O clima não espera: Rio Grande do Sul terá de esperar até 2031 pela proteção contra as cheias

Grandes obras de proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre deverão ficar prontas apenas sete anos depois da catástrofe de 2024, enquanto eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes

Uma reportagem publicada pelo Matinal traz uma informação que deveria provocar preocupação muito além do Rio Grande do Sul: as principais obras destinadas a reforçar a proteção contra cheias na Região Metropolitana de Porto Alegre deverão estar concluídas apenas em 2031. O governo gaúcho argumenta que não existe atraso e que cinco anos constituem um prazo razoável para obras dessa magnitude. Do ponto de vista dos procedimentos convencionais da administração pública e da engenharia, isso pode até parecer razoável. O problema é que a crise climática não obedece ao cronograma das licitações e das obras.

A contradição fica ainda mais evidente porque estudos realizados por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS indicam que as mudanças climáticas deverão reduzir significativamente o intervalo entre grandes cheias. Eventos que historicamente seriam considerados excepcionais poderão se tornar muito mais frequentes. Isso significa que o período entre agora e 2031 não pode ser tratado simplesmente como uma etapa de espera até que diques, comportas e sistemas de bombeamento estejam finalmente concluídos.

Há ainda um aspecto particularmente incômodo nessa história. Segundo a Matinal, cerca de R$ 6,5 bilhões disponibilizados pelo governo federal para essas obras ainda não haviam sido utilizados pelo governo estadual. Portanto, o problema não parece estar apenas na disponibilidade de dinheiro, mas também na capacidade do poder público de transformar recursos financeiros em redução efetiva e rápida da vulnerabilidade da população.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma mudança radical na maneira como o poder público compreende a adaptação climática. Não basta reconstruir diques ou instalar novas bombas. É necessário combinar grandes obras com manutenção permanente da infraestrutura existente, fortalecimento dos órgãos técnicos, monitoramento hidrometeorológico, sistemas de alerta, planos de contingência, controle rigoroso da ocupação de áreas inundáveis e recuperação de áreas naturais capazes de amortecer as cheias.

É justamente aí que aparece outra contradição preocupante. Enquanto bilhões são anunciados para proteger áreas urbanas contra futuras inundações, continuam existindo pressões para ampliar a ocupação de áreas vulneráveis e de espaços naturais que poderiam funcionar como zonas de amortecimento das águas. Construir diques enquanto se continua produzindo vulnerabilidade territorial é uma maneira bastante cara de correr atrás do próprio prejuízo.

Ninguém deveria ignorar que grandes obras de engenharia exigem projetos, licenciamento, licitações e tempo de execução. Mas reconhecer isso não responde à pergunta essencial: o que protegerá a população entre agora e 2031? A adaptação climática precisa ocorrer simultaneamente no curto, médio e longo prazo. Grandes obras podem levar cinco anos, mas manutenção, fiscalização, sistemas de alerta, planejamento territorial e preparação da Defesa Civil não podem esperar cinco anos.

Depois de uma catástrofe como a de maio de 2024, que matou 185 pessoas e atingiu praticamente todo o território gaúcho, tratar 2031 simplesmente como um prazo normal significa continuar raciocinando com a temporalidade administrativa do século XX diante de um clima que já mudou no século XXI.

A questão, portanto, não é saber se cinco anos representam um prazo tecnicamente aceitável para construir grandes sistemas de proteção. A questão é saber quantos eventos extremos poderão ocorrer enquanto essas obras não ficam prontas.

E há uma certeza que deveria orientar toda a política de adaptação climática brasileira daqui para frente: a próxima chuva extrema não vai consultar o cronograma das obras antes de cair.

Quando as geleiras desabam: a crise climática chega ao Himalaia

O colapso ocorrido na fronteira entre o Nepal e a China mostra como o aquecimento da atmosfera pode ampliar a instabilidade das geleiras e transformar regiões de alta montanha em áreas de risco crescente

O que aconteceu ontem (26/8) na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, oferece mais um alerta sobre os riscos associados ao rápido aquecimento do planeta. As primeiras análises indicam que uma grande porção de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros, produzindo uma avalanche de gelo e rochas que bloqueou temporariamente um rio. O rompimento dessa barreira lançou, em seguida, uma enorme massa de água, lama, rochas e sedimentos pelos vales, destruindo comunidades e infraestrutura. A hipótese inicial de um terremoto como causa do desastre perdeu força depois que o USGS concluiu que o sinal sísmico registrado resultou do próprio colapso da geleira.

Ainda será necessário investigar em detalhe o papel do aquecimento global neste evento específico, e essa cautela é importante. Entretanto, o contexto climático é inequívoco: as geleiras do Himalaia estão perdendo massa rapidamente, e temperaturas mais elevadas favorecem o derretimento do gelo, a perda de estabilidade das geleiras e do permafrost e a formação de condições capazes de desencadear avalanches, deslizamentos e inundações repentinas. No caso de ontem, imagens de satélite chegaram a indicar uma forte redução da cobertura de neve nas horas anteriores ao colapso, possivelmente associada a temperaturas elevadas.

Disponibilizo abaixo um vídeo que mostra a impressionante violência do evento. As imagens ajudam a compreender por que aquilo que ocorre nas altas montanhas do Himalaia não deve ser visto como um fenômeno distante da crise climática global.

O fato é que à medida que o funcionamento do capitalismo aquece a atmosfera terrestre,  há uma alteração da estabilidade de geleiras, encostas, solos congelados e sistemas hidrológicos. O resultado é um planeta no qual eventos capazes de produzir grandes desastres podem surgir de forma cada vez mais abrupta e atingir populações que dispõem de poucos minutos — ou mesmo segundos — para reagir.

 

Fernando Haddad, a Sabesp e o falso tabu da reestatização

Enquanto Paris e Berlim recuperaram o controle público da água, o candidato do PT ao governo de São Paulo prefere enfatizar as dificuldades jurídicas para reverter a privatização da Sabesp

Fernando Haddad colocou uma questão importante no debate eleitoral paulista ao afirmar que existe o risco de a Sabesp privatizada se transformar em uma espécie de “Enel das águas”. O problema é que, ao mesmo tempo em que reconhece esse perigo, Fernando Haddad trata a possibilidade de reestatização como algo extremamente difícil diante dos obstáculos jurídicos e financeiros criados pela privatização promovida pelo governo Tarcísio de Freitas. É verdade que recuperar o controle da Sabesp não seria simples, pois o Estado reduziu fortemente sua participação acionária e perdeu o controle da companhia. Uma eventual reversão exigiria recursos, negociação com investidores e uma estratégia jurídica consistente. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer dificuldades e apresentar uma decisão política como praticamente irreversível.

