No oeste do Texas, mudanças climáticas colocam em xeque o negacionismo climático de Donald Trump

Se existe um estado nos EUA em que o negacionismo climático é muito forte é o Texas e é justamente na sua porção oeste que surge uma mensagem forte e clara de que vivenciamos algo próximo de um colapso do que nos acostumamos a vivenciar em termos de eventos meteorológicos.  É que após chuvas particularmente intensas, um dos rios que cruza a porção oeste do território texano, o Guadalupe, saiu do seu leito causando inundações devastadoras. O saldo de mortos até agora é de 24, mas há a chance clara de que esse número aumente rapidamente nas próximas horas, visto que em só em um acampamento de jovens existem 25 desaparecidos.

Esse acontecimento e suas consequências parecem dignos de um país de terceiro mundo, na medida em que a rápida elevação do Rio Guadalupe aconteceu de noite enquanto muitas pessoas dormiam. Além disso, não foram acionados alarmes para avisar das inundações que iriam inevitavelmente acontecer,  o que aumentou o número de mortos e feridos.

A inundação do Rio Guadalupe deixou árvores caídas e detritos em seu rastro, em Kerrville, Texas, na sexta-feira.

A inundação do Rio Guadalupe deixou árvores caídas e detritos em seu rastro, em Kerrville, Texas, na sexta-feira. Eric Gay/AP

É preciso que se diga que as consequências devastadoras desse evento meteorológico extremo e a clara falta de preparação para antecipar suas consequências encontram explicação no que está fazendo não apenas o governo estadual do Texas comandado por um cético climático, o republicano Greg Abbott, que tem agido para desestimular respostas para as mudanças climáticas em prol dos interesses da interesse de petróleo, mas principalmente o governo federal comandado por Donald Trump.  Trump não apenas nega a existência das mudanças climáticas, mas como também tem agido em seu segundo mandato para desmantelar as agências governamentais que pesquisam o fenômeno, além de ter ordenado a retirada de páginas oficiais que abordavam o problema.

No caso das agências, uma das mais atingidas foi a Administração Ocêanica e Atmosférica Nacional (NOAA) que sofreu sofreu cortes significativos em seu orçamento e equipe, impactando sua capacidade de conduzir pesquisas, monitorar mudanças climáticas e fornecer previsões meteorológicas cruciais. Outra agência federal que foi muito impactada foi justamente a  Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA),  responsável a grandes desastres climáticos, que também demitiu cerca de 1.000 funcionários,  o que certamente afetará a sua capacidade de resposta em eventos extremos como o que acaba de acontecer no Texas.

Mas essa tragédia texana acontece justamente em meio à aprovação de um orçamento federal que deverá encurtar ainda mais o orçamento das agências ambientais, além de manter os subsídios para indústrias poluidoras. Essa combinação deverá resultar em um quadro em que as condições de agravamento da crise climática pelo aumento de gases de efeito estufa irá se encontrar com uma estrutura governamental incapaz de responder a eventos meteorológicos extremos. Se chegou até aqui e pensou que os EUA estão muito parecidos com países da periferia capitalista em termos de resposta ao colapso climático, você está mais do que correto. E que ninguém se surpreenda se lá, como aqui, os governantes surgirem no meio do caos usando os coletes da Defesa Civil. É que esse fetiche dos coletes não parece conhecer fronteiras, nem vergonha na cara.

A questão para os habitantes do planeta, estadunidenses ou não, é que o negacionismo climático de governos controlados por grandes poluidores, como as petroleiras, tem um custo alto e que não irá parar de aumentar com o avanço da crise climática e suas manifestações extremas.  Por isso, mais do que qualquer outro momento na história do Capitalismo, a questão climática não poderá ser deixada apenas nas mãos dos governos.

A face de gênero e classe da crise climática: chuvas extremas afetam mais as mulheres pobres

chuva no EquadorSegundo a ONU, entre 2000 e 2022, as inundações foram o desastre natural mais comum na América Latina, afetando 49 milhões de pessoas e causando US$ 28 bilhões em danos. Crédito da imagem: Presidência do Equador/Flickr . Imagem de domínio público.

O estudo, publicado no Journal of Disaster Risk Reduction, combinou dados de pesquisas domiciliares do Equador entre 2007 e 2019 com informações meteorológicas e características geográficas, como suscetibilidade a inundações, secas e deslizamentos de terra. Utilizando modelos, examinou como esses eventos influenciam a distância da população em relação à linha de pobreza.

Entre suas conclusões, observou que a crise de chuvas, tanto em excesso quanto na seca, faz com que famílias pobres e de baixa renda sofram consequências ainda mais graves por viverem em áreas altamente suscetíveis.

Nesses locais, a exposição a riscos ambientais se cruza com a vulnerabilidade econômica devido à escassez de recursos para se adaptar às mudanças climáticas . Isso leva, por exemplo, à destruição de casas por deslizamentos de terra ou lama resultantes de inundações, ou a grandes cortes de energia durante ondas de calor e secas.

A pesquisa descobriu que as interrupções nas chuvas reduzem a renda familiar em 3% na área urbana em geral, e caem até 26% em bairros vulneráveis.

“Dentro deste grupo, aqueles que vivem em assentamentos informais são os mais afetados. E as mulheres ainda mais”, disse Cristhina Llerena Pinto, econometrista e professora da Universidade Central do Equador e uma das autoras do estudo, ao SciDev.Net .

De fato, o estudo descreve o impacto sobre as mulheres como “desproporcional”. Elas estão super-representadas no mercado de trabalho informal, arcam com o peso das tarefas de cuidado, têm rendas mais baixas e instáveis ​​e têm dificuldade para poupar, acessar crédito, obter qualificação profissional e estudar, o que, segundo o estudo, restringe a mobilidade social ascendente.

Contatada pelo SciDev.Net , María Carla Rodríguez, socióloga especializada em planejamento urbano e habitat, pesquisadora do Instituto Gino Germani e professora da Universidade de Buenos Aires, descreveu o estudo como “sólido e consistente”. Ela afirmou que “os bairros pobres sofrem maiores danos” devido aos “efeitos destrutivos dos desastres naturais ” e enfatizou que a desigualdade de gênero na economia informal é ainda mais acentuada.

No caso equatoriano, o Banco Mundial estima que as inundações pluviais custam ao país US$ 33,4 milhões por ano e que 20% da população está exposta ao risco de inundações.

Em 2023, o Equador sofreu a seca mais severa em 50 anos, que afetou o fornecimento de eletricidade devido a uma combinação de escassez de água para gerar energia hidrelétrica e aumento da demanda devido às altas temperaturas.

