Na Feira de Oportunidades do Fidesc, Porto do Açu faz mais uma sessão gratuita de “corporate washing”

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O vice-presidente do Fidesc, Rodrigo Lira, participou da cerimônia de abertura da 7a. Feira de Oportunidades. Fonte: Ascom/UENF 

Já notei aqui neste espaço o papel que instituições públicas de ensino têm desempenhado um papel de possibilitar ao Porto do Açu espaços de limpeza de imagem, seja por via das táticas de “greenwashing” ou mesmo de “corporate washing.   Pois bem, esta semana foi a vez do IFF no âmbito da 7a. edição da chamada “Feira de Oportunidades” ser palco de uma mesa que serviu para representantes de empresas sediadas no interior do porto criado por Eike Batista fazerem um exercício de limpeza de imagem que em situações normais custaria muito dinheiro em propaganda, mas graças ao Fidesc acabou saindo de graça.

O tema da referida mesa foi “Porto do Açu e os diferentes negócios do Complexo” e teve como mote oferecer aos estudantes que lá estiveram informações sobre “os diversos setores de atuação do Porto, desde logística e energia até projetos de sustentabilidade e inovação, destacando sua importância estratégica para a economia regional e nacional.” Com isso, os estudantes poderiam entender “como o Porto do Açu conecta mercados, promove o desenvolvimento local e abre portas para novos negócios“.

O que os estudantes não puderem acessar foram informações sobre as práticas de remoção violenta de centenas de famílias de suas terras, muitas vezes com grandes contingentes da Polícia Militar, para dar espaço a um empreendimento que gera pouquíssimos empregos em nível local. Assim, além de venderem ilusões sobre oportunidades que não existem, os porta-vozes do porto têm a oportunidade de moldar mentes e ganhar corações para um empreendimento que até agora gerou mais custos sociais e ambientais do que trouxe qualquer contribuição para superar a crônica falta de empregos que persiste nos municípios de seu entorno. E, que se frise, vai continuar no que depender do Porto do Açu.

O mais lamentável é ver dirigentes de instituições públicas se prestando ao papel de  escada (usando um termo do teatro) para que o Porto do Açu possa fazer propaganda de maravilhas inexistentes, enquanto os agricultores familiares e pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra estão excluídos de suas terras e das áreas de pesca que sempre utilizaram para garantir a sua reprodução econômica e social.

O CDL do Porto do Açu, um perfeito exemplo de “corporate washing”, e com selo de qualidade dado por instituições públicas de ensino

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Passeando ontem pela “timeline” na rede social “Instagram” me dei de cara com a página oficial  do Porto do Açu (@Porto.do.Açuquando pude visualizar diversas imagens relativas ao chamado “Conselho de Desenvolvimento Local” que foi supostamente criado em setembro de 2020, com a participação direta do Instituto Federal Fluminense (IFF) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), conforme anunciado na página do evento que está hospedada no sítio oficial do antigo CEFET na rede mundial de computadores.

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Pois bem, qual é o problema com a propaganda em torno deste suposto “Conselho de Desenvolvimento Local do Porto do Açu”.  O primeiro é que procurando na página oficial do Porto do Açu não localizei qualquer menção ao tal “CDL do Porto do Açu”, e muito menos ainda sobre quem são seus membros e  quem os mesmos dizem representar. Na prática, o único nome publicamente assinalada como pertencente a este “conselho” é o reitor do IFF, Jefferson Manhães. 

Além disso, a propaganda do “CDL do Porto do Açu” menciona ações genéricas no campo da “educação, sustentabilidade e empreendedorismo sustentável, desenvolvidas em parceria com órgãos públicos locais” sem que se saiba, por exemplo, qual é o nível de articulação com a Secretaria Municipal de Educação de São João da Barra (PMSJB), que é quem deve responder legalmente por este tipo de ação no “território” que fica no entorno imediato do Porto do Açu.

Agora, a questão que deveria ser analisada com mais cuidado é quais são os interesses que uma empresa privada controlada por um fundo financeiro multinacional de “private equity” tem em criar um simulacro de conselho para influenciar em áreas que dizem respeito à gestão territorial de uma área sobre a qual não possui jurisdição legal.  