A experiência europeia mostra justamente o contrário. Em Paris, depois de décadas de participação privada na gestão do abastecimento, a prefeitura decidiu recuperar o controle público do sistema e criou, em 2010, uma gestão integrada por meio da Eau de Paris. A mudança permitiu eliminar custos relacionados à remuneração dos operadores privados e gerou uma economia estimada em dezenas de milhões de euros por ano. Mais importante do que isso, Paris decidiu que a água constitui um serviço essencial e que sua gestão deveria responder prioritariamente ao interesse público, e não à necessidade de remunerar acionistas.

O caso de Berlim é ainda mais importante para pensar a Sabesp. Em 1999, quase metade da companhia de água da capital alemã passou para um consórcio privado, sob contratos que protegiam inclusive os interesses econômicos dos investidores. Mesmo diante dessa situação juridicamente complexa, o governo berlinense decidiu recuperar o controle da empresa. Em 2012, recomprou a participação da RWE e, no ano seguinte, adquiriu as ações da Veolia. Houve custos, negociações e dificuldades jurídicas, mas nenhuma dessas barreiras transformou a privatização em uma sentença perpétua. Berlim decidiu recuperar sua companhia de água e construiu os instrumentos políticos, financeiros e jurídicos para fazê-lo.

É justamente por isso que a posição de Fernando Haddad causa estranheza. Se ele próprio reconhece o risco de São Paulo produzir uma “Enel das águas”, parece contraditório iniciar a discussão enfatizando aquilo que um futuro governo não poderia fazer. Paris e Berlim seguiram outra lógica: primeiro decidiram que recuperar o controle público atendia ao interesse coletivo e depois buscaram os meios necessários. Privatizações resultam de decisões políticas e, portanto, podem ser revistas por outras decisões políticas quando seus resultados deixam de atender ao interesse da sociedade.

Essa cautela também precisa ser observada à luz da relação histórica do PT com as privatizações. Embora o partido tenha criticado duramente o programa de desestatização dos anos 1990, seus governos não romperam completamente com a transferência de ativos, infraestruturas e serviços públicos para o setor privado. Os governos Lula e Dilma privatizaram bancos estaduais e ampliaram fortemente as concessões privadas em aeroportos, rodovias, portos e infraestrutura energética. Privatização e concessão não são juridicamente a mesma coisa, mas ambas fazem parte de uma discussão maior sobre até onde o Estado deve transferir ao capital privado a exploração econômica de serviços e infraestruturas estratégicas. Esse histórico talvez ajude a explicar por que Fernando Haddad parece mais confortável em falar de regulação e fiscalização do que em discutir concretamente a recuperação do controle público da Sabesp.

Há também uma assimetria curiosa nesse debate. Quando alguém propõe uma reestatização, surge imediatamente a pergunta sobre quanto custaria recomprar ações e recuperar uma empresa. Esse cálculo precisa ser feito. Entretanto, raramente se calcula com o mesmo rigor o custo de uma privatização ao longo de décadas, incluindo tarifas, dividendos distribuídos aos acionistas, investimentos insuficientes em áreas menos rentáveis e perda da capacidade estatal de controlar uma infraestrutura estratégica. No caso da água, essa questão se torna ainda mais grave porque estamos diante de um monopólio natural. Nenhum paulista poderá escolher entre diferentes redes de abastecimento. A população continuará dependente essencialmente de uma única companhia, com a diferença de que essa empresa passou a responder também às expectativas de rentabilidade de seus acionistas.

Além disso, parece politicamente equivocado ignorar a rejeição manifestada por grande parcela da população paulista à privatização de uma empresa tão estratégica. Essa questão ganhará importância ainda maior nas próximas décadas porque o aprofundamento da crise climática deverá aumentar a irregularidade das chuvas, prolongar períodos de estiagem e ampliar eventos extremos, afetando diretamente a disponibilidade de água para consumo humano. São Paulo já experimentou na crise hídrica de 2014-2015 o que significa aproximar grandes sistemas de abastecimento de seus limites. Num cenário climático mais instável, garantir segurança hídrica exigirá investimentos pesados na proteção de mananciais, redução de perdas, recuperação ambiental e integração dos sistemas de abastecimento.

Esse desafio assume proporções ainda maiores em um estado que concentra gigantescas aglomerações urbanas, começando pela Região Metropolitana de São Paulo e passando por Campinas, Baixada Santista, Sorocaba e Vale do Paraíba. Garantir água para dezenas de milhões de pessoas nessas áreas exigirá forte capacidade estatal de planejamento, investimento e governança das águas. Em momentos de escassez, alguém terá de decidir quais mananciais proteger, onde investir, quais usos priorizar e como impedir que as populações mais pobres sejam as primeiras a sofrer com a falta de água. São decisões políticas que dificilmente podem ficar subordinadas à rentabilidade esperada pelos mercados financeiros.

Paris e Berlim demonstraram que recuperar o controle público da água é possível quando existe decisão política para fazê-lo. Por isso, a questão que Fernando Haddad deveria responder não é apenas por que considera difícil reestatizar a Sabesp, mas se um eventual governo seu estaria disposto a construir as condições para fazê-lo caso a privatização produza os problemas que ele próprio antecipa ao falar em uma “Enel das águas”. Diante da crise climática e dos enormes desafios hídricos que São Paulo enfrentará nas próximas décadas, abrir mão antecipadamente dessa possibilidade parece um erro político e estratégico. A água é importante demais para que seu futuro seja decidido apenas pelos contratos firmados durante uma privatização e pelos interesses de seus acionistas. E é estratégica demais para que a população paulista não seja ouvida sobre quem deve controlá-la.

Novo manual de riscos rompe com a ideia de que desastres são fatalidades da natureza

Produzido por especialistas reunidos pelo Ministério das Cidades, novo manual coloca desigualdade urbana, vulnerabilidade social e crise climática no centro da compreensão dos riscos que atingem as cidades brasileiras

Uma publicação lançada em 2026 pelo Ministério das Cidades merece muito mais atenção do que provavelmente receberá. O livro Mapeamento de Riscos: Conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos, coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura, da Secretaria Nacional de Periferias, reúne pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, do Serviço Geológico do Brasil e de diversas universidades brasileiras. A obra atualiza profundamente uma metodologia utilizada no Brasil desde 2007 e, mais do que apresentar novas técnicas de mapeamento, promove uma mudança conceitual importante ao rejeitar a ideia de que os desastres constituem simples fatalidades provocadas pela natureza.