Embora o estudo tenha tomado o Equador como referência, os autores sugerem que os resultados podem ser extrapolados para outras cidades latino-americanas, especialmente as regiões andinas e costeiras.

Segundo a ONU, entre 2000 e 2022, as enchentes foram o desastre natural mais comum na região, afetando 49 milhões de pessoas e causando US$ 28 bilhões em danos; enquanto as secas afetaram mais de 53 milhões de pessoas e causaram US$ 22 bilhões.

Adaptação e resiliência

Para Llerena Pinto, é fundamental elaborar estratégias de adaptação de longo prazo para populações empobrecidas, com foco nas mulheres. Ela observou que a região poderia adotar medidas conjuntas para ajudar a população, pois “embora cada país tenha suas próprias características específicas, eles enfrentam o impacto das mudanças climáticas com mais frequência”.

Ele afirmou que áreas com risco de desastres naturais devem ser estudadas minuciosamente, e projetos específicos devem ser elaborados em bairros informais, como correção de declives para evitar deslizamentos, barreiras de contenção para evitar inundações, infraestrutura para melhorar o planejamento urbano, expansão da rede de transporte e melhorias na conectividade urbana.

No entanto, ele esclareceu que em alguns distritos de risco extremamente alto, as autoridades devem trabalhar com a população para realocá-la em áreas mais seguras.

Nesse ponto, Rodríguez se diferenciou e sugeriu incorporar uma abordagem comunitária e socioorganizacional às possíveis soluções, cuja participação ele considerou essencial após um evento climático extremo “para a sobrevivência e a recuperação”.

Precisamos oferecer treinamento que ajude as mulheres a ingressar no mercado de trabalho formal. Isso permitirá que elas tenham acesso a uma renda estável e se tornem mais resilientes.

Cristhina Llerena Pinto, econometrista, professora da Universidade Central do Equador

Em vez disso, ele pediu “mudanças no horizonte estratégico de como a distribuição das atividades econômicas da população, a relação com a natureza e o modelo produtivo são reorganizados”.

“Devemos oferecer capacitação que ajude as mulheres a ingressar no mercado de trabalho formal. Isso permitirá que elas tenham acesso a uma renda estável e sejam mais resilientes” aos desastres climáticos, disse Llerena Pinto. Ela também sugeriu que haja capacitação técnica em profissões exigidas pelo mercado e maior acesso à educação de qualidade .

Por fim, ele afirmou que uma alternativa de curto prazo seria pagar bônus emergenciais às populações vulneráveis ​​em áreas de alto risco, antes ou imediatamente após o choque, para que pudessem acessar rapidamente recursos que lhes permitissem adaptar suas casas e evitar que enfrentassem consequências tão graves no futuro. No entanto, ele esclareceu que esta não é uma solução permanente, mas sim “uma assistência temporária para evitar que afundem ainda mais na pobreza”.


Fonte:  SciDev.Net

Chuvas RS 2025: quem será o Caramelo da vez?

Nas chuvas de 2024, o cavalo Caramelo simbolizou a resistência contra as chuvas devastadoras que se abateram sobre o estado do Rio Grande do Sul

Por João Anschau*

A saudosa professora Iracema foi um ser que surgiu em minha vida sem pedir licença para ficar. Ocupou a janela, mesmo tendo chegado atrasada na lista dos notáveis influenciadores que estava sendo construída no meu imaginário. Nem por isso teve sua importância diminuída. Era dura, mas nunca perdeu a ternura pela escolha de um ofício, na época mais valorizado e respeitado, e mantinha o mesmo sentimento com seus rebentos adotados. Certa vez, numa prova de matemática – minha matéria favorita na época – me deu zero. Algo “improvável” de acontecer, mas o poder da caneta era dela. Recebi a avaliação, voltei para minha mesa e conferi uma por uma das questões. Todas estavam certas. Retornei e disse para ela que havia um erro. Ela concordou. 

– Mas a falha foi sua professora, retruquei. 

– O que diz o enunciado? 

– Desenvolva as questões. 

– O que você fez? 

– Resolvi as questões e as respostas estão corretas. 

– Você às resolveu diretamente, sem detalhá-las. 

– Mas a senhora sabe que eu sei. 

– Eu te conheço, mas se outra professora tivesse aplicado a prova, ela poderia concluir que você copiou as respostas de um coleguinha.

– Mas eu não colei. 

– Mas também não elaborou.

Com as paredes vertendo água internamente, devido ao excesso de umidade, acompanho o noticiário oficial da tragédia chuvosa que mais uma vez atinge centenas de municípios gaúchos. E entre um e outro boletim, aparentando um “Não vale a pena ver de novo”, reprise de 2023/24, um repórter quase comemora o fato de não termos ainda atingido os mesmos níveis de chuvas de maio do ano passado. Você não leu errado. Informa assim: “comemorando.”

Quem mora no extremo sul do Brasil sabe que o ocorrido por aqui há mais de um ano foi tratado com irresponsabilidade por quem deveria “informar e mediar o debate” acerca das volumosas chuvas. Sonho meu. Reconheço. O básico, causas e consequências, não estava na pauta. Campanhas publicitárias ufanistas — até filme idealizado pela Secretaria de Comunicação do governo gaúcho foi lançado, no qual se enaltecia o nosso ‘novo Bento Gonçalves Leite’ — brotaram em todos os cantos do Rio Grande do Sul (RS). Era um tal de força dos gaúchos pra cá, pra cima deles pra lá, que, de tanto floreio, dava pra desconfiar dos rumos que tomava a discussão a respeito de crises climáticas provocadas pelos mesmos de sempre. Romantização e normalização do absurdo foram a tônica sem gás. A mídia hegemônica que tem lado – o do lucro, e dane-se a nossa vivência harmoniosa (catástrofes também enchem os cofres dos patrões) – parecia ter apenas um objetivo: criar novos ‘heróis’ conhecidos, ou nem tão anônimos assim. Agora está em busca de um novo “Caramelo” para chamar de seu. E as vidas ceifadas? E as vidas ceifadas? Os capitalistas guascas colocam na rubrica ‘danos necessários’ e (serão) cobertos pelo erário mais adiante.

