Crise climática e alienação

Por MICHAEL LÖWY*

Ainda podemos sair do círculo infernal da alienação e retomar o controle da navegação e evitar uma tragédia

Somos passageiros de um novo Titanic. No entanto, ao contrário daquele de 1912, os oficiais e a maioria dos passageiros deste magnífico navio transatlântico estão cientes. Eles sabem que, se o novo Titanic continuar em seu curso atual, atingirá inevitavelmente um iceberg e afundará. O iceberg chama-se “Mudança Climática”.

Alguns dos oficiais levantaram a questão sore uma mudança de rumo. A resposta foi “muito caro”: os passageiros teriam que ser indenizados, etc., em suma, enormes despesas. Entretanto, foi tomada a decisão de reduzir a velocidade, mas ela quase não foi implementada. Enquanto isso, na luxuosa Classe Executiva, a orquestra toca e os passageiros dançam. Na Classe Econômica, as pessoas assistem com entusiasmo ao campeonato de futebol na televisão. Um grupo de jovens indignados protesta e exige outra direção, mas suas vozes são abafadas pelo barulho da orquestra e da televisão.

Alguns passageiros, tanto na Classe Executiva como na Classe Econômica, estão preocupados. Realmente muito preocupados. Eles sabem que alguns passageiros clandestinos conseguiram embarcar no transatlântico. Mobilizam-se ativamente para caçá-los e jogá-los ao mar. Uma minoria filantrópica propõe que lhes seja dado um colete salva-vidas antes de serem abandonados no oceano. Isto ainda está em discussão.

Enquanto isso, o novo Titanic avança inexoravelmente em direção ao seu iceberg.

Esta alegoria tragicômica pode ajudar a ilustrar a situação da nossa civilização (capitalista industrial moderna) face à ameaça, cada vez mais evidente, da catástrofe ecológica, a saber, de uma mudança climática irreversível e incontrolável, que ameace os próprios fundamentos da vida em geral, e da vida humana em particular. Não será isto uma alienação da humanidade como um todo, incapaz de lidar com o perigo iminente?

O iceberg aproxima-se

Então, o que é alienação? O dicionário Robert dá duas definições: (i) Transtorno mental, temporário ou permanente, que torna o indivíduo incapaz de se comportar normalmente; (ii) estado do indivíduo que se torna escravo das coisas e das conquistas da humanidade, que se voltam contra ele.

Nós estamos no primeiro caso? Podemos falar de uma espécie de “transtorno mental” coletivo, que torna os indivíduos incapazes de se comportarem normalmente? Talvez. Mas, em vez de “transtorno mental”, deveríamos falar de cegueira voluntária ou de miopia agravada ou de comportamento de avestruz (face ao perigo, enfia a cabeça dentro da terra).

Tendo a considerar a segunda definição do dicionário, desde que seja estendida do indivíduo para a coletividade.

A análise clássica da alienação (Entfremdung) é encontrada em Marx, especialmente nos Manuscritos de 1844. Para o jovem Marx, a alienação é o processo pelo qual os produtos da atividade humana, do trabalho, da produção, se tornam independentes de seus criadores e assumem a forma de um poder autônomo, que escapa a seu controle e opõe-se a eles como hostil e estranho.

É o caso das mercadorias, do mercado mundial, dos combustíveis fósseis, da agricultura industrial, do produtivismo e do consumismo.

De fato, corresponde a totalidade da civilização industrial que se tornou um poder incontrolável, que se volta contra seus criadores e ameaça destruí-los. É uma espécie de sistema “autômato”, impessoal, que funciona segundo suas próprias regras, perfeitamente baseado em cálculos matemáticos (de perdas e lucros) impecáveis. O Novo Titanic navega com direção automática, cujo funcionamento é amargamente defendido por aqueles que gozam dos privilégios deste navio de luxo.

O pior ainda pode ser evitado. Ainda podemos sair do círculo infernal da alienação e retomar o controle da navegação. Ainda podemos mudar de direção. Mas não temos muito tempo…

Mudemos de direção

Quem são estes jovens que tentam, com energia inesgotável, despertar os passageiros do Novo Titanic e quebrar o encanto mortífero da alienação mercantil? A nova geração está cada vez mais consciente de que caberá a ela “pagar a conta”, dentro de algumas décadas, pela cegueira daqueles que detêm o poder hoje, seja ele econômico ou político. Ela compreende muito bem que o problema não está apenas nos governantes – cuja inércia é evidente, e se reflete no fracasso espetacular de dezenas de reuniões da COP, incluindo a última sobre o clima em Sharm el-Sheikh – mas no sistema econômico em vigor (ou seja, o capitalismo industrial moderno). Esta consciência reflete-se na palavra de ordem de inúmeras manifestações desde a Conferência de Copenhague em 2009: “Mudemos o sistema, não o clima!” Pois, como Greta Thunberg resume com perfeição: “É matematicamente impossível resolver a crise climática dentro do atual sistema político e econômico”.

