliza algum tipo de marketing relacionado ao clima. A JBS, maior empresa de carnes do país, comercializa com destaque seu compromisso “ zero líquido até 2040 ” . No entanto, uma decisão recente da Divisão Nacional de Publicidade do Better Business Bureau, administrada pelo setor, recomendou que a JBS descontinuasse essas reivindicações de zero líquido, concluindo que elas “criam razoavelmente expectativas no consumidor de que os esforços do anunciante estão proporcionando benefícios ambientais, especificamente ‘zero líquido’. emissões até 2040, um resultado mensurável” que não acreditava poder ser substanciado.

A Tyson Foods também fez reivindicações de emissões líquidas Zero (até 2050) e recentemente introduziu a chamada carne bovina “amiga do clima”, que afirma produzir 10% menos emissões de gases de efeito estufa . A Tyson não deixa claro qual é a sua linha de base para uma redução de 10%, nem como está calculando essas reduções nas fazendas. Como vários artigos salientaram , o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) aprovou um rótulo “amigo do clima” para a Tyson, mas recusa-se a partilhar como fundamentou o rótulo.

Para turvar ainda mais as águas nas reivindicações climáticas corporativas está o recentemente criado programa de “commodities inteligentes para o clima do USDA . O USDA define uma mercadoria “inteligente para o clima” como aquela que reduz as emissões de gases com efeito de estufa ou sequestra carbono. Contudo, não existe uma norma ou orientação sobre até que ponto as emissões devem ser reduzidas, durante quanto tempo (na silvicultura e na agricultura, o carbono armazenado temporariamente pode ser libertado mais tarde) e como a alegação é verificada ou por quem. O programa do USDA financiou 141 projetos diferentes de agricultura inteligente em termos climáticos, todos com diferentes definições de “inteligente em termos climáticos”A maioria das grandes empresas de alimentos está envolvida em um dos projetos de commodities “inteligentes para o clima” do USDA (Danone, PepsiCo, Hershey, Nestlé, Kellogg’s e General Mills, entre outros), e várias já estão comercializando projetos como “inteligentes para o clima” (como Carne Inteligente para o Clima da Tyson). Os consumidores e investidores ficam no escuro, tentando compreender os produtos alimentares “inteligentes para o clima” e até que ponto os benefícios climáticos foram alcançados através da produção e compra de tais alimentos.

Muitas reivindicações climáticas carecem de transparência e são enganosas

Em vários relatórios e análises de planos climáticos corporativos ao longo dos últimos cinco anos, o IATP descobriu que a maioria das empresas de carne e lacticínios que fazem alegações relacionadas com o clima não contabilizam a totalidade das suas emissões. As emissões de Escopo 1 são definidas como as emissões diretas de uma empresa, o Escopo 2 são as emissões vinculadas ao uso de energia e combustível pela empresa e as emissões de Escopo 3 incluem toda a cadeia de fornecimento da empresa (geralmente a maior fonte de emissões). A análise da IATP descobriu que a maioria das empresas de carne e laticínios não inclui todas as suas emissões de Escopo 3 nos relatórios climáticos. Além disso, muitos não reportam publicamente as suas emissões de Âmbito 1 ou Âmbito 2.

Para complicar ainda mais a situação, muitas empresas alimentares utilizam uma métrica de intensidade de carbono em vez de uma métrica absoluta de redução de emissões ao fazerem alegações climáticas . Os números de intensidade de carbono representam emissões por unidade de produção. Por exemplo, emissões por galão de leite produzido. É possível que uma empresa reduza a sua intensidade de carbono e, ao mesmo tempo, aumente as suas emissões climáticas globais se expandir a produção. Na nossa análise de dezenas de empresas de carne e lacticínios, todas projectam expandir a produção global no futuro. A métrica de intensidade de carbono foi recentemente examinada como parte da iniciativa global Science Based Target Initiative (SBTi), que trabalha com empresas para definir metas credíveis de redução de emissões. A orientação de 2022 para Florestas, Terras e Agricultura (FLAG) do SBTi permite que as empresas estabeleçam metas de intensidade de emissões, mas não podem resultar em emissões absolutas estáveis ​​ou aumentadas até ao final do período-alvo de 5 a 10 anos.