O mundo de Cristina e a lei de Murphy… “Parece mentira que estamos passando por isso novamente”. Essa frase foi disparada pela apresentadora do telejornal mais visto no RS. Não foi uma estagiária fazendo um programa experimental, no qual até se admitem erros pontuais que não prejudiquem o produto final. E acreditem, a jornalista não corou. Foi na cara dura mesmo. Abro agora a seção “erraram”.  Dona Cristina, o hoje foi previsto ontem por quem nos avisa há muito. Pesquisadoras e pesquisadores não fazem exercícios de futurologia lendo a borra do café. A ciência usa métodos racionais e nos apresenta cenários. São pessoas que, mesmo atacadas e tratadas como delinquentes, continuam a executar a tarefa de iluminar a estupidez humana — de nada adianta ter, como bem lembrou Jorge Furtado em “Ilha das Flores”, o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, se a desigualdade continuar a ser a nossa maior “virtude”. Não há problema com a sua memória que, evidentemente, é seletiva e atende a interesses distintos da sua audiência. E acredito que pela sua idade não deve haver um diagnóstico de Alzheimer que possa justificar seu esquecimento. A senhora representa sem questionamentos os fiadores e patrocinadores da destruição do bem comum.

Em abril deste ano, o cais do porto, um dos espaços mais atingidos, em Porto Alegre, pelas águas em 2024, foi palco de um evento que discutiu empreendedorismo e inovação. O South Summit Brazil 2025 foi uma festa,  literalmente. Um carnaval sem malemolência fora de época. Nem parecia que naquela área, há alguns meses, a natureza mandava recados, incompreendidos por quem decide e aparenta ter problemas cognitivos, auditivos e visuais. Tudo o que era mostrado agora tinha glamour, respirava um ar de normalidade e tentava dar contornos de superação, alegria e novas oportunidades. Durante vários dias, em quase todos os espaços de jornalismo/entretenimento, éramos inundados — não é um trocadilho — com notícias incessantes a respeito da celebração — numa análise mais cuidadosa, aqueles informes pareciam peças criadas por relações públicas e marqueteiros do patrocinador maior, o Governo gaúcho. O meio ambiente, e sua composição cada dia mais apagada, inexistia para os olhos ligados de pessoas descoladas do mundo de verdade, aquele no qual inundações mataram, desalojaram e apagaram histórias. 

E o gerente governador Eduardo Leite — mesmo sem o uso do colete laranja vibrante, sempre alinhado, limpinho e bem passado — concedeu entrevista à sua rede particular de comunicação – leia-se concessão pública de TV e rádio. Entre as platitudes proferidas, Edú disse que em um ano não se resolve tudo. Invejem, Brasil, nosso “Nostradamus” de boutique. Temos um genuíno visionário e difusor de sentenças dignas de crianças em processo inicial de alfabetização. Um luxo no meio do lixo acumulado nas casas dos desafortunados de plantão. Fiquei de butuca aguardando que o gestor Leite anunciasse uma nova e “profícua” viagem, juntamente com o prefeito do chapéu de palha, Sebastião Melo, para a Holanda e aprender com o primeiro mundo como se faz. Concluo, depois de doses de “sabedoria” governamental, que a experiência acumulada por pesquisadores e especialistas gaúchos no tema não produz diárias e fotos para o próximo álbum — 2026 logo ali na frente — de estadista gourmet. A ciência gaudéria não fala holandês e se convidada a sentar-se à mesa, pode azedar o leite. Por isso, continuam as apostas em soluções mágicas, paliativas e totalmente distantes das reais necessidades que o momento exige. 

Na quarta-feira, dia 18, início da tarde, durante o retorno da cidade de Ijuí, noroeste do RS, tive a companhia, em aproximadamente 40 kms, de muita chuva. Água na pista, misturada com terra, era normal. Lavouras encharcadas, idem. Curvas de nível praticamente inexistem, pois ‘diminuem’ a área produtiva, e o solo que lute. E no meio dessa lama — literal e política — eis que surgem os produtores do PIB, pedindo renegociação. Apoio. Desde que os beneficiários estejam no grupo daqueles que realmente foram severamente atingidos pelas águas e que não possuem condições de continuar. É importante lembrar que o chamado agronegócio recebe uma generosa fatia de incentivos fiscais patrocinados por mim e por você. Estima-se que 85% das benesses direcionadas para o agro estão concentradas em grandes produtores de commodities (soja, milho, gado). E o que recebemos em troca? Na água e nos alimentos um combo de venenos e outros insumos zero saudáveis que são utilizados para acelerar processos e atender a sanha produtiva predatória agroalimentar. Resulta que o Brasil é um grande produtor de alimentos cancerígenos, cujos tratamentos, em sua maioria, são custeados pelo SUS. Sem magoá-los, vou me apropriar de uma definição dos especialistas do segmento nada pop: abre-se uma janela de oportunidade para que seja revisto — só que não vai rolar — esse modelo nocivo de praticar agricultura. Registro que a securitização não é para a senhora e para o senhor que plantam comida de verdade e têm uma relação harmoniosa com a natureza.

E o Barão de Itararé se apresenta e reforça a sempre atual frase: “De onde menos se espera é que não sai nada”. Se o Rio Grande do Sul foi em 2024 um laboratório de como não desenvolver ambientalmente, o mínimo que se espera da representação política eleita democraticamente é que revejam suas posições, mesmo para aqueles que estão no Congresso apenas e tão somente para representar os interesses de seus financiadores privados. Esse seria, no meu mundo ingênuo, o melhor dos mundos. Se a legislação ambiental já sofria ataques anteriores, agora conseguiram a façanha de abrir toda a porteira e aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Enquanto isso acontecia, o RS perdia mais um tanto de sua cobertura vegetal de Áreas de Proteção Permanente. Ah, mas o que isso tem a ver com as enchentes sulistas? Tudo e mais um pouco. E já que o pudor foi deixado do lado de fora da porta da casa de tolerância legislativa, humildemente sugiro — também por respeito a elas, tratadas a machadadas — que retirem dos calendários a data alusiva ao dia da árvore. Não é apenas incoerente manter o 21 de setembro, plantar algumas espécies, sacar algumas selfies e no outro dia fingir que a cidade passou do verde para o cinza do concreto. Até a máfia tem regras de convívio que devem ser respeitadas, portanto, não adianta a bancada da destruição ambiental cobrir sua cara de surpresa quando a água cobra a conta.

Escrevo essa provocação durante a semana de Corpus Christi. Milhares não estarão com os seus para dividir o pão e o vinho porque mais uma vez foram expulsos de suas casas pelo recado duro das águas. Não é mais aceitável tratar isso como novo normal e aguardar, daqui a 12 meses, outros registros do mais do mesmo. Tampouco é recomendável aguardar as eleições de 2026 para ver quem vai puxar a capivara da destruição e exibir seus feitos nada cristãos. Se ainda existe resistência e resiliência, urge que se apresentem e guiem. O contraponto não é apenas uma questão de retórica. É fundamental apontar o nome, sobrenome e endereço dos responsáveis pela necropolítica guasca, financiada por aqueles que dizem não guentar mais “pagar” tantos impostos, mas nadam em isenções fiscais pecaminosas. Não é um convite à revolução. É algo mais simples: é a busca da salvação coletiva. Para isso, precisamos gravar na lista dos compromissos diários que reconstrução não é sinônimo de estradas. 

