Cenas de devastação climática mostram que adaptação será inseparável da luta por justiça social e distribuição da riqueza

costa verde

Não faz muito tempo toda a discussão sobre as mudanças climáticas causadas pelo funcionamento da sociedade capitalista era um item intangível para a maioria das pessoas comuns que possuem questões mais básicas para se preocupar. Entretanto, as chuvas recordes que derrubaram em torno de 1 metro de água em poucas horas sobre a região da Costa Verde e a Baixada Fluminense mostram que a questão da adaptação climática é algo para ser colocado como prioritário em função do alto nível de destruição que estamos presenciando (ver vídeo abaixo da BR-101 na região da Costa Verde).

O problema é que no atual estado de coisas que predominam no Brasil, não há como esperar de governos que continuam práticas que desprezam o conhecimento científico e optam por manter nossas cidades com fortes padrões de segregação socioespacial, deixando para os pobres ocuparam aquelas áreas nas quais os efeitos da mudança climática são mais perversos.

Desta forma,  os esforços pela adaptação climática será acima de tudo uma luta pela justiça social e pelo estabelecimento de mecanismos de distribuição da riqueza e, por que não, de uma ampla reforma da propriedade da terra urbana.

A crise climática e o apartheid social brasileiro fazem novas vítimas na Baixada Fluminense e na Costa Verde

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Após um breve hiato desde que se viu as cenas dramáticas na cidade de Petrópolis, estes últimos dias foram marcados por tragédias semelhantes na Baixada Fluminense e na chamada Costa Verde (principalmente em Angra dos Reis e Paraty) onde chuvas torrenciais causaram a morte de dezenas de habitantes de áreas pobres. A receita que se vê é a mesma de Petrópolis: chuvas fora do normal, características do atual período de mudanças climáticas, causam desmoronamentos e inundações instantâneas de áreas habitadas por pessoas pobres.

O problema é que tais cenas vão se tornar cada vez mais corriqueiras em um país afetado por mudanças climáticas causadas pelo funcionamento do sistema capitalista que, por um lado, gera altos níveis de poluição atmosférica e, por outro, empurra milhões de seus cidadãos para ocuparem áreas ecologicamente frágeis e desprovidas de infraestrutura compatível para enfrentar a situação que se abre.

De forma objetiva é forçoso reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas tenderão a recair sobre os ombros daqueles segmentos que são politica e economicamente mais frágeis, já que os ricos não só evitam se instalar em locais propensos à quedas de encostas e serem inundados, mas quando o fazem possuem toda a condição de se retirar para outros lugares mais seguros, seja temporária ou definitivamente.

O fato é que não se pode separar os efeitos das mudanças climáticas do padrão de urbanização segregado que predomina no Brasil. Quem tenta separar essa conexão está claramente a serviço da perpetuação de um modelo de urbanização que aposta na perpetuação de um forma muito específica de apartheid social, o qual foi construído no período colonial e cuidadosamente mantido desde que se deu a independência em 1822.

Por isso é que no caso de países como o Brasil o chamado processo de adaptação climática das cidades terá que ser antecedido (ou pelo menos ocorrer simultaneamente) pelo desmantelamento do apartheid social que predomina na maioria das nossas cidades.