O alarme climático está soando

Um helicóptero de combate a incêndios lança água sobre um incêndio florestal no Monte Kithairon, perto de Porto Germeno, a noroeste de Atenas, Grécia, em agosto de 2026. Imagem: Petros Giannakouris / AP Photo / PA Wire. 

Por Steve Trent para “The Ecologist”
‘Incendiar-se… de todas as direções’. Os incêndios devastadores na Europa só irão piorar se não agirmos com firmeza.
Cenas apocalípticas voltaram a ser notícia – desta vez na França e na Espanha. 

Os incêndios que começaram em julho atingiram proporções inimagináveis ​​neste verão, no que Emmanuel Macron, presidente da França, considera a “situação mais grave” para o país desde a Segunda Guerra Mundial.

Estamos em meio a uma guerra, não contra o nosso planeta sofredor, mas contra nós mesmos. 

Violação

Nosso vício em queimar combustíveis fósseis e explorar a Terra até a última gota de seus recursos causou a morte de inúmeras pessoas e a destruição de inúmeros animais e ecossistemas preciosos.

O clima da Terra está mais desequilibrado do que nunca, sendo que o período de 2015 a 2025 foi o mais quente já registrado, de acordo com o relatório Estado do Clima Global 2025 da Organização Meteorológica Mundial .  

Nossas emissões contínuas de carbono são a causa principal indiscutível. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as nações estão lamentavelmente longe de atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme estabelecido no Acordo de Paris. 

As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) estão no caminho certo para um limite de 2,2°C a 2,5°C, mas as políticas atuais projetam um aumento de 2,8°C. A recente saída dos Estados Unidos, o  segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, nos deixa ainda mais para trás.

Já estamos perigosamente perto de ultrapassar o limite de 1,5°C.  2024 foi o ano mais quente já registrado, atingindo 1,55°C, o primeiro ano civil a ultrapassar essa meta. Embora as médias mensais ou anuais acima desse limite não signifiquem que tenhamos falhado, estamos nos aproximando rapidamente dele.

Devastador

Mais de  91% do excesso de calor proveniente de nossas emissões foi absorvido pelo oceano, comprometendo sua capacidade de regulação climática e levando pontos de inflexão críticos à beira do colapso. 

As geleiras, as calotas polares da Antártida e o gelo marinho do Ártico estão derretendo rapidamente, atingindo níveis extremamente baixos nos últimos anos. 

Diversos impactos de importância global estão ocorrendo, como o Super El Niño , que está causando eventos extremamente danosos em vários locais do nosso planeta. 

Ao mesmo tempo, agora está claro que  a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) , que desempenha um papel fundamental na regulação da circulação de calor oceânica, tem diminuído de velocidade. 

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos.

Se fosse completamente interrompido, teria consequências devastadoras para o nosso clima global, um cenário que alguns especialistas dizem estar se tornando cada vez mais possível.

Nuvens de fogo

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos. 

As ondas de calor em todo o mundo têm se intensificado rapidamente, com junho sendo o mês  mais quente já registrado na Europa Ocidental, impulsionado pelas temperaturas da superfície do mar mais altas já registradas para o mês.

Um total de 10.000 mortes em excesso relacionadas ao calor foram  registradas na Europa durante a onda de calor de junho, das quais mais de 9.000 eram de pessoas com 65 anos ou mais. 

A seca resultante e o agravamento das condições de seca criaram as condições ideais para os incêndios na Espanha e na França. 

Em toda a região, esses incêndios perigosos e imprevisíveis têm devastado a terra, espalhando-se rapidamente e gerando condições sem precedentes, incluindo  nuvens pirocumulonimbus , ou “nuvens de fogo”, que criam seu próprio vento e raios.

Vigor

O número de vítimas é enorme. Cerca de 375 mil pessoas na Espanha e na França foram obrigadas a evacuar suas casas. Há previsões de que os incêndios continuarão queimando até  o início de novembro . 

Os impactos – casas destruídas, terras queimadas, economias locais arruinadas, produção agrícola devastada e céus tomados por fumaça tóxica – persistirão muito depois da última chama ser apagada.

Em nenhum outro lugar o nosso futuro está escrito com tanta clareza quanto na política climática atual. As palavras dos líderes mundiais não são um plano de ação. É assim que a força realmente se manifesta:

  • Acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis em um cronograma fixo de curto prazo. Os governos devem publicar cronogramas vinculativos de eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, começando pelos mais intensivos em carbono, e eliminar a brecha que permite que projetos de gás de “transição” sejam qualificados como investimento verde.
  • Chega de autorizações para novas infraestruturas de combustíveis fósseis. Nada de novas licenças para exploração de petróleo, gás ou carvão — ponto final. Cada novo campo aprovado hoje é uma promessa quebrada amanhã.
  • Ampliar massivamente a produção de energia renovável. Modernizar os sistemas de transmissão de energia locais, nacionais e internacionais, facilitando também a microprodução de energia renovável para que as famílias individuais alcancem uma independência energética muito maior.
  • Financiar a adaptação e a resiliência na escala do risco, não na política. Isso significa financiamento climático específico e com destinação específica para a redução do risco de desastres, sistemas de alerta precoce e apoio a idosos e pessoas vulneráveis ​​durante ondas de calor — e não gastos discricionários que são cortados na primeira rodada de austeridade.
  • Proteger e restaurar os ecossistemas como infraestrutura essencial. Zonas úmidas, florestas e solos saudáveis ​​reduzem simultaneamente o risco de incêndios e inundações. A restauração da natureza deve ser financiada e regulamentada como infraestrutura crítica, e não tratada como um mero “luxo” ao lado de estradas e redes elétricas. E, acima de tudo, proteger e restaurar nossos oceanos — o coração azul pulsante do nosso planeta. 
  • Remova as indústrias poluentes das salas de negociação climática. Os lobistas dos combustíveis fósseis não devem influenciar as políticas destinadas a eliminá-los gradualmente. As regras sobre conflito de interesses nas negociações climáticas já deveriam ter sido implementadas há muito tempo.