Ah, detalhe importante: diferente do que disse uma senhora, que ao mostrar-se conformada por ter sido desalojada outra vez, cravou que ‘Deus está no controle’, há controvérsias. Primeiro: não tenho procuração para representá-lo, mas contudo já adianto que Ele nos entregou o planeta alinhadinho, bastando efetuar manutenções pontuais e seguir. Segundo: Ele é filho de carpinteiro, mas não cursou engenharia. Terceiro: atrevo-me a revelar — e não é uma heresia, apenas análise de seu comportamento — que Ele não volta mais. A desistência tem relação direta com a falta de interpretação textual e comportamental do que Ele pregava. Portanto, incluam Ele fora dessa bagunça. E mais: Ele também não disse para contribuir com o dízimo e sustentar os agiotas da fé.

As respostas continuam insatisfatórias, incompletas. O poder público é omisso e mostra-se incapaz de ouvir especialistas. O barulho do colapso sugere não incomodar, e a escora dos anúncios de recursos e vazios de planejamento dá indícios de apodrecimento. Para além dos extremos climáticos, o que continua a avançar é a agenda do capital, esta que nunca é chamada às falas e, onipresente, escreve, interpreta e sentencia o nosso amanhã. A ampulheta do ‘se continuar assim, vai dar nada bom’ corre lentamente e segue o seu rito. E nós, convencidos de que é assim que a roda gira, assistimos e esperamos um milagre de um Deus que já deixou claro que não é signatário da teoria da prosperidade destrutiva. E não será surpresa se em breve as bets — outra praga normalizada e legalizada — entrarem no cassino da morte e faturarem ainda mais, literalmente em cima de mais um desastre que atinge certeiramente os carregadores da base.

Vivemos uma quadra histórica na qual a estupidez humana é premiada. Grosseiramente comparando, é como se alertássemos uma criança a não pôr um objeto de metal em uma tomada elétrica. Que aquilo pode dar ruim. Ao invés da segurança, da proteção, o que temos é o estímulo a fazer errado e o errado é saudado como necessário para “desenvolver”. Nossas “crianças” grandes, bem nutridas e com polpudos orçamentos publicitários, são tratadas como empreendedores… — e faço o complemento — do caos. Vivemos tempos de carestia e não faço referência aos preços dos alimentos. O meu alvo é outro: a escassez da razão. Não sei se haverá tempo, mas os sinais estão aí para quem é crente ou ateu. Contemplar, refletir, exigir e cobrar de quem sempre ganha à custa do nosso sofrer é mais do que urgente. Professora Iracema, ah como a senhora faz falta, pois necessitamos de mais pessoas que exijam o desenvolvimento aprofundado do enunciado e não queiram, de forma apressada, resolver tudo na base do “eu sei e ponto”, ignorando processos, terceirizando responsabilidades e culpando os atingidos, como se eles pudessem fazer escolhas. Mestra, a senhora tinha razão: precisamos da conta completa, sem atalhos.


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

Brasil leiloa blocos de petróleo na Amazônia sem consulta às comunidades locais e ignora crise climática, denunciam organizações e lideranças

Da Amazônia à conferência do clima de Bonn, sociedade civil, povos indígenas e de comunidades tradicionais protestam contra o mega leilão de petróleo e gás

Lideranças indígenas protestam em frente ao Campo do Azulão, Silves, Amazônia / c: APIRA 

Fotografias de protestos na Amazônia e na Alemanha Créditos nos nomes das pastas

17 de junho de 2025, GLOBAL — Enquanto alega liderança na agenda climática internacional na conferência do clima pré-COP30 em Bonn, na Alemanha, o governo brasileiro, por meio da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), realizou o 5º Ciclo da Oferta Permanente de Concessões nesta terça-feira – um “mega leilão” de petróleo e gás de 172 blocos, incluindo 68 na Amazônia brasileira. O processo ocorreu sem qualquer consulta ou consentimento prévio, livre e informado das comunidades indígenas e tradicionaisda região, violando diretamente a Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário.

No leilão, dos 47 blocos ofertados na Bacia da Foz do Amazonas, uma das áreas ambientalmente mais sensíveis do planeta, 19 foram concedidos para exploração de petróleo e gás. Foram leiloados 16.312 km² de áreas marinhas na Amazônia, distribuídos em quatro setores. Chevron e CNPC arremataram nove blocos, enquanto ExxonMobil e Petrobras ficaram com dez blocos, aprofundando a ofensiva das petroleiras sobre o bioma amazônico.

Esses blocos foram arrematados sem a realização de Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS). Embora não seja condicionante, a ausência da avaliação foi apontada inúmeras vezes pelo IBAMA e o Ministério do Meio Ambiente como fator dificultador do licenciamento na região. O mapeamento detalhado de uma AAAS facilitaria tanto o trabalho do órgão ambiental como o do planejamento energético, já que apontaria áreas onde a atividade petrolífera deve ser evitada devido à sensibilidade ambiental.

O leilão também descumpriu as recomendações do Ministério Público Federal (MPF), que há poucos dias entrou com uma liminar para suspender a oferta dos blocos, apontando graves falhas no processo, como ausência de estudos prévios adequados, consulta e risco de danos socioambientais irreversíveis. Além de desrespeitar os direitos dos povos e especialistas e ir na contramão do acordo global para transição dos combustíveis fósseiso governo ignora os alertas da comunidade científica mundial, que é clara: não há espaço para novos projetos de combustíveis fósseis se quisermos evitar o colapso climático.

A decisão compromete a credibilidade do governo brasileiro, que nas arenas internacionais defende compromissos climáticos, mas segue expandindo a fronteira fóssil internamente, inclusive na Amazônia, região que abrigará a conferência climática mais importante do mundo este ano, a COP30. Povos originários, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil defendem que a transição energética justa deve priorizar áreas altamente biodiversas e sensíveis, como a Amazônia, e ser construída com um plano claro, que não dependa da expansão de petróleo e gás nem do financiamento de combustíveis fósseis.
 