Os autores resumem essa mudança por meio de uma formulação direta: Risco = Ameaça × Exposição × Vulnerabilidade. Uma chuva intensa, uma encosta instável ou um rio que transborda representam ameaças, mas a transformação desses fenômenos em desastre também depende de quem ocupa esses territórios e das condições sociais, econômicas, habitacionais e institucionais dessas populações. O manual ressalta que um mesmo fenômeno físico produz riscos muito diferentes em territórios com condições socioeconômicas distintas, porque desigualdade social, capacidade de resposta e investimento público interferem diretamente na produção do risco.

Essa formulação aparentemente técnica possui uma enorme consequência política, pois o manual reconhece que o risco resulta de escolhas sobre onde e como as cidades se expandem, das desigualdades sociais e das assimetrias nos investimentos públicos. Reduzir riscos, portanto, não significa apenas construir muros de contenção ou outras obras de engenharia; significa também reduzir a exposição das populações, melhorar as habitações, criar sistemas de alerta e fortalecer a organização comunitária.

Quando o mapa de risco virou instrumento de expulsão

Talvez o aspecto politicamente mais importante da nova publicação apareça na autocrítica feita à metodologia anterior. No prefácio, Celso Santos Carvalho, responsável pelo programa de gestão de riscos e prevenção de desastres do Ministério das Cidades entre 2003 e 2014, explica que a experiência acumulada desde a publicação do manual de 2007 revelou problemas importantes. Mapeamentos elaborados originalmente para subsidiar o planejamento chegaram a orientar intervenções físicas que exigiriam estudos muito mais detalhados, inclusive análises casa a casa; em algumas situações, setores classificados como de risco alto ou muito alto também acabaram associados diretamente à remoção de todos os moradores.

Essa distorção contrariou o objetivo original da política pública, porque uma metodologia criada para melhorar as condições de vida das populações mais pobres acabou servindo, em alguns casos, para justificar a expulsão de moradores das periferias. O problema se torna ainda mais grave em um país no qual a estrutura fundiária e o mercado imobiliário empurraram historicamente a população pobre para encostas, várzeas, margens de rios e outros espaços pouco valorizados pela urbanização formal.

O novo manual associa explicitamente essa vulnerabilidade ao processo histórico de urbanização excludente brasileiro e menciona a Lei de Terras de 1850 e aquilo que Ermínia Maricato chamou de “nó da terra” para explicar a formação de cidades profundamente desiguais. Nessa perspectiva, a ocupação de áreas frágeis não decorre simplesmente de escolhas equivocadas dos moradores; decorre de um processo histórico que restringiu o acesso à terra urbanizada, à infraestrutura e à moradia adequada para parcelas expressivas da população.

A crise climática muda a escala do problema

A crise climática amplia ainda mais a importância dessa mudança de abordagem. Os formuladores do manual registram que diversos processos físicos vêm aumentando em frequência e magnitude e citam, entre outros exemplos, grandes inundações no Rio Grande do Sul, na Amazônia e no Nordeste, enxurradas, erosão marítima, deslizamentos e corridas de massa no Sudeste.

A atualização, por isso, vai muito além de uma modernização cartográfica. O manual incorpora imagens de alta resolução, drones, informações georreferenciadas e modelagens computacionais ao mesmo tempo que reconhece que as condições ambientais nas quais as cidades brasileiras se expandiram estão mudando. A obra aborda inundações, alagamentos e enxurradas; erosões continentais, costeiras e fluviomarinhas; rastejos, deslizamentos, quedas e rolamentos de blocos; corridas de detritos; subsidências e colapsos. Esse conjunto procura oferecer diagnósticos detalhados capazes de orientar políticas de prevenção, mitigação e adaptação.

Essa mudança ganha ainda mais relevância quando observamos a escala territorial do problema. O Serviço Geológico do Brasil já havia mapeado quase 2 mil municípios até 2026, o que mostra que o país acumulou uma base significativa de conhecimento sobre áreas sujeitas a diferentes tipos de risco. A reportagem da Agência Brasil acrescenta que quase 9 milhões de brasileiros vivem em municípios suscetíveis a deslizamentos, inundações, enxurradas e alagamentos, número que revela o tamanho do desafio colocado diante das políticas urbanas e climáticas brasileiras.

Moradores passam a participar da construção do diagnóstico

Outro avanço importante surge no reconhecimento do conhecimento produzido pelos próprios moradores. A nova metodologia procura combinar conhecimento técnico-científico com conhecimento local, popular e tradicional, evitando que o diagnóstico dependa exclusivamente de especialistas que chegam às comunidades, realizam medições e deixam o território sem incorporar a experiência acumulada por quem vive ali.

Os Planos Municipais de Redução de Riscos passaram a incentivar processos participativos nos diagnósticos e na governança das ações, enquanto os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática procuram ampliar o protagonismo de moradores de favelas e comunidades urbanas na identificação dos riscos, nos procedimentos de emergência e na definição de medidas de adaptação.

Essa participação possui enorme valor prático, porque moradores antigos frequentemente sabem onde a água chegava décadas atrás, onde uma encosta começou a apresentar rachaduras, onde uma nascente desapareceu ou onde uma rua passou a inundar depois de determinada obra. O novo manual não apresenta essa memória territorial como substituta do conhecimento científico; ele a incorpora como complemento indispensável ao trabalho de campo e ao planejamento territorial.

Saber onde está o risco aumenta a responsabilidade dos governos

A legislação brasileira já determina que os municípios conheçam os perigos presentes em seus territórios por meio de cartas de suscetibilidade, cartas de aptidão à urbanização e cartas de setorização de risco. O manual também reconhece, porém, que muitos municípios enfrentam limitações econômicas, técnicas e administrativas, razão pela qual a prevenção depende de articulação entre governos municipais, estaduais e federal.

Essa constatação impede que a política de prevenção se limite à produção de mapas. Os governos precisam transformar o diagnóstico em obras de drenagem, contenção de encostas, melhoria das habitações, sistemas de alerta, planejamento urbano, Soluções Baseadas na Natureza e outras medidas capazes de reduzir exposição e vulnerabilidade. O manual defende, nesse sentido, uma engenharia preventiva integrada às geociências e orientada pela preservação da vida.

Quanto mais detalhado se torna o conhecimento sobre os territórios ameaçados, menor fica o espaço para que governantes aleguem surpresa depois de uma tragédia. Uma chuva excepcional pode constituir um fenômeno natural; uma enchente pode decorrer de processos hidrológicos e um deslizamento pode resultar de processos geomorfológicos conhecidos, mas mortes ocorridas em locais onde o risco já havia sido identificado não podem continuar aparecendo apenas como consequência da “força da natureza”.