 A indústria não pode esperar que os governos a obriguem a agir. Ela deve: 

  • Publique planos de transição confiáveis ​​e baseados na ciência, com metas intermediárias – não apenas promessas de emissões líquidas zero para 2050, mas marcos verificáveis ​​e auditados de forma independente para 2027 e 2030 – e trabalhe arduamente, não para atingir emissões líquidas zero, mas para alcançar emissões líquidas zero reais.
  • Reduzir as emissões em toda a cadeia de suprimentos, não apenas nas operações diretas. Para setores como moda, alimentos e transporte marítimo, isso significa combater as emissões de Escopo 3, ou seja, as emissões indiretas, onde se concentra a maior parte da pegada ambiental.
  • Parem de financiar a expansão dos combustíveis fósseis. Bancos e seguradoras devem encerrar os contratos de financiamento para novos projetos de petróleo e gás e redirecionar o capital para energias renováveis, modernização da rede elétrica e soluções baseadas na natureza. Os retornos já são competitivos:  91% da energia renovável é mais barata que a energia proveniente de combustíveis fósseis.
  • Incorpore o risco climático no planejamento central dos negócios, desde a resiliência da cadeia de suprimentos até a segurança da força de trabalho durante ondas de calor extremas, em vez de tratá-lo como um projeto paralelo da equipe de sustentabilidade.
  • Apoie – e não bloqueie – uma regulamentação ambiciosa. As empresas que levam a sério a transição climática deveriam estar pressionando por políticas climáticas mais rigorosas, e não financiando silenciosamente associações comerciais que se opõem a ela.
  • Invista agora no futuro: invista em energia renovável, na sua produção, distribuição, eficiência e armazenamento. 

Escala

O caminho que estamos trilhando é um desastre absoluto: levará à violência, à fome, à migração forçada em massa, à guerra e à morte. As ações atuais são lentas demais e totalmente inadequadas para a urgência do momento. 

Mas um futuro melhor está ao nosso alcance – ainda não é tarde demais – e os dados econômicos comprovam isso cada vez mais:  as emissões de CO2 da China estão estáveis ​​ou em queda há quase dois anos, impulsionadas pelo crescente investimento em energias renováveis. 

Esta não é uma história sobre sacrifício. Proteger nossos ecossistemas e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis é como protegemos nossos meios de subsistência e construímos economias fortes e resilientes, não como os negociamos. Ações climáticas eficazes não representam um “custo”; representariam a maior economia de custos da história da humanidade. 

O aquecimento global que está provocando incêndios devastadores e secas na Europa vai piorar muito, muito mais, a menos que ajamos com a força necessária. 

“O alarme climático está soando em todas as direções”, disse o chefe do clima da ONU, Simon Stiell. Devemos agora exigir que nossos líderes — e as empresas que os financiam e influenciam — ajam com a força, a rapidez e a escala necessárias.

Este autor

Steve Trent é o diretor executivo e fundador da Environmental Justice Foundation.


Fonte: The Ecologist

Lula, o petróleo na Foz do Amazonas e um “passaporte para o futuro” com destino ao passado

Ao celebrar uma nova fronteira petrolífera em águas quase duas vezes mais profundas que as do desastre de Macondo, o governo Lula ignora as lições sociais da Bacia de Campos e compromete a credibilidade de um Brasil que pretende posar de liderança climática nas próximas COPs

A descoberta de petróleo no poço Morpho, localizado na costa do Amapá, oferece uma oportunidade particularmente reveladora para examinarmos as contradições que cercam a política ambiental do governo Lula. De um lado, o governo reivindica para o Brasil uma posição de liderança internacional no enfrentamento da crise climática, apresenta a redução do desmatamento da Amazônia como demonstração concreta desse compromisso e insiste na necessidade de uma transição energética capaz de diminuir progressivamente nossa dependência dos combustíveis fósseis. De outro, celebra a abertura de uma nova fronteira petrolífera em águas ultraprofundas na Margem Equatorial como uma oportunidade histórica de desenvolvimento econômico. Durante sua visita ao navio-sonda utilizado pela Petrobras, Lula sintetizou essa aparente quadratura do círculo ao afirmar que o petróleo encontrado na região poderá funcionar como um “passaporte para o futuro”, ao mesmo tempo em que insistiu que sua exploração não contradiz a defesa de um mundo que algum dia deixará de depender dos combustíveis fósseis.

A dificuldade começa justamente quando abandonamos o terreno confortável das intenções e examinamos as consequências materiais dessa escolha. Afinal, uma coisa é reconhecer que o Brasil e o restante do mundo continuarão consumindo petróleo durante algum tempo enquanto constroem alternativas energéticas; outra, bastante diferente, é abrir em pleno agravamento da crise climática uma nova fronteira petrolífera cuja infraestrutura precisará operar durante décadas para recuperar os enormes investimentos necessários à exploração em águas ultraprofundas. Por isso, o argumento de que ampliaremos agora a produção de petróleo para financiar uma economia que futuramente dependerá menos dele contém uma contradição que nenhuma engenharia retórica consegue eliminar: pretendemos diminuir nossa dependência dos combustíveis fósseis enquanto criamos novos interesses econômicos, infraestruturas e receitas públicas cuja sobrevivência dependerá justamente da continuidade de sua exploração.

A lembrança da explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México, em 20 de abril de 2010, torna essa discussão ainda mais necessária. O desastre ocorrido durante a perfuração do poço Macondo matou 11 trabalhadores e lançou aproximadamente quatro milhões de barris de petróleo no Golfo do México durante cerca de 87 dias, produzindo um dos maiores desastres ambientais associados à indústria petrolífera offshore. O Macondo encontrava-se sob aproximadamente 1.522 metros de água, enquanto a Petrobras perfura o Morpho em uma lâmina d’água próxima de 3.000 metros. Essa diferença não permite afirmar que ocorrerá um acidente no Amapá, tampouco que a profundidade, isoladamente, torne um blowout mais provável. Entretanto, ela nos obriga a reconhecer algo muito menos confortável para o discurso triunfalista que acompanha a descoberta: caso ocorra uma falha grave, qualquer intervenção direta sobre equipamentos instalados no fundo oceânico terá de acontecer a uma profundidade quase duas vezes maior do que aquela enfrentada no desastre do Golfo do México.