Representantes da sociedade civil e lideranças ofereceram os seguintes comentários:

Cacique Jonas Mura, Silves, Amazonas:

“Se o grande criador deixou esse óleo com o gás nas profundezas, distante do nosso alcance, é porque não é coisa boa, é coisa que só traz destruição, poluição, pobreza, ganância, doenças e discórdias. Trazer essa massa podre e poluente das profundezas é trazer tudo que é ruim para os nossos territórios. Amazônia livre de petróleo e gás!

Gisela Hurtado, coordenadora de campanha pela Amazônia na Stand.earth:

“Neste momento em que o mundo se reúne em Bonn para avançar soluções climáticas e se prepara para a primeira COP na Amazônia, o governo brasileiro está leiloando a Amazônia para a indústria de combustíveis fósseis. Esse “Leilão da Morte” ameaça não apenas os territórios indígenas, mas o próprio sistema climático global. Ele desafia os princípios do Acordo de Paris e a ambição da COP30. Estamos aqui para dizer: não há justiça climática sem direitos indígenas, não há transição justa sem manter os combustíveis fósseis no solo e não há futuro sustentável se a Amazônia se tornar uma zona de sacrifício. O mundo deve exigir coerência — as palavras na COP devem corresponder às ações em casa.”

Ilan Zugman, diretor para a América Latina e o Caribe na 350.org:

“O tempo dirá se o Brasil terá coragem política para alinhar discurso e prática e deixar um legado verdadeiro de liderança climática – Este leilão, no ano em que o Brasil sedia a COP30, marca um momento crítico em que o governo escancara as portas para a indústria fóssil em um dos biomas mais sensíveis do planeta. São 19 blocos sem consulta prévia às comunidades indígenas e tradicionais, violando direitos constitucionais e internacionais. Essa decisão contradiz as promessas de proteção ambiental feitas por um governo eleito com essa bandeira, e fragiliza a credibilidade do país no cenário global. Em vez de liderar uma transição energética justa, baseada no imenso potencial renovável do Brasil, o governo aposta num modelo fóssil ultrapassado que compromete o futuro, bloqueia o desenvolvimento sustentável e repete erros do passado.

Carolina Marçal, coordenadora de projetos do Instituto ClimaInfo:
“Ao mesmo tempo em que cobra ação efetiva dos países ricos na transição energética, o Brasil deu hoje um péssimo sinal para quem se preocupa com a vida e o futuro nesse planeta. Ao leiloar 19 blocos na Foz do Amazonas, uma área ambientalmente sensível e crítica para o clima global, o país joga mais lenha na fogueira da crise climática. Não será com palavras bonitas e acordos vazios que iremos salvar o mundo do cataclisma de eventos extremos cada vez mais intensos. O Brasil tem tudo para liderar a transição justa e o petróleo certamente não faz parte do futuro em um mundo em chamas.

Mauricio Guetta, Diretor de Direito e Políticas Públicas da Avaaz:

“Com o mundo próximo de atingir 1.5 graus Celsius de aquecimento, a decisão de leiloar dezenas de blocos de petróleo em áreas essenciais para o equilíbrio ecológico e climático mundial coloca o Brasil na contramão dos esforços globais contra a emergência climática, minando sua liderança na COP 30. Os danos ao clima, à biodiversidade e aos povos indígenas e comunidades tradicionais serão irreversíveis.”

A crise dos oceanos exige um novo tipo de ciência

A comunidade científica global deve fazer sua voz ser ouvida e moldar respostas à crise dos oceanos, escrevem cientistas do Grupo de Especialistas Oceânicos do Conselho Internacional de Ciências

Um mergulhador examinando a vida submarina. Os oceanos do mundo estão sofrendo com a sobrepesca, o aquecimento global, a poluição, a acidificação, a desoxigenação e eventos climáticos extremos — tudo acontecendo ao mesmo tempo e, muitas vezes, interagindo. Imagem de Franziska Stier do Pixabay

Um mergulhador examinando a vida submarina. Os oceanos do mundo estão sofrendo com a sobrepesca, o aquecimento global, a poluição, a acidificação, a desoxigenação e eventos climáticos extremos — tudo acontecendo ao mesmo tempo e, muitas vezes, interagindo. Copyright: Franziska Stier , Pixabay

Por SciDev.Net 

O oceano é uma fonte de vida e resiliência — para pessoas e culturas, para meios de subsistência, para estabilidade climática.

Mas está sob crescente estresse devido à pesca excessiva, ao aquecimento global, à poluição, à acidificação, à desoxigenação e a eventos climáticos extremos — tudo acontecendo ao mesmo tempo e, muitas vezes, interagindo.

O oceano está caminhando em direção a mudanças catastróficas com efeitos cada vez mais imprevisíveis e repentinos.

Como cientistas oceânicos, documentamos essas mudanças em detalhes e temos soado o alarme há décadas — mas ainda há falta de ações políticas significativas.

Para ajudar a diminuir a lacuna entre o que a humanidade precisa fazer e o que estamos fazendo, precisamos repensar nosso papel como cientistas — não apenas para contribuir com conhecimento e ideias, mas como participantes ativos da mudança. Isso exigirá mudanças estruturais em como trabalhamos, como somos financiados e treinados, e como medimos o sucesso.

Alianças oceânicas

Devemos ir além da informação política e ajudar ativamente a moldar as respostas aos problemas complexos que o oceano enfrenta.

Os cientistas oceânicos devem construir alianças mais fortes com a sociedade civil, o governo e as comunidades indígenas e locais — envolvendo mais pessoas desde o início para obter soluções mais eficazes e equitativas.

Temos visto muitos exemplos expressivos desse tipo de trabalho. Em Belize, cientistas oceânicos trabalharam com pescadores, guias turísticos e o governo para construir um projeto de restauração de corais com algumas das maiores taxas de sobrevivência a longo prazo já documentadas na região.

No Norte e Oeste da África, a pesca ilegal e não regulamentada ameaça os ecossistemas marinhos e a estabilidade econômica. Nesse contexto, o projeto de Gestão de Áreas Marinhas e Costeiras no Norte e Oeste da África está equipando instituições regionais com ferramentas geoespaciais e treinamento para ajudá-las a enfrentar essas ameaças.

Essas colaborações exigem trabalho e financiamento extras. Mas a experiência mostra que vale a pena, tanto pela qualidade da pesquisa quanto pelo impacto prático.

Chamando a atenção

Esses projetos demonstram o valor do engajamento precoce com formuladores de políticas e o governo. Podemos fazer nosso trabalho, produzir pesquisas rigorosas e publicar artigos, mas os riscos são altos demais para parar por aí.

A ciência deve permanecer independente, livre para criticar políticas e governança. Mas podemos manter nossa integridade e, ao mesmo tempo, comunicar e estruturar nosso trabalho de forma que os formuladores de políticas ouçam e ajam, envolvendo-os e outros atores relevantes.