O trabalho coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura possui justamente esse mérito político e científico ao transformar o mapa de risco em uma ferramenta capaz de mostrar quem está ameaçado, por que essa população se encontra ameaçada e quais ações o Estado pode adotar antes que um evento extremo produza uma tragédia. Em um Brasil marcado simultaneamente pela urbanização desigual e pela intensificação da crise climática, essa mudança de perspectiva assume importância decisiva, pois, depois que o risco foi identificado, mapeado e comunicado, a ausência de prevenção já não pode ser facilmente atribuída ao desconhecimento; quando uma tragédia anunciada finalmente acontece, a falta de preparação passa a revelar uma falha concreta de prevenção.

O alarme climático está soando

Um helicóptero de combate a incêndios lança água sobre um incêndio florestal no Monte Kithairon, perto de Porto Germeno, a noroeste de Atenas, Grécia, em agosto de 2026. Imagem: Petros Giannakouris / AP Photo / PA Wire. 

Por Steve Trent para “The Ecologist”
‘Incendiar-se… de todas as direções’. Os incêndios devastadores na Europa só irão piorar se não agirmos com firmeza.
Cenas apocalípticas voltaram a ser notícia – desta vez na França e na Espanha. 

Os incêndios que começaram em julho atingiram proporções inimagináveis ​​neste verão, no que Emmanuel Macron, presidente da França, considera a “situação mais grave” para o país desde a Segunda Guerra Mundial.

Estamos em meio a uma guerra, não contra o nosso planeta sofredor, mas contra nós mesmos. 

Violação

Nosso vício em queimar combustíveis fósseis e explorar a Terra até a última gota de seus recursos causou a morte de inúmeras pessoas e a destruição de inúmeros animais e ecossistemas preciosos.

O clima da Terra está mais desequilibrado do que nunca, sendo que o período de 2015 a 2025 foi o mais quente já registrado, de acordo com o relatório Estado do Clima Global 2025 da Organização Meteorológica Mundial .  

Nossas emissões contínuas de carbono são a causa principal indiscutível. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as nações estão lamentavelmente longe de atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme estabelecido no Acordo de Paris. 

As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) estão no caminho certo para um limite de 2,2°C a 2,5°C, mas as políticas atuais projetam um aumento de 2,8°C. A recente saída dos Estados Unidos, o  segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, nos deixa ainda mais para trás.

Já estamos perigosamente perto de ultrapassar o limite de 1,5°C.  2024 foi o ano mais quente já registrado, atingindo 1,55°C, o primeiro ano civil a ultrapassar essa meta. Embora as médias mensais ou anuais acima desse limite não signifiquem que tenhamos falhado, estamos nos aproximando rapidamente dele.

Devastador

Mais de  91% do excesso de calor proveniente de nossas emissões foi absorvido pelo oceano, comprometendo sua capacidade de regulação climática e levando pontos de inflexão críticos à beira do colapso. 

As geleiras, as calotas polares da Antártida e o gelo marinho do Ártico estão derretendo rapidamente, atingindo níveis extremamente baixos nos últimos anos. 

Diversos impactos de importância global estão ocorrendo, como o Super El Niño , que está causando eventos extremamente danosos em vários locais do nosso planeta. 

Ao mesmo tempo, agora está claro que  a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) , que desempenha um papel fundamental na regulação da circulação de calor oceânica, tem diminuído de velocidade. 

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos.

Se fosse completamente interrompido, teria consequências devastadoras para o nosso clima global, um cenário que alguns especialistas dizem estar se tornando cada vez mais possível.

Nuvens de fogo

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos. 

As ondas de calor em todo o mundo têm se intensificado rapidamente, com junho sendo o mês  mais quente já registrado na Europa Ocidental, impulsionado pelas temperaturas da superfície do mar mais altas já registradas para o mês.

Um total de 10.000 mortes em excesso relacionadas ao calor foram  registradas na Europa durante a onda de calor de junho, das quais mais de 9.000 eram de pessoas com 65 anos ou mais. 

A seca resultante e o agravamento das condições de seca criaram as condições ideais para os incêndios na Espanha e na França. 

Em toda a região, esses incêndios perigosos e imprevisíveis têm devastado a terra, espalhando-se rapidamente e gerando condições sem precedentes, incluindo  nuvens pirocumulonimbus , ou “nuvens de fogo”, que criam seu próprio vento e raios.

Vigor

O número de vítimas é enorme. Cerca de 375 mil pessoas na Espanha e na França foram obrigadas a evacuar suas casas. Há previsões de que os incêndios continuarão queimando até  o início de novembro . 

Os impactos – casas destruídas, terras queimadas, economias locais arruinadas, produção agrícola devastada e céus tomados por fumaça tóxica – persistirão muito depois da última chama ser apagada.

Em nenhum outro lugar o nosso futuro está escrito com tanta clareza quanto na política climática atual. As palavras dos líderes mundiais não são um plano de ação. É assim que a força realmente se manifesta:

  • Acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis em um cronograma fixo de curto prazo. Os governos devem publicar cronogramas vinculativos de eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, começando pelos mais intensivos em carbono, e eliminar a brecha que permite que projetos de gás de “transição” sejam qualificados como investimento verde.
  • Chega de autorizações para novas infraestruturas de combustíveis fósseis. Nada de novas licenças para exploração de petróleo, gás ou carvão — ponto final. Cada novo campo aprovado hoje é uma promessa quebrada amanhã.
  • Ampliar massivamente a produção de energia renovável. Modernizar os sistemas de transmissão de energia locais, nacionais e internacionais, facilitando também a microprodução de energia renovável para que as famílias individuais alcancem uma independência energética muito maior.
  • Financiar a adaptação e a resiliência na escala do risco, não na política. Isso significa financiamento climático específico e com destinação específica para a redução do risco de desastres, sistemas de alerta precoce e apoio a idosos e pessoas vulneráveis ​​durante ondas de calor — e não gastos discricionários que são cortados na primeira rodada de austeridade.
  • Proteger e restaurar os ecossistemas como infraestrutura essencial. Zonas úmidas, florestas e solos saudáveis ​​reduzem simultaneamente o risco de incêndios e inundações. A restauração da natureza deve ser financiada e regulamentada como infraestrutura crítica, e não tratada como um mero “luxo” ao lado de estradas e redes elétricas. E, acima de tudo, proteger e restaurar nossos oceanos — o coração azul pulsante do nosso planeta. 
  • Remova as indústrias poluentes das salas de negociação climática. Os lobistas dos combustíveis fósseis não devem influenciar as políticas destinadas a eliminá-los gradualmente. As regras sobre conflito de interesses nas negociações climáticas já deveriam ter sido implementadas há muito tempo.