Outros elementos enganosos do marketing relacionado com o clima são alegações baseadas em tecnologia especulativa que ainda não foi desenvolvida. Muitas empresas de carne e laticínios fazem alegações de “net zero” com base em tecnologias, como rações especiais para animais ou animais equipados com máscaras de captura de gases, que ainda precisam ser desenvolvidas, avaliadas e comprovadas para reduzir as emissões.

As reivindicações climáticas baseadas em compensações de carbono carecem de integridade

“ Devemos ter tolerância zero com o greenwashing líquido-zero. A ausência de padrões, regulamentos e rigor nos créditos voluntários do mercado de carbono é profundamente preocupante. Os mercados paralelos para créditos de carbono não podem prejudicar os esforços genuínos de redução de emissões, inclusive a curto prazo. As metas devem ser alcançadas através de cortes reais de emissões” — Secretário Geral da ONU , novembro de 2022

Várias alegações relacionadas com o clima, como “neutro em carbono”, “isento de carbono” ou “zero líquido”, baseiam-se em compensações de carbono para fundamentar o rótulo. As alegações climáticas corporativas baseadas em compensações enganam os consumidores e investidores, pois dão a impressão de que o produto e a sua cadeia de abastecimento não emitem gases com efeito de estufa ou reduzem as emissões com base em projetos de compensação em grande parte não regulamentados, cujo desenvolvimento pode manipular as linhas de base e/ou deturpar o número de emissões compensadas com créditos de carbono.

Questões científicas sérias sobre a validade dos créditos de compensação de carbono são numerosas e cresceram nas últimas duas décadas. Os cientistas ainda não responderam a questões fundamentais sobre a quantidade precisa de carbono que pode ser sequestrada no solo e por quanto tempo. O último relatório do IPCC concluiu que não existe uma relação direta entre as fontes industriais de emissões medidas com precisão e o sequestro de carbono baseado na terra, menos cientificamente certo (e menos permanente), incluindo o sequestro de terras agrícolas. Os autores que contribuíram para o relatório do IPCC escreveram que, com base na ciência climática atual, “os resultados indicam que uma emissão de CO2 na atmosfera é mais eficaz no aumento do CO2 atmosférico do que uma remoção equivalente de CO2 na sua redução, com a assimetria aumentando com a magnitude  da emissão/remoção.”  (ênfase IATP) À medida que as emissões de CO₂ e as remoções equivalentes de CO₂ aumentam, o grau de assimetria aumenta.

Os cientistas também concluíram que as próprias alterações climáticas, através do aumento das temperaturas e da frequência crescente de fenômenos meteorológicos extremos, irão abrandar ou perturbar a capacidade do solo de sequestrar carbono nas explorações agrícolas e nas florestas ao longo do tempo. Por exemplo, as inundações e a erosão do solo poderiam reverter as reduções de emissões reivindicadas pelos promotores de projetos de compensação. Outra ciência recente destaca as complexidades e incertezas da medição do carbono do solo.

Para além das questões científicas substanciais, existe uma supervisão inconsistente e deficiente dos mercados privados não regulamentados de crédito de compensação de carbono em todo o mundo, bem como padrões e verificações fracos. Uma avaliação realizada pela CarbonPlan de 14 protocolos de crédito de carbono do solo nos EUA concluiu que “a falta de padrões rigorosos torna difícil garantir bons resultados climáticos”. Um relatório de 2021 do Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS) sobre créditos de carbono agrícolas nos mercados privados identificou vários pontos fracos de credibilidade.