A experiência do Macondo também deveria impor alguma modéstia quando autoridades políticas apresentam equipamentos de segurança como garantias praticamente absolutas contra grandes acidentes. A Deepwater Horizon possuía um blowout preventer, o famoso BOP, exatamente como as plataformas modernas que operam em águas profundas e ultraprofundas. Ainda assim, uma combinação de decisões equivocadas, falhas técnicas e problemas organizacionais transformou aquilo que deveria representar a última barreira contra uma erupção descontrolada do poço em parte de uma sequência catastrófica de acontecimentos. A grande lição de Macondo, portanto, não consiste em concluir que toda perfuração offshore terminará em desastre, mas em reconhecer que sistemas tecnológicos complexos nunca eliminam completamente a possibilidade de falha. Quanto mais difícil for acessar fisicamente esses sistemas, maiores poderão ser os desafios quando aquilo que deveria funcionar perfeitamente simplesmente não funcionar.

O próprio Morpho já ofereceu um pequeno lembrete dessa realidade quando, em 4 de janeiro de 2026, ocorreu uma descarga de fluido de perfuração de base não aquosa para o oceano a partir de linhas auxiliares associadas ao poço. A Petrobras interrompeu a operação e controlou a descarga, e seria incorreto comparar esse episódio com um blowout ou com o desastre do Macondo. Entretanto, o incidente possui importância justamente porque demonstra que nem tecnologia avançada, nem procedimentos de segurança, nem experiência acumulada conseguem transformar uma operação realizada em condições extremas numa atividade infalível. Quando estamos falando de perfuração a quase três quilômetros abaixo da superfície do oceano, a pergunta politicamente responsável não deveria se limitar a saber se possuímos tecnologia para chegar ao petróleo, mas deveria incluir uma questão muito mais incômoda: o que conseguiremos fazer se alguma coisa der dramaticamente errado lá embaixo?

Essa pergunta adquire uma gravidade adicional porque a costa amazônica não representa simplesmente mais uma área do litoral brasileiro. Estamos diante de um sistema formado por manguezais, estuários, áreas de reprodução e alimentação de organismos marinhos, formações recifais e ambientes costeiros cuja importância ecológica ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais. As populações que dependem diretamente desses sistemas tampouco aparecem com a mesma frequência nas cerimônias governamentais que celebram novas descobertas petrolíferas. Pescadores artesanais, comunidades extrativistas e povos indígenas estão entre aqueles que provavelmente sofreriam primeiro e mais intensamente os efeitos de um grande derramamento, pois sua reprodução econômica, social e cultural mantém uma relação direta com a integridade das águas, dos estoques pesqueiros e dos ambientes costeiros.

Aqui aparece uma das dimensões mais perversas da distribuição dos riscos associados aos grandes projetos extrativos. Enquanto governos, empresas, investidores e setores empresariais disputam antecipadamente os benefícios econômicos decorrentes da exploração petrolífera, as populações que dependem diretamente dos ecossistemas locais recebem uma parcela desproporcional dos riscos. Em outras palavras, os benefícios tendem a circular pelas estruturas empresariais e fiscais, enquanto os riscos permanecem territorializados. Se tudo funcionar conforme o planejado, empresas recolherão lucros, governos receberão royalties e diferentes segmentos econômicos participarão da nova cadeia petrolífera. Se algo der errado, serão pescadores, indígenas, comunidades costeiras e ecossistemas que não participaram da decisão sobre a abertura dessa fronteira que estarão imediatamente diante das consequências.

A própria discussão sobre a possível trajetória de um derramamento deveria produzir muito mais cautela do que a que estamos vendo. A Petrobras sustenta, com base em suas modelagens, que mesmo um cenário de pior caso manteria o óleo afastado da costa brasileira. Entretanto, as simulações admitem que correntes oceânicas poderiam transportar esse petróleo em direção à Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela e ilhas do Caribe. Esse argumento produz uma situação quase surreal: parece que deveríamos considerar ambientalmente seguro um grande vazamento desde que as correntes marítimas tenham a gentileza de transportar parte das consequências para outros países. Desde quando exportar geograficamente um possível desastre ambiental passou a representar evidência da segurança de uma operação petrolífera?

Mas existe ainda uma segunda promessa associada à exploração da Margem Equatorial que precisa ser examinada com muito mais cuidado: a ideia de que o petróleo produzirá necessariamente desenvolvimento regional. Nesse ponto, quem vive no estado do Rio de Janeiro dispõe de um laboratório histórico que deveria recomendar muito mais cautela. A exploração da Bacia de Campos movimentou durante décadas uma quantidade extraordinária de riqueza, transformou municípios produtores em receptores de enormes volumes de royalties e participações especiais e ajudou a sustentar uma das principais regiões petrolíferas do planeta. Apesar disso, a circulação dessa riqueza não eliminou os altos níveis de pobreza existentes em vários municípios da região, tampouco resolveu suas graves deficiências educacionais ou os problemas associados à violência e à criminalidade. A presença de uma indústria capaz de movimentar bilhões de reais não se converteu automaticamente em desenvolvimento social duradouro e distribuído.

A experiência da Bacia de Campos deveria, portanto, ocupar posição central em qualquer discussão séria sobre o suposto “passaporte para o futuro” que agora oferecem ao Amapá. O Norte Fluminense conhece muito bem essa promessa. Durante décadas, royalties extraordinários coexistiram com desigualdade social, precariedades urbanas, déficits educacionais e violência. Municípios viram suas receitas crescerem sem que isso necessariamente produzisse transformação estrutural equivalente nas condições de vida de suas populações. O petróleo criou ilhas de riqueza, empregos altamente especializados e enormes fluxos financeiros, mas também aprofundou dependências fiscais e deixou economias municipais extremamente vulneráveis às oscilações do preço internacional do barril e às mudanças na distribuição dos royalties.

Por isso, antes de vender à população amazônica a ideia de que uma nova fronteira petrolífera representa um bilhete garantido para a prosperidade, seria conveniente explicar por que a experiência histórica de uma das maiores regiões produtoras de petróleo do Brasil produziu resultados sociais tão contraditórios. Na Bacia de Campos, o famoso passaporte para o futuro frequentemente acabou carimbado na direção contrária: enormes volumes de riqueza saíram do fundo do mar enquanto pobreza, baixa escolaridade, desigualdade e violência continuaram fazendo parte da paisagem social de muitos municípios da região. Ignorar essa experiência e repetir a promessa de que desta vez o petróleo produzirá automaticamente desenvolvimento não constitui apenas uma interpretação excessivamente otimista.  Esta postura constitui um exercício retórico que desqualifica quem o pratica, porque substitui a análise de uma experiência histórica concreta por uma profissão de fé nos supostos poderes modernizadores da renda petrolífera.