 A indústria não pode esperar que os governos a obriguem a agir. Ela deve: 

  • Publique planos de transição confiáveis ​​e baseados na ciência, com metas intermediárias – não apenas promessas de emissões líquidas zero para 2050, mas marcos verificáveis ​​e auditados de forma independente para 2027 e 2030 – e trabalhe arduamente, não para atingir emissões líquidas zero, mas para alcançar emissões líquidas zero reais.
  • Reduzir as emissões em toda a cadeia de suprimentos, não apenas nas operações diretas. Para setores como moda, alimentos e transporte marítimo, isso significa combater as emissões de Escopo 3, ou seja, as emissões indiretas, onde se concentra a maior parte da pegada ambiental.
  • Parem de financiar a expansão dos combustíveis fósseis. Bancos e seguradoras devem encerrar os contratos de financiamento para novos projetos de petróleo e gás e redirecionar o capital para energias renováveis, modernização da rede elétrica e soluções baseadas na natureza. Os retornos já são competitivos:  91% da energia renovável é mais barata que a energia proveniente de combustíveis fósseis.
  • Incorpore o risco climático no planejamento central dos negócios, desde a resiliência da cadeia de suprimentos até a segurança da força de trabalho durante ondas de calor extremas, em vez de tratá-lo como um projeto paralelo da equipe de sustentabilidade.
  • Apoie – e não bloqueie – uma regulamentação ambiciosa. As empresas que levam a sério a transição climática deveriam estar pressionando por políticas climáticas mais rigorosas, e não financiando silenciosamente associações comerciais que se opõem a ela.
  • Invista agora no futuro: invista em energia renovável, na sua produção, distribuição, eficiência e armazenamento. 

Escala

O caminho que estamos trilhando é um desastre absoluto: levará à violência, à fome, à migração forçada em massa, à guerra e à morte. As ações atuais são lentas demais e totalmente inadequadas para a urgência do momento. 

Mas um futuro melhor está ao nosso alcance – ainda não é tarde demais – e os dados econômicos comprovam isso cada vez mais:  as emissões de CO2 da China estão estáveis ​​ou em queda há quase dois anos, impulsionadas pelo crescente investimento em energias renováveis. 

Esta não é uma história sobre sacrifício. Proteger nossos ecossistemas e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis é como protegemos nossos meios de subsistência e construímos economias fortes e resilientes, não como os negociamos. Ações climáticas eficazes não representam um “custo”; representariam a maior economia de custos da história da humanidade. 

O aquecimento global que está provocando incêndios devastadores e secas na Europa vai piorar muito, muito mais, a menos que ajamos com a força necessária. 

“O alarme climático está soando em todas as direções”, disse o chefe do clima da ONU, Simon Stiell. Devemos agora exigir que nossos líderes — e as empresas que os financiam e influenciam — ajam com a força, a rapidez e a escala necessárias.

Este autor

Steve Trent é o diretor executivo e fundador da Environmental Justice Foundation.


Fonte: The Ecologist

Lula, o petróleo na Foz do Amazonas e um “passaporte para o futuro” com destino ao passado

Ao celebrar uma nova fronteira petrolífera em águas quase duas vezes mais profundas que as do desastre de Macondo, o governo Lula ignora as lições sociais da Bacia de Campos e compromete a credibilidade de um Brasil que pretende posar de liderança climática nas próximas COPs

A descoberta de petróleo no poço Morpho, localizado na costa do Amapá, oferece uma oportunidade particularmente reveladora para examinarmos as contradições que cercam a política ambiental do governo Lula. De um lado, o governo reivindica para o Brasil uma posição de liderança internacional no enfrentamento da crise climática, apresenta a redução do desmatamento da Amazônia como demonstração concreta desse compromisso e insiste na necessidade de uma transição energética capaz de diminuir progressivamente nossa dependência dos combustíveis fósseis. De outro, celebra a abertura de uma nova fronteira petrolífera em águas ultraprofundas na Margem Equatorial como uma oportunidade histórica de desenvolvimento econômico. Durante sua visita ao navio-sonda utilizado pela Petrobras, Lula sintetizou essa aparente quadratura do círculo ao afirmar que o petróleo encontrado na região poderá funcionar como um “passaporte para o futuro”, ao mesmo tempo em que insistiu que sua exploração não contradiz a defesa de um mundo que algum dia deixará de depender dos combustíveis fósseis.

A dificuldade começa justamente quando abandonamos o terreno confortável das intenções e examinamos as consequências materiais dessa escolha. Afinal, uma coisa é reconhecer que o Brasil e o restante do mundo continuarão consumindo petróleo durante algum tempo enquanto constroem alternativas energéticas; outra, bastante diferente, é abrir em pleno agravamento da crise climática uma nova fronteira petrolífera cuja infraestrutura precisará operar durante décadas para recuperar os enormes investimentos necessários à exploração em águas ultraprofundas. Por isso, o argumento de que ampliaremos agora a produção de petróleo para financiar uma economia que futuramente dependerá menos dele contém uma contradição que nenhuma engenharia retórica consegue eliminar: pretendemos diminuir nossa dependência dos combustíveis fósseis enquanto criamos novos interesses econômicos, infraestruturas e receitas públicas cuja sobrevivência dependerá justamente da continuidade de sua exploração.

A lembrança da explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México, em 20 de abril de 2010, torna essa discussão ainda mais necessária. O desastre ocorrido durante a perfuração do poço Macondo matou 11 trabalhadores e lançou aproximadamente quatro milhões de barris de petróleo no Golfo do México durante cerca de 87 dias, produzindo um dos maiores desastres ambientais associados à indústria petrolífera offshore. O Macondo encontrava-se sob aproximadamente 1.522 metros de água, enquanto a Petrobras perfura o Morpho em uma lâmina d’água próxima de 3.000 metros. Essa diferença não permite afirmar que ocorrerá um acidente no Amapá, tampouco que a profundidade, isoladamente, torne um blowout mais provável. Entretanto, ela nos obriga a reconhecer algo muito menos confortável para o discurso triunfalista que acompanha a descoberta: caso ocorra uma falha grave, qualquer intervenção direta sobre equipamentos instalados no fundo oceânico terá de acontecer a uma profundidade quase duas vezes maior do que aquela enfrentada no desastre do Golfo do México.