Muitos projectos de compensação envolvem a prevenção de emissões, tais como o não corte de uma floresta, o que não reduz as emissões de uma forma que possa ser medida objectivamente. Além disso, os promotores de projectos de prevenção têm um forte incentivo económico para superestimar enormemente as emissões evitadas O padrão corporativo de zero emissões líquidas da SBTi não permite a contabilização das emissões evitadas para atingir as metas de redução de emissões.

Devido à falta de monitorização e supervisão eficazes, as compensações enfrentam um escrutínio cada vez maior. Uma série de investigações sobre projetos de crédito de compensação revelou quantos são  e que alguns parecem ser completamente fraudulentos , enquanto outros causam danos às comunidades locais .

Os governos respondem ao greenwashing

Em resposta aos muitos desafios associados às reivindicações climáticas corporativas, os governos estão a começar a agir. Em março de 2023, a Comissão Europeia publicou a sua Diretiva sobre Alegações Ecológicas , concebida para estabelecer critérios comuns contra o branqueamento ecológico e as alegações ambientais enganosas, incluindo o marketing relacionado com o clima. A directiva (proposta de legislação a ser adaptada e aplicada pelos Estados-Membros da UE) exige que as empresas fundamentem quaisquer alegações climáticas através de uma análise do ciclo de vida acompanhada de dados e verificação independente. Também inclui requisitos de informação adicionais para reivindicações relacionadas com o clima que dependem de compensações, incluindo detalhes sobre quanto qualquer reivindicação depende de compensações, o tipo de compensação e o certificador da compensação. A Diretiva de Reivindicações Ecológicas da Comissão Europeia ainda precisa ser aprovada pelo Parlamento e pelo Conselho da UE.

Nos EUA, a Comissão Federal do Comércio está a atualizar os seus Guias Verdes para o marketing empresarial, com uma nova ênfase nas reivindicações climáticas. A Comissão de Valores Mobiliários (SEC) está a emitir novas regras de divulgação de riscos climáticos para empresas cotadas em bolsa, que exigem a divulgação de riscos físicos relacionados com as alterações climáticas, planos para gerir os seus riscos financeiros relacionados com o clima e relatórios sobre as emissões da empresa. A Califórnia aprovou recentemente as suas próprias regras de divulgação de riscos climáticos e emissões que exigirão que grandes empresas públicas e privadas, incluindo empresas alimentares e agrícolas, forneçam relatórios completos da cadeia de abastecimento com mais detalhes do que a SEC.

Em fevereiro de 2023, a Autoridade de Padrões de Publicidade (ASA) da Grã-Bretanha publicou novas regras sobre reivindicações corporativas especificamente para “net zero” e “carbono neutro”. A orientação da ASA recomenda evitar reivindicações não qualificadas de “net zero” e “neutro em carbono” e exige informações adicionais para os consumidores descrevendo a base para essas reivindicações, incluindo detalhes sobre o uso de compensações. A ASA já se pronunciou contra alegações climáticas utilizadas por bancos de retalho, uma companhia aérea e uma empresa de petróleo e gás. Os reguladores do Reino Unido estão em processo de desenvolvimento de  Requisitos de Divulgação Sustentável  e rótulos de investimento (“SDR”), com uma declaração política e regras finais esperadas para este verão. A França também emitiu novas regras sobre publicidade “neutra em carbono”, exigindo que as empresas comprovem tais afirmações. A Coreia do Sul elaborou uma lei para multar empresas por alegações enganosas relacionadas com o clima .

Na ausência de acção governamental, outros recorrem aos tribunais. Pelo menos 20 casos de lavagem climática foram apresentados em tribunais nos EUA, Austrália, França e Países Baixos desde 2016, enquanto outros 27 casos foram apresentados perante órgãos de supervisão não judiciais (como conselhos de padrões de publicidade), relatam pesquisadores jurídicos . . Os especialistas esperam que o número de casos de lavagem climática aumente no futuro sem orientações e regras governamentais claras sobre reivindicações relacionadas com o clima.