Greta Thunberg – chamada de “bruxa” pelos fascistas, neofascistas e reacionários de todos os tipos – desempenhou inegavelmente um papel de catalisadora na mobilização da juventude para o clima. Seu apelo de 2019 para uma greve climática mundial foi seguido por 1,6 milhões de jovens em 125 países do mundo, e o de 20 de setembro de 2019 por 7 milhões! A crise de Covid-19 pode ter atenuado esta mobilização, mas ela está recomeçando, sob mil formas diferentes: Friday for FutureGlobal Climate StrikeExtinction RebellionYouth for Climate, etc.

Resumindo o espírito desta geração, Greta Thunberg disse recentemente: “Não capitularemos sem lutar”. Esta combatividade da juventude é a nossa principal esperança para evitar o naufrágio coletivo.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de O que é o ecossocialismo (Cortez).

Tradução: Fernando Lima das Neves


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “A terra é redonda” [Aqui!].

Lula promete priorizar clima e ciência em meio à crise

Lula_Brazil_MAINLula da Silva prometeu apoio à ação climática, à ciência. Copyright: Fórum Econômico Mundial , (CC BY-NC-SA 2.0).

Mas reviver a ciência, a tecnologia e a inovação e enfrentar as crises ambientais não será uma tarefa fácil, após vários anos de cortes orçamentários recorrentes em educação e ciência sob o presidente Jair Bolsonaro.

O manifesto de Lula promete acabar com o desmatamento na Amazônia, conter as emissões de gases de efeito estufa, apoiar a agricultura de baixo carbono e a agricultura familiar, reconstruir os órgãos de fiscalização e controle do desmatamento e acabar com a mineração ilegal em terras indígenas.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais.”

Luiz Antônio Elias, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Brasil

“O Brasil está pronto para retomar sua liderança na luta contra a crise climática”, disse Lula a apoiadores em São Paulo após sua vitória nas eleições. “O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva.”

A política ambiental foi uma grande vítima do governo Bolsonaro, instaurado em janeiro de 2019.

De 2019 a 2022, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu 56% em comparação com o período de 2016 a 2018, segundo artigo de Paulo Artaxo , professor de física ambiental da Universidade de São Paulo.

Houve também um aumento de 80% no desmatamento em áreas protegidas, como terras indígenas e áreas de conservação. Além disso, houve uma escalada recorde de incêndios.

A ciência de forma mais ampla também sofreu um grande golpe sob Bolsonaro. Em 2014, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico teve um orçamento de cerca de 4,6 bilhões de reais (US$ 900 milhões), enquanto em 2022 esses recursos cairão para US$ 480 milhões no orçamento de seu governo. E mais da metade desse valor foi destinado ao pagamento da dívida pública porque, segundo o governo Bolsonaro, os recursos para a ciência não estavam sendo utilizados.

Além disso, uma medida provisória emitida por Bolsonaro em agosto impõe limites ao uso de parte dos recursos do Fundo, medida que antes era proibida por lei.

“Foram anos de intensa deterioração dos investimentos em ciência e tecnologia, e a vitória de Lula traz a perspectiva de recuperação”, diz Renato Janine, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao SciDev.Net .

“No entanto, como [Bolsonaro] promulgou vários mecanismos legais usando o veto presidencial (ou seja, sem possibilidade de alteração pelo legislativo), será necessário revogar essas leis e medidas provisórias.”

O financiamento e o investimento em universidades federais e institutos de pesquisa também caíram por cento desde o fim da presidência de Dilma Rousseff, de R$ 10,3 bilhões (cerca de US$ 2 bilhões) para cerca de US$ 900 milhões, mostram números oficiais.

Os orçamentos das principais agências de fomento à pesquisa do Brasil — o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — também caíram por cento nesse período, impactando a oferta de bolsas para mestrandos e doutorandos.

A biomédica Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, diz que as vagas de pesquisa apoiadas são cruciais para o avanço da ciência.

“Mais de 90 por cento da ciência brasileira é feita em universidades e institutos públicos de pesquisa”, disse ela ao SciDev.Net . “Sem educação não há ciência, e o novo governo terá que levar isso em conta.”

Janine diz que o governo Lula terá que tomar decisões difíceis, pois ele herda uma crise econômica. O presidente eleito, que tomará posse em 1º de janeiro de 2023, já disse que sua prioridade será acabar com a fome que assola 33 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 15% da população.

“Existe uma expectativa de soluções rápidas, mas infelizmente não podemos esperar que sejam tão rápidas”, disse o presidente da SBPC.

Nader concorda: “O dano é muito grande. Vamos precisar de pelo menos um ou dois anos para nos organizarmos.”

O economista Luiz Antônio Elias, ex-secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação nos governos Lula e Dilma Rousseff, acredita que será fundamental reconstruir o sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação “com uma visão integrada da política científica”.

O “ programa de reconstrução e transformação do Brasil ” de Lula reconhece que a reconstrução do sistema será “pela inovação tecnológica e social, bem como pelo uso sustentável das riquezas do país, pela geração de empregos qualificados e pelo combate às mudanças climáticas e ameaças à saúde pública”.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais”, acrescenta Elias.