A experiência do Macondo também deveria impor alguma modéstia quando autoridades políticas apresentam equipamentos de segurança como garantias praticamente absolutas contra grandes acidentes. A Deepwater Horizon possuía um blowout preventer, o famoso BOP, exatamente como as plataformas modernas que operam em águas profundas e ultraprofundas. Ainda assim, uma combinação de decisões equivocadas, falhas técnicas e problemas organizacionais transformou aquilo que deveria representar a última barreira contra uma erupção descontrolada do poço em parte de uma sequência catastrófica de acontecimentos. A grande lição de Macondo, portanto, não consiste em concluir que toda perfuração offshore terminará em desastre, mas em reconhecer que sistemas tecnológicos complexos nunca eliminam completamente a possibilidade de falha. Quanto mais difícil for acessar fisicamente esses sistemas, maiores poderão ser os desafios quando aquilo que deveria funcionar perfeitamente simplesmente não funcionar.

O próprio Morpho já ofereceu um pequeno lembrete dessa realidade quando, em 4 de janeiro de 2026, ocorreu uma descarga de fluido de perfuração de base não aquosa para o oceano a partir de linhas auxiliares associadas ao poço. A Petrobras interrompeu a operação e controlou a descarga, e seria incorreto comparar esse episódio com um blowout ou com o desastre do Macondo. Entretanto, o incidente possui importância justamente porque demonstra que nem tecnologia avançada, nem procedimentos de segurança, nem experiência acumulada conseguem transformar uma operação realizada em condições extremas numa atividade infalível. Quando estamos falando de perfuração a quase três quilômetros abaixo da superfície do oceano, a pergunta politicamente responsável não deveria se limitar a saber se possuímos tecnologia para chegar ao petróleo, mas deveria incluir uma questão muito mais incômoda: o que conseguiremos fazer se alguma coisa der dramaticamente errado lá embaixo?

Essa pergunta adquire uma gravidade adicional porque a costa amazônica não representa simplesmente mais uma área do litoral brasileiro. Estamos diante de um sistema formado por manguezais, estuários, áreas de reprodução e alimentação de organismos marinhos, formações recifais e ambientes costeiros cuja importância ecológica ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais. As populações que dependem diretamente desses sistemas tampouco aparecem com a mesma frequência nas cerimônias governamentais que celebram novas descobertas petrolíferas. Pescadores artesanais, comunidades extrativistas e povos indígenas estão entre aqueles que provavelmente sofreriam primeiro e mais intensamente os efeitos de um grande derramamento, pois sua reprodução econômica, social e cultural mantém uma relação direta com a integridade das águas, dos estoques pesqueiros e dos ambientes costeiros.

Aqui aparece uma das dimensões mais perversas da distribuição dos riscos associados aos grandes projetos extrativos. Enquanto governos, empresas, investidores e setores empresariais disputam antecipadamente os benefícios econômicos decorrentes da exploração petrolífera, as populações que dependem diretamente dos ecossistemas locais recebem uma parcela desproporcional dos riscos. Em outras palavras, os benefícios tendem a circular pelas estruturas empresariais e fiscais, enquanto os riscos permanecem territorializados. Se tudo funcionar conforme o planejado, empresas recolherão lucros, governos receberão royalties e diferentes segmentos econômicos participarão da nova cadeia petrolífera. Se algo der errado, serão pescadores, indígenas, comunidades costeiras e ecossistemas que não participaram da decisão sobre a abertura dessa fronteira que estarão imediatamente diante das consequências.

A própria discussão sobre a possível trajetória de um derramamento deveria produzir muito mais cautela do que a que estamos vendo. A Petrobras sustenta, com base em suas modelagens, que mesmo um cenário de pior caso manteria o óleo afastado da costa brasileira. Entretanto, as simulações admitem que correntes oceânicas poderiam transportar esse petróleo em direção à Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela e ilhas do Caribe. Esse argumento produz uma situação quase surreal: parece que deveríamos considerar ambientalmente seguro um grande vazamento desde que as correntes marítimas tenham a gentileza de transportar parte das consequências para outros países. Desde quando exportar geograficamente um possível desastre ambiental passou a representar evidência da segurança de uma operação petrolífera?

Mas existe ainda uma segunda promessa associada à exploração da Margem Equatorial que precisa ser examinada com muito mais cuidado: a ideia de que o petróleo produzirá necessariamente desenvolvimento regional. Nesse ponto, quem vive no estado do Rio de Janeiro dispõe de um laboratório histórico que deveria recomendar muito mais cautela. A exploração da Bacia de Campos movimentou durante décadas uma quantidade extraordinária de riqueza, transformou municípios produtores em receptores de enormes volumes de royalties e participações especiais e ajudou a sustentar uma das principais regiões petrolíferas do planeta. Apesar disso, a circulação dessa riqueza não eliminou os altos níveis de pobreza existentes em vários municípios da região, tampouco resolveu suas graves deficiências educacionais ou os problemas associados à violência e à criminalidade. A presença de uma indústria capaz de movimentar bilhões de reais não se converteu automaticamente em desenvolvimento social duradouro e distribuído.

A experiência da Bacia de Campos deveria, portanto, ocupar posição central em qualquer discussão séria sobre o suposto “passaporte para o futuro” que agora oferecem ao Amapá. O Norte Fluminense conhece muito bem essa promessa. Durante décadas, royalties extraordinários coexistiram com desigualdade social, precariedades urbanas, déficits educacionais e violência. Municípios viram suas receitas crescerem sem que isso necessariamente produzisse transformação estrutural equivalente nas condições de vida de suas populações. O petróleo criou ilhas de riqueza, empregos altamente especializados e enormes fluxos financeiros, mas também aprofundou dependências fiscais e deixou economias municipais extremamente vulneráveis às oscilações do preço internacional do barril e às mudanças na distribuição dos royalties.

Por isso, antes de vender à população amazônica a ideia de que uma nova fronteira petrolífera representa um bilhete garantido para a prosperidade, seria conveniente explicar por que a experiência histórica de uma das maiores regiões produtoras de petróleo do Brasil produziu resultados sociais tão contraditórios. Na Bacia de Campos, o famoso passaporte para o futuro frequentemente acabou carimbado na direção contrária: enormes volumes de riqueza saíram do fundo do mar enquanto pobreza, baixa escolaridade, desigualdade e violência continuaram fazendo parte da paisagem social de muitos municípios da região. Ignorar essa experiência e repetir a promessa de que desta vez o petróleo produzirá automaticamente desenvolvimento não constitui apenas uma interpretação excessivamente otimista.  Esta postura constitui um exercício retórico que desqualifica quem o pratica, porque substitui a análise de uma experiência histórica concreta por uma profissão de fé nos supostos poderes modernizadores da renda petrolífera.