O Secretário-Geral da ONU teve razão ao enfatizar a importância da “credibilidade” nas reivindicações climáticas das empresas na Cimeira da ONU sobre Ambição Climática, em Nova Iorque, e a conversa deve continuar na COP28, no Dubai. Um objetivo claro para os reguladores a nível nacional na COP28 deverá ser o de apresentar directrizes sólidas sobre o que as empresas podem ou não reivindicar como acção climática. O planeta não pode esperar que as empresas parem com o greenwashing habitual e invistam em ações climáticas reais.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Institute for Agriculture and Trade Policy [Aqui!].

COP28 e seu significado prático: petróleo para o mundo

A conferência climática da ONU em Dubai ameaça se tornar uma feira de vendas para a indústria de combustíveis fósseis

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Não há fim à vista para a era dos fósseis: a produção de petróleo está em um “caminho de crescimento” desde 2020

Por Raphael Schmeller para o JungeWelt

Para controlar a crise climática, a utilização de combustíveis fósseis deve ser interrompida – quanto mais cedo melhor. Mas a produção está numa “rota de crescimento”, como afirmou recentemente a Agência Internacional de Energia com referência ao petróleo bruto. Pode-se descartar que os países do mundo mudem esta tendência na conferência da ONU sobre o clima que começa nesta quinta-feira. Pelo contrário, é de esperar o oposto, nomeadamente que a COP 28 se torne um grande espetáculo petrolífero.

A conferência é organizada por um dos maiores produtores de petróleo, os Emirados Árabes Unidos. A COP 28 será liderada pelo Sultão Ahmed Al-Jaber, Ministro da Indústria do estado do Golfo e também CEO da ADNOC, a 12ª maior empresa petrolífera do mundo. Al-Jaber afirma que na reunião em Dubai defenderá “uma abordagem pragmática, realista e orientada para soluções” que “permita o progresso transformador para o clima e o crescimento económico de baixo carbono”. No entanto, no início desta semana a BBC revelou que o chefe do ADNOC queria usar a conferência climática principalmente para concluir negócios petrolíferos. Documentos vazados para a emissora britânica mostram que Al-Jaber está planejando reuniões sobre este assunto com representantes da Alemanha, China, Egito e Colômbia, entre outros.

O Presidente da COP será assessorado pela maior empresa de consultoria do mundo, McKinsey, durante as negociações climáticas de duas semanas. Como noticiou a AFP na quarta-feira, citando documentos confidenciais, a McKinsey apresentou, a portas fechadas, cenários para o futuro fornecimento de energia que contradizem os objetivos declarados da conferência. Outro exemplo do absurdo da COP 28 pode ser visto olhando para a sua agenda. Haverá, entre outras coisas, um seminário sobre o tema “Iate Sustentável” com o ex-piloto de Fórmula 1 Nico Rosberg.

Jan Kowalzig, porta-voz de política climática da ONG Oxfam, ainda acredita que as conferências climáticas anuais das Nações Unidas são “úteis”, como disse ao jW na quarta-feira . Constituem o “processo multilateral central no qual a comunidade de Estados negocia ações comuns na política climática internacional”. Ao mesmo tempo, Kowalzig admitiu que uma COP 28 bem sucedida exigiria “uma boa dose de vontade política”. Por exemplo, a União Europeia deve aproximar-se mais dos países em maior risco, por exemplo através de compromissos robustos para com o novo fundo para lidar com os danos climáticos no sul global.

O relatório anual recentemente publicado do programa ambiental das Nações Unidas, PNUMA, sublinha a urgência do progresso. Mesmo que os atuais compromissos de todos os países fossem implementados sem excepção, a Terra caminharia para um aquecimento de 2,5 graus Celsius até ao ano 2100. Se apenas fizermos esforços reais, podemos esperar um aquecimento de três graus em comparação com a era pré-industrial. Foi acordado em Paris em 2015 limitar o aquecimento a 1,5 graus.