Para Janine, aproximar a ciência da sociedade será fundamental. “Precisamos mostrar às pessoas o quanto a ciência é importante para o desenvolvimento do país, e como ela está presente em seus alimentos, roupas e celulares”, disse.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Lula prometeu a retomada das conferências nacionais, incluindo uma de ciência e tecnologia, para facilitar a participação social no planejamento de políticas científicas.

Este artigo foi produzido pelo escritório da América Latina e Caribe da SciDev.Net e editado para ser conciso e claro [ Aqui!].

Imagens do dia na Cúpula das Américas em Los Angeles e a pergunta que não quer calar

O presidente Jair Bolsonaro foi recebido com protestos na Cúpula das Américas organizada pelo governo dos EUA e que está ocorrendo na cidade de Los Angeles. Um protesto foi realizado por ocasião de um encontro bilateral entre Bolsonaro e Biden que deve ocorrer entre hoje e sexta-feira (10) (ver imagens abaixo).

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Os manifestantes pediram para que o governo dos EUA não dê visibilidade a falsas promessas climáticas de Bolsonaro e alertam para o estado atual da política de meio ambiente no país, destacando o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. Eles também alertaram os EUA sobre o desrespeito de Bolsonaro pela democracia brasileira e seu apoio à tentativa de golpe de Estado em 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos.

Os grandes bancos prometeram agir em defesa do clima, mas até agora nada aconteceu

Nenhuma das principais instituições financeiras seguiu de forma significativa, segundo um novo relatório

mj banksManifestantes da Extinction Rebellion protestam contra JP Morgan Chase em Nova York, 17 de setembro de 2021. Karla Ann Cote/NurPhoto via ZUMA Press

Esta história foi originalmente publicada pela Grist  e é reproduzida aqui como parte da  colaboração Climate Desk . 

Por Emily Pontecorvo para a “Mother Jones”

Uma enxurrada de promessas climáticas de instituições financeiras nos últimos anos não foi seguida por uma ação significativa, de acordo com um  relatório da organização sem fins lucrativos de responsabilidade corporativa InfluenceMap  publicado na sexta-feira. 

Das 30 maiores instituições financeiras do mundo, nenhuma instituiu políticas de financiamento de combustíveis fósseis que estejam alinhadas com orientações baseadas na ciência para estabilizar o clima a uma temperatura segura. Enquanto isso, todos eles mantêm a participação em associações do setor que rotineiramente fazem lobby contra as políticas e regulamentações de financiamento climático.

“Permanece provável que o setor financeiro continue a permitir atividades da economia real desalinhadas com cenários climáticos de 1,5°C, desde que permaneçam legal e economicamente viáveis ​​no curto prazo”, diz o relatório.

Os autores do relatório compilaram dados sobre empréstimos corporativos, subscrição de ações e títulos e atividades de gerenciamento de ativos nas 30 maiores instituições financeiras em 2020 e 2021. (Para bancos, subscrição significa alinhar vendas de ações e títulos para empresas.) Eles então analisaram se essas atividades estavam alinhadas com os próprios compromissos climáticos dos bancos, bem como com referências científicas reconhecidas pelo setor. Somente nesses dois anos, os bancos emprestaram ou subscreveram US$ 697 bilhões para a produção de petróleo e gás e US$ 42 bilhões para a produção de carvão. O maior financiador individual, com US$ 81 bilhões, foi o JP Morgan.

Cerca de 20% do dinheiro foi para as gigantes petrolíferas ExxonMobil, Chevron, Shell, TotalEnergies e BP – todas com planos de continuar explorando novas reservas. No ano passado, a Agência Internacional de Energia, uma organização de pesquisa que aconselha nações sobre política energética, descobriu que o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás era  incompatível com a obtenção de emissões líquidas zero globalmente até 2050 .

O relatório do InfluenceMap também descobriu que cerca de 5% dos ativos sob gestão desses grupos financeiros, ou US$ 222 bilhões, estão na produção de combustíveis fósseis. Ele se baseia em pesquisas anteriores que mostram que  os principais bancos despejaram trilhões de dólares em combustíveis fósseis nos últimos anos . 

Atualmente, não há uma maneira fácil de avaliar até que ponto as carteiras dos bancos se alinham às metas climáticas. Cada entidade financeira usa  critérios diferentes para desenvolver suas metas  e metodologias diferentes para relatar seu progresso em direção a essas metas. Em alguns casos, os bancos estão usando metodologias diferentes internamente para cada setor que financiam. 

Para acabar com a confusão, o InfluenceMap usou dois métodos para sua análise. Ele avaliou se a governança, estratégias, gestão de risco e metas das instituições financeiras estavam de acordo com as diretrizes da Força-Tarefa para Divulgações Financeiras, uma organização formada para desenvolver um sistema de divulgação consistente para o setor. Também usou um método estabelecido chamado  PACTA  para avaliar as divulgações financeiras e gerar pontuações para o quão bem as atividades de financiamento de cada banco se alinham com o Acordo de Paris. Todos os bancos avaliados receberam pontuações negativas indicando desalinhamento com o objetivo do tratado de limitar o aquecimento a bem abaixo de 2 graus Celsius.

Uma possível explicação para a desconexão entre promessas e ações é que as promessas da maioria dos bancos ainda são relativamente novas, e a indústria ainda está descobrindo o que realmente implica alinhar suas carteiras com as metas climáticas. Enquanto 29 das 30 empresas se comprometeram a alinhar suas carteiras de empréstimos e investimentos com uma transição para uma economia líquida zero até 2050, muitas dessas promessas foram feitas  em novembro de 2021, durante a cúpula climática das Nações Unidas em Glasgow . 

Mas Eden Coates, principal autor do relatório e analista sênior da InfluenceMap, disse a Grist que várias dessas instituições financeiras anunciaram ambições líquidas zero em 2020, como Barclays e JP Morgan. Outros,  como o banco francês BNP Paribas , se comprometeram a alinhar suas carteiras com o Acordo de Paris anos antes. “E, no entanto, suas políticas de combustíveis fósseis permanecem desalinhadas com suas metas climáticas em 2022”, disse Coates. Por exemplo, em maio passado,  o JP Morgan anunciou metas de redução de emissões para 2030 para setores específicos , como fabricação de automóveis e energia. Apesar da meta de reduzir a intensidade de carbono do financiamento da indústria de energia em 69%, o banco mais que dobrou seu financiamento da produção de carvão entre 2020 e 2021.

“Se eles levam a sério o zero líquido, você também espera que eles façam lobby em favor de políticas financeiras sustentáveis ​​projetadas para ajudar o setor a fazer essa transição”, disse Coates. “E, no entanto, essas instituições continuam a ser membros de grupos industriais que têm uma longa história de bloqueio da ação climática.”

Os autores analisaram o histórico do setor em relação ao engajamento de políticas e, embora poucas instituições financeiras parecessem se envolver diretamente com a política de financiamento climático, todas as 30 tinham vínculos com associações do setor que fizeram lobby para enfraquecer a regulamentação financeira sustentável. Metade deles também são membros de grupos como  a Câmara de Comércio, que regularmente fazem lobby contra a política climática federal  nos EUA.

A Câmara também  levantou preocupações sobre uma das indicadas do presidente Joe Biden para o Conselho do Federal Reserve , Sarah Bloom Raskin, que queria aprimorar as regras de divulgação climática. Raskin finalmente se retirou  quando esses ataques levaram o senador Joe Manchin, o voto decisivo no Senado, a anunciar que não votaria nela.

“Os formuladores de políticas de todo o mundo estão trabalhando em várias opções para tornar mais fácil para investidores e reguladores saberem como as empresas e instituições financeiras estão se saindo em relação ao clima”, disse Rebecca Vaughan, coautora do relatório. Mas ela disse que muitos bancos “ainda estão resistindo ao impulso de políticas financeiras sustentáveis ​​nos EUA e na Europa, particularmente por meio de associações do setor”.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela “Mother Jones” [Aqui!].

É a crise climática, estúpido!

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Quando James Carville pensou nos motes de campanha de Bill Clinton para a presidência dos EUA em 1992 acabou produzindo uma frase que sintetizaria toda a disputa e se transformaria em um “snowclone” capaz de ser adaptada a qualquer contexto em que se procurava facilitar o entendimento de uma dada situação processo. Falo aqui do “It´s the economy, stupid” (ou em português “é a economia, estúpido”. 

Pois bem, o que se viu na cidade de Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro, poderia ser sintetizada como “é a crise climática, estúpido”.  É que a tempestade de ontem alcançou formidáveis 259.8 mm em um período de apenas 6 horas e trouxe com isso um amplo rastro de destruição que atingiu fortemente a cidade como um todo, mas especialmente áreas ocupadas pela população mais pobre (ver vídeo abaixo).

Antes que alguém venha dizer que chuvas intensas não são novidade na região serrana do Rio de Janeiro, o que aconteceu ontem é fora dos parâmetros até para uma região em que fortes chuvas são comuns, bem como a destruição que elas trazem. Mas olhando para os vídeos que circulam amplamente desde ontem, nas redes sociais e nos veículos da mídia corporativa, não há como deixar de se sentir impactado, pois a força da tempestade e os resultados que a mesma teve são realmente impressionantes (ver vídeo abaixo).

O problema é que não há espaço para surpresa, pois esse tipo de tempestade extrema está previsto em incontáveis artigos científicos e nos diferentes relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).  E o pior é que na falta de ações para deter o aquecimento da atmosfera da Terra, esses eventos tenderão a piorar, causando ainda mais destruição material e perda de vidas humanas.

Entretanto, o que o evento meteorológico extremo ocorrido em Petrópolis deixa claro é que não se está mais no plano puramente do prognóstico sintetizados em tabelas e figuras dos relatórios do IPCC. Temos diante de nós a prova empírica do que significa estar em um mundo afetado por uma forte crise climática. E isto demanda que os governantes brasileiros parem de ignorar o que não pode ser ignorado e comecem a se preocupar com o necessário processo de adaptação climática para que as cenas devastadoras de ontem não sejam apenas um prenúncio de muitos outros desastres que ainda estão por ocorrer.

Um dos problemas que teremos de enfrentar no Brasil é a existência de um governo federal, o de Jair Bolsonaro, e de seus satélites estaduais e municipais que não apenas desprezam o conhecimento científico acerca das mudanças climáticas, mas que agem para piorar a situação ao realizar ações que pioram o status climático do Brasil, a começar pela destruição dos biomas amazônicos e do Cerrado. A presença desse tipo de governante nas esferas de decisão é talvez uma das particularidades especialmente ruins da realidade climática brasileira, pois com este tipo de personagem no poder o caminho para o fundo do precipício é acelerado.

E lembrem  que “é a crise climática, estúpido”. Pense nisso quando for escolher seus candidatos nas eleições de 2022.

Eventos extremos assolam o Brasil e não há nenhuma normalidade nisso

Maioria dos estados e municípios brasileiros seguem ignorando a emergência climática

unnamed (40)Município de Mário Campos em Minas Gerais – Foto: Gabriele Lanza/TV Globo

São Paulo, 20 de janeiro de 2022 – Desde o mês de novembro de 2021, o Brasil tem presenciado a intensificação de eventos extremos como fortes chuvas, temperaturas altas, estiagens e secas que vêm ocasionando enchentes, deslizamentos de terras, ameaças de rompimento de barragens e dezenas de vidas perdidas. Estados como Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são exemplos de regiões impactadas diretamente pela crise climática.

Dados apresentados pelo Boletim da Defesa Civil Estadual de Minas Gerais registram que, entre outubro de 2021 até o presente mês, as fortes chuvas totalizaram em cerca de 19 mortes, 3.481 desabrigados e 13.756 desalojados, além de 145 municípios em estado de emergência. Só na Bahia, por exemplo, o governo estadual decretou situação de emergência em 136 cidades.

De acordo com um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o impacto da crise climática na América do Sul inclui um significativo aumento da precipitação média no sudeste do continente, o que aumenta a ocorrência de chuvas extremas. Pesquisadores também alertam que temperaturas extremas, como altas ondas de calor, podem ser até nove vezes mais frequentes já na próxima década. Em resumo: não há nada de “normal” no que estamos vivendo.

Diante deste quadro aterrorizante, deve-se ressaltar o papel dos governos estaduais no enfrentamento da crise climática. É urgente que os governantes, de modo geral e em todas as esferas, elaborem estratégias com a finalidade de zelar pela vida das populações de seus estados por meio da elaboração ou execução de planos de adaptação climática, além de mapeamento de áreas de risco e orçamento destinado a perdas e danos materiais para populações vulneráveis. Apesar disso, a maioria dos estados brasileiros não estão preparados para lidar com a crise: atualmente, somente sete unidades da federação (PE, MG, SP, AC,TO, RS e GO) possuem um plano de adaptação climática e, mesmo nesses casos, faltam ações efetivas.

Para o porta-voz do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, cobrar atitudes dos governos estaduais é um passo importante para a prevenção dos impactos da crise climática a nível local, em especial das populações em situação de vulnerabilidade: “Precisamos cobrar uma atuação efetiva dos governos estaduais para criar medidas de adaptação e desenvolver ações estruturais de enfrentamento. A situação de emergência enfrentada por populações de diversos estados atualmente escancara e denuncia o descaso político e a negligência do Brasil com a crise climática”.

Fracasso climático e crise social lideram Riscos Globais 2022

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Genebra, Suiça, 11 de Janeiro de 2022 – Os riscos climáticos dominam as preocupações globais à medida que o mundo entra no terceiro ano da pandemia. De acordo com o Global Risks Report 2022, enquanto os principais riscos de longo prazo se relacionam ao clima, as principais preocupações globais de curto prazo incluem divisões sociais, crises de subsistência e deterioração da saúde mental.

Além disso, a maioria dos especialistas acredita que uma recuperação econômica global será volátil e desigual nos próximos três anos.

Agora, em sua 17ª edição, o relatório encoraja os líderes a pensarem fora do ciclo de relatórios trimestrais e a criar políticas que gerenciem riscos e moldem a agenda para os próximos anos. Ele explora quatro áreas de riscos emergentes: cibersegurança; competição no espaço; uma transição climática desordenada; e pressões migratórias, cada uma exigindo coordenação global para uma gestão bem-sucedida.

“As disrupções econômicas e de saúde estão agravando as divisões sociais. Isso está criando tensões em um momento em que a colaboração dentro das sociedades e entre a comunidade internacional será fundamental para garantir uma recuperação global mais uniforme e rápida. Os líderes globais devem se unir e adotar uma abordagem coordenada de múltiplas partes interessadas para enfrentar os desafios globais implacáveis ​​e construir resiliência antes da próxima crise”, disse Saadia Zahidi, Managing Director do Fórum Econômico Mundial.

Carolina Klint, Risk Management Leader, Continental Europe da Marsh, disse: “À medida que as empresas se recuperam da pandemia, elas estão aprimorando o foco na resiliência organizacional e nas credenciais ESG. Com as ameaças cibernéticas agora crescendo mais rápido do que nossa capacidade de erradicá-las permanentemente, está claro que nem a resiliência nem a governança são possíveis sem planos de gerenciamento de risco cibernético sofisticados e confiáveis. Da mesma forma, as organizações precisam começar a entender seus riscos espaciais, especialmente o risco para os satélites, dos quais nos tornamos cada vez mais dependentes, dado o aumento das ambições e tensões geopolíticas”.

Peter Giger, Group Chief Risk Officer do Zurich Insurance Group, disse: “A crise climática continua sendo a maior ameaça de longo prazo que a humanidade enfrenta. A omissão de ação sobre as mudanças climáticas pode reduzir o PIB global em um sexto e os compromissos assumidos na COP26 ainda não são suficientes para atingir a meta de 1,5 C. Não é tarde demais para governos e empresas agirem sobre os riscos que enfrentam e conduzirem uma transição inovadora, determinada e inclusiva que proteja as economias e as pessoas”.

O relatório se encerra com reflexões sobre o segundo ano da pandemia de COVID-19, produzindo novos insights sobre a resiliência a nível nacional. O capítulo também se baseia nas comunidades de especialistas em risco do Fórum Econômico Mundial — a Chief Risk Officers Community and Global Future Council on Frontier Risks — para oferecer conselhos práticos na implementação da resiliência para as organizações.

O Global Risk Report 2022 foi desenvolvido com o apoio inestimável do Global Risks Advisory Board do Fórum Econômico Mundial. Ele também se beneficia da colaboração contínua com seus parceiros estratégicos, Marsh McLennan, SK Group e Zurich Insurance Group, e seus consultores acadêmicos na Oxford Martin School (Universidade de Oxford), na National University of Singapore e no Wharton Risk Management and Decision Processes Center (Universidade da Pensilvânia).

 

Sobre a Agenda de Davos – o estado do mundo em 2022

Global Risk Report 2022 vem a frente da Agenda de Davos, que mobilizará chefes de estado e governo, líderes empresariais, organizações internacionais e sociedade civil para compartilhar suas perspectivas, percepções e planos relacionados às questões globais mais urgentes. A reunião será através de uma plataforma de conexão, permitindo ao público assistir e interagir por meio de sessões transmitidas ao vivo, pesquisas de mídia social e conexões virtuais.

Aquecimento global: 10 recordes nacionais de temperatura foram quebrados ou igualados em 2021, incluindo o mais alto já medido na Terra

Maximiliano Herrera, observador de condições meteorológicas extremas, diz que no ano passado provavelmente estará entre os cinco ou seis mais quentes da história

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Em agosto de 2021, os incêndios florestais se espalharam pelo norte de Atenas, Grécia, quando as temperaturas atingiram 42 ° C (107,6 ° F). Fotografia: Miloš Bičanski / Getty Images

Por Bibi van der Zee para o “The Guardian”

Maximiliano Herrera, observador de condições meteorológicas extremas, diz que no ano passado provavelmente estará entre os cinco ou seis mais quentes da história

Mais de 400 estações meteorológicas em todo o mundo bateram seus recordes de temperatura mais alta de todos os tempos em 2021, de acordo com um climatologista que compila registros meteorológicos há mais de 30 anos.

Maximiliano Herrera acompanha as condições climáticas extremas em todo o mundo e publica uma lista anual de recordes quebrados no ano anterior. Ele e muitos outros climatologistas e meteorologistas que acompanham de perto essas questões esperam que 2021 provavelmente não seja o ano mais quente da história (Noaa e a Nasa publicarão seus resultados nos próximos dias).

Mas é provável que esteja entre os cinco ou seis primeiros, continuando a tendência de alta de longo prazo . Os últimos seis anos foram os seis mais quentes já registrados.

E, como agora é a norma, um monte de novos recordes de calor foi quebrado, de acordo com Herrera. Dez países – Omã, Emirados Árabes Unidos, Canadá, Estados Unidos, Marrocos, Turquia, Taiwan, Itália, Tunísia e Dominica – quebraram ou empataram seu recorde nacional mais alto, 107 países bateram seu recorde mensal de altas temperaturas e cinco bateram seu recorde mensal de baixas temperaturas .

wp-1641559042019Dez recordes nacionais de temperatura foram quebrados ou igualados em 2021, incluindo o mais alto já medido com segurança na Terra

Alguns registros continentais e planetários também caíram: a África teve seus meses de junho e setembro mais quentes de todos os tempos. Agosto trouxe 48,8C (119,8F) em Syracuse , Itália, a temperatura mais alta já registrada na Europa. Julho já havia atingido 54,4 ° C (130 ° F) em Furnace Creek, no Vale da Morte dos Estados Unidos – a temperatura mais alta com segurança registrada na Terra. (A temperatura registrada como 129,9F em 2020 também foi arredondada para 130F.)