Mas o problema não termina no risco de acidentes ou na questionável promessa de progresso econômico. Mesmo que nenhuma plataforma exploda, nenhum poço perca o controle e nenhuma mancha de petróleo alcance qualquer manguezal, existe uma consequência que inevitavelmente acompanhará uma exploração comercial bem-sucedida: o petróleo retirado do subsolo entrará no circuito econômico mundial e, em sua maior parte, acabará queimado. É justamente nesse ponto que a tentativa de conciliar a expansão da fronteira petrolífera brasileira com a reivindicação de liderança climática começa a revelar suas maiores inconsistências.

A Agência Internacional de Energia já mostrou que uma trajetória capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C exige uma redução profunda do consumo mundial de petróleo nas próximas décadas. Isso não significa imaginar que o planeta interromperá amanhã a produção petrolífera, mas significa reconhecer que existe uma diferença fundamental entre administrar o declínio progressivo dos campos existentes e continuar procurando novas províncias destinadas a produzir durante décadas. Cada nova fronteira petrolífera exige plataformas, terminais, embarcações, gasodutos, oleodutos, contratos, fornecedores e enormes investimentos cuja rentabilidade pressupõe anos ou décadas de operação. Criamos, assim, aquilo que a literatura climática chama de lock-in: uma infraestrutura econômica que passa a produzir interesses materiais comprometidos com sua própria continuidade.

É exatamente por isso que considero frágil o argumento de que o Brasil poderá utilizar os recursos obtidos com o petróleo para financiar a transição energética. Uma indústria petrolífera ampliada não produz apenas royalties que um governo benevolente poderá posteriormente investir em painéis solares, parques eólicos ou programas sociais. Ela produz municípios dependentes das receitas petrolíferas, empresas fornecedoras, empregos especializados, infraestrutura portuária, interesses acionários, grupos empresariais e pressões políticas que passam a depender da continuidade da exploração. Imaginar que esse poderoso complexo econômico trabalhará serenamente para organizar sua própria obsolescência exigiria uma confiança na capacidade de autossacrifício do capital que toda a história econômica moderna recomenda evitar.

Essa contradição começa também a cobrar um preço que não podemos medir em barris ou royalties: a credibilidade internacional do Brasil na agenda climática. O país pretende chegar às próximas COPs reivindicando liderança na defesa da Amazônia e cobrando dos países ricos maior compromisso com a redução das emissões, ao mesmo tempo em que celebra a abertura de uma nova fronteira de petróleo em águas ultraprofundas diante da própria Amazônia. Há um limite para a quantidade de contorcionismo discursivo que uma política externa climática consegue suportar antes de perder credibilidade. Até para ser levado a sério nas próximas COPs, o Brasil precisará reduzir a distância crescente entre aquilo que anuncia nos palanques internacionais e aquilo que efetivamente promove dentro de suas fronteiras.

Nesse aspecto, a postura brasileira começa a lembrar uma freira que prega castidade enquanto visita regularmente um bordel. Não adianta comparecer às conferências climáticas vestido com o hábito da virtude ambiental enquanto, do lado de fora, comemoramos cada nova descoberta de petróleo como uma vitória nacional. O problema da metáfora não está na hipocrisia moral que ela poderia sugerir, mas na incompatibilidade objetiva entre discurso e prática. Quanto maior essa distância, menor será a autoridade política brasileira para exigir dos demais países aquilo que nós próprios demonstramos não estar dispostos a fazer.

Essa perda de credibilidade talvez seja ainda mais grave porque o Brasil possui condições extraordinárias para exercer liderança climática real. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias, enorme potencial solar e eólico, vastos recursos naturais e uma posição diplomática que historicamente permite dialogar tanto com países industrializados quanto com o Sul Global. Justamente por isso, desperdiçar esse capital político tentando convencer o mundo de que abrir novas fronteiras petrolíferas constitui parte de uma estratégia para abandonar o petróleo representa uma escolha particularmente contraproducente. Liderança climática não se proclama em discursos; demonstra-se por meio das decisões difíceis que um país aceita tomar quando seus interesses econômicos imediatos entram em conflito com seus compromissos ambientais.

Por isso, quando Lula chama o petróleo da Margem Equatorial de “passaporte para o futuro” enquanto reafirma seu compromisso com uma futura superação dos combustíveis fósseis, talvez estejamos diante de uma versão contemporânea da velha prática de acender uma vela para Deus e outra para o diabo. A vela destinada a Deus ilumina os discursos sobre proteção da Amazônia, redução do desmatamento, transição energética, biocombustíveis, energias renováveis e liderança brasileira nas negociações climáticas. A outra vela ilumina navios-sonda, plataformas, novas reservas e uma infraestrutura petrolífera planejada para permanecer economicamente ativa por décadas.

O problema dessa duplicidade não pertence ao terreno da moral religiosa, mas ao da física atmosférica. Uma tonelada de dióxido de carbono liberada pela combustão do petróleo brasileiro produz exatamente o mesmo efeito climático que uma tonelada proveniente do petróleo saudita, norte-americano ou russo. A atmosfera não consulta a nacionalidade do barril, não verifica se o governo produtor reduziu o desmatamento e tampouco concede descontos porque parte dos royalties financiou fontes renováveis. A atmosfera contabiliza carbono, não boas intenções, e essa talvez seja a inconveniência científica mais difícil de acomodar no discurso segundo o qual podemos ampliar a produção de combustíveis fósseis enquanto lideramos simultaneamente a luta mundial para reduzir seu consumo.

O governo brasileiro poderia assumir abertamente outra posição e afirmar que considera injusto exigir que países periféricos renunciem à exploração de suas reservas enquanto países ricos construíram sua prosperidade queimando combustíveis fósseis durante dois séculos. Esse argumento possui consistência política e encontra respaldo no debate sobre responsabilidades históricas diferenciadas pela crise climática. O governo poderia igualmente afirmar que pretende explorar o petróleo enquanto existir mercado mundial para ele e utilizar essa riqueza para financiar políticas sociais e investimentos públicos. Também poderíamos discutir criticamente essa escolha, mas pelo menos estaríamos diante de uma posição claramente formulada.