Devemos ser específicos sobre quem queremos chamar a atenção. O que os motiva e como podemos nos envolver? Mesmo o engajamento de curto prazo pode moldar políticas e financiamento.

Também observamos muitos benefícios de um engajamento comunitário mais amplo. Envolver pessoas comuns no processo fortalece a confiança na ciência, algo tão importante em tempos de desinformação climática e ambiental persistente.

Incentivar os cidadãos a participar e a informar sobre a ciência relevante para eles pode aprimorar nossa pesquisa e tornar as políticas resultantes mais eficazes e equitativas. O envolvimento deles também leva as pessoas a pressionar por mais ações.

Tornando-o pessoal

Parte do desafio que enfrentamos é a vastidão do oceano e a escala das ameaças que ele enfrenta. Precisamos tornar a ciência pessoal e conectar as pessoas aos problemas e soluções, mostrando que, embora esses sistemas sejam complexos, eles não são ilimitados.

Podemos começar explicando a importância do oceano não apenas em termos ambientais, mas também para a vida das pessoas, empregos, saúde e segurança alimentar. A colaboração interdisciplinar com sociólogos do clima, cientistas comportamentais e educadores pode melhorar a compreensão de opiniões e narrativas que motivam a ação — ou a inação — e como podemos nos comunicar de forma mais eficaz.

Isso é muito — e é importante que não coloquemos toda a responsabilidade em cientistas individuais. Muitos estão apenas tentando sobreviver no sistema — e nos encontramos agora em um momento excepcionalmente desafiador para a ciência.

Podemos começar a melhorar isso analisando como definimos e reconhecemos o impacto. E se avaliássemos o trabalho não apenas pelos artigos publicados, mas também em termos de tomadores de decisão ou comunidades engajadas? Mudar as métricas de sucesso poderia expandir o tipo de pesquisa que escolhemos — e podemos — priorizar.

Também precisamos pensar em como o financiamento é alocado e enfatizar a colaboração interdisciplinar que nos permite trazer mais perspectivas e experiências, em vez de esperar que cada cientista equilibre cada vez mais tarefas que exigem habilidades diversas.

E, claro, governos e instituições precisam fornecer mais apoio — dinheiro e apoio — para ajudar a tornar esse envolvimento mais profundo possível.

Estamos atravessando um período notável de crises ambientais, sociais e geopolíticas interligadas. A ciência oceânica pode ser parte da solução — não apenas para os enormes desafios ambientais que enfrentamos, mas também fomentando a colaboração que pode contribuir para a compreensão, a solidariedade global e a diplomacia.

À medida que a ciência e sua infraestrutura de apoio são cada vez mais marginalizadas, desfinanciadas ou politizadas, é essencial defender nosso papel no centro de uma governança justa, inclusiva e voltada para o futuro.

Muito se pede aos cientistas oceânicos, à medida que a área se envolve com questões sociais e ambientais urgentes. Às vezes, pode parecer que nossos alertas não são ouvidos. Mas não podemos parar de tentar. O futuro do oceano e das sociedades que ele sustenta depende disso.

Este artigo foi escrito por cientistas interdisciplinares convocados pelo Conselho Internacional de Ciências: Lynne Shannon; Peter Haugan; Kwame Adu Agyekum; Maritza Cárdenas Calle; Valérie Masson-Delmotte; Michelle Mycoo; Ilka Peeken; Fangli Qiao; Awnesh Singh; Sabrina Speich; Rashid Sumaila; Mia Strand.


Fonte: SciDev.Net.

Cientistas alertam que temperaturas globais podem quebrar recorde de calor nos próximos cinco anos

Os dados também mostram uma probabilidade pequena, mas “chocante”, de um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial antes de 2030

Um reservatório afetado pela seca nos arredores de Sanaa, Iêmen.

O aumento das temperaturas aumentará o risco de secas extremas como a que atualmente afeta o Iêmen. Fotografia: Yahya Arhab/EPA

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Há 80% de chance de que as temperaturas globais quebrem pelo menos um recorde anual de calor nos próximos cinco anos, aumentando o risco de secas extremas, inundações e incêndios florestais, mostrou um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) .

Pela primeira vez, os dados também indicaram uma pequena probabilidade de que, antes de 2030, o mundo possa vivenciar um ano 2°C mais quente do que a era pré-industrial, uma possibilidade que os cientistas descreveram como “chocante”.

Após os 10 anos mais quentes já registrados, a mais recente atualização climática global de médio prazo destaca a crescente ameaça à saúde humana, às economias nacionais e às paisagens naturais, a menos que as pessoas parem de queimar petróleo, gás, carvão e árvores.

A atualização, que sintetiza observações meteorológicas de curto prazo e projeções climáticas de longo prazo, disse que há 70% de chance de que o aquecimento médio de cinco anos para 2025-2029 seja mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Isso colocaria o mundo perigosamente perto de quebrar a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, um tratado internacional sobre mudanças climáticas, embora essa meta seja baseada em uma média de 20 anos.

O relatório também relatou uma probabilidade de 86% de que 1,5°C seria ultrapassado em pelo menos um dos próximos cinco anos, acima dos 40% do relatório de 2020.

Em 2024, o limite de 1,5°C foi ultrapassado anualmente pela primeira vez — um resultado considerado implausível em qualquer uma das previsões quinquenais anteriores a 2014. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos.

Ressaltando o quão rápido o mundo está se aquecendo, até mesmo 2°C está aparecendo como uma possibilidade estatística na última atualização, que foi compilada por 220 membros do conjunto a partir de modelos contribuídos por 15 institutos diferentes, incluindo o Met Office do Reino Unido, o Barcelona Supercomputing Centre, o Canadian Centre for Climate Modelling and Analysis e o Deutscher Wetterdienst.

A probabilidade de 2°C antes de 2030 é pequena — cerca de 1% — e exigiria uma convergência de vários fatores de aquecimento, como um forte El Niño e uma Oscilação Ártica positiva, mas anteriormente era considerada impossível em um período de cinco anos.

“É chocante que 2°C seja plausível”, disse Adam Scaife, do Met Office, que desempenhou um papel fundamental na compilação dos dados. “A previsão é de apenas 1% nos próximos cinco anos, mas a probabilidade aumentará à medida que o clima esquentar.”

Os impactos não serão distribuídos igualmente. Prevê-se que os invernos árticos esquentem 3,5 vezes mais rápido do que a média global, em parte devido ao derretimento do gelo marinho, o que significa que a neve cai diretamente no oceano em vez de formar uma camada na superfície para refletir o calor do sol de volta para o espaço. Prevê-se que a floresta amazônica sofrerá mais secas, enquanto o sul da Ásia, o Sahel e o norte da Europa, incluindo o Reino Unido, verão mais chuvas.

Leon Hermanson, do Met Office, que liderou a produção do relatório, disse que 2025 provavelmente será um dos três anos mais quentes já registrados.

Chris Hewitt, diretor de serviços climáticos da OMM, descreveu um “quadro preocupante” para as ondas de calor e a saúde humana. No entanto, ele afirmou que ainda não é tarde demais para limitar o aquecimento se as emissões de combustíveis fósseis forem reduzidas.

“Precisamos tomar medidas climáticas”, disse ele. “1,5°C não é inevitável.”


Fonte: The Guardian

Lula, e não David Alcolumbre, é o mentor da sentença de morte do licenciamento ambiental no Brasil

Alcolumbre e Lula em viagem ao Vietnã

David Alcolumbre e Lula durante viagem ao Vietnã.  A corda e a caçamba na sentença de morte do licenciamento ambiental no Brasil.

Ontem,enquanto o Senado Federal dava um golpe de morte no licenciamento ambiental, fui perguntado pelo jornalista Jésus Mosquera que comanda o programa “Poder Expresso” do SBT News por que eu parecia tão certo de que o “PL da Devastação”  seria aprovado (ver abaixo).

Eu respondi a ele que, apesar de que toda a tramitação da matéria no Congresso Nacional se assemelhava a uma luta entre o ex-BBB Kleber BamBam e o ex-campeão mundial de boxe Acelino Popó Freitas, onde um fingia que batia e outro fingia que apanhava. No caso do Congresso Nacional, Popó seria representado por figuras como David Alcolumbre e Bamban pelos congressistas do PT.

A verdade inescapável é que o mentor da morte do licenciamento ambiental no Brasil é o presidente Lula que pouco tempo atrás classificou o processo de licenciamento ambiental da exploração de petróleo na Foz do Amazonas como “lenga lenga de ambientalista”. 

Ali Lula deu a senha para que Alcolumbre e seus colegas piorassem ainda mais a proposta já ruim que viera da Câmara de Deputados.  A verdade é que Lula, apesar dos discursos de ocasião, não entende e não gosta de quem entende dos graves problemas ambientais que o modelo de capitalismo de fronteira que é hegemônico em país da periferia capitalista, como é o caso do Brasil.

Por isso, se alguém espera que Lula veta algum dos dispositivos inconstitucionais que foram adicionados no PL da Devastação por Alcolumbre et caterva é melhor esquecer.  Eu até arrisco a dizer que a proposta que sair da Câmara de Deputados após retorno do Senado Federal não terá nenhum veto sequer. Se tiver veto vai ser algum jacaré que foi posto no PL de Devastação como uma espécie de sacrificial para que Lula finja alguma forma de ultraje.

Resta saber se Marina Silva vai continuar dando legitimidade a um governo que consegue, em meio a uma grave crise climática, ser mais anti-ambiental do que seus predecessores bolsonaristas.

Mas que fique claro: Lula é o algoz do licenciamento ambiental e um algoz por vontade e crença próprias. 

Crise climática ameaça a banana, a fruta mais popular do mundo, mostra pesquisa

A quarta cultura alimentar mais importante está em perigo, enquanto a América Latina e o Caribe sofrem com um desastre climático de início lento

Um cacho de bananas crescendo em uma árvore.

Mais de 400 milhões de pessoas consomem da banana entre 15% e 27% de suas calorias diárias. Fotografia: Christian Ender/Getty Images

A crise climática está ameaçando o futuro da fruta mais popular do mundo, já que quase dois terços das áreas de cultivo de banana na América Latina e no Caribe podem não ser mais adequadas para o cultivo da fruta até 2080, segundo uma nova pesquisa.

Temperaturas em alta, condições climáticas extremas e pragas relacionadas ao clima estão afetando países produtores de banana, como Guatemala , Costa Rica e Colômbia , reduzindo a produtividade e devastando comunidades rurais em toda a região, de acordo com o novo relatório da Christian Aid , Going Bananas: How Climate Change Threatens the World’s Favourite Fruit.

A banana é a fruta mais consumida no mundo – e a quarta cultura alimentar mais importante do mundo, depois do trigo, do arroz e do milho. Cerca de 80% das bananas cultivadas globalmente são para consumo local, e mais de 400 milhões de pessoas dependem da fruta para obter de 15% a 27% de suas calorias diárias.

Estima-se que 80% das exportações de banana que abastecem supermercados ao redor do mundo vêm da América Latina e do Caribe — uma das regiões mais vulneráveis ​​a condições climáticas extremas e desastres climáticos de início lento.

E, no entanto, a cultura está ameaçada pela crise climática causada pelo homem e ameaça uma fonte vital de alimento e os meios de subsistência de comunidades que praticamente não contribuíram para os gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.

“A mudança climática está matando nossas plantações. Isso significa que não há renda porque não conseguimos vender nada. O que está acontecendo é que minha plantação está morrendo. Então, o que está acontecendo é a morte”, disse Aurelia Pop Xo, 53, produtora de banana na Guatemala , aos pesquisadores da Christian Aid.

As bananas, especialmente a cavendish, são frutas sensíveis. Elas precisam de uma faixa de temperatura entre 15°C e 35°C para prosperar, e água suficiente – mas não em excesso. São sensíveis a tempestades, que podem fazer com que a bananeira perca folhas, dificultando muito a fotossíntese da planta.

Embora existam centenas de variedades de banana, a cavendish é responsável pela grande maioria das exportações, pois foi escolhida pelos conglomerados de frutas por seu sabor decente, robustez e alto rendimento.

É essa falta de variação genética que torna as bananas particularmente vulneráveis ​​às rápidas mudanças climáticas.

A crise climática prejudica diretamente as condições de cultivo e contribui para a disseminação de doenças fúngicas que já estão dizimando plantações e meios de subsistência. O fungo da folha preta pode reduzir a capacidade das bananeiras de realizar fotossíntese em 80% e prospera em condições úmidas, colocando as bananeiras em risco devido a chuvas irregulares e inundações. O aumento das temperaturas e a mudança nos padrões de chuva estão exacerbando outro fungo, o fusarium tropical raça 4, um micróbio transmitido pelo solo que está devastando plantações inteiras de cavendish em todo o mundo.