Mas o problema não termina no risco de acidentes ou na questionável promessa de progresso econômico. Mesmo que nenhuma plataforma exploda, nenhum poço perca o controle e nenhuma mancha de petróleo alcance qualquer manguezal, existe uma consequência que inevitavelmente acompanhará uma exploração comercial bem-sucedida: o petróleo retirado do subsolo entrará no circuito econômico mundial e, em sua maior parte, acabará queimado. É justamente nesse ponto que a tentativa de conciliar a expansão da fronteira petrolífera brasileira com a reivindicação de liderança climática começa a revelar suas maiores inconsistências.

A Agência Internacional de Energia já mostrou que uma trajetória capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C exige uma redução profunda do consumo mundial de petróleo nas próximas décadas. Isso não significa imaginar que o planeta interromperá amanhã a produção petrolífera, mas significa reconhecer que existe uma diferença fundamental entre administrar o declínio progressivo dos campos existentes e continuar procurando novas províncias destinadas a produzir durante décadas. Cada nova fronteira petrolífera exige plataformas, terminais, embarcações, gasodutos, oleodutos, contratos, fornecedores e enormes investimentos cuja rentabilidade pressupõe anos ou décadas de operação. Criamos, assim, aquilo que a literatura climática chama de lock-in: uma infraestrutura econômica que passa a produzir interesses materiais comprometidos com sua própria continuidade.

É exatamente por isso que considero frágil o argumento de que o Brasil poderá utilizar os recursos obtidos com o petróleo para financiar a transição energética. Uma indústria petrolífera ampliada não produz apenas royalties que um governo benevolente poderá posteriormente investir em painéis solares, parques eólicos ou programas sociais. Ela produz municípios dependentes das receitas petrolíferas, empresas fornecedoras, empregos especializados, infraestrutura portuária, interesses acionários, grupos empresariais e pressões políticas que passam a depender da continuidade da exploração. Imaginar que esse poderoso complexo econômico trabalhará serenamente para organizar sua própria obsolescência exigiria uma confiança na capacidade de autossacrifício do capital que toda a história econômica moderna recomenda evitar.

Essa contradição começa também a cobrar um preço que não podemos medir em barris ou royalties: a credibilidade internacional do Brasil na agenda climática. O país pretende chegar às próximas COPs reivindicando liderança na defesa da Amazônia e cobrando dos países ricos maior compromisso com a redução das emissões, ao mesmo tempo em que celebra a abertura de uma nova fronteira de petróleo em águas ultraprofundas diante da própria Amazônia. Há um limite para a quantidade de contorcionismo discursivo que uma política externa climática consegue suportar antes de perder credibilidade. Até para ser levado a sério nas próximas COPs, o Brasil precisará reduzir a distância crescente entre aquilo que anuncia nos palanques internacionais e aquilo que efetivamente promove dentro de suas fronteiras.

Nesse aspecto, a postura brasileira começa a lembrar uma freira que prega castidade enquanto visita regularmente um bordel. Não adianta comparecer às conferências climáticas vestido com o hábito da virtude ambiental enquanto, do lado de fora, comemoramos cada nova descoberta de petróleo como uma vitória nacional. O problema da metáfora não está na hipocrisia moral que ela poderia sugerir, mas na incompatibilidade objetiva entre discurso e prática. Quanto maior essa distância, menor será a autoridade política brasileira para exigir dos demais países aquilo que nós próprios demonstramos não estar dispostos a fazer.

Essa perda de credibilidade talvez seja ainda mais grave porque o Brasil possui condições extraordinárias para exercer liderança climática real. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias, enorme potencial solar e eólico, vastos recursos naturais e uma posição diplomática que historicamente permite dialogar tanto com países industrializados quanto com o Sul Global. Justamente por isso, desperdiçar esse capital político tentando convencer o mundo de que abrir novas fronteiras petrolíferas constitui parte de uma estratégia para abandonar o petróleo representa uma escolha particularmente contraproducente. Liderança climática não se proclama em discursos; demonstra-se por meio das decisões difíceis que um país aceita tomar quando seus interesses econômicos imediatos entram em conflito com seus compromissos ambientais.

Por isso, quando Lula chama o petróleo da Margem Equatorial de “passaporte para o futuro” enquanto reafirma seu compromisso com uma futura superação dos combustíveis fósseis, talvez estejamos diante de uma versão contemporânea da velha prática de acender uma vela para Deus e outra para o diabo. A vela destinada a Deus ilumina os discursos sobre proteção da Amazônia, redução do desmatamento, transição energética, biocombustíveis, energias renováveis e liderança brasileira nas negociações climáticas. A outra vela ilumina navios-sonda, plataformas, novas reservas e uma infraestrutura petrolífera planejada para permanecer economicamente ativa por décadas.

O problema dessa duplicidade não pertence ao terreno da moral religiosa, mas ao da física atmosférica. Uma tonelada de dióxido de carbono liberada pela combustão do petróleo brasileiro produz exatamente o mesmo efeito climático que uma tonelada proveniente do petróleo saudita, norte-americano ou russo. A atmosfera não consulta a nacionalidade do barril, não verifica se o governo produtor reduziu o desmatamento e tampouco concede descontos porque parte dos royalties financiou fontes renováveis. A atmosfera contabiliza carbono, não boas intenções, e essa talvez seja a inconveniência científica mais difícil de acomodar no discurso segundo o qual podemos ampliar a produção de combustíveis fósseis enquanto lideramos simultaneamente a luta mundial para reduzir seu consumo.

O governo brasileiro poderia assumir abertamente outra posição e afirmar que considera injusto exigir que países periféricos renunciem à exploração de suas reservas enquanto países ricos construíram sua prosperidade queimando combustíveis fósseis durante dois séculos. Esse argumento possui consistência política e encontra respaldo no debate sobre responsabilidades históricas diferenciadas pela crise climática. O governo poderia igualmente afirmar que pretende explorar o petróleo enquanto existir mercado mundial para ele e utilizar essa riqueza para financiar políticas sociais e investimentos públicos. Também poderíamos discutir criticamente essa escolha, mas pelo menos estaríamos diante de uma posição claramente formulada.