O que parece intelectualmente muito mais difícil é afirmar que a abertura de uma nova fronteira petrolífera constitui parte do próprio caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis. Nesse caso, o paradoxo deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também lógico: para reduzir nossa dependência do petróleo, ampliaremos nossa capacidade de produzi-lo; para enfrentar a crise climática, criaremos infraestrutura destinada a colocar novos bilhões de barris no mercado; para preparar uma economia pós-petróleo, construiremos novas regiões cuja dinâmica econômica dependerá precisamente dele.

Talvez seja justamente por isso que a expressão “passaporte para o futuro” utilizada por Lula mereça ser levada mais a sério do que provavelmente pretendiam seus assessores de comunicação. Um passaporte não determina apenas a possibilidade de viajar; ele também nos obriga a perguntar para onde estamos indo. A experiência da Bacia de Campos deveria servir como advertência para quem acredita que basta encontrar petróleo para encontrar desenvolvimento. Depois de décadas extraindo uma riqueza extraordinária do fundo do oceano, muitos municípios continuam convivendo com pobreza, deficiências educacionais, desigualdade e violência. Se isso representa o modelo de futuro que agora pretendemos reproduzir na Amazônia, talvez seja prudente olhar com mais atenção para o destino antes de comemorar a emissão do passaporte.

Porque, no caso da Bacia de Campos, para parcelas importantes da população, o prometido passaporte para o futuro acabou funcionando como um enorme salto para trás. Desconhecer essa experiência quando se anuncia a mesma promessa para uma nova fronteira petrolífera não representa apenas um lapso histórico. Constitui outro exercício retórico desqualificador, especialmente quando praticado por quem pretende convencer o país de que conhece antecipadamente os benefícios de uma atividade cujos custos sociais e ambientais a história brasileira já nos permitiu conhecer muito bem.

E há uma diferença decisiva entre o início da exploração da Bacia de Campos e a abertura da Margem Equatorial: desta vez conhecemos também o tamanho da crise climática. Sabemos o que significa continuar aumentando a concentração de gases de efeito estufa, sabemos que novas infraestruturas fósseis criam dependências que atravessam décadas e sabemos quem costuma receber os benefícios e quem normalmente fica com os custos quando grandes projetos extrativos chegam aos territórios.  Por isso, se ainda assim decidirmos embarcar, pelo menos não deveríamos fingir desconhecer o destino.

Paulo Artaxo alerta: Brasil ainda não construiu uma cultura de adaptação ao novo clima

Docente da USP  defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país

Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.

Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.

No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.

Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.

Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.

A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro.  A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

A reportagem da jornalista Hiroko Tabuchi, publicada originalmente no The New York Times e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo, traz novas evidências de um dos capítulos mais graves da história recente da crise climática: as grandes empresas de petróleo e gás sabiam, desde pelo menos a década de 1960, que suas operações liberavam quantidades muito superiores de metano às oficialmente divulgadas e que esse gás teria um papel decisivo no aquecimento global.

O material analisado pelo Center for Climate Integrity reúne documentos internos produzidos por associações empresariais e pelas próprias companhias petrolíferas. Esses documentos mostram que a indústria possuía conhecimento técnico detalhado sobre o problema muito antes de o tema se tornar objeto de debate público. Em vez de alertar governos, reguladores e a sociedade, o setor escolheu minimizar os riscos e investiu em campanhas de relações públicas destinadas a consolidar a imagem do gás natural como uma fonte de energia ambientalmente amigável.

O aspecto mais importante dessa revelação não reside apenas na constatação de que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente — cerca de 80 vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono em reter calor ao longo de vinte anos. Esse dado já é amplamente reconhecido pela literatura científica. O elemento verdadeiramente explosivo consiste na demonstração de que as empresas possuíam informações privilegiadas sobre a dimensão real de suas emissões e, ainda assim, permitiram que governos, investidores e consumidores continuassem tomando decisões baseadas em dados incompletos ou deliberadamente distorcidos.

Essa conduta aproxima o caso das petrolíferas de outros grandes escândalos corporativos. A indústria do tabaco ocultou durante décadas evidências sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas químicas esconderam informações sobre a toxicidade de diversos compostos. Fabricantes de agrotóxicos financiaram campanhas para desacreditar pesquisas independentes que apontavam riscos ambientais e sanitários. Em todos esses episódios, o problema não se limitou ao dano causado pelos produtos comercializados. A fraude também consistiu na supressão deliberada de informações essenciais para que a sociedade pudesse avaliar corretamente os riscos envolvidos.

No caso das mudanças climáticas, entretanto, a dimensão do dano é incomparavelmente maior. A omissão de informações sobre o metano contribuiu para retardar políticas públicas, enfraquecer regulações ambientais e prolongar um modelo energético baseado na expansão contínua dos combustíveis fósseis. Cada década perdida representou maior concentração de gases de efeito estufa, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos mais frequentes e custos humanos e econômicos cada vez mais elevados.

Por essa razão, cresce em diversos países o movimento que busca responsabilizar financeiramente as empresas petrolíferas pelos prejuízos decorrentes das mudanças climáticas. A divulgação desses documentos fortalece esse esforço porque demonstra um elemento jurídico fundamental: não se trata apenas de discutir emissões inevitáveis decorrentes da atividade econômica, mas de avaliar a responsabilidade de empresas que possuíam conhecimento técnico sobre os riscos, esconderam essas informações do público e adotaram estratégias de comunicação destinadas a preservar seus mercados.

Essa distinção é decisiva. Empresas podem cometer erros de avaliação científica. O que os documentos revelam, contudo, sugere algo muito diferente: uma estratégia consciente de administrar a percepção pública do problema enquanto continuavam expandindo seus negócios.

Essa discussão interessa diretamente ao Brasil. O país amplia investimentos na exploração de petróleo e gás, discute novas fronteiras de exploração na Margem Equatorial e mantém forte dependência econômica da exportação de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, apresenta-se internacionalmente como liderança climática. Essas duas posições tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar quando novas evidências mostram que parte da indústria conhecia os impactos ambientais de suas operações muito antes de qualquer obrigação regulatória.

As revelações apresentadas por Hiroko Tabuchi reforçam uma conclusão que se torna cada vez mais difícil de contestar: a crise climática não resulta apenas da queima de combustíveis fósseis. Ela também decorre de décadas de ocultação de informações, manipulação da opinião pública e adiamento deliberado de medidas capazes de reduzir emissões. Em outras palavras, a responsabilidade das grandes petrolíferas não se limita ao carbono que emitiram para a atmosfera. Ela inclui também o conhecimento que decidiram esconder da sociedade.

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia