Para além das ilusões da COP30, a necessidade de organizar a luta climática em novos marcos

Por Marcos Pedlowski para o “Jornal Nova Democracia” 

Em março deste ano, escrevi uma espécie de artigo premonitório sobre o fracasso que seria realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Naquele texto alinhavei uma série de fatores que me permitiam traçar um cenário pouquíssimo otimista para este que é uma espécie de megaevento climático.

O problema é que passados sete meses, as minhas conjecturas estão sendo ultrapassadas pela realidade objetiva dos fatos. Um exemplo foi a concessão da licença ambiental para exploração de petróleo e gás na Foz do Rio Amazonas.  Vários comentaristas mais informados do que eu sobre as entranhas deste processo, já mostraram que um dos erros capitais ocorridos nas análises feitas pelos técnicos do Ibama foi utilizar dados fornecidos pela própria Petrobras para as estimativas de impactos relacionados às intercorrências que são muito comuns nas atividades petrolíferas.  Usar os dados da Petrobras equivale a dar a chave do galinheiro para a raposa tomar conta das galinhas. Mas a ministra Marina Silva preferiu se manifestar dizendo que a decisão da equipe técnica do Ibama havia sido “técnica”, o que nem uma criança recém-entrada no jardim de infância acredita. 

Mas os problemas da licença concedida não acabaram, apenas começaram. É que a direção da Petrobras agora postula a inclusão de mais três poços exploratórios na licença ambiental para perfuração na bacia da Foz do Amazonas.  A solicitação teria sido feita em 24 de outubro de 2025, e ocorreu após a empresa obter a aprovação para iniciar a perfuração do primeiro poço na região. Aqui já seria o caso do “passa um boi, passa uma boiada”, e se concretizado representará um avanço acelerado para o início das atividades de extração, ignorando todos os riscos que isto representa.

Uma coisa que nunca é mencionada publicamente, seja pela Petrobras ou por qualquer ministro do governo Lula, se refere ao montante de emissões de CO2 possíveis, caso as melhores expectativas das reservas na Foz do Amazonas sejam confirmadas e que todo este montante seja efetivamente explorado.  Se usarmos a estimativa de ~30 bilhões de barris associada à Margem Equatorial e o fator padrão de combustão de ~0,4319 tCO₂ por barril, a queima desse petróleo corresponderia a ≈ 13,0 gigatoneladas de CO₂ (≈12,96 GtCO).  Há que se lembrar que ~13 GtCO₂ é um valor enorme: já que representa aproximadamente um terço das emissões anuais globais atuais (ordem de grandeza ~37–38 GtCO₂/ano em 2024).

O presidente Lula em sua face para exportação, aquela em que ele se mostra um paladino da adaptação para as mudanças climáticas em curso, desconversa e continua tentando vender uma variante diversionista que é a conservação das florestas brasileiras como receita para o combate à aceleração do aquecimento da Terra. Eu digo que mesmo o suposto compromisso com a conservação das florestas é diversionista por um motivo simples. O compromisso objetivo do governo Lula é com um modelo que eu chamo de economia agromineral. Por um lado, se incentiva a exploração de petróleo e gás, enquanto se financia de maneira nada frugal a produção de commodities agrícolas, inclusive às custas do que ainda resta de florestas na Amazônia e no bioma do Cerrado. Basta ver os valores alocados para o Plano Safra de 2025/2026 que entregou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial , enquanto reservou apenas 78,2 bilhões são para a agricultura familiar.  Em outras palavras, enquanto muitos se chocaram com o mote de campanha do presidente Donald Trump, o “Drill, Baby Drill” (Perfura, bebê Perfura!), pouco se fala que para Lula o mote correto “Perfura e desmata, bebê Perfura e desmata! 

Por outro lado, vários estudos científicos já estão mostrando que, por causa do aquecimento acelerado da atmosfera, as florestas tropicais estão passando da condição de sumidouros para emissoras de carbono. Com isso, a soma total das emissões anuais de CO tenderia a aumentar ainda mais rapidamente.  Para piorar, há uma crescente concordância na comunidade científica de que as florestas estão se tornando mais combustíveis e que grandes incêndios florestais vão continuar ocorrendo e em número e intensidade cada vez maiores. 

Diante deste contexto fático, voltemos então às chances da COP30 não ser um fracasso completo. Eu diria que as chances são agora negativas.  Um elemento que garante isso é que cerca de um mês do início do evento,  apenas 87 delegações já confirmaram ter hospedagens garantidas em Belém. Além disso, há que se lembrar que até o momento apenas 162 países confirmaram presença na COP30, um número abaixo do que ocorreu na COP21 realizada em Paris quando 190 países estiveram presentes. Assim, o que temos diante de nós é um abandono tácito desta arena de debates em prol de um compromisso explicito com a aceleração do modelo de economia fóssil que está na raiz dos problemas que as COPs nunca sequer arranharam. 

Recentemente fui perguntado por uma ativista ambiental se valeria a pena ir para Belém para participar dos eventos paralelos que ocorrerão durante a COP30.  Eu respondi que dados os custos elevados de transporte e hospedagem e a futilidade que é dar uma roupagem cívica à COP30, o melhor seria apostar em eventos locais que ocorrerão em diversos estados brasileiros que formam uma espécie de anti-COPs. Um exemplo é o “Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo fim dos Genocídios” que deverá ocorrer na cidade do Rio de Janeiro entre 20 e 23 de novembro sob os auspícios de ativistas ambientais, cientistas e organizações de esquerda.  Considero que este tipo de evento deverá gerar mecanismos de organização muito mais sólidos e efetivos do que qualquer coisa que seja decidido em Belém. É que seguir apostando nas soluções propostas por quem está na raiz do problema já se mostrou um completo e rotundo fracasso.

A saída para o colapso climático que se avizinha terá de ser inevitavelmente pela esquerda. Afinal de contas, como disse e escreveu a física e filósofa alemã e membro do IPCC, Friederike Otto, a crise climática envolve questões de gênero, raça e classe. Assim, quanto antes a luta climática se der nesses termos, maiores serão as nossas chances de enfrentar o futuro que se avizinha.


Fonte: Nova Democracia

Quando o greenwashing é castigado: Tribunal francês condena Total por propaganda enganosa

Tribunal de Paris proíbe empresa de petróleo e gás de fazer propaganda com suposta preocupação com o meio ambiente 

Vista dos parques de tanques e instalações da refinaria Total no Parque Químico de Leuna

Vista dos parques de tanques e instalações da refinaria Total no Parque Químico de Leuna. Foto: DPA/Jan Woitas 

Por Ralf Klingsieck para o Neues Deutschland

Pela primeira vez, organizações ambientais na França conseguiram condenar uma empresa multinacional por mentir sobre seu suposto compromisso ambiental. Um tribunal em Paris decidiu que a empresa de energia Total estava tentando convencer o público de seu suposto compromisso com a neutralidade de carbono por meio de publicidade deliberadamente enganosa . Na realidade, a produção de petróleo e gás continuará a ser expandida e continua a representar a parte mais importante das atividades da Total no país e no exterior, declararam os juízes. Portanto, é falso e enganoso que a Total alegue ser um dos atores mais importantes do mundo na transição para as energias renováveis.

Mais de 40 organizações ambientais, incluindo Greenpeace França, Les Amis de la Terre e Notre affaire, entraram com uma ação judicial em 2021, quando a empresa mudou seu nome para Total Energies e colocou seu suposto compromisso com a neutralidade climática até 2050 no centro de sua presença pública. No entanto, a empresa não mencionou que a energia eólica e solar continuavam sendo uma área secundária das atividades da empresa e que ela investiu pesadamente no desenvolvimento de novos depósitos de petróleo e gás, especialmente na África.