O que parece intelectualmente muito mais difícil é afirmar que a abertura de uma nova fronteira petrolífera constitui parte do próprio caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis. Nesse caso, o paradoxo deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também lógico: para reduzir nossa dependência do petróleo, ampliaremos nossa capacidade de produzi-lo; para enfrentar a crise climática, criaremos infraestrutura destinada a colocar novos bilhões de barris no mercado; para preparar uma economia pós-petróleo, construiremos novas regiões cuja dinâmica econômica dependerá precisamente dele.

Talvez seja justamente por isso que a expressão “passaporte para o futuro” utilizada por Lula mereça ser levada mais a sério do que provavelmente pretendiam seus assessores de comunicação. Um passaporte não determina apenas a possibilidade de viajar; ele também nos obriga a perguntar para onde estamos indo. A experiência da Bacia de Campos deveria servir como advertência para quem acredita que basta encontrar petróleo para encontrar desenvolvimento. Depois de décadas extraindo uma riqueza extraordinária do fundo do oceano, muitos municípios continuam convivendo com pobreza, deficiências educacionais, desigualdade e violência. Se isso representa o modelo de futuro que agora pretendemos reproduzir na Amazônia, talvez seja prudente olhar com mais atenção para o destino antes de comemorar a emissão do passaporte.

Porque, no caso da Bacia de Campos, para parcelas importantes da população, o prometido passaporte para o futuro acabou funcionando como um enorme salto para trás. Desconhecer essa experiência quando se anuncia a mesma promessa para uma nova fronteira petrolífera não representa apenas um lapso histórico. Constitui outro exercício retórico desqualificador, especialmente quando praticado por quem pretende convencer o país de que conhece antecipadamente os benefícios de uma atividade cujos custos sociais e ambientais a história brasileira já nos permitiu conhecer muito bem.

E há uma diferença decisiva entre o início da exploração da Bacia de Campos e a abertura da Margem Equatorial: desta vez conhecemos também o tamanho da crise climática. Sabemos o que significa continuar aumentando a concentração de gases de efeito estufa, sabemos que novas infraestruturas fósseis criam dependências que atravessam décadas e sabemos quem costuma receber os benefícios e quem normalmente fica com os custos quando grandes projetos extrativos chegam aos territórios.  Por isso, se ainda assim decidirmos embarcar, pelo menos não deveríamos fingir desconhecer o destino.

Paulo Artaxo alerta: Brasil ainda não construiu uma cultura de adaptação ao novo clima

Docente da USP  defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país

Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.

Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.

No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.

Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.

Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.

A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro.  A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

A reportagem da jornalista Hiroko Tabuchi, publicada originalmente no The New York Times e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo, traz novas evidências de um dos capítulos mais graves da história recente da crise climática: as grandes empresas de petróleo e gás sabiam, desde pelo menos a década de 1960, que suas operações liberavam quantidades muito superiores de metano às oficialmente divulgadas e que esse gás teria um papel decisivo no aquecimento global.

O material analisado pelo Center for Climate Integrity reúne documentos internos produzidos por associações empresariais e pelas próprias companhias petrolíferas. Esses documentos mostram que a indústria possuía conhecimento técnico detalhado sobre o problema muito antes de o tema se tornar objeto de debate público. Em vez de alertar governos, reguladores e a sociedade, o setor escolheu minimizar os riscos e investiu em campanhas de relações públicas destinadas a consolidar a imagem do gás natural como uma fonte de energia ambientalmente amigável.

O aspecto mais importante dessa revelação não reside apenas na constatação de que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente — cerca de 80 vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono em reter calor ao longo de vinte anos. Esse dado já é amplamente reconhecido pela literatura científica. O elemento verdadeiramente explosivo consiste na demonstração de que as empresas possuíam informações privilegiadas sobre a dimensão real de suas emissões e, ainda assim, permitiram que governos, investidores e consumidores continuassem tomando decisões baseadas em dados incompletos ou deliberadamente distorcidos.

Essa conduta aproxima o caso das petrolíferas de outros grandes escândalos corporativos. A indústria do tabaco ocultou durante décadas evidências sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas químicas esconderam informações sobre a toxicidade de diversos compostos. Fabricantes de agrotóxicos financiaram campanhas para desacreditar pesquisas independentes que apontavam riscos ambientais e sanitários. Em todos esses episódios, o problema não se limitou ao dano causado pelos produtos comercializados. A fraude também consistiu na supressão deliberada de informações essenciais para que a sociedade pudesse avaliar corretamente os riscos envolvidos.

No caso das mudanças climáticas, entretanto, a dimensão do dano é incomparavelmente maior. A omissão de informações sobre o metano contribuiu para retardar políticas públicas, enfraquecer regulações ambientais e prolongar um modelo energético baseado na expansão contínua dos combustíveis fósseis. Cada década perdida representou maior concentração de gases de efeito estufa, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos mais frequentes e custos humanos e econômicos cada vez mais elevados.

Por essa razão, cresce em diversos países o movimento que busca responsabilizar financeiramente as empresas petrolíferas pelos prejuízos decorrentes das mudanças climáticas. A divulgação desses documentos fortalece esse esforço porque demonstra um elemento jurídico fundamental: não se trata apenas de discutir emissões inevitáveis decorrentes da atividade econômica, mas de avaliar a responsabilidade de empresas que possuíam conhecimento técnico sobre os riscos, esconderam essas informações do público e adotaram estratégias de comunicação destinadas a preservar seus mercados.

Essa distinção é decisiva. Empresas podem cometer erros de avaliação científica. O que os documentos revelam, contudo, sugere algo muito diferente: uma estratégia consciente de administrar a percepção pública do problema enquanto continuavam expandindo seus negócios.

Essa discussão interessa diretamente ao Brasil. O país amplia investimentos na exploração de petróleo e gás, discute novas fronteiras de exploração na Margem Equatorial e mantém forte dependência econômica da exportação de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, apresenta-se internacionalmente como liderança climática. Essas duas posições tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar quando novas evidências mostram que parte da indústria conhecia os impactos ambientais de suas operações muito antes de qualquer obrigação regulatória.

As revelações apresentadas por Hiroko Tabuchi reforçam uma conclusão que se torna cada vez mais difícil de contestar: a crise climática não resulta apenas da queima de combustíveis fósseis. Ela também decorre de décadas de ocultação de informações, manipulação da opinião pública e adiamento deliberado de medidas capazes de reduzir emissões. Em outras palavras, a responsabilidade das grandes petrolíferas não se limita ao carbono que emitiram para a atmosfera. Ela inclui também o conhecimento que decidiram esconder da sociedade.