A resposta para essa charada aparentemente está bem longe dos agricultores familiares que tiveram suas terras tomadas e os pescadores artesanais que tiveram suas principais áreas de pesca interditadas pela implantação do Porto do Açu, o que privou as milhares de famílias pertencentes a esses dois grupos de seus meios básicos de produção e reprodução social. É que está óbvio que todos os anúncios de responsabilidade social e ambiental que são geradas pela Prumo Logística Global não estão direcionados para quem conhece efetivamente a sua forma de gerenciar o território. Os destinatários dessa propaganda são, na verdade, os acionistas do EIG Global Partners que não querem ter seus investimentos associados às múltiplas formas de destruição social e ambiental que são marcas registradas do empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista.

Em outras palavras, o “CDL do Porto do Açu” não passa de uma tentativa de demonstrar a adequação a mecanismos existentes da chamada “corporate governance”  (ou em bom português “governança corporativa“) que se tornou uma exigência para o sucesso de grandes projetos corporativos.  Mas até aí “morreu o Neves”, pois os gerentes da Prumo Logística Global estão fazendo o que um mercado financeiro globalizado demanda de quem quer participar da dança com um ar de mínima respeitabilidade. O que me causa estranheza mesmo é que tenhamos pesquisadores e dirigentes de instituições públicas de ensino se associando a esse esforço do que eu tenho chamado de “corporate washing”, uma variante cada vez mais praticada do “greenwashing“. Mas uma coisa me parece certa: esta associação de figuras como o reitor Jefferson Manhães a esse simulacro de democracia corporativa não é fruto de ingenuidade.

Porto do Açu, quem diria, agora virou exemplo de “greenwashing” mais “corporate washing”

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Já existe na literatura científica um incontável números de artigos que abordam as grandes corporações “Greenwashing (quem em tradução livre em português pode ser definida como lavagem a verde)  é uma forma de propaganda em que o marketing verde é usado de forma enganada para promover a percepção de que os produtos, objetivos ou as políticas  de uma determinada empresa ou corporação são ecológicas.    Da mesma forma, pode-se dizer que “corporate washing”  representa o uso de táticas que procuram colar a imagem de empresas ou corporações à ações que sejam socialmente responsáveis, principalmente aos grupos que sejam diretamente impactados pela sua presença.

A matéria abaixo, assinada pela jornalista Taysa Assis e publicada pelo Jornal Terceira Via é um belo exemplo da mistura destes dois conceitos, já que por um lado se vende a ideia de responsabilidade social frente aos agricultores que tiveram suas terras expropriadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral e a venda de alimentos saudáveis aos funcionários do Porto do Açu.  De quebra, se leva para junto desse projeto de verniz socioambiental a Prefeitura de São João da Barra da prefeita Carla Machado (PP), e a Companhia de Desenvolvimento Industrial (Codin), o que adiciona uma camada governamental a esse esforço.

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O problema é que essa tintura de responsabilidade e preocupação ambiental não sobrevive a um mínimo exame dos próprios números oferecidos pela matéria. É que a matéria aponta que 53 famílias foram reassentadas na chamada Vila da Terra (que foi instalada em terras de propriedade da massa falida da Usina Baixa Grande), sendo que o número de famílias afetadas pelo escabroso processo de expropriação de terras que Sérgio Cabral comandou em benefício do ex-bilionário Eike Batista é de, no mínimo, 1.500.

Além disso, a matéria também aponta que apenas 8 das 53 famílias colocadas na Vila Terra estão participando de um evento rotulado de “Feira no Porto”. Em outras palavras, essa “feira” congrega apenas 15% das famílias que supostamente residem  na Vila da Terra e meros 0,53% das famílias que foram afetadas pelas desapropriações, a maioria delas ainda sem receber um centavo pelas terras que lhes foram tomadas pela Codin e entregues para Eike Batista que, por sua vez, as repassou praticamente de graça para o fundo de private equity “EIG Global Partners” que hoje detém o controle acionário do Porto do Açu. Enfim, todos juntos e misturados, aliás, como tem sido desde o começo.