A Christian Aid está convocando as nações ricas e poluidoras, mais responsáveis ​​pela crise climática, a abandonarem urgentemente os combustíveis fósseis e cumprirem suas obrigações de fornecer financiamento para ajudar as comunidades a se adaptarem às mudanças climáticas.

“As bananas não são apenas a fruta favorita do mundo, mas também um alimento essencial para milhões de pessoas. Precisamos acordar para o perigo que as mudanças climáticas representam para esta cultura vital”, disse Osai Ojigho, diretor de políticas e campanhas da Christian Aid. “A vida e o sustento das pessoas que nada fizeram para causar a crise climática já estão ameaçados.”


Fonte: The Guardian

JBS: cozinhando o planeta. Relatório mostra os impactos e promessas não cumpridas

Greenpeace protesta contra lucros bilionários da JBS

Relatório produzido pela ONG Greenpeace analisa os impactos socioambientais e as promessas não cumpridas da multinacional brasileira JBS, destacando questões como desmatamento, trabalho escravo e emissões de gases de efeito estufa.

O documento enfatiza como a JBS, maior produtora de carne do mundo, tem um histórico de danos significativos à Amazônia e outros biomas, exacerbando a crise climática. 

Além disso, o relatório analisa como os atuais de planos de expansão da JBS ameaçam intensificar a destruição ambiental e as emissões de gases de efeito estufa.

Quem desejar baixar o relatório do Greenpeace, basta clicar [Aqui!].

O enfraquecimento das promessas climáticas corporativas é um sintoma de perda de ímpeto

O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos demonstra a fragilidade dos compromissos quando a atenção e a responsabilização se desviam

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista "BP or not BP", em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista “BP or not BP”, em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Por Hannah Daly para o “The Irish Times”

Há alguns anos, o movimento climático global explodiu de otimismo. Milhões de jovens marcharam, empresas fizeram promessas climáticas ousadas e líderes políticos falaram com urgência sobre uma crise iminente que exigia ação imediata. Hoje, o vento deixou as velas desse movimento e a atenção se voltou para a turbulência geopolítica e econômica global.

Não é de se admirar que a fadiga e a sensação de desânimo tenham se instalado. O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos mostra a fragilidade das promessas quando a atenção e a responsabilidade se desviam.

Em 2020, a BP , a gigante da energia, prometeu cortar a produção de petróleo e gás em 40 por cento até 2030. Sob a liderança do então presidente-executivo Bernard Looney, a empresa também prometeu ser uma produtora de energia líquida zero até 2050. No início de 2023, no entanto, esse compromisso havia encolhido para apenas 25 por cento e, em outubro de 2024, a meta foi abandonada completamente. Em vez de cortar a produção de combustíveis fósseis, a BP agora planeja expandir significativamente a produção de petróleo e gás, visando cerca de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia até 2030, e cortar os investimentos em energia renovável. Justificando essa “reinicialização” , o atual presidente-executivo Murray Auchincloss disse que sua fé na transição para a energia verde havia sido “equivocada” e que o petróleo e o gás seriam necessários por décadas.

A reversão da BP mostra como as empresas podem facilmente se afastar das promessas climáticas quando as pressões financeiras aumentam e a atenção pública diminui.

Outro exemplo vem do setor alimentício. A criação de gado para produção de carne exige vastas extensões de terra e é a principal causa do desmatamento global, além de ser uma grande emissora de metano proveniente da arrotação do gado. A conversão de terras para a produção de carne e exploração madeireira está causando tamanha pressão sobre a Amazônia que a grande floresta tropical corre o risco de cruzar um ponto crítico e irreversível, que a levaria a emitir, em vez de sequestrar, carbono e se tornar uma pastagem.

O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, há muito tempo é associada à destruição da Amazônia. Em 2021, a gigante brasileira se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina na Amazônia até o final de 2025. O compromisso ambicioso foi amplamente aplaudido na época. No entanto, uma investigação recente da Unearthed, do Guardian e da Repórter Brasil pinta um quadro diferente. Apesar dos investimentos em tecnologia e das alegações de avanços em sustentabilidade, os fornecedores da JBS rejeitam abertamente a meta como impossível, e a empresa tem discretamente moderado as expectativas. A lavagem ilegal de gado persiste; brechas continuam generalizadas. Em outras palavras, o que parecia um compromisso firme se tornou algo totalmente menos certo. Notavelmente, a JBS se comprometeu anteriormente em 2009 a combater o desmatamento até 2011, mas não cumpriu.

Tais declarações representam um recuo silencioso da responsabilização, uma transferência de responsabilidade que contradiz diretamente as promessas ousadas que inicialmente renderam à JBS elogios globais. Em 2024, a JBS enfrentou um processo por greenwashing, acusada pelo procurador-geral do Estado de Nova York de enganar os consumidores sobre seu compromisso com o clima, ao mesmo tempo em que continuava a impulsionar o desmatamento.

Esses exemplos da JBS e da BP representam uma tendência alarmante de retrocesso corporativo que prejudica a ação climática global. À medida que a atenção global se desvia do clima para outras questões urgentes, as promessas dos últimos anos correm o risco de se transformar em gestos vazios.

Essa erosão da responsabilidade corporativa é profundamente relevante porque cada promessa quebrada envia uma mensagem ao público e aos formuladores de políticas de que os compromissos climáticos são negociáveis, enfraquecendo ainda mais a ação e a ambição coletivas. Por exemplo, aqui na Irlanda, cumprir nosso próprio compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa exige mudanças nas práticas agrícolas e uma redução drástica no consumo de combustíveis fósseis – ambos prejudicados pelo enfraquecimento dos compromissos corporativos.

Brett Christophers, professor especializado em economia política, observou que promessas ambientais vazias são uma característica previsível do capitalismo, que é o princípio organizador predominante da nossa sociedade. O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

Todo esse retrocesso corporativo ocorre em um cenário alarmante. A concentração atmosférica de dióxido de carbono é de 430 partes por milhão, 50% maior do que os níveis pré-industriais e o nível mais alto em milhões de anos. No ano passado, houve um aumento historicamente alto na concentração de dióxido de carbono, superando o recorde anterior em 27%. Isso é um presságio sombrio de que as mudanças climáticas podem estar se acelerando, à medida que as emissões das atividades humanas continuam aumentando e a capacidade dos ecossistemas de absorver o excesso de emissões pode estar diminuindo. Mesmo agora, com 1,5 grau de aquecimento, as mudanças climáticas estão causando impactos severos nos padrões de vida e criando choques econômicos em todo o mundo.

O tempo não está do nosso lado – simplesmente não há espaço para retrocessos. O verdadeiro progresso exige a redução das emissões, não promessas.