Os juízes declararam em sua fundamentação que a multinacional sediada em Paris exagerou deliberadamente e de forma enganosa seu compromisso com o meio ambiente e induziu os consumidores a acreditar que estava fazendo algo para proteger o meio ambiente e o clima ao adquirir produtos ou serviços da Total. Ao fazê-lo, seguiram os argumentos dos autores quase que literalmente. O tribunal ordenou que a empresa pagasse às organizações autoras uma quantia simbólica como indenização por danos morais. A Total também deve publicar a decisão em seu website no prazo de um mês e mantê-la lá por 180 dias. No entanto, o tribunal rejeitou o pedido de condenação da Total por promover a produção de combustível a partir de produtos agrícolas e a extração de gás natural, embora evidências científicas mostrem que isso é prejudicial ao meio ambiente e à biodiversidade. Os juízes decidiram que não se tratava de publicidade direcionada ao público em geral, mas sim de informação para empresas parceiras e investidores, seguindo assim os argumentos dos advogados da Total.

Segundo o Greenpeace, a decisão representa um “ponto de virada na luta contra o greenwashing” que dará impulso a muitos processos semelhantes em outros países. Esta é a primeira vez que uma empresa de petróleo ou gás é condenada. Na Espanha, em fevereiro, a fornecedora de energia elétrica Iberdrola perdeu o processo contra a petrolífera Repsol, que havia afirmado: “A luta contra as mudanças climáticas está em nosso sangue”. Nos EUA, em janeiro passado, o governo da cidade de Nova York processou, sem sucesso, diversas empresas petrolíferas por não informarem adequadamente os consumidores sobre as consequências do uso de seus produtos. Em contraste, uma decisão judicial obrigou a Lufthansa a retirar o que os juízes chamaram de “publicidade enganosa” sobre a compensação das emissões de CO2 causadas por seus voos .

Em sua defesa, a Total argumentou que metade dos oito bilhões de euros investidos na França desde 2020 foram destinados a projetos de energia solar ou eólica. Dois gigawatts de eletricidade são produzidos anualmente no país, o equivalente à capacidade de duas usinas nucleares. A produção de petróleo e gás também se tornou mais ecologicamente correta. A direção da empresa enfatiza que o uso de novas tecnologias reduziu as emissões de CO2 em 35% entre 2015 e 2024. Mas isso também é um fato: três quartos dos investimentos globais da Total são em petróleo e gás.


Fonte:  Neues Deutschland

Comissão do Ambiente da ABGF emite declaração sobre participação efetiva dos atingidos nas discussões da COP30

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Declaração da Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF)

Pela participação efetiva dos atingidos pela crise climática nas discussões da COP30

A realização da COP30, em Belém, em novembro de 2025, ocorre em um momento decisivo para a humanidade. Diante da escalada da crise climática e do esvaziamento político das últimas conferências, a Comissão do Ambiente da AGBF reafirma que não há justiça ambiental sem a presença, a voz e o protagonismo dos mais atingidos — povos originais, comunidades tradicionais, ribeirinhos e trabalhadores rurais e urbanos que enfrentam cotidianamente os impactos dos extremos climáticos e das mudanças ambientais que se avizinham.

Esses povos e comunidades não devem ser meros “participantes” do debate: são sujeitos históricos e portadores de saberes e práticas de manejo e gestão territorial/ambiental que apontam caminhos reais para uma transição justa.  O processo de participação dos atingidos não pode se restringir a espaços simbólicos ou painéis paralelos; deve ser estruturante nas decisões e compromissos assumidos durante a COP30.

A Comissão do Ambiente da AGBF alerta que o formato atual das COPs favorece corporações, interesses financeiros e governos alinhados ao capital, perpetuando as causas da própria crise climática. No Brasil, as contradições são evidentes — como a abertura de novas fronteiras petrolíferas na Margem Equatorial e os projetos de infraestrutura que ameaçam florestas e territórios indígenas e tradicionais. Não basta “comparecer”: é preciso romper com o modelo que transforma a crise climática apenas em oportunidade de negócio.

Garantir a presença efetiva dos atingidos exige recursos materiais, segurança, respeito aos protocolos próprios de participação e compromisso com a demarcação de territórios e a reparação de danos históricos. A exclusão desses sujeitos equivale a perpetuar a injustiça climática que a COP30 deveria combater.

A Comissão do Ambiente da AGBF, comprometida com a ciência crítica, a justiça ambiental e os direitos humanos, convoca seus associados e instituições parceiras a:

  • pressionar o poder público por condições reais de participação dos povos originais, comunidades tradicionais e trabalhadores;
  • articular documentos e posicionamentos junto a essas organizações;
  • ampliar a visibilidade crítica e a transparência do evento;
  • promover espaços de escuta e preparação coletiva com os sujeitos diretamente afetados.

A crise climática é também uma crise civilizatória. Enfrentá-la requer superar o modelo de exploração que a sustenta. A COP30 só terá sentido se efetivamente colocar os verdadeiros guardiões da terra e do clima no centro das decisões. Caso contrário, repetirá o fracasso das conferências anteriores.

Outubro de 2025

Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF)

Inscrições para o Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios

Inscrição de atividades autogestionadas: de 06 a 31 de outubro.

As atividades autogestionadas são fundamentais para ampliar a participação dos movimentos populares e da academia no Encontro e ocorrerão nos dia 21 e 22 de novembro em quatro sessões de 13 h 30 até 15 h 30 e de 16 h até 18 h. 

Para inscrever sua atividade você deve preencher o formulário neste link: https://forms.gle/stATSvXddW9hXH439

Os objetivos do Encontro são: 

1- Denunciar o caráter insustentável do capitalismo, a impossibilidade de um capitalismo verde e sequer da redução do ritmo de destruição sem a superação deste modo de produção.

2- Denunciar as instituições capitalistas, empresas, Estados e organismos internacionais (ONU, COPs, G20 etc.) e suas falsas soluções. 

3- Denunciar o negacionismo e o caráter destrutivo da política ambiental do Estado brasileiro, incluindo o governo Lula.

4- Promover o debate sobre o significado da ruptura com o capitalismo, bem como do programa, das táticas e das estratégias necessárias para este objetivo.

5- Colaborar para a articulação das lutas ambientais concretas travadas pelos trabalhadores e o povo.

6- Contribuir no desenvolvimento das lutas contra o imperialismo e a denúncia de todos genocídios em curso, em particular o apoio à luta do povo palestino contra o estado colonialista e racista de Israel.

O encontro da militância e das organizações que não se iludem com o capitalismo, suas empresas e instituições é fundamental diante da necessidade de atuarmos concretamente pela superação deste modo de produção como condição para que a humanidade possa começar a responder adequadamente ao colapso ambiental.

Nossa iniciativa é ousada e está apenas começando a ser construída. Inscreva sua atividade e venha conosco construir um mundo novo!

O Encontro ocorrerá entre os dias 20 e 23 de novembro de 2025 na cidade do Rio de Janeiro em local a confirmar.

Relatório põe Brasil no centro da crise climática e diz que é hora de puxar o freio de emergência nas emissões de metano

Gado no Pará

O Brasil tem mais de 70% de suas emissões de metano ligadas à agropecuária 

BORI - Soluções para um conhecimento científico acessível

Um relatório divulgado nesta terça-feira (23) pelo Climate Crisis Advisory Group, organização formada por 19 especialistas de 12 países, aponta que o corte das emissões de metano é a ação mais rápida e barata para conter o aquecimento global ainda nesta década. O grupo internacional de cientistas descreve as ações do tipo como um “freio de emergência” capaz de evitar até 0,3°C de aquecimento se as emissões forem reduzidas em 45% até 2030. 

O documento alerta que, embora as atenções globais estejam voltadas para o dióxido de carbono (CO₂), o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento já registrado e tem efeito mais de 80 vezes mais potente do que o CO₂. Por permanecer pouco mais de uma década na atmosfera, cada corte nas emissões gera efeito imediato de resfriamento, perceptível em poucos anos.

O Brasil ocupa posição central nesse desafio. O país concentra mais de 70% de suas emissões de metano na agropecuária, principalmente na criação de gado. Resíduos e energia completam o quadro. Para os autores, essa configuração coloca o Brasil simultaneamente como um dos maiores riscos e uma das maiores oportunidades globais de liderança. O programa federal “Zero Metano”, lançado em 2022, é citado como carente de metas claras e mecanismos robustos de monitoramento, com risco de se tornar apenas simbólico se não for integrado a políticas agrícolas e de uso da terra mais amplas.

O estudo apresenta medidas de baixo custo já disponíveis. Na energia, recomenda banir a queima e o descarte de metano em poços de petróleo e gás, adotar monitoramento rigoroso de vazamentos e garantir transparência nos relatórios de emissões. Na agricultura, propõe limites estritos para grandes propriedades de gado e laticínios, incentivo a ações que diminuam a produção de metano e sistemas de manejo de esterco que permitam gerar biogás em pequenas propriedades. No setor de resíduos, pede coleta universal, desvio de orgânicos de aterros e incentivo à compostagem e ao uso de bioenergia.

Para a ecóloga Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília e integrante do grupo, o momento é de transformar o desafio em oportunidade. “A oportunidade de combater a mudança do clima por meio da redução das emissões de metano é também uma oportunidade de reformular nossos sistemas agroalimentares. Isso significa dar mais transparência sobre os impactos da cadeia de produção de alimentos, melhorar a sustentabilidade, garantir água e segurança alimentar, proteger a saúde e promover justiça social”, afirma.

“O metano é o único freio de emergência que temos à disposição. As soluções estão prontas, são acessíveis e trazem ganhos imediatos para a saúde, a segurança alimentar e os meios de vida. Em países como o Brasil, onde a agricultura é parte central da economia, não agir equivale a investir na própria queda”, diz David King, presidente do Climate Crisis Advisory Group.

O Climate Crisis Advisory Group inclui autoridades de destaque em ciência do clima, emissões de carbono, energia, meio ambiente e recursos naturais. Alguns de seus membros também participam de conselhos consultivos governamentais. Sua função é complementar, e não substituir, esses outros papéis. A atuação envolve análises aprofundadas de questões políticas e financeiras, inclusive daquelas que ainda não estão presentes nas agendas governamentais. Todos os cientistas concordaram em dedicar seu tempo de forma voluntária, sem qualquer remuneração.

A lista completa de recomendações inclui:

Energia

  • Proibir o venting, ou seja, impedir que empresas liberem metano diretamente na atmosfera
  • Proibir o flaring rotineiro, encerrando a queima de gás nos poços, prática poluidora e desperdiçadora
  • Detectar e reparar vazamentos com monitoramento regular e reparo imediato em toda a infraestrutura de óleo e gás
  • Garantir transparência por meio de relatórios independentes e robustos sobre emissões, usando as melhores técnicas e tecnologias disponíveis

Agricultura

  • Estabelecer limites rígidos de intensidade de metano em fazendas de gado de corte e leite, com monitoramento e fiscalização
  • Exigir manejo responsável do esterco, com tratamento e armazenamento adequados para evitar liberação de metano, conforme o porte da fazenda
  • Reduzir emissões de ruminantes por meio de práticas alimentares que diminuam significativamente o metano
  • Apoiar pequenos produtores com recursos, capacitação e infraestrutura para cortar emissões e acessar energia limpa
    Reduzir emissões da produção de arroz e da aquicultura com práticas de manejo comprovadas

Resíduos

  • Fortalecer regras de gestão de resíduos, com coleta universal, separação, reciclagem e desvio de materiais do aterro
  • Impedir o envio de alimentos e outros resíduos orgânicos para aterros, direcionando-os para compostagem, biogás ou biochar
  • Apoiar sistemas circulares de alimentos, reformando cadeias alimentares, educando populações para reduzir desperdício na origem, incentivando mudanças na dieta e garantindo acesso a alimentos de baixa emissão
    Trabalhar com comunidades por meio de centros locais, inclusão de trabalhadores informais e infraestrutura acessível para mudanças de baixo para cima
  • Monitorar e capturar o metano de aterros, exigindo acompanhamento rigoroso e sistemas de coleta baseados nas melhores práticas compatíveis com a capacidade local

O relatório completo pode ser acessado no link: http://www.ccag.earth/reports/methane-the-emergency-brake-for-climate-heating


Fonte: Agência Bori

Estudo conclui que colapso da AMOC não é mais de baixa probabilidade

Cientistas dizem que descoberta ‘chocante’ mostra que cortes rápidos nas emissões de carbono são necessários para evitar consequências catastróficas

Um oceano agitado

Novas modelagens sugerem que o ponto crítico que torna inevitável o fechamento da AMOC provavelmente será ultrapassado em poucas décadas. Fotografia: Henrik Egede-Lassen/Zoomedia/PA 

Damian Carrington Editor de meio ambiente, para o The Guardian

O colapso de uma corrente crítica do Atlântico não pode mais ser considerado um evento de baixa probabilidade, concluiu um estudo, tornando cortes profundos nas emissões de combustíveis fósseis ainda mais urgentes para evitar o impacto catastrófico.

A circulação meridional de reviravolta do Atlântico (Amoc) é uma parte importante do sistema climático global. Ela traz água tropical aquecida pelo sol para a Europa e o Ártico, onde esfria e afunda, formando uma corrente de retorno profunda. Já se sabia que a Amoc estava em seu nível mais fraco em 1.600 anos, como resultado da crise climática.

Modelos climáticos indicaram recentemente que um colapso antes de 2100 era improvável, mas a nova análise examinou modelos que foram executados por mais tempo, até 2300 e 2500. Eles mostram que o ponto crítico que torna o desligamento da Amoc inevitável provavelmente será ultrapassado dentro de algumas décadas, mas que o colapso em si pode não acontecer até 50 a 100 anos depois.

A pesquisa constatou que, se as emissões de carbono continuassem a aumentar, 70% das execuções do modelo levariam ao colapso, enquanto um nível intermediário de emissões resultaria em colapso em 37% dos modelos. Mesmo no caso de baixas emissões futuras, o desligamento da Amoc ocorreu em 25% dos modelos.

Cientistas já alertaram anteriormente que o colapso da Amoc deve ser evitado “a todo custo” . Isso deslocaria a faixa de chuvas tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos, mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão, e adicionaria 50 cm ao já crescente nível do mar.

A circulação de reviravolta do Atlântico Sul está enfraquecendo e entrou em colapso no passado distante

Os novos resultados são “bastante chocantes, porque eu costumava dizer que a chance de a Amoc entrar em colapso como resultado do aquecimento global era inferior a 10%”, disse o professor Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, que integrou a equipe do estudo. “Agora, mesmo em um cenário de baixas emissões, mantendo o acordo de Paris, parece que pode ser algo em torno de 25%.

Esses números não são muito precisos, mas estamos falando de uma questão de avaliação de risco, em que até mesmo 10% de chance de um colapso da Amoc seria muito alta. Descobrimos que o ponto crítico em que o fechamento se tornará inevitável provavelmente ocorrerá nos próximos 10 a 20 anos, aproximadamente. Essa também é uma descoberta bastante chocante e a razão pela qual precisamos agir muito rápido para reduzir as emissões.

Cientistas identificaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021 e sabem que a Amoc já entrou em colapso no passado da Terra. “Observações no fundo [extremo Atlântico Norte] já mostram uma tendência de queda nos últimos cinco a dez anos, consistente com as projeções dos modelos”, disse o professor Sybren Drijfhout, do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos, que também integrou a equipe.

Mesmo em alguns cenários de emissões intermediárias e baixas, a Amoc desacelera drasticamente até 2100 e desliga completamente depois disso. Isso mostra que o risco de desligamento é mais sério do que muitas pessoas imaginam.

O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters , analisou os modelos padrão utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Os cientistas ficaram particularmente preocupados ao constatar que, em muitos modelos, o ponto de inflexão é atingido na próxima década ou duas, após o qual o desligamento da Amoc se torna inevitável devido a um feedback autoamplificador.