Mas houve alguns eventos específicos que se destacaram particularmente para os especialistas. Para a meteorologista Patricia Nying’uro, cofundadora da Climate Without Borders e baseada no Departamento de Meteorologia do Quênia, as duas estações consecutivas de chuvas fracassadas no Quênia foram incomuns e forçaram o governo a se organizar para ajuda alimentar pela primeira vez em muitos anos .

“Você certamente pode ver o efeito da mudança climática em nosso clima no Quênia e globalmente. Estamos apenas juntando os dados para 2021, mas achamos que teremos visto uma temperatura anual 2,1 C mais alta do que o normal para algumas partes do país. As mudanças são muito perceptíveis, de um extremo a outro em um espaço de tempo muito curto. 

Pessoas na praia de Malvarrosa em Valência24C na Espanha, 15C nos Alpes: final estranhamente quente para 2021 em partes da Europa

Esta foi uma das razões pelas quais Nying’uro ajudou a fundar a CWB, um grupo de meteorologistas e apresentadores de clima de todo o mundo que compartilham informações sobre eventos climáticos extremos. Eles também apoiam os apresentadores do clima para fazer conexões com as mudanças climáticas e comunicá-las ao público.

O meteorologista Scott Duncan , que coleta dados sobre o clima mundial, apontou para as ondas de calor do verão europeu, que quebraram recordes em vários países – e foram acompanhadas por incêndios florestais em todo o Mediterrâneo. Eles foram precedidos por um março quente, um choque frio e agudo no início de abril que “foi catastrófico para muitas empresas agrícolas na França” e, em seguida, as enchentes em julho. “Esses eventos realmente se destacaram para mim.”

Ele também destacou o calor no Alasca em dezembro, onde vários recordes foram quebrados por uma grande margem. “Isso foi extraordinário.”

A China viveu o ano mais quente de todos os tempos, de acordo com a Administração Meteorológica da China. Mas foi a chuva que atingiu a província central de Henan que realmente chocou: a região foi atingida por mais chuvas em três dias do que normalmente recebe em um ano inteiro. Centenas morreram, plantações e casas foram destruídas e a limpeza continua. Jia Xiaolong, vice-chefe do Centro Nacional do Clima, disse que a situação no ano passado foi anormal.

“O aquecimento foi o principal tema do clima da China em 2021. No contexto do aquecimento global , eventos climáticos extremos recorrentes se tornaram a norma, o que também é um grande desafio para a prevenção e mitigação de desastres.”

Outros eventos climáticos incomuns importantes no ano passado foram a onda de calor na Sibéria no verão e o congelamento profundo no Texas em fevereiro. Quase 200 pessoas morreram , milhões de casas ficaram sem energia e as consequências levaram a enormes disputas políticas.

Guy Walton, um meteorologista ativista que faz campanha contra a mudança climática desde o final dos anos 1980, disse que “o surto de frio em fevereiro de 2021 que levou ao colapso da rede elétrica no Texas e dezenas de mortes” foi “ironicamente atribuído à mudança climática por muitos” . Ele também destacou “o outono ameno / quente extraordinário que levou ao mês de dezembro mais quente já registrado para os Estados Unidos. Os Centros Nacionais de Informação Ambiental devem oficializar isso nos próximos dias. ”

Mas o evento chave de 2021 para a comunidade meteorológica e climatológica foi a onda de calor extrema que atingiu a costa oeste dos EUA em junho / julho, gerou uma cúpula de calor e quebrou recordes de até 5ºC em alguns lugares. Na época, Geert Jan van Oldenborgh (que morreu em outubro de 2021), do Royal Netherlands Meteorological Institute, chamou-o de “muito além do limite superior” e “surpreendente e abalador”.

“É claro que 2021 foi cheio de eventos extremos”, disse Herrera. “Mas se eu tiver que citar um, vou citar o que atingiu todos os climatologistas e meteorologistas do mundo”. Herrera apelidou o evento de “a mãe de todas as ondas de calor”.

“Eu confesso, eu nunca teria acreditado que isso fosse fisicamente impossível. A magnitude deste evento superou qualquer coisa que eu já vi depois de uma vida de pesquisa de eventos extremos em toda a história climática mundial moderna nos últimos dois séculos. ”

Enquanto isso, 2022 começou com uma série de recordes já quebrados no Reino Unido e nos Estados Unidos nos primeiros dias do ano.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

COP 26 chega ao fim em Glasgow

Texto final traz avanços, mas ainda não garante o cumprimento da meta de 1,5ºC

unnamed (40)Ativistas do Greenpeace erguem faixa dizendo “NÃO ESTÁ À VENDA” contra o icônico globo gigante no centro da sala de conferências da COP26 em Glasgow

Glasgow, 13 de Novembro de 2021 – A COP 26 chega ao fim e, apesar de alguns avanços, ainda nos deixa distantes do que seria necessário para garantirmos a meta de 1,5 ºC. O texto final da Conferência do Clima da ONU cita a eliminação progressiva do uso do carvão e dos subsídios aos combustíveis fósseis, mas precisávamos de mais. O texto também traz avanços para as discussões sobre adaptação climática e os países desenvolvidos finalmente começam a responder aos apelos dos países em desenvolvimento por financiamento para lidar com o aumento das temperaturas. No entanto, muito ainda ficou pendente.