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

Agronegócio quer socializar os prejuízos climáticos, mas não a responsabilidade pela crise

Bancada ruralista pede renegociação geral de dívidas e juros menores por perdas provocadas por secas e enchentes, enquanto o modelo agropecuário permanece no centro da crise climática brasileira

Uma reportagem da jornalista Fernanda Brigatti, publicada pela Folha de S.Paulo, informa que a bancada do agronegócio no Congresso Nacional apresentou ao Ministério da Fazenda uma contraproposta para uma ampla renegociação das dívidas rurais. Entre as reivindicações estão prazos de até dez anos para pagamento, dois anos de carência sem juros e taxas menores para produtores que sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.  A cobrança revela uma das contradições mais evidentes do agronegócio brasileiro. O setor exige que o Estado e, portanto, toda a sociedade absorvam parte crescente dos prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos, mas evita reconhecer sua própria responsabilidade na produção das condições que tornam esses eventos mais frequentes e destrutivos.

Na narrativa construída pelas entidades do setor, a seca aparece apenas como seca, a enchente como enchente e a quebra de safra como uma fatalidade natural. Desaparece da equação o fato de que o modelo de expansão agropecuária brasileiro está profundamente associado ao desmatamento, à conversão de ecossistemas, à expansão de pastagens e monoculturas e à degradação dos sistemas naturais que regulam o clima e o ciclo hidrológico.

É preciso, evidentemente, diferenciar pequenos e médios produtores de grandes proprietários e corporações agropecuárias. Produtores efetivamente atingidos por eventos climáticos extremos não podem ser abandonados. Mas é exatamente por isso que causa estranheza a tentativa da bancada ruralista de ampliar a renegociação para além daqueles que comprovadamente sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.

O que se pretende, assim, é transformar uma política de socorro a vítimas de eventos climáticos extremos em uma renegociação geral das dívidas do setor. E o cardápio de reivindicações inclui até a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Em outras palavras, quando os lucros são elevados, eles permanecem privados; quando chegam as secas, enchentes, quebras de safra e crises de endividamento, os prejuízos devem ser repartidos com toda a sociedade.

Há ainda uma contradição política que não pode ser ignorada. A mesma bancada ruralista que agora invoca as “perdas climáticas” para exigir condições financeiras excepcionais tem atuado sistematicamente pela flexibilização da legislação ambiental, pelo enfraquecimento do licenciamento e pela expansão da fronteira agropecuária. O setor quer proteção pública contra os efeitos da crise climática, mas resiste às medidas destinadas a enfrentar suas causas.

A agricultura é, sem dúvida, uma das principais vítimas do aquecimento global. Mas, no Brasil, o agronegócio é também um dos seus principais motores. Essa dupla condição não pode continuar sendo ocultada por um discurso que apresenta o setor apenas como vítima de fenômenos naturais imprevisíveis. Secas e enchentes cada vez mais intensas fazem parte de uma crise climática cuja produção tem responsáveis econômicos e políticos.

Uma renegociação voltada aos produtores efetivamente atingidos pode ser necessária e socialmente justificável. Mas ela deveria exigir comprovação das perdas, diferenciação por porte econômico, cumprimento da legislação ambiental e compromissos concretos de adaptação e redução de emissões. Sem isso, o socorro climático corre o risco de se transformar em mais um subsídio público a um modelo que contribui para aprofundar a própria crise da qual agora pede proteção.

No fundo, a fórmula é conhecida: o agronegócio quer privatizar os lucros, socializar os prejuízos e deixar de fora da conta a sua responsabilidade pela crise climática. E talvez seja justamente essa a dívida que a bancada ruralista menos queira renegociar.

Quem financia a ciência também pode moldar as soluções para a crise climática

Investigação da ProPublica revela como a BP influenciou um dos estudos climáticos mais importantes das últimas décadas e reacende o debate sobre conflitos de interesse, autonomia universitária e captura corporativa da produção científica

A recente investigação publicada pela ProPublica lança nova luz sobre uma questão que deveria preocupar toda a comunidade científica e qualquer cidadão interessado no enfrentamento da crise climática: até que ponto o financiamento privado é capaz de influenciar não apenas os resultados das pesquisas, mas também as próprias perguntas que os cientistas formulam? Ao analisar documentos internos da British Petroleum (BP) e registros da Universidade de Princeton, a reportagem mostra que um dos artigos científicos mais influentes da história da política climática contemporânea foi produzido em um ambiente de intensa interação entre pesquisadores e executivos da indústria petrolífera. Mais do que denunciar um caso específico, a investigação revela um mecanismo de captura da agenda científica que se repete em diferentes áreas do conhecimento e que merece ser discutido com muito mais profundidade.

O estudo em questão, conhecido como Stabilization Wedges (“Cunhas de Estabilização”), foi publicado em 2004 por pesquisadores de Princeton e rapidamente se tornou uma referência mundial ao defender que seria possível estabilizar as emissões globais de gases de efeito estufa por meio da combinação de diferentes tecnologias, entre elas a captura e armazenamento de carbono (Carbon Capture and Storage – CCS). A proposta exerceu enorme influência sobre formuladores de políticas públicas, organismos internacionais e empresas do setor energético, por transmitir a ideia de que seria possível enfrentar as mudanças climáticas sem alterar profundamente o modelo de produção e consumo baseado em combustíveis fósseis.

O problema apontado pela ProPublica não está na existência de erros metodológicos ou de fraude científica. Ao contrário, a investigação não questiona a competência técnica dos pesquisadores nem a validade dos cálculos apresentados no artigo. A questão central reside na influência exercida pela BP sobre o ambiente institucional em que a pesquisa foi desenvolvida. O estudo nasceu dentro da Carbon Mitigation Initiative (CMI), um programa criado em Princeton e financiado durante décadas pela petroleira com dezenas de milhões de dólares. Documentos obtidos pela reportagem mostram que executivos da empresa acompanharam versões preliminares do manuscrito, discutiram diretamente seu conteúdo com os autores e participaram das conversas sobre quais tecnologias deveriam receber maior destaque. 

Esse aspecto é particularmente relevante porque evidencia uma forma muito mais sofisticada de influência corporativa sobre a produção científica. Não é necessário manipular dados experimentais para direcionar o conhecimento produzido pelas universidades. Basta influenciar quais problemas serão investigados, quais soluções serão consideradas mais promissoras e quais alternativas permanecerão à margem do debate científico. Trata-se de um mecanismo silencioso de definição de agendas que dificilmente aparece nas discussões públicas sobre integridade acadêmica.