As temperaturas do ar estão subindo rapidamente no Ártico devido à crise climática, o que significa que o oceano esfria mais lentamente. A água mais quente é menos densa e, portanto, afunda mais lentamente nas profundezas. Essa desaceleração permite que mais chuva se acumule nas águas superficiais salgadas, tornando-as menos densas e retardando ainda mais o afundamento, formando o ciclo de retroalimentação. Outro novo estudo , utilizando uma abordagem diferente, também concluiu que o ponto de inflexão provavelmente será atingido por volta de meados deste século.

Apenas alguns dos modelos do IPCC foram executados além de 2100, então os pesquisadores também buscaram verificar quais dos modelos executados até o final deste século mostravam que a Amoc já estava em declínio terminal. Isso produziu os números de 70%, 37% e 25%. Os cientistas concluíram: “Esses números não correspondem mais ao evento de baixa probabilidade e alto impacto usado para discutir um colapso abrupto da Amoc no [último relatório do IPCC]”.

Rahmstorf disse que os números reais podem ser ainda piores, porque os modelos não incluem a torrente de água derretida da calota polar da Groenlândia , que também está melhorando as águas do oceano.

A Dra. Aixue Hu, do Laboratório de Dinâmica Climática Global no Colorado, EUA, que não participou da equipe do estudo, disse que os resultados foram importantes. “Mas ainda é muito incerto quando o colapso da Amoc ocorrerá ou quando o ponto de inflexão da Amoc será ultrapassado devido à falta de observações diretas [do oceano] e aos resultados variáveis ​​dos modelos.”

O estudo que concluiu que um colapso total da Amoc era improvável neste século foi liderado pelo Dr. Jonathan Baker, do Met Office Hadley Centre, no Reino Unido. “Este novo estudo destaca que o risco aumenta após 2100”, disse ele. “[Mas] essas porcentagens devem ser analisadas com cautela – o tamanho da amostra é pequeno, portanto, mais simulações [após 2100] são necessárias para quantificar melhor o risco.”

No entanto, disse Baker, “o oceano já está mudando, e as mudanças projetadas na convecção do Atlântico Norte são uma preocupação real. Mesmo que um colapso seja improvável, espera-se um enfraquecimento significativo, e isso por si só poderia ter impactos sérios no clima da Europa nas próximas décadas. Mas o futuro da circulação do Atlântico ainda está em nossas mãos.”


Fonte: The Guardian

Ecologia no fim do mundo

Ativistas climáticos precisam se unir para construir conexão, comunidade e movimentos – objetivos e princípios podem vir depois

Imagem: John Englart – CC BY-SA 2.0 . John Englart / CC BY-SA 2.0

Por Roger Hallam para o “The Ecologist”

A palavra ecologia é importante. Talvez seja o conceito mais importante no momento, e não estou dizendo isso apenas para conversar com o editor do The Ecologist online! 

Afinal, essa palavra existe há muito tempo. Lembro-me de pessoas falando sobre ela décadas atrás, na minha primeira conferência do Partido Verde, quando eu tinha 15 anos. 

É mais ou menos como: “Sim, sabemos que ecologia é tudo de bom, todos sabemos disso, obrigado”. Bem, eu gostaria de sugerir que não sabemos mesmo. Caso contrário, com certeza, não seríamos tão problemáticos, tanto como sociedade quanto como movimentos por mudança social. 

Nós

Deixe-me dar um exemplo. Há algum tempo, fui a uma reunião com cerca de 15 grupos — sindicatos, ONGs, grupos de campanha. Todos fizeram a sua parte. Houve um pouco de conversa. E foi só isso. 

Isso é o que chamo de ecologia neoliberal. É uma ecologia fraca: os elos são frágeis, a conectividade é precária e não há feedback positivo no sistema. É inerte. 

É de se surpreender que todos parecessem infelizes? O neoliberalismo colonizou a cultura de progressistas e radicais por tanto tempo que se tornou natural pensar em termos de “coisas” — “isto” e “aquilo”. 

Pensar nos nós, não nas pontes, nos elos, nas conexões. Claro que pagamos o serviço de deslizamento, mas no mundo real somos “nós” e “eles”. Mas isso não é ser real, é ser idiota. Deixamos os bandidos vencerem, antes mesmo de ligarmos a câmera com zoom.

Então, vamos começar com o mais importante. O espaço para informações e ideias em qualquer sistema humano é muito limitado — é sempre apenas uma pequena parte.

Redes

Há também emoções e narrativas. É por isso que criar uma ecologia de verdade envolve fazer check-ins nas reuniões — aquelas pequenas conversas informais, e fazer com que as pessoas contem suas histórias de vida no início dos projetos. 

No mundo neoliberal, tanto à direita quanto à esquerda, isso é, na melhor das hipóteses, um absurdo hippie e, na pior, uma ameaça de poder aos muros hobbesianos que precisam ser mantidos na guerra de todos contra todos — identidade definida como a exclusão do outro. 

Há então a ideia impressionantemente desesperançosa de que “se vamos trabalhar juntos, precisamos definir a visão e os princípios com os quais todos concordamos”. 

Este é o modelo Ikea do ser humano. Ao longo das minhas últimas quatro décadas de organização, ajudando a criar dezenas de projetos e redes, assim que alguém diz isso, sei que o desastre está prestes a acontecer, com os egos em conflito.

Sejamos claros: as pessoas trabalham juntas não por causa de sua “visão e princípios”, mas apesar deles. 

Ciclismo

A ecologia não é construída por meio da tarefa infrutífera de tentar fazer com que as projeções do ego, que são projetadas para servir à desconexão, de alguma forma se unam. 

Você projeta a bicicleta enquanto pedala.

O que você precisa fazer é fazer com que os corpos se movam juntos e muito próximos, o que significa que, na linguagem cotidiana, as pessoas precisam fazer coisas, coisas realmente reais, juntas. 

A ecologia da conexão humana é em parte ideias, em parte comunicação emocional, em parte movimento corporal. Em ecologia, nenhuma parte lidera. Nunca é uma questão de sequência linear — resolva tudo isso primeiro e depois resolva tudo aquilo. 

Os sistemas ecológicos seguem em espirais ascendentes ou descendentes. Para fazê-los subir, você tem algumas ideias, um pouco de conversa fiada, um pouco de ação na rua e, em seguida, gira em espiral e começa de novo, sem parar porque perdeu o ritmo. 

Você projeta a bicicleta enquanto pedala. Não existe uma palavra fácil em inglês para tudo isso, o que é uma grande parte do problema. Mas é assim que funciona. 

Conexões

O que nos leva ao desenho dos nossos movimentos sociais, na era do Partido Reformista e do colapso da biosfera. 

Sim, todos nós sabemos o resultado final. Já falei sobre isso em artigos anteriores – é claro como o dia. Fazemos nossa rede neoliberal anêmica – os bandidos chegam ao poder e nos eliminam um por um. 

A recente repressão ao movimento “Just Stop Oil” é apenas o começo do que está por vir para todos os outros. Então, como uma concepção verdadeiramente rica de ecologia pode nos ajudar? O que eu chamo de ecologia próxima. 

Primeiro, precisamos parar de pensar em “coisas” e focar nas conexões. Não nos eventos, mas no antes e depois dos eventos. E então colocar em um plano uma sequência de espirais iterativas — e não parar. 

A questão é que já temos os recursos: as pessoas, o dinheiro, o desejo. O problema, como sempre, é a conexão e fazer com que essas conexões comecem a se mover. É a questão do “simplesmente conectar”. 

Coletivo

Então, vamos ser concretos. Praxis, por favor. Aqui está um módulo. Convidamos as pessoas a se reunirem, por meio de encontros mensais, digamos, de 30 a 50 grupos, 10 de cada vez: grupos culturais, de mídia, de campanha, políticos, todos amplamente abertos, democráticos e cientes de que precisamos de uma mudança sistêmica, ou estaremos perdidos. 

Em outras palavras, a atual ecologia frágil do que poderíamos chamar de “o movimento”. Assim, não brigamos por ideias ou princípios, contamos nossas histórias, os altos e baixos, onde estamos e como nos sentimos a respeito. 

Temos então um caminho vital para a ação: a mobilização conjunta de corpos. Organizamos festivais urbanos nacionais e, depois, regionais, de formato aberto — todos são bem-vindos. 

Ninguém está no comando, você tem programas abertos, uma série de locais — centros comunitários, igrejas, parques. E pessoas e grupos realizam seus eventos. 

Disso surge a conexão, e só então surge o desenvolvimento da confiança que pode levar a ações coletivas — modelos compartilhados para mobilização, em níveis local, regional e nacional. 

Processo

E só então chegamos a objetivos e demandas compartilhadas para concorrer em eleições, fazer manifestações de rua e as coisas pelas quais somos presos por conspiração por falar sobre. 

E então repetimos a espiral, com mais encontros, mais festivais, mais ações coletivas e variações sobre o tema. As conexões se estreitam com a arrecadação de fundos, treinamentos e ações de divulgação conjuntas. 

Ninguém está sendo questionado sobre suas crenças básicas fundamentais. É como se dissessem: “aqui estão os folhetos para o evento de sábado – tudo bem?”. Toda aquela sociabilidade sem glamour sobre a qual nunca se escreve, mas que é o que faz o mundo girar. 

Ecologia, por definição, não pode ser abstrata e teórica – trata-se do aqui e agora. Não pode ser apenas um projeto, tem que ser um processo que está realmente acontecendo. 

E assim começam as reuniões mensais, já há a sensação de que um novo grande movimento está prestes a tomar forma, um evento nacional está marcado para outubro. E ninguém está fingindo que é “isso”, ou seja, “nós” e não “você”. 

Debandada

À medida que – e se e quando – esse processo de criação de eventos se conectar a outros projetos de eventos na rede mais ampla, então será uma chance para mais conectividade, uma ecologia cada vez mais próxima de projetos concretos conjuntos. 

E então se internacionaliza. Já é internacional: a ideia de ter datas definidas para eventos globais coordenados em massa — um novo Dia da Terra, mas de baixo para cima e com força. 

Tudo isso está acontecendo porque tem que acontecer. 

Esta parte da ecologia chama-se “Nós Decidimos”. O início de uma jornada começa com um único passo, mas logo se transforma numa debandada. Afinal, a alternativa é o primeiro-ministro Farage e a 2C. Vamos lá! 

Este autor

Roger Hallam é membro fundador da Extinction Rebellion e da Just Stop Oil, além de ativista da Umbrella. Atualmente, ele cumpre pena de cinco anos de prisão por participar de uma chamada online que discutia uma ação climática na M25.


Fonte: The Ecologist

O mundo já está acabando: uma resposta a Elias Jabbour

Mina de carvão perto do distrito de Hailar, China. Imagem: Wikimedia Commons 

Por Eduardo Sá Barreto para “Blog da Boitempo”

Seria mais prudente não escrever um texto como este. Por um lado, caso o texto não tenha tração alguma, terei gastado um tempo precioso reprisando coisas que já disse de maneira mais sistemática em outros lugares. Por outro lado, caso tenha tração, posso ser tragado numa polêmica com um dos intelectuais comunistas mais prestigiados do país na atualidade. A verdade é que, contra meu melhor juízo, senti-me obrigado a responder algumas observações críticas que Elias Jabbour muito cordialmente apresentou a mim, em conversa pessoal, e depois repetiu em sua participação na mesa “Anticolonialismo e marxismo, durante a primeira Festa de Aniversário do Marx no Rio de Janeiro, promovida pela Boitempo em 28 de junho de 2025.

Apesar de Jabbour, em alguma medida, reproduzir objeções que não mereceriam ser revisitadas pela enésima vez, a relevância que ele tem, a importância do evento e a pertinência de parte de suas observações cobram uma manifestação. Dando o benefício da dúvida que o camarada merece, podemos admitir que um tempo de fala que dura entre 5 e 10 minutos não é suficiente para desdobrar de modo satisfatório qualquer tipo de raciocínio compatível com o nível de complexidade dos assuntos sendo ali discutidos. Creio que, havendo mais tempo, Jabbour poderia ter desenvolvido mais adequadamente seus comentários, que acabaram soando irresponsavelmente taxativos e superficiais. De qualquer forma, é o que temos para começar.

Antes de mais nada, é importante reconhecer que uma das críticas feitas por Jabbour deve simplesmente ser acolhida. Realmente, é perturbador (inaceitável mesmo) que numa discussão sobre a questão climática e sobre transição energética a China não seja sequer mencionada. Como o próprio Jabbour evidencia em seu trabalho, a China é um fenômeno de relevância central em boa parte das questões decisivas de nosso tempo. Não é perdoável desconhecer os fundamentos e os traços mais marcantes dessa experiência em curso (embora, convenhamos, em uma fala de 5 a 10 minutos, pouco mais se poderia fazer do que mencioná-la).  

Suponho, pelo teor de sua fala, que ele esperava ouvir algo a respeito dos aspectos virtuosos dessa experiência, no que tange à questão climática e energética. De fato, há coisas que impressionam. Entre 2008 e 2023, a participação da energia solar na matriz energética chinesa saltou de menos de 0,01% para 3,20%.1 Em termos absolutos, essa expansão representa um crescimento alucinante de 352.791%. Outro resultado expressivo é a ampliação da participação da energia eólica de 0,14% em 2008 para 4,85% em 2023, representando um crescimento da oferta primária por essa fonte de 6.152,38%. Ainda olhando para as fontes de baixa intensidade de emissões (em comparação com os combustíveis fósseis), nesse período de 15 anos a China ampliou a oferta primária de energia nuclear em 487,5%, e de energia a partir de hidroelétricas em 78%.  

É seguro afirmar que nenhum país do mundo vem se movendo tão rapidamente quanto a China nesse domínio. Isso certamente é fruto de uma capacidade indiscutivelmente singular que o Estado chinês tem de conceber e levar a cabo políticas públicas orientadas pelo horizonte de uma sociedade ecológica. Também é seguro afirmar que nenhum desses resultados seria viável na ausência dos investimentos massivos que o governo vem fazendo para este fim. Talvez por isso Jabbour tenha sido levado a afirmar que o país vem “enfrentando e vencendo essa batalha pela reversão da crise climática”. Aqui começam nossos desacordos e acabam as boas notícias. 

Em primeiro lugar, a “reversão da crise climática” sequer é algo que está em jogo. Há pelo menos três décadas, o esforço global tem se voltado para a meta de limitar o aquecimento do planeta a 2ºC acima do período-base (equivocadamente chamado de pré-industrial). Na última década, a meta de limitar o aquecimento a 1,5ºC foi muito ventilada, mas mesmo nos Acordos de Paris a meta de fato continua sendo um aquecimento máximo de 2ºC. Todo o debate existente, bem como a elaboração e implementação de políticas climáticas, estão modulados por essa meta. E nela não há nada que remeta à possibilidade de reversão em um prazo previsível. Na verdade, não há nada que remeta nem mesmo à estabilidade das condições climáticas. Um planeta 2ºC mais quente é um planeta consideravelmente mais convulsivo. Segundo relatório mais recente do IPCC, “para qualquer nível de aquecimento futuro, […] os impactos de longo prazo previstos são múltiplas vezes maiores daquilo que é atualmente observado”2. Se todo o esforço em marcha fosse aderente ao que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento a 2ºC (ou a 1,5ºC) — e se, além disso, esse esforço fosse plenamente exitoso —, teríamos interrompido o aquecimento, mas não a multiplicação dos impactos. 

Mas o que, exatamente, a ciência vem dizendo ser necessário fazer?

Suspeito, pela afirmação taxativa do camarada a respeito da “reversão” vitoriosa, que Jabbour estaria tentado a responder que o necessário é ampliar rapidamente a participação de fontes renováveis na matriz energética nacional. De imediato, é preciso ter clareza que “vencer a batalha climática” não é algo que está ao alcance de uma única nação (por mais relevante que ela seja). Mesmo se admitíssemos que o necessário é simplesmente a reconfiguração da matriz energética, a escala em que isso deveria ocorrer para ter relevância é global (ainda que a busca por isso seja nacionalmente determinada). Se apenas um país vencer a batalha, todos perdem a guerra. No entanto, é um equívoco se restringir à matriz energética, que apenas nos informa as participações relativas de cada fonte, não os níveis absolutos em que elas são usadas. Isso nos leva ao segundo ponto. 

O que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento dentro dos limites acordados é o zeramento líquido das emissões oriundas de atividades humanas, o que exige, pelos prazos preconizados, uma descarbonização fulminante. Mesmo se deixarmos momentaneamente de lado o ritmo em que isso deveria acontecer, uma coisa é certa: no plano energético, a direção da mudança é a contração da escala em que consumimos combustíveis fósseis. Ao sairmos do domínio das grandezas relativas para o domínio das grandezas absolutas, a incomparável transição energética chinesa revela determinações que o otimismo de Jabbour não tem como contemplar.

É verdade que entre 2008 e 2023 a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética chinesa caiu de 92,02% para 81,56%. Contudo, também é verdade que, no mesmo período, a oferta primária de energia a partir do carvão cresceu 36%, do petróleo cresceu 106% e do gás natural cresceu 394%. Combinadas as três fontes, a expansão foi de 61,5%. Numa leitura muito generosa, podemos chamar isso de transição energética, mas não de descarbonização.  

É comum aludir a todos os efeitos virtuosos que são viabilizados por essas trajetórias. Fazendo uma rápida colagem de trechos da fala de Jabbour, poderíamos mencionar que nesse caminho a China retirou “800 milhões de pessoas da linha da pobreza”, “entregou independência nacional”, “investiu mais que o dobro do resto do mundo” em energias limpas. Nenhum desses resultados é desprezível ou indesejável. Mas aqui temos uma amostra do preço de obtê-los.

Apenas para reforçar, o preço é: continuar acelerando rumo ao colapso das condições materiais, ecológicas de suporte à vida no planeta e, obviamente, às sociedades humanas. Não há exercício de poder político que possa perseguir emancipação num planeta em vias de se tornar inabitável. Não há exercício de poder político que possa suspender a operação de leis de funcionamento da natureza. Então me desculpe, Elias, mas o raciocínio “minha corrente exerce poder político em vários países, então o mundo não vai acabar, pessoal” é uma falácia grosseira que se explica apenas pela circunstância de um deslize numa fala improvisada. Custo a crer que num contexto mais formal você estaria disposto a afastar com um politicismo tão pobre os riscos de um colapso iminente. 

A pertinência da afirmação de que “é impossível haver uma reconexão do ser humano com a natureza fora da elevação da técnica” é discutível. Porém, mesmo que a admitamos, seria incorreto tratar o “desenvolvimento das forças produtivas” como uma espécie de elevação neutra da nossa capacidade de intervir, que poderia ser mobilizada para o “bem” ou para o “mal”, dependendo de quem exerça o poder político. No mundo em que vivemos, as forças produtivas não são apenas colocadas a serviço da acumulação de capital; elas são paridas pela lógica do capital e só se viabilizam economicamente se proporcionarem, além de maior produtividade, expansão da produção, do giro da produção, do consumo; enfim, das condições mais básicas da acumulação. Ainda que, numa hipótese ousada, supuséssemos que o Partido Comunista Chinês exerce poder político de tal forma que consegue impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas nacionais imunes à racionalidade do capital, pergunta-se: dada a inserção chinesa no mercado mundial, os resultados proporcionados por essas forças produtivas não estarão condenados a satisfazer os mesmos critérios de viabilidade? 

Voltando à linha anterior de raciocínio, chegamos ao terceiro ponto. No trecho anterior, contrapus os resultados chineses e a reivindicação de vitória na batalha climática ao que a ciência vem preconizando como medidas/resultados necessários para evitar o pior. Na realidade, até esse exercício demonstra-se excessivamente otimista, porque supõe que as metas tradicionalmente perseguidas de limitação do aquecimento são exequíveis. No capitalismo, nunca foram. Todavia, mesmo abstraindo do metabolismo ingovernável do capital, se um dia já foram, já não são mais. O limiar de aquecimento de 1,5ºC já vem sendo rompido sistematicamente desde meados de 2023 (em medidas diárias, mensais, anuais e de 12 meses) e não há indicações consistentes que retornaremos para níveis abaixo desse patamar.3 Além disso, já é possível projetar um aquecimento superior a 2ºC para o início dos anos 30.4 Se acrescentarmos a esse entendimento os impactos previsíveis que viriam com tal aquecimento, a conclusão de que o “mundo já está acabando” se apresenta muito mais lúcida e cientificamente embasada do que a garantia motivacional de que o “mundo não vai acabar”.  

Como isso não imporia limites a aspirações diversas de desenvolvimento? É claro que o Brasil não é uma Dinamarca. É claro que há nações em circunstâncias ainda piores que as do Brasil. Evidentemente, é absolutamente defensável a ambição de ascensão material de nações pobres e periféricas. Não seria exagero dizer que tal ascensão é justa e necessária. Daí a consternação de Jabbour com o que ele denomina de “militância contra o desenvolvimento”. Ela de fato existe, ainda que tenha muito menos enraizamento e circulação do que ele dá a entender. Ademais, na medida em que ela existe, Jabbour parece supor que ela é motivada por algum tipo de divergência no plano moral, por concepções éticas que eventualmente colocam a natureza (em abstrato) acima das satisfações de necessidades humanas.  

Em meu juízo, não é esse o caso. Na medida em que há realmente posicionamentos contrários ao assim chamado desenvolvimento econômico, eles são motivados por um entendimento de que não há base material para a universalização desse tipo de processo. Já é um clichê admitirmos que a afluência material de um estadunidense médio não é generalizável. Tornou-se clichê justamente porque é um consenso fácil. Por outro lado, talvez surpreenda que, pela mesma métrica em que se enuncia a afirmação anterior, seria necessário afirmar também que a afluência material de um brasileiro médio tampouco é generalizável. Ao invés de simplesmente apelar para o senso comum, porém, também seria adequado dizer: é perfeitamente possível reconhecer que a elevação da afluência material das periferias do mundo é necessáriajusta e, ao mesmo tempo, biogeofisicamente inviável.

Assim como é o caso da interação entre meio ambiente e a dinâmica das forças produtivas,5 tenho um número já grande de textos publicados que exploram teoricamente a tensão entre desenvolvimento e meio ambiente.6 Em geral, Marx é a principal referência, mas aqui posso inclusive utilizar o trabalho do próprio Jabbour para expor meu ponto principal.  

Em seu best-seller com Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI, é dito, logo no início: “O núcleo central do nosso argumento é que as limitações ao mercado no metamodo de produção não podem ser superadas na atual fase histórica, mas apenas paulatinamente, e no longo prazo”.7 Há motivos para concordar e há motivos para discordar, mas isso não vem ao caso agora. Importante é ter em vista que os autores projetam a transformação substantiva num horizonte de longa duração. Surpreendentemente, na página seguinte, asseveram: “a menos que encontremos um caminho para além do modo de produção atualmente dominante, que ainda é capitalista em nível global, o Antropoceno pode ser o período do fim da humanidade e de muitas outras espécies”.8 Se juntarmos as duas afirmações com os horizontes de tempo veiculados tanto pela ciência quanto pela diplomacia climática nas grandes convenções globais, seremos surpreendidos com o corolário de que “o mundo vai acabar”. Nem precisamos recorrer a material externo, contudo. Os próprios autores nos informam, repetindo a ideia, mas acrescentando a urgência, que “a menos que a humanidade supere urgentemente o saque capitalista dos recursos limitados do planeta, o período do Antropoceno pode marcar o fim da humanidade e de muitas outras espécies”.9 Apesar dessa ironia do destino, isso tampouco vem ao caso agora. Queremos conectar esse entendimento nuclear central com outro entendimento apresentado que é relevante para o tema do desenvolvimento. 

Jabbour é um ardoroso proponente e defensor do desenvolvimento que, insiste ele, transcorre ao longo de um tempo consideravelmente distendido. Suponho que, mesmo concedendo para variantes burguesas do significado de desenvolvimento, o que ele tem no centro de sua defesa é uma concepção de desenvolvimento socialista. Uma caracterização exaustiva do que seria essa concepção não cabe num texto como esse, mas em alguns momentos da obra, Jabbour e Gabriele proporcionam aproximações sintéticas de seu significado. Na página 109, por exemplo, dizem que a “estratégia socialista, tanto quanto a capitalista, deve procurar aumentar progressivamente o tamanho relativo do setor improdutivo [grosso modo: público]. […] Em ambos os modos de produção, a única maneira de permitir o funcionamento das atividades improdutivas é atribuir-lhes financiamento (direta ou indiretamente) através de parte do excedente gerado no setor produtivo [grosso modo: privado, orientado para o lucro]. Portanto, a viabilidade do macrossetor improdutivo depende da transferência de fundos do produtivo e, portanto, está restrita à capacidade de geração de excedentes deste último”.10

Ora, mesmo que não entendamos excedente como mais-valor11, como mais-trabalho objetivado, a conclusão incontornável é que a estratégia de desenvolvimento socialista vislumbrada por Jabbour é estruturalmente dependente daquilo que ele denomina de macrossetor produtivo, que continuaria operando ainda por muito tempo pela lógica da acumulação desmedida12 de excedente. No núcleo dinâmico da estratégia de desenvolvimento preconizada pelos autores, portanto, continua prevalecendo o mesmo tipo de vetor dinâmico que lança a humanidade à destruição suicidária. Em outras palavras, mais simples, numa leitura generosa da noção jabbouriana de desenvolvimento, o desenvolvimento especificamente socialista não escapa do mesmo tipo de inviabilidade ecológica do desenvolvimento capitalista. Admitindo o que dizem Jabbour e seu coautor, haveria mais motivos para argumentar pela inviabilidade do desenvolvimento, não menos.  

O quadro é sem dúvidas desalentador, desesperador. Futuros que consideramos necessários, desejáveis e justos estão sendo concretamente destruídos em ritmo acelerado. Reconhecer isso não implica nenhum tipo de fatalismo niilista, como sugere Jabbour. Ao contrário, o que se depreende do mapeamento intransigentemente sóbrio da situação é a urgência de um processo de ruptura revolucionária, é a erosão completa de qualquer condição de sustentação de perspectivas gradualistas. A implicação é muito impactante mesmo, mas não é exagerada: só a revolução serve e talvez nem ela sirva. Só é possível enxergar niilismo nisso se nos desfizermos de nossas pretensões revolucionárias ou se desconhecermos quase por completo o processo de colapso climático em curso.  

Notas

  1. Todos os dados sobre energia apresentados a seguir estão disponíveis em https://ourworldindata.org/energy-mix ↩︎
  2. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023, p. 15; ênfase adicionada.  ↩︎
  3. HANSEN, J.; KHARECHA, P. 2025 Global Temperature, 2025. Disponível aqui.  ↩︎
  4. HANSEN, J.; KHARECHA, P.; LOEB, N.; SATO, M.; SIMONS, L.; TSELIOUDIS, G.; von SCHUCKMANN, K. How we know that global warming is accelerating and that the goal of the Paris Agreement is dead, 2023. Disponível aqui.  ↩︎
  5. Cf. p.ex. Sá Barreto, O capital na estufa, Rio de Janeiro: Consequência, 2018.  ↩︎
  6. Cf. p.ex. Sá Barreto, Ecologia marxista para pessoas sem tempo, São Paulo: Usina, 2022.  ↩︎
  7. Jabbour; Gabriele, China: o socialismo do século XXI, São Paulo: Boitempo, 2021, p. 31.  ↩︎
  8. Ibidem, p. https://blogdaboitempo.com.br/2025/08/04/o-mundo-ja-esta-acabando/32; grifo meu.  ↩︎
  9. Ibidem, p. 65; grifo meu.  ↩︎
  10. Ibidem, p. 109; grifo meu.  ↩︎
  11. Entendimento que os autores curiosamente rejeitam de maneira insistente. ↩︎
  12. i.e., que não apresenta um limite imanente e que tampouco deveria ser contida, dada a função estratégica que os autores atribuem a ela. ↩︎

***
Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

Fiscalização do Ibama mira desmatamento e ramais ilegais na BR-319 em meio à expectativa por repavimentação

Por Observatório BR-319 

A BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou a ser foco de ações de fiscalização ambiental neste mês de julho. Servidores da Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, intensificaram operações no sul da estrada, especialmente na região da Vila de Realidade, no município de Humaitá (AM), diante do avanço do desmatamento e da abertura ilegal de ramais.

Durante a operação, foram apreendidos um trator usado para abertura de caminhos clandestinos e geradores de energia, além da lavratura de oito autos de infração. A atuação do Ibama também flagrou extração ilegal de madeira, o que, segundo o superintendente Joel Araújo, é o prenúncio de desmatamento em larga escala. “Antes de derrubar, os madeireiros retiram a madeira de maior valor comercial. E há dezenas de serrarias que se abastecem da floresta no entorno da BR-319, agravando o cenário”, alertou.

Segundo Araújo, a intensificação da fiscalização se dá em resposta à perspectiva de repavimentação do trecho do meio da rodovia, o que pode estimular novas invasões e grilagem. “Já atuamos há mais de dez anos na BR, mas agora, com a possibilidade de asfaltamento, é uma nova realidade. A estrada se tornou um vetor ainda mais crítico de pressão sobre a floresta”, disse.

A preocupação não é nova. Em 2023, uma nota técnica do Observatório BR-319 já havia apontado que a malha de ramais em quatro municípios da região — Canutama, Humaitá, Manicoré e Tapauá — era quase seis vezes maior que a extensão da própria BR-319. O documento associou essa expansão a práticas ilegais como grilagem, degradação e desmatamento.

Ramais sem autorização acendem alerta

O crescimento de acessos clandestinos também motivou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) a solicitar ao Ibama medidas urgentes. Em ofício encaminhado em junho, o Dnit informou ter identificado 26 ramais abertos de forma irregular entre os quilômetros 250 e 820 da BR-319, ressaltando o risco à segurança da via e à integridade da infraestrutura rodoviária.

Apesar do alerta, o Ibama-AM informou a dificuldade de agir sem informações mais precisas, como as coordenadas geográficas dos pontos denunciados. O órgão solicitou ao Dnit dados mais específicos para planejar novas etapas da fiscalização.

Plano BR-319: promessas e desconfianças

O site da Folha noticiou neste mês de julho um acordo entre os Ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente e Mudança do Clima em vista de viabilizar as obras na BR-319. Para a secretaria executiva do Observatório BR-319, embora o Plano BR-319 prometa medidas socioambientais rigorosas para evitar o histórico de destruição associado a grandes obras na Amazônia, seria mais prudente que o anúncio viesse acompanhado de ações imediatas, especialmente com a proximidade do verão amazônico, período crítico para o desmatamento e invasões. Em especial devido a maior condição de trafegabilidade na estrada e, assim, de acesso a áreas preservadas.

O Plano BR-319 prevê a contratação de uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) para mapear preocupações socioambientais, com foco em controle do desmatamento, fortalecimento de comunidades locais e regularização fundiária. Uma consultoria independente será responsável por organizar medidas de proteção em uma faixa de 50 quilômetros de cada lado da rodovia, considerada “zona crítica de impacto”, com ações de monitoramento, fiscalização e combate ao desmatamento.

Além disso, o plano contemplaria a proteção de terras indígenas e unidades de conservação, bem como o incentivo a cadeias produtivas locais e práticas agroflorestais, visando um desenvolvimento econômico sustentável. A Infra S.A., ligada ao Ministério dos Transportes, será responsável pela contratação da consultoria, que terá oito meses para elaborar a AAE.