“O objetivo em Glasgow era encerrar a lacuna para 1,5 ºC e isso não aconteceu, mas em 2022 as nações terão que voltar com metas mais ambiciosas. A única razão pela qual conseguimos o que fizemos aqui foi porque jovens, líderes indígenas, ativistas e países na linha de frente do clima forçaram concessões que foram feitas de má vontade. Sem eles, essas negociações sobre o clima teriam fracassado completamente”, afirmou Jennifer Morgan, Diretora Executiva do Greenpeace Internacional.

Houve reconhecimento de que os países em situação de vulnerabilidade estão sofrendo perdas e danos reais com a crise climática, mas o que foi prometido até agora ainda está longe das necessidades dos territórios. Essa questão deve estar no topo da agenda dos países desenvolvidos, principalmente na COP 27, que será realizada no Egito, ano que vem. A questão é que as palavras no texto precisam ser, de fato, implementadas pelos países e se tornarem ações.

Com as atuais contribuições apresentadas pelos países, ainda estamos longe do 1,5 ºC – um estudo do Carbon Action Tracker divulgado na COP, apontou para um aquecimento de 2,4 ºC até o final do século se todas as metas para 2030 forem atingidas. Precisamos aumentar a ambição ou estaremos colocando milhões de vidas em risco.

O Brasil deixa a Conferência com a assinatura de dois acordos e o compromisso de revisar sua NDC no ano que vem – assim como todos os países. “Apesar de muito esforço do governo federal para parecer comprometido com o clima e com a preservação da floresta, os dados de desmatamento na Amazônia divulgados na última sexta-feira mostram que mentira tem perna curta”, diz Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil. “Esperamos que essa revisão no ano que vem nos traga ambição – a NDC atual, anunciada aqui na COP, não fez mais do que nos levar de volta aos patamares anunciados pelo governo em 2015”, completa.

Por não ter nada de bom para dizer, Jair Bolsonaro foge da COP26 e vai fazer turismo na Itália. Pior para o Brasil

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Em meio ao caos econômico, sanitário e social em que o Brasil está metido neste momento, muito em parte por causa das desastrosas políticas ultraneoliberais adotadas pelo ministério da Economia sob o comando de Paulo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro resolveu fugir da 26a. edição da Conferência do Clima que será realizada em Glasgow, capital da Escócia, a partir deste domingo (31/10).  Em vez de se juntar a maioria dos líderes mundiais que estarão na COP26 para discutir a adoção de políticas de mitigação (senão de controle) da crescente climática em que estamos metidos. Em vez disso, o presidente do Brasil resolveu dar uma de “Leão da Montanha”, saiu pela direita, e foi fazer turismo na Itália onde deverá participar como mero expectador da reunião anual do chamado G-20, que nesta edição não contará com a presença de Xi Jinping e Vladimir Putin.

Bolsonaro-Roma-29-10-21-868x644Para fugir da COP26, Jair Bolsonaro resolveu fazer turismo de rua na Itália

Ao contrário da reunião do G-20 que não trará medidas efetivas para o quer que seja, a COP26 deverá trazer uma série de resoluções que poderão sim afetar a forma pela qual a economia mundial funciona, pelo menos nos próximos anos. Nesse sentido, não estar presente na COP26 certamente não será benéfico para o Brasil, independente de quem seja o seu presidente em 2023. Ao se negar a discutir seriamente medidas de confronto da crise climática, o governo Bolsonaro está contribuindo para um maior aprofundamento do isolamento diplomático em que o Brasil já se encontra.

O fato é que ao se recusar a estabelecer propostas de controle das emissões de gases estufa, e objetivamente agir para aumentá-las, o governo Bolsonaro está levantando barreiras com nossos principais parceiros comerciais, inclusive a China (que, aliás, já impõe um congelamento na importação de carne brasileira). E é importante notar que, ainda que as decisões da COP26 fiquem aquém do que se precisa para conter o avanço da crise climática, países que são centrais no controle das emissões, como é o caso do Brasil, não serão poupados de cumprir suas responsabilidades. Em outras palavras, as barreiras que já sendo levantadas são apenas o princípio do que virá pela frente.

Finalmente, há que se observar a declaração do vice-ministro Hamilton Mourão que justificou a ausência de Jair Bolsonaro sob a alegação de que se fosse o presidente brasileiro seria alvo de apedrejamento, não havendo nada de prático que pudesse ser feito. Pelo jeito, o general Mourão, do alto de sua soberba, ainda não entendeu sobre o que significa ser apedrejado dentro da diplomacia mundial. A verdade é que até agora Jair Bolsonaro não foi sequer incomodado, apesar de todas as ações bizarras na área ambiental. No entanto, o castigo pode até tardar, mas virá. Pior para o Brasil.