No caso específico da captura e armazenamento de carbono, o interesse empresarial era evidente. Se essa tecnologia fosse capaz de neutralizar as emissões provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, não haveria necessidade de reduzir drasticamente a extração desses combustíveis. A solução para a crise climática deixaria de passar por transformações estruturais no sistema energético mundial e passaria a depender do desenvolvimento futuro de tecnologias capazes de capturar o carbono depois que ele já tivesse sido emitido. Em outras palavras, criava-se uma narrativa na qual seria possível continuar explorando combustíveis fósseis enquanto a ciência encontraria, em algum momento, uma solução tecnológica para seus impactos.

Passadas mais de duas décadas, a realidade mostrou que essa aposta estava longe de representar uma resposta suficiente à emergência climática. Apesar dos bilhões de dólares investidos mundialmente, os projetos de captura e armazenamento de carbono continuam respondendo por uma parcela mínima das emissões globais e enfrentam enormes dificuldades técnicas, econômicas e logísticas. Embora a tecnologia possa desempenhar algum papel em setores industriais específicos, ela está muito distante de representar a solução abrangente que muitos imaginaram no início dos anos 2000. Ainda assim, sua promoção ajudou a retardar debates mais profundos sobre a necessidade de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

O caso investigado pela ProPublica tampouco constitui uma exceção. Ele se insere em um padrão histórico bastante conhecido. Durante décadas, a indústria do tabaco financiou pesquisas destinadas a gerar dúvidas sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas do setor açucareiro patrocinaram estudos que deslocavam a responsabilidade pelas doenças cardiovasculares para o consumo de gorduras. A indústria química investiu pesadamente em pesquisas que minimizavam os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Em todos esses casos, o objetivo não era necessariamente produzir ciência falsa, mas criar incertezas, deslocar prioridades e influenciar o ritmo das decisões regulatórias.

O Brasil conhece muito bem essa realidade. Basta observar o crescimento do financiamento privado de pesquisas nas áreas do agronegócio, da mineração, da indústria petrolífera e da expansão portuária. Evidentemente, a colaboração entre universidades e empresas pode gerar avanços científicos importantes e contribuir para o desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando a dependência financeira limita a autonomia acadêmica e reduz o espaço para investigações que possam contrariar os interesses econômicos dos patrocinadores. Não é coincidência que ainda sejam relativamente poucos os estudos independentes sobre os impactos cumulativos dos grandes empreendimentos portuários, da mineração em larga escala ou do uso intensivo de agrotóxicos sobre a saúde humana e os ecossistemas brasileiros.

Essa realidade nos obriga a formular algumas perguntas incômodas. Quem define as prioridades da pesquisa científica? Quem decide quais problemas merecem financiamento? Quem estabelece quais soluções tecnológicas são consideradas viáveis? Em um contexto de redução progressiva do investimento público em ciência, essas questões tornam-se ainda mais urgentes. Quanto maior a dependência das universidades em relação aos recursos privados, maior também será a necessidade de mecanismos robustos de transparência, gestão de conflitos de interesse e proteção da autonomia científica.

A reportagem da ProPublica presta um importante serviço público justamente por demonstrar que a independência da ciência não depende apenas da honestidade individual dos pesquisadores. Ela depende, sobretudo, das condições institucionais em que o conhecimento é produzido. Uma ciência verdadeiramente comprometida com o interesse público precisa preservar sua capacidade de formular perguntas incômodas, mesmo quando as respostas contrariem interesses econômicos poderosos. Em tempos de crise climática, essa talvez seja uma das maiores responsabilidades da universidade pública: produzir conhecimento que não esteja subordinado às necessidades estratégicas das corporações responsáveis por boa parte dos problemas que a própria ciência busca resolver.

Em última análise, o caso investigado pela ProPublica reforça uma lição que a economia política da ciência conhece há muito tempo: a captura do conhecimento raramente ocorre pela falsificação dos resultados, mas pela definição das agendas de pesquisa e das soluções consideradas aceitáveis. Em um cenário de crescente dependência do financiamento privado, preservar a autonomia científica torna-se uma condição indispensável para que a ciência continue servindo ao interesse público e não aos balanços financeiros das grandes corporações. Como diz o velho ditado, quem paga a banda, escolhe a música. A investigação da ProPublica mostra que esse provérbio popular continua tendo uma inquietante capacidade de explicar parte importante das relações entre ciência, poder econômico e crise climática.

Mudanças climáticas e resistência bacteriana: uma combinação explosiva para a saúde global

Nova pesquisa indica que o avanço das mudanças climáticas pode acelerar a resistência da Salmonella aos antibióticos, evidenciando mais uma face oculta da crise ambiental global

A crise climática costuma ser apresentada como uma ameaça aos sistemas naturais, à produção de alimentos ou à disponibilidade de água. Menos frequente é a discussão sobre seus impactos na saúde pública por vias indiretas, mas potencialmente devastadoras. É justamente esse aspecto que a jornalista científica Aleida Rueda destaca em reportagem publicada pelo SciDev.Net América Latina, ao abordar uma pesquisa que relaciona mudanças climáticas ao aumento da resistência da bactéria Salmonella aos antibióticos.

O estudo analisou quase meio milhão de genomas de Salmonella coletados em 139 países ao longo de mais de oito décadas. Os resultados sugerem que as alterações de temperatura e precipitação associadas às mudanças climáticas contribuíram para um aumento global de aproximadamente 10% nos genes de resistência antimicrobiana. Embora o uso excessivo e inadequado de antibióticos continue sendo o principal fator responsável pelo surgimento de bactérias resistentes, a pesquisa indica que a crise climática funciona como um poderoso acelerador desse processo. Em outras palavras, o aquecimento global não cria a resistência bacteriana, mas amplia as condições ambientais que favorecem sua disseminação.

Trata-se de uma constatação preocupante. Afinal, a resistência antimicrobiana já é considerada uma das maiores ameaças sanitárias do século XXI. Estima-se que milhões de pessoas sejam afetadas anualmente por infecções causadas por bactérias resistentes, reduzindo a eficácia de tratamentos que durante décadas foram considerados rotineiros. O risco é que procedimentos médicos relativamente simples — de cirurgias a tratamentos oncológicos — se tornem progressivamente mais perigosos diante da perda de eficácia dos antibióticos disponíveis.