Apesar do otimismo que o anúncio de um plano robusto pode gerar, o Observatório BR-319 tem alertado para os riscos inerentes a qualquer pronunciamento sobre a BR-319. O coletivo ressalta que o simples anúncio de medidas na rodovia costuma levar a um aumento imediato nas expectativas de valorização de terras, impulsionando o desmatamento ilegal, invasões e grilagem, antes mesmo que as ações de proteção sejam efetivamente implementadas.

A preocupação é amplificada pelo momento atual: estamos entrando no verão amazônico, período de menor pluviosidade e, consequentemente, de maior facilidade para práticas ilegais como queimadas e derrubada de floresta. Dados anteriores corroboram essa apreensão. Em 2022, ações de pavimentação do trecho do meio, mesmo sem licenciamento definitivo, coincidiram com um pico alarmante de desmatamento de 2.240 km² na região, representando 18% de toda a perda florestal na Amazônia Legal naquele ano. Embora tenha havido uma queda relativa em 2023, os números permanecem preocupantes.

A decisão recente da Justiça Federal, que restabeleceu a liminar suspendendo a licença prévia para o asfaltamento da BR-319, e que, no bojo do anúncio feito pelos ministérios, foi novamente posta em vigor, reforça a necessidade de cautela. O recurso do Observatório do Clima apontou “inconsistências legais, técnicas e ambientais” no processo de licenciamento, destacando que a concessão da licença prévia já havia desencadeado uma escalada de 122% no desmatamento no entorno da rodovia.

É importante ressaltar que a BR-319 atravessa um mosaico socioambiental complexo, com 19% de terras indígenas, 32,8% de unidades de conservação, assentamentos e áreas com questões fundiárias pendentes. A coordenação entre os ministérios é um passo positivo, mas a efetividade do plano dependerá da sua ágil implementação e da capacidade de coibir as atividades ilegais que historicamente acompanham o anúncio de obras na Amazônia.

E para além dos anúncios sobre o Plano BR-319 e suas consequências imediatas, outro ponto de preocupação foi a aprovação do Projeto de Lei 2.159/2021, o PL da devastação, que ressignificará e fragilizará os processos de licenciamento ambiental, afetando diretamente o processo atual da BR-319, assim como o direito das populações indígenas e tradicionais.  

Assim, o desafio dos ministérios será demonstrar que este acordo gerará a materialidade da governança no território, ainda que sob a nuvem ameaçadora desta nova regulamentação da nova lei geral de licenciamento.

Entre anúncios e retrocessos

O avanço do Plano BR-319 também coincide com a aprovação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 2.159/2021, apelidado por ambientalistas de “PL da Devastação”. A nova lei muda as regras do licenciamento ambiental no país, enfraquecendo exigências e ameaçando direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.


Fonte: Observatório BR-319

Inflação dos alimentos é muito mais drástica do que o aumento geral dos preços

Muitas rendas em países de baixa renda não acompanharam o forte aumento nos preços globais dos alimentos.

Em países de baixa renda, salários não acompanharam o forte aumento nos preços globais dos alimentos. Foto: afp/LUIS ROBAYO 
Por Hermannus Pfeiffer para o “Neues Deutschland”

Os alimentos estão se tornando cada vez mais caros . E não apenas na Alemanha. O aumento contínuo dos preços globais dos alimentos está tendo impactos profundos na nutrição e na segurança alimentar, especialmente em países de baixa renda. As famílias no Sul global gastam uma parcela muito maior de sua renda com alimentos do que as famílias neste país, por exemplo. Portanto, a inflação está afetando-as de forma particularmente dura, de acordo com o Relatório Mundial sobre Alimentos, publicado em Roma no início desta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O novo relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutricional” (SOFI) concentra-se nos aumentos de preços nos últimos anos. Desde 2020, a inflação dos alimentos tem superado consistentemente a inflação geral. A FAO atribui isso à maior volatilidade nos mercados agrícolas e à pressão contínua sobre os mercados agrícolas e alimentares causada por guerras e desastres naturais.

Em cinco anos, os preços dos alimentos em todo o mundo aumentaram mais de 35%, enquanto os preços médios aumentaram apenas 25%.

Em janeiro de 2023, a inflação dos alimentos atingiu seu nível mais alto até então, 13,6%, superando a inflação geral em 5,1 pontos percentuais. Embora ambos os indicadores tenham começado a cair em meados de 2023, permaneceram elevados. Somente em 2024 a taxa de inflação dos alimentos retornou aos níveis pré-pandêmicos, de 2% a 3% ao ano. No entanto, os efeitos permanecem persistentes: em cinco anos, os preços globais dos alimentos subiram mais de 35%, enquanto os preços médios aumentaram apenas 25%. Muitas rendas em países de baixa renda não conseguiram acompanhar a inflação.

Além dos preços, é a disponibilidade local de alimentos que causa a fome. Apesar do crescimento populacional global, a proporção de pessoas subnutridas caiu de 12% para 7,5% em duas décadas (era mais de 35% na década de 1960), mas a pandemia do coronavírus interrompeu essa tendência positiva. Essa tendência agora parece ter desacelerado, mas continua. Após subir para 9,3%, a proporção daqueles que passam pelo menos um pouco de fome caiu em 2022 e 2023, e também no ano passado: a FAO estima a proporção em prováveis 8,2%.

O relatório de 234 páginas da FAO demonstra, em letras miúdas, que é necessário um certo grau de cautela na interpretação dos números e dados. Estima-se, de forma bastante vaga, que o número de pessoas que passarão fome em 2024 seja de “638 a 720 milhões” (7,8 a 8,8% da população mundial). Além disso, segundo a FAO, mais de dois bilhões de pessoas não tinham acesso regular a alimentos suficientes.

Iniciativas como a Action Contre la Faim temem que os números possam disparar novamente este ano, ameaçando uma nova crise humanitária. Grandes países doadores, como EUA, Alemanha e França, cortaram drasticamente seus orçamentos para ajuda internacional. E enquanto a situação nos países asiáticos está melhorando, a fome está piorando em regiões em conflito, como o Oriente Médio e a África. Cerca de metade de todas as pessoas com fome vivem na África. Uma em cada cinco pessoas lá é considerada desnutrida. Em muitos países, três formas de desnutrição ocorrem simultaneamente: além da desnutrição, há obesidade e deficiências de micronutrientes. A distribuição “injusta” de alimentos é, portanto, também um problema regional e global.

Há previsões cautelosamente otimistas para o futuro. A Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicaram recentemente um relatório sobre o futuro dos mercados agrícolas. Segundo o relatório, a produção global de calorias provenientes de carne e peixe aumentará 6% até 2034. Isso se deve principalmente ao aumento do consumo de carne em países de renda média. A produção global de todos os produtos agrícolas aumentará 14% no mesmo período. Isso se deve aos ganhos de eficiência na produção em países emergentes.

Ganhos de produtividade tendem a levar à redução dos preços dos produtos agrícolas. Mas isso também tem uma desvantagem: os pequenos agricultores, em particular, sofrem com a pressão de preços associada. Eles estão mais expostos à volatilidade dos preços de mercado e não têm capital para financiar investimentos que poderiam aumentar a produção.

O Instituto Potsdam de Pesquisa Climática aponta para outro aspecto: os bilhões de dólares em “custos ocultos”. Os custos vão desde a alimentação pouco saudável de muitas pessoas até os danos ambientais causados pela agricultura, por exemplo, pela contaminação química do solo.

Economistas da Universidade de Melbourne também apontam para o “estresse hídrico”. Em importantes regiões agrícolas, do sudoeste dos Estados Unidos à Índia, Rússia e China, grandes áreas já são irrigadas artificialmente. Mais de dois terços do consumo global de água são atribuídos à irrigação agrícola. Devido à crescente escassez de água, dependendo do cenário, poderá ser produzida uma quantidade significativamente menor de alimentos em 2050 do que hoje. Ao mesmo tempo, espera-se que a população global cresça significativamente.


Fonte: Neues Deutschland