A chefe do PNUMA, Inger Andersen, vê a “responsabilidade fundamental” pela catástrofe climática como sendo dos estados do G20. Em última análise, os 20 principais países industrializados e emergentes causaram 76% das emissões globais de gases com efeito de estufa.


color compass

Este texto escrito inicialmente em alemão foi publicado pelo JungeWelt [Aqui!].

COP28 será mais um evento para o Brasil passar vergonha

Lula deve levar à COP28 proposta para "proteger floresta em pé"

Com Lula e Marina Silva, o Brasil se prepara para cumprir mais um papelão na COP28

Começa amanhã em Dubai, Emirados Árabes Unidos, a 28a. edição da Conferência das Partes (COP). Essa edição já começa com area de que irá dar tudo errado já que o presidente-executivo da empresa petrolífera estatal dos EAU, Sultan Al Jaber, como presidente das negociações. É como colocar o açougueiro para cuidar de um curral cheio de bois prontos para o abate. Simplesmente não tem como dar certo.

Mas e o Brasil? Será que fará um papel menos bizarro do que fez nas edições em que Jair Bolsonaro comandava o executivo federal? Será que agora com Lula e Marina Silva, o nosso país vai fazer um papel mais alinhado com o que se espera de um estado-nacional que detém a maior floresta tropical do planeta?

Os últimos pronunciamentos de Marina Silva indicam que não. Primeiro a ministra do Meio Ambiente tem insistido na alegação pouco crível de que o desmatamento de nossas florestas entrou em um patamar, digamos, mais controlado.  O problema é que o desmatamento pode ter até diminuído, mas continua muito alto na Amazônia. No bioma Cerrado, a coisa não tem nem como disfarçar, pois os números indicam um forte viés de alta.

Além disso, como venho insistindo aqui, o problema da Amazônia não é só desmatamento, pois o processo de degradação florestal via extração predatória de madeira e incêndios florestais vem emitindo a mesma quantidade de CO2. Com isso, a insistência em se falar apenas de desmatamento serve apenas para mascarar o tamanho gigantesco do problema representado pelo tamanho da destruição em curso na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

marina silva

Marina Silva aponta para o desmatamento enquanto esconde a degradação florestal

Agrotóxicos como contribuintes do aquecimento global e das mudanças climáticas

Outro elemento para aumentar o descrédito nas negociações da COP28 é a aprovação no dia de ontem do Pacote do Veneno. É que, apesar de pouco comentado, o aumento excessivo no uso de agrotóxicos também contribue para as mudanças climáticas.  O fato é qu os agrotóxicos também podem liberar emissões dos efeitos do efeito estufa (GEE) após a sua aplicação.

Pesquisas científicas já demonstraram que os agrotóxicos podem aumentar significativamente a produção de óxido nitroso nos solos. Além disso, muitos agrotóxicos levam à produção de ozônio troposférico, um gás com efeito de estufa prejudicial tanto para os seres humanos como para as plantas.

A falta de atenção para com a contribuição dos agrotóxicos se deve, entre outras coisas, ao fato de que existe um foco maior nas emissões urbano-industriais, mas certamente o peso dos agrotóxicos nas emissões de GEE ainda será futuramente colocado no seu devido lugar, e o Brasil com responsável por 25% do uso total dos agrotóxicos no planeta vai acabar ficando no centro do debate.

Curiosamente, nunca ouvi nada de substancial de Marina Silva sobre a relação entre agrotóxicos com o desmatamento e o aquecimento global.  Aliás, enquato no cargo de ministra do Meio Ambiente, a postura de Marina Silva tem sido de uma ausência óbvia no debate sobre a aprovação do PL do Veneno que passou ontem em brancas nuvens pelo Senado Federal.

Então é forçoso apontar para aqueles que apontavam ou esperavam que a participação brasileira na COP28 fosse qualitativamente diferente do que foi entre as COP 24 e 27, melhor repensar.  Poderemos não fazer o mesmo papelão, mas estaremos quase lá.