O estudo também ajuda a desmontar uma visão excessivamente compartimentalizada dos problemas ambientais e sanitários. Ao mostrar que mudanças climáticas e resistência antimicrobiana estão interligadas, reforça-se a importância da abordagem conhecida como “Uma Só Saúde” (One Health), que reconhece a conexão entre saúde humana, saúde animal e integridade dos ecossistemas. Não por acaso, organismos internacionais vêm alertando que eventos extremos, secas prolongadas, enchentes e alterações nos ecossistemas podem facilitar a circulação de patógenos e acelerar processos evolutivos que favorecem a resistência bacteriana.

Há ainda uma dimensão política que merece atenção. Os mesmos governos que frequentemente tratam as mudanças climáticas como uma questão secundária acabam ignorando seus impactos sobre áreas consideradas prioritárias, como a saúde pública. A resistência antimicrobiana costuma ser abordada apenas sob a ótica do uso racional de medicamentos. Embora essa dimensão seja fundamental, a nova evidência científica sugere que o enfrentamento do problema exigirá também políticas robustas de mitigação climática.

Para países como o Brasil, essa discussão assume contornos ainda mais relevantes. Além de enfrentar eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, o país mantém um modelo agropecuário altamente dependente do uso de antibióticos na produção animal e de um sistema de saneamento ainda insuficiente em grande parte do território. A combinação desses fatores cria condições particularmente favoráveis para a expansão de microrganismos resistentes.

A principal mensagem da reportagem do SciDev.Net é clara: a crise climática não ameaça apenas geleiras, florestas ou recifes de coral. Ela também pode comprometer uma das maiores conquistas da medicina moderna — a capacidade de controlar infecções bacterianas por meio dos antibióticos. Ignorar essa conexão significa subestimar um dos riscos mais silenciosos e potencialmente mais perigosos do aquecimento global.

El Niño ameaça agravar secas, enchentes e incêndios em um Brasil cada vez mais vulnerável

Com Amazônia e Cerrado sob pressão do desmatamento e das mudanças climáticas, retorno do fenômeno pode ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos em todo o nosso país

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática das Nações Unidas, acaba de emitir um alerta preocupante: existe cerca de 80% de probabilidade de que um novo episódio de El Niño se estabeleça entre junho e agosto de 2026, aumentando para 90% a chance de sua permanência até novembro. Ainda que persistam incertezas sobre sua intensidade final, os cenários atuais apontam para um evento de moderado a forte, com potencial para amplificar significativamente os impactos das mudanças climáticas já em curso.

O alerta da ONU não surge em um momento qualquer. O planeta acaba de atravessar uma sequência de anos excepcionalmente quentes. O poderoso El Niño de 2023-2024 contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado, em combinação com o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis. Agora, a possibilidade de um novo episódio forte do fenômeno preocupa cientistas porque ele atuará sobre uma atmosfera e oceanos que já se encontram muito mais quentes do que em décadas anteriores.

Em termos simples, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora seja um fenômeno natural, suas consequências são globais. Alterações nos padrões de circulação atmosférica provocam secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras. O resultado costuma ser uma combinação perigosa de quebras de safra, incêndios florestais, crises hídricas, enchentes e impactos sobre a saúde pública.

O aspecto mais preocupante da atual conjuntura é que o El Niño já não atua sozinho. Diferentemente do que ocorria algumas décadas atrás, ele agora interage com um sistema climático profundamente alterado pela ação humana. Em outras palavras, aquilo que antes era um fenômeno periódico da variabilidade natural do clima tornou-se um multiplicador dos efeitos do aquecimento global. O resultado é a amplificação de eventos extremos, com ondas de calor mais intensas, secas mais prolongadas e precipitações mais destrutivas.  

Para o Brasil, os sinais de alerta são particularmente relevantes. Historicamente, episódios de El Niño costumam estar associados à redução das chuvas em partes da Amazônia e do Nordeste, ao mesmo tempo em que favorecem precipitações acima da média no Sul do país. Dependendo da intensidade do fenômeno, isso pode significar a combinação explosiva de secas severas em algumas regiões e enchentes em outras. O episódio de 2023-2024 já demonstrou essa capacidade destrutiva ao contribuir para eventos extremos de precipitação que atingiram o Sul do Brasil.

A situação da Amazônia merece atenção especial. Estudos recentes já indicam que o avanço do desmatamento e das mudanças climáticas está aproximando a maior floresta tropical do mundo de um ponto crítico de transformação ecológica. A chegada de um El Niño forte tende a agravar o déficit hídrico, aumentar a ocorrência de incêndios florestais e ampliar a mortalidade de árvores. Em um cenário em que a floresta já sofre com a perda acelerada de cobertura vegetal, especialmente nas áreas mais desmatadas, um novo período prolongado de seca pode produzir impactos duradouros sobre a biodiversidade, o regime de chuvas e a segurança hídrica de grande parte da América do Sul.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto econômico. O El Niño afeta diretamente a produção agrícola mundial. Reduções de produtividade, perdas de safras e problemas logísticos costumam pressionar os preços dos alimentos. Em um mundo já marcado por conflitos geopolíticos, insegurança alimentar e inflação persistente, novos choques climáticos podem aprofundar desigualdades e ampliar a vulnerabilidade das populações mais pobres.

Diante desse quadro, a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, foi direta: o retorno do El Niño deve ser encarado como mais um sinal da urgência de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes renováveis de energia. Ao mesmo tempo, a OMM reforçou a necessidade de investimentos em sistemas de alerta precoce, planejamento climático e adaptação das infraestruturas urbanas e rurais.

A questão central, portanto, não é apenas se o próximo El Niño será forte ou moderado. A verdadeira pergunta é se governos, empresas e sociedades aprenderam algo com os eventos extremos que vêm se acumulando ao redor do planeta. As evidências sugerem que não. Enquanto a ciência alerta para riscos crescentes, muitos países continuam expandindo a exploração de petróleo, flexibilizando legislações ambientais e tratando a crise climática como um problema do futuro.

O retorno do El Niño pode ser apenas mais um fenômeno natural. Mas, em um planeta profundamente alterado pela ação humana, seus efeitos dificilmente terão algo de natural.